J~L
I'd like to play a little game with you
Eu gostaria de jogar um joguinho com você
A little game that's special made for two
Um joguinho que é especialmente feito para dois
If you get close than I will show you how
Se você chegar perto então eu irei te mostrar
Closer, closer now
Mais perto, mais perto agora
We've never played this little game before
Nós nunca jogamos esse joguinho antes
If you relax than you'll enjoy it more
Se você relaxar, você vai aproveitar mais
Just settle down and let me teach you how
Só se acalmar e deixar-me ensinar-lhe como
Closer, closer now
Mais perto, mais perto agora.
(Kiss me honey - Shirley Bassey)
Nos altos de seus dezoito anos, Lily Evans era bem resolvida com a sua vida amorosa, o que inclui muitos aspectos, inclusive o sexual.
Perdeu a virgindade aos quinze anos, poucos meses depois do episódio com Pettigrew. Por um breve momento, pensar no que ocorreu lhe dava asco, o que acabou afastando-a um pouco dos garotos, incluindo Gideon, seu primeiro beijo e paixão. Sabia também que o afastamento dela não era o único mantendo todos a distância, já que Sirius mudou muito depois daquele dia e fez questão em ajudar no assunto "distanciamento dos garotos".
Gideon havia, aparentemente, perdido o interesse com Sirius na cola da irmã e Lily não dando bola. Mas com o avançar da terapia que começou logo depois do episódio, sua cabeça ficava cada vez mais leve sobre sexo, garotos e Peter Pettigrew. Estar rodeada de caras legais também ajudava. Continuava a ter James e Remus ao redor, os dois nunca mudando com ela, tratando-a como se Lily continuasse a ser Lily.
Foi então que, finalmente, ela via o interesse voltando de pouco a pouco nos garotos e Gideon parecendo estar antenado quanto a isso. Ela confessaria que foi uma decisão precipitada perder sua virgindade da maneira que foi, pois lá no fundo, sabia que não tomou a decisão apenas por querer transar com ele, mas também pelo certo medo do episódio com Peter ocorrer novamente e, desta vez, não conseguir escapar. Por isso que, aos quinze anos, Lily dormiu com Gideon Prewett e, apesar de ter sido precipitado, foi muito bom. Pelo menos havia escolhido um cara que tinha uma queda grande, conhecê-lo há alguns anos e ele não ser um palerma de primeira.
Estava feliz com a decisão, no final. Não que eles acabaram entrando em um relacionamento, o que não foi o caso, já que Lily teve a brilhante ideia de contar para o irmão o ocorrido, querendo compartilhar a novidade de sua vida. E Sirius querer matar Gideon no minuto seguinte. Novamente, lá estava o ruivo bonito se afastando, quebrando as esperanças de Lily.
Foi neste momento que ela percebeu que não podia mais compartilhar esse tipo de informação com Sirius e levar sua vida amorosa por suas costas. Esperava que aquilo mudasse algum dia, antes dela ter que apresentar o marido ao invés do namorado.
Então seguiu daquele jeito, com namoros e encontros escondidos, levando sua vida como se nada estivesse acontecendo, apenas tendo que ir ao cinema mais longe, ir ao parque do outro lado da cidade, beijos escondidos em Hogwarts, dormir na casa dos namorados dizendo que dormiria na casa da Alice e por aí vai. Até o santo Edgar Bones, que quis arriscar o pescoço e vir à tona com o relacionamento.
Por isso que, quando Edgar praticamente gritou em seu ouvido quando terminou o orgasmo magnífico - que ele mesmo havia dito estar tendo -, e se deixou cair ao lado dela, Lily sabia que as coisas estavam fora do lugar. Naquele momento, se encontrava olhando para o teto, com o rosto completamente vazio, sem entender muito o que estava fazendo ali. Havia sido um sexo ruim, sem nenhuma emoção e nenhum final para ela.
Devia estar em êxtase. Era o primeiro cara que ela trouxe para casa, a primeira transa no seu quarto, mas só conseguia pensar que algo estava errado. Enquanto Edgar estava bem esforçado para trazer prazer para si mesmo alguns minutos atrás, Lily pensou que poderia ser o ambiente, o fato de estar na sua casa e em como aquilo poderia jogar contra ela naquele quesito. Sirius estava fora, o que já era bom, e sua mãe voltaria logo, mas um parente prestes a retornar nunca foi um problema para ela antes.
Era o quarto em si? Não acreditava, porque ela nunca teve problema em alcançar um orgasmo ali.
Então só chegava à conclusão de que era Edgar.
As coisas haviam, definitivamente, mudado quando se assumiram ontem. Não só pelo fato de não precisarem se esconder, mas aquela briga com Sirius ainda rondava sua cabeça. Seu irmão havia sido um babaca completo e ela seria a primeira a admitir, mas quando viu o namorado hoje pela manhã, após ter sido dispensada no dia anterior e ouvir de James que Edgar era algo mais do que ela pensava, só conseguia lembrar que ele deu um soco em Sirius e que tudo aquilo lhe tirava o sossego.
Quem iria gostar de ver o namorado socando o irmão? Acredito que ninguém. Ambos estavam nervosos, Sirius estava falando besteira, mas... ele era o seu irmão. Iria ficar puta da vida caso tivesse sido o contrário também, fazendo Lily comprar uma briga ainda maior com Sirius.
Mas ela não amava Edgar tanto quanto amava Sirius. Quer dizer, ela não estava nem perto de amar Edgar ainda.
- Como sempre, maravilhoso. - Edgar a beijou no pescoço quando se aproximou.
- Que bom para você.
- Ah, você não chegou lá, né?
- Não. - Ela respondeu um pouco seca.
- Tudo bem, eu posso te ajudar agora.
Ele escorregou a mão pelo corpo dela e quando estava prestes a tocá-la, Lily se desvencilhou dele o mais delicadamente possível e se enrolou no lençol, levantando-se logo em seguida. Foi até a cômoda e checou o celular, vendo algumas mensagens de Alice.
- Li. O que foi?
Respondeu a amiga, dizendo que ligaria para ela em alguns minutos, então deixou o celular de lado e se virou para o namorado. Edgar continuava deitado na cama, observando-a.
- Eu ouvi algumas coisas ontem...- Ela começou, sem olhá-lo. Ouviu que o namorado se mexeu na cama na mesma hora.
- Do que você está falando? Seu irmão veio inventar alguma coisa para você? Não acredite no que ele falou, porque é mentira.
Levantou uma sobrancelha e finalmente o encarou.
- Sirius não me contou nada, Edgar. Não foi ele.
- Não importa quem foi, é mentira. Qualquer um iria te contar alguma coisa de mim ao ver que estamos juntos.
O assistiu enquanto levantava e pegava sua roupa pelo quarto, vestindo-se um pouco nervoso.
- Ninguém teria interesse em inventar mentiras sobre você.
- Ah, tem sim. Eu conheço muitas. Seu irmão e os amigos dele, por exemplo.
- Eles não inventariam coisas sobre você. Eu os conheço toda a minha vida e sei que eles não agem assim.
- Talvez você não os conheça tão bem.
Se já estava com o pé atrás antes, aquilo a fez dar mil passos mais. Não falaria o quanto conhecia Sirius bem, porque ele era seu irmão, mas Lily conhecia James e Remus tão bem quanto. E os dois nunca a ludibriariam assim, nem que fosse por algo importante para Sirius. Eles eram irresponsáveis muitas vezes, gostavam de aprontar muito mais do que qualquer um que ela conhecia, mas eles não eram mentirosos, injustos ou desonestos.
- Eu os conheço melhor do que conheço você. - Ela atirou sem dó. Quem era ele para falar algo sobre eles? Se estava procurando uma briga, ele havia acabado de encontrar.
Edgar vestiu sua camiseta e olhou para ela.
- Não tão intimamente. - Ele disse, sarcástico. - Ou conhece?
A boca dela caiu.
- Você não disse isso.
- Foi brincadeira. - Ele deu de ombros, mas não sorria ou demonstrava que estava brincando. - Qual mentira você ouviu de mim, aliás?
Ainda estava chocada com o que ouviu, então até esqueceu o fato de que ninguém havia dito nada exatamente sobre ele, apenas que ele não era o que ela pensava.
E o que ela pensava dele, afinal? Um cara bonito e razoavelmente popular, que poderia ser mimado muitas vezes, mas costumava ser legal. E, com a frase dele de alguns segundos, um idiota também.
- Quer saber? Não interessa. - Ela soltou o lençol e começou a se vestir, colocando o vestido de qualquer jeito pela cabeça e procurando por sua calcinha, até que sentiu as mãos dele em sua cintura e os lábios em seu pescoço.
- Se não interessa, então deixa eu pagar pelo o que você não teve. - Ele continuou investindo nos beijos.
- Acho que já passou do momento para isso.
Desvencilhando-se dele, foi até a calcinha que estava entre os cobertores e a vestiu, sentindo-se desconfortável com a presença de Edgar ali.
- Posso ir na cozinha pegar algo para beber? - Ele perguntou com o descontentamento nítido daquela briga em sua voz
- Claro. - Ela respondeu.
Bufando, ela o ouviu sair do quarto e deixando a porta aberta. O que fazer? Como o relacionamento deles mudou daquele jeito em 24h? Edgar nunca havia sido tão idiota quanto vinha sendo desde ontem, desde a aparição pública deles e que ele mesmo queria. Os dois sabiam que Sirius não deixaria barato e que viria com tudo o que pudesse na hora, e ela se manteve calma o bastante para segurá-lo, mas Edgar parecia estar mais interessado em brigar do que colocar panos quentes e ajudar a si mesmo e ela.
Inferno.
Saiu do quarto e desceu as escadas, indo em direção a cozinha. Ele servia um copo de suco e a observava se aproximando.
- Quando eu fui na sua casa pela primeira vez e sua mãe me tratou como um pedacinho de lixo que você encontrou na rua, eu não fui para cima dela.
- Ainda bem que você não atacou a minha mãe, que é uma senhora. - Ele respondeu.
- Não é questão de idade aqui, Edgar. Eu a respeitei, mesmo ouvindo muitas indiretas de como eu não era a melhor garota para o queridinho filho dela. E você nem abriu a boca para dizer algo, não é mesmo? Só ficou lá, rindo igual um filhinho de mamãe.
- Estamos mesmo chegando aos insultos agora? - Ele perguntou deixando o copo no balcão, nervoso.
Certo, aquilo não era correto. Estava despejando toda a sua frustração nele, mesmo que ele fosse uma boa parte dela e seu irmão sendo outra. Respirou fundo, tentando voltar com sua calma e não perder a razão de tudo aquilo.
- O que eu quero dizer é que eu fui contra o meu irmão por você, eu quis tentar ajudar nós dois, mas você só quis ir para guerra. E continua falando dele e dos outros como se fossem os vilões do mundo, quando você mesmo não ajudou.
- Você quem começou falando que ouviu coisas de mim ontem. Quem mais poderia falar algo, além do seu irmão e dos amigos?
- Eu tenho contato com muitas pessoas em Hogwarts. Além do mais, não interessa quem disse o que. Eu quero entender o que pode ser tão grave, quero que você me explique.
- Não tenho nada para explicar. Eu vivo minha vida como qualquer outra pessoa vive. Eu sei de muita coisa do seu irmão e não saio por ai falando, saio?
- O que você, possivelmente, teria para falar dele?
Edgar abriu a geladeira e colocou o suco de volta, parecendo ganhar tempo. Se ele tivesse algo que ela não soubesse de seu irmão e dos caras, aquilo iria surpreendê-la. Claro que eles tinham seus segredos, mas algo tão ruim, capaz de chocá-la? Duvidava.
- Não interessa, na verdade. Mas eu não sei o que alguém teria para falar de mim.
A porta da frente abriu e ela suspirou. A discussão seria cortada no meio por sua mãe agora e teria que fingir que nada acontecia. Odiava aquilo.
-Lily? - A mãe chamou do hall de entrada.
- Na cozinha.
Ouviu passos se aproximando, mas ouvia mais do que um par de pés vindo.
- ...de qualquer maneira, vai ser só uma semana. - Era Sirius com ela.
Ótimo. A coisa só iria ladeira abaixo agora.
- Mas uma semana sem aulas, querido, ainda é uma semana sem aulas. - Geneviève dizia enquanto entrava na cozinha com o filho logo atrás, que mexia em seu celular. A ruiva mais velha abriu um sorriso ao ver a filha e Edgar. - Olá, queridos.
Sirius levantou o olhar e suas mãos caíram ao lado do corpo.
- Que porra é essa?
- Nunca vai mudar. - Edgar resmungou do outro lado do balcão, mas baixo o bastante para apenas Lily ouvir.
- Estou com o meu namorado em casa e isso não lhe diz respeito.
Sirius se postou ao lado da mãe e olhou para ela, esperando alguma repreensão, mas a mãe apenas assentiu, sorrindo.
- Gostaria de ficar para jantar, querido? Vamos pedir pizza.
- Eu tenho que ir agora, mas obrigado pelo convite, Sra. Evans.
- Na próxima vez, então. - Ela comentou.
- No próximo século. - Sirius disse logo após a mãe.
Edgar deu a volta no balcão e parou ao lado de Lily, que estava de costas para a mãe e o irmão. Ele passou a mão pelos cabelos dela, sorrindo.
- Amanhã será um outro dia, melhor do que ontem e hoje. Vamos naquela festa de Dorcas e eu prometo que te darei algo inesquecível, que vai te fazer esquecer tudo isso. O que acha?
- Que seria...?
- Será surpresa. Mas quero te recompensar por hoje. - Ele sorriu, misterioso. - Eu vou estar com os caras do futebol, mas caso você precise de carona, podemos passar aqui e te pegar.
Passando por eles e dando a volta no balcão, Sirius parou logo em frente a eles, cruzando os braços.
- Eu vou com Sirius, mas eu te encontro lá.
- Me manda uma mensagem e vou estar te esperando.
Sem se importar com a presença inoportuna que mantinha os olhos neles, Edgar abaixou e deu um beijo bem demorado nela. Levantou a cabeça e olhou para Sirius, como o desafiando a dizer qualquer coisa. Mas seria difícil com os dentes trincados do irmão.
- Até logo, querido. - Disse Geneviève quando Edgar se virou para a saída.
- Até bem logo, Sra. Evans. Até logo, Black.
Um resmungo e palavrão foi a resposta de Sirius. Quando ouviram a porta da frente fechando, Lily já se preparava para o que viria, então decidiu sair na frente.
- Não começa, vai cuidar da sua vida e eu quero uma pizza de queijo, obrigada.
- Eu não sabia que ele tinha autorização de vir aqui e fazer o que bem entendesse. - Sirius virou para a mãe, já que percebia que falar algo para a irmã não adiantaria.
- Concordo com a sua irmã: não começa, Sirius. E eu quero uma de queijo também. - Geneviève segurou o rosto do filho e lhe deu um beijo.
Jogando as mãos para o alto, ele saiu da cozinha reclamando, mas não antes de pegar o flyer da pizzaria para fazer o pedido.
- Obrigada, mãe.
- De nada, querida. Mas tome cuidado, sim?
- Sim, eu sou sempre cuidadosa. - Lily respondeu revirando os olhos, mas sorrindo. - Sirius te disse sobre a festa de amanhã?
- Não.
- Vamos comemorar que Remus passou na Imperial College London. Uma amiga de classe, Dorcas, também passou e ela quer dar uma festa para comemorar pelos dois.
- Você não deveria sair para festas com essa perna ainda dolorida, filha.
- Não se preocupe, eu já planejei qual sapato usar. Vai ficar tudo bem.
Sirius voltou para a cozinha dois minutos depois e jogou seu celular na mesa, assim como o flyer da pizzaria.
- Meia hora. - Ele se limitou a dizer sobre a chegada das pizzas.
- Ótimo. - Lily pulou com cuidado do banco e passou por ele. - Então tenho tempo de tomar banho.
Saiu da cozinha dançando, debochando do irmão. Sirius fechou os olhos e passou a mão pelo rosto.
- Me ajude a preparar a mesa, querido. E bota um sorriso neste rosto.
- Quantas vezes eu vou encontrar esse idiota na nossa cozinha?
- Quantas vezes forem necessárias, até quando sua irmã não estiver mais contente com ele.
- Sinto que não vai demorar muito para isso acontecer.
Geneviève entregou três pratos para ele e apontou para a mesa da cozinha, sendo obedecida pelo filho.
- A sua irmã arrumando um namorado não te fará ficar de lado, Sirius. Ela te ama e sempre vai te amar.
- Se esse fosse o problema...
O garoto olhou para a porta da cozinha, por onde a irmã havia passado e depois começou a arrumar a mesa. Se Edgar fizesse qualquer coisa que não devia, teria muito que pagar.
Terminou de se arrumar e conferiu o visual pelo espelho pela última vez: o vestido estava ótimo e o sapato que combinava não iria matá-la de dor. Como seria uma festa na casa de Dorcas, não precisava de muito.
Era sua primeira festa desde o acidente de carro, podendo finalmente aproveitar um fim de semana fora da cama ou do sofá. Não que amasse ficar fora o tempo todo, mas quando você é forçada a ficar dentro de casa, a história mudava.
Saiu do quarto e enquanto passava na frente do quarto de Sirius, com a porta aberta, ela parou e ficou admirando o irmão arrumando os cabelos negros que ela tanto gostava.
- Está lindo como sempre. - Lily encostou-se no batente da porta. Os olhos de Sirius se desviaram do espelho, encontrando os da irmã.
- É de família. - Ele piscou para ela. - Não a de sangue, aliás. - Sirius finalizou o cabelo e se virou. - Você vai voltar comigo?
- Só se você não ficar até às 6 da manhã.
- Eu não irei. De qualquer maneira, você me fala quando quiser voltar. Eu só estou indo nessa festa por Remus, então não pretendo ficar muito, já que ele nunca aguenta tantas horas, principalmente quando bebe.
- Sem problemas.
- Você vai ficar bem com esse sapato? Não vai sentir dor?
- Não, estou confortável. Minha perna não está doendo tanto quanto semana passada.
Sirius assentiu e pegou sua carteira e chaves do carro, seguindo Lily até o andar de baixo. Geneviève levantou os olhos de seu livro ao ver os dois filhos se aproximando.
- Sirius, sem beber. - Ela disse séria.
- Eu não irei.
- Fique de olho nele, Lily.
- Eu tentarei. Até amanhã. - A ruiva deu um beijo na mãe e saiu para a garagem.
- Fique de olho nela, Sirius. - Geneviève repetiu. - Eu não sei o que ela está indo fazer nessa festa com aquela perna machucada.
- É por Remus, ele merece. - Sirius também se despediu dando um beijo na mãe. - Eu vou ficar de olho nela, como sempre.
- Só não tão de olho. Deixe-a se divertir também com o namorado. Como se chama mesmo?
- Edgar! - Sirius rangeu os dentes. - Lily merece melhor.
- Lily merece viver sem o seu controle, querido. Não há nada neste mundo que você possa fazer para impedir uma adolescente sofrer por amor, sabe? - Geneviève suspirou, parecendo pensar em sua própria adolescência. - Faz parte do processo de amadurecimento. Às vezes, mesmo sem problemas, os adolescentes sofrem.
- Se eu puder evitar que a minha irmã sofra na mão de um idiota, eu farei.
Geneviève revirou os olhos, mas sorriu.
- Vá para a sua festa, Sirius. Cuidado.
Lily já o esperava dentro do carro, entretida em seu celular. Sirius ligou o carro e revirou os olhos ao ver o nome de Edgar como o destinatário da mensagem.
- Vamos pegar James antes.
- Ok.
- Aliás, tenho algo que preciso te falar.
- Diga. - Ela continuou monossilábica.
- Você vai largar isso e conversar comigo ou eu tenho que te enviar mensagem também?
A ruiva largou o celular e sorriu forçado para ele.
- Diga, irmão querido.
- Eu terei que ir até Oxford e acho que parto amanhã. Vou ficar alguns dias fora para procurar apartamento, conversar com o gestor da universidade e tudo mais.
- Já? Mas ainda faltam alguns meses para a formatura.
- E eu não quero fazer isso ao mesmo tempo que todos os outros alunos. - Sirius deu de ombros. - James vai te dar carona de e para Hogwarts, já que não consegue dirigir ainda com essa perna machucada.
- James? Eu não preciso que ele faça isso, você sabe. Eu tenho Edg...
- James vai ir e voltar com você. - Sirius repetiu. - Muito mais simples
- Sirius! - Ela aumentou o tom de voz enquanto o irmão estacionava em frente da casa do próprio James. - Edgar pode fazer isso, Alice pode fazer isso.
- E qual o problema com James? - Sirius se virou no banco e cruzou os braços.
- Nenhum. Eu gosto de James, você sabe. Mas não tem motivos para desviar o caminho dele todos os dias apenas para me levar e trazer.
- Ele mora a 1 km de casa, Lily! Edgarzinho mora longe, Alice mora do outro lado da cidade.
- Não será problema algum para Edgar.
Os dois viram James sair de casa e se aproximar do carro.
- Nós vamos discutir isso mais tarde. - Sirius tentou terminar a conversa.
- Não vamos, não. Está decidido. Eu entendo o fato de Alice morar longe...- James abriu a porta e entrou no banco de trás. -...ela, de fato, mora fora do caminho, mas Edgar não será um problema.
- Posso voltar depois? - James perguntou revirando os olhos ao ouvir o tópico da conversa, fazendo menção de sair do carro de novo.
- Não! - Os irmãos disseram. - Vamos falar sobre isso depois, Lily.
- Não vamos, não. - Ela repetiu. - Oi, Descabelado. - Ela o cumprimentou.
- Olá, família Black-Evans.- O moreno se sentou no meio, abraçando os dois bancos da frente. - Eu sinto um ótimo clima no carro para a festa de nosso querido Remus. Como estamos felizes, não é mesmo?
Sirius apenas resmungou e deu partida. Não demoraram para chegar na casa de Dorcas, no centro de Londres. Tiveram que estacionar razoavelmente longe e os dois amigos iam conversando enquanto Lily ia atrás, fingindo mexer no celular para mostrar o porquê andava devagar quando, na verdade, era por começar a sentir dor. O problema não era o sapato, mas sua perna já deixava claro que aquela festa iria ter um preço um pouco alto para ela.
Mas não queria perder outra comemoração, outra festa, outro aniversário, outro qualquer coisa. Os remédios fariam o trabalho depois, a fisioterapia da semana também, mas não teria outra festa para comemorar por Remus.
- Está mancando.
A voz de Sirius chamou sua atenção.
- Impressão sua.
- Ainda com dor? Eu pensei que o remédio estava fazendo efeito. - James perguntou ao lado de Sirius, ambos esperando que ela chegasse até eles com seu passo mais curto e tentando não mancar.
- Um pouco, mas nada demais. Estou bem melhor.
- Acho melhor voltarmos.
- Não, Sirius. Estou bem. Vamos indo.
Ela passou o braço no braço de Sirius e o outro no de James, ficando no meio dos dois e, de certa forma, aproveitando para se apoiar em ambos. Se ela fosse qualquer outra garota no planeta Terra, se consideraria a mais sortuda por ter Sirius Black e James Potter de braços dados com ela. O quanto muitas pessoas não desejariam estar em seu lugar naquele momento? Mas para ela eram apenas Sirius e James, seu irmão e o melhor amigo. Não poderia ser menos romântico do que isso.
A casa de Dorcas era grande e estava lotada. Alguns metros de distância já era possível ter dificuldade para andar na calçada com tantas pessoas ao redor.
Sentiu o braço de Sirius e James ficarem tensos de repente. Olhou para os lados, sem entender o que causou aquilo, então quando percebeu para onde ambos olhavam, ela sorriu e revirou os olhos ao mesmo tempo.
- Muito obrigada pela carona, meninos. Agora eu achei o meu suporte pela noite.
Edgar sorria para ela e se aproximava, como se nada tivesse ocorrido nos últimos dias. Lily não entendia aquelas nuances, mas preferia aproveitar a noite sem uma briga. Ele lançou um olhar receoso primeiro para Sirius e depois focou em Lily.
- Boa noite. - Edgar cumprimentou a todos.
- Boa noite. - Lily foi a única a responder. Puxou o braço que estava preso com o de Sirius, mas sua mão ficou presa.
- Bones! - Sirius disse com um cumprimento não muito caloroso. - Quem te convidou?
- Sirius! - Lily o olhou chocada.
- A dona da casa. - Edgar respondeu. - Vamos, Li? - Edgar ofereceu o braço e Lily conseguiu tirar as duas mãos do aperto de ambos os garotos.
- Eu vejo vocês mais tarde.
Sorridente, Lily se afastou com Edgar sob os olhares dos outros dois.
- Esse cara me irrita, mas me irrita tanto. - Sirius reclamou.
- Poderia ser pior. - James respondeu olhando para o chão e se distraindo com um pequeno galho.
- E poderia ser melhor também.
- Bom, eu não acho que há algum cara à altura para ela, na sua opinião.
- Dificilmente. - Sirius desviou os olhos do casal e se virou para o amigo, enquanto voltavam a andar. - Eu preciso de um favor seu, aliás.
- "Aliás"? Isso envolve algum deles? - James perguntou apontando Lily e Edgar que entravam na casa agora.
- De certa forma. Eu tenho que ir até Oxford, provavelmente saio amanhã.
- Vai ficar com Marlene de novo?
Marlene Mckinnon era prima de James e caloura em Oxford. E um grande interesse amoroso de Sirius por anos. Eles tinham ficado e se curtido as vezes quando Marlene ainda estudava em Hogwarts, mas nada sério ou que levasse a algum relacionamento. Sua prima dizia que Sirius era um cachorro e Sirius argumentava que ela iria embora primeiro e esqueceria ele.
No final, eles continuavam a ficar aqui e ali. Quando Sirius precisava ir até Oxford, Marlene sempre cedia um lugar no apartamento para ele ficar. Ou melhor dizendo: um lugar na sua cama.
- Ela ofereceu de novo. Eu não iria recusar. - Ele sorriu.
- Do mesmo jeito que você ofereceu para ela ficar com você nesta semana? - Sirius sorriu, malandro. - O fato de saber que a minha prima estava na cidade e não estava dormindo em casa, mais o fato de Lily ter perguntado se eu sabia quem estava dormindo na sua casa...era óbvio quem era.
- Eu ofereci. Ela não iria recusar.
Sirius riu quando levou um soco no braço do amigo.
- E enquanto você aproveita com a minha prima, eu sinto que você quer me passar um trabalho sujo.
- Nada, não é nada demais. Preciso apenas que tome conta de Lily.
James parou de andar.
- Como é?
- Tomar conta dela: levá-la e trazê-la de Hogwarts, já que ela não consegue dirigir ainda; ficar de olho no fisioterapeuta enquanto ela tem sessão com ele; deixar Bones bem longe de sequer imaginar tocar na minha irmã de algum jeito que ele não faria com a própria mãe. Essas coisas.
- Não! - James respondeu e tentou seguir o caminho, mas Sirius o segurou.
- Por favor. Eu só confio em você e em Remus para isso.
- Pede para ele, então. Eu não tenho problema em dar carona para ela, porque moramos perto. Mesmo se não fosse o caso, eu não me importaria, porque eu sei que ela não consegue dirigir ainda. Mas o resto? Tô fora. Eu não vou ser babá da sua irmã.
- Como você mesmo disse, você é quem mora perto. Eu não quero pedir para Remus ir até em casa para checar se o fisioterapeuta não vai dar em cima dela de novo. Ele tem que tocar nela o tempo todo e depois do flerte que eu ouvi, eu não confio em deixá-la sozinha com ele.
- Lily não o deixaria tirar vantagem. - Após aquela frase, os dois se calaram ao se lembrarem de Pettigrew. - Ela tinha quatorze anos, Sirius, e foi atacada. Hoje ela já é bem grandinha, não precisa de uma babá.
- Eu não quero arriscar um outro ataque e sem ninguém por perto.
James bufou alto, querendo deixar claro o quanto aquilo lhe pesava.
- Isso é ridículo.
- E Bones! - Sirius continuou. - Ele vai tentar se aventurar quando souber que eu não estou por perto.
- Eles estão juntos, seu panaca.
- Por agora. E sem a minha presença por perto, ele vai tentar algo com ela.
- Você sabe que a sua irmã não é mais virgem. E dúvido que nunca tenham transado em todos esses meses juntos.
- Só por ela não ser mais virgem, não quer dizer que Bones possa simplesmente fazer a festa, chegando na minha casa, sentando no meu sofá como se fosse o dono.
Assistiu enquanto James se afastou dele, claramente sem saber o que fazer.
- Não acho que posso fazer isso. Se ela descobrir, vai me matar também.
- Ela não precisa saber. Além do mais, eu posso pedir para Remus fazer algumas coisas, mas a carona e o lance com o fisioterapeuta terá que ser com você.
- Sirius, isso não vai dar certo.
Sirius puxou o amigo e o abraçando pelos ombros, enquanto o levava para a porta da frente da casa.
- Claro que vai. O que poderia dar errado?
Era como se seu cérebro gritasse para não aceitar, que aquilo era uma péssima ideia. Era aquele sexto sentido que tinha um "X" enorme e vermelho piscando em seus olhos.
Mas talvez estivesse exagerando. Sirius era um pouco louco, mas não deveria ser um problema ajudar. Não precisava levar a sério esse "tomar conta", apenas ficar por perto caso ela precisasse, já que Geneviève trabalhava bastante e Lily com a perna machucada poderia precisar de alguém.
Talvez Sirius estivesse certo: o que poderia dar errado?
Lily deu um beijo e um abraço bem forte em Remus quando o encontrou.
- Eu já disse isso dias antes, mas parabéns. Você vai arrebentar naquela universidade, Rem.
- Obrigado, Lils.
Ela riu ao ouvir a voz dele que já começava a ficar um pouco embargada.
- Você está aqui há muito tempo? - Perguntou ao ver o copo quase vazio dele.
- Há duas horas, acho.
- E já está acabado assim? Não vai durar muito na sua própria festa.
- O importante é aproveitar o que posso da festa enquanto bebo. O "depois" não interessa. - Ele tentou dar de ombros e sorrir, mas apenas acabou com uma careta e mexendo os braços de um jeito estranho.
- Parabéns pela vaga, Lupin.
Edgar ofereceu sua mão e Remus aceitou o cumprimento. Lily torceu para que nada acontecesse, pois sabia que Remus podia ser bem bocudo quando bêbado. A não ser que ele usasse seu sotaque de Newcastle, então ele poderia falar o que quisesse, pois ninguém iria entender mesmo.
- Obrigado, Bones. - Sua voz estava mais séria e quase rouca. - Dorcas te convidou?
- Sim. Convidou o time todo de futebol, na verdade.
- Claro que ela fez. - Remus resmungou. Ele se virou para Lily. - Sirius e James?
- Não sei, estavam logo atrás de nós.
Sem aviso, um corpo passou entre Lily e Edgar, os separando e empurrando Edgar para o lado.
- Parabéns de novo, cara. - Dizia Sirius, o tal corpo passante, passando um braço pelo pescoço do amigo e bagunçando seus cabelos. - Cadê a tequila? Vamos comemorar um pouco.
- Ele está um pouco bêbado já, então vai com calma com ele. - Lily avisou o irmão.
- Eu vou preparar a nossa festinha, já que eu não sou bem-vindo aqui. Venho te pegar em alguns minutos.
Edgar deu um rápido beijo nela e sumiu entre as pessoas.
- Festinha? - James, que estava ao seu lado e parecia ter ouvido Edgar, perguntou.
- Eu não sei do que ele está falando.
- Sardenta, fique de olho.
- Ele só quer fazer uma surpresa, não é nada demais.
- Festinha para ele nunca é nada demais.
- Olha aqui, se todo mundo continuar com essa coisa de falar coisas misteriosas, mas nunca terminar, eu agradeço de nem começar. Com licença.
Qual era a de todos eles? Era James deste lado falando coisas, depois Edgar falando deles. Poderiam começar e terminar a conversa? Ficar só de "mi mi mi" não iria ajudar em nada. Depois reclamavam das mulheres. Bom, ela pelo menos falava tudo o que tinha para falar quando começava.
Se aconchegou em um canto após cumprimentar Dorcas e a parabenizar, esperando por quase vinte minutos. Estava, seriamente, pensando em desistir de esperar quando Edgar apareceu do meio das pessoas, a puxou contra ele e a beijou. Lily sorriu entre seus lábios e o segurou firmemente, o abraçando forte.
- Hoje, como o primeiro fim de semana sem precisarmos nos esconder do seu irmão e como eu estou te devendo uma finalização de ontem, eu acho que deveríamos comemorar. O que acha? - Ele sussurrou.
- Eu sempre estou pronta para comemorar, você sabe. O que tem em mente? - Lily perguntou enquanto passeava com as mãos pelo peito dele.
- Será uma surpresa. Vem.
Segurando a mão da ruiva, Edgar começou a levá-la pelas escadas, abrindo caminho entre as tantas pessoas paradas nos degraus. Mesmo Sirius sabendo sobre eles, Lily ainda olhou por cima do ombro para garantir que seu irmão não a via subir na direção dos quartos com o namorado, mas ele não estava por perto.
Edgar abriu uma das portas e puxou Lily com ele, fechando-a logo em seguida. Ele a beijou calorosamente, fazendo a ruiva respondê-lo com entusiasmo.
- Isso será tão bom. - Edgar disse entre beijos.
- Eu mal posso esperar pela surpresa.
Lily mal podia conter sua ansiedade. Se Edgar queria lhe surpreender, só podia ser uma coisa. Eles tinham a vida sexual ativa por alguns meses já e havia apenas uma coisa que ela tanto queria e ele não havia feito. Ou que não queria ter feito.
Aquele pensamento, aquela lembrança de Edgar se negando e fazendo uma cena e tanto sobre o quanto ele não iria fazer sexo oral e todos os porques, ainda rondava seus pensamentos e virou um tabu enorme para ela, pois o problema não era a negativa em si, mas como aconteceu. Ele havia criado quase um palanque na cama, com os dois quase nus, dissertando sobre tudo o que ele pensava sobre colocar a boca dele nela. Sentia vergonha e ressentimento apenas ao lembrar da cena.
Deveria ter liberdade de conversar mais com ele sobre isso, lhe dizer que não havia gostado de como as coisas aconteceram, mas sempre dava para trás. Mas agora não interessava mais, pois Edgar queria comemorar e lhe surpreender, então talvez ele quisesse tentar, quisesse deixar de lado aquele problema e tentar com ela.
Sem poder esperar mais, Lily começou a tirar a roupa dele, querendo embarcá-lo para tirar as dela também. Sabia que demorava um pouco para esquentar as coisas entre eles...e que aquilo era outra coisa que a fazia pensar às vezes. Alice dizia que um toque de Frank, lhe fazia louca já e Lily nunca havia sentido essa loucura com Edgar, não sabendo se aquilo era normal e Alice e Frank tinham algo muito especial...ou se ela e Edgar não tinham nada demais. Queria poder enlouquecer com o beijo dele, como ouviu as amigas dizerem sobre alguém.
Talvez ela fosse o problema? Edgar era lindo, tinha um corpo maravilhoso e um sorriso bonito. Como não se empolgar com um cara daqueles?
Lily sentiu duas mãos tocarem seus ombros e um beijo em sua nuca. Ela se virou para trás, assustada, já que Edgar estava na sua frente e se deparou com olhos azuis sorridentes.
Era uma outra garota.
Soltou Edgar e se afastou, olhando para a cena: a garota, que ela nunca tinha visto em sua vida e Edgar virando os olhos para o teto, impaciente.
- Lily, o que está fazendo? - Ele perguntou.
- O que você está fazendo? - Ela retrucou, olhando para os dois. - Quem é você e o que está fazendo aqui? - Se virou para a garota.
- É a segunda vez que você "esquece" de avisar a pessoa que eu estou vindo.- A garota ignorou Lily, se direcionando para o garoto. - Qual o seu problema, Edgar?
Se afastando da cena, Lily levantou as mãos, incrédula, e rindo ironicamente. Edgar, seu suposto namorado de alguns meses, trouxe uma outra garota para o quarto com eles, sem avisá-la, sem perguntar se ela queria e, aparentemente, não era a primeira vez que ele fazia aquilo. Não era a primeira vez que ele devia fazer sua festinha com aquela garota.
Sem falar nada, ela foi em direção a porta e saiu do quarto.
- Li, espere. - Ouviu a voz dele, mas continuou o seu caminho pelo corredor. Ele a alcançou antes que ela chegasse nas escadas. - Me deixe explicar, por favor. Eu nunca fiz nada com ela enquanto estávamos juntos.
- Ah, muito obrigada pela informação. Este era o problema master da situação e não o fato de você me trazer para o quarto querendo ter um sexo a três sem me consultar antes.
Alguém, parado alguns degraus abaixo, limpou a garganta bem alto.
- Ah merda, que ótimo. - Lily reclamou ao ver Remus parecendo ter se perdido no meio da festa, caído em um dos degraus.
- Que porra é essa que você disse ai? - Remus perguntou já com o seu sotaque de Newcastle vencendo o sotaque londrino, fazendo todos ao redor ficarem com um grande ponto de interrogação pairando em suas cabeças.
- Apenas imaginando o que você disse, eu digo que não é da sua conta. - Edgar respondeu, segurando Lily pelo braço, querendo afastá-los da conversa.
- Ah, isso é da minha conta. - Tentando subir os degraus restantes, Remus quase caiu.
- Por favor, eu estou lidando com isso. - Lily respondeu indo até ele, ajudando-o a se levantar e a se equilibrar.. - Meu namorado fez merda, e eu vou resolver.
E para piorar, James surgiu virando as escadas, parecendo estar procurando por Remus. Uma garota vinha logo atrás dele. Remus, ao vê-los se aproximando, balbuciava e apontava para Edgar e James, como se o amigo tivesse que entender o que ocorria.
- Não estou entendendo nada. Para de falar geordie e volta para o inglês, Remus! - James pediu impaciente enquanto segurava Remus que quase caia.
- "Bones, de novo, mesma história de sempre". - A garota que estava com James, traduziu. - Sou escocesa e entendo bem os sotaques do norte. - Ela se explicou para ninguém específico.
E a cereja do bolo veio com a garota que Edgar chamou para se divertirem juntos, passando por eles e desceu as escadas, sendo observada por todos. Se os recém-chegados não tivessem entendido o que ocorria, agora estava claro como água.
- Ew, justo ela? - A garota que subiu com James exclamou.
- Vamos conversar em outro lugar, Li, sem testemunhas que não tem nada a ver com tudo isso. - Edgar pediu, tentando puxá-la de volta para o quarto.
- Nós vamos conversar, Edgar, mas lá embaixo.
A ruiva começou a descer as escadas, sua perna latejando de dor agora. Inferno.
- Ajude ela! - Ouviu James reclamar dos degraus acima.
- Idiota! - Remus reclamou também. Edgar logo estava ao seu lado e tentou ajudá-la a descer as escadas, mas Lily o afastou.
- Nem se atreva. Se não veio antes, não venha agora.
Chegando ao térreo novamente, ela se dirigiu aos jardins de trás da casa, sendo seguida de perto por Edgar que não se atreveu a dizer ou tocá-la mais. Viu Sirius na cozinha conversando com um grupo ao mesmo tempo que o irmão a viu também.
- Sorria antes dele vir socar a sua cara. - Ela disse para o namorado, sorrindo falsamente para ele, tentando mostrar que tudo estava bem. Edgar sorriu de volta imediatamente, seus olhos denunciando o receio que agora sentia com Sirius tão perto deles.
Se misturaram entre as pessoas do lado de fora e Lily se dirigiu o mais longe possível da cozinha. Deu uma singela olhada para trás e viu que o irmão estava agora na porta, observando-os. Ela revirou os olhos e ficou de costas para a casa.
- Você é sempre tão liberal com sexo, sempre aberta. Eu pensei que você ia gostar. - Foi a primeira coisa que Edgar disse. O garoto deu uma olhada em direção a casa, provavelmente também vendo Sirius, e respirou fundo.
- Por que você pensaria que eu queria ter algo à três, assim, do nada? Ou talvez você pudesse chamar um dos seus amigos ao invés de uma garota aleatória. Ah, desculpe, ela não é bem aleatória, não é mesmo?
- O que já aconteceu com ela foi há muito tempo. Eu apenas pensei em trazer algo diferente para nós.
- Quer fazer algo diferente quando você nem consegue colocar a sua boca em mim? - Edgar deixou a tal boca cair. - Você nem tentou nada comigo, além do velho e bom sexo normal em cima de uma cama, Edgar, e decidiu pular direto para colocar uma garota e nem me perguntar antes se eu queria. Que merda é essa?
Algumas pessoas ouviram a última parte e se viraram para eles.
- O seu irmão está olhando ainda, disfarce um pouco mais.
- Neste exato momento, eu quero que todos ao redor vão a merda. Incluindo você. - Ela o cutucou no peito. - Eu acho que eu inventei desculpas demais para o que vem acontecendo, Edgar.
- Do que está falando?
- De tudo, mas para ser mais específica, de tudo desde quinta-feira, de ontem, de hoje, de agora. Foi uma tsunami de merda e eu não quero isso. Quero ficar em paz comigo, com o meu namorado, com o meu irmão e com os meus amigos. E nada do que anda acontecendo entre nós, está dando essa paz.
Edgar a encarava com os olhos bem abertos, completamente surpreso para onde as coisas iam.
- Se eu tivesse chamado um cara, você ia preferir?
Lily jogou a mão ao ar e saiu, desistindo. Edgar que fosse para o inferno com o seu sexo a três sem consentimento dela.
- Espere. - Ele correu até ela.
- Não. Chega, Edgar, já deu. Já deu esse assunto, já deu de nós.
- Não, não termine assim. Vamos conversar melhor.
- Por favor, apenas não.
Sirius se desencostou da porta e começou a vir até eles, percebendo que havia algo errado. Agindo rapidamente, ela se afastou de Edgar e foi até o irmão, encontrando-o no meio do caminho.
- O que ele fez?
- Nada. Apenas uma discussão, Sirius. Por favor, pode vir comigo até a casa, me preparar aquela bebida que só você sabe fazer? Eu nunca acerto na quantidade de limão. - Ela empurrou o irmão de volta para a casa, mas Sirius não parecia querer colaborar.
- O que ele fez? - Sirius repetiu a pergunta, vendo que Edgar desistiu de se aproximar agora.
- Sabe quando você me irrita, mesmo com as menores coisas? Isso também acontece com outras pessoas...nós discutimos e foi isso. - Lily conseguiu virar Sirius e fazê-lo voltar para a cozinha. - Vamos, prepare aquela bebida para a sua irmã, por favor.
Os bonitos olhos de Sirius olhavam para a porta e depois para ela, parecendo pensar o que fazer. Lily tentou dar o seu melhor olhar de cão sem dono e faminto, o que sempre funcionava com ele.
Sirius respirou fundo.
- Você não deveria beber enquanto toma os remédios. - Ele disse indo até a pia e pegando o que precisava para preparar a bebida para ela. Lily bateu palmas e o acompanhou.
- Só uma ou outra bebida não vai me matar.
- Mas pode cortar o efeito do remédio. - Sirius parou de fazer a bebida. - E eu sou um idiota de preparar. Não, você não pode beber.
- Por favor, por favor, por favor. - Ela fez beicinho para ele. - Uma noite não vai fazer diferença.
Os olhos de Sirius desviaram para o outro lado da cozinha, onde Edgar entrava vindo dos jardins.
- Só se você me contar o que ele fez. - Lily se virou para encarar Edgar que os olhava com uma expressão desolada, antes de voltar para o irmão.
- Eu não estou triste, quem parece chateado é ele, não? Então por que se interessa?
- Eu te conheço, Lily. - Sirius baixou o rosto perto do seu. - Você entrou nessa cozinha louca para matar aquele idiota, mesmo você tentando disfarçar. - Ele pareceu satisfeito ao ver que Lily não tinha como retrucar. Voltou para a pia e continuou a preparar a bebida dela. - Não ofenda a minha inteligência assim.
Ela cruzou os braços e se apoiou na pia, fechando a cara, já que não precisava mais fingir que tudo estava bem.
- Se quer saber, eu acho que o relacionamento deu o que tinha que dar.
- Ah! - Sirius sorriu. - Uma extra dose de fruta para você, então. - Ele colocou mais um bocado de frutas picadas e começou a mexer a bebida. - Ele não é para você, falta muito para Bones chegar aos seus pés e até lá, você pode encontrar alguém que te mereça e que não brinque com os meus nervos.
- Sério? - Ela olhou animada para o irmão. - Você quer que eu encontre alguém, então.
- Claro que sim, sua besta. - Ele passou o copo para ela, que aceitou e deu um bom gole, apreciando. - Eu não quero que você fique solteira para sempre, eu só...quero que você encontre alguém direito, que vai te respeitar e vai passar longe de quebrar o seu coração.
Deixou o copo em cima da pia e enrolou os braços na cintura do irmão, apreciando quando ele a abraçou pelos ombros e depositando um beijo nos cabelos dela.
- Eu te amo de vez em quando, sabe?.
- Eu sei. - Ele respondeu, fazendo-a rir. Ele pegou o copo dela e a entregou novamente. - Não fique longe do seu copo...
- Sim, sim, alguém pode colocar alguma coisa. Eu sei. - Ela sorriu e o soltou. - Obrigada pela bebida.
Deu as costas para o irmão e começou a se direcionar para a sala.
Sirius passou a mão pelo cabelo, um habito idiota que aparecia de vez em quando e que pegou de James quando o amigo ficava nervoso ou ansioso. Pegou sua cerveja de volta e foi atrás dos amigos. Aparentemente, tinha um Remus Lupin a solta precisando ser parado, já que James sumiu e não voltou mais com o amigo bêbado.
L~J
Lily Evans estava em um experimento por quase meia hora já. A bebida que Sirius preparou já estava acabada há alguns minutos e ela se encontrava confortavelmente sentada em uma mesa alta no canto da sala, onde podia ver todos pelo cômodo, os que saíam e entravam por todas as portas e, principalmente, os casais. Eram esses que ela estudava.
E quanto mais ela observava, mais ela sabia que entre ela e Edgar havia algo que não colava. Ou, no mínimo, tinha algo errado na química entre eles. Não era possível que tivesse que demorar para engatar com ele quando estavam a sós, ou que quando o beijava, era apenas um beijo e nada de mais. Depois que Sirius havia dito que esperava que ela encontrasse alguém bom, foi como uma chama de felicidade que acendeu em seu peito. Ele não seria louco de não desejar que Lily encontrasse alguém, mas entre o que aconteceu em Hogwarts naquela semana, a briga entre eles e, agora ouvir aquelas palavras sinceras dele, era uma felicidade renovada e uma pancada ao mesmo tempo. Fazia Lily querer achar "o cara", o beijo que encaixaria, o sexo que pegaria fogo nos primeiros segundos, as borboletas no estômago.
Enquanto bebia seu drink minutos antes, ficava cada vez mais claro que ela parecia se agarrar a Edgar nestes últimos dias, apenas porque ele era conveniente. Havia assumido com ela, querendo enfrentar Sirius, o que acabou tornando um relacionamento mais fácil e leve pela primeira vez em sua vida. Mas espera, não tinha que aguentar o pouco que recebia, enquanto dava muito dela, só por Edgar ser conveniente. Estava arranjando desculpas para coisas que ela sempre pensou não aceitar.
Poderia soar horrível, mas parecia que Edgar apenas apareceu em sua vida para que Sirius pensasse em aceitar qualquer um menos ele, e Lily de achar alguém correto. Porém, o que era "o cara"? O que tinha que ter entre ela e esse cara desconhecido? Quais eram os primeiros sinais que ela tinha que se atentar?
Viu o irmão e os amigos rindo e se divertindo a alguns metros de distância com algumas garotas e suspirou enquanto sorria, antes de voltar para o seu experimento. Achou um casal, que não conhecia, perto das escadas. A garota parecia estar tentando conquistar o garoto, segurando em seu braço, jogando o cabelo para trás e rindo. Ele não parecia muito impressionado, mas sorria...as coisas pareciam um pouco geladas ali.
Seus olhos procuraram outro casal e encontrou duas garotas, uma delas conhecia de Hogwarts: Amélia Bones. Ela tinha as mãos dadas com a outra garota - Lily não sabia se era sua namorada ou apenas algum rolo -, mas do jeito que se olhavam, como conversavam, era claro que havia sentimentos entre elas. O jeito que Amélia sorria e olhava para a outra garota quando esta sorria...mesmo de longe, Lily diria que seus olhos brilhavam. Eram cúmplices e pareciam que estavam sozinhas, sem se importar com ninguém mais em volta.
Desviou o olhar, sentindo que estava se intrometendo em um momento íntimo entre elas, mesmo estarem longe de se beijarem ou qualquer outra coisa. Seus olhos encontraram um outro casal não muito longe e eles se beijavam. O garoto segurava o rosto da loira de um jeito tão carinhoso, enquanto ela apenas segurava os braços dele. Ah, a garota não parecia muito empolgada, enquanto ele parecia querer dar tudo o que ele tinha para ela. Sentindo-se um pouco triste por ele, Lily procurou outro casal, mas foi interrompida.
- Aproveite a minha boa vontade. - Sirius lhe passava um outro copo da sua bebida preferida.
- Obrigada, você é o melhor. - Ela viu que os olhos do irmão estavam quase fechando de tanto álcool consumido. - Sirius, você bebeu demais!
- Só um pouco. - Mesmo a sua voz soava engraçada.
- Vamos ter que pegar um táxi, porque você não vai dirigir assim.
- James não bebeu, ele vai voltar dirigindo, não se preocupe.
Ele voltou para os amigos e Lily percebeu que James tinha uma garrafa d'água nas mãos. Não que prestara atenção nele, mas todas as vezes que o viu, ele não tinha nenhuma bebida alcoólica em mãos, então relaxou.
Deu um longo gole da bebida, já que estava bem doce, e voltou sua atenção para a multidão.
E ali estava, aquilo era o que procurava. Um casal se beijava debaixo das escadas e, meu deus, ali havia paixão e vontade. Não sabia como começou ou se já estavam ali por algum tempo, mas era aquela reação que procurava por ali: duas pessoas que pareciam perdidas completamente, fazendo a paixão e a vontade tão claras, que não poderia achar aquela cena imprópria. Era tão óbvio que havia sentimentos de ambas as partes, vontade de ambas as partes e fogo.
E não tinha nada menos que ela queria.
Seu olhar cruzou com o de Edgar e ele fez menção de vir em sua direção. Não, já tinha tido o bastante dele por hoje. Ela logo pulou da mesa, tendo seus joelhos falhando e a levando quase ao chão. A dor era horrível, insuportável e parecia subir até sua cabeça, como um raio. Algumas garotas em volta a ajudaram a levantar e Lily agradeceu, tentando fingir que tudo estava bem. Cada passo que dava, era pior e pior, como se andasse e enfiasse seu pé em uma estaca que atravessava toda a sua perna e ia até seu joelho. A bebida não ajudava também a andar mais rápido e encontrar algum lugar para sentar.
Ouvia as vozes do grupo dos amigos e do irmão, mas as pessoas dançando só dificultavam seu andar e seu caminho até eles, então preferiu desviar e ir em direção a saída, que tinha o caminho livre. Assim que se encostou no batente da porta, ela pegou seu celular e enviou uma mensagem para o irmão, dizendo que estava muito cansada e ia encontrá-lo no carro. Saiu da casa e desceu as escadas, antes de ouvir alguém chamando-a.
- Li, vamos conversar. - Edgar pediu descendo atrás dela.
- Faça tudo, menos falar comigo neste momento. Eu preciso ir.
- Segunda-feira então?
Ela não respondeu, apenas continuou andando e tentando não chorar de dor ao mesmo tempo. Duvidava que iria conseguir chegar até o carro sem desmoronar, pois ainda tinha uma boa caminhada até lá. Então ia bem devagar, segurando-se na parede e nas cercas das casas da rua, evitando colocar todo o peso na perna machucada.
E como se os céus a tivessem escutado, sentiu o chão sumir de seus pés e um alívio imenso a atingir quando não precisava mais andar. O único problema era que, agora, estava sendo carregada como um saco de farinha no ombro de alguém.
A pessoa girou, olhando para trás, falando com alguém.
- Consegue levá-lo? - Era James, então, quem a carregava.
- Sim. - A voz da garota "escocesa que entendia todos os sotaques no norte" respondeu.
- Ótimo. Eu levo os dois.
James virou novamente e Lily conseguiu levantar a cabeça e ver a garota levando um Remus bem entregue ao álcool. Olhando para o lado, ela viu que Sirius estava sendo segurado por James pelo outro braço. Nossa senhora, mas que cena devia ser aquela.
- Como Sirius conseguiu dizer onde eu estava, se ele está tão acabado? - Perguntou.
- Sirius não me disse nada. Você me mandou uma mensagem. - James respondeu.
- Mandei? Eu mandei para Sirius.
- Não, você mandou para mim. O que foi bem inteligente, mesmo inconscientemente.
Aparentemente, dores te fazem ficar esperta. Ponto para sua dor no joelho.
Agora Lily se via sentada no meio do banco traseiro, com Sirius de um lado e Remus do outro. Ambos completamente desacordados. Bem, ela mesma não parecia muito acordada agora, mas ainda mantinha sua cabeça ereta e não roncava. Sua perna direita estava esticada e apoiada nas pernas de Remus, lhe dando um alívio maravilhoso.
A garota escocesa dos sotaques do norte - qual era o seu nome, afinal? -, se sentou no banco do passageiro e começou a escrever algo no celular rapidamente. Lily, apesar do estado um pouco alterado, viu que ela sorria para o objeto. Vagarosamente e empurrando a cabeça de Sirius para o outro lado, ela se aproximou pelo encosto do banco e olhou para a tela, por cima do ombro da garota:
"...e ele vai levar todos embora. Espero que ele me deixe em casa por último!"
Oh céus, ela estava torcendo para se dar bem com James naquela noite. Não que Lily tivesse visto algo que dizia ao contrário, já que ele estava dando uma carona para ela.
James Potter e as garotas. Lily soltou uma risada pelo nariz. Ele não era o tipo de cara que colecionava garotas ou que não era visto sozinho por muito tempo, mas ele tinha um imã para elas, fazendo boa parte das garotas terem um siricutico por ele. O que acontecia também com o seu irmão e Remus, apesar deste ser mais reservado e tímido quando se tratava do assunto.
Sirius era lindo de morrer e ela não dizia isso apenas por ser o seu irmão. Ele, de fato, era. James era absurdamente lindo também, uma beleza bem diferente da do irmão. E Remus era tão bonito e charmoso, que não julgava as garotas babarem nele.
Porém, para Lily, havia algo em James. Algo que fazia com que as garotas agissem diferente com ele, mas não entendia o que era. Engraçado, ela nunca havia parado para pensar naquilo antes. Talvez por ele ser uma mistura dos outros dois? A beleza de Sirius, mas com um pouco da personalidade de Remus, pois James não era cara de pau como o irmão, mas não tão tímido quanto Remus.
Talvez fosse isso, então. Ele tinha um pouco dos dois mundos, o que o tornava tão desejável daquele jeito.
Espera aí! Pausa.
Desejável? Ela tinha mesmo usado aquela palavra para descrever James? Desde quando ela ligava James a qualquer adjetivo como aquele? Começou a rir sozinha, chamando a atenção da garota que a olhou pelo espelho retrovisor, mas não comentou nada, provavelmente achando que Lily estivesse completamente bêbada.
E falando no diabo, James abriu a porta do carro e sentou-se atrás do volante. A garota se arrumou no banco e Lily pôde dizer que ela piscou para ele umas cinco vezes em apenas um segundo. James sorriu levemente e ligou o carro, saindo em seguida.
Aquilo seria interessante, Lily pensou. Seria um bom momento para continuar seus estudos, mas dessa vez, seria sobre garotas com James Potter.
Quando pararam no semáforo, viu que a garota se deslocou um pouco no banco, querendo se aproximar mais de James. Havia todo o câmbio, o freio de mão e um porta copos entre eles, mas ela conseguiu ficar sentada quase na ponta lateral do banco. Enquanto isso, James ligava o rádio e conectava o próprio celular para tocar suas músicas, alheio ao que a garota fazia.
- E então, quem levaremos para casa agora? - A garota perguntou.
- Remus. Ele não mora longe daqui. - James respondeu satisfeito com a música que começou e engatou o carro, acelerando quando o semáforo abriu.
- Certo. Depois Sirius?
Lily não poderia negar que a garota estava lutando pelo o que queria.
- Sirius e Lily moram perto de casa, então fica mais fácil levar você primeiro.
Ah! James, se estivesse olhando para a garota, teria visto a decepção bem clara nos olhos dela. Lily não sabia se ria, sendo maldosa, ou se sentia pena.
- Oh, ok.
O carro caiu em silêncio enquanto ele dirigia pela cidade. Quando chegaram na casa de Remus, Lily fechou os olhos e fingiu que dormia. James abriu a porta ao lado do amigo e o chamou, ajudando-o a sair do carro enquanto colocava a perna dela de volta no banco com cuidado, levando Remus até a porta da casa. Lily abriu um dos olhos e viu a garota digitar velozmente no celular. Quando James voltou e entrou no carro, ela colocou o celular de lado e sorriu.
James parou em um outro semáforo e, aparentemente, ele não iria escapar das garras da garota, já que ela sorria como se tivesse um plano em mente. Lily abriu os dois olhos para ficar bem atenta.
A garota - que Lily agora iria chamar de Fulana Escocesa-, se virou para James.
- Então, o que acha de aproveitarmos esses semáforos antes de chegarmos em casa?
A mão da Fulana Escocesa foi até o encosto do banco de James. O garoto se virou para ela também, parecendo não se opor à ideia.
- O que você sugere? - Ele perguntou, mas estava claro que ele sabia exatamente a sugestão dela.
E a Fulana Escocesa não perdeu tempo, se esticando até ele e beijando-o. E claro, James correspondeu sem problema, largando o volante, o pé bem preso no freio e segurou a garota pelo rosto. Naquele momento, Lily achava que descobrira o que James tinha que fazia com que as garotas babassem por ele: seu beijo.
Sem perceber o que fazia, Lily se desencostou e se aproximou. Era estranho como a sua mente trabalhava agora, ignorando completamente que a garota estava ali, e focava apenas no que James fazia: os lábios dele pareciam tão macios e delicados quando a beijava. De relance, viu a língua dele e algo aconteceu em seu estômago e em seu peito, sentindo que algo se apertava ali dentro.
Meu deus, era com certeza o beijo de James. Era tudo: sua beleza, sua personalidade e seu beijo. Era tudo aquilo que fazia com que as garotas caíssem por ele. James Potter beijava absurdamente bem, tão absurdamente bem, que Lily sentia-se assistindo um filme onde se colocava no lugar da mocinha que era beijada pelo galã. Seu coração estava tão acelerado com aquela conclusão e tão espantada com o que estava sentindo ao vê-lo ali, beijando alguém que não era ela, aliás, mas não conseguia tirar os olhos dele.
O beijo dele parecia muito melhor do que qualquer outro que ela observou naquela noite. Não no sentido de sentimentos, mas todo o resto: o toque, como ele mexia as mãos, a boca. Era como se seu corpo pegasse fogo agora, seu peito explodindo pela maneira que seu coração batia desesperado. E meu deus, ela estava se imaginando ali, no lugar da Fulana Escocesa.
Pior. ela estava desejando estar no lugar dela.
Antes de Lily acordar da epifania e voltar para o seu lugar, James abriu um olho, se sentindo observado, e se deparou com Lily perto deles. Lily se assustou e se jogou para trás, mas não percebeu que Sirius havia caído deitado no banco, e esmagou o irmão.
- Ouch! - Sirius reclamou quase em um grito e começou a empurrar Lily para longe. - Sai de cima, Lily!
O pequeno desentendimento no banco de trás interrompeu o beijo no banco da frente em definitivo - James já estava parando depois de pegar Lily os vigiando de qualquer maneira -, e Lily não sabia como agir, mas só sabia que não iria olhar para James tão cedo. Sentiu o carro em movimento novamente e se jogou contra o banco, completamente virada para a janela e de costas para o banco do motorista.
Burra, burra. O que estava fazendo? O que foi aquilo? Ok, certo, poderia dizer que estava bêbada e estava tentando ver quem era a garota, simples assim. Havia sido curiosidade, apenas isso. Nada mais. Ele teria que acreditar, ele tinha que acreditar.
Chegaram na casa da Fulana Escocesa - Lily tinha que tentar lembrar o nome da garota, coitada -, e ouviu mais do que viu quando ela tentou se despedir de James, mas eles provavelmente trocaram apenas um selinho. James esperou que a garota entrasse em casa antes de partir.
Estava mortificada, mas só não sentia-se pior, porque Sirius também estava no carro, evitando qualquer conversa forçada entre eles.
E por falar no irmão...
- Estou morrendo de fome! - Sirius reclamou.
- Claro que está. Vodka ainda não substitui comida. - James respondeu.
- Deveria, já que era russa e eles ainda fazem vodka com batata por lá. Hm, batata. Vamos parar e comprar batata frita.
- Você come em casa. - Lily o cutucou com a perna boa. Seu irmão que não ousasse fazê-la passar um minuto a mais naquele carro com James.
- Não tem batata frita em casa.
- Tem sim.
- Mas não pronta! - Sirius levantou o tronco, indignado. - Eu quero comer agora. James, pare naquele maldito palhaço para eu comprar batata frita.
- Um "por favor" cairia bem. - James ralhou.
- Por favor, vossa majestade.
Quando Lily viu que James fez o desvio para comprar as malditas batatas de Sirius, seu irmão estupido e mimado, ela gemeu baixinho.
- O drive-thru está fechado. - James anunciou quando passaram em frente ao lugar.
- Estacione e eu vou lá comprar. Não vai ter fila às duas horas da manhã.
- Eu vou te matar, Sirius! - Lily murmurou.
- Por que? - O irmão perguntou.
- Porque sim! Passa a minha bolsa, eu vou lá comprar. - Porque, de jeito nenhum, ela ficaria dentro do carro sozinha com James.
Sirius se abaixou e tentou pegar a bolsa de Lily caída do seu lado do carro, mas ele não conseguia se abaixar direito de tão tonto que estava.
- Infernos! - Ela colocou a mão no bolso do irmão e tirou a carteira dele de dentro, saindo do carro o mais rápido possível e batendo a porta.
Realmente não estava cheio, apenas duas pessoas na sua frente para comprar. As máquinas de pedidos estavam desligadas, então teve que ir direto no balcão.
Não sabia o motivo daquele estresse agora. Se sentia tão nervosa, com raiva, mas tinha certeza que não era por Sirius querer batata frita às duas da manhã. Aqueles sentimentos estranhos e loucos estavam disputando um lugar dentro de si e Lily tentava entender o que cada um significava. Sentiu desejo por James? Ou era curiosidade? Não tinha dúvidas de que queria estar ali no lugar da Fulana Escocesa e apenas pensar naquilo de novo, o seu peito apertava com vontade.
Vontade. Ela teve e estava com vontade de beijá-lo. De onde havia saído aquilo? Por que agora?
Talvez era aquela coisa toda com Edgar e a falta de entusiasmo com ele. Tudo o que passou durante a semana, as coisas que ouviu sobre ele, vendo os casais se beijando...era isso. Quando viu aquela cena no carro, deu um tilt. Via alguns casais tendo aquela boa química - mesmo que ela não tenha prestado atenção na química entre James e a Fulana, apenas no beijo dele -, e sentia-se mal, com inveja mesmo, querendo aquilo para si. Então viu alguém, que era muito bonito, aliás, tão perto de si, depois de dois drinks potentes de seu irmão...claro, normal pensar aquelas coisas.
Não era nada. Normal. Todo mundo tem umas loucuras dessas, não?
Não?
- Você vai querer algo também?
Seu coração quase parou e ela arregalou os olhos e se virou para o lado, onde estava James lendo o menu acima, despreocupado.
- Por que não ficou no carro?
- Sirius está mais seguro dentro do carro sozinho do que você aqui de madrugada com gente estranha. - Ele respondeu sem tirar os olhos do menu. - Hm, acho que vou de frango hoje. - Comentou.
- Eu levo para você. Sirius está bêbado e confuso, sem contar insuportável. E se alguém tentar roubar o carro?
- Eu tenho certeza que deixarão Sirius na calçada de tão insuportavelmente falante que está. Então ligamos para o seguro e tudo vai ficar acertado.
Finalmente ele se virou para ela e Lily começou a respirar um pouco mais pesado, porque James não a olhava do jeito que fazia normalmente. Talvez ele estivesse bravo com ela por ter assistido o seu pequeno show de beijo no carro com a Fulana Escocesa?
- Ok! - Ela se virou para frente e focou na fila. Agora só faltava um casal bem apaixonado antes de serem atendidos.
Droga, por que aquele casal tinha que começar a se beijar enquanto a atendente preparava o pedido? Não olhe para o lado, Lily, não olhe para James. Olhou para o chão e tentou pensar em alguma música raivosa ou tenebrosa, tentando desviar o romance da sua vida no momento.
- Então...Bones! - James recomeçou a conversa e Lily fechou os olhos, pedindo para que ele não continuasse. - A decepção do ano, hum?
- Pode-se dizer que sim. - Ela respirou fundo. Com toda aquela confusão no carro, nem tinha querido pensar no que o namorado havia feito.
Quer dizer, ex namorado.
Decepção do ano era pouco para descrever. Em todo o auge de seu drama adolescente, Lily só podia pensar que sua vida era uma piada, porque justo quando conseguiu enfrentar Sirius e assumir alguém, esse alguém foi um idiota.
Naquele momento, nem sabia se devia ficar surpresa ou não. Sirius deveria ter feito alguma magia contra ela, só pode.
- Bones não é o melhor cara para você. Muito imaturo.
- E você é muito maduro, não, Potter?
James enrugou a testa.
- Eu não falei nada sobre mim.
- Eu sei, mas quem é você para dizer que Edgar é imaturo?
- Alguém que não faria com você o que ele fez.
Os dois se encararam intensamente, quase como se estivessem com raiva um do outro. Lily, com certeza, estava com raiva, mas não dele. Do que ele estaria com raiva?
- Você está com raiva de mim? - Ela resolveu perguntar. Já estava em uma situação horrível, por que não piorar, certo?
- Claro que não. Por que eu estaria? - Os olhos dele amoleceram, talvez percebendo que estava mandando alguma mensagem errada para ela com a intensidade de antes.
- Não sei. - Ela se virou para frente quando a atendente os chamou. Ela pediu as batatas de Sirius e James pediu um lanche de frango.
- Eu não estou bravo pelo o que aconteceu no carro, Lily.
Ela sentiu suas bochechas esquentarem tanto, que sentiu desconforto.
- Nada aconteceu no carro. - Lily tentou desviar.
- Como queira. - Ele riu. A ruiva trocou de posição, ficando claramente desconfortável.
- Qual o nome dela mesmo?
- Da atendente?
- Não, da garota.
- Ah! Er...Emy? Emmeline, eu acho.
- Você acha?
- Ela se apresentou em algum momento, mas eu não prestei muita atenção. Depois eu fiquei com vergonha de perguntar o nome dela, esperando que alguém a chamasse ao redor, mas não aconteceu.
- Certo - Lily balançou-se nos próprios pés. - Ela parece legal.
- Deve ser. - Ele deu de ombros.
- Ela estuda em Hogwarts.
- Sim, eu sei, ela falou.
- Você não a conhece? Digo, eu não a conheço direito, mas já a vi várias vezes. Acho que está um ano atrás de nós.
James sorriu e encarou Lily.
- Qual é a desse interesse nela, Sardenta?
- Nada, ué. Estou apenas conversando, assim como você conversou sobre Edgar.
- Bones é o seu namorado. Emmeline ou Emy, tanto faz, não é a minha namorada, então não é interessante de se falar sobre.
- Bones era o meu namorado.
Mais um sorriso de James.
- Bem, então ele pode ser categorizado como Emmeline agora na gaveta de "não interessante de se falar sobre".
- Por que você é tão sem coração assim com a garota? Ela beija mal, por acaso?
Ai, apenas em falar aquilo, a cena voltou forte em sua mente e a lembrança do beijo de James a acertou como uma onda. Sentiu seu rosto corar novamente.
- Não é isso, eu não quero ser sem coração, mas eu não estava com muita vontade na hora. E justamente por não ser sem coração, eu não quis dispensá-la quando ela veio me beijar. Não queria que ela ficasse constrangida.
Senhor, aquele beijo era um beijo sem vontade? O que era um beijo com vontade de James Potter, então?
- James Potter, o caridoso. - Ela disse ironicamente, tentando focar no presente e na conversa, impedindo sua imaginação voar.
- Cheia de ironia essa noite, Lily Evans. Qual o problema?
- Nenhum.
E ela realmente não sabia qual era o problema. Talvez fosse cansaço, talvez fosse a raiva por Edgar ter feito aquele papel ridículo na noite ou talvez...deixa para lá.
- O que vocês estão fazendo ai?
Sirius se aproximou deles e cruzou os braços.
- Oras, não era você quem queria batatas? - Lily perguntou.
- Sim, mas por que vocês não voltaram para o carro?
- Porque estamos esperan...
James olhou para o balcão e viu que segurava já o saco de papel com todo o pedido e ambos estavam no balcão do lado, conversando. Lily parecia tão perdida quanto ele: eles haviam pago? Quando deram os pedidos? Há quanto tempo estavam ali, alheios ao que ocorria ao redor?
- Vocês estão mais bêbados do que eu. - Sirius pegou o pedido e começou a voltar para o carro.
James e Lily se entreolharam, ambos confusos, mas o seguiram para fora do fast-food.
Lily já estava acordada há muito tempo, encarando o teto. Depois de James os deixar em casa e levar o carro de Sirius embora com a promessa de devolver hoje, ela se trancou no quarto, tomou um rápido banho e tentou dormir.
Tentou.
Por que aquilo estava acontecendo agora? Por que, infernos, ela estava pensando em James? Era Domingo, havia tomado alguns drinks na noite anterior, sua perna estava doendo, queria poder dormir mais, mas não...
James Potter estava em sua cabeça. Ele não saía de sua cabeça desde ontem a noite em uma espécie de chiclete bem grudado e enfiado no meio dos cabelos. Como era ridícula, por deus. O conhecia por anos, era uma figura tão presente em sua vida, que não conseguiria imaginá-lo longe, uma parte de seu irmão, basicamente.
O que está acontecendo?, pensou com raiva
Jogou a coberta para longe e saiu do quarto pisando forte, ou o mais forte que podia com sua perna dolorida. O quarto de Sirius estava aberto, então seu irmão de ressaca devia estar na cozinha com uma bela dor de cabeça. Bem, ele merecia. Era culpa dele por James estar sóbrio e ter que dirigir ontem, beijando a garota na frente dela.
- Bom dia, querida.
Geneviève disse assim que Lily apareceu na cozinha.
- Bom dia, mãe. - Respondeu e foi até a geladeira, e pegando o suco de laranja. Bateu com a embalagem logo ao lado de Sirius, que sentava no balcão com as mãos na cabeça. Ele pulou com o barulho e olhou torto para ela. - Bom dia, irmão querido.
- Não enche. - Foi a resposta.
- Bom que a senhorita chegou, porque seu irmão e eu estamos tendo uma boa conversa sobre ontem.
- Ah não, estou fora. - Lily pegou o suco e começou a ir para a sala.
- Isso não foi um convite, Lily Evans. Volte o seu traseiro aqui agora mesmo. - Mais essa. Pegou o remédio para dor de uma gaveta e se sentou ao lado de um Sirius miserável. - Vou resumir, porque eu não tenho o dia todo: Sirius disse que não iria beber e traria vocês para casa. Lily não deveria beber por conta dos remédios. Eu acordo e não vejo o carro de Sirius na garagem e o encontro na cozinha com essa ressaca monstra. Eu pergunto do carro e ele diz que James quem dirigiu, pois foi o único a não beber. E então aqui estamos nós: eu olhando para o meu filho de ressaca e a minha filha mancando de dor.
- Sirius não dirigiu, isso é bom. - Lily se pegou defendendo o irmão.
- Lily não tomou mais do que dois drinks.
- Eu acho lindo como vocês se defendem, mas isso não vai adiantar nada. E se James tivesse bebido e não pudesse trazê-los? E se Lily tivesse uma reação forte do remédio com a bebida?
- Teríamos pego um táxi para o hospital. - Sirius respondeu baixinho.
A mãe respirou fundo e esfregou os olhos por um momento.
- Eu não me importo com isso, Sirius. Eu estou falando sobre o fato de que ambos sabiam o que deveriam fazer, me informaram o que fariam, mas fizeram tudo o contrário. Vocês têm dezoito anos. Seria muito difícil pedir um pouco de responsabilidade da parte de vocês? Eu fico o dia todo fora trabalhando, eu os deixo com bastante liberdade, porque eu confio em ambos. - Geneviève colocou as mãos na cintura. - E agora eu tenho que ficar pensando se meus filhos estão dirigindo bêbados ou jogando todo o tratamento pela janela?
Nenhum dos dois respondeu.
- Desculpe. - Sirius foi o primeiro a falar. - Você está certa. Lily e eu seremos mais responsáveis. Ela não vai mais beber enquanto faz o tratamento e eu não vou beber quando tiver que dirigir.
- Eu não quero isso. Eu quero que vocês tomem em suas mãos as responsabilidades que lhes cabem. Por que eu tenho que dizer que não é para beber caso dirija ou caso esteja em tratamento para os meus filhos maiores de idade, quase indo para a universidade? Eu quero que vocês abram os olhos para os riscos do que fazem, não apenas me prometer isso ou aquilo. - Os dois irmãos assentiram. - Eu espero que eu tenha sido clara e que tenha sido a última vez um tipo de conversa dessas.
Com um olhar de decepção, Geneviève saiu da cozinha, deixando os dois filhos mergulhados no arrependimento. Era fato que a mãe os deixava livres para viver e raramente tinha que dar broncas - não contando com as merdas que Sirius fazia em Hogwarts, obrigando-a a comparecer na sala de Dumbledore mais vezes do que era considerado normal -, então quando a mãe mostrava decepção, aquilo os atingia muito mais do que gritos, coisa que ela nunca fez de qualquer maneira.
- Tome o seu remédio e vai descansar. - Sirius se levantou, pegando a sua xícara de café.
- Você não me dá ordens. - Lily respondeu, mas abriu a embalagem do remédio e o tomou, porque mesmo Sirius não mandando nela, ainda estava morrendo de dor.
- Eu vou sair hoje à noite para Oxford e volto no fim da semana. Não esqueça que James vai te levar e buscar.
Não! Havia esquecido completamente disso. Olhou para o copo de suco a meio caminho da boca, parado no ar com a surpresa, e o colocou de volta no balcão.
- Sirius...
- Você é insuportável, mas obrigado por me defender. - O moreno deu um beijo em sua bochecha e saiu da cozinha sem deixar Lily se defender.
Defendê-la e defender James da loucura que estava invadindo sua cabeça.
E sabendo que ele apareceria por ali para deixar o carro de Sirius, aceitou o "conselho" do irmão e se refugiou no quarto o dia todo, deixando sua perna para cima e assistindo filme. Após uma longa discussão por mensagem com Alice, para a qual contou tudo o que rolou na festa ontem, ignorou o celular para evitar Edgar ou qualquer outra pessoa e seguiu assim até o dia seguinte. Sirius passou em seu quarto para se despedir e apenas saiu dalio para comer algo rápido, pois seguiu excluída até o dia seguinte, quando o seu alarme tocou.
Gemeu. De cansaço e de dor.
Quando abriu os olhos, a sua muleta foi a primeira coisa que ela procurou pelo quarto. Teria que usá-la hoje, senão não aguentaria andar. Tomou um banho rápido e se arrumou, pegando-a para o café da manhã. Sabia que era melhor enfrentar sua mãe agora com aquele troço, já que não tinha saída.
- Ah, ótimo. Muito bem, senhorita Lily.
A ruiva revirou os olhos levemente, mas sorriu para a mãe quando entrou na cozinha com a muleta.
- Mãe, você estava certa ontem, você sabe. Eu não deveria ter me esforçado tanto e nem bebido. Eu estou pagando por isso, não se preocupe.
- Eu não queria vê-la "pagando por isso", filha.
- Eu sei.
Pegou seu cereal e se serviu, comendo em silêncio enquanto a mãe lia o jornal e enviava olhares para a filha, provavelmente lamentando pela dor da garota, pois Lily sabia que mesmo que sua mãe estivesse satisfeita pela filha estar aprendendo com as irresponsabilidades, ela era sua mãe e também sentia quando Lily sofria.
- Quando é a sua consulta com o fisioterapeuta essa semana?
- Quarta às 14h.
- Ah não. Eu tenho agendamento em Londres. Talvez eu possa adiar...
- Não precisa, mãe.
- Mas o seu irmão sempre fica com você, então acredito que ele ajude, não?
Lily segurou o riso irônico que queria soltar.
- Mãe, Sirius não ajuda. Não precisamos de ajuda e ele não fica nas minhas consultas por conta disso.
- E então?
- Porque o fisioterapeuta é lindo, simpático e bem jovem. Eu dei uma leve flertada com ele um dia, ele deu uma leve correspondida e Sirius ouviu. Desde então, ele não nos deixa sozinhos.
- Isso é sério? - Geneviève perguntou se virando para a filha.
- Muito sério. Mas Jon sempre foi muito profissional, mesmo tendo respondido um pouco o flerte. Foi algo de um dia só, mas Sirius acha que o homem vai me roubar e levar até Las Vegas para casarmos. Não que eu fosse achar ruim...- Ela finalizou com um sorriso malicioso.
- Por isso ele me pediu para contratar outro fisioterapeuta quando vocês mal começaram.
- Ele fez isso? - Lily perguntou indignada.
- Sim, e eu não havia entendido nada, já que você nunca reclamou dele. Agora tudo faz sentido. - Geneviève meneou a cabeça e voltou a atenção para o jornal. - Seu irmão é tão exagerado.
- Você diz isso para mim? - Lily murmurou.
A campainha tocou e as duas se entreolharam, estranhando.
- Eu vou. Você termina o seu café. - Geneviève saiu da cozinha e foi até a porta. Lily ouviu alguns cumprimentos e risadas, então deu de ombros e terminou seu cereal. Colocou a tigela na lava-louça e pegou sua muleta, indo até um banheiro dos fundos não longe dali, com a sua bolsa e seu kit de viagens para escovar os dentes. Ela não iria subir todo o caminho até o quarto com aquela perna.
Quando saiu do banheiro, deu de cara com James a esperando na cozinha. Ele estava debruçado no balcão e mexendo em seu celular até vê-la.
Ele havia feito algo diferente no cabelo? Não, ainda era o mesmo. As roupas? Também não, usava camiseta preta e jeans. O que tinha de diferente nele hoje? Parecia...mais bonito. Era o óculos escuros pendurado na gola da camiseta, que puxava-a para baixo e mostrava um pouco mais abaixo de seu pescoço?
James levantou o olhar, para baixá-lo logo depois para o celular.
- Pronta, Sardenta?
Balançou a cabeça para sair daqueles pensamentos que tomavam um caminho inédito e bem estranho.
- Você quem apertou a campainha? - Ela perguntou indo até a bolsa e guardando o kit.
- Sim, por quê?
- Você nunca toca a campainha.
- Há duas senhoras na casa. Eu não queria abrir a porta e me deparar com cenas que fizessem me arrepender.
- Duas senhoras uma ova, eu ainda sou senhorita. E não é como se andássemos fazendo coisas indecentes por aí só por Sirius não estar aqui.
- Nunca se sabe, não é mesmo? - James parou de sorrir quando viu Lily pegar a bolsa e a muleta, que ele não havia reparado ainda, e começar a ir em direção ao hall de entrada. - Você piorou?
- Não diria piorar, mas acho que a festa foi um pouco demais para mim. Tchau, mãe.
- Tchau, querida. Obrigada pela carona, James. - Geneviève gritou do escritório.
- Sirius me prometeu uma boa grana, então não me agradeça. - James fechou a porta logo depois de Lily passar. - Você tem atividade extra esta tarde, não?
- Sim. Eu acabo mais tarde de segunda-feira.
Ela esperou James destrancar o carro e quando abriu a porta, se deparou com ele ao seu lado.
- Espere. - Ele pediu entrando no carro e puxando o banco do passageiro para trás, dando mais espaço para as pernas. - Me dê a sua muleta.
Lily entregou o objeto para ele e se sentou, agradecida por ele ser gentil o bastante para pensar nessas coisas pequenas, como afastar o banco. James colocou a muleta na parte de trás do carro e deu a volta.
- Voltando ao assunto. Sim, eu saio tarde hoje, então você não precisa me esperar.
- Claro. E você voltará andando? Ou talvez a sua amiga aí atrás tem asas?
- É horrível o fato de você e Sirius serem tão idiotamente parecidos. Urgh!
- Talvez seja por isso que você me ama tanto quanto ele.
Ela revirou os olhos. Lily gostava muito de James, isso era fato, mas não como um irmão.
Ainda bem, ou iria pedir por mais sessões com sua psicóloga por estar querendo beijar alguém que ela amava como um irmão. Ew! Apenas em pensar nisso lhe dava arrepios. Mesmo Sirius sendo um dos caras mais lindos desse planeta, ela não conseguia imaginar algo tão nojento e olha que ele nem era o seu irmão de sangue.
E que história é essa de que ela queria beijar James? Ela não queria, foi só coisa do momento. Quem disse isso? Sua cabeça estava cheia de remédio, só podia.
- Por que essa careta? - James perguntou.
- Estou pensando em Sirius.
- Isso explica. - Ele esperava o portão abrir. - Teve notícias dele?
- Quando chegou em Oxford ontem à noite. Enviou uma mensagem dizendo que chegou na casa do amigo dele e que estava bem. - Ouviu uma risada escapando de James, mas se recuperando logo em seguida. - Qual o problema?
- Ele não está na casa de um amigo.
- Onde ele está então?
James estava a ponto de responder enquanto saía com o carro da garagem, mas ele pisou no freio de repente, fazendo Lily dar um tranco para frente. Entre o portão de entrada da garagem e o portão de saída, havia um carro estacionado.
- Ah não!
- O que ele está fazendo aqui? - James perguntou puxando o freio de mão logo em seguida e saindo do carro.
Lily se embaralhou toda com o cinto e saiu do carro mancando, sem tempo de pegar sua muleta na parte de trás. Por ter que dar a volta no carro daquele jeito, ela chegou já com a conversa iniciada entre Edgar e James.
- ...então eu sugeriria o contrário - James finalizava sua frase.
- Edgar, o que está fazendo aqui? - Ela perguntou.
- Nós havíamos combinado que eu te levaria para Hogwarts, não?
- Isso foi antes da festa de sábado. Eu acho que estava mais do que claro que eu não esperaria sua ajuda.
- Isso é sério?
Lily soltou uma risada pelo nariz, sem acreditar no que ouvia.
-Você está falando sério? - Ela perguntou.
- Potter, poderia nos dar licença?
James se virou para Lily, esperando por alguma resposta. Ainda bem que ele não era um Sirius Black completo, ou aquilo já teria ido longe demais.
- Seremos rápidos. - Ela disse, achando melhor resolver aquilo agora do que continuar enrolando.
Sem poder fazer nada, James apenas segurou a careta de desgosto e voltou para o carro.
- Por que é esse cara te levando para Hogwarts?
- Porque eu, infelizmente, ainda preciso de carona. O que você está fazendo aqui?
- Nós combinamos que, com o seu irmão sabendo de tudo, eu te levaria para Hogwarts. Estou te ligando há meia hora e você não atende.
- Espero que você não esteja se perguntando o porquê.
Edgar jogou as mãos ao alto, indignado.
- Ainda pelo o que aconteceu no fim de semana, Lily? Eu pensei que você ficaria tranquila caso não nos falássemos por alguns dias, mas eu estava enganado.
- Você não sabe o quão enganado você estava. Acabou, eu te disse no sábado. E não estando juntos, quer dizer que você não precisa e que eu não quero que venha até a minha casa mais.
- Você vai acabar tudo por algo pequeno assim? - Edgar parecia longe de estar calmo. - Depois de tantos meses juntos, de falarmos para o seu irmão, de podermos viver a nossa vida tranquilos.
- Depois de você ter socado meu irmão, de ter parecido tão feliz em brigar com ele quanto o contrário, de você ter chamado uma garota para ter algo conosco sem me consultar...e por muitas outras coisas. - Ela respirou fundo, querendo encurtar a conversa por conta da dor que só aumentava agora, estando ali parada. - Não dá mais. E, por favor, não me procure novamente.
Não esperou pela resposta impertinente dele, que sabia que viria, e voltou para o carro, colocando o cinto com um pouco de raiva. Os dois assistiram quando Edgar acelerou e passou por eles, cantando pneu.
- O que disse pra ele?
- Nada do que ele já não soubesse.
James finalmente pegou o caminho para Hogwarts, enquanto Lily olhava pela janela, pensando em Edgar. Com qual direito ele tinha de ficar bravo? Lily não havia feito nada, além de ter sido bem legal, considerando as circunstâncias.
Deveria ter reagido até pior, mas não sabia o porquê de estar levando as coisas tranquilamente. Aquilo não havia lhe acertado mais do que deveria. Era seu namorado, ele fez merda e Lily não estava mal como achava que ficaria. Estava mais mortificada pelo o que aconteceu no fim de semana com James, o beijo e a loucura que ia e vinha em sua cabeça, do que Edgar.
Respirando fundo, querendo esquecer de toda a confusão que se meteu naquele fim de semana, ela pegou seu celular e ligou, não precisando esperar nem um segundo para ser atendida.
- Eu estava com o celular na mão para te ligar.
Ouvir a voz do seu irmão, não importando se ele tivesse sido um idiota quando se tratava de Edgar, lhe confortava. Era como um chocolate quente depois da chuva torrencial no inverno.
- Como você está? - Ela perguntou.
- Bem. Estou indo falar com o reitor primeiro, depois tenho alguns apartamentos para visitar. - Ela podia ouvir a excitação na voz dele. - James foi te buscar?
- Sim. Estamos no carro.
Ela olhou para o dito cujo ao seu lado.
- O que aconteceu? - A voz de Sirius mudou.
- Do que está falando?
- Sua voz está estranha.
- Nada aconteceu, está tudo bem. - Ouviu que o irmão estava prestes a contestar, então ela adicionou rapidamente. - James me disse que você não está na casa de um amigo. Onde você está?
Aquilo pareceu o suficiente para calar Sirius, ela percebeu. Ele demorou alguns segundos para responder, enquanto Lily via que James sorria triunfante.
- Ele é um babaca. - Sirius resmungou. - Estou no apartamento da prima dele.
- Marlene?
- Sim.
- Por que no apartamento dela?
- Porque, Lily, eu fico aqui de vez em quando. Está satisfeita?
- Não! Por que não me disse?
- Porque não, oras. Eu não preciso dizer toda hora com quem eu fico.
- Isso é verdade, se a missiva for a mesma para mim.
Silêncio novamente e James deu um tapinha encorajador nela.
- Você é uma idiota que só fala bobagens. - Sirius disse, por fim. - Eu preciso ir, o reitor está me esperando. Eu te ligo à noite.
- Antes ou depois de transar com...
A ligação cortou logo em seguida. Sirius desligou na sua cara, o insolente.
- Marlene é legal. - James soltou, defendendo a prima.
- Eu sei que ela é, por isso mesmo que ele não precisa esconder onde está e com quem. Não é como se eu fosse agir igual a ele.
Eles entravam no estacionamento da escola e viram Remus esperando.
- Acho que ele pensa que, se você não sabe o que ele faz, você não vai querer fazer. - James desligou o carro ao estacionar.
- Bem a cara dele fazer isso mesmo. - Ela reclamou. James se apressou para o seu lado enquanto ela saía e entregou sua muleta. - Obrigada. Olá, Remus.
- Olá, casal. - Ele cumprimentou. Lily arregalou os olhos. - O que foi, Lily?
Casal?
- Está com dor? - James perguntou preocupado.
- Não. Não, não. Nada. Só pensei sobre uma lição, se esqueci em casa ou não.
Idiota. Remus sempre chamava uma dupla assim. Ele vivia chamando James e Sirius de "casal" como uma piada. Céus, ela precisava relaxar sobre aquilo.
- Você quer voltar? Ainda dá tempo. - James perguntou olhando para o relógio.
- Lembrei que coloquei dentro do livro, então tenho tudo.
Os dois amigos começaram a discutir sobre futebol enquanto os três seguiram caminho até os jardins de Hogwarts. Lily cumprimentava um ou outro aluno, vagando entre a conversa ao seu lado e aos outros alunos em volta. Viu Edgar com o grupo de futebol e o observou por um tempo.
- Não, Werner jogou muito mal. Aquele tornozelo dele está acabado. - Remus disse.
- Não viaja, Remus. O cara foi o único que correu o campo inteiro ontem. - Eles chegavam perto das escadarias principais e Edgar olhou para ela. Parou de falar com os amigos e se recostou no carro, olhando-a de volta. - Mas você só quer arrumar desculpa pelo seu time ter perdido.
- Não viaja você, James. Mal encostar na bola ele encostou.
- Ele quase marcou no primeiro tempo! Como não encostou? - Sem parar de tagarelar, James pegou a muleta de Lily - que se assustou um pouco por não estar prestando atenção neles -, e passou para Remus, que a pegou. - Desculpa horrível de quem não aceita perder, muito menos de 3. - Logo em seguida, ele passou o braço de Lily pelo seu pescoço. - Segure firme. - Pediu. Lily assim o fez. James enlaçou a cintura dela com um braço e abaixou, colando a lateral das cinturas de ambos, levantando Lily e subindo as escadas. - Então, se você quiser continuar a dar desculpa que o seu time todo está um lixo, então fique a vontade. Mas não é culpa de Werner vocês terem levado três gols e não terem feito nenhum.
Ela não sabia como ainda escutava o "blá blá blá" dele, porque sua mente parecia ter parado de funcionar no instante que sentiu o braço de James enrolar em sua cintura e a levantar, impedindo que ela subisse as escadas por contra própria.
A lateral de sua cintura estava colada na dele e seu rosto estava tão perto dele, sentindo aquela loção pós-barba, o perfume ...
Cadê o fim dessas escadas?
Quando os últimos degraus vieram, James a colocou de volta no chão e devolveu sua muleta, completamente alheio a explosão cerebral que deu na ruiva, ainda falando sobre futebol com Remus.
- O que foi?
A voz de Alice ao seu lado quase a matou de susto.
- O que foi o que?
- Você estava com uma cara de desespero. - A amiga riu. Lily tentou rir com ela, mas apenas soltando um barulho estranho com a boca e uma careta. Alice parou de rir e franziu o cenho, não entendendo a reação de Lily.
- Eu vou treinar depois das aulas, então eu te espero perto do prédio das monitorias. - James disse já de longe.
- Ok. - Ela respondeu com a voz falha.
James e Remus entraram no prédio da direita, enquanto as duas garotas entraram no da esquerda.
- Vai me dizer qual é o problema?
- Você vai rir da minha cara se eu contar.
- Eu já riu da sua cara normalmente, qual seria a diferença?
Talvez ter alguém sabendo sobre a loucura que andava rondando sua mente, a acordasse para a realidade.
Ou não.
Que alguém a salvasse, porque sentia que a coisa ia ser complicada nesses próximos dias.
A academia da escola ficava alguns níveis abaixo do terreno. Para acessar, você tinha uma porta lateral que daria diretamente na sala de aparelhos ou você poderia acessar por uma porta mais acima, onde dava em uma passarela de metal que circunda toda a sala de equipamentos. Antigamente, ali era uma sala de disputa de xadrez, onde os espectadores ficavam naquela passarela assistindo todos os jogos de cada mesa. Hoje em dia, era apenas para algum treinador ficar de olho em aluno...
... ou Lily Evans ficar de olhos em James Potter.
Tinha monitorias para supervisionar, mas quem disse que tinha cabeça para falar sobre qualquer coisa, além de um moreno bonito, de olhos sedutores e corpo bem definido? Duvidava que os alunos gostariam de discutir sobre isso. Talvez alguns, mas não todos.
Por isso foi até ali, deixando-os com exercícios o suficiente de História Avançada para mantê-los bem ocupados e ela sair de lá, querendo acabar com aquela angústia horrível. Passou o dia inteiro sem ver James, graças as agendas de aulas diferentes e o almoço sentada em um canto isolado do jardim. Alice ficou com ela, apesar de não ter dito nada ainda para a amiga sobre sua loucura. Mas quando não conseguia tirá-lo da cabeça, decidiu que precisava vê-lo. Talvez um dia inteiro longe teria feito bem. Ela o veria e teria certeza que sua loucura passou.
Abriu a porta que dava acesso à passarela e o barulho de equipamentos, conversas e música alta lhe atingiram. Dava passos lentos enquanto seus olhos procuravam no nível abaixo pelo seu alvo. Não demorou muito para achá-lo.
Sirius, James e alguns amigos gostavam de se exercitar na escola e, principalmente, praticar lutas. Então não se surpreendeu ao achar James no canto da sala, afastado de todos, com Frank e uma punching box.
Ela se apoiou na barra da passarela e fixou seus olhos nele, assistindo, observando cada gesto dele. Frank segurava o saco de areia enquanto James dava socod ritmados e bem ensaiados. Frank o guiava, parecendo dar algumas dicas. E Lily assistiu cada movimento como se fosse o seu filme preferido, não querendo perder nenhum detalhe: os músculos em evidência agora por conta do exercício, como seu corpo se movia; seu cabelo molhado caindo em seus olhos; suas mãos - que ela sabia que eram bonitas-, flexionando agora durante a pausa...
Todo e qualquer movimento dele, naquele momento, era algo novo, como se visse pela primeira vez. Era uma outra perspectiva, um outro jeito de vê-lo.
Ali ele não era o Descabelado que estava acostumada, o cara que roubava seu café da manhã, que ria e fazia piadas idiotas com seu irmão e Remus ou aquele menino que enchia seu saco quando criança. Era outra pessoa, um novo cara...ali, ela estava descobrindo James Potter.
E James Potter era muito bonito, charmoso e tão sexy. Como era possível aquilo ser novidade, aquele tipo de informação passar batido por tanto tempo? Sentia que conhecia uma nova pessoa desde sábado, alguém que chegava apenas agora em sua vida e lhe mostrava que seus olhos estavam cobertos todo esse tempo.
Tudo por causa de um beijo, um maldito beijo que nem havia sido com ela! Aquilo era loucura!
Loucura e tão perigoso. Meu deus, tão perigoso. O que ela faria agora? O que ela podia fazer agora? Não dava para esquecer aquilo tudo assim, do nada. Fingir que aquilo tudo ali não existia. Era muito para se ignorar, muito para fingir que não estava na sua frente.
Assobios chamaram sua atenção e viu um trio de caras olhando para ela, assobiando ainda mais agora que ela os olhava. Aquilo fez com que alguns dos outros ocupantes da sala se virassem, mas James estava focado no que fazia, assim como Frank. Lily mostrou o dedo do meio para os três caras, que riram e se aproximaram.
Mais no fundo da sala, James acenou para Frank, avisando que estava pronto para mais uma série. Frank segurou o saco de areia e ele voltou ao exercício.
- Você vai machucar o seu ombro assim, James. - Frank avisou quando o amigo parecia pegar mais pesado. - Vai mais devagar.
- Foda-se o meu ombro. - Reclamou entre um soco e outro.
Não estava com raiva, mas sentia que precisava botar algo para fora. Desde a semana passada, em sua casa, usou o próprio saco de areia e o socou até sentir que seus ossos sairiam do lugar se continuasse. E hoje, era a mesma coisa: precisava acertar algo, colocar uma energia bizarra que o tomava, para fora. Tinha que tirar aquela sensação de seus ombros, de seu corpo.
Tinha uma ideia do que era. No fundo, sabia o que estava lhe deixando fora dos trilhos, mas não queria pensar naquilo, pois só traria mais e mais pensamentos que não queria ter. Então, ia descontar naquela porcaria de saco de areia.
- Que porra é aquela? - Frank perguntou.
Percebeu que Frank olhava por cima de seus ombros e, quando se virou, viu três idiotas logo abaixo da passarela fazendo uma cena para...
Ah, merda. Pegou a toalha no banco ao lado, passando pelo rosto e pescoço, e se dirigiu até lá.
O que ela estava fazendo ali?
- Cinderela, jogue suas tranças. Meu coração, tão apaixonado, não aguentaria nem mais um minuto sem você. - Um dos caras falava.
- É Rapunzel, idiota! - Lily o corrigiu.
James revirou os olhos. Agora que ela deu atenção para eles, só iria piorar.
- Não é a Pequena Sereia que tem cabelos vermelhos? - Outro deles perguntou.
- Exato. Estou louca para te afogar no Tâmisa.
Se enfiando entre os três caras, James se virou para eles.
- Querem problema com Sirius? - Foi o suficiente para que os três parassem de rir.
- Ele não está aqui hoje. - Um deles resolveu falar após uma pausa rápida.
- Mas eu estou.
- Porra, não se pode nem mais brincar nessa escola. - O cara resmungou, mas olhou para Lily e sorriu. - Nos vemos por aí, Pequena Sereia.
Os três caras voltaram para seus exercícios, enquanto James subia em um banco embaixo da passarela. Ficou ainda um bom metro abaixo dela, mas perto o suficiente para conversar.
- Eu pensei que você terminaria em uma hora.
Os olhos dela estavam diferentes, diria que estavam quase iluminados. Porém, escuros.
- Acabou mais cedo. - Ela deu de ombros e desviou o olhar para longe dele. - Mas não estou com pressa, você pode terminar o que precisa fazer e eu espero.
- Você está bem? - Ele perguntou, achando-a muito estranha. Lily desceu o olhar para ele de novo.
- Sim, tudo bem.
- Não foi Bones sendo estúpido, certo? - Ela negou com a cabeça. - Você me diria se fosse o caso?
Ela riu, mas não respondeu de imediato.
- Tudo está bem, Descabelado. Tudo está lindo, maravilhoso...- Ela limpou a garganta. - Um pedaço do paraíso na terra.
Lily, definitivamente, estava estranha.
- Eu vou tomar um banho rápido e podemos ir. Vai indo para o carro. - Ele tirou a chave do carro de sua calça e a entregou. - Do jeito que você está andando, você chega lá e vou ter chego antes.
- Não se faz piada de uma pessoa com dor, James Potter.
- Nunca faria piada de você. - Ele sorriu, maroto.
A ruiva fez uma careta para ele e foi em direção a saída.
- Até amanhã, Ariel. - Alguém gritou da sala e Lily mostrou os dois dedos do meio para ele.
James pulou do banco balançando a cabeça. Que sorte de Lily não ser sua irmã, porque honestamente, ela parece hipnotizar os caras ao redor.
Se despediu de Frank e foi no vestiário, se apressando para tomar uma ducha. Enquanto se vestia, alguns ocupantes da academia entravam, conversando. Aqueles caras não eram seus amigos, sendo considerados um grupo de idiotas, então não deu atenção a eles.
- Potter. Qual é a sua, cara?
- Qual é a minha o quê? - Perguntou sem se virar, fechando sua mochila.
- Black não está aqui, ela não namora mais com o idiota do Bones...nos dê espaço para tentar.
- Vocês estavam tentando e ela não parecia estar indo na onda. - Pegou sua mochila e jogou pelo ombro, encarando o trio. - Não me culpe pela falta de tato de vocês.
- Veremos quando eu quiser tentar pra valer.
O cara que parecia a cabeça do trio sorriu para ele e foi para a ducha.
- Imbecil. - Murmurou. - Eu vou matar Sirius e essa ideia estúpida dele.
Por que, no final, ele estava fazendo aquilo mesmo? Ficar de olho em Lily? Disse que iria dar carona, mas não era o seu trabalho - e o de ninguém, em sua sincera opinião -, ficar de olho nela.
Os caras babavam nela e ele sabia, assim como Sirius, mas ninguém se aproximava ou fazia aquele tipo de graça perto deles. Aquilo era uma novidade que não sabia como reagir, se é que tinha que reagir.
Oh inferno. Era segunda-feira ainda e via que teria uma longa semana com aquilo.
Com certeza ia matar Sirius quando voltasse.
Chegou no carro e a encontrou sentada no banco do passageiro, pernas para fora e ouvindo música. Ele parou alguns metros distante e a assistiu por um momento, tão feliz e relaxada. Lily havia passado por poucas e boas na vida, desde o seu pai biológico bêbado, passando pela morte de Orion, o ataque de Peter, seu acidente de carro... Tudo poderia ter sido pior, porque ela conseguiu passar por tudo aquilo, mas tudo poderia ter sido melhor também.
Ela havia se tornado uma mulher incrível apesar dos pesares e, mesmo ele não sendo seu irmão, tinha orgulho dela.
E outras coisas também, mas não queria pensar nelas. Tinha que deixar de lado.
- A bateria do meu carro agradece esse rádio ligado tão alto.- Se ajeitando no banco, Lily olhou para ele e o encarou de um jeito estranho por alguns segundos. Mas o que diabos ela tinha hoje? - Qual é o diabo do seu problema, Sardenta?
- Eu pareço ter um problema?
- Sim. Você está tensa.
- Sério? Bom, não percebi.
Deu a volta no carro e jogou a mochila no banco traseiro, antes de se acomodar atrás do volante.
- Se tem algo de errado, me fale. Especialmente se for comigo.
- Não! - Ela alongou a palavra. - Não há nada de errado com você. Prometo.
Ligou o carro e saiu do estacionamento, pensativo. Tinha alguma coisa com ela, algo diferente, mas não conseguia ter ideia do que era. ELe não havia feito nada com ela, certo? Talvez disse algo que ela não gostou? Mas conhecendo Lily, ela teria deixado bem claro se fosse algo daquele tipo.
No banco do passageiro, Lily olhava pela janela e mordia os lábios com força. Iria ter uma síncope com tudo o que estava sentindo naquele momento. Vinham em ondas, atingindo-a de repente, sem ter nenhuma chance de respirar. Era louco. Não entendia como a mesa podia virar desse jeito, como um cara que estava acostumada em sua vida, pudesse começar a tirar sua paz tão rápido.
Era James, caramba. Ela o conhecia tão bem. Por que um beijo que ela viu, lhe deixou assim? Apenas em pensar naquele beijo, perdeu o compasso da respiração. Que inveja que sentia da Fulana Escocesa-Emy-Emmeline. E de todas as outras.
Como ela podia ter aquele beijo também? COMO?
- Tem notícias de Sirius? - Ele perguntou.
Aquela pergunta era perfeita para parar de pensar em besteira.
- Não. As coisas devem ter ido bem com o gestor, já que ele não ligou. Deve estar visitando os apartamentos. - Ela respondeu sem olhá-lo. - Ou transando com a sua prima.
Aquilo o fez rir e Lily cometeu o erro de virar para ele, seus olhos caindo diretamente em sua boca. Estavam parados em um semáforo, assim como aconteceu no beijo de sábado. James falava alguma coisa, mas ela não ouvia bulhufas do que saía dali. Apenas prestava atenção em sua boca, em seus lábios que eram tão chamativos e bonitos. Pareciam tão macios. E a sua língua quando soltava alguma palavra específica...
Seu peito apertava cada vez mais, a ponto de lhe sufocar.
- Lily? - a voz dele voltou até seus ouvidos e ele soava preocupado. - Lily, você está bem?
- Por que?
- Você está vermelha, com a mão no peito. Consegue respirar?
Aquele tipo de pergunta podia acontecer, ela teve que confessar. Sabendo que ela podia ter ataques de pânico às vezes, era normal que ele ficasse preocupado ao vê-la daquele jeito, mas estava longe de ter um ataque de pânico naquele momento.
- Sim, consigo. Desculpe, não é nada. Eu vi que posso ter algumas reações com os remédios, às vezes. - Ela mentiu.
- Que tipo de reações? Você precisa me falar, eu vou estar frequentemente com você essa semana.
Ela engoliu com dificuldade ao ouvir aquilo. Seria uma longa semana de tortura.
- Nada demais. Apenas fico aérea.
Ele pareceu acreditar, para seu alívio.
Chegaram na casa dos Black- Evans e quase ficou triste por morar tão perto de Hogwarts. Ao mesmo tempo, feliz por poder manter distância dele até a manhã seguinte.
- Obrigada pela carona. - Disse quando James já tirava sua muleta do banco de trás enquanto ela saía do carro.
- De nada. Amanhã na mesma hora?
- Sim. E você pode entrar sem apertar a campainha. Não vamos quebrar um hábito de anos, certo?
Ele deu de ombros e entregou a muleta para ela.
- Até amanhã, Sardenta.
De uma decisão e coragem que não sabia de onde tinha vindo, Lily se aproximou dele e deu um beijo em sua bochecha. Afastou-se o suficiente para olhá-lo nos olhos.
- Até amanhã, Descabelado. - Ela sussurrou.
Deu as costas e entrou na casa, perdendo a cara de choque dele.
Havia decidido, então?, perguntou a si mesma quando fechou a porta. Está indo para cima de James Potter? Iria tentar conquistá-lo?
- Ah sim, eu estou.
N/A:
Oi você aí. Tudo bem?
Agora a história está mostrando um pouco mais da sua identidade. Alguém estava esperando a Lily dar uma reviravolta tão rápida e começar a querer atacar James, o pobre coitado que está lutando para não ir naquela direção?
Resposta para reviews sem login:
MBlack: Oi, linda. As reações foram feitas com uma cabeça um pouco mais madura (tipo o James), justamente porque eu nao queria entrar em um assunto que pode estar perto do coração de tanta gente e colocar algo que eu não concordo. Me sentiria irresponsavel mesmo, e fico feliz por ter gostado. E sobre as denuncis e impunidades, infelizmente, é algo bem comum, né. A gente ve muito disso toda hora e acho triste demais. Mas veremos como ira acontecer por aqui ;) Depois do capitulo de hoje, espero que voce tenha sentido ainda mais Jily vibes LoL hahaha Beijooos
Flaaa: Owwwn obrigada pela review *-* que bom que gostou do capitulo. Espero que tenha gostado deste também e que goste dos outros também. Beijooos.
Sneak peek, vocês já sabem, amanhã no Instagram ;) E não esqueçam daquela comentadinha linda e marotinha :D
Beijos e até mais! :*
P.S: eu odeio a palavra "muleta", mas não tenho outra solução. Que raiva.
P.P.S: Geordie é o dialeto de Newcastle. Eu trabalho com uma pessoa de lá e quando ele brinca falando em geordie (sem o sotaque mais "inglês" dele), pode virar uma conversa completamente "em grego", mesmo para os britânicos e as pessoas fluentes em inglês britânico. Eu adoro!
