J~L


I love you

Eu te amo

But I gotta stay true

Mas tenho que me manter verdadeiro

My morals got me on my knees

Minha moral me deixou de joelhos

I'm begging, please

Estou implorando, por favor

Stop playing games

Pare de jogar esses jogos

I don't know what this is

Eu não sei o que é

'Cause you got me good

Porque você me tem totalmente

Just like you knew you would

Assim como você sabia que teria

I don't know what you do

Eu não sei o que você faz

But you do it well

Mas você faz bem

I'm under your spell

Eu estou sob o seu feitiço

You got me begging you for mercy

Você me deixa implorando por misericórdia

(Duffy - Mercy)

Terça-feira e Lily Evans se descobriu obcecada.

Você já teve obsessão por algo do dia para a noite? Talvez um filme, série ou livro que te fez cair de amores pelos personagens e história? Uma música que ouviu pela primeira vez e a escutou em looping por dias, semanas, meses? Uma ideia que não poderia deixar passar e tinha que fazer algo sobre?

Um cara ou garota bonito/a que, aparentemente, beija bem e que está tão perto de você?

Pois Lily Evans encontrava-se obcecada por James Potter. Assim, do dia para a noite, graças aquele maldito beijo que viu no carro no sábado. Já se passaram dois dias e ela não tirava aquilo da cabeça, aquela cena, aquela curiosidade, aquela vontade...

Mas as coisas, agora, mudaram. Mudaram muito, mudaram intensamente, fazendo-a acordar naquela manhã com o espírito renovado. No dia anterior, só pensava que a loucura que vinha pensando de James seria sua ruína, mas hoje era diferente. Hoje ela sabia como lidar com aquilo...ela sabia o que queria.

E ela queria um beijo de James Potter.

Um beijo, pelo menos. E tinha que fazer algo sobre isso.

Pensou em colocar uma roupa bonita, um pouco de maquiagem, mas aquilo não ia funcionar com ele. Sabia um pouco do tipo de mulher que James gostava e maquiagem e roupas extravagantes estavam longe de lhe chamar atenção. E ele a estranharia mais do que qualquer coisa, pois estava acostumado com Lily do jeito mais natural possível.

Então não seria sua roupa que mudaria hoje, mas sua atitude. Não teria por onde começar além disso. Deixar claro que estava interessada? Talvez fazê-lo se interessar, como quem não quer nada? Ainda não havia decidido qual arma usar, então esperaria o dia começar e ver por onde seria levada. Não se importava em improvisar.

- Bom dia, querida.

Lily sorriu para a mãe quando entrou na cozinha naquela manhã.

- Bom dia. Não saiu cedo para o trabalho hoje? - Perguntou enquanto servia-se de suco e pegava algumas frutas para comer.

- Hoje eu posso chegar um pouco mais tarde, mas já estou saindo. - Geneviève respirou fundo. - Essa casa é tão silenciosa sem o seu irmão.

- Também acho. De um jeito bom e ruim.

- Para uma mãe, garanto que é só ruim.

Lily se virou para a mãe.

- Tem que se acostumar com a ausência dele, pois em alguns meses ele não estará mais aqui durante a semana.

- Ah, eu sei. E isso me corta o coração só de pensar que vocês dois não estarão aqui.

- Não podemos confirmar nada sobre mim ainda. Eu não tenho nenhuma aceitação.

- Lily, faça-me o favor de parar com isso. Suas notas são ainda melhores do que as do seu irmão. A questão era que seu pai conhecia o gestor de Oxford e, na época, você não queria ficar na Inglaterra. Apenas por isso você não tinha um dossier com o seu nome nele, pronto para ser estudado e acompanhado ao longo dos anos. Senão, você seria aceita com tanta rapidez quanto Sirius.

- Mas já está bem tarde.

- Não está. Logo as aceitações começarão a chegar para todos.

Deu de ombros, não querendo mais tocar no assunto. Era algo que estressava e algo que não podia fazer nada, a não ser esperar. Então preferia jogar para o lado.

- Eu preciso ir. James está vindo te buscar?

- Espero que sim.

- Claro que ele virá, filha. Não te deixaria na mão assim.

Enfiou um pedaço de maçã na boca para não rir. Sua mãe não tinha ideia que ela dizia aquilo na intenção de vê-lo e não de preocupação em não ter carona para Hogwarts.

Se despediu da mãe e tentou comer o seu café da manhã com calma e em paz, tentando pensar no dia a frente que teria. Não tinha aulas extras hoje, mas tinha uma reunião com a classe de monitoria de Química. Teria que ver a cara de alguns idiotas, mas seu trabalho era ajudá-los a passar de ano e não julgá-los pela suas vidas sociais que os tornavam grandes babacas.

Ouviu a porta da frente abrir e seu coração disparou. Ouviu os passos vindo na direção da cozinha e colocou as duas mãos espalmadas no balcão, querendo ganhar forças para aquele momento.

Estava cada vez mais perto, mais perto...A mão dele entrou em seu campo de visão e roubou uma uva.

- Bom dia, Sardenta.

Inferno, ele estava tão diabolicamente bonito. Tão miseravelmente cheiroso...

- Bom dia, Descabelado. Está adiantado hoje.

- Eu estou pegando você e não Sirius. Eu sei que não gosta de estar atrasada.

Ela queria chorar ali mesmo. Um beijo só...por favor, queria um beijo e talvez seria o suficiente.

Só um beijo de James Potter.

- Então...- Tossiu de leve. - Eu vou terminar de me arrumar, assim vamos fazer valer a pena que você veio cedo.

- Eu te espero aqui.

James sentou no banco ao seu lado e pegou o celular. A vontade de pedir para ele subir junto era tão imensa, mas ele chamaria uma ambulância pensando que ela tinha pirado.

Vamos com calma, querida.

- Mas eu não estou te apressando. - Ele disse ainda olhando para o celular.

- O quê? - Ela perguntou, sem entender.

- Você disse "vamos com calma, querida". E eu disse que não estou te apressando. - Ele riu e deu uma rápida olhada para ela, antes de voltar para o celular. - Apesar de preferir "querido", mas você fala como quiser, então nem sei porque eu falo alguma coisa.

Não estava crendo que, agora, deu para pensar alto. Se tinha algo que não podia fazer na frente dele, era começar a pensar alto todas essas besteiras. Não importava se usando feminino ou masculino para qualquer palavra que fosse.

Ela apenas se virou e foi para o quarto, terminar de se arrumar, tentando tirar um pouco James Potter de seu sistema. Mas aquilo era ridiculamente difícil, pois quanto mais o via, sentia seu cheiro, ouvia e prestava atenção em sua voz grossa, mais ela pirava. Enquanto escovava os dentes, só pensava na boca dele. Quando colocou sua camiseta, pensou nos braços que viu sendo trabalhados ontem. Quando colocou sua calça, lembrava das pernas dele sempre bem marcadas nos próprios jeans.

Mas o que diabos estava acontecendo com ela? Que obsessão louca era essa? Não podia ser normal, não era possível. Quando ela ficou daquele jeito por alguém antes? Ninguém! Nem Gideon na época quando tinha uma paixão louca por ele.

Parou no meio do quarto, a calça no meio das pernas. Será que deveria deixar aquilo de lado, esquecer aquela loucura? Era James, afinal das contas. Se Sirius descobrisse que algo aconteceu entre eles, provavelmente teria um ataque. Ou um xilique bem grande.

James poderia ter um beijo maravilhoso - pelo o que viu, claro -, mas havia outros caras que deviam beijar tão bem assim também. Alguém que iria querer ficar com ela, que gostaria de beijá-la quantas vezes quisesse, e que...que tivesse o pacote completo de ser um cara legal, bonito, beijasse bem e fosse maravilhoso.

Aquele cara tinha que existir, porque senão James Potter parecia ser o único por perto que encaixava na maioria dos quesitos acima, tirando o "querer ficar com ela" e "beijá-la quantas vezes quisesse" da lista.

O relógio do hall anunciou às 8h e ela se apressou para terminar de vestir a calça sem morrer de dor. Olhou para a muleta e suspirou, pegando-a. Sua perna doía menos do que ontem, mas era melhor lhe dar um sossego. Amanhã teria sua sessão de fisioterapia e costumava aliviar muito suas dores. Mal podia esperar por aquela sessão da semana.

- Pegou tudo? - James perguntou quando esperava por ela no hall de entrada.

Olhando-o novamente, mesmo que tivessem passado dez minutos desde a última vez, a fez rezar para que esse outro cara existisse, porque James era muito bonito e ficar tendo essas loucuras, iria acabar dando muito mal.

- Imagino que sim.

Assim como ontem, ele a ajudou com o assento do banco e colocou sua muleta atrás. Quando saíram da garagem, James olhou para os lados, provavelmente tentando ver se um Edgar Bones não fosse pular na frente do carro dessa vez, mas tudo estava calmo.

Diferente do trânsito, infelizmente.

- Pelo menos estamos adiantados. - Ele comentou e ligou o rádio enquanto paravam no trânsito caótico na frente da casa.

Eles seguiram assim por un longo tempo, avançando poucos metros a cada minuto. Eles estariam tão atrasados que, com certeza, iriam perder a primeira aula. Lily conferiu em sua agenda que seria Inglês Avançado, matéria que tinha nota máxima, então não era tão preocupante.

- Qual sua primeira aula hoje? - Ela perguntou.

- Acho que Espanhol. Não, Matemática. Não lembro...

Com o trânsito parado, ele puxou o freio de mão e se virou, tentando alcançar sua mochila no banco de trás. Fazendo isso, ele se aproximou dela enquanto tinha o braço esquerdo entre os dois bancos. Lily apenas fixou seus olhos nele, tão perto, estudando cada canto de seu rosto...a maneira que ele mordia o lábio pelo esforço, o pescoço dele completamente ao alcance, pedindo para ser beijado ali...

O cheiro dele era maravilhoso. Era perfume e loção pós-barba...e era delicioso.

- Matemática. - Ele disse olhando para um papel que tirou da mochila e voltava a sua posição de antes, completamente alheio à Lily Evans em combustão ao seu lado. - Não tem problema se perder essa.

Ele jogou o papel para trás e voltou a avançar com o carro os poucos metros que pôde.

- Você sempre foi bom em matemática. - Ela se viu dizendo, tentando voltar ao normal.

- Sempre foi algo simples na minha cabeça, assim como Química é fácil para você.

Química! Por que ele estava falando sobre química bem agora? Não era aquela química que gostaria que fosse fácil no presente momento.

- Só testando para saber...- Murmurou ela.

- O que quer dizer?

- Nada!

James olhou esquisito para ela, mas não comentou, voltando a prestar atenção no trânsito. Ele chegou a sussurrar que talvez fosse um acidente, mas estava apenas pensando alto. Ele pegou seu celular e parecia enviar uma mensagem. Arrumando-se no banco para ficar mais de frente para ele, resolveu puxar conversa e começar a cavar algumas informações.

- Você gosta de loiras! - Ela disse de supetão.

Sem parar sua mensagem, ele franziu a testa.

- Eu não desgosto delas. - Respondeu e largou o celular, avançando novamente com o carro.

- Fulana Escocesa-Emy-Emmeline é loira.

- Fulana Escoce...? - Ele riu. - Voltamos com ela na conversa? Pensei que não precisávamos falar dela desde sábado.

O maldito sábado que ele beijou aquela garota na sua frente, mostrando que Lily estava perdendo beijar aquela espécime de deus do beijo ou algo assim.

- Ela é loira, não? - Lily continuou.

- Da última vez que chequei, sim, ela é.

- Gosta de morenas também?

- Não desgosto delas tão pouco. Que tipo de pergunta é essa?

- Orientais?

James revirou os olhos.

- Eu não tenho um tipo de mulher, Sardenta, se é essa a pergunta. Eu gosto daquela que me atrai no momento, seja qual cor, estilo, cultura ou o que for.

- Hm. - Ela olhou pela janela por um segundo, antes de se virar novamente. - Ruivas também, então.

Ele não respondeu e muito menos se mexeu, apenas mantendo os olhos nela, assim como ela nele. Até o momento que ele se virou para frente e engatou o carro. Abriu a janela, colocando a cabeça para fora e girando o volante.

- Se entrarmos naquela rua ali na frente, conseguiremos escapar desse trânsito.

Acelerando, James pegou a via da contramão e passou por todos os carros que estavam parados e entrou na rua que comentou. Lily só não saiu rolando dentro do carro, porque usava o cinto de segurança e se segurou na porta e no banco.

- James! - Ela exclamou. Não era sempre que o chamava pelo nome, mas a situação exigia algo mais curto.

- Desculpa, lembrei que tenho prova de Espanhol. Não posso perder a primeira aula.

- Mas não é Matemática a sua primeira aula?

- Tanto faz.

E ele continuou acelerando e ultrapassando os carros como um louco, até chegar em Hogwarts quase em tempo recorde. Ele pulou para fora do carro e pegou sua mochila e a muleta de Lily, enquanto ela ainda desatava o cinto de segurança. James abriu a porta para ela, como se a apressasse.

- Pode ir, se quiser. Eu não consigo correr essa maratona com você.

- Eu não vou correr, está tudo bem. Tudo bem. - Ele parecia quase sem fôlego agora.

- Remus deve estar por aqui, ele pode me acompanhar.

- Eu enviei uma mensagem para ele avisando para não esperar, porque estaríamos atrasados.

- Então eu posso ir sozinha. Vai logo para a sua prova.

Ela via que havia uma dúvida enorme em seus olhos castanhos-esverdeados, uma luta sendo travada entre ir ou ficar. Se encararam por cinco segundos, até ele quebrar a conexão.

- Desculpa, Sardenta. Eu tenho...que ir.

Trancando o carro com o alarme, James saiu correndo pelo estacionamento, deixando-a ali, sozinha.

Lily poderia estar confusa ou um pouco ultrajada pela saída dele, mas ao invés, sorriu.

Havia algo ali, algo que ela podia trabalhar.

J~L

James abriu a porta da sala de Matemática Avançada como se estivesse na guerra e precisava matar inimigos. A professora deu um pulo do lugar, assim como os alunos.

- Trânsito. - Ele disse um pouco sem sentido. A professora olhou para ele por alguns segundos e permitiu sua entrada.

Remus guardava um lugar para ele ao seu lado e assistiu o amigo se aproximar com aquela cara pálida e olhos levemente arregalados.

- Bem, vocês não chegaram tão atrasados. - Resolveu comentar algo neutro.

James tirou o livro da matéria da mochila, jogou a última no chão, sentou, se virou para Remus com o dedo apontado e disse:

- Não!

Sem entender nada, Remus levantou as mãos no ar.

- O que eu fiz?

- Não. Não, não, não. - James continuou a repetir, abrindo o livro na página correta. Sentou bem ereto e com o olhar para a lousa. - Não!

- O que está acontecendo?

- Eu estou louco, só pode. Por que não me internaram ainda?

- Dá para você falar coisa com coisa? Assim não posso te ajudar.

- Não tem como. - James se virou para o amigo. - Eu enlouqueci. Estou vendo coisas, ouvindo coisas...não! Não e não!

Alguns alunos pareciam acompanhar o discurso dele, mas James não prestava atenção em mais ninguém ali.

- Tipo, espíritos? - Remus perguntou, rindo.

- Seria melhor se fosse.

A professora cortou os dois, pedindo silêncio enquanto explicava o exercício. Mas James não poderia se importar menos.

Meu deus, o que foi aquilo? Era ele entendendo coisas erradas? Tudo começou ontem, com aquele beijo de despedida. Quando Lily sequer havia feito isso em sua vida? Talvez nunca. Devem ter trocado beijos na bochecha em situações bem específicas, como aniversários, Natal e algo assim. Mas por uma carona? Daquele jeito que foi? Não, foi muito incomum.

E agora aquelas perguntas sem sentido sobre o tipo de mulher que gostava...perguntando de RUIVAS! Talvez ela estivesse tirando uma com a cara dele, só podia. Ou ele que estivesse alterado o suficiente para interpretar as coisas mais bobas da vida, como se Lily estivesse interessada.

- Nada a ver. Você está louco. - pensou alto.

- Sim, você está e, aparentemente eu não posso te ajudar, já que você nao fala o que é. - Remus concordou. - Como está Lily?

Soltou todo o ar que tinha e seus ombros caíram.

- Está bem.

- Ainda com a muleta ou sem muita dor?

- Ainda com a muleta.

- Você ajudou com os degraus? Eles estavam razoavelmente escorregadios hoje por conta da chuva da madrugada.

Merda! Bateu as palmas das mãos na mesa. Idiota, deixou Lily sozinha para subir as escadas, com aquele troço e os degraus molhados.

Levantou apressado, chamando a atenção de todos, e indo até a janela. Dali, podia ver um pouco da entrada principal de Hogwarts. Espremeu o rosto contra o vidro, tentando ver o máximo que podia, mas não parecia ter alguém caído nas escadas.

Ela devia estar bem. Ela estava bem. Se não estivesse, iria se bater tanto, que Sirius nem o mataria por piedade.

- Senhor Potter!

Desgrudou o rosto do vidro e se virou para a classe que o encarava como o louco que ele estava. A professora tinha um olhar zangado agora.

- Degraus molhados. - Ele disse, apontando para fora e voltando ao seu lugar. - Manda uma mensagem para ela, perguntando se está tudo bem.

- Manda você. - Remus franziu as sobrancelhas. - Vocês brigaram, por isso está assim?

Sem responder, James pegou o celular de Remus que estava em cima da mesa e abriu as mensagens, indo direto em Lily.

"Você chegou bem na sala de aula? Os degraus estavam escorregadios"

Apertou Enviar e manteve o celular com ele, ignorando completamente o olhar inquisidor do amigo e dono do aparelho.

- Você não fez besteira, fez?

- Eu? Besteira? Que besteira? - James olhou para a tela do celular, ainda sem resposta, e voltou a atenção para a lousa. - Eu não fiz nada.

- Lily fez algo? Envolve Bones?

- Não, Remus. Tudo está bem, tudo.

Sem querer forçar mais o amigo, Remus prestou atenção na aula, enquanto James balançava a perna sem parar, nervoso, esperando. Ela não devia estar respondendo, porque caiu e estava sendo levada na enfermaria. Tinha que ir até lá agora.

Quando levantou o mínimo da cadeira, o celular de Remus apitou.

"Estou bem. As escadas estavam tranquilas, obrigada por se importar"

O peso saiu de seu peito, fazendo-o relaxar na cadeira. Ok, um problema a menos.

Agora tinha que parar de pensar que Lily estava dando sinais errados para ele.

L~J

Na hora do almoço, Lily entrou no refeitório e procurou com olhos de águia, até encontrar os amigos ocupando uma mesa inteira.

- Como foi a prova de Matemática Hispânica? - Ela perguntou para James e Remus quando sentou-se na frente de ambos e ao lado de Frank.

- A prova de quê? - Remus perguntou de volta.

- Foi ok. - James respondeu apressado, antes que Remus o desmentisse. - Foi uma boa prova...Uhm...muito boa. Tranquila, nada estranho. Tudo normal.

Alice a cutucou com o pé sob a mesa, lançando um olhar de "o que está acontecendo?". Aparentemente, Lily não era a única a perceber que James estava um pouco tenso.

Olhou para frente novamente e percebeu que o moreno a olhava, mas desviou quando Lily percebeu.

- Está tudo bem, James? - Alice resolveu perguntar.

- Sim, claro. - Ele tossiu. - Eu preciso... ahn...fazer algo. Até mais tarde.

E sem falar mais nada, James se levantou e partiu do refeitório sob os olhares dos amigos.

- O que deu nele? - Frank perguntou.

- Não sei. - Remus se virou para Lily. - Aconteceu alguma coisa essa manhã?

- Não. Estávamos atrasados por conta do trânsito e, de repente, ele disse que tinha prova na primeira hora e saiu acelerando como um louco.

- Estranho. - Remus fez uma careta.

Então ele havia ficado estranho a manhã toda? Não sabia se via isso como algo bom ou ruim. Alice limpou a garganta ao lado do namorado e olhou para Lily.

- Se importa em vir comigo lá fora? - Ela perguntou para a ruiva.

As duas levantaram, já que Lily sabia que aquilo não era um pedido, mas quase uma ordem.

Quando saíram do refeitório e entraram nos corredores vazios, Alice finalmente deixou de lado seu olhar tranquilo.

- O que está acontecendo aqui, Lily?

- Do que está falando?

- Você chegou na sala hoje de manhã com um sorriso de orelha a orelha, não quis se explicar, disse que não era Edgar...- Alice enumerou nos dedos cada tópico. - Eu sei que James está te dando carona e ele parecia ter visto um fantasma quando você chegou agora.

Odiava tanto que Alice fosse a pessoa mais observadora do mundo. Ela podia pegar os mínimos detalhes no ar, de qualquer um que lhe interessasse e...sempre estava certa. Tirando o dia da festa na casa dos Black-Evans que não percebeu que Frank enviava olhares significativos para ela, mas de resto? A amiga poderia trabalhar na New Scotland Yard tranquilamente.

- Não é nada demais.

- É sim. Eu conheço todo mundo há anos. Eu conheço você há anos, querida. Sei todas as suas expressões, manias e trejeitos. Está com aquele olhar diferente, toda misteriosa, distraída.

Odiava aquela mania insuportável dela.

Olhando para os lados para confirmar que ainda estavam sozinhas, Lily se recostou em um armário e sorriu.

- Você não acha James muito bonito?

Os olhos castanhos da amiga quase saltaram para fora.

- Acho que não entendi. Repete, por favor.

- James. Ele não é lindo, um corpo maravilhoso e tudo mais?

Alice parecia ter pego a doença de James, vendo espíritos pela escola, pois estava em choque.

- Lily? - Alice tentou. - Você está falando sério?

- Você não acha? - A ruiva perguntou, entendendo errado o choque da amiga. - Eu sei que você ama Frank, mas você não é cega. Pode dizer se alguém é bonito ou não.

- Lily! Eu não estou aqui quase tendo um ataque por não concordar com você, mas...De onde saiu isso?

Lily deu de ombros, esperando o choque desaparecer do rosto da amiga, mas Alice parecia longe de voltar ao normal.

- Não sei. Acho que Edgar me fez acordar para a vida. - Aquilo não era mentira, Lily podia dizer. - Aceitei pouco de um cara, porque ele parecia bem investido em ter algo sério. Quando ele quis assumir tudo, usei isso como desculpa para aceitar coisas que eu nunca aceitaria. Foi meu pior erro, mesmo que tenha sido por dois dias. Dois dias onde ele mudou completamente, ou melhor, que começou a mostrar quem ele era de verdade. Ele deve ter pensado que, como foi o único que quis enfrentar Sirius, eu não sairia do lado dele. Bem, ele estava errado.

Cruzou os braços e sentiu certo peso sair de seus ombros colocando aquilo para fora. Pelo menos, Alice não parecia tão louca surpresa mais, parecendo se solidarizar com a amiga.

- Eu fico feliz em ouvir isso, Lils. Nós não sabíamos o quão idiota ele era, mas pelo menos você agiu assim que soube.

- Eu não quis acreditar, sabe? Na sexta, depois de assumirmos, foi horrível o que se passou em casa. O jeito que ele falava, e como agia normalmente depois. No sábado, depois daquela cena ridícula com aquela garota...

- Ele foi o ápice do idiota nessa. - Alice concordou. Apesar de não estar na festa, soube tudo pela amiga no dia seguinte por telefone.

- Eu não preciso disso. Eu não quero isso. - Ela suspirou. - Queria um cara que me tirasse do chão quando me beijasse, sabe?

- E você acha que James fará isso? Do nada, assim, você decidiu que seria ele?

Ah não, não foi do nada. Foi aquele beijo. Um beijo que não foi nela, longe de ser dela, mas Lily não parava de pensar nele fazendo aquilo. A garota não importava, apenas pensava nele.

- Eu não tenho chance? - Lily perguntou, se virando para a amiga. - Acha que eu sou muito a "irmã do melhor amigo" e que James nunca pensaria em mim como uma pessoa em potencial para, não sei, um beijo?

- Você quer um beijo de James? Só um beijo?

- Sim.

Ficou com pena de Alice, pois ela estava tão perdida, sem esperar por aquela conversa, que Lily sentia que a mente da amiga estava vazia.

- Acho que Sirius iria matar James se ele te beijasse.

Lily revirou os olhos.

- Não estou falando do Sirius ser um idiota. Estou falando de James e eu, uma possibilidade? Impossível?

- Lily, amiga. - Alice se aproximou. - Você é linda, um amor de pessoa, engraçada...pessoas adorariam ter uma oportunidade de te beijar. Mas James? Tenho certeza que ele sabe de tudo isso, mas apesar de você não querer pensar nele, há Sirius. O melhor amigo dele há milênios.

Não deveria ter dito nada para ninguém, porque era uma pedra enorme em seus planos. Mas que inferno o seu irmão! Por que ele não podia ser normal?

- Você acha que eu devo esquecer, então?

Sabia que era uma pergunta complicada de se fazer, mesmo que fosse para a sua melhor amiga. Alice a encarou por longos segundos.

- Olha...eu não sei o que James pensa sobre isso. É arriscado você beijar a irmã do seu melhor amigo ciumento e tenho certeza que se aqueles dois brigassem, eles morreriam no dia seguinte de coração partido.

- Então você acha que todos devem encorajar Sirius a agir como um babaca em relação a mim?

- Não! Eu não disse isso. Apenas que nós conhecemos Sirius.

- Ele disse que espera que eu encontre alguém decente, me disse isso no fim de semana. Quem seria mais decente do que alguém que ele confia tanto? Aliás, eu não estou planejando me casar com James, mas...um beijo.

O sinal de que o almoço acabou soou e os alunos começaram a sair do refeitório e lotar os corredores.

- Talvez você esteja certa. Talvez você poderia ver se ele gostaria. - Alice finalmente disse, arrancando um sorriso de Lily. - Pode testar o terreno e ver se daria algo. Isso não mata ninguém.

- Não, não mata.

Não, não iria matar ninguém testar o terreno. E talvez Lily poderia sair com um beijo de James no final.


James tinha a impressão de que estava pronto para uma prova decisiva na sua vida e que não estava preparado, não conhecia o assunto e que seria tudo em japonês.

Mas, na verdade, apenas esperava por Lily, encostado em seu carro. Cada aluno que virava na esquina do jardim, tinha um choque no peito, mas acalmava quando percebia não ser ela.

Será que estava delirando? Se parasse para pensar, Lily não havia feito nada demais. Um beijo inocente no rosto e uma pergunta sobre ruivas, quando ela perguntava sobre outros tipos de mulheres também, não dizia nada de nada. O problema era ele.

Desde aquela bagunça de Lily e Bones se assumindo e Remus comentando sobre o que ele iria fazer naquela festa em que Peter mostrou o filho da puta que era, estava um pouco sensível com o tópico "Lily Evans". Pensava que tudo estava bem enterrado, mas bastou ter a mente nos anos em que era apaixonado por ela, que começou a pirar de novo. Então começava a ver coisas onde não tinha, porque Lily sempre foi alheia a ele, romanticamente falando.

Era um cara de dezoito anos que sentia-se como um pré adolescente idiota que não sabia lidar com aquelas coisas. Era ridículo.

Mas quando ela finalmente virou na esquina do jardim, lá ia seu coração disparando, seu peito apertando, seu estômago dando cambalhotas. Ela vinha com Alice ao seu lado, ambas conversando e rindo. Frank vinha logo atrás, sempre perto da namorada.

Os olhos de Lily encontraram os seus e ali, James tinha certeza que alguém vinha tirando a terra de cima da paixão que ele tinha enterrado e aquele sentimento estava pronto para pular para fora daquele buraco e tomar conta de tudo.

Tinha que tomar cuidado. Não podia ficar se iludindo sozinho com coisas tão banais e não correspondidas.

Enquanto eles vinham em sua direção, James tentava acalmar aquela ansiedade que tomava conta. A ruiva, ainda com os olhos presos nele, sorriu. Um sorriso diferente, não como agradecimento por estar esperando por ela. Não sabia interpretá-lo, só sabia que nunca havia sido o destinatário daquele sorriso antes da parte dela.

E se...

E se não fosse imaginação dele? E se não estivesse enlouquecendo? E se ela estivesse interessada?

Não sabia como aquilo poderia ter acontecido, porque se ela estava interessada, parece que aconteceu muito de repente. Ela namorava até alguns dias atrás, como poderia ter mudado tão rápido?

- James! - Frank chamou por cima dos ombros das garotas e desviou de ambas, que caminhavam devagar por conta de Lily. - Treino amanhã em casa? Lá pelas 15h?

Quarta-feira era o dia que, segundo Sirius, Lily tinha uma sessão de fisioterapia com o cara que deu em cima dela. O amigo não havia pedido nada complicado, apenas para ficar de olho, então achava que não seria nada demais.

- Pode ser às 16h? Vou estar ocupado até às 15h.

- Tudo bem, às 16h então. Tenho aula até às 11h e depois vou para casa. Se algo mudar, me avisa.

- O que tem às 16h? - Alice perguntou quando as duas se aproximaram.

- Treino em casa amanhã. Você quer vir e dar uns socos no punching bag também?

- Adoraria, mas tenho que finalizar um resumo para quinta-feira. - Alice deu um beijo em Lily. - Te vejo amanhã. Me liga mais tarde para a gente terminar o assunto.

- Claro. - A ruiva respondeu.

Frank se despediu dos dois e seguiu a namorada até o carro. Os dois que restaram, ficaram em silêncio por alguns segundos. Não podia ficar assim, deixar essa coisa louca da sua cabeça tomar conta.

- Pronta para ir para casa, Sardenta? - Precisava agir normalmente, então destrancou o carro e a ajudou como vinha fazendo desde ontem. Ela continuava muda, algo muito incomum para Lily, então achou melhor não dizer mais nada.

Alguns idiotas estavam parados conversando na frente do portão de saída dos carros, se despedindo, então James ligou o rádio para que aquele silêncio não gerasse mais incômodo.

- Por que você me chama de Sardenta?

James se virou para ela, um pouco surpreso.

- Porque você tem sardas?! - Ele respondeu, rindo.

- Não digo por isso, mas...por quê? Você poderia me chamar de muitas coisas. Você não gosta de sardas, é isso?

Ficou sem resposta por um momento. Na verdade, ele adorava as sardas dela. Achava-as lindas e charmosas. Se ela não as tivesse, continuaria linda, mas as que tinha lhe davam um charme a mais.

Não havia dado esse apelido na infância por pensar assim, mas por saber que ela não gostava das sardas. Hoje em dia, apenas não achava que deveria mudar de apelido, pois para ele, Lily sempre seria a Sardenta. Suas sardas sendo lindas ou não.

- Eu comecei a te chamar assim, porque eu sabia que você não gostava quando era criança. Era apenas para te irritar.

- Você não vê problemas em sardas, então?

Não era possível todas aquelas questões. Ela estava fazendo uma enquete sobre o próprio físico com todas as pessoas ou era só com ele mesmo?

- Não vejo problemas com sardas. - Ele balançou a cabeça, querendo acordar. - Lily...por que você está me perguntando essas coisas?

- Curiosidade. - Ela respondeu.

- Eu devo considerar que, por me chamar de Descabelado, você não gosta do meu cabelo?

Lily olhou para ele e para seus cabelos. Sim, ele era "descabelado", mas por ser seu estilo desde criança. Sua mãe havia tentado de tudo para que James mantivesse um corte decente e arrumado, mas parecia que havia algo em seu gene que impedia os fios de ficarem abaixados. Ele, particularmente, gostava, então adotou e aceitou o destino.

- Eu gosto dos seus cabelos despenteados e bagunçados. - Ela, por fim, respondeu. O caminho ficou livre e ele pôde avançar com o carro, saindo do estacionamento. - Eles têm esse ar sexy e interessante. - James teve que segurar o volante com força para não desviar para a outra pista. E para piorar, sentiu a mão de Lily em seus cabelos, passando a mão delicadamente pelos fios, fazendo um arrepio passar por todo o seu corpo. - E eles são macios. Ao olhar para eles, dá essa curiosidade, e posso confirmar que eles são mesmo.

Lily tirou a mão de seus cabelos e James parecia um vovô dirigindo, com as duas mãos no volante, o corpo envergado para frente e os olhos fixos na estrada.

Meu deus, não. Ele não estava louco, não era possível. Ainda que uma amiga pudesse fazer aquilo, podia sentir que algo estava diferente. Era tudo junto: as palavras, o sorriso, os gestos, os olhares.

O que havia dado em Lily? Por que? O que aconteceu?

O que ele deveria fazer?

Ficou repetindo aquelas perguntas uma e outra vez, até chegar à casa dos Black-Evans. Lily não falou mais nada, tão pouco ele. O que ele poderia falar? Ou fazer? Tocar no cabelo dela e dizer que era macio? Passar a mão por eles, segurar Lily e a beijar, do jeito que sua mente dizia para fazer?

E então? Morreria quando Sirius fosse caçá-lo, porque sua irmã contou que o seu melhor amigo, que deveria cuidar dela, a atacou?

Ele iria enlouquecer!

- Poderia destrancar a porta?

A voz dela o acordou. Nem percebeu que havia entrado já no pátio da frente da casa. Foi seguindo o caminho no automático, completamente fora de seu corpo, lutando contra as imagens que iam e vinham em sua cabeça.

- Desculpa. - Ele destrancou as portas no botão ao seu lado e saiu, pegando a muleta de Lily no banco de trás e levando até ela.

- Não precisa ficar sempre correndo para pegar as coisas, Descabelado. Eu posso fazer tudo isso. - Ela disse, rindo.

- Se pudermos evitar que você faça esforço nessa perna, então vamos evitar.

Entregou a muleta para ela.

- Obrigada. Mesma hora amanhã?

Os olhos dela brilhavam. Céus, por que brilhavam? Era por ele? Era por outra coisa? Por que ela está daquele jeito?

- Claro. - Respondeu com a calma que não existia dentro de si.

- Certo. Vou estar esperando por você.

Socorro!

- Ótimo. - Ele disse.

- Até amanhã, Descabelado.

E ela se aproximou de novo e ele não se mexeu. Apenas congelou no lugar ao vê-la vir cada vez mais perto, seu rosto chegando até o seu...ele se viu abaixando para ajudá-la...e Lily deu um beijo em sua bochecha, ou o que poderia considerar bochecha, já que foi muito perto de sua boca.

E ele não desviou.

Sorrindo como uma caçadora que parecia ter achado sua presa, ela entrou na casa.

E James caiu contra o carro, perdido, sem saber o que fazer.


Quarta-Feira e James Potter se encontrava louco.

Dormiu mal, virando e revirando na cama. Sua mãe dizia que ele sempre foi um bebê que se mexia muito, uma criança que derrubava cobertores, lençóis e travesseiros no chão. Foi um adolescente tão agitado quanto e ainda era a pessoa que mais se mexia no mundo. Talvez era por isso que seu cabelo era daquele jeito.

De qualquer maneira, estava louco e sem cobertor, já que esse estava no chão desde madrugada. O travesseiro, já na ponta da cama, ele nem se deu o trabalho de pegar.

Quando completou dezesseis anos, seus pais, depois de o desafiarem a não serem chamados pelo diretor por um semestre inteiro, lhe ofereceram a casa de hóspedes. Era um pequeno alojamento, com cozinha, quarto e banheiro para quando a família viesse visitar, mas que passou para ele graças às suas bagunças em Hogwarts virarem anônimas. Conseguiu passar um semestre todo sendo um idiota, mas escondido. Foi ali que descobriu que, quando você quer algo, você faz de tudo para conseguir.

Então tinha o seu canto, de frente para a piscina da propriedade dos Potter. Ele ainda almoçava e jantava com a família o máximo que podia, mas tinha sua liberdade com a entrada da garagem, permitindo privacidade para quem ele trazia ali. Não que costumava trazer garotas o tempo todo, já que ter um espaço para ele não significava que queria trazer qualquer pessoa para a sua casa.

- Bom dia, filho. - Euphemia o cumprimentou ao chegar na cozinha da casa principal. - Caiu da cama?

- Quase. - Ele respondeu. - Estou acordando mais cedo para dar carona para Lily, esqueceu?

- Não esqueci, mas está mais cedo do que o necessário. Está tudo bem?

- Sim. - Respondeu enquanto mexia no cereal.

Euphemia observou o filho por um momento, tentando entender o que se passava, antes de partir para a pergunta.

- Sabe que eu não me importo. Na verdade, eu adoro, mas tenho que perguntar: por que está tomando café da manhã aqui?

- Nada. Só quis vir aqui.

Ela não caía nessa. Café da manhã era a única refeição que ele não compartilhava com os pais, pois normalmente estava atrasado, tendo que comer enquanto se trocava e escovava os dentes ao mesmo tempo que colocava os tênis.

- Como estão as coisas em Hogwarts? - Teria que tentar uma outra aproximação.

- Bem.

- Certo. - Euphemia foi até a geladeira, pegando o seu suco matinal. - Alguma novidade da Universidade?

James riu um pouco, chamando a atenção da mãe.

- Mãe, eu sei o que você está fazendo. Está tudo bem, ok? Eu ainda não decidi para onde ir, mas isso não está me impedindo de dormir.

- Alguma outra coisa está.

Ele revirou os olhos, mas sorriu, indo até a mãe e lhe dando um beijo.

- Vou terminar de me arrumar.

- Ok, querido. Tenha um bom dia e mande um beijo para Lily.

Um aceno foi a resposta dele enquanto saía da casa principal e contornava a piscina. Ele tinha quarenta minutos até ter que sair de casa, então tomou um banho mais tranquilo hoje. Quando saiu do chuveiro, estava pronto para fazer a barba que crescia lentamente e pedia uma manutenção todas as manhãs, mas pensou melhor.

- Quer saber? Você fica aí. - Disse para o seu reflexo. - Vamos tentar algo diferente.

Escovou os dentes, colocou perfume e foi em direção ao carro na hora certa. Saindo da garagem, começou a sentir seu coração disparar. Inferno, estava indo bem até agora.

Cinco minutos foi o tempo para chegar até a casa dos Black-Evans naquela manhã. Com o controle da garagem dada por Sirius no momento que James adquiriu um carro, ele entrou no pátio frontal da casa.

Abriu a porta e olhou para os lados, tentando encontrar alguém, mas ninguém à vista ali. Era sua rotina matinal. Alguns anos atrás, quando ia de bicicleta ou a pé com Sirius toda manhã, sempre encontrava Orion Black sentado perto do hall lendo o seu jornal. Todos os dias, James sentava com ele por alguns minutos para conversar, depois ia atrás de Sirius na cozinha. Era uma rotina que gostava e que sentiu uma enorme tristeza quando não o via mais ali.

Virou para a direita, indo para a cozinha. Ouviu uma movimentação e sabia que seria ela. O carro de Geneviève já não estava mais na garagem, então respirou fundo e entrou no cômodo.

Como sempre, Lily estava sentada no balcão, de costas para a porta. Ela usava um vestido amarelo pálido que combinava com seus cabelos e tinha a perna direita descansando no banco ao seu lado. Provavelmente ainda sentindo muita dor.

Se aproximou e viu algumas frutas ainda intocadas em seu prato e roubou uma, como sempre.

- Bom dia, Sardenta.

Olhou para ela e se esforçou para não sorrir como um idiota ao ver Lily tão bonita. Ela mesma sorria, os olhos bem abertos e felizes. Não era sempre que a via assim, ou talvez sempre se impedia de reparar tanto nela. E, claro, seu coração reagiu rapidamente com a visão.

- Bom dia, Descabelado. - Ela o encarou por mais segundos do que o normal. - Você não fez a barba hoje! - Lily comentou, sorrindo ainda mais.

- Não. Acordei atrasado.

Mentiroso.

- Eu gostei. - Ela apoiou os braços no balcão, ainda o encarando. - Bastante.

Tudo bem, aquilo era normal. Lily diria isso em qualquer situação, mesmo se Sirius estivesse ali. Besteira pensar em qualquer outra coisa.

- Então foi uma boa decisão.

- Muito boa. - Ela levou o copo de suco aos lábios, mas não tirou os olhos dele. Parecia que sorria também.

Merda, aquilo não era muito normal.

Pegou seu celular e abriu naquele maldito jogo viciante, tendo que desviar sua atenção.

- Quando você estiver pronta. - Ele disse, querendo que ela fosse terminar de se arrumar e dar alguns minutos para ele se recompor.

Escutou quando ela desceu do banco e saiu mancando da cozinha. James jogou o celular no balcão e apoiou os braços, segurando a cabeça. Estava louco.

Se não estava, iria ficar. E Lily seria a responsável.

Pegou o celular e foi até a porta de entrada, esperando por ela. E como se fosse invocado como um demônio, seu celular começou a tocar e a foto de Sirius apareceu.

Aquele era um sinal para que recuasse, sabia.

- Ligou cedo, amor. - Respondeu a ligação.

- Saudades de você. - Sirius respondeu.

- Pensei que estando com a minha prima, você não iria sentir tanta falta.

- É verdade que ela é mais agradável. A pele mais brilhante, a bochecha macia, a boca deliciosa...

Nisso, James ouviu um estalo de beijo.

- Filho duma...! Você está falando tudo isso e fazendo ao mesmo tempo. Vocês são nojentos.

- Oi, James. - Ouviu a voz risonha de Marlene mais ao fundo.

- Urgh. Você são nojentos. - Repetiu. - Fique com ela, Sirius. Não precisa mais voltar. - Olhou para as escadas, como se pedisse que Sirius não voltasse mesmo e ele pudesse...deixa pra lá. Não podia ir naquela direção. - Agora desembucha: o que você quer tão cedo?

- Nossa, me sinto bem acolhido. - Sirius reclamou. Havia muito barulho ao seu lado e James quase não podia ouvi-lo. - Está em casa?

- Na sua, esperando a sua irmã.

- Imaginei, por isso liguei agora. Normalmente é a hora que ela está lá em cima, terminando de se arrumar.

Poucas vezes James ficava surpreso com o casal de irmãos, mas às vezes eles tinham essa façanha. Não deveria se surpreender como eles sabiam tanto um do outro assim.

- Não me vem pedir algo absurdo, Sirius! - Reclamou, mas sussurrou para que Lily não ouvisse.

-Não vou pedir nada. - James ficou aliviado. - Nada do que eu não tenha pedido já.

Revirou os olhos, mesmo o amigo não vendo.

- O que é?

- Hoje é a fisioterapia dela.

Sim, ele lembrava disso. Lembrava bem, lembrava muito.

- O que tem?

- Você tem que estar aí. Então andei pensando: ela vai desconfiar se você simplesmente deixá-la em casa e ficar. Então você poderia ir embora, eu ligaria para ela sobre um trabalho de Física, aula que ela não tem, e que você tem que ir até a casa para procurar e fazer.

James parou de dar voltas no hall de entrada e olhou para o telefone, como se quisesse mandar aquele olhar indignado para Sirius.

- Até a sua lição eu tenho que fazer?

- Não, idiota. É só uma desculpa. Você sobe no meu quarto e fica da varanda, de olho neles, como quem não quer nada além de ajudar seu amigo amado com Física.

- Isso não vai dar certo, seu imbecil.

- Claro que vai, você vai ver.

Assim como ele disse que nada podia dar errado em fazer tudo isso e já tava dando muito errado.

- Eu não sei, Sirius...

- Ah, Sirius? - A voz de Lily o assustou, vindo já do meio da escada. - Posso falar com ele? - Ele gaguejou por um momento, o celular caído ao seu lado, até entregar o aparelho para ela. - Você liga para o seu amigo primeiro ao invés de mim? Estamos vendo quem você ama de verdade mesmo.

Lily começou a conversar com o irmão e saiu da casa. Ela não usava a muleta hoje, então devia estar melhor. Saiu atrás da ruiva e a viu entrar no carro que já tinha o banco do passageiro pronto para ela.

Entrou no carro e saiu do pátio. Lily ainda falava com Sirius, mas ele não ouvia a conversa, ficando com a atenção completamente na rua e em seus pensamentos mais loucos. Só percebeu que a ligação havia acabado, quando seus ouvidos perceberam que o carro estava silencioso. Olhou para o lado e se deparou com Lily o encarando, um sorriso nos lábios dela.

- Tudo bem? - Ele perguntou. Lily colocou o celular dele no painel do carro.

- Tudo bem. - Ela respondeu, simplesmente.

James ficou esperando pela rodada de perguntas da vez, seus braços tensos, uma mão firme no volante e a outra descansando em sua perna inquieta. Mas nada, só silêncio.

- Tudo bem mesmo? - Perguntou de novo.

- Sim, Descabelado. Quem parece tenso hoje, é você.

- Tenso? Não, não estou. Pensando na prova.

- Ah, prova. Qual será a de hoje? Matemática francesa? Ou talvez Geografia holandesa?

- Não sei do que você está falando. - Ele tentou rir descontraído, mas apenas soou mais tenso do que antes. - Não importa, porque não estaremos atrasados hoje.

- Uma pena.

Aquela frase de Lily havia saído bem baixo, então ele não tinha certeza de ter escutado realmente aquilo. Preferiu deixar para lá e não comentar nada.

Para a surpresa dele, chegaram em Hogwarts sem nenhum outro momento embaraçoso ou perguntas impertinentes dela. Bom para o coração e sua mente.

Remus estava no mesmo lugar de sempre, esperando. O amigo sempre pontual e perfeito, o xodó dos professores, o salva-vidas dos amigos...mas o cara que dava convites surrupiados para Lily pelas costas de Sirius, que aprendeu a contrabandear bebida alcoólica como ninguém, que conseguia pregar peça sem nunca ser pego.

Pensou se, considerando que Remus era bonito, perfeito e imperfeito, sempre tão gentil...por que Lily não parecia estar em cima dele? Não que James preferisse isso, mas se pegou perguntando.

Não se considerava feio, era um bom aluno, mesmo sem se forçar a isso. Fazia muita merda aqui e ali, mesmo tendo diminuído bastante nos últimos tempos. Nunca deu em cima dela, apesar dos pesares...e agora parecia que algo havia mudado.

- Bom dia, casal. - Remus os cumprimentou.

Remus e aquela mania.

- Olá, Rem. Como está?

Lily deu um beijo nele, cumprimentando o amigo.

Viu, James? Ela não faz isso só com você. Acorde para a realidade.

O único problema - ou era o que ele queria acreditar? -, era que o beijo havia sido diferente. Não havia aquele olhar, aquela delicadeza e o toque de provocação que James via quando era com ele.

De novo, será que estava inventando coisas?

Chegaram até as escadas e viu que ela diminuiu o passo. Sentia que havia a dúvida no ar: ela estava sem muleta hoje, ele iria ajudar mesmo assim?

Antes de James sequer pensar, ela se lançou para o primeiro degrau, segurando firme no corrimão. Subiu o segundo, tão lenta como se estivesse com a muleta. Antes dela subir o terceiro, ele ficou ao seu lado.

- Passe seu braço no meu pescoço.

Ela sorriu, agradecida, e assim o fez. Como na segunda-feira, James a segurou firme pela cintura e a levantou com um braço, grudando a lateral de suas cinturas e subindo.

- A galera está querendo ir no Três Vassouras esse fim de semana. O que acha? - Remus perguntou como se a vida estivesse seguindo normalmente.

Mas não estava. James apenas subia as escadas tentando não pensar em Lily, no corpo dela ou no perfume doce que invadia seus sentidos. Não respondeu ao amigo, tentando colocar toda a sua atenção na questão de estar ajudando a irmã de seu melhor amigo. Irmã de Sirius, seu melhor amigo ciumento que pediu para que ele tomasse conta dela.

Que merda, iria matar Sirius.

- Eu acho ótimo. - Lily respondeu, a voz um pouco bizarra. As escadas terminaram e ele a colocou de volta no chão. - Obrigada.

Ele balançou a cabeça, reconhecendo o agradecimento e acelerou o passo, deixando Lily e Remus conversando atrás, enquanto ele liderava o caminho, mas com a cabeça bem longe dali.

J~L

O bom de estar no último ano de Hogwarts, era não ter tantas aulas ou as mesmas aulas que os alunos de sua idade.

Na quarta-feira, não tinha tantas aulas e já estava liberado às 12h. Não teve nenhuma aula com Lily - apenas compartilhava duas aulas nas sextas-feiras -, e não estariam juntos para o almoço. De quarta, normalmente ele almoçava em casa ou ia para algum lugar com os caras para comer, mas não hoje. Tinha que esperar Lily, que só acabava às 13h. Ele queria comer? Sim. Mas precisava de ar, de espaço, de não falar com ninguém.

Sua cabeça estava em uma luta constante e sem fim, sem deixá-lo pensar com calma nas coisas.

Que loucura. Se aquilo fosse real, só podia ser loucura. Teria que se afastar, talvez? Deixar Lily a alguns braços de distância? Talvez tentar arranjar alguém para ela. Urgh. Aquilo lhe dava mais raiva do que qualquer coisa. Tinha que não agir com Lily, justo quando ela parecia estar lhe dando bola. Quatro anos depois de ter se forçado a não gostar mais dela, isso acontece.

- Potter!

Mais essa. Edgar Bones vinha em sua direção, rodeado de três sem cérebros do time de futebol.

- Bones. - Ele respondeu entediado, cruzando os braços e se recostando no carro.

- Soube que você espantou uns caras na academia na segunda. Esses idiotas tão pensando que o rango tá liberado.

James cerrou os olhos.

- O rango?! - Perguntou, sem acreditar no que ouvia.

- Então, a questão é que, mesmo você tentando me impedir de falar com ela na segunda de manhã ou esses caras tentando aproveitar, a coisa não acabou, sabe?

- O rango?! - James repetiu, desencostando-se do carro. - Você disse isso mesmo?

- Ah, é só uma expressão, você me entendeu.

James fechou os olhos, blasfemando Sirius uma e outra vez. Por que era ele ali, por quê?

- Eu vou te falar uma coisa, Bones, e será apenas uma vez: se você falar desse jeito de novo, eu vou te impedir de falar com Lily ou com qualquer outra pessoa, porque vou arrancar sua língua fora.

- Você sabe que está sozinho aqui, não é? - Um dos amigos dele disse.

- Que medo que eu tenho de todos vocês. - Debochou. - Eu acho vocês um bando de sem cérebros ambulantes, que curtem colocar comprimidos na bebida das garotas para poder transar. Acha que eu tenho medo desse tipo de gente? Aliás, apenas um pequeno lembrete do aviso aa festa do mês passado: se pegarmos vocês fazendo isso de novo, ou levando alunas mais novas e virgens para o vestiário ou...- James olhou para Edgar. - ...ficar forçando as garotas a fazerem sexo a três, não vai ser uma surra em seus caminhos. Ou não só ela.

- Vocês não metem medo em ninguém, Potter. É o time todo de futebol contra vocês. A palavra do time do futebol contra vocês.

James voltou a se encostar no carro, uma expressão escrachada.

- Não quando duas garotas filmaram o que vocês faziam. - Os três garotos ficaram imóveis. - E seus rostos são bem nítidos. A partir do momento que elas decidirem usar isso, eu sinto dizer que não haverá palavra do time do futebol para ajudá-los...porque não existirá time de futebol mais.

- Então é você falando merda para Lily desde o começo. - Edgar se aproximou.

- Ah, sim. Eu disse para ela que você é um merda, mas usei outras palavras.

- E colocou a minha namorada contra mim. O que eu te fiz, seu idiota? Eu nunca fiz nada contra Lily.

- A sua ex namorada ficou contra você por conta dela. Você pode não ter feito com ela exatamente o que já fez com as outras, mas não iria demorar, não? O fato da garota que você está sempre arrastando para as suas festas estar no mesmo quarto que vocês na festa da Meadowes me soa suspeito, não?

- James?

Todos se viraram para Remus, que tinha um olhar suspeito para ao grupo.

- Está tudo bem. Estamos apenas atualizando os termos e condições. - James respondeu. - Bones aqui estava dizendo o quanto não iria mais atrás de Lily, que entendia que o relacionamento acabou e que era melhor ele ir buscar o rango na casa da mãe dele.

- Você é um idiota, junto com Black. É melhor vocês não ficarem no meu caminho. - Edgar disse entredentes.

- Quanto mais longe você estiver, melhor.

Com a fúria estampada no rosto, Edgar se afastou de James, passando por Remus e lançando-o olhares nada amigáveis também. Remus não desviou do caminho e nem o olhar, seguindo-os até sumirem pelos jardins.

- Que porra foi essa? - Ele perguntou, virando-se para James novamente.

- Eu lá sei? Estava aqui, cuidando da minha vida, quando eles chegaram.

- James...- Remus suspirou. - Não se meta mais do que deve em relação a Lily.

- Eu não estou me metendo em nada. Estou tranquilo.

- Não está. Você está tenso igual uma corda de âncora desde que Sirius partiu e você está com Lily de manhã e de tarde.

- Eu não deveria dar carona para ela, então?

- Não disse isso. Estou falando de como você tem agido. Para de fingir que eu não te conheço e que eu não sabia que você gostava dela antes.

- Quer saber? - James se desencostou do carro pela segunda vez por conta de uma discussão. - Você leva Lily em casa hoje. Está melhor?

Deu a volta no carro e abriu a porta.

- Para de criancice. - Remus pediu.

- Ela sai às 13h hoje e não pode atrasar para a sessão de fisioterapia.

Entrou no carro e saiu como um louco do estacionamento, deixando Remus perdido e perplexo para trás.

J~L

E maldito fosse ele e toda essa situação, porque ele fugiu de levar Lily embora, mas tinha que ir até a casa para a fisioterapia.

Era um idiota. Por que estava fazendo aquilo, de qualquer maneira? Sirius nem saberia que não esteve presente ou não até que perguntasse ou voltasse. Então James poderia explicar que seu pai precisava de um favor urgente e teve que ir até Londres. Sirius sabia que isso acontecia com certa regularidade.

Mas não. James olhou para a casa, se sentindo um idiota fazendo aquilo. Não estava ali por achar que Lily era inocente para cair no papo de um cara não sendo profissional...tinha certeza que ela sabia o que queria e o que não queria. Mas se isso fosse acalmar a pobre alma de Sirius, então ele poderia ficar por perto, mas não tão perto, apenas para dizer que tudo estava bem.

Apertou a campainha e, imaginando que Lily demoraria para chegar até a porta com a dor que vinha sentindo hoje, esperou. Poderia entrar como sempre fazia, mas ela estava sozinha em casa, então não queria arriscar.

Quando a porta abriu, ela ficou surpresa por um nanosegundo, olhou para o relógio e depois para ele.

- Descabelado. - Ela disse, tentando olhar por cima do ombro dele.

- Sirius não te ligou falando sobre a lição?

- Ligou, mas não pensei que viria tão cedo. E meu fisioterapeuta está levemente atrasado, pensei que era ele.

- Para a sua tristeza, não sou.

Lily cruzou os braços e o fitou por um momento, levantando uma sobrancelha.

- Alguma coisa aconteceu? - Ela perguntou, por fim.

- Não, a não ser seu irmão esquecer do exercício de Física.

- Você foi embora mais cedo. Não que você seja meu táxi, mas fiquei surpresa que Remus tenha ficado.

Ele levou as mãos aos cabelos e os bagunçando.

- Surgiu uma coisa com o meu pai. Só isso. Desculpa não avisar.

- Está tudo bem.

Ela suspirou e deu espaço para que ele passasse, fechando a porta logo depois.

- Eu vou te deixar em paz. O que eu tenho que fazer não deve demorar. - Ele disse, se dirigindo às escadas. Quanto menos atenção desse para ela ou perguntasse sobre a fisioterapia que teria, menos ela desconfiaria.

- Claro.

Não olhou para trás quando começou a subir e sumiu pelo corredor dos quartos dos irmãos. O quarto de Geneviève, que compartilhava com Orion até alguns anos atrás, ficava na parte térrea da casa, mas em um corredor mais privativo, com um próprio pequeno jardim que o casal podia aproveitar tranquilos, o que deixava o corredor do primeiro andar apenas para Sirius, Lily e um quarto de hóspedes.

Entrou no quarto de Sirius e fechou a porta. Procurou por papéis na mesa do amigo, juntou três folhas com alguns escritos aleatórios, pegou uma caneta e abriu a porta da varanda. Era uma casa muito bonita e bem cuidada. O jardim era cheio de flores e a grama sempre bem aparada. Havia uma árvore grande no fundo da propriedade onde lembrava de sempre brincar com Sirius quando crianças, caindo dos galhos, ou apenas ficar sentado na sombra com alguns lanches que Geneviève preparava para eles. Lily sempre corria até eles, tentando fazer parte da brincadeira, mas eles conseguiam ser maldosos com a garota, fazendo brincadeiras que a fazia correr quase chorando para casa. Logo depois, Sirius se arrependia e corria atrás da irmã, pedindo desculpas.

O tempo estava louco na Inglaterra naquela altura do ano, então estava quente o suficiente para que ele ficasse embaixo do sol e aproveitasse. Tirou a camiseta e sentou na cadeira, pegando os papéis para começar o seu fingimento. Talvez, se conseguisse segurar o celular por trás dos papéis, ele conseguisse tentar passar aquela fase maldita daquele jogo que estava empacado a dias.

Seus olhos foram puxados para os jardins, encontrando Lily ali parada, olhando para ele. Não tinha percebido que estava sendo observado. A ruiva tinha os braços cruzados, sem desviar o olhar. No fundo, no fundo, ele estava tendo a impressão que ela sabia o motivo de sua presença ali.

- Confortável o suficiente para as lições de Física, Potter? - Ela disse lá embaixo.

- Bastante. Você faz lições assim de vez em quando? Eu recomendo. - Ele respondeu e abaixou os óculos de sol, inclinando a cabeça para trás como se aproveitasse para pegar um bronzeado agora.

- Ah, costumo fazer topless na minha varanda de vez em quando. É importante receber raios UV moderados em todo o corpo, sabe?

A saliva quase ficou presa na garganta. Claro que ele ficou sem fala, apenas olhando para ela e, depois, para a varanda do quarto de Lily logo à frente.

- Se você diz...- Ele comentou depois de se botar no lugar.

Não teve comentário, então depois de alguns segundos em silêncio, ele olhou para baixo e viu que Lily já não estava mais ali. Talvez o fisioterapeuta tivesse chegado. Pegou os papéis novamente e o celular, arrumando uma boa posição para segurar tudo e jogar ao mesmo tempo.

- Filho da puta! - Deixou escapar quando, pela quinta vez, não conseguiu terminar aquela fase. Era um imbecil ou o jogo fazia aquilo de propósito para te forçar a comprar as ajudas? Não ia comprar nada, ia passar aquela porcaria sozinho nem que ficasse anos tentando.

Algumas gotas geladas caíram em seu peito, fazendo-o se arrepiar todo, e virar para trás. Lily segurava um copo de suco tão gelado, que quase transpirava. Ela sorria para ele.

- Desculpa. Está gelado? - A voz dela, ao contrário das gotas, estava nada gelada.

E ele não conseguiu responder, ficou apenas encarando-a, surpreso. Ainda sentia as gotas descerem pelo seu peito, agora já parecendo pegar fogo, e percebeu que os olhos de Lily estavam mais interessados nelas do que no rosto dele.

Perdeu o ritmo da sua respiração. Tinha que fazer algo, rápido.

- Isso é para mim? - Ele limpou a garganta, já que sua voz saiu mais rouca do que o normal.

Lily desviou, finalmente, os olhos de seu corpo, encarando-o.

- Sim. Achei que iria desidratar neste calor, então por que não um suco bem gelado?

- Não precisava se incomodar, mas obrigado.

- Ah, eu precisava sim. - Ela respondeu voltando o olhar para baixo, levantando-o rapidamente dessa vez. Entregou o copo para ele, que aceitou. Seus dedos tocaram rapidamente, mas James foi rápido em puxar o copo para si, colocando-o em cima da mesa ao seu lado. - Bem, eu estarei lá embaixo. Espero que consiga passar essa fase que tem tentado passar toda a semana e que Sirius não fique sem nota para Física.

- Eu estava apenas tentando de novo. Vou fazer o exercício, não se preocupe.

Sem resposta, ela apenas deu de ombros e se virou, saindo da varanda. James soltou o ar e virou novamente, afundando na cadeira e mexendo nos cabelos. Se antes tinha dúvida de que algo estava estranho, agora ele teve a confirmação. Lily nunca o olhou daquele jeito antes e ele poderia ser chamado de sonhador o quanto fosse, mas ele reconhecia um olhar de desejo e aquilo, amigos, era um olhar de desejo. Puro, simples e para ele.

- Só para deixar claro...- James levou um susto com Lily sussurrando em seu ouvido, mas não se mexeu. Nem ouviu que ela tinha voltado, muito menos se aproximado tanto. - Eu sei que não está aqui para exercícios de Física. - A boca dela tocava seu ouvido, obrigando-o a fechar os olhos. - Mas nós vamos conversar sobre isso mais tarde...James.

Não se virou, apenas ficou ouvindo quando ela saiu da varanda e fechou a porta de vidro. Ficou paralisado por longos segundos, os olhos fechados com força, esperando que aquela loucura acabasse.

Meu deus! Lily estava, claramente, provocando-o. Mas por que? Por que agora? Como as coisas mudaram assim? Será que por Sirius não estar por perto, ela decidiu tentar? Mas Sirius já esteve longe deles por alguns períodos e nada nunca aconteceu.

Tinha que pensar direito, não podia se deixar levar por pensamentos confusos. Nunca iria esquecer quando estava no quarto de Sirius, logo depois do acontecido com Peter, e Lily dizer que o desgraçado falava sobre Lily ter dado a entender que ela queria algo enquanto ele a mantinha presa contra a parede. Se ele cometesse esse erro - o de imaginar que ela queria algo e não o de forçar Lily, claro -, não precisaria de Sirius matá-lo, porque ele mesmo iria sumir da face da Terra.

Não poderia fazer nada daquilo, nada. Mesmo se tivesse certeza que Lily queria, não daria o passo para nada. Era muito arriscado, perderia muito...perderia Sirius e Lily.

Conversas no jardim chamaram sua atenção e James viu Lily e o fisioterapeuta saindo da casa e indo em direção à piscina. O desgraçado, ele era todo boa pinta mesmo. Observou enquanto eles andavam até a piscina, parecendo bem descontraídos e sorridentes.

- Hum!

Pegou os papéis de volta e levantou até metade do rosto, deixando seus olhos fixos neles e o celular com a maldita fase de lado.

O fisioterapeuta assentiu para algo que Lily disse e foi até uma das espreguiçadeiras e colocou sua bolsa ali, se preparando para a sessão. Nisso, Lily foi até a beira da piscina e checou a temperatura com o pé e levantou o vestido, tirando-o.

- Merda. Sirius, eu vou te matar.

Desviou os olhos para os papéis, como se estivesse mesmo lendo todos os rabiscos sem sentido de Sirius, provavelmente feitos enquanto falava no telefone com alguém ou qualquer coisa do tipo.

Não era nada demais, Lily usava um maiô normal, provavelmente para manter o profissionalismo da sessão, então não tinha visto nada demais, mas a peça era o bastante para ele naquele momento. Pegou o celular de volta e começou a tentar passar aquela fase. Talvez, com a força do ódio que sentia por Sirius agora por colocá-lo naquela posição, iria conseguir passar.

Ouviu quando alguém entrou na piscina, mas não desviou o olhar. Logo depois, uma segunda pessoa entrou e ele continuou focando no jogo. Perdeu, teve que recomeçar.

- Levanta mais. - Ouviu a voz do cara soar por todo o jardim. As vozes faziam mais eco agora que estavam dentro da piscina, indo direto até ele.

- Eu não consigo. - Lily dizia com um tom de dor.

- Consegue mais um pouco, lembra da semana passada? Você quase tocou na borda da piscina e agora não está nem na metade.

- Mas estou com muita dor desde o fim de semana.

- E é para isso que eu estou aqui. Vamos, eu vou te ajudar só no começo, mas eu quero que você continue sozinha, ok?

Curioso, James abaixou os papéis dos olhos e deu uma olhada para a piscina. Lily segurava na borda, enquanto o fisioterapeuta segurava sua perna e a levantava devagar. A ruiva fazia careta de dor, segurando com força nos ladrilhos da piscina.

Aquela cena era frustrante para James, mal podia saber como ela se sentia. Estava acostumado com as reclamações dela de dor, mas nunca a via com aquela expressão de agonia. Tirando quando a achou caminhando e quase caindo no fim de semana, depois da festa de Dorcas.

- Eu não consigo ir mais. - Ela disse.

- Consegue, Lily. Vamos, mais um pouco.

- E se tentássemos o outro exercício primeiro? Aquele que melhora a dor?

- Ah, a tática de pular um exercício, querendo me fazer acreditar que apenas quer fazer outra coisa. - O fisioterapeuta riu. - Nós vamos fazê-lo também, mas preciso que você faça esse primeiro.

Ela resmungou de descontentamento. Agora, James se pegava torcendo por ela, sabendo que Lily era forte o bastante para vencer a dor para ficar melhor. Ficou com a atenção voltada para a sua perna que subia devagar, centímetro por centímetro. O fisioterapeuta não segurava mais, deixando Lily fazer o exercício sozinha.

- Mais um pouco, Sardenta. - Ele sussurrou para si mesmo quando a perna dela chegava quase até a borda. - Vai, mais um pouco.

Quando ela estava quase tocando a borda da piscina, soltou a perna na água, não conseguindo ir mais além.

- Eu não disse que você conseguia?! - O fisioterapeuta disse, batendo palma. - Quando você quer, você consegue, Lily.

- Obrigada. - Ela respondeu um pouco sem fôlego, provavelmente pela dor que sentia.

- De novo, vamos lá.

- De novo?

- Claro! Até a borda de novo.

O joelho de James pulsou inconscientemente, como se ele fosse sentir a dor dela fazendo aquele exercício de novo. De repente, ela levantou os olhos até ele, pegando-o no flagra. Nem tinha reparado que estava sentado na ponta da cadeira e olhando diretamente para eles. Não tinha como disfarçar agora, então James apenas assentiu para ela, como se quisesse deixá-la saber que ele sabia que Lily era capaz de refazer.

Viu um pequeno sorriso escapar dela, então a ruiva abaixou a cabeça e recomeçou o exercício, sozinha desta vez. De pouco a pouco e mais rápido do que a primeira vez, a perna dela levantava, não impedindo a careta de dor e as mãos apertando com toda a força a borda da piscina. Ela soltou um suspiro de sofrimento quando continuou o exercício, tendo os dois - o fisioterapeuta e James -, tensos e orgulhosos dela.

James sentiu uma dor nas mãos e percebeu que segurava os braços da cadeira com força enquanto a assistia, então os soltou e flexionou os dedos tensos. Pegou o copo de suco e deu um gole, sem tirar os olhos dela.

- Perfeito. - O fisioterapeuta disse quando ela foi até um pouco mais alto do que antes e soltou a perna. - Na próxima sessão, eu quero te ver ir até mais longe nesse exercício. Você está progredindo bastante.

- Podemos pular para outro exercício então? - Ela perguntou, esperançosa.

- Sim, você fez o bastante desse hoje. Lembre-se que eu não estou aqui para te forçar. Quando eu peço para você repetir, é porque eu sei que você consegue e isso não vai te causar mal.

- Eu sei. - Ela respondeu.

O cara galã saiu da piscina e foi até a sua mochila, talvez pegar algo para o próximo exercício, e Lily levantou o olhar até James. Ela apoiou os braços na borda da piscina, encarando-o. James voltou para a realidade, onde estava quase caindo da cadeira para assistir Lily, quando deveria disfarçar que estava ali para vigiar o tal fisioterapeuta.

Engolindo em seco, ele pegou os papéis e o celular e voltou para o que fazia antes.

Lá embaixo, Lily viu quando James se escondeu atrás daquela papelada novamente. Riu um pouco sozinha com ele. Melhor para ela, porque quando ele se escondia daquele jeito, ela podia olhar para ele e para aquele torso nu que James decidiu presenteá-la naquele dia. Não que ela não soubesse o que tinha ali embaixo, pois já tinha visto, mas estava com outra mentalidade agora. Queria, mais do que tudo, beijar James naquele momento e ter aquela visão só fez com que ela quisesse ter a sorte de beijá-lo e poder passar a mão por onde aquela gota escorreu mais cedo.

Se contasse esses novos pensamentos para Alice, a amiga iria matá-la. Na última conversa, disse que queria apenas um beijo e agora pensava sobre o corpo dele e tudo o mais.

- Agora o exercício com a fita. - Jon, o fisioterapeuta, voltou para a piscina.

Esse homem era tão bonito e tão charmoso. Ficou tão empolgada em saber que não teria Sirius nesta sessão igual um urubu, mas desde sábado sua cabeça não tinha mais espaço para ninguém. Olhou de novo para cima, onde James continuava com o rosto enfiado nos papéis, ou melhor, no celular, e deu uma última olhada em seu torso brilhando no sol, antes de virar para Jon e sua fita.

Com o começo do exercício, já sentiu aquele alívio de imediato. Adorava quando faziam aquele, porque Lily quase sentia como era ter uma perna sem dor, coisa que ela não conseguia lembrar mais.

Tudo o que ela queria, era não sentir mais aquela dor infernal mais.

E um beijo de James Potter.

- Está um pouco distraída hoje. - Jon comentou quando ela soltou um pouco a fita, prestando mais atenção nos pensamentos do que em si mesma. Ouviu o barulho de folhas e imaginou que James poderia ter abaixado-as para dar uma espiada neles.

- Um pouco. Desculpe.

- Não peça. Mas você é quem conhece seus limites e eu lido com eles, preciso saber se você quer continuar ou não.

- Está tudo bem, podemos continuar.

E assim seguiram pelos próximos quarenta minutos: exercícios que ela detestava, mas sendo recompensada com outros que aliviavam. Era uma eterna viagem do inferno para o paraíso, com olhadas estratégias para James quando sentia dor para poder ter um pouco de prazer naqueles momentos. Ele espiava de vez em quando, parecendo enviar alguma força para ela continuar os exercícios, o que ajudava bastante.

- - Você ainda está tomando a mesma dose dos medicamentos? - Jon perguntou quando já haviam saído da piscina no fim da sessão.

- Sim. Como piorou um pouco há alguns dias, eu tenho tomado certinho e sem escapar nem uma vez.

- Continue, então. Você verá o ortopedista esse mês?

- Em alguns dias.

- Certo. Eu vou escrever uma carta de recomendação de cintilografia óssea. Você sofreu uma lesão grave e é normal ter uma recuperação lenta, mas é melhor a gente dar uma olhada como estão as coisas depois desses meses que passaram.

Jon tirou suas guias da bolsa e apoiou no balcão da cozinha, escrevendo a tal recomendação.

- Gostaria de beber algo? - Lily perguntou.

- Não, obrigado. - Ele sorriu para o papel, sem parar de escrever. - Onde está o seu irmão? Eu quase trouxe um diploma falso de fisioterapeuta ajudante para ele hoje.

Aquilo iria fazer Sirius morrer de vergonha, com certeza, e seria merecido. Até ele contornar com alguma piada mal colocada, fazendo Lily morrer de vergonha por ele.

- Está em Oxford nesta semana.

Como a vida era engraçada. Queria tanto ficar sozinha com Jon uma vez e tentar uma outra cantada, tendo esperança que ele aceitaria - provavelmente iria passar Lily para outro fisioterapeuta depois, já que ele era muito profissional -, mas agora ele era apenas um cara muito bonito, muito bonito mesmo, mas que não lhe trazia nenhum desejo mais.

E pensar que estava com Edgar quando conheceu Jon e não sentia-se tão presa nele quanto sentia-se com James naqueles dias, mesmo sem nem ter nada com ele.

O que esse cara estava fazendo com ela?

- Aqui está. Entregue para o seu ortopedista e veremos o que ele acha.

- Obrigada. Tudo o que vocês pedirem e que ajude com essa dor, eu aceito.

Jon sorriu levemente para ela, provavelmente muito acostumado em ouvir sobre as dores das pessoas.

- Vai passar. Ou melhorar muito mais, você vai ver. Precisa de mais alguma coisa? Algo com que eu posso ajudar?

Ah Jon, havia, mas não há mais. Infelizmente.

- Não, obrigada. Está tudo bem.

Ele se despediram após confirmarem a sessão da semana que vem e Jon deixou a casa logo em seguida. Lily estava apoiada no balcão da cozinha, batendo com os dedos em cima.

- Você pode entrar. - Disse para o cômodo vazio.

James apareceu na porta da cozinha com a maior cara de pau que possuía, misturada com a expressão de quem sabia que havia sido pego.

- Como foi a fisioterapia? - Ele teve a coragem de perguntar.

- Ah, você não sabe? Tem certeza?

- Eu desviei um pouco a atenção de Física para ver se estava tudo bem, mas foi só.

- Você não fez nada de exercício nenhum, Descabelado. Nem na caneta você tocou, nem trocou de página em uma hora. - Ele abriu a boca, sendo pego mais no pulo do que sabia ter sido pego. - Eu sei que você está aqui para vigiar a minha sessão. Bastou Sirius ligar e vir com essa conversa de trabalho importante de Física e que você teria que fazer. Foi a coisa mais absurda que eu ouvi. E aí chega você, sentando, convenientemente, na varanda para fazer isso. Eu não nasci ontem, nem hoje. Eu conheço a peste do meu irmão.

Cruzou os braços e esperou pela mentira deslavada que James iria inventar para contornar a situação. Mas surpreendeu-se com a palavra que saiu de sua boca logo em seguida.

- Desculpe. - Aquilo a fez descruzar os braços. - Sirius apenas está preocupado com você.

- Isso não é desculpa para ficar me vigiando assim. Por que ninguém dá uma pancada na cabeça dele e diz que ele está exagerando? As pessoas apenas seguem o que ele diz ou pede. Por que sou eu que tenho que sofrer por conta das loucuras dele?

- Sardenta...

- Não vem com "Sardenta". Você não acha isso ridículo? Honestamente, você não acha?

James fechou os olhos e respirou fundo.

- Sim, eu acho ridículo e exagerado dele.

- Então por que você está aqui hoje, fazendo essa loucura que ele te pediu?

Ele abriu e fechou a boca, perdido. Lily não sabia como Sirius conseguia convencer as pessoas com aquilo, porque não fazia sentido. Será que ela se mostrava louca, fazendo as pessoas pensarem que ela precisava de ajuda mesmo?

- Honestamente, eu não sei. Acho que é o desespero dele que convence. - Ele respondeu.

- Me diga a verdade: você acha que eu não sou capaz de cuidar de mim?

- Claro que você é. - James soltou, quase ultrajado. - Isso é nítido. Você é mais capaz de cuidar de si do que Sirius cuidar dele mesmo.

- E ninguém me vê pedindo para Alice ficar tomando conta dele, não é? Se eu fizesse isso, Alice me daria com um livro na cabeça ou algo assim. Sabe por quê? Porque ela é sensata.

- Ouch. - Ele resmungou.

- Sim, a verdade dói, não é?

E por mais que ela estivesse sentindo-se bem por botar tudo aquilo para fora, tudo o que ela queria era pular nos braços dele naquele instante e beijá-lo até não conseguir respirar mais.

- Você e Remus deveriam ser mais sensatos e ajudar Sirius a sair dessa neura. Vocês são os únicos capazes de tirá-lo dali.

- Você desacredita muito o seu próprio poder sobre ele, Sardenta. Sirius faria qualquer coisa por você.

- Parar de me atormentar com isso, ele não ouve.

O celular de James apitou com uma mensagem, fazendo o garoto apenas olhar rapidamente para a tela e descartar o aparelho depois.

- Se isso te faria feliz, eu vou tentar...- Ele fez alguns gestos no ar. - ...sei lá, conversar com Sirius ou ajudar de alguma forma.

Lily bateu palmas, animada, e o abraçou. Péssima ideia, uma péssima ideia. Porém, ótima também. Ele já estava vestido com a camiseta, mas ela ainda estava apenas de maio, então podia sentir bem o corpo dele contra o seu. E as mãos dele que estavam respeitosamente em sua cintura, sem realmente abraçá-la completamente. Talvez estivesse assustando-o e não queria forçar James a nada, então ela se desembaraçou dele e deu um passo para trás.

- Obrigada, vai ajudar muito. - Tirou os cabelos do rosto, um pouco sem graça.

- Claro, claro. - Ele dizia, parecendo procurar por algo na cozinha, mas não achou nada, então pegou o celular e deu uma olhada na tela. - Eu tenho algo com Frank, então eu...vou indo. - Disse enquanto apontava para a porta da cozinha. - Eu sei que sua mãe costuma chegar tarde, então se precisar de alguma coisa ou se algo acontecer, me ligue.

Apenas assentiu, sem muita força para responder com palavras. James também assentiu e olhava para todos os lugares, menos para ela.

- Te vejo amanhã, então. De manhã, para...Hogwarts e tal. - Ela disse.

- Sim, amanhã. Mesma hora.

Os dois ficaram parados, esperando. Pelo o quê, Lily só poderia supor, já que não tinha ideia.

Era mentira. Tinha que parar de mentir para si mesma. Estava esperando e segurando-se para não se aproximar e beijá-lo no rosto como despedida, como vinha fazendo na semana. Mas por que ele não se mexia, não dava as costas e ia embora?

Uma fagulha de esperança se acendeu em seu peito. Ele estaria esperando pelo beijo de despedida também?

Só teria um jeito de descobrir.

Vagarosamente, ela se aproximou e foi naquela hora que teve a confirmação: James, quase automaticamente, abaixou em sua direção. Ele estava facilitando de novo o beijo enquanto se abaixava para ela.

Ah, que bela descoberta. James esperava pelo beijo dela o tanto quanto ela queria dar nele. Pelo menos o beijo da despedida.

Continuou seu caminho e, segurando o rosto dele com carinho, ela depositou o seu beijo em sua bochecha, bem devagar e bem caprichado, até fechando os olhos enquanto sentia a pele dele e a barba por fazer que lhe deixava mais maravilhoso que o normal. Se afastou, ainda segurando o rosto dele, e o fitou. James a encarou de volta por alguns segundos e, muito rápido, ele desviou o olhar para a boca dela, antes de levantá-lo rapidamente.

- Tchau, James.

Ele não respondeu, mas se afastou dela, fazendo as mãos de Lily caírem ao seu lado. A ruiva tentava disfarçar o sorriso enorme que queria tomar conta, mas se segurou.

James foi até a porta e deu uma última olhada para trás antes de sair da cozinha. Lily ouviu a porta da frente se fechando e se deixou cair no banco do balcão da cozinha, tentando não se derreter.

- Ah, James Potter. Você não está facilitando a minha sanidade, mas não está dificultando as minhas investidas, não é?


Quinta-feira, um dia para Sirius voltar e James não sabia o que pensava disso.

Suas mãos estavam doloridas de tanto que acertou o saco de areia na casa de Frank ontem, após deixar Lily. As coisas estavam bem claras, mais claras impossíveis: Lily estava querendo algo com ele e parecia bem investida em deixá-lo saber disso. Naquele ponto, não tinha como se enganar com as intenções dela, pois estavam estampadas.

Bom, ele ainda poderia estar sendo vítima de uma brincadeira bem maldosa dela. Lily era boa nisso, adorando pregar peças neles quando menores, mas nada nunca tão sádico assim. Porque seria muito sádico da parte dela despertar interesse em alguém e depois deixá-lo na vontade daquele jeito.

E ah, a vontade. Como ela crescia cada vez que a via. Estava a ponto de pedir clemência para ela, por misericórdia, para sentir um pouco de pena dele, de ver como ele se encontrava no trilho do trem com dois deles vindo, um de cada lado: um sendo ela e o outro, Sirius. Algum deles iria acertá-lo, ou talvez ambos.

O que Sirius faria se descobrisse aquilo? Estavam falando dele, de James, o cara que ele poderia confiar. Ele pensaria que James seria horrível com ela, tirando proveito da sua irmã, destruindo o coração de Lily? Ele nunca faria isso. Sirius sabia como ele era com as mulheres e, mesmo que nunca tenha namorado, ele nunca foi um idiota com elas.

Ele não aceitaria o seu melhor amigo com a sua irmã?

Desligou o chuveiro, pegando a toalha e a enrolando na cintura. Foi até a pia e deu uma olhada na barba que estava levemente maior do que ontem. Pegou o barbeador e o encarou por alguns instantes, pensando, refletindo.

"Eu gostei. Bastante."

As palavras e o olhar de contentamento de Lily ontem de manhã sobre como ele ficava com a barba por fazer lhe fez soltar o barbeador e voltar para o quarto e se trocar. Quando ficou esperando, igual um idiota, pelo beijo dela ontem, já sabia que havia entrado naquele jogo dela, então não fazer a barba por Lily gostar, era só mais uma jogada que entregava o troféu para ela.

Não podia esconder isso de si: ele queria que Lily o quisesse, mesmo ele não sabendo o que fazer com aquilo depois. Era um idiota de proporções gigantescas. Quem parecia o sádico agora?

Escovou os dentes, terminou de se trocar e saiu de casa. Lá ia para mais uma manhã pegar Lily e ficar dentro do carro com ela por alguns minutos, sentindo o perfume dela colar em sua cabeça. Qual seria a pergunta estapafúrdia que teria para ele hoje? Com o que ele teria que se torturar dessa vez?

Entrou no pátio da frente da casa e saiu do carro um pouco apressado. Estava apreensivo, ao mesmo tempo que só queria poder vê-la logo. Abriu a porta e já foi logo em direção a cozinha.

Estava vazia.

Olhou para o relógio, confirmando que estava na hora do café da manhã dela. Mas onde ela estava? Será que não havia acordado? Pegou o celular e ligou para ela. Sem resposta.

Meu deus, perdeu a irmã do amigo.

Subiu as escadas e viu que a porta dela estava fechada. Bateu três vezes e esperou.

A porta abriu logo depois e se deparou com Lily escovando os dentes, já pronta. James olhou de novo para o relógio, percebendo que ela estava bem adiantada, na verdade.

- Bom dia. - Ela disse de um jeito esquisito por conta da escova de dentes. - Está tudo bem?

- Sim. Só achei estranho você não estar lá embaixo e não responder a minha ligação.

- Ah. - Ela abanou a mão - . Acordei muito cedo hoje, por isso. Isso é uma reclamação por não ter sobrado frutas para você?

Ela abriu mais a porta e foi em direção ao banheiro. Ele se recostou no batente, esperando por ela, enquanto ouvia a água da pia abrindo.

- Você é quem me alimenta de manhã, Sardenta. Foi muita desconsideração da sua parte fazer isso. Terei que ir faminto para Hogwarts.

- Como eu sou malvada, não é mesmo? Terá que esperar até amanhã para comer novamente.

- Exato.

Saiu do banheiro e pegou sua sandália, indo até a cama.

- Se eu soubesse que as coisas que eu faço fazem tanta falta, eu não teria me apressado tanto no café da manhã. - Ela disse, olhando para James. - Não quero que você sinta falta de algo, não é mesmo? Ou sinta vontade de qualquer coisa que venha de mim.

Se desencostou do batente e apoiou a mão ali, encarando Lily de volta. O que ela não sabia, é que os dois podiam jogar aquele joguinho dela, ele sendo cruel ou não.

- Você saberia o que é isso? Sentir vontade de algo e não ter?

Lily pareceu surpresa com a resposta, mas logo se recuperou, pegando a outra sandália e a calçando.

- Não, eu não sei o que é isso. - James levantou as sobrancelhas com a ousadia dela. - Porque eu costumo lutar bastante para ter algo que eu tenho vontade. Sempre dá certo.

- Sempre? - Ele perguntou.

- Não tive muitas coisas que eu realmente quis tanto, mas as que eu quis, eu consegui.

- Não importa o nível de dificuldade?

Ela se levantou e caminhou até ele. Hoje, ela parecia bem o bastante para não ter que usar a muleta e ele ficou feliz em saber disso.

- Vamos dizer que eu passaria aquela fase do seu joguinho do celular no primeiro dia, de tanto que eu me aplicaria para passar. Para mim, o mais importante é o quanto você luta para conseguir. - Ela parou ao seu lado. - Esse é o tanto que eu não me importo com o nível de dificuldade. - Lily sorriu, inocente. - Vamos?

E não esperando a resposta dele, Lily saiu para o corredor, deixando-o para trás.

James, sem ter o que poder responder, apenas fechou os olhos por alguns segundos e desceu as escadas.

No carro, tudo estava calmo. O rádio estava ligado, o trânsito estava um pouco chatinho e Lily estava quieta. Apenas quieta no sentido de não falar nada absurdo ou levantar perguntas que o faziam suar, mas cantava com o rádio, comentava alguma coisa ou outra de Hogwarts e era isso.

James tentava não lançar olhares para ela o tempo todo, se policiando o máximo que podia.

Ela não iria falar nada hoje?

- Como está a sua perna?

- Boa. Depois da fisioterapia, eu costumo ter uns dias de descanso da dor.

- Da última vez, foi a festa de Dorcas e Remus que te deixou mal. Eu não te via usando ajuda para andar desde quando saiu do hospital.

- Talvez eu tenha exagerado um pouco. Mas eu tenho que começar a viver de novo.

Chegaram no estacionamento de Hogwarts e Remus se aproximou de ambos, abrindo a boca, pronto para cumprimentá-los, mas eles foram mais rápidos, cumprimentando-o ao mesmo tempo.

- Oi.

- Oi, Rem.

Remus desistiu de seu cumprimento habitual e sorriu, não percebendo que os dois estavam evitando o "oi, casal".

- Você está andando um pouco melhor, Lily.

- Fisioterapia faz milagres.

Ela continuou seu caminho, alheio ao olhar que Remus lançou a James. Lily estava razoavelmente distante para que os dois se aproximassem e conversassem.

- Você foi ontem para a sessão dela?

James revirou os olhos e confirmou com a cabeça.

- Ela sabe.

- Do que?

- Que eu estava lá para isso. Sirius veio com uma desculpa esfarrapada, pensando que a irmã dele é idiota.

- Ela ficou brava?

- Por um momento, sim. Está de saco cheio de Sirius agir desse jeito e, honestamente, eu concordo com ela. Ele é muito exagerado.

- Acho que não há ninguém que esteja do lado dele nessa questão.

Eles olharam para Lily logo a frente, se adiantando para chegar até Alice. As garotas se cumprimentaram, Alice acenou para os dois e pegaram caminho para o prédio principal. James ficou de olho quando ela se aproximou das escadas, mas a ruiva subiu com mais facilidade do que o começo da semana.

Ela não parecia precisar mais muito dele. Ou não dessa vez, pelo menos.

- O que foi? - Remus perguntou.

- O que foi o quê?

- Você suspirou. Qual o problema?

- Nada. - Deu de ombros. - Nada.

Não era e não podia ser algo além de nada.

L~J

Estava sendo sofrido, mas precisava fazer aquilo.

Se afastou um pouco de James após toda aquela loucura para poder saber como ele reagiria. Ficaria aliviado? Procuraria por ela? Perguntaria ou comentaria algo do que se passou durante os três últimos dias? Aquilo lhe daria uma pista de para onde seguir.

Não sentaram juntos no almoço dessa vez, já que os caras estavam em um grupo grande e tedioso no momento, então se isolou com Alice. Era bom ter a amiga só para ela de vez em quando.

- ...mas se você não conseguir, Frank vai com os caras e a gente pode ir no cinema. O que acha?

Alice tagarelava, como sempre. Lily adorava quando a amiga disparava em falar sobre algo, principalmente se fossem planos para elas, porque ela sempre ficava muito animada.

- Eu quero ir no Três Vassouras. Não vou exagerar como na festa do fim de semana. E se eu sentir dor, eu vou embora.

Três Vassouras era um bar onde os amigos gostavam de se reunir algumas vezes. Era o único lugar fora de Londres que tocava músicas boas e tinha um ambiente legal. Por estar entre a cidade e Hogwarts, ficava sempre lotada de alunos, o que fazia os caminhos se cruzarem bastante.

- Podemos ir juntas, então. Deixe os garotos se virarem sozinhos. Quero curtir com você. - Alice disse quase pulando da cadeira.

Sorte que Frank era um cara legal e muito tranquilo, nunca interferindo nas saídas da namorada. Ela bufou em pensar que na sua vida, era o irmão que enchia o saco.

Seus olhos percorreram o refeitório até chegar onde queria: a mesa dos caras, a mesa mais barulhenta do lugar. Se Sirius estivesse ali, aquela bagunça seria ainda o dobro. Eles riam bem alto, batiam na mesa às vezes, falavam quase aos gritos.

A risada de James era contagiante, jogando a cabeça para trás, te fazendo sorrir e querer perguntar o que o fazia rir daquele jeito, querendo participar da alegria dele. Ele disse alguma coisa para os caras e todos começaram a gargalhar com ele.

Alice olhou para trás e depois de volta para Lily.

- Cuidado. - Disse ela, os olhos preocupados.

- Com o quê? - Lily perguntou sorrindo, como se participasse do que acontecia na outra mesa.

- Você olha para ele como...não sei explicar. - Alice olhou para trás novamente. - Como se quisesse mais do que um beijo.

- Bom, se ele quiser mais do que um beijo, eu não vou me importar. - A ruiva deu de ombros.

- Não digo sobre isso. Parece que você está... encantada.

Encantada? Não ficaria surpresa em parecer encantada, porque ela sentia que estava. Foi uma surpresa tão grande e boa, que mesmo com a loucura que aquilo poderia ser, ela não ligava. Apenas admirava-o, fisicamente e também sua personalidade, fazendo-a cair cada vez mais naquela areia movediça que James Potter era. Quanto mais se mexia, mais presa ficava...quanto mais o olhava, mais fundo descia...quanto mais perto dele estava, mais a areia parecia estar em seu pescoço, sem saída.

- E você nem nega. - Alice apontou ao ver o ar sonhador da amiga. - Até onde você vai com isso, Lils?

- Eu não sei. Até onde der, até onde quisermos.

- "Quisermos"?

- Ele quer, Alice. Alguma coisa ele quer, eu só preciso saber o que é. Não é possível que ele queira apenas flerte...deve querer algo a mais.

Como se soubesse que seu nome estava sendo o tópico de outra mesa, James olhou para elas no mesmo momento que Lily se virou para eles. Se encararam por longos segundos, fazendo o coração de Lily gelar.

- E como você pretende descobrir? - Alice perguntou, alheia a troca de olhares que ocorria.

Lily engoliu em seco, sem desviar o olhar, assim como ele.

- O que você está querendo, James? - Ela perguntou alto o bastante para a Alice ouvir, mas mexendo os lábios minimamente para que ele não os lesse. Viu que ele espremeu os olhos, de fato, tentando ler seus lábios.

- Você vai perguntar?

- Não. Não tem nada mais chato e sem emoção do que perguntar. - Agora ela falava normalmente, deixando James ler o que ela falava, se quisesse. - Ação é sempre mais legal.

Não saberia se ele entendeu ou não, porque a expressão dele não mudou. Eles estavam razoavelmente longe, talvez não conseguiria ver sua boca tão bem.

O sinal do fim do almoço soou, fazendo os caras se mexerem e falarem com James, obrigando-o a olhar para eles. Lily voltou sua atenção para Alice.

- Você está ficando encantada até demais.

- Não diga besteira. Vamos, temos que ir até o outro lado da escola para a aula de Inglês.

J~L

- Eu vi.

Remus disse ao seu lado enquanto iam para a aula, assim como as garotas e a maior parte de seus amigos.

- Que bom, significa que tem uma boa visão, diferente de mim. Óculos e lentes de contato são bem inconvenientes às vezes.

- Larga de ser idiota. Você sabe do que eu estou falando.

- Sim, de quando você direciona seus olhos para algo e vê.

Recebeu um soco nada fraco em seu braço e reclamou.

- Você estava babando nela, James. Não olhando, não admirando, não nada disso. Era babando.

- Eu tenho culpa? Claire estava usando uma blusa decotada, não consegui desviar o olhar.

- Você não lançou nem um olhar para Claire e o decote dela quando foi mencionado. Você estava olhando para o outro lado do refeitório, três mesas de distância, onde tinha duas garotas. Uma morena e outra ruiva. E não era pela morena que você babava.

James estalou a língua e meneou a cabeça.

- Talvez você não tenha uma boa visão, no final. Aconselho meu oftalmologista, ele é muito bom.

- Você é um idiota. Mais do que Sirius. Lembra dele? O seu melhor amigo, irmão da Lily?

Remus sabia como trazer a seriedade para uma conversa com a delicadeza de uma pisada de elefante em suas bolas.

- Você não viu nada, Remus. Nada. Não há nada para ver.

- Vi sim, vi tudo e vi muito. Pior: eu vi Lily. Ela olhava para você também. - Remus parou James no corredor, já que a sala estava a cinco metros de distância. - O que está rolando?

- Nada está rolando, eu já te falei.

- Você tentou algo? Deu em cima dela?

James respirou fundo.

- Eu não tentei e nem dei em cima dela. Mas obrigado pela confiança. - O moreno ia continuar seu caminho, mas parou, virando para Remus. - E obrigado pela ajuda e suporte, caso fosse o caso. Lily tem razão: Sirius consegue trazer as pessoas a agirem tão idiotamente como ele nessa questão.

Sem querer discutir mais, James deu as costas e entrou na sala.

J~L

Chutou uma pedra contra a parede no fim das aulas. Inferno, mil vezes inferno.

Inferno de que Remus, apesar de estar embalado pelo exagero de Sirius, lhe lembrava que Lily era inalcançável. Bem quando parecia haver uma oportunidade das coisas desenrolarem entre eles, aparentemente.

- Merda! - Soltou um pouco mais alto do que devia.

Olhou para o celular. Uma mensagem de Sirius estava lá, desde manhã, esperando para ser respondida, mas que ele vinha ignorando a tempos.

"Tudo ok com Lily? Ela não me responde"

Bem, Sirius...talvez seja pelo fato da sua irmã saber que você contratou uma babá para cuidar dela. E o idiota aqui aceitou, causando todo esse problema.

- "O que poderia dar errado?" - James repetiu as mesmas palavras do amigo no fim de semana, usando uma voz debochada. - Isso é o que poderia dar de errado, seu idiota. Deixar o seu amigo, que já foi muito apaixonado pela sua irmã, ajudá-la.

Para ser justo com Sirius, mas só um pouco, se Lily não tivesse endoidado de uma hora para outra, as coisas estariam seguindo o curso normal da vida e James não estaria a ponto de arrancar os próprios cabelos agora. Isso é certo.

Mas tudo estava apontando para dar errado, ela endoidando ou não, porque ela poderia descobrir do pedido de Sirius para James ficar em cima dela e fazer a vida dele muito difícil. No final, ela descobriu, mas não foi tão ruim quanto imaginava...

... provavelmente porque ela tinha endoidado e estava agindo daquele jeito com ele.

Gemeu e resmungou com raiva. Bendita fosse a sexta-feira e a volta de Sirius. A vida precisava voltar ao normal e...

Parou no meio do caminho ao ter a visão de seu carro. Lá estava ela, com o seu vestido florido do dia esvoaçando com uma leve brisa, assim como seus cabelos. Lily estava embaixo de uma faixa de sol, como se precisasse exaltar ainda mais o quanto ela era linda.

Maldita fosse a sexta-feira, o dia seguinte, quando Sirius estaria de volta.

- Saiu cedo? - Ele conseguiu perguntar.

Lily se virou para ele e sorriu.

- Quem terminasse o simulado de Química, podia sair. - Ela abriu os braços, orgulhosa. - Então aqui estou eu.

- Slughorn abriu um tapete vermelho para você sair da sala também?

- Invejoso.

Os dois entraram no carro, parecendo perdidos em seus dilemas e problemas. Como sempre, James ligou o rádio e esperou alguns alunos saírem do caminho.

Seu celular vibrou em seu bolso e viu que era uma nova mensagem de Sirius:

"Por que ninguém me responde? Alguma coisa aconteceu? Se eu não tiver resposta, eu vou voltar essa tarde."

Revirou os olhos.

- Pode, por favor, responder o seu irmão?

- Aquele manipulador? Não, obrigada. - Lily respondeu, sorrindo e olhando pela janela.

- Sardenta, ele vai me encher o saco até o fim dos dias se você não responder.

- Que ótimo, você merece também, assim mostra a terrível babá que você é, fazendo-o repensar nas decisões que toma pelas minhas costas.

O caminho ficou, finalmente livre, então ele pôde sair do estacionamento de Hogwarts. Seu celular vibrou novamente e deu uma rápida olhada na tela quando parou no semáforo:

"Estou voltando"

Abriu os olhos, as mãos começando a suar. Aquilo era uma boa notícia, não? James deveria estar feliz que Sirius estivesse voltando e não precisasse ficar tão perto de Lily assim.

Mas seu coração disparou e percebeu que não era de felicidade. Olhou para Lily e depois para o aparelho em seu colo.

- Ele está voltando.

- Quem? - Lily se virou rápido para ele.

- Sirius. Você não responde, eu não respondi ainda suas mensagens, então ele está voltando.

Lily virou o rosto vagarosamente para frente, fitando a rua. Cinco segundos depois, ela pegou sua bolsa e tirou o celular de dentro.

- Idiota. Ele é um idiota manipulador. - Ela reclamava enquanto digitava algo rápido e jogou o aparelho para longe. - Pronto.

- Foi uma mensagem rápida. - James comentou.

- Escrevi o estritamente necessário: "vai se ferrar, eu estou viva". Acho que isso vai acalmá-lo.

- Esse é um jeito de ver as coisas. Não garanto muito que ele ficará feliz.

- Eu não estou feliz com o que ele fez também, então nos deixa quites.

- Você não parecia tão brava assim ontem.

- Eu tive tempo para pensar em tudo, o que deu margem para eu ficar furiosa da vida com ele. - A ruiva lançou um olhar para o lado. - Eu deveria ficar com você também, mas sei que você foi manipulado.

- Eu não fui manipulado! - James respondeu, ofendido.

- Ou isso, ou você achou que eu merecia ter uma babá.

Sirius e Lily lhe davam dor de cabeça, às vezes, e aquele momento era uma delas. Não era sempre que era julgado de manipulado ou imbecil, tendo que escolher um deles. Não sabia qual era o pior naquele episódio.

- Não está sendo um pouco injusta? - Ele perguntou.

- Oh quanta injustiça para James Potter, o coitado que está sofrendo tanto.

Ok. Ela não estava feliz com aquele assunto e ele não iria desmerecer aquele sentimento, já que teria a mesma reação que ela. Mas seria algo que teria que resolver com Sirius no dia seguinte.

Ele estava vindo apenas no dia seguinte, certo?

Pegou celular e não viu mais novas mensagens. A que Lily enviou deve ter acalmado os nervos do irmão. Menos mal. Ou não.

Merda, não sabia o que era boa notícia mais.

Com a raiva que Lily claramente estava, sabia que a ruiva iria apenas entrar na casa direto. Então quando parou o carro no pátio da frente da casa, ele também saiu, dando a volta e parando ao lado de sua porta. Lily não usava a muleta, mas não pulava para fora do carro com tanta facilidade, estando com raiva ou não. Ficou ali por perto, caso ela precisasse de ajuda, o que não foi o caso.

- Entregue com segurança. Espero que tenha tido uma boa viagem. - Lily o olhou de lado, fazendo-o rir. - Vamos lá, Sardenta. Tire o melhor disso, pelo menos.

- Sim, claro. Vejo você amanhã.

E como James suspeitava, ela estava pronta para ir em direção a casa. Seu cérebro começou a viajar na velocidade da luz, pensando em tantas coisas ao mesmo tempo, que deve ter dado tela azul...

...já que, sem se parar, James se aproximou e deu um beijo de despedida na bochecha de Lily, a parando no meio do caminho. A boca dele ainda estava perto da pele dela quando o seu cérebro pareceu voltar ao normal e começou a gritar para que ele se afastasse de Lily.

E ele se afastou, arrumando sua postura e dando dois passos para trás.

O que ele fez? Idiota, o que havia feito? Era Lily quem havia endoidado, não ele.

- Ahm, eu vou indo.

Quase correu até a porta do motorista e entrou no carro. Se atreveu a dar uma última olhada para ela, que ainda estava parada no meio do pátio, no mesmo lugar, sorrindo abertamente para ele.

Droga, droga. Ligou o carro, apertou o comando do portão e acelerou para fora da casa dos Black-Evans.

Se caso ele não tivesse dito isso antes, durante aqueles dias loucos que vinha vivendo, então iria dizer agora. Se caso já tivesse dito, valeria a pena repetir: iria matar Sirius Black!


N/A

Olá, pessoinhas. Tudo bem? :D

Gostaria de fazer uma pergunta muito importante: vocês lembram que essa fic é para maiores de 18 anos? Sim? Bom, eu só queria relembrá-los antes dos próximos capítulos *carinha aquela*

Aliás, essa história, diferente das minhas outras, não enrola para a coisa acontecer, porque o plot não é esse e sim todo o resto :P Então não se choquem :P

Resposta para reviews sem login:

Jullie: Oi,linda. Obrigada. Eu sempre fico muuuito feliz em ver que voces curtiram o capitulo *-* Espero que tenha sido o mesmo com o de hoje hehehe Beijooos e até a próxima.

Mah: Acho que todos ficamos felizes com o término daquele relacionamento Lines/Evones/Bonevans. Bom, ai esta varios surtos do James, do jeito que voce queria hahahahha e acho que no fundo, Sirius sabe que eles sao almas gemeas, assim como todos nós sabemos :P Espero que tenha curtido esse, linda. Beijooos

Ramona: Ain meu deus, obrigada. Voce é uma linda. Fico feliz que esteja curtindo a história. Aqui voce teve mais e espero que continue por aqui para o resto :P Beijooos

Sneak Peek amanhã no meu instagram, como sempre.

Beijos ;***