J~L


Have you got colour in your cheeks?

Suas bochechas estão coradas?

Do you ever get that fear

Você já ficou com medo

That you can't shift the type that sticks around

de não esquecer o tipo que gruda na sua cabeça

like something in your teeth?

como algo em seu dente?

Are there some aces up your sleeve?

Há algum Ás na sua manga?

Have you no idea that you're in deep?

Você não faz ideia de que é minha obsessão?

I dreamt about you nearly every night this week

Sonhei com você quase todas as noites essa semana

(Arctic Monkeys - Do I wanna know?)


SÁBADO

Sua perna balançava, cheia de ansiedade, enquanto ele esperava.

Seus olhos estavam grudados na geladeira, às vezes desviando para o armário da cozinha…para um canto específico daquele armário que tinha um novo significado para ele agora, mas virava de volta para a geladeira, querendo se distrair do que aconteceu há uma semana, quando Lily estava sentada bem ali.

Ele soltou um riso.

Uma mensagem apitou no seu celular logo ao seu lado, em cima da mesa.

(13:24) Idiota-agora-Manco: Cheguei!

A perna começou a balançar ainda mais. Tomou o último gole do suco e levantou. Ouviu vozes vindo da casa principal, já que as portas que davam ao jardim estavam abertas. A risada de Sirius era ensurdecedora, e Euphemia o acompanhava.

James pegou sua carteira e celular, indo em direção às risadas.

- Aí está ele. - Euphemia disse ao ver o filho entrando, mas virou para Sirius. - Onde vão?

- Remus não está aqui, Marlene está focada para as provas importantes em alguns dias, Lily está em Leeds…James é o único que sobrou.

- Que sorte a minha. - Ele resmungou.

- Vamos lá. Poderia ser pior.

- Você sabe que me dizendo isso, só me obriga a responder que "poderia ser melhor", não é?

Sirius não pareceu se abalar.

- Não há nada melhor do que Sirius Black. - Disse o próprio. - E apenas para você, por um fim de semana todo.

Euphemia deu batidinhas no rosto de Sirius.

- Você é um querido. Tenha paciência com James hoje, acordou do lado errado da cama.

- Está tudo bem, eu sei lidar com todos os James existentes, não tenho medo.

Saíram da casa dos Potter e foram em direção ao carro de James.

- Como você veio, aliás? - James perguntou ao entrar no carro e vendo o amigo com uma expressão de dor.

- Minha mãe me deu uma carona. Eu não aguentava mais ficar em casa sem fazer nada. Acordei cedo para cacete e sem a minha irmã, a casa está vazia. Achei melhor vir do que ficar lá.

- Notícias dela?

Após levar Lily e Remus na estação de trem ontem, os dois amigos voltaram para a casa dos Black-Evans e passaram a noite toda comendo pizza e jogando videogame. Neste meio tempo, receberam uma mensagem de Lily informando que havia chegado a Leeds e já estava no carro em direção a clínica. Algum tempo depois, receberam outra de Remus dizendo que já estava em Carlisle.

Sem mais notícias dela e James ficou até 3 horas da manhã por lá.

- Sei que ela ligou para a minha mãe essa manhã. Ia começar alguns exercícios hoje.

- Certo.

Seria muito bizarro enviar uma mensagem hoje, não é? Ela foi embora ontem. Tinha muito o que ver e se preparar, além de começar o tratamento. Uma mensagem dele não deveria estar passando pela cabeça dela agora.

Talvez mais tarde? Ou amanhã. Amanhã soava menos louco.

- James!

Virou para Sirius ao seu lado. Estavam ainda parados na garagem, a sua mão prestes a virar a chave e ligar o carro, mas sua mente saiu completamente dali.

Não respondeu o chamado, apenas se preocupou em sair com um Sirius empolgado ao seu lado.

É, amanhã seria melhor.


How many secrets can you keep?

Quantos segredos você consegue guardar?

'Cause there's this tune I found

Porque tem esta música que encontrei

That makes me think of you somehow

Que me faz pensar em você de alguma forma

And I play it on repeat

E eu a toco repetidamente

Until I fall asleep

Até eu cair no sono

Spilling drinks on my settee

Derramando bebidas no meu sofá

- Isso foi ótimo, Lily. Muito bem. Você estava tão preocupada, mas você viu a força que ainda tem nessa perna?

A médica que a acompanharia durante sua estadia na clínica parecia radiante.

- Mas estou longe de ter toda a força necessária.

- Você está no caminho para se recuperar e é isso o que conta.

Lily desceu da maca da sala de exercícios. Naquela hora, elas eram as únicas. Alguns pacientes, aqueles que tinham mais independência, saíam da clínica para encontrar amigos ou familiares. Não era o caso dela, além de ter poucos dias ali e preferia se concentrar na recuperação.

- Acha que os cinco dias aqui farão diferença? - Perguntou francamente.

- Isso vai depender muito de você. Se estiver empenhada nos outros dias como esteve hoje, eu tenho certeza. Apesar do seu caso não ser simples, ele também não é o mais grave. Temos ainda algum caminho pela frente, eu não nego, mas faremos o melhor para evitar a cirurgia.

Lily soltou o ar um pouco mais tranquila. Não precisava de certezas, mas um pouco mais de segurança sobre o que estaria fazendo.

- Isso já ajuda bastante.

As duas saíram da sala e pegaram a mesma direção rumo ao saguão da clínica. Dali, você poderia acessar qualquer outro setor do lugar. Mal passava das 17h agora e não tinha ideia do que fazer. Tudo para Hogwarts estava adiantado, estava guardando alguns filmes para assistir à noite, a clínica estava relativamente vazia.

Se despediu da médica e foi em direção ao seu quarto. Pegou o seu celular e o posicionou na prateleira em frente da sua cadeira e ligou para Sirius.

Sem resposta.

Deu de ombros e se jogou na cama, encarando o teto. Teria que arranjar algo para fazer, senão iria morrer de tédio até quinta-feira.

Ligou a televisão em um canal de música, assim teria algo para ficar de plano de fundo.

Pegou o celular novamente.

(17:14) Lily: Não quero interromper. Apenas querendo saber como vão as coisas.

Clicou em enviar.

Talvez poderia tirar um cochilo até a hora do jantar.

Uma mensagem chegou.

(17:16) Dora: As coisas estão ÓTIMAS. A Dora do passado tinha razão em ficar caída por esse cara…é simplesmente GENIAL.

Aquilo a fez rir. Não duvidava que eles iriam aproveitar cada momento da melhor maneira.

(17:17) Lily: Você está fisgando um cara inteligente, bonito, charmoso, interessante e super legal. Não estou surpresa.

Aquilo, claro, a fez pensar no outro cara inteligente, bonito, charmoso, interessante e super legal que estava em Londres. Desde ontem à noite, ficou pensando sobre como se sentiu ao ir embora de Londres. Lembrava do olhar dele na plataforma enquanto o trem partia; do sentimento de que ela estava deixando algo importante para trás, algo que não queria se afastar tão cedo.

Na época que namorou Edgar, ele tinha alguns jogos em outras cidades com o time de futebol. Às vezes partia na sexta e voltava apenas no domingo à noite. Nunca sentiu tanto pesar com as partidas dele quanto a sua própria ontem.

(17:19) Dora: Se essas características fossem as únicas coisas boas de Remus Lupin…mal sabe você.

Lily gargalhou com a resposta. Bem, nenhum dos dois perdeu tempo, pelo visto. Não sabia se a prima estava incluindo tudo naquela frase, mas não iria perguntar. Ainda.

Uma melodia gostosa começou a tocar e ela olhou para a televisão, assistindo o vídeoclipe de uma música que não conhecia. Foi pega completamente pela melodia e quando o refrão chegou, ela fechou os olhos com os versos na voz da cantora sobre as pessoas dizerem para ela pensar com a cabeça e não com aquela coisa dentro do peito. Porém, "ele" era o único que ela queria e se isso fosse tão errado, então as pessoas não sabiam como era aquele sentimento. Então ela diria "sim".

Encarou o teto enquanto deixava a música entrar em sua cabeça e a fazer pensar na tal racionalidade que vinha buscando por dias, mas que sentia que nunca acharia. Não com James. Assim como naquela música, estava tendo a impressão que a cabeça estava mandando menos, deixando "aquela coisa dentro do seu peito" tomar conta de tudo.

E ela não sabia o que faria com aquilo, mas apenas sabia que estava bem. Estava com medo de onde ia, mas estava bem. Não sabia se era assim que deveria se sentir, mas era por ali que aquilo a estava levando.

Com a música ainda tocando e um sorriso satisfeito e cheio de saudade, ela virou na cama e caiu no sono.

L~J

Acordou com risadas no corredor. Olhou para o relógio e arregalou os olhos: 23:30h.

Perdeu o jantar. Mas que infernos!

Quando chegou na clínica ontem, avisaram que frutas e água estariam disponíveis à vontade na cafeteria, então foi para lá.

Encontrou algum ou outro paciente nos corredores. Elespareciam voltar agora do sábado à cidade ou iam e vinham de outros quartos. Outros deles tinham tido a mesma ideia de fazer um lanche, então os cumprimentou educadamente quando entrou na cafeteria.

Pegou seu celular e viu que Sirius tentou ligar para ela, assim como a sua mãe. Enviou uma mensagem para Geneviève dizendo que ligaria na manhã seguinte.

Estava prestes a ligar para Sirius. Seu dedo, que estava quase apertando o botão, decidiu rolar a tela um pouco mais até encontrar outro nome.

Era quase meia-noite de um sábado. Duvidaria que James estivesse dormindo, mas não seria muito intrusivo ligar a essa hora? Aliás, por que ligaria? Poderia tentar uma mensagem, talvez.

Abriu as mensagens com ele. O que poderia dizer? O "oi" sempre funcionava, mas parecia tão bobo.

(23:45) Lily: Espero que Sirius não tenha te enlouquecido ainda.

Se ele estivesse dormindo - o que imaginava não ser o caso -, poderia responder amanhã. Tinha certeza que Sirius, sem ela e Remus, grudaria no pescoço de James como um vampiro sedento.

Pegou duas maçãs, direcionando-se até a geladeira de garrafas d'água.

Seu celular vibrou e quase deixou as frutas caírem no chão quando tentou pegar o aparelho do bolso.

(23:48) Descabelado: Você e Remus estão proibidos de saírem de Londres ao mesmo tempo!

Abriu a geladeira e pegou uma garrafa, sentando-se em uma mesinha de dois lugares. Era incrível como o seu irmão era tão previsível…e tão grudado nas pessoas. Sirius, realmente, não servia para ficar sozinho.

Provavelmente porque teve que ficar sozinho por muito tempo antes de sua mãe biológica morrer e Orion o resgatar.

Balançou a cabeça, deixando isso de lado. Era um assunto muito triste para o momento.

(23:49) Lily: Na próxima vez, você terá que sair de Londres também, ir para outra cidade.

O salão estava com pouca luz, tendo a maior parte sendo iluminada pelas luzes exteriores que vinham dos grandes vitrais. Era reconfortante, apesar de não estar comendo algo com mais sustância. Estava morrendo de fome.

Olhou para a tela quando esta acendeu.

(23:50) Descabelado: tipo Leeds?

Sentiu um gelo na barriga.

(23:50) Lily: sim, tipo Leeds.

Enviou a mensagem com empolgação e nervosismo misturados.

(23:51) Descabelado: Uma pena que perdi aquele trem.

- Uma pena, James.

Deixou o celular de lado e começou a comer, imaginando o trem fechando as portas ontem e não dando tempo para James sair, obrigando-o a ir até Leeds com ela. Teria sido ótimo.

(23:55) Lily: Na próxima, não saia dele ;)

Sentia-se corajosa demais naquele momento, talvez por ser tarde, estar sozinha ali, confortável. Não com a refeição que desejava, mas o suficiente para aguentar até o café da manhã.

Olhou para o celular e não viu a resposta dele. Ah, droga. Será que tinha sido um pouco demais? Não, não era possível. Era uma mensagem que encaixava perfeitamente na conversa que estavam tendo.

Por isso ficava desconfortável com mensagens às vezes. Poderia ser incompreendida tão facilmente.

A mesa começou a vibrar e estava pronta para ler a mensagem, mas congelou quando viu que James estava ligando.

- Ah meu…! - Engoliu o pedaço de maçã rapidamente e deu um gole d'água. Tossiu um pouco para limpar a garganta. - Ei, oi.

- Estou te atrapalhando?

Havia uma barulheira terrível no fundo. Com certeza ele não estava em casa.

- Não, não, estou na cafeteria da clínica. - Ela riu um pouco. - Você parece estar no Três Vassouras.

- Exatamente onde estamos. - Ele respondeu parecendo se afastar um pouco da multidão. A música ficou mais abafada também. - Bem chato, aliás.

- Acho que ficamos muito acostumados com o que acontece por aí. Sempre as mesmas pessoas, etc.

Ele demorou para responder. Ouviu algumas vozes ao fundo e, de repente, tudo ficou silencioso. Ou muito menos barulhento do que antes.

- Eu gosto de pensar que a companhia faz diferença. Na última vez em que estive aqui, não estava chato.

Foi a tal vez em que eles se beijaram dentro do banheiro dos funcionários. A vez das marcas no pescoço.

- Se fosse daquele jeito todas as vezes, eu não me importaria em ir frequentemente.

Decidiu terminar de comer no quarto. Acenou para as pessoas ainda sentadas e pegou o corredor agora vazio.

- Na próxima vez, não pegue aquele trem.

Um pequeno sorriso escapou de seus lábios.

- Então eu não teria como me recuperar.

- Estamos nos importando com isso? Pensei que não.

Agora ela riu pelo nariz. Ele tomava tanto cuidado com a perna dela, que nem se ele não tivesse usado um tom irônico, seria possível acreditar.

- Verdade, não estamos. Não sei o que estou fazendo aqui, vou pegar o primeiro trem de volta para Londres.

- Me diga a hora e eu estarei em King's Cross te esperando.

Honestamente, ele sabia o que causava quando dizia essas coisas? Os nós em seu estômago e a vontade real de largar tudo e ir ao seu encontro?

- Mas a minha mãe e meu irmão não podem saber que eu larguei tudo e voltei.

- Não tem problema. Você iria ficar onde você não deveria ter saído no fim de semana passado. Com a minha camiseta e nada mais.

Parou em frente ao seu quarto e deixou a mão, que deveria abrir a porta, cair ao lado do corpo.

- Até quinta-feira?

- Até quando você quisesse.

Ah, senhor.

Engoliu seco e abriu a porta.

- Isso não poderia se enquadrar como um sequestro?

- Acredito que se você vier e ficar de boa vontade, não. Então é importante saber se seria o caso.

Suas bochechas ficariam doloridas de tanto sorrir.

- Se eu for, seria tudo como no fim de semana passado?

- Podemos dizer que sim.

- Como assim? O que mudaria?

- Posso garantir que não seria menos do que foi. O objetivo é sempre melhorar.

Fechou os olhos, apenas imaginando.

- Deve ter algum trem de madrugada, não?

Sem ideia de como sabia daquilo, tinha a sensação de que ele sorria.

- Assim espero.

Ambos sabiam que aquilo era apenas uma brincadeira. Mesmo se existisse qualquer meio de transporte de madrugada, eles sabiam que Lily não poderia deixar aquela oportunidade na clínica passar.

Porém, era uma brincadeira que dizia verdades e isso aquecia o seu peito. Apesar do nervosismo ao dizer algumas coisas, ela sentia que as palavras simplesmente saíam.

E ouvir o que ele dizia era tão bom. O que lhe alertava ainda mais para o buraco que estava caindo.

A música abafada do Três Vassouras era a única troca daquela ligação agora. Não ouvia nada vindo dele, mas mesmo as palavras sendo inexistentes naquele momento, era como se James estivesse dizendo as melhores coisas para ela, como se estivessem no mesmo cômodo, lado a lado, se olhando.

Aquele silêncio parecia dizer muito mais do que qualquer discurso. A tecnologia estava avançada, mas não o bastante para transmitir sentimentos, mas era um pouco doido como ela sentia que uma saudade passava por aquela ligação. E Lily desejava que ele pudesse ouvir aquilo vindo dela mesmo com aquele silêncio.

James respirou fundo.

- Como está a sua recuperação ? - A voz dele estava suave, longe da malícia de alguns segundos.

- Tive uma primeira sessão hoje, mas apenas para que a médica estudasse o meu caso. Ela está confiante.

- Então você também está, eu espero.

- Eu quero estar. Eu estava, até ouvir que não estava indo bem na última consulta com o médico semana passada.

- O seu médico te enviou para Leeds por acreditar que um tratamento mais preciso te ajudaria. Ele não faria isso caso não visse solução além de cirurgia.

- Eu sei. - Resmungou.

- Então vamos pensar que esses dias aí vão ajudar e, quando você voltar, vai tomar mais cuidado, sem forçar muito.

Se pudesse cruzar os braços, ela cruzaria, mas tinha que segurar o celular.

- Sem loucuras, então?

James demorou alguns segundos para responder.

- Sem loucuras que te machucam.

- Hmm…uma pena. Eu estava com tantas ideias.

Ouviu a risada dele.

- Para esse tipo de loucura, eu sempre posso me adaptar e dar um jeito para que a sua perna não precise sofrer.

Começou a andar pelo quarto, sentindo aquela felicidade lhe invadir.

- Então estaremos bem. - Gritos muito animados vieram do lado dele. Lily teve até que afastar o celular de tão alto. - Você está perdendo toda a diversão, aparentemente.

- Sim, porque você está em Leeds. - James respondeu, risonho.

- Seu sábado a noite está menos divertido porque eu estou em Leeds?

- Meu sábado não está nem perto de divertido por você estar em Leeds.

- O problema é que se estivesse em Londres, dificilmente eu estaria no Três Vassouras.

- Então isso quer dizer que nós dois não estaríamos no Três Vassouras

Ela parou sua andança pelo pequeno quarto.

- Não?

- Bem longe do Três Vassouras, se quiser saber.

- Então, realmente, é um desperdício de sábado. Para nós dois.

- Você ainda tem tempo de conferir o itinerário dos trens e eu te esperar na estação.

Honestamente, era tudo o que ela queria fazer.

Mais gritos do lado dele e, dessa vez, batidas na porta acompanharam. Não sabia onde ele estava - talvez trancado no banheiro? -, mas alguém parecia querer entrar.

- Estamos trancados no banheiro dos funcionários de novo? - Ela perguntou.

- Não exatamente. - James respondeu aos sussurros. Ouviu o suspiro dele. - Eu preciso ir.

Foi a vez dela suspirar.

- Claro. Tente aproveitar o resto da noite.

- Você também, se puder. - Ele continuava falando muito baixo. - A gente se fala...ahm…

- Amanhã?! - Ela tentou. Fechou os olhos, morrendo de vergonha. Será que soou desesperada quando disse aquilo?

- A gente se fala amanhã.

A voz dele lhe passava segurança, dando a impressão que "amanhã" era sim uma boa resposta e uma boa ideia.

- Boa noite, James.

- Boa noite, Lily. - Seu nome quase não saiu de tão baixo.

E desligou.

J~L

Abriu a porta do pequeno estoque da área VIP e deu de cara com Sirius.

- Eu pensei que você tinha enlouquecido quando entrou aí sozinho. Está tudo bem?

James saiu do estoque.

- Sim, está tudo bem.

- Ótimo, sua bebida chegou. - Sirius entregou a garrafa d'água para ele. - Esse lugar está tão morto. Que tal a gente sair daqui e comprar uns sanduíches?

Aquela tinha sido a melhor ideia que o amigo teve em 24h. Dez minutos depois, já estavam fora do bar e entrando no carro de James.

Era uma boa hora de dirigir por aqueles lados da cidade. Não havia loucura e turistas, as ruas estavam quase vazias. Se estivesse sozinho, seria um bom momento para pensar e colocar as coisas no lugar. Gostava de dirigir um pouco sem rumo quando tinha muito na cabeça, pois seguir em frente lhe dava a impressão de que sua mente também estava seguindo em frente, que seus problemas ou questões também estavam tomando um rumo para a solução.

Não que tivesse um problema neste momento, pois não era o caso. Tinha uma situação que o deixava inquieto e ansioso, que era a vontade de estar com Lily e ela estar longe, além do irmão dela ao seu lado, que não parava de olhar para ele mesmo James fingindo que não via.

Entraram no fast-food e fizeram o pedido, sentando-se isolados.

- Cara…- Sirius começou, deixando o sanduíche de lado. - Eu estou preocupado com você.

- Preocupado comigo? Por quê?

- Sério mesmo que você vai fingir que está tudo bem?

- Mas está tudo bem, Sirius.

- Não está não.

Largou o próprio sanduíche também e cruzou os braços em cima da mesa.

- Está tudo bem. Eu só tenho muito na cabeça nesse momento, mas é só.

Sirius se aproximou dele por cima da mesa.

- Olha, eu sei que você não quer conversar sobre uma pessoa e, honestamente, eu fico quieto sobre isso, porque te forçar não vai adiantar nada. Mas eu acho que está na hora de você compartilhar um pouco disso, não? - James abriu a boca para reclamar, mas Sirius levantou a mão, o impedindo. - Você tem feito bastante por mim e não só por mim. Até a minha mãe tem se sentido em dívida com você.

- E não deveria.

- E ainda sim, você não me deixa te ajudar. - James podia dizer que via uma chateação no rosto de Sirius. - Você fica indo para cima e para baixo me levando, leva e busca Lily, nunca está atrasado, nunca nem reclamando.

- Porque não é nada demais, eu já te falei isso. Vocês estão sempre no meu caminho, não é sacrifício nenhum.

- Não é sacrifício para você, mas é uma ajuda enorme para a gente.

James pegou o seu sanduíche e voltou a comer.

- Não há problema, Sirius. Neste momento, estou apenas com muita coisa para pensar e decidir. Tem Oxford, Cambridge…sigo Física ou vou para Ciências…algo relacionado a Administração para poder seguir com os projetos do meu pai? - James balançava as mãos no ar enquanto falava, mostrando o quão perdido estava.

Porque, apesar de tudo, ele estava preocupado com tudo isso e há muito tempo, antes de estar saindo com a irmã do seu melhor amigo, antes de tudo isso. E os dias iam passando e ele continuava sem saber o que fazer.

Lily havia virado um bom refúgio de tudo aquilo. Era algo bom que acontecia entre todo aquele emaranhado de decisões que tinha que tomar. Depois de decidirem a situação entre eles, aquilo virou algo que podia mergulhar e saber que iria relaxar - de certa maneira - e tirar um pouco do peso das decisões por alguns momentos.

Não que ela fosse apenas isso. Ela era muito mais.

- Não é só por querer que você venha para Oxford o que vou dizer a seguir, mas eu não te vejo assumindo um lugar no laboratório do seu pai, sentado atrás de uma cadeira e mexendo com papéis.

- Eu sei.

- Conhecendo o seu pai como conheço por tantos anos, tenho certeza que ele não quer que você faça isso caso te matasse de tédio e frustração.

- Eu sei. - Repetiu.

- Então por que é tão difícil de decidir?

Sirius não tinha que tomar conta dos negócios do pai quando Orion faleceu, pois havia advogados para isso. Toda a fortuna Black era gerenciada por pessoas de confiança, incluindo Geneviève que sempre ficava de olho, apesar de nunca tocar em um centavo, dizendo que era tudo dos filhos.

Mas Fleamont tinha ainda um negócio correndo, funcionando, e com muitas pessoas trabalhando. E James sabia que vender seria uma dor terrível para o pai.

- Nunca é fácil tomar a decisão de quebrar o coração do seu pai.

Viu que o amigo não podia e nem queria discordar.

- Você também não pode quebrar o coração dele fazendo algo que não quer. A sua vida vale muito mais do que o fim de um negócio bem sucedido.

Sirius também não estava errado.

- Vou tomar a decisão até o final do mês ou começo do mês que vem.

Voltou a comer o sanduíche. Não queria mais falar sobre aquilo. Sem Lily por perto para ajudá-lo a se distrair, o assunto ficava mais difícil.

- Quanto a pessoa que você não quer me falar sobre…- Sirius voltou a falar. James segurou o ímpeto de rolar os olhos. - Como estão as coisas?

- Boas.

- Por que você está comigo hoje ao invés de estar com ela?

- Você me deu opção? - James riu, fazendo Sirius rir com ele.

- Não muita, eu acho. Mas você pode me enxotar em alguns minutos e ir vê-la. Está tarde, mas se a pessoa está tão na sua quanto você na dela, iria te receber mesmo assim.

Quatros horas de carro até ela não era algo que pudesse fazer naquele momento. Estava cansado, o que o faria dormir no volante, e chegou a tomar um copo de whisky no Três Vassouras. Tinha 18 anos, mas não era tão burro a ponto de fazer algo assim.

- Algo a se pensar. - Era melhor dizer algo que faria Sirius pensar que a pessoa não estava longe.

Tão malditamente longe!

- Vamos terminar esse lanche, você me deixa em casa e vai atrás dela.

Não respondeu e continuou o seu lanche.

Sirius até acelerou para comer e James o agradeceria caso realmente fosse encontrar alguém, mas agora só esperava que ele comesse mais devagar, porque ninguém estava à sua espera.

Não hoje, pelo menos.


DOMINGO

Lily não sabia como dormiu tanto ontem no fim do dia, dormiu no meio do filme após seu lanche de meia noite e ainda acordou super tarde hoje. Quando olhou para o relógio na cabeceira, quase gemeu ao ver que perdeu o café da manhã. Deveria ter colocado um alarme, além do seu estômago roncando.

Pegou o celular e viu as explosões de mensagens da sua mãe e Sirius.

E uma de James de alguns minutos atrás.

Ela ligaria para a família em dois minutos, mas primeiro...

(11:34) Descabelado: Não é a mesma coisa…

Logo abaixo, tinha uma foto da mesa da cozinha dele com um copo de suco e uma tigela de frutas.

(11:41) Lily: Roubar as minhas frutas é mais divertido, eu imagino.

Se levantou e foi se arrumar. Teria que comer algumas maçãs e água novamente até o almoço em uma hora.

Após se vestir e se preparar, pegou seu celular e saiu do quarto apressada. Seu estômago berrava agora, parecendo uma sirene. Enquanto passava pelas pessoas, cumprimentando-as com pressa, conferiu a resposta dele:

(11:45) Descabelado: Exatamente. Do seu prato é mais saboroso. Tem todo aquele "tempero" de que aquilo não era para mim, mas eu conquistei.

Ela riu entrando na cafeteria. Pegou uma maçã, a água e sentou-se na mesma mesa de ontem.

(11:53) Lily: Você não conquista, mas rouba.

(11:54) Descabelado : É o que dizem do Reino Unido…deve estar no meu sangue inglês. Então se considerarmos como eles pensam: eu conquistei, é meu.

Lily levantou as sobrancelhas com o comentário de História. Ele não estava errado, porém.

(11:55) Lily: Se pensarmos por esse lado e considerarmos a História, sim. Você conquistou, é seu.

Ela tirou uma foto da sua mesa com a sua maçã e garrafa d'água.

(11:56) Lily: As coisas não estão tão boas por aqui. Não me parece um bom território para invadir e conquistar.

Seu telefone começou a tocar e ela, imediatamente sorriu, mas a empolgação caiu um pouco ao ver que era a sua mãe. Os dois minutos que ela disse que esperaria para ligar para eles tinha passado a muito tempo, era verdade.

- Bom dia. - Atendeu feliz.

- Lily! Pelo amor, estava pensando o pior. Que dificuldade em falar com você, filha. Desde ontem de manhã que não tenho notícias. - O tom de voz de Geneviève mostrava toda a preocupação. - Está tudo bem? Você está bem?

- Sim, tudo bem. Eu dormi ontem à tarde e acordei quase meia-noite. Estou tão cansada... Por isso te mandei mensagem dizendo que te ligaria hoje.

- E não ligou.

- Acordei agora. Acabei de chegar na cafeteria para um café rápido e já ia ligar para vocês. - Deu uma mordida na maçã. - Sirius está aí?

- Estou!

Ops, ele estava nervoso. Se estivesse apenas contrariado, teria invadido a conversa desde o começo, mas quando o irmão ficava quieto assim, é por estar além de irritado.

- Como vai, irmão lindo?

- Preocupado. Se você não atendesse agora, iríamos ligar para a clínica ou eu pegaria o carro para ir até aí.

- Você não pode dirigir ainda.

- James sim.

Ah, ela precisava apenas sumir e conseguiria uma visita dele?

- Estou aqui e estou bem. Desculpa, eu não vou sumir mais. - Ou talvez sim, pensou. - Como estão as coisas por aí?

- Agora que sabemos que você não está caída em um barranco, tudo bem. - Respondeu Sirius sem qualquer toque de humor.

- Que exagero.

- Tudo está bem, querida.

Após compartilhar a sessão de ontem com a médica e muitas perguntas da mãe e do irmão, ela finalmente desligou e voltou para as mensagens.

(11:58) Descabelado: Hmm… inóspito. Eu acho que é a minha vez de te dar uma mão nesse quesito.

Seu café da manhã nada saboroso já tinha terminado, então se levantou e saiu.

(12:12) Lily: Guarde um pouco para mim, então. Estou pegando o trem para invadir e conquistar.

- Olá, Lily - Sua médica a parou no corredor. - Teve uma boa noite?

- Sim, obrigada. Eu dormi bastante, na verdade.

- É normal. Você está fazendo exercícios diferentes, forçando seu corpo e com novos medicamentos. Ficará assim por alguns dias, mas depois tudo voltará ao normal. Eu a vejo às 14h?

- Sim, estarei lá.

Se despediram ao mesmo tempo que seu celular vibrou.

(12:14) Descabelado : Você já invadiu e conquistou. Basta apenas voltar e aproveitar.

Seu coração ficava louco com aquilo, disparado, dançando em seu peito.

- Eu estou tão ferrada!

J~L

- Frank! - James gritou do seu lado do campo.

Frank lançou um olhar e chutou a bola para James. Um jogador do time de Hogwarts, e que não era tão idiota quanto os outros, estava na sua frente, querendo pará-lo.

- Tenta, Potter. - O cara o incitou a passar.

Eles não jogavam futebol seriamente, apenas às vezes no fim de semana com alguns alunos, então sabia que tinha um dos melhores zagueiros na sua frente.

Já ele, estava longe de ser considerado para o time da escola. Gostava de pensar que dava para o gasto algumas vezes, mas hoje não era o dia.

Mas iria tentar.

E tentou. Tentou pela direita, tentou pela esquerda e o zagueiro não caiu em seus truques e dribles. Recuou e passou para Frank de novo, que estava livre na esquerda.

- Com medo? - O cara brincou quando ambos correram para o outro lado do campo.

- Eu poderia tentar, mas se você quebrar a minha perna com a sua ignorância, você terá que dar carona para uma penca de gente.

- "Minha ignorância" ou o fato de eu ser bom e você razoável?

Odiava que o cara fosse bom e ele nem um pouco bom o bastante para passar por ele. E esse infeliz se gabar ainda.

- Vocês não vão correr, não? - Sirius gritou do lado de fora da quadra. - Quer que eu entre aí e mostre como joga, mesmo com o pé ferrado? - Todos os que estavam jogando xingaram Sirius, que parecia satisfeito com a provocação. - Vou chamar o time de xadrez para jogar contra vocês. Talvez assim vocês se mexam mais.

- Vem se mexer aqui, Sirius. Vou adorar quebrar seu outro pé. - Respondeu Frank.

- Meu pé não está quebrado.

- Então eu quebro os dois.

Dois gols depois de um jogo bem ruim - vale ressaltar -, James desistiu e foi para a arquibancada. Alice estava ali, esperando pelo namorado e falando no telefone. Sirius continuava na grade, gritando com todos na quadra.

- Sério? - Alice dizia. James pegou uma garrafa d'água da mochila e se serviu. - Deve ser divertido, de certa forma. Apesar da sua outra diversão estar sentada a três metros de mim.

Ele parou de beber e olhou para ela. A garota sorriu e fingiu que nada estava acontecendo.

- CHUTA ESSA MERDA, FRANK! - Sirius gritou, lembrando a James de que o amigo não estava longe.

- Sim, bem aqui do meu lado. Posso até te dar mais informações: ele está com um shorts preto que mostra toda a perna torneada que eu não faço ideia de onde ele conseguiu; uma camiseta branca com a manga um pouco puxada para cima, exibindo o braço bonito que deve ter adquirido com os treinos de boxe com os garotos…bebendo água, fazendo pose de galante, todo suado. Apesar dessa última informação soar um pouco nojenta, a vista ainda é boa.

James riu e voltou a tomar da garrafa. Alice ouviu algo do outro lado da linha e explodiu em gargalhadas, forçando-o a voltar o olhar para ela.

O que Lily estava falando?

Alice deu uma olhada para ele e comprimiu os lábios enquanto ainda ouvia a amiga.

- Pois é. - Alice concordou.

Fechou a garrafa e colocou na mochila enquanto tinha uma imensa ruga entre as sobrancelhas, curioso como nunca.

- Vocês são muito ruins, valha-me. - Sirius continuava seu suporte. - James, volta pro jogo. Olha isso!

James assistiu uma jogada horrível de Frank com um cara aleatório que estava na quadra. O amigo perdeu a posse de bola tão facilmente, fazendo-o rir.

Então era assim que as pessoas estavam assistindo aquele jogo? Parecia um bando de bonecos de pano chutando a bola a torto e a direito, sem nem mirar no gol.

- Não, seu irmão está apoiando os amigos, mas não jogando. - Alice parecia responder alguma pergunta de Lily após os gritos de Sirius. - James jogou, mas desistiu. Coitado, parecia que tinha dois palitos de dente no lugar das pernas.

- Alice! - Ele interveio, finalmente. Onde estavam os elogios de alguns segundos atrás?

- Os palitos mudaram quando ele sentou aqui, como eu disse anteriormente. - Ela continuou. - Talvez ele sirva apenas para ficar sentado…mas não digo fazendo o quê. Isso é você quem deve me contar.

Sirius vaiou os amigos e veio na direção da arquibancada, subindo os dois altos degraus com dificuldade.

- Bem, vocês são horríveis. É uma morte lenta assistir isso. - Ele reclamou ao sentar ao lado de James.

- Se você estivesse ali, seria a mesma coisa. - Comentou.

- Não duvido, mas pelo menos estaria jogando. - A risada de Alice chamou a atenção de ambos. - Ela não para de rir. O que está rolando?

- Não sei, está falando com Lily.

- O que pode ser tão engraçado em Leeds?

- Não faço ideia. - James olhou para Alice, que cochichava agora.

- Ela está em uma clínica, tipo um hotel. Talvez tenha conhecido alguém lá. - Sirius bufou e meneou a cabeça.

James cerrou os olhos.

- Não acho que seja o caso.

- Não dá para saber, dá? De qualquer forma, prefiro ficar ignorante nisso.

Não estava preocupado. Tinham falado sobre estarem exclusivos, mas se Lily conhecesse alguém, o que ele poderia fazer? Não podia obrigá-la a ficar com ele. Mas de qualquer maneira, sabia que toda aquela coisa das risadas e piadas não era sobre um cara em Leeds.

Elas estavam rindo da cara dele mesmo.

Meneou a cabeça enquanto ria sozinho.

- A gente se fala mais tarde. Claro, perfeito.

Alice desligou e os três fixaram os olhos no jogo, cada um com os próprios pensamentos em geral, apesar de não estarem longe sobre a opinião daquele jogo patético.

- O que anda acontecendo de tão engraçado? - Sirius não aguentou a curiosidade, mas não se virou para Alice. James estava entre os dois, querendo não participar da conversa, mas sentindo que não conseguiria fugir.

- Como assim? - Alice perguntou também sem se virar.

- Você estava rindo tanto no telefone. Era Lily?

- Talvez.

Ficaram em silêncio novamente. James pegou sua garrafa d'água e voltou a beber.

- Qual era a piada? - Perguntou Sirius.

- Não era piada. Estávamos falando sobre…hmmm…- James sentiu que Alice olhou para ele rapidamente. - Diversão.

- Diversão?

- Exato.

- Vocês estavam se divertindo mesmo. - O amigo comentou.

- Não exatamente, porque eu não sou a responsável pela diversão dela.

James fechou a garrafa e a deixou de lado, apoiando os cotovelos nos joelhos e vendo Frank quase cair em uma jogada, ficando nervoso com o outro jogador.

- Lily está se divertindo? - Perguntou ele, mesmo sabendo o teor da conversa das duas e que Lily não estava com algum cara aleatório naquele lugar.

- Não tanto quanto ou como gostaria.

- O que isso quer dizer? - Sirius se intrometeu na conversa.

- Muitas coisas, Sirius Black. - Alice respondeu com um tom de fim de papo.

O celular de James vibrou em sua mochila e ele deu uma rápida olhada na tela. Era uma mensagem com o remetente incógnito. Ou seja, Lily. Segurou o sorriso, sabendo que teria uma piada ali.

Sirius estava concentrado no jogo, mas perto demais, podendo ver sua tela caso apenas virasse o rosto. Alice estava longe o suficiente, mas era com quem ele menos deveria se preocupar.

Pegou a garrafa d'água novamente e deu um longo gole, fechando a garrafa com força e a jogando dentro da mochila. Nesse gesto, pegou o celular e colocou no bolso, levantando-se e descendo até a grade onde Sirius estava antes. Assistiu um lance que derrubou um dos jogadores no chão e causava uma confusão dentro do campo. Foi o momento para pegar o celular do bolso e conferir a mensagem:

(17:22) Sardenta: Alice não estava mentindo…

Abaixo da mensagem, tinha uma foto dele sentado na arquibancada - tirada discretamente por Alice - enquanto ele, provavelmente, conversava com Sirius que devia estar ainda nas grades.

(17:26) James: Não mentiu sobre as minhas roupas, mas eu não parecia ter dois palitos de dentes enquanto jogava.

(17:27) Sardenta: E devo dizer que nem quando não está jogando.

Ele riu.

(17:28) James: Ora, ora. Lily Evans flertando comigo por mensagens. Cuidado, eu posso ficar mal acostumado.

- Se Frank continuar jogando e provocando os outros assim, vão quebrá-lo na porrada. - Sirius quase o matou de susto ao dizer aquilo ao seu lado. Não viu quando o amigo se aproximou. - Se for o caso, eu pego Alice e a gente corre pro seu carro.

- E Frank? - James perguntou bloqueando a tela do celular com rapidez.

- A gente vai ter perdido nosso querido Frank já, então melhor salvar quem ainda pudermos.

Seu celular vibrou com a resposta de Lily e James bagunçou os cabelos, querendo apenas conferir o que ela dizia.

- Esse jogo vai acabar logo ou não? - Reclamou segurando na grade, querendo voltar para o campo e encerrar tudo. Estava já uma porcaria, então por que continuavam?

- Acho que em cinco minutos.

- Então vou trocar de roupa.

Sem esperar pela resposta de Sirius, James voltou até a arquibancada e pegou sua mochila, indo para o vestiário do campo. Olhou para trás apenas para conferir que estava sozinho, e pegou o celular.

(17:29) Sardenta: Às vezes eu esqueço o seu lado metido e convencido.

Entrou no vestiário e jogou sua mochila no banco de madeira, sentando-se.

(17:34) James: Você quem começou com os elogios. Mas não se preocupe, você não fica muito atrás.

Tirou o shorts e a camiseta, pegando uma muda de roupa nova. Enquanto calçava seus tênis, seu celular vibrou em cima do banco e ele abriu as mensagens para lê-la enquanto amarrava os cadarços.

(17:36) Sardenta: James Potter flertando comigo por mensagens. Cuidado, eu posso ficar mal acostumada.

Terminou de se arrumar e pegou o celular.

(17:37) James: Logo menos estará bem acostumada, porque eu não pretendo parar tão cedo.

Pegou a mochila e jogou nos ombros, sentindo-se feliz. Sabia que ela não iria responder, então colocou o celular no bolso e saiu do vestiário, indo até os amigos. Frank já tinha acabado o jogo e conversava, um pouco alterado, com Sirius e Alice.

Para a sua surpresa, o celular vibrou.

(17:39) Sardenta: Estou contando com isso

Ficou olhando para a mensagem durante alguns segundos.

- Veremos, então. - Disse em voz alta e foi em direção aos amigos.

J~L

Assim como na casa da família Black-Evans, os Potter também jantavam em família quase todas as noites.

Euphemia era uma cozinheira de mão cheia, mas que disputava com Fleamont a posição de melhor chef da casa. Ambos gostavam de cozinhar e tinham essa mania de competir entre si quase toda a semana pelo melhor prato. James ficava como juiz muitas vezes, o que acabava fazendo o perdedor da vez se empenhar em seu prato favorito na semana seguinte. Ele só tinha a ganhar com aquilo tudo.

Essa noite tinha sido obra do pai. Era um delicioso peixe temperado com manteiga de ervas e limão feito por ele. Sua mãe parecia ter perdido a semana, porque aquilo estava uma delícia.

- Eu acho que a minha carne de quarta-feira estava uma delícia. - Euphemia comentou enquanto não parava de comer do seu prato. - Eu só acho que eu deveria levar essa semana.

- Depois desse peixe, não há chances de você ter ganhado, querida. Olhe para a cara do seu filho…ele nem falou desde o momento que se serviu.

O pai não estava errado. Não que o prato de quarta-feira de sua mãe não tivesse sido uma delícia, pois estava. Tinha sido o seu preferido da semana…até agora.

Sentiu seu celular no bolso e o puxou para conferir. O nome de Lily parecia berrar na sua tela.

Ela estava ligando!

Merda.

Olhou para os pais que ainda discutiam sobre quem era o ganhador e olhou de novo para a tela.

- Vocês se importam se eu terminar na minha cozinha?

O pedido foi recebido com surpresa pelos dois.

- Você não gostou e vai jogar fora? - O pai perguntou verdadeiramente preocupado.

- Não seja tolo, Fleamont. Ele amou.

- Então você confessa que está mesmo uma delícia, não é?

Levantou no mesmo momento que Lily pareceu desistir da ligação. Os pais continuavam sua conversa e James pegou seu prato, saindo da sala de jantar e indo direto para o jardim. Apressou o passo até a porta da sua cozinha e a fechou rapidamente.

Colocou o prato na mesa e pegou o celular do bolso, ligando para ela de volta.

- Olá.

Ele abriu um enorme sorriso ao ouvir a voz dela.

- Hey. Desculpe não atender, eu estava na casa principal.

- Não tem problema, mas não queria te interromper.

- Você não interrompeu. - Limpou a garganta e sentou na frente do seu prato e talheres.

- Como foi o seu domingo de futebol?

- Horrível. - Ele disse enquanto mastigava. - Foi a pior partida de futebol existente, não estou orgulhoso.

- Então vocês não ganharam?

- Nem de perto, mas tudo bem. Não é como se estivéssemos tentando entrar para a Premier League de qualquer forma.

- Mas não desistam. Vocês podem não jogar bem, mas esse jogo rende ótimas fotos.

James largou os talheres e se recostou na cadeira.

- Obrigado por querer me ver ser humilhado apenas para te render algumas fotos.

Ela riu alto, fazendo James sorrir. Aquele som era tão bom, mesmo sendo por telefone.

- Foi o ponto alto do meu dia, não tenho do que reclamar.

- Por falar nisso, como foi seu domingo? Teve alguma sessão?

- Uma tarde em grupo na piscina. Foi bem legal e minha perna pareceu aceitar o exercício.

- Isso é ótimo. Eu tenho certeza que a sua perna vai responder bem ao tratamento.

- Eu também estou começando a pensar assim. - A voz dela parecia mais leve agora, parecendo esperançosa sobre tudo aquilo. - Seu fim de semana foi empolgante com o seu namorado?

Ele sorriu e deu uma garfada no jantar.

- Agora Remus está de volta, então tenho que dividi-lo.

- Ah! Você falou com ele? Perguntou sobre Carlisle?

- Ainda não, saberemos amanhã. Se ele se atrever a falar algo na frente de Sirius.

- Hmmm. Se eu bem entendi uma mensagem de Dora ontem, talvez ele fique com receio de falar.

James quase engasgou com o peixe.

- Sério? Remus foi tão direto ao ponto?

- Ele ou ela. No caso, ambos. No fim, não importa muito, né?

- Eu acho que apostaria nela, de qualquer jeito.

- Por quê?

- Remus não é tão direto assim.

- Deve ser algo do grupo, então.

James parou o garfo no meio do caminho.

- Perdão?!

- Eu disse "deve ser algo do grupo". - Ela repetiu com segurança. - De vocês três.

- Perdão?! - Ele repetiu a pergunta.

- Vocês parecem tão medrosos. Sirius com Marlene, enrolando para se declarar para ela. Você está dizendo que Remus não é tão direto…

Ela não continuou a frase. James cruzou os braços enquanto ainda segurava o celular.

- Você disse "três'', mas citou dois.

- E você. - A voz dela estava brincalhona. - Você engatado na primeira, enquanto eu já estava na quinta marcha.

Lily não podia vê-lo, mas James levantou uma sobrancelha. Ela ficava engraçada, quase mais liberta, falando no telefone. Não substitui o face a face, mas havia algo naquela Lily do telefone que não se impedia de falar o que pensava.

E ele estava adorando isso.

- Não sei se você lembra, mas há um fator importante nessa história toda que freou um pouco as coisas. Já esqueceu?

- Infelizmente não. Mas eu estava apenas brincando com você.

- Eu sei.

Até mesmo o assunto "Sirius é o seu irmão e meu melhor amigo" soava menos pesado.

Ele voltou a comer enquanto Lily também ficava em silêncio. Aquela sensação de que ela estava ao seu lado quando ficavam em silêncio era surreal. Talvez por continuar ouvindo-a do outro lado da linha, um simples respirar ou quando ela mexia em algo.

Ou provavelmente por sempre ter ficado confortável ao seu lado, mesmo quando não falavam nada.

- Meu irmão se comportou bem nesses dois dias? Eu ainda não acredito que ele foi para o Três Vassouras ontem.

- Ele ficou sentado a noite toda, para ser justo. É a única coisa que ele pode fazer, além de deitar, então decidiu fazer isso em outro lugar além da sua casa. Não se preocupe, o pé dele desinchou bastante já.

- Bom.

- Mas é nítido o quanto ele sente a sua falta.

Ouvia uma risada leve dela.

- Claro que ele sente. Ele não seria louco de não sentir. Quem não sentir minha falta, eu vou riscar do meu caderno.

Aquilo o fez rir um pouco, algumas palavras ficando presas na garganta.

Desde que começaram a se encontrar, James chegou a ficar alguns dias sem vê-la ou falar com ela, mas nunca sentiu aquele peso que sentia agora. Claro, antes sempre existia a segunda-feira e ele tinha certeza que a veria. Mas a segunda-feira dessa vez, amanhã, estava com um gosto amargo.

Balançou a cabeça. Aquilo estava ficando louco.

- Seu nome pode ser riscado de alguns cadernos também caso você não sinta falta daqui.

A frase saiu. Dane-se. Foi muito mais leve do que "eu sinto a sua falta e espero que você sinta a minha", mas estava um pouco nítido o que ele estava falando.

- Não existe esse risco.

O sorriso dela era bem claro quando disse isso.

- Acho que só saberemos quando você voltar.

- Sim, eu farei questão das pessoas saberem.

Voltou a atenção para o seu prato que parecia ainda mais delicioso agora.

- James?

O seu pai bateu na porta da cozinha, mas não entrou.

- Eu vou te deixar, sei que não liguei na melhor hora.

- Está tudo bem. Não deixe o horário te impedir qualquer outra vez.

- Ok. Saiba que é o mesmo para mim.

- Ótimo. - Ele sorriu. - Falo com você amanhã.

- Até amanhã, James.

A voz dela soou tão doce.

- Até amanhã, Lily.

Eles desligaram. Colocou o celular em cima da mesa e apoiou o rosto em uma das mãos. estava tão perdido agora. Não havia mais volta, não teria mais como ignorar tudo aquilo.

Merda, o que ia fazer? O que podia fazer? A velha história de ignorar o que sentia e seguir a vida não rolaria mais, mas ficar apenas em uma relação escondida não soava a melhor das opções.

- James?!

Droga, esqueceu seu pai!

Levantou e abriu a porta para um Fleamont preocupado.

- O que foi, pai?

Fleamont olhou para dentro, tentando ver algo na cozinha.

- Eu que pergunto. O que houve?

- Nada.

- Por que veio terminar aqui? Fomos nós ou…?

- Não, não. - James riu e voltou para a cozinha, sendo seguido pelo pai. - E o seu peixe está perfeito, é o ganhador da semana.

- Bem, isso não é novidade, apesar de ter amado aquele jantar de quarta-feira. Não conte para a sua mãe.

- Você mesmo vai contar mais tarde, eu sei.

O pai deu de ombros, não negando.

- De qualquer maneira, vim aqui por você. Nunca saiu do jantar assim. Ouvi que conversava com alguém…

James sentou de volta, querendo terminar aquele jantar.

- Está tudo bem, eu apenas saí por conta de uma ligação.

- Hum, sei. - Fleamont sentou na frente do filho. - Sua mãe disse que alguém dormiu aqui de sábado para domingo passado.

Seu estômago revirou.

- Ah, ela disse?

- Sim. - O pai não parecia inocente agora, mas também não parecia saber que era Lily. - Tão raro ver alguém dormindo aqui. Vocês nem passaram pela casa ao irem embora.

- Pai, você quer que eu apresente toda a garota que eu encontro?

- Não, não. Claro, sei que você deve ter encontros esporádicos. Mas esse foi um deles?

- Qual a curiosidade sobre isso? - James riu e comeu um pouco antes de continuar. - Vocês nunca ficaram tão curiosos sobre a minha vida amorosa assim.

- Sua mãe sempre fica, você quem não sabe. Sou eu quem fica ouvindo as questões sem fim dela.

- Mas nunca ficaram me perguntando sobre isso. Não estou achando ruim, aliás, mas é estranho vindo de vocês tão de repente.

O pai bateu com as mãos nas pernas e levantou.

- Claro, está certo. Não é da nossa conta. - Apesar da frase, Fleamont não estava ofendido. - Mas talvez há uma razão para a nossa curiosidade.

- Qual razão seria essa? - James abocanhou mais do peixe.

- O quão distraído você tem estado. - Ele parou de mastigar ao ouvir o pai. - Um pouco aéreo, falando no celular às escondidas, saindo cedo todos os dias de casa…- Fleamont sorria ao ver que parecia ter acertado. - Eu fico feliz por você estar gostando de alguém, filho. Aproveite, essa fase é maravilhosa.

E com aquela bomba, Fleamont saiu, deixando James sem saber o que pensar.

A poucos minutos atrás, achava que tinha que parar de ser tão louco. Agora seu pai dizia para aproveitar.

Não sabia o que iria fazer, mas uma coisa era certa: aquilo não iria acabar tão cedo.


(Do I wanna know?)

(Eu quero saber?)

If this feeling flows both ways

Se esse sentimento é recíproco

(Sad to see you go)

(Triste te ver partir)

Sort of hoping that you'd stay

Meio que esperava que você ficasse

(Baby we both know)

(Querida, nós dois sabemos)

That the nights were mainly made

Que as noites foram feitas especialmente

For saying things that you can't say tomorrow day

Para dizer coisas que não podem ser ditas no dia seguinte

/-/

TERÇA-FEIRA

O dia anterior, segunda-feira, tinha passado tão devagar e tão sem novidades, como se fosse o jogo de futebol do domingo em forma de dia.

Seus pais receberam pessoas importantes para o jantar e ele não conseguiu ligar para Lily, o que foi ainda pior. Teve tempo para mandar uma mensagem enquanto jantavam, dizendo que ligaria para ela caso conseguisse se liberar, mas os convidados só partiram quase meia-noite. A resposta dela foi tranquila, dizendo que poderiam se falar no dia seguinte.

Chegou a pensar em ligar na manhã daquela terça-feira, mas sua mãe esteve com ele a todo o momento antes dele sair de casa, o que até causou um pequeno atraso dele. Ao chegar na casa dos Black-Evans, Sirius ja estava na porta, esperando. Então sem ligação.

Em Hogwarts, mais uma para conta: prova surpresa. A manhã toda em uma prova surpresa de cinco - CINCO - páginas. Dissertativa. Era uma maré de coisas boas e maravilhosas na sua vida desde o momento que acordou. Na verdade, desde o momento que foi dormir, pois já passava da meia-noite. Era uma terça-feira maravilhosa.

Assim que terminou a prova, saiu da sala assim que pôde, indo até a cafeteria esperar pelos amigos. Remus estava na aula de História Avançada e Sirius ainda estava em Cálculo. Sortudos.

Alguns alunos já estavam por ali, prontos para o almoço e esperando pelo sinal. Não era diferente dele, apesar de James já estar comendo uma barra de cereal com certa violência e mau humor.

Batia com os dedos na mesa, tentando pensar em algo útil, em algo para se distrair. Talvez devesse tentar planejar o seu dia melhor e evitar surpresas. Seu pai tinha muitos documentos que precisavam ser levados para Londres naquela tarde, então ele levaria Sirius para a terapia, faria tudo para o seu pai e voltaria para pegar o amigo de volta. Talvez desse tempo. Talvez ele teria que…

Seus olhos levantaram, sentindo que estava sendo observado, e deu de cara com Edgar Bones do outro lado da cafeteria. Parou de bater seus dedos e o encarou de volta.

Qual era a desse idiota agora?

Levantou o tronco da mesa, arrumando a postura sem tirar os olhos daquele imbecil.

Edgar não fez nada, além de olhar. Porém, ele parecia nervoso.

Nervoso por quê? O que ele estava querendo?Teve uma prova surpresa enfiada na garganta também ou a cueca estava apertada demais?

Mais alunos começaram a entrar na cafeteria, mas eles não desviavam o olhar, mesmo alguns tentando cumprimentar tanto ele quanto o imbecil.

Finalmente, Edgar se levantou. James não se mexeu. O idiota começou a vir em sua direção e James continuava sem se mexer.

Edgar parou em sua frente. James levantou uma sobrancelha, esperando.

- O que você quer? - Não resistiu perguntar. Estava entediado, mas não queria perder seu tempo encarando aquele boca mola.

- Que pergunta intrigante. - Edgar começou. - Quer mesmo saber?

- Na verdade, não. Só quero que você caia fora e pare de ficar me olhando como se eu fosse uma fonte de adoração.

Edgar jogou uma perna para dentro do banco e sentou em frente a ele, a mesa os separando. Bom, aquilo seria interessante. Edgar estava a uma distância perfeita para receber um soco na cara.

- Temos algo para conversar, Potter.

James riu, incrédulo.

- Não temos, não. Aliás…seu dente novo ficou muito bom. Soube que tomou um soco na cara outro dia enquanto assistia um jogo.

Edgar apenas sorriu, sem se abalar muito.

- Não podemos dizer o mesmo dos dentes do outro cara.

- Tem certeza? Não foi isso que fiquei sabendo.

- Então mentiram. Você não estava lá de qualquer maneira para confirmar.

Ah, não. Ele não estava, pois tinha Lily em sua cama, gemendo enquanto ele dava alguns orgasmos para ela, inclusive de um jeito que aquele bosta nunca conseguiu dar.

- Eu estava muito bem ocupado naquela noite. Me valeu muito mais o que eu fazia do que te ver apanhando.

Aquilo pareceu atingir Edgar por um flash de segundo, mas foi rápido em voltar ao normal. Estava claro que ele queria ser vencedor daquela conversa e que não queria vencer enquanto perdia o controle.

- Você está trepando com ela, né?

A mão de James fechou.

- É melhor você calar a sua boca.

- Me diga, qual performance ela te dá? - Edgar olhou para as unhas como se falasse sobre as altas dos preços nos mercados. - A bêbada? A romântica? Aquela em que você não consegue se mexer, porque ela te domina?

Sua respiração saiu do compasso com raiva. Mas por incrível que pareça, alguma parte do seu cérebro pedia para se acalmar, para não cair na dele. Havia muito em jogo naquela conversa.

- Eu não sei de quem você está falando, mas independente de quem for, é melhor você calar a sua boca e sumir da minha frente.

- E quando ela usa aquela boca? Não sei com quem ela aprendeu, mas ela consegue…

Levantou com rapidez e puxou a camiseta dele, quase fazendo Edgar deitar na mesa.

- Suma da minha frente. - Repetiu entredentes. - Antes que eu te faça desaparecer.

Edgar sorria, todo feliz em ver que tinha atingido James.

- Eu vou ir. - Ele respondeu quase rindo. James soltou sua camiseta e se afastou, voltando para o seu lugar inicial. - Estou vendo que você não quer trocar figurinha.

- Você tem três segundos para levantar e ir.

O imbecil se levantou e saiu do banco.

- Ah, mais uma coisa: aproveite para trepar o quanto puder com ela, antes dela pular para o próximo cara e trepar com ele.

O banco caiu para trás quando James levantou com fúria, pegando a camiseta de Edgar novamente e o virando, fazendo aquele idiota cair de costas na mesa. James sentia as fibras da camiseta a ponto de esfarelar em suas mãos com a força que o segurava.

- Se eu te ver de novo perto de mim, eu vou terminar o que começaram naquele jogo.

Soltou Edgar e se afastou. Olhou em volta e viu que todo mundo os assistiam, chocados.

Pegou suas coisas e saiu.

As pessoas ainda o assistiam e ele apressou o passo antes de voltar naquela cafeteria e acabar com Edgar Bones, aquele desgraçado.

- James! - Ouviu a voz de Remus atrás de si. - O que houve?

- Porra nenhuma. - Grunhiu. Saiu para os jardins e o ar mais fresco pareceu um banho gelado na sua raiva.

Não que ainda não estivesse raivoso, porque sentia que podia estrangular alguém com uma mão agora, mas ali parecia menos possível de se fazer.

- Você está vermelho, andando igual um monstro. O que aconteceu?

Remus o segurou pelo ombro e o parou. Respirava tão rápido, sua mandíbula estava dolorida de tanto que a apertava.

- Nada, Remus. Nada aconteceu…quase aconteceu, mas nada aconteceu.

- E o que quase aconteceu?

- A morte de Edgar Bones pelas minhas mãos.

- Você estava brigando com Bones?

- Não. Eu estava na minha, esperando vocês, e ele queria brigar.

Levou as duas mãos aos cabelos. Seu corpo borbulhava de raiva ao lembrar das palavras daquele…aquele…filho duma…

- O que ele fez?

- Nada. Só queria me atazanar.

Remus o encarava em descrença.

- Ele não viria te atazanar para nada.

- Ah, agora a culpa é minha? Eu respirei muito alto, incomodei o coitadinho e ele tem o direito de me encher o saco?

- Eu não disso isso. Mas se ele veio, ele tinha algo planejado.

- Foda-se.

Sentou em um banco e abaixou a cabeça.

Queria voltar lá dentro e acabar com aquele bosta. Meu deus, como Lily conseguiu ficar com ele? E por tantos meses?

Ele deve ter feito algo, porque a Lily que ele conhecia não aceitaria isso.

- Foi sobre Lily, não é? - Remus perguntou sentando-se ao seu lado.

James resmungou. Não queria falar sobre aquilo, não mais. Queria esquecer, queria não pensar em como ele falou dela.

- Até em briga você está se metendo e não nos chamando?

Os dois sentados no banco levantaram a cabeça para Sirius que se aproximava com a sua muleta.

- Ninguém brigou. - James respondeu.

- O corredor todo está falando sobre "James Potter ter quase almoçado Edgar Bones com garfo e faca". - Sirius apesar de tudo, não sorria. - Ele estava falando merda da minha irmã?

Aquilo ia virar uma bola de neve. A boa notícia é que tendo Sirius se alarmando, o fazia se acalmar. Porém, o amigo estava armado com aquela muleta e se soubesse o que Edgar estava falando…

Bem, Edgar iria conhecer aquela muleta bem intimamente.

- Foi uma discussão idiota, Sirius. - James soltou o ar, estalando o pescoço, tentando soltar os músculos que ficaram tensos.

- Você não entra em briga a toa. Ou ele veio te encher o saco ou ele estava falando da Lily e você se intrometeu. Nos dois casos, eu quero voltar lá e acabar com esse merda…!

- Você vai sentar aqui e não fazer nada, Sirius. - Remus levantou e apontou para o próprio lugar.

- Eu não quero sentar!

- Mas vai. Você nem está vendo, mas está colocando todo o peso no seu pé machucado.

- Oh, mas que dor na bunda vocês dois são.

Reclamando, Sirius sentou. Remus ficou na frente dos dois amigos, ambos emburrados.

- Seguinte: vocês não vão brigar com Edgar Bones, ok?

- Ué, que isso? - Sirius perguntou. - Por que não?

- Porque nós somos três e se vocês se meterem com ele, vêm dez do time do futebol em cima e eu nem estou contando com os do banco de reserva. Então sejam inteligentes.

- E daí? Eu garanto que posso derrubar cinco daquele time sozinho. - Sirius respondeu.

- Se você acha que derruba cinco jogadores de futebol enquanto brinca de Rafiki, girando a sua bengala no ar, saiba que não estamos estrelando "O Rei Leão" aqui.

- Ele estava querendo brigar com um dos nossos e tenho que ficar quieto?! Por que ele não pensa sobre brigar com um e ter dois nas costas?

- Porque, depois, tem dez deles vindo, Sirius! Você não entendeu isso ainda?

Mas que dia de merda, sua cabeça explodia agora. Poderia só voltar para casa e tentar dormir até o dia seguinte? Quarta-feira soava como um dia melhor.

Além de ser um dia antes de Lily voltar.

Aquele pensamento fez sua mente mudar completamente. Amanhã seria o penúltimo dia…depois, só mais algumas horas até ele a encontrar e, se tudo desse certo, beijá-la até não respirar mais.

Precisava tanto daquilo.

- Por que você está com essa cara de bocó?

Sirius e Remus o encaravam, perplexos.

- Do quê?

- Você está sorrindo. Qual a merda da graça nisso? - Sirius voltou a perguntar.

- Nada, não tem nenhuma graça.

Levantou e começou a andar de volta para a cafeteria.

- Estamos indo bater em Edgar Bones? - Escutou o amigo perguntar ainda do banco.

- Não. Não hoje. Mas eu estou com fome, vocês não?

Não viu as expressões confusas dos amigos e continuou seu caminho.

Edgar Bones poderia ir se ferrar. Ele tinha coisas melhores e mais importantes o esperando.

J~L

Mas não foi muito bem assim.

- Se importa em explicar, Sr. Potter?

Minerva McGonagall, a vice-diretora da escola, não estava nem um pouco feliz.

- Bem, não foi diferente do que explicado, mas eu concordo que não deveria jogar lixo na mesa, então entendo a minha chamada até a sua sala.

Edgar bufou na cadeira ao lado.

Pois é, eles foram chamados na sala da vice-diretora depois do pequeno encontro na cafeteria. Aparentemente não tinha sido Bones quem o dedurou, mas alguém que trabalhava na escola e estava por lá, tendo a cena desenrolando em sua frente.

- Sr. Potter, não está ajudando o seu caso. - McGonagall cruzou as mãos em cima da mesa.

- Então melhor eu não comentar mais nada.

- O senhor não tem nada para comentar? Nem um pedido de desculpas?

- Para quem? Para ele? - James apontou para Edgar. - Prefiro muitas coisas, incluindo tortura, mas não isso.

Nunca que pediria desculpas para Edgar Bones após aquele verme ter aberto a boca para falar aquelas merdas. Aquilo estava na última posição da sua lista, logo depois de "morrer".

- Sr. Bones, tem algo que gostaria de dizer? - Ela se virou para o traste.

- Não, senhora.

- Porém, eu adoraria saber o motivo do senhor Potter ter te atacado. Se importa em compartilhar?

- Foi apenas uma conversa mal direcionada. Estávamos conversando sobre as mesmas experiências que vivemos.

Aquele desgraçado iria testá-lo ali, sabendo que James não iria partir para cima dele.

- Então o senhor não quer fazer nenhuma denúncia, eu acredito?

- Não, imagina. - Edgar sorria. - O que tiver que ser resolvido sobre esse incidente em que compartilhamos experiência, será resolvido.

Queria ter aquela bendita bengala que Sirius usava naquele momento e dar uma verdadeira razão para ser expulso de Hogwarts.

McGonagall se virou para ele novamente.

- Não há denúncia, Sr. Potter, mas temo que devo lhe suspender até semana que vem.

Seus olhos arregalaram.

- Eu tenho uma prova amanhã. - James nunca pensou que fosse lutar para ficar em Hogwarts para uma prova, mas aquilo era importante. Era importante para as universidades, mesmo ele já tendo a aceitação de duas. - Eu não posso perder!

- Pense nisso na próxima vez. - Edgar respondeu e se levantou.

Deixou a cabeça cair, sem acreditar. A notícia era tão ruim, que nem se importou que tivesse sido Bones quem o respondeu, apenas pensando na importância daquela prova de Física marcada para amanhã e que era tão importante para ele. Não estava acreditando naquilo.

Não se incomodou com a conversa paralela que ocorria ao seu lado, muito menos quando a porta abriu e alguém saiu. Seus olhos estavam presos em seus tênis, sua cabeça apenas tentando achar uma saída, um jeito para não se ferrar.

- Venha amanhã e estará suspenso nos outros dois dias. - McGonagall disse, fazendo James levantar a cabeça e perceber que estavam sozinhos.

- Sério?

A vice-diretora olhou por cima de seus ombros, querendo confirmar que estavam sozinhos, antes de se virar para James.

- O que fez não está correto, senhor Potter, mas eu sei que apesar de ter sido bem encrenqueiro no passado, não iria atacar um outro aluno violentamente se não tivesse sido provocado antes. Então para não prejudicá-lo com suas aplicações, o senhor virá amanhã, mas estará suspenso até o fim da semana, voltando apenas segunda-feira.

- Obrigado. - Soltou o ar com alívio.

- Espero que não haja uma próxima vez, mas se houver, eu serei menos indulgente.

- Não haverá.

Levantou após receber a nota decadente que teria que dar para os pais sobre sua suspensão, e saiu da sala de McGonagall. Deu de cara com Bones o esperando do outro lado do corredor.

Amassou a nota e enfiou no bolso, dando as costas para ele e pegando o caminho contrário.

- Eu acho que essa era a hora de me agradecer, não?

O desgraçado não iria desistir e sua paciência já estava acabando.

- Eu não vou te agradecer. - Respondeu sem se virar ou parar de andar. Tinha que chegar até a sua classe, assim Bones ficaria no corredor e não precisaria ver sua cara mais.

- Deveria. Eu poderia te denunciar e não só sua prova estaria em jogo, mas o seu futuro.

- Vai a merda. - James sussurrou virando em uma esquina e sendo seguido por ele.

- E eu deveria ter te denunciado, sabe? Podemos dizer que não estou feliz com os recentes arranjos. Eu não curto ficar pegando o resto, não.

Parou. Sua sala estava a poucos metros, mas seu corpo não obedecia o lado racional do seu cérebro.

Bones parou ao seu lado, agora que estancou no corredor, e James pedia para que o idiota continuasse o caminho e o deixasse em paz.

- Está vendo esse corredor? Melhor você continuar por ele.

- Sabe, a gente estava indo bem, Potter. Todos estavam sabendo, eu estava sendo aceito…e eu não sei o que você fez para mudar isso.

- Continue o seu caminho, Bones.

- Estou louco para saber o que foi, porque quem era você, afinal? James Potter, amigo de Sirius por anos. Não tem nada de especial em você, cara. Nunca teve…por que teve agora?

Agora a camiseta de Edgar Bones tinha dez furos, pois a maneira que James a segurou para jogar o dono que a vestia contra a parede foi com muito mais ódio do que antes.

- Manda a porra do seu time vir atrás de mim, mas não serão eles que vão me impedir de te…!

O sinal tocou chamando a atenção de ambos. James largou a camiseta de Bones e se afastou, dando as costas e voltando para a sua sala. Acenou para o professor ao entrar, pegou suas coisas e saiu apressado.

Infernos, tinha que se conter. Se fizesse qualquer coisa, nem precisaria se preocupar em pensar em qual universidade iria, pois perderia todas as aceitações. E pior: por conta de Edgar Bones. Ele não merecia aquela glória.

- Pronto para ir?

Sirius estava parado na sua frente, Remus ao seu lado.

- Onde? - James perguntou debilmente. Sua cabeça ainda estava presa em Edgar Bones e o fato de ter quase perdido sua ida para a universidade.

- Embora, oras.

Suspirou e seguiu os amigos até o estacionamento. No meio do caminho, viu Bones conversando com alguns dos amigos de seu time e o observando.

Que viessem todos eles. Estava tão puto da vida, que sentia aquela coragem estúpida de Sirius de mais cedo, pronto para acabar com uns cinco deles de uma vez e sem uma bengala.

- É agora que vamos brigar com Edgar Bones? - Sirius perguntou ao seu lado ao ver James encarar os babacas do outro lado do estacionamento.

- Não vamos brigar com ele. - Remus alertou.

James parou seu caminho até a porta do motorista do seu carro e não desviou os olhos de Bones, que o encarava de volta. Ficaram assim por alguns instantes, até ambos desviarem quase na mesma hora.

Abriu a porta e entrou.

- Não agora, mas tenho a sensação de que será em breve.

Se ele o ameaçasse de novo, ameaçasse Lily, repetisse ou dissesse qualquer outra coisa relacionada à ela, não teria Remus ou time de futebol que o pararia.

J~L

So have you got the guts?

Então, você criou coragem?

Been wondering if your heart's still open

Fico pensando se seu coração ainda está aberto

And if so I wanna know what time it shuts

E se estiver, quero saber a que horas ele fecha

Desligou o rádio com violência e caiu com força contra o banco de novo.

Estava preso há quarenta minutos no trânsito e não parecia que iria se mover tão cedo. Um acidente a poucos metros de onde estava transformou aquela região de Londres num verdadeiro inferno. Olhou para o relógio e viu que marcava 19h30.

Com o celular conectado, apertou alguns botões no volante e ligou para casa.

- Onde você está, sr. James Fleamont Potter? O jantar está pronto desde às 19h. Você disse que jantaria conosco. - Euphemia respondeu a chamada.

- Preso no trânsito por conta de um acidente. Vocês podem começar a comer, eu vejo se como algo quando chegar.

- Não tem problema, vamos te esperar.

- Não, mãe, melhor não. - Respirou fundo e bagunçou os cabelos. Estava morrendo de raiva agora. Foi um dia estressante e ele não parecia querer acabar nunca. - A ambulância ainda está lá e parece que estão tirando os carros envolvidos do meio da rua só agora.

- Vamos esperar até as 20h.

A teimosia era de família.

- Se vocês quiserem, mas não estarei em casa a essa hora.

Após desligar com a sua mãe, voltou para a sua posição de morto-vivo. Olhava para a rua com a esperança de um condenado à morte ser liberto por algum milagre. Ou seja, nenhuma.

Se ejetou para frente e tirou sua jaqueta jeans, jogando-a com raiva no banco ao lado.

A raiva, a chateação que sentia era tão grande. Era raro sentir-se assim, mas poderia acontecer com qualquer um, certo? Você acordava e sentia que aquele não era o seu dia, enquanto tudo e todos te irritavam até o último fio da sua sanidade.

E o rádio, agora desligado, só ficava tocando músicas que ele não queria ouvir: músicas tão dramáticas quanto o seu dia, românticas, e todo o resto que estava evitando.

Esfregou o rosto, levou as mãos aos cabelos logo em seguida. Tentou ver se alguma coisa se mexia mais a frente na rua, mas tudo estava a mesma coisa.

Seu telefone começou a tocar e ele apertou o botão de atender no volante com raiva.

- Mãe, apenas vão comer. Eu estou longe.

A linha ficou muda e ele se arrependeu de ter falado daquele jeito com ela. Estava prestes a pedir desculpas, quando a voz no alto falante o congelou:

- Acho que não foi uma boa hora para te ligar. - Disse Lily.

A voz dela saindo por todos os altos falantes do carro pareciam criar uma bolha em volta de si. Seus olhos meio que procuravam o que fixar, querendo ter ela na sua frente ao invés da porcaria de um Volkswagen prata.

- Hey. - A voz dele acalmou. - Desculpa, eu pensei que fosse a minha mãe, nós acabamos de desligar.

- E você está bravo com ela?

- Não, não com ela. Apenas…- James olhava para os lados, tentando achar as boas palavras, tentando entender ele mesmo sua irritação. - Não foi um bom dia e minha paciência já explodiu muitas vezes.

- O que aconteceu hoje? Algo que eu posso ajudar?

Merda, sim. Ela poderia ajudar voltando, ficando com ele trancado em algum lugar, longe de todo mundo.

Do jeito que se sentia hoje, imaginava se enrolando nela, sem distinguir onde começavam e terminavam, e ficando daquele jeito por horas…até o dia seguinte. Os celulares desligados, a porta trancada e Lily. Apenas isso.

Era tudo o que ele queria desde o momento que ela partiu.

- Apenas acordando com o pé esquerdo, nada demais. - Ele se deixou escorregar um pouco no banco, ficando mais confortável. - E como foi o seu dia? Espero que tenha sido melhor do que o meu.

Ela riu um pouco. Aquele som era uma música melhor do que as que tocavam no rádio antes de desligá-lo.

- Nada de interessante. Tive aulas, liguei para Remus para confirmar algumas coisas, fiz exercícios e tratamento com uma máquina bem interessante. Vou descer para jantar em alguns minutos.

- Então alguém está feliz hoje, pelo menos.

Lily não respondeu de imediato, levando alguns segundos.

- Eu não iria tão longe assim, apesar de estar menos nervosa do que você.

Ele franziu a testa enquanto olhava para as próprias mãos em seu colo.

- Você não está feliz?

- Podemos dizer que a minha perna está feliz. Está adorando tudo isso, na verdade.

Silêncio. James franziu ainda mais a testa.

- Mas…?

- Mas…- Ela parecia hesitante. James cruzou as mãos, esperando, curioso, querendo ouvir o que poderia estar incomodando-a. - Mas eu…gostaria de voltar.

Fechou os olhos e comprimiu os lábios. Deveria pensar que ela dizia aquilo pelo mesmo motivo que ele estivera o dia todo naquele humor? Poderia dizer que Lily também estava daquele jeito por conta da…saudade?

- Gostaria? - Ele perguntou. Precisava cavar mais sobre isso.

- Sim.

Mas Lily não ajudava.

Ele a conhecia bem, mas não muito naquele quesito. Se considerasse o que sabia dela, dificilmente Lily iria derramar algumas verdades sem saber o que vinha do outro lado, do lado dele.

Isso se ele estivesse interpretando bem e ela estivesse daquele jeito por conta deles estarem separados. Se estivesse enganado, então ficaria bem chateado. Com todas as ligações, as conversas à noite naqueles últimos dias, não era possível que tivesse interpretado mal.

De qualquer jeito, sabia que ela não diria nada. Não sem ele mesmo dizer algo antes. E ele estava tendo a impressão que ela estava tentando ver se algo saía dele, assim como ele estava fazendo com ela.

- Não falta muito para você voltar. - Disse, apesar de não achar que faltava pouco. Parecia tudo uma eternidade.

- Podemos dizer que é um jeito de se ver. Já passou mais da metade dos dias, pelo menos…então poderíamos dizer que não falta muito.

Era nítido o quanto ela também não acreditava numa só palavra daquilo. Algo ficou pendente no fim daquela frase. Se fosse ele dizendo aquilo, poderia confirmar que faltava um "mas ainda falta muito, apesar dos pesares".

- Dois dias. - Ele disse.

A resposta dela foi uma bufada. Aquilo o fez rir. Talvez tenha sido a primeira risada verdadeira dele naquele dia.

- Fica fácil quando você está por aí, com a rotina, com as pessoas de sempre ao seu redor.

- Eu não tenho todas as pessoas de sempre.

- Bem…- Ela não iria terminar a frase.

- Você deveria estar melhor justamente por não estar na rotina. Você está fazendo coisas diferentes, que fazem o seu dia parecer mais interessante, talvez até passar mais rápido.

- Não, eles não passam. Mas enfim…como você mesmo disse, logo isso acaba. Minha perna não vai gostar, mas eu vou. - Ela riu um pouco no fim.

A risada dela ecoando ali dentro era realmente um calmante. Agora, com o carro já caindo no breu, tendo apenas as luzes dos faróis dos carros em sua volta, James começou a relaxar. Deitou ainda mais no banco, tendo que dobrar as pernas como podia, fechando os olhos.

- Eu também vou. - Disse.

Ele sorria tentando imaginar a cara dela ao ouvir aquilo. Pelo menos, na mente dele, ela gostava de ouvir e estaria sorrindo também.

- Verdade?

A voz dela não era de curiosidade, mas sim de provocação. Ou diria que estava curiosa, mas estava testando o terreno, querendo ouvir mais sobre.

Percebeu que estavam girando, sem sair do lugar. Então estava na hora de botar aquilo para fora, as cartas na mesa, dane-se. Era algo que estava entalado e que não poderia compartilhar com ninguém, além dela, e isso era sufocante.

Se era isso que Lily estava procurando, então era o que teria.

Sem se mexer muito e sem abrir os olhos, ele conseguiu aumentar um pouco o som dos alto falantes. Queria ouvir o máximo que podia dela depois disso.

- Lily?

- Sim?!

Se afundou ainda mais no banco.

- Eu sinto sua falta. Bastante. - Nunca disse nada parecido para ninguém antes, ou não nesse sentido, não para uma garota.

Queria poder ver a sua reação, mas só podia imaginar.

Ouviu a respiração dela e manteve os olhos fechados, tentando imaginar que ela estava ao seu lado.

- Eu também sinto a sua. Muito.

Quando começou esse dia, essa maldita terça-feira, não imaginou aonde estava indo. Parecia um dia horrível que não acabaria nunca, com uma coisa ruim após coisa ruim. Estava apenas aceitando que precisava dar uma pausa, dormir, ficar inativo por algumas horas para poder recuperar a bateria.

Mas agora…não poderia pensar em qualquer coisa que poderia destruir aquele fim de dia.

Quase queria agradecê-la por aquilo. Seu corpo relaxou de todo o estresse do dia de uma tal maneira, que nem saberia ser possível.

- Então acho que concordamos que esses dois dias serão longos. - Comentou. Ele mal podia esperar pela quinta-feira. Iria ficar doido.

Nunca ficou tão fissurado em alguém daquele jeito a ponto de enlouquecer por alguns dias separados. Só pensava na volta dela, contando os dias, as horas…

Nem sabia como faria quando ela voltasse. Teria que arranjar um jeito, uma hora, um sequestro, talvez.

- Agora ainda mais.

- Por quê?

- Por saber que você também está esperando pela minha chegada o tanto quanto eu quero chegar até você.

Uau.

Sentiu o imenso sorriso que abriu.

Aquilo. Era aquilo que fazia valer a pena aquela maldita espera. Era por isso que queria falar que sentia a falta dela, deixando claro e em voz alta o que sentia, porque teve algo de volta. E estava valendo muito a pena ter arriscado.

"Chegar até você". Aquela frase iria rodar em sua cabeça por horas, pelo resto da noite, até o bendito dia de Lily voltar.

Inferno de quinta-feira! Inferno de Leeds que estava tão longe. Inferno de provas que tinha e que não podia perder. Senão ligaria para os pais e avisaria que não o esperassem mesmo para o jantar, porque ele estaria pegando a estrada para Leeds.

Infernos!

- Ah, Lily Evans. - Disse rindo um pouco pela felicidade que sentia. - Se estivéssemos medindo o quão ruim será esperar a quinta-feira, estaríamos com resultados extremos aqui. E aumentando cada vez mais com essas conversas.

- Talvez devêssemos parar de nos falar. - Ela riu.

- Vou parar de te ligar.

- Eu também.

- Sem mensagens…

- Sem nenhuma comunicação.

- Até quinta-feira.

James viu que o trânsito parecia começar a se mover a alguns metros à frente e se posicionou. Até aquilo parecia melhorar agora. Olhou para o relógio. Chegaria às 20h em casa para o jantar com os pais. Quem diria?

Sentia-se o cara mais sortudo da face da terra.

- Ou talvez…apenas continuamos a nos falar, mas aguentando as consequências. - Lily voltou a falar.

- Eu acho que consigo enfrentar as ligações. E você?

- Posso me esforçar. Veremos amanhã e se for muito difícil, a gente para.

- Claro, amanhã. Um dia antes da sua volta…acho justo decidirmos amanhã. Após uma ligação à noite, o que acha?

- Me soa perfeito.

- Eu te ligo.

- Vou estar esperando.

- Mesma hora?

- Mesma hora!

Colocou o cinto de volta e assim que o Volkswagen prata acelerou, James o seguiu.

Ah, a liberdade. Aquilo era tão bom.

Mas não tão bom quanto saber que Lily estava querendo voltar para ele.

Na verdade, não era bom, mas perfeito.


QUARTA-FEIRA

Não sabia o porquê de ter chegado cedo na casa dos Black-Evans considerando que era apenas Sirius que pegaria carona.

Antes, quando iam apenas os dois - Lily indo com Edgar às escondidas ou mesmo com Alice -, eles viviam atrasados. Estava perdendo a oportunidade de dormir mais, mas até seu corpo parecia acostumado a acordar mais cedo agora.

Entrou na casa, como sempre fez, e sentou na poltrona que Orion gostava de ler o seu jornal. Olhou para o relógio e sabia que esperaria por alguns longos minutos até Sirius descer, então se recostou e fechou os olhos. Talvez pudesse cochilar por um instante.

- James?!

Abriu os olhos e se deparou com Geneviève.

- Bom dia.

- Bom dia, querido. - Ela conferiu as horas. - Está tudo bem?

- Sim, apenas adiantado. Desculpe entrar sem apertar a campainha.

Geneviève estalou a língua e abanou a mão no ar.

- Você é sempre bem-vindo, você sabe. Já tomou café da manhã? - Ela perguntou indo até a cozinha e James sentiu que, tendo tomado ou não, ela queria ser seguida.

- Já.

A ruiva foi até a máquina de café.

- Nem mesmo um café?

- Não, obrigado.

- Temos frutas. Eu sei que gosta de comer pelas manhãs.

Não exatamente. Gostava de roubá-las de Lily.

- Estou bem, obrigado.

- Certo.

Enquanto ela andava pela cozinha preparando o café e torradas, James reparou que ela tinha um sorriso leve no rosto. Estranhou.

- Como está o trabalho? - Resolveu puxar assunto.

- Ah, cansativo. Esse período costuma ser puxado, mas consegui uma folga essa manhã. - Ela deu de ombros e pegou a xícara de café da máquina, sentando-se de frente para ele. - E a universidade? Já decidiu?

James deixou os ombros caírem.

- Não ainda.

- Consigo ver o quanto isso parece estar te preocupando.

- Um dos motivos de me fazer aparecer aqui tão cedo, aliás. Está um pouco difícil dormir tranquilo.

Geneviève deu um gole de café, ainda sorrindo. James enrugou a testa.

- Um dos motivos. - Ela repetiu com os lábios ainda dentro da xícara.

- O outro é garantir que os seus filhos não estejam atrasados.

- Claro. - Ela abaixou a xícara. - Aliás, vou ligar para a sua mãe hoje, sobre o tal jantar. Eu adoraria recebê-los.

- Meus pais adorariam, mas não faça isso pelas caronas. Não me incomoda em nada.

- Eu sei que não, querido, mas ainda é um enorme favor que você nos faz. Me sentiria melhor caso eu pudesse agradecer de alguma forma.

Podia ver que ela não iria desistir daquilo. As ruivas daquela família tinham uma maneira de arrancar qualquer coisa dele.

- Se isso te faz feliz…- Ele disse, desistindo de lutar contra.

- Me faz extremamente feliz. - Pelo menos ele contribui para o sorriso de cada dia delas. De maneiras diferentes, mas enfim. - Que tal amanhã? Lily estará conosco!

Tentou segurar o próprio sorriso, mas James achou que um pouco dele acabou escapando.

- Claro. - Respondeu o mais imparcial possível.

- Vou ligar para a sua mãe. - Geneviève repetiu, mas batendo o martelo sobre o assunto e o encerrando. Ele assentiu enquanto Geneviève pegava as torradas e as trouxe para o balcão. - Tirando a universidade, como está a vida, James?

Intrigante, pensou ele. Excitante, empolgante e bem diferente.

- Normal, nada demais.

- Hm, certo. - Ela brincou um pouco com as torradas. - Sirius me disse que não está namorando.

O alarme dentro da sua cabeça começou a apitar.

- Não, não estou.

- Ele também disse que você não é um cara para namoros.

- Ele disse?

- Sim. Engraçado, né? - Geneviève riu um pouco e mordeu a torrada, sem tirar os olhos dele.

- Sim, engraçado. Eu nunca disse que sou contra.

- Mas tem algo a favor?

Ok, estava em um campo minado e precisava saber onde pisar. No caso, escolher bem as palavras.

- Não acho que seja algo que eu tenha uma opinião sobre.

- Hmm. - Não sabia se aquilo tudo era um teste, mas se fosse, parecia não estar passando nele. - Você não pensa em achar alguém que te faça bem, que goste bastante, e ficar com ela?

Bem, ele adoraria fazer isso com a filha dela, a mesma pessoa que, por incrível que pareça, Geneviève também estava falando sobre. Não sabia se era por aprovar ou não, mas sabia que estavam falando de Lily.

Mas se ela não quisesse abrir a conversa e falar diretamente, ele estava ok com isso. Na verdade, era até melhor. Lily não parecia querer que a mãe soubesse, ou não ainda.

Ou no caso: não queria que as coisas estivessem escancaradas para a mãe.

- Eu não vejo problema nisso. - Finalmente respondeu.

- Interessante.

Queria rir, mas não na maldade, e sim por ver o quanto mãe e filha eram parecidas, como falavam coisas parecidas, como se comportavam. Lembrava de Lily no começo e suas conversas. Ela o rodeava de perguntas, tentando entender, arrancar algo dele.

- Mas…- Ela voltou a falar. - …como você não tem uma opinião sobre namoros, você não está procurando por isso, eu imagino.

Ah! Uma pergunta que trazia toda a ambiguidade em sua resposta. Se dissesse que "sim, estava", então ele teria mentido antes. Se dissesse que não, ela iria pensar algo errado sobre o que ela desconfiava que acontecia entre ele e Lily, talvez pensar que ele estivesse apenas se divertindo.

- Eu…eu diria que, hm, estou deixando a vida se encarregar disso.

- Ah, sim?

- Sim. - Se ajeitou no banco. - Afinal, um relacionamento, seja o nome que for, é composto, normalmente, por duas pessoas. Então as duas pessoas precisam querer isso. Apenas eu querer e procurar por tal coisa não adianta nada caso o outro lado não esteja interessado. - Fez uma pausa. - Não é mesmo?

Os olhos de Geneviève estavam trancados nele e James engoliu duas vezes, esperando pela resposta dela.

Tinha se saído bem ou não? Passou no teste ou teria que, sei lá, se candidatar para a NASA?

Aliás, a NASA parecia mais fácil. Física e todo o resto era algo simples na sua cabeça, mas estar ali falando em códigos com Geneviève Evans, a mãe de Lily, que estava com o seu desconfiômetro a 99,9% sobre eles terem algo rolando…aquilo lhe fazia suar.

- Você tem razão. - Ela respondeu.

Sentiu o corpo relaxar.

- Que bom. - James se viu murmurando.

- Não que eu ache difícil. - Geneviève continuou. - Sabe…as garotas por aí…tenho certeza que elas não estariam procurando por algo diferente disso com você.

James deixou a cabeça cair de lado.

- Você acha? - Se viu perguntando.

- Eu diria que tenho certeza.

Começou a ouvir os passos e o barulho da muleta de Sirius vindo pelo corredor. James se remexeu, querendo espantar aquela conversa como se fosse fumaça e Sirius pudesse vê-la assim que entrasse.

- Cacete, eu também estou adiantado? Até a minha mãe está em casa ainda. - Sirius comentou parando na porta e olhando os dois na cozinha.

- Estou de folga esta manhã. - Geneviève respondeu e pegou uma xícara para oferecer café para o filho. - Como está o seu pé hoje?

- Bem melhor. Estou com a muleta só para um pouco de apoio, mas levantei e fiz todo o resto sem ela.

- Continue usando em Hogwarts e não pare as compressas, além dos remédios.

- Não irei. - Sirius passou ao lado de James e eles se cumprimentaram com um toque rápido. - Roubou o café da manhã da minha mãe hoje?

- Não, ela não come frutas.

- Desculpe por isso, James querido. - Geneviève disse enquanto passava o café pronto para o filho. - Lily estará de volta na quinta, então na sexta você poderá continuar a se alimentar.

- Mal posso esperar.

Levantou o olhar ao dizer aquilo. Não era para soar malicioso, já que estava mesmo falando sobre a comida. Geneviève apenas olhou para ele e sorriu, enquanto Sirius bebia seu café tranquilamente.

- Você está suspenso, não vai estar aqui na sexta. - Sirius comentou com a boca cheia de torrada.

Ah, merda!

Oh maldição. Queria matar Edgar Bones agora. Se ele soubesse que acabou com o café da manhã que poderia ter com Lily na sexta, com certeza ficaria feliz da vida.

- Por que está suspenso? - Geneviève perguntou.

- Nada demais, um pequeno desentendimento com um boçal.

- Entende-se: Edgar Bones. - Sirius traduziu.

Ela se virou para James e o fitou por um momento.

- Esse não é o ex da Lily? Aquele que dá remédios para as garotas e tudo mais?

- Sim, o excelentíssimo Edgar Bones. James se estranhou com ele ontem.

- Por quê? - Ela parecia muito curiosa.

- Ele é um idiota, apenas por isso. - Respondeu sinceramente.

Os olhos de Geneviève pareciam dois scanners, tentando ler tudo e qualquer coisa em seu rosto.

- "Apenas por isso"?! - Ela comentou não parecendo concordar muito, ou não concordar que havia apenas um motivo para a briga.

- Não precisamos de muito para brigar com ele. - Sirius voltou a dizer. - Até a paciência de James acabou e isso que ele nem tem uma irmã que namorou com o merda.

James e Geneviève se olharam. Ele tentou manter seu rosto neutro, mas estava difícil. Ela o olhava de um jeito que parecia arrancar todas as informações dele e tinha a impressão que a mãe de Lily sabia que ele tinha brigado com Bones por conta da filha.

E ela estava doida para dizer algo sobre isso.

No final, ela apenas estalou a língua e foi até o filho.

- Bem, eu levo você amanhã em Hogwarts e você e a Lily na sexta. Mas hoje, não se atrase. - A ruiva acariciou os cabelos de Sirius, que sorriu para ela. - Faça o tempo de James valer a pena. O coitado sempre está na hora.

- Adiantado, você quer dizer. - Sirius retrucou.

- O que, no final, acaba te fazendo chegar no horário. - Geneviève veio na direção de James. - Obrigada pela conversa. Não hesite falar comigo, caso precise.

James assentiu, agradecido, enquanto via Geneviève sair da cozinha.

- Que conversa? - Sirius jogou a pergunta sem atrasos.

- Sobre a vida.

- Algo específico?

- O futuro, eu diria.

- Hum.

Enquanto James voltava com o seu velho jogo no celular, o amigo conversava com ele sobre banalidades ou planos para o dia, com os quais James concordava. Quando Sirius anunciou que terminaria de se preparar e partiu para o quarto, James fechou o jogo e abriu a câmera.

Tirou uma foto da bancada da cozinha vazia.

(7:45) James: Sem café da manhã pela terceira vez seguida. Isso está ficando bem chato.

Largou o celular em cima do balcão e se perdeu em pensamentos enquanto olhava para os jardins.

Estando suspenso no dia seguinte e na sexta, o que teria para fazer naquele tempo? Ir para Hogwarts o fazia matar boa parte do dia, ficando distraído. Agora teria que se virar para achar algo que ocupasse sua cabeça.

(7:47) Sardenta : Prometo um bom café da manhã na sexta ;)

Pela milésima vez naquela semana, James se irritou com Edgar Bones por aquela suspensão.

(7:48) James: Infelizmente eu não estarei aqui para o café da manhã na sexta.

Talvez pudesse ajudar mais o pai, até seria um bom teste para ver como se sentiria trabalhando com aquilo.

(07:48) Sardenta: Não?!

(07:49) James : Estou suspenso até semana que vem. Sua mãe vai levar você e o seu irmão.

(07:49) Sardenta: O que houve?

(07:50) James: Nada demais, não se preocupe ;)

Aquela bagunça só reforçava o seu plano que vinha pensando desde a partida de Lily. Não seria possível ficar sem vê-la logo após a sua volta, mesmo sabendo que iria buscá-la na estação amanhã. Mas o seu plano. Ah, se o seu plano desse certo, seria até melhor do que café da manhã na sexta ou não ser suspenso.

Talvez isso fosse algo que poderia focar nos próximos dois dias. Tinha algumas ligações para fazer, favores para pedir.

E então só restaria Lily aceitar embarcar naquilo com ele.

L~J

Chegou ao seu quarto após um dia bem cheio. Porém, com bons resultados.

Primeiro, conseguiu nota máxima em sua última prova. Era a única que temia. Menos um problema para lidar.

Depois, teve duas sessões com a sua médica e em ambas ela se saiu muito bem. Sua perna parecia ter esquecido que estava machucada e aceitava todo e qualquer exercício. Quando precisou forçar, sentiu dor, mas não sentia-se travada. Tudo fluía.

Colocou seus livros em cima da mesa e sentou. Ligou o computador, apoiou o celular ao lado e ligou para a mãe, que havia tentado ligar mais cedo.

Geneviève apareceu em sua tela. Ela estava na cozinha e parecia preparar o jantar.

- Olá, querida. Oh, eu vejo um sorriso hoje. Como está?

- Bem. Tive uma boa nota em uma prova e as sessões hoje foram espetaculares. Eu estou muito empolgada.

- Eu fico muito feliz em ouvir isso. O seu médico não estava confiante à toa.

A mãe desapareceu por alguns segundos, indo até algum armário não muito longe. Lily aproveitou para abrir seus documentos de Hogwarts e conferindo um novo resumo que Remus havia enviado naquela tarde.

- O que está cozinhando? - Perguntou quando a mãe voltou para a tela.

- O prato preferido do seu irmão. Ele tem cozinhado todos esses dias e hoje consegui estar em casa mais cedo, então resolvi fazer o que ele mais ama e você mais detesta.

- Urgh. Frutos do mar.

- Exato. - A mãe confirmou, contente. - Como você não está aqui e Sirius parece entediado sem poder dirigir, resolvi fazer um agrado para ele.

- Ele pode comer tudo, assim não preciso sentir o cheiro quando voltar amanhã. - Lily suspirou. - Mal posso esperar para voltar. Leeds pode ser legal, apesar de eu não ter saído da clínica, mas quero Londres de volta.

E James.

Balançou a cabeça e voltou para o computador, enquanto abria o novo resumo e se virou para a mãe, querendo dar atenção total a ela. Geneviève pareceu ter a mesma ideia, pois tinha os cotovelos apoiados no balcão e olhava diretamente para o celular.

- Você volta amanhã. Talvez seja por isso também que o seu sorriso esteja maior?

- Pode ter certeza que estou bem feliz em voltar.

A mãe mordeu os lábios, segurando um sorriso. Levantou do balcão e pegou uma panela, colocando no fogão.

- Querida. - Ela começou um pouco incerta. Lily esperou a mãe continuar. - Você gostaria de me dizer algo?

Lily congelou por um momento.

- Não?! Minha vida está bem monótona aqui, mãe. - Ela riu um pouco forçado.

- Sim, eu imagino. Mas…não há nada que gostaria de compartilhar? Talvez conversar sobre?

Se a mãe tivesse sido mais direta, Lily sentiria-se menos desconfortável do que agora.

- Você parece ter algo que quer conversar. - Jogou de volta.

- Apenas se você quiser.

Desviou os olhos e voltou para o computador. Não sentia-se pronta ainda para falar sobre ela e James com a mãe. Na sua cabeça, a mãe estava em uma categoria não muito longe de Sirius, no sentido de estar no quesito "família".

Se um dia ela disesse para a mãe com todas as letras o que estava acontecendo, gostaria de dizer para Sirius também, como se os dois recebessem a notícias juntos, apesar da mãe já ter queimado a linha de largada naquela corrida. Não queria deixar apenas Sirius no escuro, mas ainda era cedo. Colocou na cabeça de que se o que estivesse vivendo fosse por apenas um tempo, uma diversão - e uma bem boa -, não valeria a pena. Seria muito drama para nada.

- Bem…- A mãe voltou a falar. - Você está com saudades de Londres, não é?

- Sim, morrendo de saudade. - Respondeu pensando nele.

A mãe sorria tão grande agora enquanto tinha os olhos voltados para o jantar sendo preparado. Até ela olhar para a filha.

- Saiba que Londres está morrendo de saudade de você também.

Seu peito aqueceu.

Sim, ela sabia.

L~J

Os jardins da clínica eram bem bonitos, mas estavam longe de serem quentes.

Lily estava enrolada em um cobertor do seu quarto, sentada em um banco de madeira. Ao longe, via os regadores automáticos funcionando e alguns pacientes passeando no começo da noite.

Seu celular estava ao seu lado, pronto. James disse que ligaria para ela hoje, no mesmo horário de ontem, então ela jantou um pouco mais cedo e resolveu esperar por ele enquanto descansava ao ar livre.

Estava sentindo-se bem. Sua vontade de voltar para Londres continuava enorme, mas estava ciente de que amanhã, nesta mesma hora, estaria de volta onde queria estar e, de preferência, com quem gostaria de estar.

Seu tratamento teve um resultado imenso. Ainda teria uma sessão amanhã antes de ir embora, mas não podia reclamar dos dias que passou ali. As dores tinham diminuído bastante, tinha a impressão que mal mancava mais, e que podia fazer muito mais do que antes.

Queria tanto poder dirigir novamente, ter sua vida de volta. Correr ou mesmo andar mais do que alguns metros sem dores.

Seu celular começou a vibrar, ela liberou os braços do cobertor e o pegou. O nome dele e a foto eram quase como uma injeção de adrenalina.

Não que ela já tivesse tomado uma.

- Você está adiantado.

- Estou?!

- Sim, fui pega de surpresa, mas isso não é uma reclamação.

- Vou tentar te surpreender na próxima vez também. Ah, não, espere…essa é a nossa última ligação, não?

- Eu acho que sim. Segundo a nossa conversa ontem, decidimos que não nos falaremos mais…a não ser essa última ligação de hoje.

- Droga. Bem, sem surpresas então. - Ele respirou fundo e Lily pensou que talvez o escutou deitar ou se aconchegar. - Como foi a sua quarta-feira?

- Boa. Gostei das sessões, foram ótimas. Tive uma boa nota em História Avançada e minha mala já está quase pronta.

- Quase pronta? Ela já deveria estar com o zíper fechado.

- Estará com tudo dentro no horário para amanhã.

- Faça isso, porque você não quer perder aquele trem. Eu não quero que você perca aquele trem.

- Não irei. - Ela riu. - Como foi o seu dia?

- Tive uma prova importante de Física que acho que foi tudo bem. Nada demais além disso.

- Como você está suspenso e foi para a aula hoje? Eu não estou entendendo muito o que aconteceu.

Ouviu James fazer um barulho com a boca, como se não fosse nada demais.

- Fui suspenso por ter perdido a paciência, mas McGonagall soltou um pouco o punho de ferro e me deixou vir hoje para essa prova.

- Por que perdeu a paciência? Com quem, um professor?

- Por nada, Sardenta, está tudo bem. Não é nada demais.

- Você não querendo me dizer, soa como algo mais importante do que você tenta me passar.

Ele ficou mudo. Por que ele não queria contar o que aconteceu? Estava começando a ficar preocupada. James raramente perdia a paciência, poucas vezes o viu sair de si - uma delas com Peter -, então sentia que era algo importante.

- Bones. Ele estava apenas sendo ele e me irritou.

Apoiou a testa na mão, não acreditando.

- O que ele fez?

- Apenas tentando cutucar, mas me pegou em um péssimo dia. Discutimos, mas algum funcionário achou que foi tudo muito acalorado e nos denunciou.

- Aquele idiota! - Suspirou de desgosto. - Sinto muito por isso.

- Não sinta, não é sua culpa ele ser do jeito que é.

- Ainda sim, eu sinto muito. Mas vejamos pelo lado bom: sendo suspenso, ele não pode jogar. Aposto que está furioso.

Ela riu um pouco, mas parou de rir quando James não respondeu.

-Ele não foi suspenso, apenas eu.

- Como é? Como isso é possível?

Mais uma vez, James ficou em silêncio. Ele estava querendo ganhar tempo para formular suas frases, ela sabia, mas queria entender o motivo disso. Qual o problema de falar abertamente?

- Podemos dizer que eu estava mais bravo do que ele.

- Você bateu nele?

- Não. - Ele soava honesto. Lily duvidava que ele mentiria, de qualquer forma. - Não me faltou vontade, mas foi uma discussão acalorada.

- Certo.

Queria perguntar sobre o que discutiram, mas achou melhor não entrar ali. Talvez envolvesse o seu nome, talvez não. Assim como não faltava vontade em James de ir para as vias de fato, também não faltavam motivos para muitas pessoas quererem brigar com Edgar.

- Então isso quer dizer que sem café da manhã para mim sexta-feira.

- Edgar Bones tem uma lista extensa de contraversões e essa está no topo, eu te garanto.

Iria esganar o seu ex namorado. Edgar talvez não soubesse o motivo dela chegar até ele e apertar seu pescoço, mas Lily pensaria no tempo perdido com James que ele arrancou dela enquanto realizaria o ato.

- Mas chega de falar dele. - James parecia mais do que feliz em mudar de assunto. - Tirando a piada da sua mala estar pronta, você se sente pronta para voltar? Qual a sua visão de todo o tratamento?

- Eu penso que houve muito progresso, mas só terei certeza quando voltar com a minha rotina e Jon.

- Jon?

- O meu fisioterapeuta. Ele está sendo informado e vai receber tudo para continuarmos a fisioterapia de acordo com o que fizemos aqui. Sei que tenho exercícios na piscina quase todos os dias, que eu posso fazer sem ele, e vai aliviar as dores. Outros, apenas com ele.

- Ok, então temos resultados bem positivos dessa viagem. Valeu a pena.

- Um mal para um bem, certo?

Se ajeitou na coberta e ficou olhando para o céu enquanto esperava pela resposta dele. Era tão ruim querer ter alguém do seu lado durante uma conversa e saber que ele está tão longe.

- O mal vai acabar amanhã.

- Finalmente!

Colocou o celular no alto-falante e se deitou no banco, aproveitando que não havia muitas pessoas ao redor.

- Que horas é o seu trem amanhã? - A voz dele parecia tão mais perto agora que ela não segurava o celular no ouvido, dando a impressão de que ele estava mesmo ali.

- 17h15. Eu devo chegar por volta das 19h30.

- Então eu estarei lá…provavelmente não sozinho, mas estarei lá.

Se virou no banco para olhar melhor para o céu enquanto deixava o seu peito se encher de alegria.

- Claro, porque alguém precisa me dar carona.

- Exato, é apenas por isso que estou indo em King's Cross: porque o seu irmão não pode dirigir e você precisa de carona. Por nenhuma outra razão. Nem sequer há uma outra remota razão.

- Claro. - Ela assentiu. - Então toda aquela conversa sobre querer que eu voltasse, era tudo mentira.

- Pois é, estava tentando te fazer sentir bem. Deu certo, pelo menos?

- Funcionou, até agora.

- Bom, não precisamos nos importar agora, porque você volta amanhã e eu não preciso ficar mentindo sobre isso para te dar algum prazer. Uau, que alívio dizer isso, eu já não aguentava mais ficar aqui inventando desculpas para te ligar todas as noites, ou te mandar mensagens durante o dia.

- Espero que tenha recebido bastante para interpretar esse papel durante todos esses dias.

- Nhé, poderia ser melhor. Na próxima vez, vou melhorar o meu preço.

- "Na próxima vez"?! Eu espero que não exista uma próxima vez.

James demorou alguns segundos para responder.

- Eu também espero que não. E se tiver, honestamente, Lily…

Ele não terminou a frase.

- Honestamente o quê?

- Faça em um período melhor, sem provas importantes que eu tenha que fazer e que me impedem de pegar o carro e fazer uma loucura.

Pegou o celular e tirou do alto-falante.

- Você quase fez isso?

- Foi por muito pouco.

Era louco. Imagina se ele aparecesse ali no meio da semana? Teria que arranjar um jeito de escondê-lo em seu quarto, além de alimentá-lo com frutas e água, pois eram as duas coisas que conseguiria pegar a qualquer hora.

- Você é louco. Você não iria viajar mais de 3h até aqui apenas para me ver. Isso significaria que…- Não sabia como terminar aquela frase. Significaria o quê? Que ele estava com muita saudade? Vontade? Tesão?

Que gostava dela?

Começou a morder a ponta do dedo, o que era algo novo para ela. Nunca roeu a unha nem algo do tipo quando sentia-se tímida.

Ou esperançosa.

- Você pensa pouco de mim. - Ele riu, quebrando o gelo. - De qualquer maneira, não há nada que me impede de estar te esperando amanhã, então não perca aquele trem. - Ele repetiu.

- Não irei. - Ela também repetiu.

Sentou-se no banco novamente e bocejou. O dia tinha sido intenso e apenas não foi dormir após o jantar, porque esperava a ligação dele.

- Você está cansada, eu vou te deixar dormir.

- Eu te vejo amanhã.

Como era bom dizer aquilo.

- Eu te vejo amanhã. Não esqueça que tudo o que eu falei essa semana era mentira, e que eu só vou te buscar na estação, porque estou sendo pago para isso.

- Anotado. Caso você queira saber, eu também andei mentindo. Não é como se eu estivesse esperando ansiosamente por amanhã.

- Você não está e eu também não. Estamos quites.

Ela sorria. Ainda bem que existia ele para fazê-la sorrir enquanto estava tão longe de todos, da sua vida, da sua casa.

- Boa noite, James. Infelizmente, para o nosso desagrado, nos vemos amanhã.

- Amanhã, sem falta…infelizmente. Boa noite, Lily.

Desligou e puxou a coberta sobre os ombros, sentindo-se o melhor que já estava em tempos. Uma sensação de que havia algo certo acontecendo em sua vida, algo que não a trazia para baixo em momento algum, mas que arrancava sorrisos o tempo todo.

Nunca se sentiu assim antes, era tão novo.

Escorregou no banco e olhou para as estrelas, desejando que a noite seguinte chegasse logo.


Simmer down and pucker up

Se acalme e prepare seus lábios

I'm sorry to interrupt, it's just I'm constantly on the cusp

Sinto muito interromper, é que apenas estou constantemente à beira

Of trying to kiss you

De tentar te beijar

I don't know if you feel the same as I do

Mas não sei se você sente o mesmo que eu sinto

But we could be together if you wanted to

Mas poderíamos ficar juntos se você quisesse

/-/

QUINTA-FEIRA

Colocou sua última muda de roupa na mala e a fechou. Pegou seu computador, colocando-o na mochila, e sentiu-se tão bem enquanto andava pelo quarto sem a pressão e a dor horrível por toda a sua perna, que quase queria ficar andando em círculos ali.

A diferença era enorme. Aqueles dias ali arrancaram um peso que Lily nem sabia que carregava no joelho. Quando pensava na dor e na sensação de antes, só poderia descrever como um peso de academia enrolado no meio da sua perna, espremendo todos os seus nervos e fatigando o seu osso.

Agora sentia que aquele peso havia diminuído 90% e nada mais se comprimia tanto.

Pegou suas coisas e estava saindo do quarto, quando encontrou uma das recepcionistas da clínica a ponto de bater na sua porta.

- Senhorita Evans, estava vindo até você.

- Algum problema com a minha alta?

- Não, nenhum. Só precisamos da sua assinatura, mas vim avisá-la que o seu irmão está aqui.

Seus olhos quase pularam para fora.

- Sirius está aqui?

- Acho que foi esse o nome, sim. Cabelos escuros e olhos azuis claros?! Chegou em um carro preto. - O susto de Lily pareceu preocupar a mulher. - Há algum problema? Devo mandá-lo embora?

- Não, não. - Ela riu. - Não. Eu só não esperava por isso. Ele não deveria dirigir e ter feito isso por tantas horas…

E ter perdido todas as aulas da tarde e a sua terapia. Por que ele fazia isso? Voltar de trem era perfeito para ela.

- Bom, ele está te esperando.

- Obrigada.

Seguiram juntas para que Lily assinasse todos os documentos de saída. Quando entrou no sagão, seus olhos caíram em Sirius conversando com a sua médica, apoiado na recepção. Assim que sua presença foi notada, ele se virou para ela.

Algo devia estar lhe agradando, porque ele tinha uma expressão de surpresa e contentamento sem igual.

- Você parece muito melhor. - Sirius disse a observando caminhar.

Quando ia responder, alguém saiu de trás de Sirius e a fez estancar no caminho. Cinco dias depois - o que, agora, parecia quase um mês -, ela colocava os olhos nele.

James Potter era a própria visão do paraíso em pessoa. Ele usava aquele sorriso de lado junto com uma camiseta preta que caía tão bem nele e jeans escuros.

Seu peito parecia derreter com aquela cena.

Queria mostrar para todos eles o quanto estava bem enquanto corria, fechava as pernas na cintura dele e o beijava no meio daquele saguão como se o mundo estivesse acabando. A saudade que sentia dele naqueles dias parecia fechar o ciclo agora, caindo como uma sensação de que algo faltava de verdade e que estava ali na sua frente agora.

Tão perto. Mas tão longe.

- Está tudo bem? - A mulher que a buscou no quarto perguntou ao seu lado aos sussurros. - Se há um problema, me diga.

- Não há problema algum. - Ela respondeu sem tirar os olhos dele.

- Ótimo. Venha assinar seus papéis e você estará pronta para ir.

Aquilo a encorajou a voltar a andar e ir na direção dos dois à sua espera.

- Vocês são loucos? - Ela perguntou.

- Dirigimos por todas essas horas para receber um "oi" tão caloroso assim? - Sirius colocou a mão na cintura.- Que infernos de educação seus pais te deram?

Ele a puxou para um abraço e Lily não resistiu, apertando o irmão de volta enquanto sentia o cheiro de casa nele. Também sentiu falta dele e não foi pouco.

- Vocês não deveriam ter vindo, olha tudo o que perderam nesta tarde.

- Ah, vamos lá. Estava cansado de não fazer nada e o meu motorista topou na hora, louco para sair um pouco de Londres também.

Sirius a soltou e abriu caminho para que ela cumprimentasse James, o tal motorista, enquanto voltava a falar com a médica. Sua boca ficou seca no mesmo instante, deixando-a louca com toda a altura e porte de James, trazendo tudo o que ela queria ter e ver nesses últimos dias.

- Então vamos voltar para "Sardenta". Pato Manco não parece mais apropriado. - Ele disse.

- Você iria ganhar um abraço, mas talvez não mereça mais. - Respondeu.

Os dois se encararam por um segundo, antes de darem o passo ao mesmo tempo e se abraçarem.

Tinham que fazer aquilo como se fosse algo normal, mas as pequenas mãos dela apertaram sua camiseta, demonstrando o quanto aquilo era pouco para o que ela queria realmente fazer.

James não pôde fazer nada, já que estava de frente para Sirius, mas a maneira que ele a apertava mostrava que Lily não estava sozinha naquela sensação.

- Sua médica estava nos contando sobre a sua evolução. - A voz de Sirius a obrigou a soltar James. E ainda bem, pois talvez aquele abraço estaria durando mais do que deveria. - E agora te vendo andando…honestamente, Lils, você progrediu muito.

Aquilo era ótimo. Alguém que não a viu por poucos dias lhe dizer que notara uma diferença, era recompensador.

- Se continuar com as sessões específicas que enviei ao seu fisioterapeuta em Londres, nós vamos passar longe dessa cirurgia. - A médica comentou pegando um papel e entregando para Lily. - A sua alta. Assinando, você estará livre.

Com um sorriso enorme no rosto, foi o que ela fez. A clínica não era ruim, muito pelo contrário. Mas como ela não cansava de repetir aquela semana: mal podia esperar para voltar para Londres.

Despediu-se de todos por ali e agradeceu sua médica mil vezes, antes de sair com o irmão e James em direção ao estacionamento.

Sirius olhou para o relógio.

- Vamos chegar a tempo para o jantar. - Ele disse. - Os Potter estão vindo.

- Os três, você quer dizer? - Ela perguntou lançando um olhar para James, que levava sua mala.

- Exatamente. - Sirius confirmou.

Aquilo seria interessante. Não tão interessante quanto ela tendo tempo de chegar em casa, tomar banho e desaparecer com James para algum lugar…mas era um interessante diferente.

Sua mãe tinha um péssimo timing para convites para jantar.

- Obrigada pela mala. - Agradeceu James fechando o porta-malas.

- De nada, Sardenta.

O olhar dele. Se Lily tivesse qualquer dúvida sobre ele querer encontrá-la depois de todos esses dias, ela acabaria ao ver o olhar dele naquele instante.

Suas mãos ficaram inquietas ao se dirigir ao banco de trás. Sirius já entrava no lado do passageiro e James passou por ela…

Lily abriu o braço e segurou a mão dele por um segundo e James entrelaçou seus dedos no dela. Soltaram-se ao mesmo tempo com o receio de Sirius ver por qualquer espelho retrovisor.

- Senhorita. - Ele disse ao abrir a porta para ela.

- Serviço completo. Talvez você ganhe cinco estrelas. - Disse ao entrar.

- Eu já não tenho cinco estrelas? - Ele sussurrou.

Ele piscou para ela e fechou a porta.

Sim, James, você tinha até dez.

J~L

A viagem de volta foi longa e cansativa.

Sirius, ao seu lado, tirava cochilos de tempos em tempos, o que acabava dando a oportunidade para que James trocasse olhares com Lily no banco de trás. Ela, por outro lado, ficou acordada o tempo todo, conversando com ele sobre qualquer coisa.

- Mas, pelo o que soubemos, Andrômeda quase adotou Remus. - Dizia ele quando já estavam em Londres, não muito longe da casa dos Black-Evans. - Ted gostou dele também.

- Afinal, quem não gosta de Remus? Apenas sendo bem desalmado.

- Não posso discordar.

Passavam tranquilamente pelas ruas. O relógio marcava 20h e o carro já estava caído na escuridão. Sirius continuava o seu quinto cochilo, virado para a janela.

James estava exausto. Dirigiu por mais de 6h, ida e volta, e só pensava em sair daquele carro e ficar em pé por 10h inteiras. Porém, não podia dizer que não estava feliz. Assim que Sirius disse naquela manhã que queria ir buscar a irmã, ele topou na hora. Então depois do almoço, ele foi pegar o amigo em Hogwarts e partiram direto para Leeds.

Sabia que Lily vir de trem era confortável para todos - até mesmo para ela - e mais rápido, mas quem disse que ele conseguiria esperar até o jantar? Ele só queria poder vê-la de novo o mais rápido possível, por mais estúpido que aquilo pudesse soar.

Uma pena que não pôde fazer o que queria fazer quando ela apareceu naquele saguão, parecendo com menos dor e menos dificuldade para andar.

E tão simplesmente bonita com um vestido verde.

Sentiu algo tocando a lateral direita do seu pescoço. Olhou pelo retrovisor e viu Lily atrás de seu banco, o braço direito entre ele e a porta. Sua mão descia e subia lentamente, apenas as pontas de seus dedos tocando-o.

- Lily. - Ele sussurrou. Era um pedido, mas ele não tinha ideia para quê.

- Eu quero fazer isso desde o momento que eu te vi. - Ela respondeu bem baixinho. - Até antes, eu diria.

Pararam no semáforo e James fechou os olhos enquanto sentia os dedos de Lily subirem para os seus cabelos e fazendo o seu corpo arrepiar. Era um carinho tão simples, mas tão poderoso, trazendo aquela sensação boa em seu peito.

Respirou fundo, querendo ainda mais parar aquele carro de vez e beijá-la até perder o fôlego.

James esticou o braço e aumentou um pouco o volume do rádio, antes de virar o rosto na direção da janela e de Lily.

- Quando chegarmos na sua casa, se não conseguirmos um momento sozinhos… - Ele deixou o resto da frase no ar.

- Eu sei. - Lily concordou, seus dedos desceram para a lateral de seu rosto. - Estamos aqui na mesma situação.

Ele riu um pouco, sabendo que ela dizia sobre sentir e ver o corpo dele reagir com aqueles toques. Bom, saber que ela estava com tanta vontade quanto ele não ajudava naquele minuto.

O semáforo abriu e ele teve que continuar.

- Se comporte agora, senão eu vou bater esse carro. - Ele levantou a mão para trás e acariciou os cabelos dela por um instante. - Você precisa acordar o seu irmão também.

Ouviu um bufo de descontentamento dela antes de sua mão deslizar para longe dele e sumir. Aquilo era tão ruim para ele quanto para ela, podia garantir.

Após alguns resmungos, Sirius acordou quando James já abria o portão da casa dos irmãos. O carro de seu pai já estava ali, então Geneviève e os Potter haviam começado aquele jantar.

Parou em frente da porta. Sirius foi o primeiro a sair, apesar de ainda cambalear de sono. James pegou a mala de Lily do porta-malas e foi em direção a porta de entrada, com ela não muito longe. Sirius já tinha entrado e até poderia aproveitar aquela pequena brecha para arrancar um beijo dela, mas era muito arriscado.

Quando entrou na casa, foi invadido por cheiro de flores. Se não tivesse visto o carro do pai, aquele seria o momento de ter certeza que eles já estavam ali. Euphemia havia dito que levaria flores para Geneviève e quando sua mãe dizia isso, ela não queria dizer um buquê de rosas simples.

Pela entrada, já encontrou dois vasos com bonitas e coloridas flores que normalmente não estavam ali. Deixou a mala de Lily no canto e foi seguindo mais alguns vasos de flores que enfeitaram o corredor em direção a cozinha.

Lily estava parada ali observando a decoração, ao lado de Sirius.

- Que lindo. - Ela comentou dando a volta pelo lugar.

- Euphemia tem bom gosto para essas coisas. - Sirius comentou seguindo a conversa que vinha dos jardins.

As portas de vidro da cozinha estavam abertas e os três adultos estavam sentados em poltronas de jardins ao lado da piscina. Quando viram os três filhos saírem ao jardim, logo pararam de rir e se levantaram.

- Ah, vocês chegaram na hora. - Geneviève se levantou e se apressou até eles.

Ou no caso, até Lily.

A mãe pegou a filha nos braços e a apertou firmemente.

- Mãe, você está me sufocando. - Ouviu Lily reclamar baixinho.

- Eu sou sua mãe, tenho esse direito.

Euphemia pegou o rosto do filho e o beijou na bochecha.

- Tudo bem na viagem?

- Tudo bem. - James confirmou.

A mãe desviou e deu um beijo estalado em Sirius.

- Vocês dois. - Disse Euphemia. - São malucos de irem até Leeds e voltarem no mesmo dia.

- Não poderíamos ficar por lá, senão ficaríamos. - Sirius respondeu enquanto cumprimentava Fleamont.

Recebeu uma taça de vinho do pai e agradeceu. Geneviève ainda falava com Lily, parecendo radiante ao ver o quanto a filha progrediu e parecia com menos dor ao andar.

- Que tal passarmos à mesa? As crianças podem comer alguns queijos e torradas enquanto esperamos. - Euphemia sugeriu quando finalmente pôde cumprimentar Lily.

Dessa vez não estariam na sala de jantar, mas no terraço dos jardins. Sirius sentou em uma ponta da mesa e Geneviève na outra. Seus pais sentaram-se lado a lado de costas para a piscina. James sentou em sua cadeira com um sorriso, lembrando daquela cena levemente parecida com uma de semanas atrás.

- Como foi na estrada? - Fleamont perguntou.

- Um pouco de trânsito saindo de Leeds, mas nada horrível. - Sirius respondeu. Já que o amigo ocupava seu pai e Euphemia parecia entretida em trazer os queijos e torradas até a mesa, James procurou por Lily.

Olhou para trás e viu as duas ruivas na cozinha trazendo algumas taças para a mesa. Se levantou para ajudá-las.

- Obrigada, querido. - Geneviève dizia ao passar as taças para ele. - Mas você deve estar quebrado, então sente-se.

- O que eu menos quero, é ficar sentado. - Ele respondeu. - Minha bunda está quadrada.

Lily passou por trás dele e olhou descaradamente para o seu traseiro.

- Não me parece nem um pouco quadrada desse ponto de vista, Descabelado. - Ela comentou e saiu para os jardins.

Geneviève ainda estava em sua frente e começou a rir.

- Se ela diz…

As duas saíram da cozinha, deixando-o perplexo.

Para ser honesto, isso é algo que a velha Lily faria sem problema, até na frente de Sirius. Mas com tudo aquilo ocorrendo e Geneviève sabendo, não sabia como reagir.

Achou melhor deixar para lá e saiu atrás delas.

Todos começaram a se acomodar na mesa, incluindo Lily ao seu lado.

- Notícias de Marlene? - Ela perguntou para o irmão.

Sirius não sorriu, mas seus olhos estampavam o quanto aquele tema de conversa lhe agradava.

- Está bem, mais livre agora. Nos falamos bastante nesses últimos dias, todos os dias, na verdade.

- Eu acho tão bonito que você entrou para a família. - Euphemia comentou pegando na mão de Sirius sobre a mesa. - Quem sabe não entre em definitivo em alguns anos?

- Um pouco cedo para esse assunto, não? - Fleamont riu.

- Não para sonhar. - Euphemia respondeu. - Sirius é como o meu filho, eu só desejo que ele entre logo para a família de vez.

- Assim como James. - Geneviève comentou. - Ele também é como meu filho e eu vou adorar tê-lo na família.

As duas mães se entreolharam. Se James pudesse apostar em algo, diria que uma se perguntava se a outra sabia o que andava acontecendo. Lily murmurou algo ao seu lado, parecendo descrente com a indiscrição das duas mães.

- Nesse caso, vai ser mais Marlene do que James entrando na família, mas acho que conta também. - Disse Sirius servindo-se de queijo e perdendo os olhares trocados na mesa.

- Neste caso, sim.

- Só há este caso, mãe. Eu não estou planejando me casar com James. - O filho riu um pouco, fazendo Geneviève gargalhar. Uma gargalhada de nervoso.

James e Lily começaram a rir, um pouco sem graça, tendo Fleamont e Euphemia os seguindo. A matriarca da casa ria mais alto, causando estranheza. Ela olhou para James e deu um tapa em seu ombro.

- Não, James não vai casar com você. - Ela disse olhando para o filho do outro lado da mesa, que não parecia entender o ataque histérico da mãe.

- De qualquer maneira…- Sirius continuou, querendo impedir que a mãe levasse aquela conversa boba tão a sério. - …como disse Fleamont: não estamos ainda na hora de falar disso.

- Não, não está. - Geneviève recuperou o fôlego e se levantou. - Vou trazer o jantar.

- Eu te ajudo. - Fleamont se propôs, fazendo um sinal para o filho voltar a sentar quando James fez menção de se levantar.

Os dois foram até a cozinha. Sirius engatou em uma conversa com Euphemia, fazendo-a rir - coisa que ele era bom, inclusive -, então James olhou para o lado, para uma Lily inquieta. Ela tinha as mãos no colo, esfregando-as.

- O que foi? - Ele perguntou.

- Nada.

- Sua mãe não vai falar nada. - Disse, imaginando a fonte de nervosismo dela.

- Eu sei que não. - Se virou para ele e sorriu, deixando o resto da frase sair entredentes. - O fato de que Sirius nem considera que algo poderia acontecer com você e outra pessoa da família, é intrigante.

Intrigante poderia ser uma frase para se usar, mas James tinha outra: confiança. Ele sabia que era assim que o amigo via as coisas depois do que houve quatro anos atrás: confiança de que nenhum dos seus amigos tentaria algo com a irmã. E ele confiava tanto neles, que ficava completamente cego.

Iria respondê-la, mas se afastou quando o pai e Geneviève voltaram com os pratos do jantar e sentaram-se.

Tendo todos à mesa de novo, James, disfarçadamente, pegou na mão dela embaixo da toalha. Ela ficou surpresa no primeiro segundo, mas segurou sua mão com força. Queria que ela tirasse aquele problema da cabeça.

Não era um problema que se resolveria sozinho, mas do que adiantaria pensar naquilo? Eles sabiam das condições quando decidiram fazer isso, eles se deram essas condições.

Além do mais: eles ficaram dias falando no telefone, direta e indiretamente, o quanto esperaram por essa bendita quinta-feira e agora Sirius, com seus problemas, iria arruinar isso? Não. Era um não bem grande para James Potter.

Ele tinha Lily de volta depois de uma semana um pouco bizarra. E ele iria aproveitar.

Soltando a mão dela, James pousou a sua na perna da ruiva. O contato pele a pele era quase difícil de acreditar depois de ficar esperando tanto por isso. A expressão nada inocente que viu em Lily demonstrava que ela, aparentemente, estava se esquecendo do problema anterior.

Tendo o ok dela, a mão começou a deslizar pela sua perna. Foi até seu joelho e o segurou, roçando seus dedos na parte de trás. Lily sentou ereta na cadeira e colocou as mãos em cima da mesa, sorrindo para Euphemia, que pensava que a ruiva queria entrar na conversa entre as duas mães.

- Concorda, Lily? - Euphemia perguntou.

- Em partes. - Ela respondeu. James mordeu o lábio para não rir, sabendo que ela não fazia ideia do que as duas mulheres conversavam.

Começou a subir a mão, que chegou até a barra de seu vestido, e foi um pouco mais, até o topo da sua coxa.

Lily segurava o garfo e faca, mesmo o jantar não ter sido servido ainda. Os olhos verdes estavam agitados, olhando para tudo e todos. Menos ele.

- Tudo bem, Sardenta? - Perguntou.

- Tudo ótimo e você? - Ela perguntou de volta, se virando para ele e aproveitando para colocar a própria mão na perna de James.

Ah, não. Aquela era a vez dele e que Lily não ousasse tirar aquela vitória.

- Cansado, mas bem. - Com a outra mão, ele tirou a dela de si.

Ela levantou uma sobrancelha para ele, intrigada. Lily tentou colocar a mão em sua perna novamente, mas ele a afastou.

- Cada um com a sua vez e você já teve a sua.

- Isso não é justo. - A ruiva reclamou. Ela olhou em volta e percebeu que ninguém prestava atenção neles, antes de continuar. - Prometo ser casta dessa vez.

James riu ao lembrar o que ela tinha feito na primeira vez. Ficou tão chocado em como ela o provocou embaixo da mesa de jantar, que nem conseguia se mexer…além de estar gostando.

- Eu vejo como muito justo. - Ele aproximou o rosto, como se contasse um segredo. Com a mão livre, ele apontou para a mesa, dando a entender que falavam de algo completamente diferente para os outros presentes. - Naquela vez, eu te deixei sozinha, fazendo o que quisesse comigo.

- James. - Ela sussurrou, pedindo.

- E se eu não me engano, você me disse na semana passada que eu podia fazer o que quisesse com você embaixo de uma mesa. - Ela se afastou e suspirou. - Se isso mudou, você tem que falar.

- Não mudou. - Ela respondeu. - Eu gosto do que você faz embaixo das mesas.

Eles riram juntos, cúmplices.

- Para a nossa infelicidade, não será nada daquilo. - Ele respondeu. - Para ser bem sincero, eu não quero te provocar.

- Não?!

A mão dele desceu por sua coxa, acariciando cada pedaço de pele que tinha contato, até chegar ao seu joelho novamente.

- Eu quero isso: te tocar. Depois de só ouvir a sua voz pelo telefone essa semana, eu preciso estar em contato com algo seu. - Viu quando Lily entreabriu a boca, sendo pega desprevenida. - Apenas isso, um contato.

- Ok! - Ela disse em um fio de voz. - Eu gosto disso.

Um pigarro baixo chamou a atenção e eles se viraram para Geneviève. Ela olhava para eles, depois para o braço de James. De onde estava, não poderia dizer o que ele fazia, mas ela claramente sabia que a mão de James não estava apoiada na própria perna, ou na cadeira.

Também não havia desaprovação em seu olhar, apenas um alerta.

James não sabia se mantinha a mão ou se a tirava, sem entender o que Geneviève estava querendo dizer.

Uma explosão de risadas do outro lado da mesa fez as três cabeças se virarem. Os pais de James e Sirius riam alto sobre algo que nenhum dos três restantes tinham acompanhado.

- De qualquer forma, acho que antes de comer, devemos fazer um brinde. - Fleamont anunciou. - Para a aceitação de todas as crianças na universidade, pela boa recuperação de Lily, por Sirius entrar na família em alguns anos e por nossa saúde.

- Eu tenho um vinho perfeito para isso, Fleamont. - Geneviève comentou. - Se não me engano, é de 2004 e está guardado por tanto tempo, esperando uma boa ocasião. Orion e eu…- Geneviève parou de falar subitamente. Os Potter sorriram fracamente e desviaram o olhar ao ver que a matriarca era atingida por alguma lembrança dolorosa, não querendo deixá-la sem graça. Sirius e Lily observavam a mãe, esperando. Geneviève encontrou o olhar dos dois filhos e finalmente sorriu, meneando a cabeça. - Tínhamos guardado esse vinho para quando as crianças fossem aceitas na universidade. Nós nunca comemoramos oficialmente e eu acho que é uma boa oportunidade.

Ela se virou para os filhos, querendo saber o que achavam.

- Uma boa ideia. - Sirius concordou sorrindo para a mãe, encorajando-a. - Que tal tomarmos um gole dele agora então?

- Ótima ideia. - Disse Lily.

- Ficaríamos honrados de comemorar com vocês. - Euphemia sorriu.

Ficaram em silêncio por um momento. James olhou para Geneviève, que parecia perdida em pensamentos enquanto brincava com o garfo ao lado do prato. Seus olhos estavam brilhantes e via o quanto ela estava emocionada e lutando contra as lágrimas.

De repente, ela levantou a cabeça e se virou para a filha.

- Lily, você poderia buscar esse vinho? Sabe de qual estou falando?

- Eu vou. - Sirius estava prestes a se levantar, mas a mãe negou.

- Você fica. Fez a sua compressa de gelo hoje? Imagino que não.

- Eu vou fazer mais tarde. - Sirius respondeu pronto para continuar seu caminho para pegar o vinho, mas Geneviève o segurou.

- Lily vai buscar, querido. Obrigada por se oferecer.

Sem demoras, Lily levantou e entrou na casa. Todos eles acompanharam sua caminhada.

- Ela está bem melhor. - Euphemia disse. - Dias atrás, ela estava claramente com mais dor e…!

Euphemia parou de falar ao ver a expressão de James do outro lado da mesa. Sirius e Geneviève não sabiam que Lily esteve na casa dos Potter no fim de semana retrasado.

- Sim, bem melhor. - Geneviève concordou sem pensar muito sobre.

James cruzou as mãos em cima da mesa, enviando um olhar de precaução para a mãe. Ela pareceu ter entendido o recado, pois levou a mão discretamente até a boca e fez um sinal de que a fechava com zíper.

- Vocês viram Lily recentemente? - Sirius perguntou.

Merda. Quando ele pensava que tinha se safado…

- Ahm. Um dia, quando fomos até Hogwarts. - Euphemia disse rapidamente. - Queríamos, er, entregar algo para James, mas…acabamos vendo Lily…

- No estacionamento. - James completou. - Ela estava trocando de sala e acabou vendo minha mãe.

- Sim, exato. E comparando com hoje, ela teve um imenso progresso. Depois deve nos dar o nome dessa clínica, Geneviève, pois se um dia precisarmos, eu não hesitarei.

Sirius continuou a comer seu pedaço de queijo parecendo aceitar a história.

Fleamont tinha a maior cara de perdido. Ele se virou para a esposa e sussurrou algo, recebendo um cutucão de Euphemia e um singelo "shh" dela. Coitado do pai, não deveria estar entendendo nada. Já não sabia que era Lily quem passou a noite com ele no fim de semana retrasado e agora via a esposa e o filho inventando um conto estranho sobre terem visto a garota no estacionamento de Hogwarts.

Lily se encontrar com seus pais não era algo absurdo, mas não havia razão para ter ido até a casa deles nos últimos tempos. Ela não estava dirigindo e não teve emergência, então isso poderia soar um alarme que eles queriam evitar .

- Ah, droga. - Geneviève bateu com a mão na testa. - Eu esqueci. O vinho está no armário de cima da garagem.

- Por isso eu disse que iria, eu sei onde está.

Sirius se levantou novamente e, mais uma vez, Geneviève o impediu.

- Você fica bem aqui, Sirius. Eu vou pegar uma compressa de gelo para você neste instante.

- Agora?! No começo do jantar?!

- Exato. Seu calcanhar está imenso, provavelmente por ter ficado muitas horas sentado no carro e sem colocar o pé para cima em momento algum.

- Não nos incomoda se fizer, Sirius. - Fleamont disse.

Geneviève se levantou sob protestos do filho.

- James vai ajudar Lily. Você pode ir, querido?

Ah. Não estava esperando por essa.

- Claro. - Se levantou no mesmo instante.

- Tem certeza? - Euphemia perguntou.

Porra, mãe? Que isso agora?

- Absolutamente. É o único alto o suficiente e sem dores que pode alcançar o armário.

- Eu poderia ir. - Fleamont comentou. - Estou mais em forma do que os dois.

- Não está não. - Euphemia revirou os olhos.

James e Geneviève se afastaram da mesa e foram até a casa, andando lado a lado. Quando entraram na cozinha, Geneviève foi para a geladeira enquanto James seguia para a porta de trás que daria na garagem coberta.

Ela enviou um olhar de lado bem significativo para ele e sorriu, antes de abrir a geladeira e cantarolar como se nada estivesse acontecendo. James riu e meneou a cabeça. Geneviève sabia bem o que estava fazendo e ele seria muito grato.

L~J

Tinha certeza que o vinho estava na despensa, mas depois de olhar tudo, não encontrou. Seu pai guardava alguns vinhos na garagem também, então se dirigiu até lá.

Acendeu a luz da garagem, onde havia caixas e mais caixas por aqui e ali. Deu a volta no carro da mãe e foi até uma prateleira de ferro e começou a procurar pela data.

- 2005, 2008…

Ouviu a porta da garagem fechar e deu um pulo, olhando para trás.

Ao invés da cena de um filme de terror vir à mente, outra completamente diferente se formou quando viu James parado ali.

- Parece que o vinho está um pouco mais alto de onde está procurando. - Ele disse sem sair do lugar.

- Verdade? E como você saberia?

- Informações internas.

Ele começou a se afastar da porta devagar.

Quando pensava em rever James, ela imaginava que pularia em seu pescoço e não o largaria mais, querendo testar o quanto a sua perna aguentaria ficar enroscada na cintura dele.

Foi o que queria fazer quando o viu no saguão da clínica, mas agora? Sentia algo diferente.

Olhar para ele era tão prazeroso, porque ele era benditamente lindo e charmoso. Aquela camiseta escura se destacava tão bem nele, os jeans eram perfeitos para o seu corpo…

Os olhos dele eram brilhantes e sentia que ele a despia só ao olhá-la.

- Então onde está? - Ela perguntou.

Ele deu a volta no carro enquanto tomava o seu tempo, Lily apenas o esperava com o coração na mão.

James parou na sua frente e tudo parecia magnético, fazendo seu corpo se arrepiar. Piorou quando ele segurou o rosto dela com tanta delicadeza, que Lily estava prestes a se desmanchar.

- Uma semana que eu fiquei apenas querendo fazer isso. - Ele disse. Se aproximou um pouco mais. - Eu estava com saudade.

Lily o segurou mais perto de si, querendo James colado nela.

- Eu também. - Disse ela.

O sorriso dele era tão bonito que lhe faltava palavras.

Ele a beijou. Tão docemente, com tanta tranquilidade que, por um momento, você poderia pensar que não havia saudade alguma entre eles, que aquelas conversas por telefone não tinham existido. Mas pensando melhor, aquele era o único beijo cheio de saudade que ela poderia dizer existir. Porque tinha vontade, apesar de doce; tinha a calma para sentir cada pedaço dele, da boca dele; tinha uma sensação de que seu coração pularia para fora de seu peito.

E havia algo a mais. O carinho que trocavam mostrava algo a mais, algo que não havia sido compartilhado antes.

Lily arriscaria dizer que era um sentimento novo. Algo que estava ali antes, mas que cresceu muito nos últimos dias. Algo que foi nutrido pela saudade que sentiu dele.

Quando se separaram, ela ainda o segurava forte.

- Eu gostei disso. - Sussurrou para ele.

- Eu gostei muito disso. - James respondeu.

- Eu quero mais. - Pediu, mas dessa vez era diferente. Pedia mais daquele sentimento que veio com aquele beijo, mais daquela sensação boa de que estava sendo beijada com algo a mais do que apenas desejo ou qualquer coisa sexual.

- Você já sabe a minha resposta para isso.

Ele voltou a beijá-la e, mesmo que ambos tivessem deixado a calma um pouco de lado, aquilo ainda estava ali.

Era louco e novo. Seu corpo todo reagiu diferente, até seu coração parecia bater em um compasso anormal para um beijo.

Isso era tão bom.

- Eles estão nos esperando. - James diminuiu o beijo, apesar de tê-la firme nos braços, sem querer soltá-la.

- Eu sei. - Soltou um muxoxo. - Apesar de não ter matado nem um pouco a minha saudade.

- Eu pretendo cuidar disso logo.

- Pretende?

Assentindo, ele não disse como, apenas se afastou dela.

- Vamos pegar o vinho e ir, antes que alguém venha atrás de nós.

- Como pretende? - Ela perguntou ignorando o que ele disse.

James ficou na ponta dos pés e olhou para a prateleira. Se aproximou e se esticou todo até alcançar uma garrafa bonita.

- É essa.

- Obrigada, mas você ainda não respondeu.

- Vamos voltar e, depois, resolver nossa situação.

Queria resolver agora, naquele mesmo minuto. Arrastar James até o seu quarto e só sair de lá no ano seguinte. Nem precisava ser nada demais, apenas beijá-lo sem parar e sentir mais daquilo que estava sentindo.

Mas, claro, aquilo não seria possível. Voltaram para a mesa com o tal vinho. Ao se sentar, Lily sentiu o olhar da mãe em si.

- Tudo bem, filha? - Ela perguntou enquanto os outros ocupantes da mesa conversavam.

- Sim, tudo bem.

- Imaginei. O seu sorriso está bem mais alegre, seus olhos estão bem mais cintilantes.

A filha pegou seu garfo despretensiosamente.

- Verdade? Quem diria...

- Pois é, quem diria?!. - A mãe concordou enquanto sorria.

Elas se entreolharam e riram.

- Obrigada. - Lily agradeceu.

- De nada, querida.

James abriu o vinho e começou a servir a todos, colocando apenas um gole na taça dela para que Lily não se sentisse de fora.

Estava na hora de continuar a comemorar o seu retorno para ele.


Maybe I'm too busy being yours

Talvez eu esteja muito ocupado sendo seu

To fall for somebody new

Para me apaixonar por outra pessoa

Now, I've thought it through

Agora eu pensei bem sobre isso

Crawling back to you.

Estou me arrastando de volta para você.

Assistia sua mãe se despedindo de Euphemia e Fleamont, levando-os até o carro. Sirius também os acompanhava enquanto conversava com o pai de James.

Ela acenou para os dois Potter da entrada da casa com um último adeus.

Sentiu a presença dele antes de vê-lo pelo canto dos olhos. James parou ao seu lado e colocou as mãos no bolso dos jeans.

Os dois ficaram em silêncio enquanto assistiam a cena se desenrolando no pátio da casa. Os outros pareciam alheios ao casal, mas ainda que estivessem prestando atenção, nada seria estranho. James e Lily costumavam conversar bastante mesmo antes de toda aquela loucura, então não seria agora que perderiam aquele costume.

- Tenho uma proposta. - Ele disse.

- Estou ouvindo.

Ele se aproximou dela, seus braços tocando e lançando aquelas faíscas, como se estivessem em brasas.

- Vamos sair da cidade, dirigir para longe daqui, para longe de todo mundo. - James sussurrou.

Lily fechous o solhos com todo o deleite ao ouvir aquilo.

- Quando?

- Amanhã! Eu te pego amanhã à noite e passamos o fim de semana juntos. - James levantou a mão para os pais, pedindo um momento.

Aquilo soava como o paraíso, exatamente tudo o que ela queria e precisava: dias com ele e apenas ele. Longe de todos, sem hora para acabar, sem correr.

James Potter inteiro só para ela.

- Para onde?

Sorrindo, ele se virou para ela.

- Isso é importante?

Sorrindo de volta, Lily levantou uma sobrancelha e virou o rosto para frente novamente.

- Na verdade, não.

- Você acha que Alice pode cobrir para você?

- Com certeza. Eu digo que vou passar o fim de semana com ela. A pergunta é: quem vai cobrir para você? - Ela riu.

- Engraçadinha. - James revirou os olhos. Ele ficou quieto por alguns segundos, antes de finalmente responder. - Eu vou encontrar uma desculpa.

Lily riu mais. Claro que ele teria que encontrar uma desculpa para não passar um segundo sequer com Sirius e Remus no fim de semana.

Falando nele, Sirius chamou James para que tirasse o carro, que estava no caminho para a saída. Ouviu o murmúrio de descontentamento enquanto ele pegava a chave do carro.

- Até amanhã. - Ele disse ainda ao seu lado.

- Até amanhã. - Ela respondeu normalmente, já que Sirius os olhava, esperando.

James começou a ir em direção ao amigo, mas se virou para ela.

- Pegue roupas confortáveis, de preferência que sejam quentes. Nós vamos para Godric's Hollow!

- Sem biquíni então?

James já havia se virado, mas voltou para ela novamente.

- Apesar de um mergulho estar planejado, você não vai precisar dele.

Sem prolongar mais, ele se virou e foi até o seu carro. Lily mordeu seu lábio enquanto o assistia entrar do lado do motorista e olhar para ela quando já estava dentro. Ligou o carro e antes de acelerar, piscou para ela.

Céus, uma sexta-feira à noite nunca parecia tão longe agora.

Do you want me crawling back to you?

Você quer que eu me arraste de volta para você?


N/A:

Se vocês acham que esse capítulo foi meloso, mal sabem o que vem no próximo hihihi

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