J~L
Found cigarettes in your Fendi coat
Encontrei cigarros no seu casaco Fendi
Even though you don't even smoke
Mesmo que você nem fume
Always changing your access codes
Sempre mudando as suas senhas
Yeah I can tell you no one knew
É, eu posso dizer que ninguém sabia
(The Chainsmokers feat 5 Seconds Of Summer - Who do you love)
Teria que ir para Oxford.
Foi com esse pensamento que Lily acordou na segunda-feira.
Iria para Oxford e falaria com Marlene. As coisas precisavam se acertar, independentemente de querer falar com Sirius sobre ela e James, queria fazer isso pelo irmão. Ele não tinha enviado a mensagem para a namorada (ex namorada?) ontem, sem coragem, então deve ter passado uma noite horrível.
Ela saiu do quarto e viu que o quarto dele já estava vazio, então não demorou para descer.
- Que cachorro grande! - Sirius comentou assim que ela entrou na cozinha. Ele estava sentado no seu lugar habitual, mas o cachorro de pelúcia que ganhou de James estava no balcão ao seu lado, formando essa figura enorme no meio do cômodo.
Ontem, ao subir, tinha esquecido de pegar sua mochila e o cachorro da viagem, deixando o pobre bicho à mercê do irmão.
- Pois é.
- Ele não te lembra o Snuffles, seu cachorro fedido perdido na Cornualha?! - Ele perguntou observando o cachorro ao seu lado. - Até os olhos...deve ser da mesma fábrica. Onde comprou?
- Ele não era fedido! E eu ganhei.
Já tinha entendido a estratégia dele: falar, falar e falar sobre coisas nada a ver para que ela não entrasse no assunto que ele não queria. Não iria forçá-lo, mas só reforçava o quanto nada estava resolvido com Marlene.
A porta da frente abriu e ela até estava pronta para sorrir, se não fosse o fato de ter sentido aquele gesto sendo feito de um jeito um pouco diferente, mais bruto.
- Ah, merda. - Ela disse.
- Ah, grande merda. - Sirius a acompanhou.
Os passos até a cozinha também estavam mais firmes e Lily abriu a geladeira e se escondeu atrás da porta como pôde, enfiando a cabeça lá dentro.
- Você vai começar a me explicar agora que porra você fez com a minha prima.
A voz de James estava fria e baixa. Não sabia quanto tempo poderia ficar atrás da porta da geladeira, mas queria que fosse até o momento que os dois parassem de brigar.
Anteriormente, ela continuaria sua vida, cortando suas frutas, tomando seu suco tranquilamente. Iria dar sua opinião aqui e ali, rolaria os olhos algumas vezes e, claro, defenderia o irmão. Mas agora estava tão próxima de tudo, que sentiu-se sem saída.
- Foi o que eu expliquei ontem. - Sirius respondeu.
- Você não explicou nada ontem, apenas me disse que tinha terminado tudo. - James estava exasperado. - Então eu liguei para a minha prima e ela atendeu com uma voz horrível...disse que você estava com ciúmes de algo ridículo e terminou com ela.
Marlene não contou para James o que Sirius disse logo antes de terminar? Coitada, devia estar com a cabeça tão perdida sobre esse assunto...
- Foi isso que ela te disse? - Sirius perguntou, parecendo surpreso também pela parte importante estar faltando.
- Sim. Vai me dizer que não foi isso o que aconteceu?
- Foi isso o que aconteceu. Parcialmente.
- Teve mais? - A voz de James falhou. - O que você fez a mais?
Sirius suspirou bem alto e Lily ouviu a xícara de café bater contra o balcão.
- Disse "eu te amo" e fui embora. - O irmão estava evitando a conversa com qualquer um hoje e agora parecia irritado em voltar no assunto. - Eu sei, foi horrível. Pretendo consertar as coisas.
Um silêncio sepulcral caiu na cozinha. A ruiva começava a ficar com frio enfiada ali, esperando aquilo acabar.
- Inferno. - Disse James baixinho.
- Pois é. Então, só dizendo: não terminei com a sua prima por conta do ciúmes.
Não, não tinha sido. O medo de abandono de Sirius por conta do pedaço de estrume da sua mãe biológica entrou em jogo e deixou o irmão em pânico. Não o ciúmes de algo que até agora Lily também não sabia e não era importante também.
Se Walburga Black não tivesse falecido, provavelmente sucumbiria às mãos de Lily. E Geneviève. Apenas em pensar nela, de lembrar da única foto que viu daquela mulher, seu sangue fervia de ódio.
- Você vai sair de dentro da geladeira em algum momento? - A voz de James chegou até ela.
Lily fechou a geladeira lentamente e encontrou os olhos curiosos de James nela. Sirius apenas a observava, acostumado com as loucuras da irmã.
- Olá, Ja...Descabelado. - O cumprimentou.
- O que estava fazendo?
- Nada, procurando por isso. - Pegou a primeira coisa que alcançou: ketchup. - Ahn, para...o café da manhã.
Colocou o ketchup em cima do balcão, mas foi preparar suas frutas, tentando ignorar os olhares em si. Enquanto preparava tudo, os dois amigos não conversaram mais. Sirius continuou a tomar o seu café e James tinha o olhar fixo e perdido nos jardins.
Lily sentou de frente para o irmão, e ao lado de James ainda em pé, e começou a comer. Em momento algum ele tentou roubar uma fruta ou brincar com ela, apenas ficou ali, pensando.
- Vou me arrumar. - Sirius anunciou e saiu da cozinha.
Que bela manhã de segunda-feira, pensou ela.
- Ele não quis machucá-la. - Disse ela com os olhos virados para suas frutas, parecendo falar com o prato ao invés de James. - Só é complicado. Sirius ama Marlene e faria de tudo para não machucá-la.
Pelo canto dos olhos, percebeu que James se virou para ela.
- Eu sei.
- Não brigue com ele por isso, por favor. Sirius apenas precisa de tempo para entender que ama alguém e que não necessariamente essa pessoa vai abandoná-lo ou usá-lo como aquela megera fez.
- Eu sei, Lily.
- E ele só quer ser feliz com ela. Ele está feliz com ela. Faz planos para quando mudar para Oxford e tudo.
James segurou o seu rosto e virou para ele. Apesar da conversa, ele tinha um pequeno sorriso.
- Lily, se acalma. - James olhou bem fundo em seus olhos, seu sorriso aumentando um pouquinho mais. - Eu sei. Não vou brigar com o seu irmão por isso, não agora que eu entendi qual é o problema. Marlene não me contou essa parte ontem, então tudo só parecia como Sirius agindo como um babaca.
Seus ombros relaxaram e ela sentiu um peso sair dali.
- Obrigada. A última coisa que ele precisa agora, é brigar. Sirius quer ajeitar as coisas, então eu acho que tudo vai dar certo...só espero que não seja tarde demais para Marlene.
- Se ele não enrolar, eu acho que tudo pode ser consertado. - James, finalmente, roubou um pedaço de maçã da sua tigela. - Só não acho que Marlene tenha entendido muito o que aconteceu.
- Eu pensei em ir falar com ela.
Ele se postou em pé ao seu lado.
- Ir até Oxford para falar com ela?!
- Sim. Explicar o que aconteceu, acalmá-la.
James entortou a boca.
- Não acho que seja uma boa ideia. Sirius não iria querer outra pessoa explicando os porquês.
Sabia que ele estava certo. Ela mesmo tinha pensado nisso, mas estava preocupada com Sirius, odiando saber que ele estava triste. Queria poder fazer algo, ajudar de alguma forma.
- Acho que me intrometer pode causar o efeito contrário. - Estava um pouco frustrada com aquela situação, mas não era seu problema para se meter. - Melhor eu tentar ajudar Sirius daqui, talvez ajudar a encontrar o caminho certo para seguir.
- Pode ser melhor. - James concordou.
Se Sirius apenas pudesse falar com Marlene, pedir um tempo para se ajustar, explicar um pouco, nem que seja um pouquinho. Lily tinha certeza que Marlene poderia entender. Ela era uma garota com a cabeça no lugar, madura.
Um beijo em seu pescoço a obrigou a fechar os olhos. Teve um outro mais acima, depois outro...até chegar na sua boca.
- Bom dia, finalmente. - Ele disse ao se afastar.
- Bom dia. - Respondeu quase derretendo no banco.
- Foi tão estranho dormir com tanto espaço na cama...- Ele sussurrou ao mesmo tempo que seus rostos se acariciavam.
Ela quase riu, porque sentiu a mesma coisa. Foram apenas duas noites dormindo juntos, mas foi tão estranho quando deitou ontem e tinha todo aquele espaço vazio dos lados, sem braços ao redor dela.
- Temos que comprar camas menores. - Ela brincou.
- Ou fugir toda a noite para a cama um do outro.
- Pode ser uma solução também.
Se conseguissem falar com Sirius, isso tudo seria resolvido facilmente. Não conseguiriam dormir juntos todas as noites, mas uma vez ou outra na semana, nos fins de semana e feriados...
- Então estamos adiando a conversa, não é?! - Ele perguntou, parecendo ler sua mente e relembrando da mensagem que ela o enviou após saber do problema de Sirius.
- Acho melhor. Vamos ver até esse fim de semana se algo muda do lado dele.
- Tudo bem, eu acho que é uma boa ideia.
Se fizeram tudo aquilo até hoje, poderiam esperar mais alguns dias.
Apenas mais alguns dias e eles resolveriam aquilo.
L~J
Alice acenava como uma maluca, chamando a atenção de Lily. E de todo mundo do estacionamento.
- Vocês ficaram o fim de semana inteiro juntas e ela ainda quer te ver hoje? - James brincou atrás dela. - Ela só pode estar louca.
- Se eu fosse Alice, com certeza estaria correndo. - Sirius concordou.
Lily revirou os olhos mesmo nenhum deles podendo vê-la.
- Eles falam isso, porque não podem viver sem o outro. - Remus comentou ao seu lado. - Eu até tento ter uma folga deles, mas parece que eles pensam que nascemos grudados.
- E você sabe que eu sempre sinto muito por você, Rem. Boa sorte.- Ela se desenrolou do braço dele e depois se virou para os outros dois. - Vejo os dois bobocas depois.
Sirius deu de ombros e James piscou para ela, antes de Lily ir até a amiga.
- Me conta tudo, quero saber cada detalhe. Eu não quis te ligar ontem, porque não sabia a que horas você voltaria, então preciso de tudo agora, neste instante.
Alice agarrou seu braço e começou a tagarelar, a puxando para longe.
- Ainda me pergunto o que estou fazendo de volta à Londres, porque eu poderia muito bem não voltar mais.
A amiga fez um barulho engraçado de empolgação.
- O que vocês fizeram? - Alice revirou os olhos antes de continuar. - Além de transarem a cada dez minutos.
- Nós não transamos a cada dez minutos, sua tonta. Confesso que eu pensava que faríamos mais vezes, mas...
Começou a relembrar o fim de semana. Foi algo diferente do que ela pensava que seria e isso estava longe de ser ruim. Eles tinham tanto fogo entre si, que em sua cabeça só podia imaginá-los não saindo da cama nunca.
Ela até tinha levado um estoque de preservativos apenas no caso de precisarem.
Mas então tudo pegou um caminho tão inesperado. E, honestamente, tudo graças a James.
Ele havia sido a alma desse fim de semana, na opinião dela, trazendo uma outra atmosfera para eles. Se havia sido de propósito ou simplesmente aconteceu, não sabia. Se ele estava pensando que o fim de semana seria como ela também pensava e acabou não sendo, não sabia. Independente da resposta, o que interessava era que tinha sido ótimo. Pelo menos era o que Lily achava.
Esperava que ele também.
- Óbvio que para ele também. - Alice a cortou após Lily compartilhar aqueles pensamentos. - Eu tenho certeza que isso já estava na agenda dele. Você disse que os Potter já sabiam o que andava rolando, então seria fácil ele te levar para a casa aqui em Londres mesmo e vocês ficarem trancados no espaço dele durante o fim de semana inteiro. Mas não. James te levou em uma mini viagem, dirigiu por quase duas horas tarde da noite, te levou em um festival, foi todo fofo.
- Eu ainda não contei uma parte principal de tudo isso.
Elas pararam afastadas da porta da sala. Alguns alunos passavam por elas, mas não pareciam interessados na conversa, mas ainda sim, falavam o mais baixo possível.
- Tem mais? - Alice perguntou um pouco chocada.
- Sim. - Lily limpou a garganta e conferiu ao redor, vendo se estavam mesmo afastadas o suficiente. - Ele quis conversar. Disse que quer falar com Sirius!
A boca de Alice escancarou.
- Lily Evans. - A ruiva foi segurada pelos ombros, sendo encarada pela amiga. - Olhe bem dentro dos meus olhos e me escute com atenção. Está pronta para o que eu vou falar em voz alta? - Lily assentiu, morrendo de curiosidade. - Então aí vai: James Potter, o melhor amigo de Sirius Black, o seu irmão, está apaixonado por você.
Aquela frase foi como um furacão no meio da sua fuça.
Durante todos esses dias, ficou mais concentrada no que ela sentia do que ele poderia sentir. Precisava lidar com os próprios sentimentos antes de qualquer coisa, antes de pensar nos dele.
Claro que o fato dele querer falar com Sirius dizia alguma coisa. Também poderia ser apenas o fato dele não querer se esconder mais e aproveitar o que eles estavam tendo como ele costumava fazer com outras garotas.
Ao mesmo tempo, falar com Sirius era algo arriscado e James sabia. Ele faria algo assim apenas para ter mais liberdade e, depois, acabar tudo?
- Veremos. - Foi a única coisa que respondeu.
- "Veremos" uma ova. Nós estamos vendo.
- Concordo que estamos vendo algo diferente.
- Algo bem diferente. Diferente para os padrões de James.
- Honestamente, você conhece James a fundo nesta questão? - Alice estava pronta para responder, mas Lily a impediu de continuar. - Pense antes de responder, porque conversando com ele, eu descobri coisas que não tinha ideia que acontecia.
- Tipo o quê?
- Tipo ele ficando por meses com uma garota mais velha.
As sobrancelhas de Alice franziram.
- Sério?
- Sim, e quando eu digo isso, não é pelo fato da garota ter sido mais velha ou mais nova, mas por ter existido e a gente não saber. - Alice desviou o olhar, pensativa. - James está presente praticamente todos os dias na minha vida e eu nunca ouvi falar disso. Eu escuto as coisas mais bárbaras saindo da boca dos três, você não faz ideia do que eu já fui obrigada a presenciar em todos esses anos. Eu já vi meu irmão pegando alguém, já vi Remus fazendo isso...já até vi James. Mas a mesma garota, por meses? Nunca. E ela existiu. Estava em algum lugar, saindo com ele, sem precisarem se esconder...e ele não dizia estar apaixonado.
- Lily...!
- Eu não estou falando isso por achar que ele não está. Ou que está. Estou dizendo que esse assunto, para mim, para nós, é um pouco novo quando se trata dele. E mesmo não querendo racionalizar tudo isso, eu gosto de manter os pés no chão justamente para não me deixar levar por algo que eu vejo sobre um assunto que eu sei tão pouco.
Alice a conhecia, sabia que Lily precisava de coisas concretas. Os sonhos, a garota que devaneia por um cara, se perdeu um pouco após a morte do pai.
Ainda tinha um lado que a levitava, que a fazia sorrir, claro. Se não tivesse levado o baque da morte do pai, Pettigrew agindo como um desgraçado...talvez estaria ali, agora, com os corações voando ao seu redor, tudo lindo e belo.
- Deixando isso de lado, então, quero saber de algo que você tem plena consciência e sabe tudo sobre. - Alice começou. O sinal anunciando que os alunos deviam entrar em suas salas soou. O corredor começou a ficar mais movimentado e a amiga a puxou mais para o canto. - Você, Lily Evans, irmã de Sirius Black, está apaixonada por James Potter?
Foi uma pergunta, mas Lily sentiu que havia um tom de afirmação quase sobrepondo o da questão.
- Talvez...
- Ah, me poupe...!
- ...eu esteja muito mais apaixonada do que você pensa.- Finalizou sua frase.
Não esperava que Alice pulasse nela e a abraçasse, ao mesmo tempo que gritava "eu sabia, eu sabia", mas foi exatamente o que aconteceu. Lily olhava para os lados, desesperada por aquela reação, mas tendo sorte de ter os outros alunos as ignorando por completo.
- Eu sabia que isso iria acontecer. Antes, eu nunca diria que algo assim entre vocês fosse possível, mas a partir do momento que vocês se jogaram nisso, foi como uma cortina caindo e mostrando todo o futuro. Parece até que sempre deveria ter sido assim.
Lily riu e se dirigiu para a sala, com Alice ainda soltando fogos de artifícios ao seu lado.
Se o futuro estava claro, assim esperaria para confirmar.
J~L
Quando foi a última vez que havia dito que odiava Edgar Bones? Talvez estivesse na hora de reforçar, não?
Não perdia o seu tempo pensando nele, mas ficava difícil ignorar a raiva quando era encarado pelo próprio a algumas cadeiras distantes.
- Não liga para ele. - Disse Remus, que também havia percebido o olhar fixo do imbecil. - Ele quer provocar.
- Ele quer brigar e parece que vai conseguir. - Foi Sirius quem disse, encarando o cara de volta. - Ele deve estar puto pela discussão da semana passada com James, na cafeteria.
James imaginava que sim, mas havia outra questão envolvida.
Aliás, ele estava tão bem resolvido com a tal questão - leia-se: Lily Evans -, que sua raiva estava até baixa comparada a semana passada. Não tinha esquecido o que Bones havia dito sobre ela, sua performance sexual e tudo mais, e ainda pensava que ele merecia um bom olho roxo por isso, mas tinha que gerenciar melhor as coisas.
Logo, eles falariam com Sirius e caso Edgar Bones o confrontasse, não precisaria se importar tanto.
Aquele merda iria encontrar seu lugar, que era bem longe deles.
- Quinta-feira, a minha terapia vai ser um pouco mais tarde, então vamos poder treinar aqui antes. - Sirius dizia, começando a ignorar os olhares que recebia também. - James me leva e, depois, a gente encontra Remus em Londres para comer naquela lanchonete nova. O que acham?
- Estou livre na quinta. - Remus confirmou. James apenas assentiu.
O sinal tocou para o almoço. Ótimo, estava morrendo de fome.
Pegou suas coisas, jogou a mochila nas costas e se dirigiu até a porta. Remus e Sirius estavam na frente e, quando ele se aproximou de Edgar, este último fechou o corredor, o impedindo de passar. Sentiu uma presença em suas costas e viu que dois caras do time de futebol pararam ali, o encurralando.
Foi obrigado a rir com a audácia deles.
- O que vai fazer, Bones? Me bater com a ajuda desses dois? Ainda mais eles que mal sabem como cruzar decentemente para a área?
James não se virou para ver a reação deles, mas viu Edgar levantar a mão, parecendo pedir para os dois capangas dele pararem o que quer que fosse.
- Eu não vou fazer nada, apenas te deixar passar. - Porém, ele não saiu da frente, então imaginava que Bones só sairia após dizer o que parecia querer dizer. Colocou as mãos no bolso, esperando. - Lembra do que conversamos na semana passada, Potter?
- Nós conversamos semana passada?!
- Eu posso repetir o que disse, caso precise refrescar a memória.
- Não precisa, pois não me interessa.
- Você pareceu bem interessado quando conversamos na época.
- Ah, verdade? Não lembro. Mas sabe o que dizem, não é? "Quem bate, nunca lembra. Quem apanha, nunca esquece".
Edgar Bones riu, apesar de James ter visto sua mandíbula trincar.
- Se encontraram neste fim de semana? Deixa eu tentar adivinhar o que ela fez: abaixou sua calça e ficou te...!
- Sabe o que eu acho engraçado? - James o cortou rapidamente. - Que sempre quando você abre a sua boca para falar sobre isso, é sempre sobre como essa pessoa poderia te dar prazer, mas eu nunca te ouvi falando o contrário. Você é tão ruim assim que não tem nem uma história para contar sobre como fez uma garota gozar?
Ouviu alguns barulhos engraçados vindo dos dois capangas atrás de si, reagindo a sua frase. Bones tentou manter o semblante normal.
- Por que eu me vangloriaria de como eu faço alguém gozar? Prefiro falar sobre como a pessoa foi boa o suficiente para me fazer gozar.
- Aí é que está o seu erro. Aparentemente, você é o único que pode falar sobre como foi bom, mas ninguém ouvirá da boca de qualquer outra garota o quanto você é. Porque, como vemos, você é um merda para isso. O que me faz pensar se você já fez alguém gozar. - Não teve resposta, pois o idiota parecia nervoso o bastante para dizer qualquer coisa de volta. James sorriu, inocente. - Não precisa responder, porque também não me interessa. Agora sai da minha frente.
Tentou passar, mas Bones não saiu do caminho. Poderia empurrá-lo para o lado, mas iria desencadear uma briga que ele estava evitando. Chamar a atenção era o que menos precisava agora.
- Se você acha tão interessante assim, eu posso te contar das vezes que eu fiz Lily gozar. De muitas maneiras, aliás.
- Isso é uma coisa que eu duvido, mas também não me interessa saber.
- Teve uma vez que estávamos aqui na escola, aliás...
- E me deixe adivinhar? Ela não deu nem um indício de que estava quase lá, você gozou e, de repente, do nada, ela chegou lá também?
Bones fez uma cara surpresa.
- Ah, então alguém andou ouvindo sobre as minhas habilidades.
James segurou para não rir.
- Não. Isso foi uma garota fingindo orgasmo para você. - Edgar levantou uma sobrancelha. - Se você se preocupasse mais com isso, saberia que tem como sentir um orgasmo feminino, mas se você nunca conseguiu realizar essa proeza, eu posso explicar mil vezes aqui e você vai continuar sem entender.
Encarou Bones, esperando a réplica, mas uma batalha parecia ocorrer na cabeça dele, deixando-o mudo.
Parecia que James deu algo para aquele bunda mole pensar.
- Você é um imbecil, Potter.
Bones, finalmente, lhe deu espaço para passar.
- Que engraçado, eu penso o mesmo de você. - Passou por ele, mas parou ao seu lado. - Esse tipo de intimidação pode funcionar com uma galera meio perdida da escola, mas não funciona comigo.
Continuou seu caminho enquanto o encarava e saiu da sala. Sirius e Remus estavam não muito longe dali, conversando com Lily e Alice. Ainda bem que as duas se ocuparam dos amigos, pois imaginava que voltariam até a sala caso vissem que ele não tinha saído ainda, o que poderia inflamar aquela discussão.
- Não. - Sirius dizia aos cochichos para a irmã. - Não mandei mensagem e nem liguei. Pode parar de me perguntar isso toda hora?
- Eu só quero que você se ajude nessa, Sirius. Não estou pedindo para tomar uma decisão, apenas para acalmar Marlene.
- Eu vou, mas para de encher o saco.
Querendo que todos eles se afastassem de Bones e seus capangas que sairiam da sala logo, James quase abraçou a todos ao mesmo tempo, os empurrando pelo corredor e os fazendo andar.
- Vamos comer, estou morrendo de fome. - Repetiu querendo, também, que Lily e Sirius parassem de discutir. - Sem briga, deixando o meu estômago digerir bem, me dando uma tarde agradável e tudo mais.
- Tenho certeza que você vai desaparecer depois do almoço. - Sirius comentou. - Sua indigestão não será minha culpa.
- Não pretendo ter uma indigestão, prometo que vou tomar cuidado. - A mão dele apertou o ombro de Lily, que respondeu lhe lançando um olhar de lado. - Onde está Frank, Alice?
- Preso com um aluno sobre Biologia, mas vai chegar logo. Posso te ajudar com algo?
- Está tudo bem. Vou pedir para ele, obrigado.
Precisava das chaves dos armários de novo. Não tinha jeito de ficar esperando por oportunidades de estar sozinho com Lily em algum lugar inóspito de repente. Precisava criá-las.
Não que pudessem fazer grande coisa, pois, segundo Lily, ela estaria "interditada" a partir de domingo à noite, ou seja, ontem. Mas isso não quer dizer que não poderia se encontrar com ela para outras coisas. Além do mais, sexo em um armário não era o que ele queria para eles. Ou não agora.
Os amigos se serviram do almoço assim que chegaram na cafeteria, mas apenas os caras sentaram.
- Bom almoço, então. Alice e eu vamos comer lá fora, bem longe de todos vocês. - Lily pegou o braço da amiga e se dirigiu para a porta dos jardins.
Era a melhor coisa que elas faziam, na verdade. Assim, quando ele saísse para encontrá-la, ninguém repararia que ambos estavam saindo ao mesmo tempo.
Após se despedirem das duas, James e Remus perceberam que Sirius foi o único a não falar nada, e apenas encarava o celular, hesitante.
- Liga para ela - Disse Remus. - Para com essa tortura.
Sirius colocou o celular no bolso, ignorando completamente o amigo.
- Certeza que nos jardins ela vai estar de olho no cara. - O irmão da ruiva reclamou do seu lugar.
- Hãn?! - Os outros dois perguntaram.
- O cara que a minha irmã está tendo algo, ou tentando ter, está nos jardins. - Sirius repetiu e começou a escanear a cafeteria. - Quem está faltando aqui e que parece ser o tipo dela?
James olhou para Remus e meneou a cabeça. Sirius não iria falar sobre Marlene tão cedo, parecia quase travado. O amigo iria se concentrar em algo completamente diferente nos próximos dias - ou até resolver o próprio problema -, apenas para não pensar naquilo. E eles teriam que entrar na dele, então, caso não quisessem piorar a situação.
- Prewett não está aqui. - Remus indicou, dando uma grande mordida no seu sanduíche.
- Eu desisti dele, não é Prewett. Mas fico feliz que Bones esteja aqui, pelo menos. - Sirius apontou, sem discrição alguma quando o próprio entrava na cafeteria.
- Lily não voltaria com ele. - Remus voltou a falar. - Ela entendeu que tipo de merda ele é.
- E ela não é desprovida de inteligência. - James comentou.
Frank sentou na mesa, logo ao lado de Sirius.
- Qual é o assunto? - Ele perguntou.
- Quem não está aqui na cafeteria neste exato momento, mas que pode ser um interesse amoroso de uma garota? - Perguntou Sirius.
O recém chegado levantou uma sobrancelha e olhou ao redor.
- Muitos, tem muita gente faltando aqui. Estamos falando de Lily, eu imagino.
- Infelizmente sim. - Confirmou Remus. - Agora que Sirius descartou Prewett, entramos em uma outra era.
- Tenho certeza que ela passou o fim de semana com o cara. - Sirius continuou seus devaneios, ainda observando a cafeteria. - Passar o fim de semana com Alice minha bunda. Aliás...- Ele se virou para Frank. - Você esteve com Alice esse fim de semana?
James quase engasgou, sendo obrigado a forçar o sanduíche garganta abaixo e segurar a tosse.
- Não. - Frank respondeu. - Só a vi domingo à noite.
Santa Alice, pensou ele. Foi perfeita para encobrir a amiga, levando a sério a tarefa. Devia uma para ela depois dessa.
- Hm, mesma hora que Lily voltou para casa. Sabe onde elas foram? - Sirius voltou a perguntar.
- Não faço ideia, não perguntei. Estávamos ocupados.
Eles riram, entendendo o que ele queria dizer.
- Sabe quem não está aqui? Aquele cara novo do intercâmbio, alemão. - Disse Remus.
O tal cara do intercâmbio era um armário, muito mal encarado, mas que James sabia que era apenas fachada. Ele era mais doce e gentil que Remus, se bobear. Mas Sirius não sabia disso.
- Verdade. - Sirius parecia procurar por ele. - Bom, se for ele, espero que não faça nada de errado com a minha irmã, senão eu não sei como vou fazer aquele cara pagar sem me ferrar todo.
- Então melhor ficar na sua, não? - Remus voltou a falar. - E coma logo o seu sanduíche.
Resmungando, Sirius pegou o sanduíche e começou a comer. Aproveitando que os dois amigos estavam distraídos, James pegou o celular embaixo da mesa e enviou uma mensagem para Frank.
(12:25) James: Está com as chaves por um acaso?
Frank pegou o celular do bolso e, assim como a namorada, sabia disfarçar muito bem, então não olhou de volta para ele, apenas respondeu com outra mensagem.
(12:26) FrLon: Eu vou empurrar minha mochila até você por baixo da mesa. Está no bolso esquerdo lateral.
Sentiu a mochila bater em seu pé ao terminar de ler a mensagem. Se abaixou disfarçadamente e enfiou a mão no tal bolso, tirando o molho de chaves de dentro. Com o pé, empurrou a mochila de volta para o amigo.
(12:27) James: Te entrego no final do dia.
Sua resposta foi um sorriso discreto.
Frank não sabia com quem ele se encontrava, pois se soubesse, tinha certeza que viria conversar sobre. Mas independentemente de não saber, era agradecido por não haver perguntas, mas muita ajuda.
- O que é isso?
A voz de Sirius chamou sua atenção a tempo de ver o amigo tirar algo do bolso da sua jaqueta. Era a embalagem de uma bala que Lily adorava e que havia esquecido no seu carro ontem. À caminho de Londres ontem à noite, param para comer algo rápido e a ruiva acabou comprando uma tonelada daquela bala, e uma delas caiu no banco do passageiro.
Tinha esquecido de entregar para ela naquela manhã.
- Bala. - James respondeu, colocando a dita cuja mais para o fundo do bolso.
- Você não gosta de alcaçuz. - Sirius comentou, rindo.
- Como sabe que é de alcaçuz?
- Eu conheço essa bala muito bem. - O amigo apenas respondeu.
Pensa rápido, pensa rápido!
- Eu não lavo essa jaqueta a um tempo, deve ter sido na última vez que estive com alguém que comia isso, sei lá.
- A única maluca que gosta disso, é a Lily.
Pensa mais rápido. Rápido!
- Pode até ter sido ela. Lembro que eu emprestei essa jaqueta para a sua irmã meses atrás quando estávamos saindo do Três Vassouras.
Esperou. Parecia que uma eternidade havia passado antes de Sirius responder, mas talvez tenha passado apenas dois segundos.
- Não duvido nada. Em casa, você encontra essa bala até no banheiro.
Sirius voltou para o seu sanduíche e James relaxou os ombros. Aquilo tinha sido perto. Tinha que tomar cuidado, pois quando falassem com ele naquela semana, Sirius ligaria vários pontos e perceberia que a ocultação veio com várias mentiras e isso era algo que ele queria evitar.
Sentiu ser observado do outro lado da mesa e encontrou Remus. Bem, o que poderia fazer? O amigo sabia, na época, que James tinha algo por Lily - o único que sabia, aliás -, então se abrisse a boca para desmentir qualquer pensamento que o amigo estava tendo, sabia que seria em vão.
Remus era inteligente e observador, além de ter boa memória. Diferente de Sirius que, apesar de ser inteligente, levava as coisas de outra maneira: a informação entrava por um ouvido e saia pelo outro para a maioria das coisas.
Quando aquele inferno de fim de semana chegaria? Precisava acabar com aquilo logo.
You keep switching your alibi
Você vive mudando os seus álibis
Stuttering when you reply
Gaguejando quando responde
You can't even look me in the eye
Você nem consegue me olhar nos olhos
Ooh I can tell I know you're lyin'
Ah, eu posso dizer que eu sei que você está mentindo
(12:45) Descabelado: Prédio B, 2° andar.
Já tinha terminado seu almoço e estava em um dos banheiros do térreo do prédio A, terminando de escovar os dentes, sabendo que receberia alguma mensagem daquela. Teria que acelerar. Deveria estar de volta às 13:30 para uma reunião rápida com a vice-diretora.
Atravessou o jardim até o prédio B, não sendo vista por muitas pessoas. Subiu as escadas o mais rápido que sua perna lhe permitia e chegou no segundo andar, que estava vazio. Literalmente vazio.
Olhou para os lados e depois pegou o celular, conferindo a mensagem. Sim, estava no lugar correto.
O aparelho vibrou na sua mão.
(12:56) Descabelado: Vem!
Uma porta no fim do corredor abriu minimamente e ela se apressou até lá, entrando na escuridão do armário.
A luz foi acesa, quase a cegando, mas dando toda a imagem de James naquele cubículo que ela iria adorar se espremer nos próximos minutos.
- Você foi rápida.
- Eu tenho uma reunião às 13:30 para falar de monitoria.
- Sem problemas. - Ele a pegou no colo e a colocou em cima de uma prateleira, deixando-a quase na sua altura. - Eu vou te deixar ir a tempo.
As mãos dele, que estavam em suas coxas, começaram a subir.
- Ou eu posso estar atrasada por alguns minutos. - Disse segurando a camiseta dele, pensando em arrancá-la e jogar em qualquer canto daquele lugar.
As mãos de ambos eram as únicas que pareciam tirar proveito daquilo. Seus rostos estavam lado a lado, mas não se beijavam, enquanto aproveitavam os toques: o deslizar de mãos pelas pernas, os dedos que encontravam a pele por baixo da camiseta.
- Amanhã eu vou estar ocupado o dia todo. - James reclamou baixinho. - Dificilmente vou conseguir te ver.
- Nem um pouquinho?
- Provavelmente não.
Um dia não era nada, algo completamente suportável...para alguém que não se via viciada em algo.
Ou alguém.
Talvez viciada seja uma palavra que não deveria ser mais usada. Você sabe que não está viciada nele, pensou.
- Para isso, existem as quartas-feiras. - Respondeu sem emoção.
- Mas eu vou te ver no café da manhã de qualquer maneira. - Ele deu um beijo em seu pescoço. - Depois, vou passar o dia inteiro lembrando de quando eu estava enroscado em você no fim de semana.
Isso era algo que ela fazia naquele dia mesmo e o domingo tinha sido ontem.
Pensava que poderiam ir até Godric's Hollow todos os fins de semana e esquecer do mundo. Fazer isso por um mês. Talvez dois. Até se enjoarem.
O que achava que não seria possível.
- Então você me vê nas suas memórias, enroscada em você a noite toda...tudo pegando fogo.
James apertou suas pernas, suas mãos deslizando para dentro da sua saia.
- É só o que eu consigo pensar.
Ele encostou a testa contra a sua, respirando com tanta dificuldade quanto ela.
- Essas lembranças me seguem mesmo estando aqui, com você. - Ela respondeu.
Finalmente o beijou. Tão leve, com tanta tranquilidade quanto tinha esses sentimentos em seu peito agora.
Estar apaixonada era uma loucura. Por um momento, você se encontrava encurralada, sem saber como agir, tendo certeza que estava ferrada. Por outro lado, era tão bom. Aquecia seu coração, trazia uma sensação de que você podia fazer tudo, de que era invencível. Que nada, nada te pararia caso quisesse conquistar o mundo.
James a fazia sentir que podia alcançar qualquer coisa, conseguir qualquer coisa. O mundo estaria ali para ela e bastava ela desejar, que conseguiria.
- Se tudo der certo, até este fim de semana, a gente vai conseguir mudar isso.
- O fim de semana parece muito longe. - Ela choramingou. - Talvez Sirius se ajeite antes. Pelo menos, podemos torcer. - James sorriu para ela, mesmo estando claro que ele desacreditava naquilo tanto quanto ela. - Enquanto isso não acontece, aqui estamos.
Ele deu de ombros, concordando com ela.
- Enquanto isso não acontece...- Ele comentou ao se afastar e pegar algo atrás dela, mais ao fundo da prateleira. - A gente se beija e come sobremesa no armário do 2° andar.
James entregou para ela um bolo de chocolate. Ela riu e pegou o bolo.
- Você vai dividir comigo esse bolo? - Perguntou.
- Claro que não, eu trouxe o meu. - Ele pegou outro pedaço de bolo, rindo. - Limites, Lily Evans, limites. Cada um com o seu bolo de chocolate.
- Então eu divido o meu café da manhã, mas você não divide a sobremesa comigo? - Fingiu choque.
- Convenhamos que não é o mesmo tipo de prazer, você sendo uma entusiasta de frutas ou não.
Lily deu uma mordida no bolo. Estava uma delícia. Hogwarts tinha cozinheiros de mãos cheias e as sobremesas eram sempre perfeitas.
- Então bolo de chocolate é um limite para você.
- Sim. - Ele disse enquanto já dava uma segunda mordida no próprio bolo. - E não há olhos pidões que você possa fazer que me fará mudar.
- Tem certeza? - Ela, justamente, fez um olhar pidão para ele, desviando dos olhos dele para o bolo, depois o encarando novamente. - Você tem um bolo de chocolate e não dividiria comigo?
James fechou os olhos.
- Não.
Aproveitando que ele não via nada, ela se projetou para frente e roubou uma mordida do bolo dele. James abriu os olhos, surpreso, e puxou o braço para trás.
- Lily! - Disse, descrente.
- Hmm, seu bolo está uma delícia.
- Ah, é?
Ele ofereceu outra mordida, a qual ela aceitou, mas assim que seus lábios tocaram o bolo, James esfregou toda a cobertura nela, fazendo uma lambança em sua boca, um pouco em seu queixo e bochechas.
- James! - Reclamou enquanto ele ria.
- Está gostoso? - Ele deixou o bolo de lado, segurando o rosto dela. - Está linda assim, coberta com o seu crime.
A ruiva o puxou pela camiseta e esfregou o rosto no dele, fazendo James reclamar e tentar escapar, apesar de ter sido tarde demais: ele estava tão sujo quanto ela agora.
Aqueles momentos bobos e tão inocentes eram o que fazia aquilo tão bom para ela. Como poderia não se ver rendida por tantos sentimentos, pela paixão por ele, quando era tão fácil?
Passaram trinta minutos naquele armário apenas comendo e conversando, além de tentativas de se limparem do glacê. Lily ria com as piadas dele, com as sacadas inteligentes, a ironia que usava. Não tirava os olhos dele quando James começava a falar, tentando não se perder no charme dele.
Até o alarme em seu celular soar, anunciando que a sua reunião começaria em cinco minutos e precisava partir logo.
Ela deu um último beijo nele.
- Hoje você pode sair na frente pela primeira vez. - Ela disse rindo. - Vamos tirar proveito das possibilidades que nos são dadas.
- A porta se tranca assim que você a fechar e só abre com chave ou pelo lado de dentro, então não precisa fazer nada demais. - Ele explicou, colocando a mão no bolso e abrindo os olhos, surpreso. - E antes que eu me esqueça: pegue e suma com isso aqui.
Ele tirou a bala de alcaçuz que ela adorava do bolso de sua jaqueta
- Ah, minha bala. Onde achou?
- No meu carro. Sirius viu no meu bolso, então não deixe o seu irmão rever essa embalagem com você agora.
- Oras, eu poderia estar em posse de bala de alcaçuz, não? É uma embalagem como outra qualquer. - James levantou a sobrancelha para ela. Ela riu e revirou os olhos. - Sem problemas, essa bala vai desaparecer na próxima hora de qualquer jeito. - Ela riu, já salivando. Aceitou a ajuda dele para descer da prateleira. - Obrigada pela sobremesa.
- De nada. - Ele sorriu, se dirigindo até a porta. - Eu te vejo mais tarde.
James abriu a porta, ainda com o sorriso enorme no rosto, mas seu coração foi à boca quando viu, alguns metros de distância, escorado na parede ...Sirius.
Puta merda!
- Eu pensei que te encontraria aí.
O fato do amigo estar sorrindo - o que significava que ele não sabia quem estava ali dentro - ainda não fazia o medo paralisante sumir. Começou a suar em menos de dois segundos. Mal conseguia respirar.
Rapidamente, ele colocou a mão na porta do armário, impedindo que Lily pudesse abrir. Não sabia se ela ouvia o que estava acontecendo ali fora.
- O que...que...está fazendo aqui, Sirius? - Disse, de propósito, em uma voz desproporcionalmente alta.
- Eu te vi vindo para esse prédio, quando todo mundo estava fazendo o caminho contrário. - O amigo começou a vir em sua direção.
- E quis me espionar?
- Não, queria saber o que estava fazendo, mas eu te perdi de vista. Aí eu vi essa porta fechando alguns minutos atrás quando estava virando na esquina. Quis ficar aqui e ver o que estava rolando. Mas fiquei longe, claro. Não estou afim de te ouvir fazendo qualquer coisa com qualquer um, obrigado.
Por alguns milésimos de segundo, Sirius quase viu a irmã entrando naquele mesmo armário que viu James sair.
Ou pior: ver Lily sair primeiro do armário. A "curiosidade" do irmão seria muito maior do que ao ver James sair, tentando abrir aquela porta para descobrir quem era o cara ali dentro.
Imaginar as duas opções fazia sua alma sair de seu corpo e voltar. Infernos, por que ele era tão curioso?
- Agora que sabe onde eu estava, podemos ir. - Estava quase gaguejando com a tensão que sentia, mal podendo olhar nos olhos do amigo.
- Como se eu fosse sair daqui antes de ver quem está dentro do armário. - Sirius riu.
Aquilo o irritou. Que merda era aquela agora?
- Não. Você vai embora comigo.
- Porra, James, acaba logo com esse segredo. Sabe que eu não estou aqui para te julgar. Eu não me importo com quem está aí, só estou curioso.
Ah, ele se importaria sim. Julgaria sim. Lhe arrancaria sangue sim.
- Se você tiver o mínimo de consideração, vai dar as costas para essa porta e ir embora desse prédio comigo. Agora. - Olhou para o relógio e viu que Lily estaria atrasada. - O que tem mais peso: a confiança da nossa amizade ou a sua curiosidade?
Estava blefando alto, colocando todas as fichas na mesa e contando com o fato de que Sirius era alguém que poderia confiar 110%.
Para mostrar que estava falando sério, tirou a mão da porta - a essa altura, Lily já devia estar consciente do que ocorria e talvez até estivesse bloqueando a entrada de alguém, mesmo precisando de uma chave para isso -, e saiu andando pelo corredor. Nem olhou para trás.
Se Sirius o respeitava o suficiente, viria atrás dele. Caso se plantasse na frente daquela porta, esperando para ver quem sairia, veriam que a confiança de ambos os lados estava quebrada. Mas se Sirius abrisse aquela porta - de alguma maneira -, seria a guerra no meio do corredor do 2° andar do prédio B.
- Remus deve estar nos esperando.
A voz de Sirius ao seu lado após o amigo alcançá-lo, abandonando a porta, arrancou um sorriso dele.
- Então vamos encontrá-lo. - James concordou.
Aquele alívio de que podia confiar no amigo, lhe acalmou.
- Só me responda uma coisa e não vou tocar mais no assunto. - Sirius continuou.
- O que é?
- Isso no seu queixo...por favor, me diga que é chocolate e nada além disso.
Passou a mão no queixo, tirando um pouco do glacê de chocolate.
- Quer experimentar para saber? - Ofereceu a mão. Sirius quase se dobrou ao meio para desviar da mão dele.
- Não! Coloca essa mão pra lá.
Era uma boa ideia. Se o amigo soubesse que aquele chocolate veio de outra pessoa - da própria irmã, aliás -, seria ainda mais nojento.
James começou a rir, fazendo Sirius rir também. Os dois viraram a esquina sem nem lançar um segundo olhar para a porta.
You've been acting so conspicuous
Você tem agido de forma tão suspeita
You flip it on me, say I think too much
Você vira para mim e diz que eu penso demais
A terça-feira tinha sido um tédio enorme.
James, como havia informado Lily, mal teve tempo de respirar, muito menos para encontrá-la. Nem os amigos ele viu por muito tempo. Passou o dia todo em reunião entre a vice-diretora, um consultante de Oxford e um outro consultante de Cambridge, além das aulas, levar Sirius na terapia, ajudar seu pai no laboratório, trazer Sirius da terapia, jantar enquanto estudava para uma prova no dia seguinte e cair na cama logo depois.
Não era à toa que a quarta-feira tinha começado complicada.
Acordou com um berro de Sirius na porta do seu quarto. Já que ele não apareceu na casa deles pela manhã, os irmãos foram até a casa dos Potter.
Olhou para o relógio.
- Merda! - Pulou da cama.
- Você tem cinco minutos para se arrumar. - Sirius avisou.
Ouvia barulho na cozinha enquanto estava no banheiro, se preparando. Estar atrasado tinha sido um hábito por muito tempo, mas desde as caronas para Lily, estava acostumado a acordar cedo e estar adiantado. Deve ter esquecido de colocar o alarme ontem à noite.
Pegou uma camiseta e calça jeans qualquer no guarda-roupa e se enfiou neles rapidamente, depois calçou os tênis enquanto escovava os dentes ao mesmo tempo. Pegou celular e carteira e correu para fora do quarto para encontrar Sirius encostado no armário - exatamente onde a irmã dele esteve dias atrás sem roupa e tendo dois orgasmos seguidos - e a dita cuja sentada na mesa da cozinha.
- Tem café e torradas. Você pode tomar e comer no caminho. - Ela disse apontando para a xícara fumegante e um prato com duas torradas.
- Obrigado.
- Foi ela quem preparou. Ainda bem que você guarda as coisas em lugares intuitivos, assim ela não perdeu tempo
Não, Sirius. Ela apenas já sabia onde as coisas estavam.
- Vamos? Podemos chegar na hora ainda. - Lily levantou e entregou tudo para ele. - Sirius dirige e você come.
E assim foi a ida até Hogwarts naquele dia: no carro de Sirius, os irmãos na frente e James tomando café da manhã no banco de trás.
- Você viu a mensagem que enviaram ontem sobre uns jogos de futebol hoje depois das aulas? - Sirius perguntou olhando pelo retrovisor.
- Eu não vi mensagem alguma ontem. - James respondeu com a boca cheia, pegando o seu celular para conferir sobre o que o amigo falava. - Ah, é para o Dia Mundial do Esporte. No dia 06 de Abril, estava um tempo horrível e decidiram mudar para este mês.
- Está afim de ficar até mais tarde para isso?
- Você pode jogar futebol com o seu tornozelo ainda se recuperando? - Deu um grande gole do café. Estava uma delícia. Para alguém que não costumava tomar, Lily fazia ótimos cafés.
- Não está doendo e nem inchado mais. Eu vou sobreviver. Eu levo Lily até a sessão de fisioterapia e depois volto.
- Jon teve que cancelar a minha sessão de hoje, então eu posso ficar e assistir. Se Frank jogar, tenho certeza que Alice ficará. - A ruiva respondeu, se virando para trás. - Como esta o meu café da manhã express?
- Muito bom, deveria fazer mais vezes. - Ele respondeu com segundas intenções. Lily bem entendeu, porque sorriu sem inocência.
- Fique atrasado mais vezes.
- Não recomendo. - Sirius se enfiou na conversa, não entendendo onde aquilo estava indo. - Não é sempre que eu estou adiantado como estive hoje.
- Lily pode vir me buscar.
James levantou as duas sobrancelhas para ela, que se virou para frente, rindo.
- Ela não pode dirigir ainda. - Respondeu Sirius.
Ela pode sim. Eu vi com os meus próprios olhos durante o fim de semana.
- Quando acha que vai poder dirigir novamente, Sardenta?
- Não sei. Eu gostaria de tentar logo...talvez não no tráfico de Londres, mas em alguma estrada mais tranquila, sabe? Mais para o interior, algo assim.
Seria ótimo oferecer levá-la até Godric's Hollow para isso, mas se fizesse, Sirius iria pensar que o convite foi estendido para ele também.
- Na verdade, talvez seja uma boa ideia. - Respondeu, ao invés, comendo mais da torrada. - Mas vocês não tem uma casa no interior, não? Apenas na Cornualha. Nessa época do ano, já começa a ter turistas.
- Não, Cornualha não seria uma boa para ela dirigir. - Sirius respondeu. - Teria que ser algo mais tranquilo.
- Tipo Godric's Hollow? - Tentou a sorte.
Lily limpou a garganta no banco do passageiro. James tomou um outro gole de café com um sorriso, satisfeito com a reação dela.
- Isso! - Sirius concordou enquanto entrava no estacionamento de Hogwarts. - Seria perfeito.
- Eu posso levá-la um dia, se quiser. Se você for visitar Marlene nesse fim de semana e Lily estiver livre, por exemplo.
- Eu estou livre. - Ela respondeu um pouco rápido demais.
- Ou se eu me resolver com Marlene, podíamos ir também. Podemos chamar Remus. Dora, eu acho, não poderia vir...mas podemos chamar Alice e Frank.
Foi pior do que pensava. Ele não só se convidou, como convidou sua prima - a qual ele não estava junto mais...ainda - , Remus, Alice e Frank.
Só faltava chamar Dumbledore!
- Se resolva com Marlene primeiro, Sirius, e então podemos planejar algo juntos. - Lily, sabiamente, disse. - Fique em bons termos com ela e fiquem sozinhos. Você não vai querer reatar com ela e, logo depois, estar no meio de todo mundo.
- Isso é verdade. - O irmão respondeu. - Então vamos planejar essa viagem para daqui alguns fins de semana. - Sirius estacionou e virou para os outros dois ocupantes do carro. - Foi realmente uma boa ideia, vamos fazer isso.
Ele saiu do carro bem animado, deixando James e Lily ainda parados, olhando para o nada.
- Não podemos dizer que você não tentou. - Ela comentou enquanto pegava a sua bolsa.
- Na próxima vez, talvez.
Lily parou o movimento de sair do carro e olhou para ele.
- Não haverá próxima vez, porque quando falarmos sobre isso de novo, será para avisar que você e eu estaremos indo para Godric's Hollow sozinhos. - Piscou para ele e saiu do carro, indo até Remus para cumprimentá-lo.
Aquela ideia lhe fazia feliz. E, novamente, mal podia esperar pelo fim de semana e falar com Sirius.
O Dia Mundial do Esporte era importante em Hogwarts. Todos os anos, era incentivado aos alunos a praticarem alguma das modalidades que a escola oferecia.
Foi assim que ele e os caras caíram nos treinos de boxe, que não era muito bem boxe, mas exercícios criados por um professor e que eles seguiam à risca. Remus jogava tênis ocasionalmente, Frank gostava de tentar futebol sempre que podia, Sirius era indiferente e James se envolveu em muitas disputas com vários jogadores de futebol - mesmo antes de toda a história com Edgar Bones -, então acabou saindo do time.
E era exatamente o que iriam jogar hoje: futebol. Para a sua alegria, não seria contra Bones e seus seguidores, apesar deles também jogarem.
Lily e Alice estavam na arquibancada, assim como boa parte da escola. A cada jogo, os times mudavam, fazendo uma rotação e dando oportunidade para todos.
- Somos os próximos. - Remus se aproximou após conferir a lista.
- Onde estão os irmãos Prewetts? - Sirius perguntou.
- Provavelmente esperando até o último minuto para se aproximarem de você, evitando suas acusações sem nexo. - Respondeu Remus.
- Eu já falei que não estou acusando Gideon Prewett mais.
- Eu acho que ele não sabe ainda disso. - James comentou vendo o garoto a bons 20 metros deles. - Não tente quebrar a perna do cara.
- Claro que não, ele não fez nada demais. Até onde eu sei. - Sirius adicionou. - De qualquer maneira, quem é o imbecil que ataca um outro jogador do próprio time?
- Não sei. Alguém com ciúmes, por exemplo. - Disse James.
- Eu não sou esse imbecil, de qualquer maneira.
Iriam jogar com uns caras aleatórios da escola, que não estavam longe deles. Um dos times que estavam terminando o jogo, tinha Bones e alguns dos seus capangas.
E eles estavam perdendo. Aquilo era tão saboroso.
- Esse é o time da escola que nos representa lá fora? - Gritou Sirius quando o time de Bones levou outro gol.
- Você está louco? - Remus deu um tapa no ombro do amigo. - Quer arranjar briga?
- Como aluno dessa escola, eu tenho o direito de reclamar do time que me representa nos campeonatos. Metade do time está perdendo contra uns pernas de pau.
- Eles não me parecem tão perna de pau. - Disse Frank ao lado de Remus. - Os caras são bons.
- Melhores do que o time da escola. - Sirius insistiu, indignado. - Deveriam refazer toda essa escalação merda.
- Pelo menos ele está falando isso baixo. - Remus pensou alto.
- Eu posso gritar essa informação, se quiser. - Sirius estava prestes a repetir sua frase, mas Remus tampou sua boca com a mão.
- Eu adoro ouvir a sua voz...quando você está calado. Continue assim.
- Calado, você não me ouve.
Remus olhou para o amigo como um lunático.
- Pois é!
James apenas ouvia a conversa dos amigos agora, sem prestar muita atenção, pois seus olhos preferiam queimar Edgar Bones que jogava e olhava, de tempos em tempos, para a arquibancada. Lily parecia interessada nele o tanto quando poderia estar interessada em ver uma formiga andando no chão.
Qualquer um poderia olhar para ela, claro. Não era idiota. Apenas Edgar Bones fazendo aquilo, lhe irritava. Muito. Porque tinha a impressão que ele maquinava algo, e não a olhava apenas com admiração ou qualquer coisa do gênero.
O apito do juiz anunciando o fim do jogo o despertou da pequena raiva que estava sendo acumulada em sua cabeça.
- Prontos para mostrarmos que até nós podemos substituir os caras do time da casa? - Sirius perguntou dando um tapa nas costas de todos os amigos, incentivando-os.
James recebeu um olhar de pedido de socorro de Remus.
- Ele só sabe falar. Vai chegar no campo, ficar como goleiro e gritar para os outros. - James respondeu o olhar do amigo.
- São os gritos dele que me preocupam.
Foram até o campo enquanto os times saiam. Sirius estava animado, chamando a atenção de todos. Começou a fazer piada com algum ou outro cara do time perdedor, o que começou a preocupar até James agora.
- Parece que alguém está bem falante hoje, não?
E estava dada a largada para o problema. Bones cruzou os braços, parando na frente deles. No fundo, bem no fundo, James estava começando a acreditar que era isso que Sirius estava procurando esse tempo todo: confronto com o ex da irmã. Se jogassem juntos, com certeza teria sido pior.
- Parece que é um dom meu. - Sirius respondeu se postando na frente do outro.
- Então vamos aproveitar e conversar? - Bones olhou para Sirius e depois para James, levantando uma sobrancelha inquisitiva. - Nós três. Não seria interessante?
James e Sirius se entreolharam, depois voltaram para Bones, e começaram a rir.
- Não, obrigado. - Sirius respondeu primeiro.
- Você, mais do que qualquer um, vai querer ouvir isso. - Disse Edgar, trazendo uma curiosidade no semblante do outro.
- Tenho certeza que não. - James interviu e empurrou Sirius para continuarem andando e entrarem logo no campo.
- Ah, nós sabemos que sim, Potter.
Sirius estava travado no chão e James só o tiraria dali caso o puxasse com força, o que seria muito suspeito.
- O que você quer falar, Bones? Se fosse algo tão importante, não ficaria com esses joguinhos. Viria até a minha cara e falaria.
- É divertido te ver sofrer um pouco com a curiosidade, Black. Não é tão legal quando eu jogo a informação assim.
- Eu não deveria, mas estou me irritando demais com você nessa semana. - Disse James. - Só vai embora, para de encher o saco. Arrume algo para fazer, vai treinar, porque você está precisando.
- Claro, é exatamente o que você está esperando, não, Potter?
Tinha que pensar rápido. Aquela conversa pegou um caminho muito perigoso e Sirius já tinha os olhos cerrados, querendo entender.
- As fofocas e mentiras que você tem aí, não nos interessa. - Tentou de novo e voltou a empurrar Sirius, querendo pegar distância.
- Não são mentiras.
- Então suas alucinações, sei lá.
Conseguiu fazer Sirius mover alguns centímetros.
- Não acho que estou alucinando quando sei que Lily está fudendo por aí com v...!
Foi sua culpa, inteiramente sua culpa, mas não teve solução. Teve que agir rápido e apenas uma coisa iria calar Edgar Bones.
E foi isso que James teve que fazer: socar a cara daquele imbecil.
Não pensou duas vezes, não pensou nas consequências, apenas agiu. Ele não tinha nem mais um segundo, então apenas levantou o punho e deu um soco em Edgar Bones, que caiu como um saco de bosta na grama.
Não era do tipo que criava brigas. Entrou em algumas durante a vida depois de confusões, mas normalmente não dava o primeiro passo para aquilo. Eles tinham uma regra de que sempre esperavam o ataque, para depois revidar.
Dessa vez, não tinha como.
Não teve mais tempo de entender o que tinha feito, antes de dois caras pularem nele e o derrubarem na grama como em um jogo de rugby. Sirius e Remus entraram em uma batalha com outros dois caras do time, enquanto Frank corria até eles e impedia um terceiro de pular em cima de James.
Gritos e torcidas eram ouvidos por todo o campo, mas James não conseguia entender nada, já que tentava se defender dos socos que estava sendo alvo e tentando acertar alguns outros nos dois idiotas em cima dele. Sentiu uma dor terrível na sua costela direita, fazendo-o perder o ar. Aquilo o deixou indefeso, recebendo dois socos no rosto em seguida.
- Então eu não consigo cruzar uma bola na área? - Algum deles disse enquanto tentava acertar um terceiro soco nele, mas James defendeu.
- Me admira te ver andando como um bípede. - Respondeu enquanto conseguia acertar a cara daquele idiota.
Com raiva, James conseguiu trazer sua perna para cima e tirou o cara de cima de si. O outro, que parecia não saber como brigar direito, deitou sobre ele querendo ganhar território, mas James levantou o quadril e conseguiu virar com o cara para trás, dando uma cambalhota na grama.
Quando ficou de pé, quase caiu de novo com a tontura. Seu cérebro parecia fora do lugar, até ser levado ao chão novamente.
- Seu filho da puta! - Bones rugiu em cima dele tentando acertar um soco, mas os dois pareciam tão fora de si, que James conseguiu desviar e Bones errar, caindo deitado ao seu lado. - Eu vou te matar.
- Não se eu te matar antes.
Tentaram se acertar, ainda rolando na grama, mas não conseguiram nem fazer vento um no outro. Quando a sua cabeça parecia ficar mais clara e estava pronto para começar a fazer Edgar Bones perder a habilidade de falar e engolir a língua, um borrão vermelho o fez parar seu movimento.
- PAREM COM ISSO! - Lily gritou e se postando entre os dois ainda caídos na grama. - Qual é o problema de vocês?
- Sai da frente, Lily! - Bones tentou levantar, mas caiu.
- Sai você da minha frente, seu idiota. - Ela retrucou e olhava adiante, talvez para o resto da briga que ainda rolava. - Levantem logo, antes que McGonagall chegue e coloque no currículo escolar de vocês dois sobre essa briga.
Ela se abaixou e pegou no braço de James, ajudando-o a se levantar, puxando-o para longe.
- Você vai ajudar esse cara, então? - Bones gritou em suas costas.
Lily não respondeu, apenas ajudando James a se afastar.
- Sirius e Remus? - James perguntou. Sua visão estava péssima, tudo embaçado.
- Estão bem. Frank e Alice estão levando-os para longe. - A voz dela estava seca. - Isso foi irresponsável, James. No que estava pensando?
- Ele estava prestes a contar para Sirius sobre nós! - Estava indignado pela bronca.
- E não tinha outra maneira de pará-lo?
- Se tivesse, acha que eu não teria feito?!
Ela o soltou, virando para ele.
- Vocês dão muita bola para ele, por isso que ele vive voltando para importunar.
- Ah, claro, a culpa é nossa agora? - James levantou os braços, mais indignado ainda. - Ele chega falando coisas para o seu irmão, coisas que interessam para ele. A gente não fica "dando bola".
Estava louco da vida com todos aqueles acontecimentos de dois minutos. Queria arrancar os cabelos; socar Edgar mais um pouco; gritar para Sirius que era Lily naquele armário na segunda-fera, que era com ela que estava passando o tempo.
Mas, principalmente, estava cansado e exausto. Não queria mais esconder aquilo por mil motivos, mas sabia que não era a hora. Mal podia esperar para colocar tudo às claras, tudo bem explicado.
Abaixou o olhar e deu de cara com uma Lily furiosa.
- Honestamente... - Ela disse e o deixou ali, indo em direção ao estacionamento.
- Lily, espere.
- Dar as costas e deixar Edgar falando sozinho me parece um pouco fácil de fazer.
- Não é, não. Principalmente quando ele começa a falar as merdas dele.
Ela parou seu caminho e se virou para ele.
- É disso que estou falando, essa necessidade de responder. Nós estamos nessa situação complicada e precisamos ter cuidado.
- Se tivéssemos falado com Sirius desde a primeira vez que propus, depois de você passar a noite toda na minha casa, não estaríamos nessa situação complicada, estaríamos?
O arrependimento das suas palavras foi instantâneo. Ele apertou os olhos e mordeu os lábios, se arrependendo depois com a dor que sentiu. Lily ergueu uma sobrancelha para ele.
- Você tem toda razão. Se tivéssemos falado para ele quando você propôs...ou ter sido só um beijo, como eu planejei no começo. Se tivéssemos ouvido nossos "Eu" do passado, não é mesmo? Com certeza não estaríamos aqui.
O quê? Ela tinha pensado em apenas beijá-lo uma vez e só? Desde o começo, quando ela o provocava com brincadeiras, com os olhares, com seus gestos...quando ela pulou nele no carro na garagem da casa dela...era para ter sido só um beijo?
Uau, aquilo foi mais doloroso de ouvir do que poderia imaginar.
- Parece que estamos falando umas verdades agora, não? - Não resistiu dizer.
- Aparentemente você é o senhor da verdade e da total certitude. Porque "se tivéssemos falado quando eu disse..." - Ela o imitou com uma voz de idiota. - Deveríamos te ouvir mais, não é?
- E você me parece a pessoa que não conseguiu seguir com o seu plano espetacular desde o começo. Deveríamos ouvir mais você, talvez, Lily! Um beijo e pronto. Por que resolvemos continuar?, eu me pergunto.
Ela maneou a cabeça, rindo sarcasticamente.
- Parece que éramos mais inteligentes.
James segurou os cabelos, tentando se acalmar, mas apenas sentiu uma dor horrível nas costelas. Precisava parar de falar as coisas que vinham com a raiva e, principalmente, parar de responder o que ela dizia com a raiva. Se continuassem naquela discussão, a coisa iria ficar pior. Os dois estavam nervosos demais para aquilo.
- Que tal a gente apenas ir e conversar depois?
- Concordo em ir. - Ela deu as costas e continuou o caminho. - Você e os outros estão péssimos. Alice e eu vamos levá-los embora.
Ficou parado no mesmo lugar, vendo Lily partir em direção ao estacionamento.
Foi uma briga idiota e sem razão. Deixaram os nervos falarem mais alto e começaram a soltar coisas de maneira que não deveriam. Estava sentindo-se um babaca agora, pensando que deveria ter ficado quieto ou usado outras palavras, até mesmo um outro tom.
Não que ela tenha sido delicada também, mas isso não era desculpa.
Voltou a andar e, agora que estava com o sangue mais frio, suas costelas doíam como um diabo.
Maldito fosse Edgar Bones e aqueles merdas do time. Malditos fossem.
L~J
Alice dirigia, com Lily no banco do passageiro e os quatro garotos espremidos no banco de trás e intercalando os gemidos de dor.
- Vai mais devagar, Alice. - Pediu Sirius jogado contra a janela e mantendo pressão no corte que tinha sobre a sobrancelha.
- Se está achando ruim, pega a merda de um táxi. - Alice respondeu sem paciência.
- Uau, que estresse!
- Cala a boca, Sirius. - Frank pediu. - Se não quiser ficar mais machucado, só cala a boca.
As duas estavam furiosas. Assistiram toda a baderna começar das arquibancadas e correram para ajudar. Foi uma cena horrível de assistir: socos voando, chutes, tapas, tombos...
Lily lembrava de ver James começando a bagunça com Edgar e, logo depois, sendo atingido por dois caras do time de futebol. Na sequência, Sirius foi alvo de mais um jogador, tendo Remus como o terceiro a se enfiar na briga. Frank, que foi correndo para tentar ajudar, acabou envolvido com outro jogador.
Parecia até uma peça de teatro: tudo ensaiado, coreografado. Se não fosse o fato de ver sangue e gente caindo sem se levantar depois.
Alguns caras que estavam por perto conseguiram interromper a briga quando as duas garotas finalmente chegaram até eles. Frank, que estava parcialmente bem, pegou Remus ao seu lado, que o ajudou a levantar Sirius de cima de um dos amigos de Edgar.
James estava caído no chão, com Edgar ao seu lado, e ela correu até eles, querendo impedir que a briga continuasse. Mas os dois estavam tão tontos, que dificilmente fariam mal a uma formiga.
Olhou pelo retrovisor e observou os quatro. Cada um com seus machucados bem acentuados, precisando de cuidados. Remus e Frank eram os melhores, provavelmente por terem adotado uma postura mais defensiva. Não podia falar o mesmo de Sirius e James, que foram muito mais na ofensiva.
- Não começa. - O irmão disse, encontrando seu olhar pelo espelho. - Se eu for ouvir um sermão, eu vou mesmo pegar um táxi.
- Faz um favor? Escute Frank e fique quieto. - Ela respondeu. - Você não tem o direito de reclamar de nada aqui. Nenhum de vocês. - Ela olhou para cada um.
Remus abaixou a cabeça, envergonhado. Frank parecia arrependido. Sirius deu de ombros.
James evitou seu olhar, virado para a janela.
- Você vai mesmo defender aquele bosta do seu ex? - Sirius reclamou. - Eu vou mesmo ficar aqui ouvindo você defender aquele cara?
- Eu não estou defendendo Edgar, Sirius.
- Parece, porque é a gente levando bronca.
- Vocês começaram a briga! E eu não estou lá com ele, estou?
- Ele começou.
- Não foi isso que eu vi.
- Ele estava falando merda! - Sirius aumentou o tom de voz. - Estava falando que você está fudendo alguém por aí.
Lily mordeu a boca, morrendo de ódio com a palavra usada.
- Ele disse isso? - Alice ralhou atrás do volante. - Ele usou essa palavra?
- Usou. - Sirius confirmou. - Eu não vou deixar ninguém falar isso da minha irmã, sendo verdade ou não. Mas James foi mais rápido em reagir.
Edgar Bones era um cara morto. Quer dizer, seria um na próxima vez que encontrá-lo. Qual era a dele? O ego estava realmente machucado a esse ponto?
Por quê? Por que se envolveu com ele? Por que caiu no papo, no sorriso, no olhar daquele inferno de garoto?
Porque era isso que ele era: um garoto. Um garoto idiota de ego frágil.
Enquanto pensava em mil maneiras de se resolver com Edgar, eles finalmente chegaram até a casa dos Black-Evans. O carro de Geneviève não estava, então pediu para Alice estacionar diretamente na garagem coberta. Teriam que dar um jeito nos quatro, mas escondidos. Se sua mãe chegasse e visse o hospital montado dentro da casa, teria uma síncope e aí que Sirius - e todos os outros - ouviriam um bom sermão.
- Sentem-se naquelas caixas. - Ela apontou para algumas caixas de madeira na lateral da garagem. - Alice e eu vamos buscar tudo o que precisamos. - Estava pronta para sair da garagem, quando voltou. - Não saiam daí ou vocês terão problemas comigo.
Alice estava na lavanderia já, caçando o kit de primeiros socorros enquanto balbuciava injúrias. Lily queria muito se juntar a ela, mas preferiu deixar sua cabeça em branco, sua boca fechada. Talvez, assim, começaria a ficar mais calma.
- Eu vou matar aqueles quatro. - Alice terminou suas reclamações ao pegar tudo o que precisava. Lily se encarregou de pegar mais antisséptico e gaze no armário ao lado, e voltaram para a garagem.
Estavam todos quietos, todos emburrados. Na ordem, estavam Frank, James, Sirius e Remus. Se apressando, Lily correu até Frank para cuidar dele. Sabia que Alice iria ficar confusa por um segundo, mas compreenderia depois.
E foi exatamente o que aconteceu, pois a amiga foi até James e começou a cuidar dele. Lily não olhou para ele em momento algum, encarando Frank como se ele fosse o único ser existente naquela garagem.
- Seu corte não está tão profundo. - Disse para o amigo, que tinha os olhos fechados enquanto a ruiva limpava um corte bem perto do seu olho.
- Pelo menos isso. Estou feio?
- Não tem como. Tenho certeza que Alice ainda vai te amar...- Ela deu uma olhada para a amiga que levantou o queixo, nervosa. - ...quando não estiver mais nervosa com você.
Frank abriu um olho e espiou a namorada.
- Ela me parece muito mais do que nervosa. - Alice bufou, ouvindo o namorado enquanto ainda ajudava James.
- Você vai ter que se empenhar um pouco. - Lily respondeu. - Mas você sabe que vale a pena.
- Sim, eu sei.
Alice deixou escapar um leve sorriso, mas muito rápido, fechando a cara depois.
Como James estava bem judiado, Lily terminou com Frank e pulou para o próximo da fila: seu irmão. Quando ele levantou o rosto, ela logo colocou sua expressão de raiva de volta.
- Espero que arda bastante. - Disse Lily se aproximando.
- Eu tenho certeza que você quer isso mesmo. - O irmão reclamou.
Aquele antisséptico não ardia, mas não a impedia de desejar.
Pelo menos o irmão ficou quieto e não tentou continuar a discussão do carro, o que ajudou Lily a terminar rapidamente sua limpeza e medicação.
Alice estava terminando com James, então a ruiva foi para Remus em seguida.
- Eu quero trocar de amigos. Me ajuda a encontrar um outro grupo? - Ele disse assim que Lily se postou em sua frente.
- Desculpa, Rem, mas acho que não é mais possível. Mas sou solidária a sua situação.
- Merda.
Remus não estava tão ruim, então foi rápida com ele.
Com os quatro prontos, Lily e Alice os olharam pela última vez.
- Espero que vocês não inventem mais de brigar com o time de futebol. - Alice começou. - Na próxima vez, talvez não estaremos lá.
- Não brigamos com o time de futebol. - James respondeu.
- O time de futebol, com certeza, brigou com vocês. - Ela rebateu.
- Mas vieram sem serem convidados. - Sirius, o bocudo, disse.
- O que vocês acham que aconteceria caso fossem para cima de um dos jogadores do time? - Lily cruzou os braços.
Remus levantou os braços em sua direção, parecendo agradecido.
- Obrigado por isso! - Ele se virou para os outros três. - Por que vocês não me escutam?
- Não começa você também. - Sirius resmungou e levantou. - Já aconteceu, não dá pra apagar e foi isso. Demos uma surra em uns caras que bem mereciam, se vocês querem saber. Se soubessem da metade que sabemos sobre eles, entrariam na briga.
Aquela conversa não daria em lugar algum, então preferiu não continuar, preferindo guardar o kit de primeiros socorros de volta na lavanderia, deixando Alice ainda argumentando com eles. Se quisessem fazer merda, então que fosse. Não era a mãe de ninguém ali, apesar de não querer vê-los machucados, mas não poderia forçar ninguém a se comportar.
Foi até a cozinha e pegou uma barra de chocolate, querendo acalmar os nervos.
Além de tudo isso, estava aquela discussão com James. Ela via o seu lado, sabia que Edgar era um cara irritante e que poderia acertar seus nervos muito facilmente, mas eles tinham que ter cuidado neste momento. Muito mais do que antes.
Não, não estava no meio da conversa e seu ex estava a ponto de dizer quem era a pessoa. Ainda sim, começar uma briga não era o mais inteligente. Edgar, agora, estaria mais furioso.
Se antes ele quase disse o que não deveria, o que iria fazer depois dessa briga?
- Desisto. - Alice parou ao seu lado no balcão da cozinha e pegou um chocolate também. - Eu vou embora antes de estrangular alguém e fazer da sua casa uma cena de crime.
- Obrigada pela ajuda.
- Quando os nossos namorados saem na porrada, é o mínimo que podemos fazer. - Lily lançou um olhar descrente para a amiga. - Não sei como nomear vocês, então eu decidi por "namorados". Enfim... vocês brigaram?
- Discutimos enquanto íamos para o carro.
- Está nítido na cara dos dois. - Alice estalou a língua. - Edgar Bones não vale a pena, ok? Pense nisso.
- Eu sei.
Pararam de conversar quando os quatro entraram na cozinha. Sirius foi até a geladeira e pegou quatro cervejas, distribuindo entre eles.
- Machucados, sim. Derrotados, jamais. - O irmão levantou a cerveja, brindando, e foi seguido pelos outros três.
Lily e Alice reviraram os olhos.
- Eu vou indo. Te vejo amanhã. - Alice deu um beijo na amiga. - Você! - Apontou para o namorado. - Te vejo amanhã também.
- Não vou ganhar um beijo também? - Frank perguntou vendo a namorada saindo da cozinha.
- Amanhã, quando eu gostar mais de você.
Assim, a garota foi embora, deixando Lily sozinha naquela batalha. Aliás, batalha essa que ela não estaria participando. Era melhor ir para o seu banho, colocar um pijama e descansar. Aquele dia tinha sido bem cansativo.
- Até amanhã. - Se despediu de todos.
- Não vai jantar? - Sirius perguntou, fazendo-a parar na porta da cozinha.
- Não.
Seus olhos cruzaram com os de James. Ele não parecia irritado, mas contrariado, além de parecer querer falar com ela.
Bom, hoje não seria o dia. Queria apenas sua cama e dormir, dormir e dormir.
Deu as costas e saiu.
- Bom dia, querida. - Geneviève cumprimentou a filha quando a última entrou na cozinha.
Estava mais cedo do que o normal, mas dormiu tão cedo na noite anterior, que seu corpo a ejetou da cama.
- Bom dia, mãe.
- Pelo menos você está inteira. - Lily parou seu caminho para a geladeira e se virou para a mãe, confusa. - Eu cheguei ontem e encontrei seu irmão, James, Remus e Frank parecendo terem saído da guerra.
- Ah, sim. Isso. Você deu uma bronca no seu filho?
- Tive uma conversa séria com ele. Ele tem que parar de brigar por aí desse jeito.
- Ele te ouviu?
- Mais argumentou de volta do que ouviu. Disse que foi culpa do seu ex, o tal Edgar.
- Podemos dizer que sim, podemos dizer que não. - Suspirou enquanto preparava torradas com manteiga e um copo de suco. - Edgar é insuportável, os meninos não têm paciência ou saco. Acabam virando uma bomba-relógio com um timer bem curto.
- Ainda sim, não é motivo para brigarem o tempo todo. - Geneviève terminou seu café. - Eu disse que se isso não parasse, eu teria que ir falar com o diretor.
- Claro! - As duas viraram para a porta da cozinha, encontrando Sirius com cara de sono e alguns roxos espalhados aqui e ali. Aquelas horas de diferença haviam feito um bom trabalho em deixá-lo pior do que antes. - Imagina ter a minha mãe indo falar com o diretor sobre brigas, sendo que tenho 18 anos, não 10.
- Então comporte-se como tal. - Geneviève respondeu. Logo após, ela balançou as mãos no ar. - Já tivemos essa conversa ontem, então vou contar com você sobre o que conversamos.
Sirius bufou e se arrastou até a cafeteira. Lily o inspecionou enquanto isso, vendo o quanto seu rosto ficaria pior nos próximos dias, antes de melhorar.
Se ele fosse ver Marlene esse fim de semana, ela tomaria um susto sem igual.
- Você gosta de encarar as pessoas, né? - Ele perguntou enquanto continuava a preparar o café com o seu mau humor.
- Principalmente se é você, com essa cara horrível.
- Já se olhou no espelho? - Ele rebateu pegando sua xícara e sentando de frente para ela, comendo suas torradas.
- Sim. Claramente não somos irmãos de sangue, porque o que te falta, me sobra.
- Feiura? Concordo.
Geneviève limpou a garganta e ambos voltaram suas atenções para seus respectivos cafés da manhã.
A porta da frente abriu e Lily respirou fundo. Não mandou e nem recebeu mensagem ontem, com ambos precisando de um momento depois da discussão de ontem. Discussão essa que, honestamente, nem tinha sido grande, mas os nervos estavam muito aflorados, fazendo as coisas soarem piores.
- Pelo amor! - Geneviève exclamou ao lado de Sirius, ambos de frente para a porta da cozinha. - James!
- É, eu sei. Minha mãe fez questão de me informar o quanto está ruim.
James parou ao seu lado e ela arriscou olhar para ele.
Oh meu...!
James conseguia estar pior que Sirius. Tinha vários pequenos cortes pelo rosto, um roxo enorme na sua maçã do lado esquerdo.
- Sua mãe também ameaçou ir falar com o diretor? - Sirius disse ironicamente empolgado. - A minha sim e eu nem estou tão ruim quanto você.
- Minha mãe ameaçou me matar, na verdade, se eu aparecer assim de novo. - James deu de ombros. - Não que tenha sido a primeira ameaça de morte desde ontem.
- Vocês são impossíveis. - A mãe reclamou saindo da cozinha com as mãos nas têmporas.
Lily voltou para as suas torradas quando percebeu que James trocava de peso em suas pernas ao seu lado.
- Sem frutas hoje? - Ele perguntou, finalmente.
- Torradas me pareciam melhor. - Respondeu sem olhá-lo.
- Acho que é castigo. - Sirius se intrometeu.
- Também estou achando.
Enfiou o resto das torradas na boca e desceu do banco, saindo da cozinha.
Estava agindo como uma boboca, mas não conseguiriam conversar com Sirius ali, muito menos teriam tempo quando o irmão subisse para se trocar, então decidiu que poderiam adiar.
Levou o seu tempo dessa vez, descendo para a entrada da casa quase atrasada. Os dois a esperavam ali, conversando sobre algum jogo novo que estava para sair, e foram para o carro. Como Sirius já estava dirigindo, estava no carro do irmão e não de James, o que ajudou a manter um pouco a distância, apesar de começar a se incomodar com ela também.
Apenas precisava se acalmar um pouco mais, então estaria pronta para falar com ele.
Ao chegarem em Hogwarts, bateu a porta do carro e cruzou o estacionamento sozinha. Remus não estava ali ainda, assim como Alice.
Porém...
Lá estava aquele inferno de Edgar Bones na entrada dos jardins. Conversava com alguns caras que não estavam na briga ontem, provavelmente contando como conseguiu todas aquelas marcas no rosto, porque sim, ele tava bem ruim.
Ela até poderia dizer que via onde foi o primeiro soco de James: bem no seu olho esquerdo, porque a área estava com um roxo escuro que nunca viu antes, além dele quase não conseguir abrir aquele olho.
Não quis dar palco para ele e nem oportunidade para conversa - apesar de querer estrangular aquele infeliz -, então desviou o olhar antes que ele a visse encarando.
E que começasse aquela quinta-feira, que ela sentia que seria um tanto diferente.
L~J
E estava tão diferente, que até Alice estava menos falante. Talvez sentindo o quanto a amiga estava estressada. As palavras trocadas não foram muitas e evitavam voltar no assunto de ontem, talvez para evitar mais estresse.
A história da briga correu pela escola como pólvora e por todos os cantos que ia, ouvia alguém comentar sobre. Alguns tentavam saber quem tinha ganhado, outros tentavam entender o motivo, além de ver os dedos apontados e os olhos surpresos quando um ou outro participante daquele circo aparecia. Por isso ficava atenta para aquilo não chegar aos ouvidos da vice-diretora ou do diretor, senão todos eles estariam mais do que ferrados. Literalmente, não era o momento para sair na porrada com ninguém.
Foi nessas fofocas de corredor que ouviu que os jogadores do time de futebol que participaram, teriam uma reunião importante após os treinos daquela tarde e ela estava achando pouco.
O único problema daquilo, era como Edgar poderia retaliar caso fosse suspenso do time.
- Duvido que ele vá retaliar. - Dizia Alice ao saírem da segunda aula do dia, uma em que dividiram com Edgar, aliás. - E se ele pensar em fazer, eu acho que Sirius já saberá de vocês dois.
- Como pode ter certeza que ele não vai retaliar, muito menos tão cedo?
- Porque ele está correndo o risco de ganhar uns outros roxos no rosto e nem digo que será de James, mas meus.
- Você não irá se envolver com ele, Alice, por favor. Não converse, não fale, não discuta, nada. Apenas passe reto. Edgar parece um veneno, que quanto mais tomamos, mais rápido vamos morrer.
- Eu não tenho medo dele. O que ele poderia fazer comigo?
- Você não quer pagar para ver.
Querendo esquecer aquilo, começou a procurar pela multidão algum sinal de James, mas os caras não pareciam estar por perto no momento. Estava na hora de conversarem, caso ele quisesse, e colocar aquela briga ridícula para trás.
- Ouvi que esse fim de semana terá uma onda de calor inesperada. Estava pensando em fazer uma pequena festa na piscina. O que acha? - Alice perguntou, mudando de assunto. Lily agradeceu por aquilo, cansada de perder a cabeça com os problemas de ontem.
- O que quer dizer com "pequena"?
- Nós, os caras. Se Sirius estiver aqui ou estiver bem com Marlene, ela também.
Aquilo poderia mudar um pouco os ânimos. Os briguentos não mereciam uma festa, mas se aquilo fosse acalmar as coisas...
...Isso caso tudo desse certo na conversa com Sirius.
- A gente poderia fazer em casa. - Ofereceu. Sentia que precisava de um terreno seguro para a turbulência que viria. Um terreno seguro para Sirius afogar James e ela. - Precisa ser na piscina? - Perguntou se virando para a amiga
- Sim, a não ser que você queira a piscina só para você e James.
A ruiva bufou.
- Nem se eu quisesse, seria possível.
- Sempre pode ser possível. Sua mãe e seu irmão não estão a toda hora na sua casa.
- Arriscado demais. Além do mais...
De repente, Lily parou de falar ao pensar em algo. Seu corpo reagiu como se tivesse levado um soco no estômago.
Abriu a boca, tentando respirar - diferentemente de seus ataques de pânico, claro - , e seu coração subiu até a sua boca.
- Lily, está tudo bem?
- Eu preciso ir, Alice.
Deu as costas para a amiga e saiu a esmo pelos jardins, quase não vendo por onde ia.
- Para onde? - A amiga gritou. - Ainda temos as aulas da tarde.
Não importava. Precisa ir agora, neste exato momento.
Chamou um táxi e partiu de Hogwarts com o corpo tremendo e a cabeça a ponto de explodir.
S~B
Batucava na perna no ritmo da música do carro para não cair no sono ou, pior, pegar o celular e ligar para Marlene.
Estava em um estresse sem igual, sem acreditar ainda no que havia acontecido, como ele teve coragem de terminar tudo com Marlene, alguém que ele amava tanto, depois de ter consigo dizer, com todas as letras, o que sentia por ela. Lembrava do brilho dela quando ouviu o "eu te amo" e, depois, viu o rosto dela murchando quando ele enlouqueceu e disse que estava tudo terminado.
Era engraçado o que o medo, o desespero fazia com você. Te fazia agir sem nem pensar, te colocando em uma posição pior do que caso não agisse. Mas não pretendia levar muito longe aquela história. A sua sessão de terapia na terça-feira havia sido bem esclarecedora e útil. Hoje, sentia que o coração ficaria ainda mais tranquilo.
Mal podia esperar para resolver e ter Marlene de volta. Porém, enquanto aquilo ainda acontecia, Sirius esperava por James e Remus saírem de suas respectivas aulas para treinarem no ginásio depois. Exercícios faziam parte da sua terapia, podendo colocar toda sua energia negativa para fora.
- Esperando seus amigos?
Não. Não aquele cara. Não era possível.
Não respondeu. Continuou seu olhar de tédio para frente e os seus batuques.
O infeliz abaixou na sua porta e apoiou os braços na janela aberta, sendo impossível de Sirius o ignorar.
- Você costuma saber onde eles estão quando somem? - Perguntou Edgar Bones. - Lupin, com certeza, deve procurar meios de corromper menores. Soube que ele esta namorando uma menor de idade.
Sirius parou de batucar.
- Tire a porra dos seus braços do meu carro se não quiser que eu passe por cima deles. - Ele respondeu calmamente.
- E Potter? Você sabe com quem e o quê ele faz quando some? Não é com uma menor de idade, mas a resposta é bem interessante.
Dessa vez, Sirius desligou o rádio, fechando os olhos e respirando fundo.
- Vaza.
Edgar se desencostou, rindo, não parecendo abalado.
- Você não sabe, não é? Está no completo escuro.
- Vaza, imbecil.
Aquele desgraçado riu ainda mais.
- E Lily? Sempre tão discreta para os olhos do público, mas não contava com alguém observando de longe. - Edgar deu de ombros e cruzou os braços.
O nome da irmã o obrigou a olhar para o traste.
- Não fale da minha irmã. Nem se atreva a dizer o nome dela.
- Qual o problema? Estamos apenas conversando amigavelmente.
- Não há nada amigável entre nós e eu não vou conversar sobre ela com você, nunca. Deixe a Lily em paz, e, aproveitando, me deixe também.
- Eu não vejo qual o problema. Você não quer saber, sair dessa caverna que te colocaram? Poder ver as coisas?
- Se você não sair da minha frente... - Sirius saiu do carro, ficando de frente à ele. - ...eu vou ser menos bonzinho que James na última vez que ele quase te almoçou na cafeteria ou quando te apagou com um soco só ontem.
O maldito começou a gargalhar.
- Pois é, interessante você comentar do Potter. Você sabe o que estávamos discutindo naquele dia na cafeteria para ele reagir tão mal? - Sirius não respondeu, porque era verdade que ele nunca soube. Desconfiava que Edgar Bones tivesse ido provocar e até usado Lily, talvez, mas nunca chegou ao seu conhecimento o conteúdo da conversa. - Não sabe, né? Por que o seu amigo não te disse?
- Porque não interessa. Vindo de você, é tudo sinônimo de merda. Não faz diferença o que saiu da sua boca.
Edgar abriu os braços, lamentando, enquanto se afastava de Sirius.
- Uma pena, pois as coisas ficariam mais claras para você agora. Mas uma dica, se me permite: abra os olhos ao seu redor. Quando digo isso, é para abrir bem, confira tudo. Você não faz ideia do quão surpreso pode ficar.
Ele se afastou antes de Sirius reagir.
Ficou encarando o vazio, sentindo-se um babaca por:
1- ter deixado Edgar Bones entrar na sua cabeça.
2- não ter arrancado o couro dele.
Não sabia o motivo dele ter vindo lhe dizer tais coisas. Sirius sabia que havia alguém que apareceu na vida de Lily e ele estava lutando quanto aos seus problemas para aquilo. Bones devia saber também, obviamente, e pensava o quê? Que Sirius iria descobrir quem era e tirar o cara da vida dela só para dar mais uma chance para ele?
Em que mundo maluco ele estava ao pensar que teria alguma chance de novo com a irmã? Nem se os porcos voassem!
- Você quer filosofar um pouco mais ou podemos ir?
Remus estava ao seu lado, James vinha logo atrás, ocupado com o celular. Ele digitava com velocidade e tinha uma ruga enorme no meio da testa.
- Eu estava esperando pelos atrasildos.
- Os estudiosos estavam terminando algo importante. - Remus o corrigiu. - E James demorou um século para me encontrar, mas vamos indo antes de você ter que ir para a terapia.
Saindo na frente, Remus se apressou em direção ao ginásio. Sirius esperou James terminar sua mensagem e resolver andar normalmente.
- Qual o problema? - Perguntou assim que o amigo o alcançou.
- Nenhum.
A resposta foi sem emoção.
- Claramente há um problema.
- Não há problema. - James reafirmou. - Já você...!
- Não me amola com isso. Eu coloquei na cabeça que vou resolver as coisas com Marlene hoje à noite.
James olhou para ele, agradavelmente surpreso.
- Finalmente. Por telefone ou pensa em ir até Oxford?
- Vou tentar falar por telefone primeiro. Dependendo de como as coisas rolarem, eu vou até lá amanhã depois das aulas. De qualquer maneira, eu vou para lá esse fim de semana, a não ser que ela diga não querer me ver.
- Eu tenho certeza que ela quer resolver isso.
Isso era um alívio.
- Você...- Sirius limpou a garganta. - Falou com ela nesses últimos dias?
- Não. Pensei em fazer, sua irmã pensou em fazer também, mas decidimos que era melhor você se comprometer em resolver isso. Ainda bem que você vai fazer algo hoje, porque Lily vai agir caso você não faça algo.
- Então melhor eu avisar a intrometida da minha irmã sobre o meu plano
- Ela não está se intrometendo, só quer te ajudar.
Sirius parou no meio do caminho e olhou para os lados.
- Por falar nisso, eu não a vi nas últimas horas. - Colocou as mãos na cintura. - Você viu?
- Lily?! - James olhou em volta também. - Não.
- Passei por Alice há 5 minutos e ela estava sozinha...
- Talvez esteja com alguém da monitoria. - James deu de ombros.
O amigo continuou o caminho, tentando alcançar Remus, que os esperava na entrada do ginásio.
Pegou o celular e ligou para a irmã. Sem resposta. Tentou de novo. E de novo.
Que diabos? Lily nunca ficava sem atender o celular assim em um dia tão banal, quando não tinha nada agendado.
Xingou por alguns instantes enquanto ligava para Alice.
- Eu já falei que tenho namorado, pare de insistir. - Ela atendeu no segundo toque.
- Você bem que gostaria, né?! - Ele brincou, porém não sorria. - Você está indo embora?
- Sim, com Frank. Por quê?
- Você viu Lily? - Silêncio. - Alice?
- Oi.
- Você viu a minha irmã?
- Não. Digo, ela foi embora.
- Com quem?
- Sozinha.
Respirou fundo. Não sabia de onde vinha isso, mas estava com uma sensação ruim.
- Alice, eu sei que você vai defender Lily até o fim dos tempos, mas se ela está com alguém, eu não quero saber com a intenção de matar o desgraçado. Ela não está atendendo as minhas ligações e eu estou preocupado.
- Eu vou tentar falar com ela. Se ela não me atender e eu ver que há um problema, eu te ligo. Mas deixa que eu me ocupo disso, ok?
- Você vai me avisar mesmo?
- Claro, Sirius. Se ela está com algum problema, eu quero ajudá-la e não esconder de você.
- Tudo bem, tudo bem. Me avisa então.
Eles desligaram e Sirius voltou a caminhar, indo em direção aos amigos.
- O que foi? - Remus perguntou.
- Sabe quando você está com aquela sensação de que algo não está certo?
- Do que está falando? - Perguntou James ao abrir a porta e deixou os dois passarem primeiro.
Como já tinham se trocado, foram direto até o fundo do ginásio onde as punching bags esperavam por eles. Sua cabeça estava a mil agora, tentando entender o motivo de estar tão preocupado. Não era algo comum, não era aquele lado intrometido dele, querendo saber sobre a vida dela, querendo xeretar.
Era diferente. Algo que sentiu no mesmo dia que ela teve o acidente alguns meses atrás. Naquela vez, viu sua irmã saindo com o carro e algo ligou em sua cabeça, um sentimento ruim em seu peito, mas não comentou com ninguém. Então recebeu a ligação horas depois com alguém informando que a sua irmã estava no hospital.
- Acho que tem algo de errado com Lily.
- Por quê? - James soltou sua mochila e se virou rápido para ele.
- Como eu disse, é uma sensação.
- Explica melhor. - Pediu o amigo. - De onde surgiu isso?
- Eu não a vejo por horas e ela não está me atendendo.
Sem explicações, James tirou o celular do bolso. Ele parecia conferir alguma coisa, antes de colocar o aparelho no ouvido, ligando.
- Lily deve estar bem, mas ocupada para não atender. Quando ela está na monitoria, nunca atende. - Remus tentou apaziguar os ânimos.
- Ela não tem monitoria hoje. - Respondeu Sirius.
- Merda. - James reclamou baixinho e voltou a ligar. - Ela não me atende também.
- Se acalmem. Os dois! - Remus interveio. - Por que você não liga para Alice?
- Eu já liguei. Elas não estão juntas, mas disse que vai tentar falar com Lily e me avisar.
- Certo. Isso é um bom sinal. Se Lily for atender alguém, esse alguém será Alice. - Remus o assegurou.
James respirou fundo e se afastou, indo até a mochila e jogando o celular em cima.
- E se ela não atender nem Alice? - James cruzou os braços.
- Então vamos tentar encontrá-la. - Remus respondeu. - A boa notícia é que eu vi Edgar Bones indo em direção ao campo agora, então ele está no treino e bem longe dela.
- Isso já estava descartado. - Sirius resmungou, lembrando da conversa de minutos atrás.
- Aparentemente, Lily só não quer ser incomodada agora, seja qual for o motivo.
Talvez só estivesse louco e sua irmã estava tranquila e feliz, sem ouvir o celular. Nunca desejou tanto que ela estivesse escondida com um cara em algum lugar e não o atendesse, como desejava agora. Pelo menos significaria que tudo estava ok.
Seu celular vibrou em seu bolso e o tirou com rapidez.
(15:24) Lils : Estou em casa, estou bem. Não precisa ir atrás da minha melhor amiga para saber onde eu estou, obrigada.
O alívio que o atingiu foi imensurável. Que inferno era ter uma irmã mais nova.
- Ela respondeu. Está em casa.
- Viu? Ela só não quer falar com você. - Remus riu enquanto se preparava para o treino.
James foi até o próprio celular e o pegou, a ruga no meio da sua testa voltando.
- O que é agora? - Sirius perguntou achando estranho as maneirices dele.
- Ela não me respondeu. - O amigo comentou avoado. Depois, James levantou a cabeça para Sirius. - Digo, pensei que ela tentaria me dizer algo, já que eu tentei ligar também.
- Ela deve saber que estamos juntos.
- Ainda sim. - James murmurou antes de jogar o celular.
Olhou para o amigo, depois para o celular dele.
Por que James esperava uma resposta pessoal de Lily?
- Vem logo, Sirius! - Remus o chamou.
Deu uma última olhada para o celular de James antes de soltar sua própria mochila no chão e ir em direção aos amigos.
Com uma pulga bem grande atrás de sua orelha.
You ain't gotta make it easy
Você não precisa facilitar
Where you've been sleeping?
Onde você tem dormido?
This shit is keeping me up at night
Essa merda está me deixando acordado à noite
Just admit it
Apenas admita
Who, who do you love, do you love now?
Quem, quem você ama, quem você ama agora?
I wanna know who
Eu quero saber quem
Lily estava ignorando-o o dia todo.
Sem mensagens, sem resposta da sua mensagem, sem ligação após ele ter tentado ligar.
O que estava acontecendo?
Ela não podia dizer que havia um problema com o celular, pois tinha respondido o irmão algumas horas atrás. Lily estava, deliberadamente, ignorando ELE.
- O semáforo!
Sirius, ao seu lado no carro, chamou sua atenção para o sinal verde, então voltou a acelerar. Voltavam da terapia do amigo e já quase chegavam em Hampstead. Enquanto esperava por Sirius, tentou falar com Lily de novo e sem resposta.
A princípio, ficou puto. Se ela estava brava com ele, por que não conversava com ele para colocar as coisas a limpo? Depois, ficou preocupado. E se ela estava absolutamente puta da vida com ele?
E se estava, POR QUÊ? Ainda por conta daquela discussão de ontem? Ele tinha feito algo a mais e nem sabia?
- Você está bem distraído. - Sirius voltou a falar. O amigo estava um pouco estranho desde o treino no ginásio. Falava pouco, e, quando falava, era com um tom bizarro. Lançava olhares estranhos...
- Pensativo. - Respondeu James, vagamente.
- Pensando em quê?
- Nada demais.
- Você parece mais preocupado do que contemplativo.
- E você, Sirius, conhece mais adjetivos do que eu imaginava.
Sirius soltou uma risada pelo nariz.
- Algo não está indo como você planejava? Talvez tenha brigado com alguém e está irritado por isso?
- Ah, outro adjetivo, Sirius Black. Vocabulário esplêndido. - James brincou. - Não, estou apenas com a cabeça em outro lugar. Porém, você está pensando demais, apenas deixa isso de lado.
- Ok. - Sirius levantou as mãos em sinal de rendição. - Não está mais aqui quem falou.
Seguiram em silêncio até chegarem na casa dos Black-Evans. Os dois quase pularam do carro ao mesmo tempo quando James estacionou. Sirius lançou um olhar estranho, sem entender sua pressa.
Bem, ele não tinha ideia de que James queria poder ver Lily nem que fosse por alguns segundos para poder garantir que tudo estava bem, apesar de precisarem conversar. Apenas isso, era tudo o que queria.
- Preciso ir no banheiro. - Explicou ao entrar na casa atrás do amigo.
A mentira pareceu colar, pois não houve nenhum comentário.
Ela não estava no andar térreo. Com certeza, estava no quarto. Precisava arrumar um jeito de subir sem causar estranheza. Tinham parado ali apenas para que Sirius trocasse de tênis, e então partiriam para Londres, encontrar Remus.
Ficou andando pela entrada enquanto viu o amigo ir até a lavanderia. Se tentasse subir agora, não teria tempo. Sirius voltaria em poucos segundos.
Ouviu um barulho no andar de cima, confirmando sua suspeita de onde poderia encontrar Lily. E se mandasse uma mensagem, pedindo para ela descer?
Se ela não respondeu nenhuma outra mensagem, não seria essa que ela responderia, pensou.
- Já foi no banheiro?
A voz de Sirius em suas costas o assustou.
- Ainda não. Estava distraído.
- Então vai! Eu manobro o seu carro, o meu está na frente. - Sirius disse, pedindo as chaves do carro de James para o dono.
Aquilo estava mais fácil do que pensava.
- Eu não estou me sentindo muito bem, mas não devo demorar.
- Te espero na rua, então.
James assentiu e fingiu ir em direção ao banheiro de hóspedes no andar térreo. Passando pelo corredor, foi até uma janela próxima e viu quando o amigo entrou no carro e deu a partida, o portão da garagem já abrindo em seguida. Aquela era a sua deixa.
Ele deu as costas e correu até as escadas, subindo três degraus de uma vez. Algo estava acontecendo com Lily e ele precisava saber. Se ela não queria mais continuar com aquilo, ele iria entender e aceitar, claro. Só precisava saber. Isso evitaria que ele tentasse lhe alcançar de qualquer maneira: ligações, mensagens ou visitas inesperadas em seu quarto, como a que ele iria fazer agora.
Já estando no corredor dos quartos dos irmãos, James viu a sombra de Lily passar pela porta, sem o ver. Ele desacelerou. Ela parecia nervosa e agitada, passando novamente pela porta do quarto, mas desta vez, do outro lado da cama. Aquilo o intrigou ainda mais, além de o deixar mais nervoso.
Claramente algo havia acontecido para que ela ficasse andando em círculos.
A porta estava completamente aberta, então ele se aproximou o bastante para contemplar a cena de Lily andando de um lado para o outro em pura angústia: ela mordia um de seus dedos, enquanto passava a outra mão pelos cabelos. Ele quase sorriu, percebendo que era um hábito seu também. Mas o sorriso não veio, porque vê-la daquele jeito era perturbador.
- Lily?
A ruiva se virou tão rápido, que James não sabia como ela não havia caído. Os olhos verdes ficaram ainda mais tensos, se era possível, e aquilo só provou que o problema era com ele. Ou, pelo menos, o envolvia bastante.
Não se preocupou por Sirius, pois se o amigo soubesse, ele já estaria morto. Então era outra coisa...
- Precisamos conversar. - Ela simplesmente disse, com um tom de voz razoavelmente calmo para quem parecia tão nervosa.
- Certo. - Ele respondeu lentamente. Lily iria acabar tudo, podia sentir. O que mais poderia deixá-la tão tensa em conversar com ele?
Havia sido muito bom para ser verdade. Mas o que ele poderia esperar também? Namorar com ela, se casar? Escondidos de Sirius? Aquilo estava fadado ao fracasso desde o começo e, no fundo, ele sabia, mas não queria acreditar.
E agora Lily iria terminar tudo.
- James...
A voz dela saiu estrangulada por uma angústia horrível e ele a viu se ajoelhar no chão, aos pés da cama. Sem perder um segundo, ele correu até ela e se abaixou em sua frente. Ela não chorava, mas não parecia longe. Apenas parecia triste, muito triste, de um jeito que ele nunca a vira antes, e aquilo quebrou o seu coração.
- O que houve? - Ela apenas suspirou fundo. James a segurou pelos ombros, querendo ser um conforto para ela e querendo abraçá-la, mas não sabia se era aquilo que Lily queria. - Fala comigo, por favor.
- Eu não sei como dizer. Digo, eu sei, mas...ai, meu deus. - Ela colocou o rosto nas mãos.
James começou a ficar absurdamente nervoso. O que estava deixando-a daquele jeito? Quem fez aquilo? Ele só queria nomes e o resto ele se encarregaria. Iria até o inferno se tivesse que achar o responsável por isso.
- Apenas me diga.
E então, nada naquele mundo o prepararia para as próximas palavras de Lily. James poderia esperar muita coisa, até as piores desta vida: Pettigrew havia encontrado-a e feito algo horrível; Oxford havia negado sua entrada; havia descoberto que não gostava dele tanto assim e precisavam terminar...
Mas nada, nada nunca o prepararia para aquilo.
- Eu acho...que estou grávida!
Caiu de bunda no chão. Literalmente. Seus pés largaram de mão e James, que estava abaixado, caiu de bunda.
Meu deus, o quê?
O quê?
O QUÊ?
Merda, o quê?
Caralho!
Caralho duplo. Puta merda!
Não, não podia ser. Porra, como assim? Alguns dias atrás, ela disse que tudo estava ok por não terem usado preservativo.
Ah, não, porra!
- Mas...no fim de semana...merda, a gente não usou preservativo. Eu pensei que estava ok.
- Não foi do fim de semana, James, não teria dado tempo. Foi de antes...provavelmente da primeira vez, na sua casa.
Mas eles se protegeram! Eram preservativos novos, todos eles! Ele tinha comprado naquela mesma semana, mesmo sem saber o que aconteceria, porque ele sempre tinha preservativo ao alcance.
Oh caralho!
Como seria o paraíso? Amigos que engravidam as irmãs dos melhores amigos poderiam entrar no céu, quando o melhor amigo deixava claro que ela era fora de alcance? Será que os responsáveis dariam uma chance para James se redimir nas nuvens?
Ou seria enviado para o inferno pelo próprio Sirius Black?
Ou pior. Ele mesmo se enviaria para lá. Porque ele entrou ali querendo saber quem fizera aquilo com Lily, quem havia deixado-a daquele jeito e ele iria atrás do responsável aonde quer que fosse. E no final, de certa forma, fora ele mesmo.
Lily estava grávida. Dele! Ele não tinha nenhuma dúvida de que era, pois sabia que eles estavam juntos e exclusivos. Ela poderia ser uma pessoa extrovertida, aberta e bem experiente, mas Lily não teria ficado com outra pessoa neste meio tempo, então não precisaria perder seu tempo pensando nisso. Era dele.
Ela estava grávida. Lily Evans estava grávida.
Aos dezoito anos. A irmã de Sirius!
E era dele.
De repente, ele pareceu voltar para o quarto e a primeira coisa que viu foram os olhos verdes de Lily o encarando e tudo o que importou foi ela. Algo que ele fez parte a estava deixando daquele jeito: a expressão perdida, os olhos verdes sempre brilhantes, estavam opacos mesmo depois de algumas lágrimas.
A vida seria mais gentil com ele. Mesmo com um filho, James poderia ir para a universidade e terminá-la sem maiores problemas, ainda que tivesse que trocar fraldas. Mas Lily? Ela poderia ir para a universidade, enfrentaria os cochichos maldosos de pessoas baixas e teria que parar quando o bebê nascesse e retornar aos estudos meses ou mais de um ano depois.
Ela quem iria levar os olhares tortos, ela quem teria que estudar e se cuidar e cuidar de uma gravidez ao mesmo tempo. Seria Lily quem teria seu diploma adiado e o começo de sua nova vida. Porque ele sabia que, apesar de todo o dinheiro que a família tinha, ela queria ter sua profissão e sair da casa dos Black-Evans. E agora teria que sair com um bebê embaixo do braço.
E James iria estar ao lado dela. O tempo inteiro.
Se ele não fosse morto.
Voltou novamente para o quarto. Alguém poderia culpá-lo em sair e voltar dos devaneios depois daquela notícia? Ele já nem sabia há quantos minutos ela havia lhe dado a notícia mais. Lily, agora, tinha a cabeça baixa, em direção ao tapete.
Ok, ele podia devanear depois. Neste momento, ele tinha que focar em Lily.
Com cuidado, ele segurou o rosto dela e o levantou para os olhos se encontrarem.
- Lily, está tudo bem. - Foi a primeira coisa que conseguiu falar. Talvez porque fosse algo que ele mesmo precisasse acreditar. - Está tudo bem. - Repetiu.
- Não, James, não está. - Uma das mãos dela cobriu a mão dele ao lado de seu rosto, como se tentasse encontrar mais forças naquele gesto.
- Está tudo bem. - Ela desviou os olhos para o chão, mesmo tendo seu rosto virado para ele. - Olhe para mim. - Ela o fez. - Eu estou aqui e estarei do seu lado para tudo.
- Nós temos apenas dezoito anos, James. Estamos indo para a universidade...meu deus, eu esperei tanto por Oxford, você tem todo o estresse de decidir entre duas muito boas e...o futuro...!
- Melhor agora do que mais cedo, não?! - Ele disse soltando o ar, como se tentasse achar o lado bom disso, mesmo sendo um bem fraco. - Eu ainda estou tentando entender como isso aconteceu, já que nos protegemos todas as vezes naquela noite.
- Camisinha só funciona 97% das vezes. - James arregalou os olhos para a informação e deixou as mãos caírem. - Segundo F.R.I.E.N.D.S. E realmente está escrito na embalagem.
Sim, sim. Ele sabia que muitas coisas poderiam acontecer com preservativos, mas caiu naquela velha história de "nunca vai acontecer comigo". E agora ele entraria para a porcentagem daqueles 3%.
- Qual teste você fez? - Ele perguntou, querendo sair do assunto "como aconteceu?", porque, bem, eles transaram e a camisinha não funcionou. Não teria razões para continuar pensando no mecanismo do acontecimento.
- De farmácia. - Ela puxou o tal teste de dentro do bolso. - Mas deu inconclusivo. Isso pode acontecer no começo da gravidez, ou não ter feito o teste direito ou se o teste não estiver funcionando bem.
- Ok, ok. - Ele segurou os ombros dela, tentando acalmá-la. - Você tem algum sintoma?
- Não ainda. Eu estou atrasada...por quase cinco dias e não percebi. Deveria ter vindo domingo, mas eu não reparei que não veio, apenas hoje...E eu nunca estou atrasada, eu sempre sei o dia certo...nunca atrasei antes, nunca! - Ela finalizou começando a se agitar novamente.
Não sabia como, mas ele parecia o mais calmo entre eles. Se alguém perguntasse o que tinha feito para aquela proeza, ele não saberia o que responder. Talvez ver Lily daquele jeito ativou o modo "sobrevivência", onde um teria que pensar logicamente enquanto o outro se desesperava. Os dois desesperados seria a morte, e os dois calmos eles não iriam para lugar nenhum. Devia ter um equilíbrio e James pegou o papel da pessoa calma.
Não sabia como, mas ali estava ele.
- Ok. Nós vamos até um laboratório agora e fazer o teste. Tudo bem? - Ela assentiu. - E então, conversar.
- Conversar? - Ela perguntou.
- Vamos ter que conversar sobre o que você quer fazer. - Ela arregalou os olhos. - Eu não vou impor nenhuma vontade minha, Lily. Você vai me dizer o que quer fazer e você pode ter certeza de que eu vou te apoiar para qualquer uma das suas escolhas. - Os olhos dele procuraram os dela, querendo que ela entendesse o que ele dizia e que ele era verdadeiro. Ainda que estivessem perto, ambos sentados no chão do quarto, ele se aproximou dela. - Eu vou respeitar se você não quiser continuar com a gravidez e eu vou te ajudar do começo ao fim. - James pegou a mão dela e a apertou. - E se você quiser continuar, eu vou estar ao seu lado além do fim, além de tudo.
O desespero ainda estava ali, mas James conseguiu ver alguma mudança nos olhos dela. Talvez fosse um alívio por saber que ela teria alguém, que teria ele lhe dando o suporte, ao invés de agir como um merda.
- Eu estou com medo. - A voz dela estava fraca.
- Eu estou aqui com você e sempre vou estar. - Ele colocou os fios de cabelo dela que caiam em seu rosto, para trás de seus ombros. - Para o que você quiser, para qualquer decisão que tomar.
- Tomarmos! - ela o corrigiu.
Aquilo arrancou um pequeno sorriso verdadeiro dele.
Talvez a notícia ainda não tivesse caído de verdade nele, talvez estivesse em um choque tão grande, que não conseguia distinguir as coisas ou pensar claramente. Mas se sentia calmo, e o máximo de tranquilidade possível. Sim, ele entendia que a coisa era grave e que teria muita, mas muita coisa para resolver.
Mas a sua prioridade agora era Lily e como ela se sentia.
- Vamos, pegue o seu casaco.
- Mas você não ia sair com Sirius?
- Eu vou arrumar uma desculpa, pedir para ele ir na frente e encontrar Remus.
James ofereceu as duas mãos para ela, que aceitou. Ele se levantou a puxando consigo, então não foi surpresa quando os dois perceberam, ao mesmo tempo, uma sombra na porta do quarto.
Uma sombra alta e grande. Uma silhueta, na verdade.
De Sirius.
Ninguém precisava perguntar se ele havia ouvido a conversa. Sirius estava deixando bem claro em seu rosto e em sua postura. Ele ouviu tudo e, se não tudo, o principal.
E foi quando James quase caiu de bunda no chão pela segunda vez.
CONTINUA...
N/A:
Próximo capítulo: não sei! ahhaha mais informações no Instagram nos próximos dias!
Lembrem-se: vocês me amam! :P
P.S: a correção foi feita como deu :/ sorry!
Beijos!
