Notas da autora
Yuugi decide...
Kisara fica...
No palácio, Atemu...
Os amigos de Atemu...
Neb-i (um título dado aos de alto status ou nobreza nos tempos egípcios antigos; traduzido aproximadamente como "Meu Senhor".)
Hem-netjer (sumo sacerdote e chefe dos templos).
Hemt-netjer (alta sacerdotisa e chefe dos templos).
Hem tem muitos significados, de governante a esposa, de escrava a serva. Quando usado no formato "Hem- (Nome de Netjer)", é um título usado para um sumo sacerdote e chefe de um templo.
ḥwt-nṯr (templo)
ḥwt-nṯr significa "mansão ou recinto de um deus
Netjer (Deus / Deusa).
Hem-netjer é traduzido como "servo de Deus".
Hemt-netjer é traduzido como "serva de Deus".
Capítulo 24 - Conversas
Em seu desespero, ele concentra o seu Kiei, fazendo pequenas pedras voarem do chão contra as pessoas. Era o mesmo processo que fazia com os galhos percebendo que de fato, não precisava orar e ao olhar com preocupação para a prateada, percebe que a sua amiga não tinha medo em seus olhos e sim, surpresa e posterior admiração, fazendo-o corar levemente pela atenção feminina.
Durante a confusão, a jovem fez um movimento inconsciente com o braço, fazendo todos julgarem erroneamente que ela também era capaz de usar magia, acabando por chamar a atenção para ela, com ambos não percebendo um homem que os observava com nítido interesse, passando a murmurar algo para os outros que estavam ao seu lado.
Então, ambos conseguem escapar da fúria das pessoas, despistando a multidão nos becos e após alguns minutos, Kisara cai de joelhos. Ela estava arfante, com Yuugi se juntando a ela, para depois, olhar no entorno, avistando um recipiente parcialmente rachado de uma pilha jogada de qualquer jeito em um canto, com ele pegando o objeto enquanto contatava mentalmente a sua amiga:
"Yukiko-chan, é possível usar a sua magia para invocar um gelo fino, visando transformá-lo em água para que possamos beber?"
A dragoa fica pensativa e depois, fala:
"Eu acho que é possível. Mas não tenho certeza... Bem, não custa tentar."
"Então, eu vou tentar fazer isso. Afinal, nós não podemos encarar os aldeões, de novo."
"Fique a vontade."
A prateada fica fascinada ao ver algo branco surgir discretamente das mãos de Yuugi e que é depositado no fundo da espécie de vaso quebrado e ao tocar no objeto que era branco, ela sente o frio e exibe fascínio em seus olhos.
- Isso se chama gelo.- ele fala com o seu usual sorriso adorável.
- "Gelo"? – ela inclina a cabeça para o lado.
- É a água congelada. A água fica dura e temos o gelo. Tem a neve que é a água bem fria, mas não é dura. – nisso, ele faz surgir um pouco de neve e Kisara nota a diferença, ficando fascinada – Onde eu morava tinha montanhas com neve.
- Então, você veio de bem longe.
- Sim. Quer dizer, eu acho.
Ela observa os gelos virando água e ambos dividem o líquido precioso, com o jovem ficando feliz por conseguir água daquela forma.
Enquanto eles sorviam grandes goles de água, a prateada pergunta, curiosa:
- O que foi aquilo que você fez com as pedras?
- Eu usei o meu Kiei.
- "Kiei"? – ela pergunta, arqueando o cenho direito.
- Kiei é um poder que é passado apenas entre as gerações de sumo sacerdotes da minha vila natal. Antigamente, eu pensava que era preciso uma oração ao Deus de determinado elemento ou objeto para usar o seu poder. Descobri há algum tempo, atrás, que posso usá-lo sem oração.
- E você pode usar esse poder livremente?
- Não. Se eu usar demais, eu me canso e preciso esperar a recuperação dos meus poderes e se eu usá-lo demasiadamente, irá demorar mais tempo para me recuperar.
- Mesmo possuindo esse limite é um poder incrível. Ele lembra heika (magia) que os Guardiões Sagrados da corte de vossa Hemet (Majestade) e alguns aldeões usam, assim como o Per'a'ah (Faraó).
- "Heika"?
- É um poder que lembra o seu embora eles possam criar vários objetos com magia, além de infundi-los a itens, tornando-os mágicos.
- Isso é interessante.
"Eu não sei o motivo de você ficar surpreso, Yuugi-kun. O meu poder é proveniente da minha magia que eles chamam de heika. Ou já se esqueceu disso?" – Yukiko fala mentalmente.
"Você usa magia?" - as sobrancelhas de Yuugi se dobraram para cima, exibindo o espanto nítido em seu semblante
Yukiko fica chocada, para depois, se recuperar e após se refazer da surpresa, ela pergunta de forma hesitante:
"Ei... isso é sério?"
"Bem, você nunca me disse o que era o seu poder. Eu presumi que era como o meu Kiei. Você nunca disse que era magia. Ademais, nunca vi você criar coisas sem serem feitas de gelo, assim como nunca vi você imbuir um objeto com magia." – ele fala defensivamente.
"De fato, eu não falei que usava magia. Mas o que acha que é o objeto que está no seu pulso e que eu coloquei em você quando era bem jovem? Eu o criei com a minha magia, além de impregná-lo de magia adicional para que fosse invisível aos outros. Se isso não é um objeto criado por magia e imbuído com poder mágico, eu não sei mais o que poderia ser." – ela fala, revirando os olhos.
Yuugi olha para a sua pulseira em seu punho, se recordando dela, fazendo-o ficar surpreso por ter se esquecido do objeto mágico em seu punho.
Afinal, ele usava há vários anos e por causa disso, havia se esquecido da sua existência.
O jovem fica constrangido ao perceber isso, para depois, corar, ouvindo a albina murmurar em tom de diversão, abanando a cabeça para os lados após suspirar:
"Só você mesmo, Yuugi-kun."
- Está tudo bem, Yuugi-kun?
O jovem de cabelos tricolores sai de sua mente com a voz preocupada de Kisara e ao olhar para o semblante preocupado dela, sorri docemente para confortá-la, com a jovem ficando aliviada.
Alguns minutos depois, Yuugi contata Yukiko e pergunta:
"Eu posso dar a minha pulseira para a Kisara? Assim, você pode ajudá-la se for necessário. Eu não preciso dela porque você está comigo."
A dragoa fica surpresa e após alguns minutos, fala:
"Eu compreendo o motivo do seu pedido. Eu removi a minha magia que obrigava ao item a ficar no seu pulso. Agora, você pode removê-lo. Oriente-a a nunca comentar do objeto, que também ficará invisível."
Ele consente e faz como ela orientou, retirando o item e o mostrando para a prateada que fica em uma perda de palavras porque era lindo, com Yuugi falando:
- Eu quero dar para você. É uma pulseira mágica. Ela é invisível para os outros. Eu posso colocar no seu pulso?
- Tem certeza disso, Yuugi-kun? Ela é muito linda.
- Sim. Eu tenho certeza. – ele fala consentindo enquanto sorria de forma adorável.
O jovem de cabelos tricolores pega gentilmente o seu pulso, para depois, prender a pulseira no mesmo sobre o olhar de admiração da jovem ao ver o objeto em seu punho, com ela o acarinhando.
- Como ele é mágico, ninguém mais pode vê-lo. Eu peço para nunca comentar com ninguém.
- Então é por isso que você foi capaz de mantê-lo, mesmo como escravo. Eu ia perguntar como você conseguiu ocultá-lo dos seus mestres.
Eles conversam por algum tempo até que decidem se afastar do local, com ambos decidindo sair da cidade, com o adolescente de olhos ametistas ficando feliz por ter mais uma amiga.
Enquanto faziam isso, Yukiko, que estava entediada, havia decidido se distrair, se recordando do dia em que descobriu que o seu amor para com Yuugi era maternal, com ela desejando protegê-lo e cuidar dele, fazendo assim com que não sentisse ciúmes de Kisara.
Inclusive, tudo o que a dragoa queria era a felicidade para ele e nada mais.
Conforme se lembrava do dia que descobriu os seus sentimentos maternais para o seu amigo, a albina se recorda dos sonhos recorrentes de Yuugi e que envolviam uma pessoa de cabelos espetados e orbes carmesins que portava em seu tórax um objeto que brilhava, com o seu amigo conseguindo ver a pele bronzeada dourada dele.
Pelo menos, era assim que Yuugi descrevia os seus sonhos para ela e inclusive, falava que se sentia unido a essa pessoa misteriosa que não conseguia discernir por completo embora tivesse a estranha sensação que o conhecia há muito tempo.
De fato, ela podia sentir a intensidade dos sentimentos dele para essa pessoa, com eles sendo demasiadamente intensos e profundos conforme os analisava, percebendo que por algum motivo desconhecido a ambos, havia uma conexão ou mais precisamente, uma espécie de laço inquebrável entre o seu amigo e esse homem misterioso que povoava os sonhos dele.
Enquanto a meia dragoa se encontrava perdida em seus pensamentos, ela sai abruptamente deles ao sentir que algo ocorreu com Yuugi e ao tentar intervir, sente que algo a bloqueava quando tentava forçar a troca de mente com o seu amigo inconsciente porque sentia que ele não estava consciente.
Inclusive, a albina sente que se forçasse essa troca apenas iria machucar a mente dele, fazendo-a ficar demasiadamente confusa.
Afinal, não sabia o que estava acontecendo com o seu amigo e Kisara, fazendo com que ficasse preocupada com ambos.
Por precaução, embora temesse pelo pior, ela decidiu esperar, angustiada, que ele despertasse da inconsciência para que soubesse o que ocorreu ao usar a visão dele e ouvidos enquanto que havia decidido analisar o que a estava bloqueando, visando adiantar uma forma de transpassar esse bloqueio, com a albina percebendo que precisaria ficar calma para que pudesse encontrar um meio de contornar o que a estava bloqueando.
No lado de fora, alguns homens haviam cercado ambos e os golpearam no abdômen, fazendo-os ficarem inconscientes, com o Líder deles colocando duas coleiras mágicas de ouro com inscrições egípcias e que eram dotadas de uma magia imensa, executando as ordens que eram dadas e punindo o portador, caso as ordens dadas ao mesmo não fossem cumpridas.
Por precaução, ele ordenou em um murmúrio que a coleira subjugasse o poder de ambos, com ele desconhecendo o fato de que a albina não tinha magia e sim, um Ka e Bah porque o seu espirito possuía a forma de uma dragão prateado de olhos azuis, conhecido como o temível Deus dragão por causa de suas aparições e de sobreviventes que testemunharam o seu poder.
Mesmo que o líder deles não fosse capaz de usar magia e muito menos, imbuir poder mágico em um item, ele havia comprado esses itens de um mago errante que viajava vendendo objetos mágicos. Ele havia encomendando os itens caso houvesse alguém com magia e fosse incrivelmente belo, para que pudesse vender por uma boa quantia de dinheiro.
O homem se regorjeia pela captura porque havia visto junto dos seus subordinados, o que ocorreu entre a multidão e depois a fuga deles, com ele sendo obrigado a esperar pacientemente que ambos saíssem de perto da aglomeração de pessoas para poder captura-los.
- Você foi incrível, chefe.
- Sim. Eu ordenei que a coleira suprimisse os poderes deles. Infelizmente, eu não sou mágico.
- Vai ficar com ambos ou vai vendê-los, agora que não podem usar os seus poderes?
- Se eles forem puros, serão vendidos no leilão. Portanto, leve ambos e verifique isso. Depois, os coloque nas jaulas.
- Sim, chefe.
Nisso, eles pegam Yuugi e Yukiko, os levando até o local que tinha escravos, para que um homem se certificasse que ambos eram virgens. Em seguida, eles são colocados em jaulas diferentes, mas que ficavam uma do lado da outra, com ambos ainda se encontrando inconscientes.
No imenso complexo do palácio, o mesmo estava observando a vila ao longe enquanto se recordava dos seus sonhos que eram recorrentes desde que era criança e que a pessoa misteriosa havia crescido, embora fosse menor do que ele.
Atemu suspira tristemente frente ao pensamento de nunca poder ver o jovem que habitava os seus sonhos.
Afinal, por mais que procurasse discretamente entre a multidão por todos esses anos sempre que saia em sua liteira ou quando cavalgava, nunca o havia encontrado e ele temia que nunca o encontrasse.
Então, o monarca sai dos seus pensamentos e volta a usar a máscara do Faraó quando um servo entra no seu quarto, ficando de joelhos e com a fonte abaixada em sinal de respeito e submissão, uma vez que o Faraó era visto como Deus na Terra por ser filho dos Deuses, assim como o senhor de tudo e de todos.
O soberano pergunta em sua voz barítono profunda e usual:
- O que foi?
- Neb-i Jounouchi, Neb-i Ryou e Neb-i Honda, além de Neb-i Mariki, acabaram de chegar, Per'a'ah. – ele fala, sem olhar no rosto de seu soberano porque os servos, escravos, assim como qualquer outra pessoa não podia olhar, a menos que fossem autorizados.
Quanto a tocá-lo, normalmente, somente os familiares mais íntimos podiam tocá-lo e no caso do banho, massagem e qualquer outra atividade que precisasse tocar a pele do Faraó, somente filhas e filhos de nobres escolhidos pelo monarca podiam tocá-lo, desde que o Faraó ordenasse ou autorizasse.
Afinal, ele era um Deus na terra.
Portanto, tocar ou erguer os olhos para olhar a sua face sem a permissão dele era um crime gravíssimo.
- Eles devem esperar no meu escritório.
- Sim, Per'a'ah.
Então, Atemu dispensa o servo com um movimento de mão, com o mesmo se afastando enquanto usava o pé esquerdo na frente para mostrar que entregava o seu coração ao monarca, para em seguida sair do quarto, com o soberano inspirando profundamente, esperando que os seus amigos de infância tivessem algum plano para relaxá-lo antes que ele cumprisse o ritual e posterior, preparação, para a comemoração do seu aniversário, marcado para aquele dia.
O monarca passa a andar pelos corredores, com os guardas curvando a fronte conforme ele passava até que passa perto de um vaso ao chegar a uma parte razoavelmente privativa do corredor e sem guardas próximos, ele detém o seu passo ao ouvir um som proveniente de um dos objetos, para depois ver uma jovem bronzeada pulando nele, o agarrando no processo, fazendo-o se surpreender inicialmente para depois reconhecer quem havia pulado nele enquanto a mesma sorria inocentemente, perguntando de forma expectante:
- O surpreendi?
O monarca suspira, ignorando o corpo feminino grudado nele, com ele conseguindo fazer facilmente porque ele a via como se fosse uma irmã mais nova, além de saber que ela fazia isso de forma inocente e sem qualquer malícia.
- Sim. O que faz aqui? Eu pensei que você tinha aulas com o Mahaado na parte da manhã – ele olha para a jovem, arqueando a sombrancelha direita, para depois suspirar, perguntando em tom de confirmação – Andou fugindo das aulas, de novo?
- Eu só errei um pouquinho o exércio de heika. Por causa disso, eu estou sendo obrigada a repetir o feitiço mais de cinquenta vezes. Por que tudo isso? Só errei um pouco. – ela fala em um murmúrio, fazendo biquinho com os lábios enquanto bufava as bochechas, com o soberano suprimindo eficazmente um sorriso de diversão que desejava se formar em seu rosto ao ver a face dela.
- Bem, quando eu errava, o nosso mestre, o meu e de Mahaado, fazia repetir o feitiço cinquenta vezes também. – o monarca comenta.
A aprendiza de mago faz beicinho e após alguns minutos, suspira, até que sente alguém a retirando do Faraó ao erguê-la no alto e quando ela vira o rosto, se preparando para questionar quem fez isso, encontra o olhar severo do seu mestre e engolindo em seco, o ouve falar em um tom irritado enquanto era repreendida por ele:
- Mana, você precisa praticar mais. Ademais, não é mais príncipe e sim, Per'a'ah. Quantas vezes eu preciso lembrá-la desse fato? Além disso, eu cansei de falar para você parar de se ocultar nos vasos do palácio. Eu também quero acrescentar que você já é mocinha e por isso, não pode saltar e grudar no nosso monarca. Aliais, você não pode fazer isso com ninguém. Você não é mais uma criança.
- Mas é divertido e eu consegui surpreender o Iry-pat (príncipe herdeiro)! Além disso, aquela magia não é divertida. É chata. – ela fala, fazendo biquinho com os lábios no final ao mesmo tempo em que cruzava os braços.
Atemu sorria com a cena, permitindo que a sua máscara não estivesse em seu rosto porque estavam sozinhos naquele trecho do corredor.
O motivo do seu sorriso era pelo fato de Mana ser muito infantil, mesmo possuindo o corpo de uma jovem porque a sua mente ainda era de uma criança. Ele via nos olhos dela a inocência infantil e que os seus atos não visavam atraí-lo sexualmente ou algo assim. Quando pulava nele era com o espirito de uma criança inocente, sem qualquer malícia.
Porém, isso era motivo de preocupação, tanto para ele, quanto para Mahaado porque ela era tão inocente que alguém poderia fazer alguma maldade com a jovem, ainda mais pelo fato dela estar se tornando uma moça.
- É Per'a'ah, Nsw (rei), Heru (Hórus), Hemet (majestade) ou Nsw-bity (Rei do Alto e Baixo Egito). Você escolhe. – ele fala, massageando as têmporas, para depois, abaixá-la – Por falar nisso, como passou pelos guardas?
- Usei heika (magia). – ela disse de forma orgulhosa.
O Rei e o Hem-netjr que também era o superintendente da corte dos magos, além de Guardião Sagrado se entreolham, para depois, perceberem que os guardas nos corredores adjacentes ao que eles se encontravam pareciam estar em uma espécie de transe ao perceberem que os seus olhos estavam vidrados.
Um discreto sorriso surge no rosto de Atemu que lutava para mostrar a seriedade do seu cargo, para ajudar o seu amigo a repreender Mana.
- Não podemos fazer isso com os guardas. Eles protegem o castelo. Se deseja ver o Per'a'ah, preferencialmente, sem se ocultar em um vaso, solicite uma audiência com ele.
- Audiências são chatas... – ela fala amuada, como uma criança pequena, colocando os braços atrás da nuca enquanto fingia chutar uma pedra.
- Agora, desfaça o heika que lançou neles. – ele fala, cruzando os braços.
Mana se vira para os guardas e concentra a sua magia, fazendo alguns floreios com o seu cajado.
Porém, ela não consegue desfazer a magia sobre um suspiro exasperado de Mahaado enquanto Atemu evitava demonstrar o sorriso divertido que queria surgir em seus lábios, para ajudar o seu amigo de infância a repreendê-la ao mesmo tempo em que era para não estimular tal prática, com ele confessando que adorava ter esses momentos de relaxamento, longe dos olhos do público, pelo menos, por alguns momentos.
Mana faz surgir um pergaminho enorme e o abre magicamente, procurando o contrafeitiço para desfazer o que fez e após alguns minutos de leitura, consegue encontrá-lo e o executa, os fazendo despertarem do seu transe, com muitos exibindo confusão em seus semblantes.
- Viu mestre? Eu consegui. – ela comenta com orgulho, fazendo o pergaminho desaparecer ao enviá-lo de volta ao seu lugar de origem.
- De fato, conseguiu usar o contrafeitiço, mas precisou de auxilio e só conseguiu após alguns minutos. – Mahaado fala em um tom sério – Você compreende, agora, o motivo de treinar heika? Você tem talento. Mas precisa de concentração e treino para poder dominar esse poder.
Ela suspira e fala cabisbaixa:
- Eu entendi... É que estava maçante.
- Nem sempre podemos fazer tudo o que desejamos. Agora, volte para os seus estudos. Eu quero verificar o seu progresso depois do almoço porque você terá a parte da tarde para se preparar para a cerimônia a noite. Não use o seu heika nos guardas novamente. Entendeu?
Desanimada, ela consente, para depois andar pelos corredores até a câmara de estudo de magia, com Atemu comentando após a jovem se afastar:
- Ela dominou um heika de alto nível. Claro, não conseguiu executar o contrafeitiço. Mesmo assim, é um feito incrível.
- Sim. Ela tem talento. Só precisa ser tão aplicada nos estudos, quanto é para fugir deles. – o mago fala em um murmúrio, massageando a testa – Eu sinto que envelheci vários anos.
O soberano ri levemente e fala:
- Isso é a mais pura verdade – nisso, ele desfaz o sorriso – Eu estou preocupado com ela. Afinal, a sua mentalidade continua sendo de uma criança.
- Isso também me preocupa.
Atemu observa um ponto a sua frente, ficando reflexivo, para depois, olhar para o mago, comentando:
- Sempre que eu vejo vocês dois, eu avisto um pai e sua filha. Sempre tive essa impressão de ambos.
O Superintendente da Corte dos magos consente e após se recuperar da surpresa que o acometeu em virtude da dedução dele, ele comenta:
- Eu também me vejo assim, várias vezes. Em muitos momentos, ela parece mais a minha filha do que uma aprendiza sobre a minha tutela.
- Qualquer coisa, Isis pode ajuda-lo. Ela parece ter vocação para ser mãe. – Atemu fala dando uma piscadela.
Mahaado cora levemente enquanto o Faraó sorria de canto porque o monarca sabia do amor que o seu amigo de infância tinha pela Hemt-netjr Isis, portadora do Sennen Tauku (Colar do Milênio) enquanto que Mahaado tinha o Sennen Ringu (Anel do Milênio), com a bronzeada também nutrindo sentimentos profundos pelo mago porque o monarca havia observado atentamente os olhares discretos que eles trocavam entre si, quando achavam que ninguém os estava observando.
Em decorrência de ambos serem leais, além de quererem evitar problemas ao soberano ou murmúrios inconvenientes na Corte Real por serem membros dos Guardiões Sagrados, eles mantinham o amor que sentiam um pelo outro oculto em seus corações e era algo que deixava o soberano triste porque desejava que eles ficassem juntos para que pudessem ser felizes.
O mago passa a questionar a si mesmo, se o seu amigo sabia do amor que sentia por Isis e o dela por ele.
Como se lesse os pensamentos dele, Atemu fala:
- Eu sei o que ambos sentem um pelo outro e não concordo com a ideia de vocês ficarem afastados por causa dos seus títulos. Eu vejo a intensidade do olhar que vocês possuem um pelo outro quando trocam olhares fugazes durante as reuniões e ao se encontrarem nos corredores.
Após se recuperar da surpresa, o mago fala:
- O senhor é o Per'a'ah. Portanto, desejamos evitar fofocas e qualquer coisa que possa prejudica-lo.
O monarca cruza os braços e fala:
- Eu não vejo como isso pode me prejudicar. Ademais, sempre há alguma fofoca, principalmente entre os nobres. Eu não acho que as suas trocas de olhares tenham passado despercebidos. Eu não quero que vocês fiquem separados por causa do meu título. Tudo o que quero é que sejam felizes.
Mahaado sorri ao ficar feliz pela preocupação dele e desejo de vê-los felizes, com ele esperando essa reação do seu amigo de infância porque ele sempre foi distinto, desde que era jovem.
Inclusive, o pai dele também possuía certa distinção.
Claro, como Per'a'ah, ele precisava ocultar a sua verdadeira natureza e coração em público.
Afinal, era necessária uma mão divina firme e igualmente autoritária para manter a ordem e a paz juntamente com o fato do Per'a'ah ser visto como um Netjer (Deus).
Portanto, ele devia agir como se fosse uma divindade em público.
Por isso, Mahaado sabia que somente podia ver a verdadeira natureza dele quando estavam em um local longe do público, onde ele podia deixar de ser um Deus vivo, para ser, apenas, Atemu.
- Está pronto para a cerimônia do seu aniversário? – o mago continua a falar normalmente com ele porque estavam longe dos guardas enquanto andavam por um corredor que fornecia acesso ao escritório real onde os amigos deles estavam esperando por eles.
O soberano suspira e fala:
- Sim. Mas é maçante. Ainda mais pelo fato de ter o ritual que eu preciso fazer antes do almoço e depois, ficarei a tarde inteira sendo preparado para a cerimônia.
- Bem, o senhor tem que estar impecável como se fosse um Netjer (Deus), não importando a cerimônia. Infelizmente, não há escolha.
- Sim. – o rei fala, olhando para o horizonte enquanto se encontrava pensativo.
O mago notou o semblante pensativo e pergunta, preocupado:
- O que houve Atemu?
- Você se lembra da nossa conversa, antes dos preparativos para eu ascender como Per'a'ah? Nós tivemos essa conversa nesse mesmo local.
- Sim, eu lembro perfeitamente desse dia. Você estava nervoso, o que era normal. Afinal, estaria carregando um império nos ombros juntamente com a demanda por um Iry-pat (príncipe herdeiro).
- Verdade. Eu fiquei nervoso e comentei da minha preocupação porque eu temia não conseguir agir conforme os ensinamentos do meu pai ao me preparar para a vida pública e como herdeiro do império. Afinal, quando o meu genitor estava em público, ele despia-se do título de homem e se tornava um Netjer, sendo que eu tenho que fazer o mesmo, somente podendo ser eu mesmo longe do público.
- Senão me engano você demonstrou nitidamente os seus temores porque mesmo sendo preparado para assumir o trono desde que era pequeno, não se sentia confiante. O que era plenamente normal.
- Eu cheguei à conclusão que por mais treino que você tenha estudado, você nunca estará totalmente preparado e sempre haverá o medo. Depois que eu falei isso, eu cheguei a comentar que não me sentia tão confiante porque temia não estar à altura do que os outros esperavam de mim. Ou melhor, do que esperavam do Per'a'ah.
- Sim. Você também comentou algo sobre as decisões que teria que tomar.
- De fato, eu sabia que quando fosse coroado, eu precisaria tomar decisões que apesar de ferirem o meu coração eram necessárias para a manutenção de Kemet (Egito), tal como o meu pai fazia. De fato, teve muitas decisões e ordens que eu tomei, das quais eu preciso conviver e mesmo sabendo que foram necessárias, nada muda o fato de que feriram o meu coração. – ele fala o final, torcendo os punhos, para depois, abri-los enquanto suspirava.
- Foi o mesmo com o seu pai, Akhenamkhanen, que sofreu com muitas das decisões que precisou tomar pelo bem do império ou pela manutenção da ordem ou então, para ambos – o mago sentia pena do seu amigo porque compreendia a que ordens ele se referia, assim como as sentenças que ele teve que proferir.
- Eu prometi a mim mesmo que dependendo da situação, eu iria diminuir o julgo da minha mão o máximo possível, ficando no limiar do que seria minimamente aceito porque sou plenamente ciente que uma mão divina autoritária e implacável se faz necessário para manter a ordem de um império tão grandioso.
- Verdade. Você conseguiu fazer isso em muitas decisões e sentenças... Mas porque está comentando sobre isso? – Mahaado pergunta, arqueando o cenho direito.
- Faz um ano que eu sou o Per'a'ah e confesso que desejo saber se eu estou sendo um bom Faraó, para que eu não tenha arrependimentos. Talvez seja a ansiedade dos primeiros anos como governante de um império tão vasto.
- Naquela época, você já estava à altura de ser um Per'a'ah e nesse período, demonstrou toda a sua capacidade em gerir um império. A meu ver, você é um esplêndido Per'a'ah, Atemu. O império está em ordem, a administração está impecável, as fronteiras estão bem vigiadas e fortalecidas com soldados. O reino também possuí guardas suficientes para manter a ordem e os tribunais estão funcionando exemplarmente. Ademais, os fazendeiros estão sendo bem assistidos e você demonstrou uma capacidade nata de gerenciamento das cheias do Nilo, além de possuir uma diplomacia natural. Você soube lidar de forma excelente com as reuniões envolvendo outros monarcas e representantes. Ademais, o povo o adora e não somente como divindade. Os seus julgamentos são justos e você soube dosar a sua mão ao ponto de manter uma autoridade divina implacável e uma gentileza imperceptível para muitos quando é necessário. Poucos são os que conseguem manter esse equilíbrio. Aposto que muitos governantes o invejariam. Não se esqueça do fato que também conseguiu suprimir o boato sobre a mãe do seu filho, evitando assim que o comportamento dela respingasse nele. A forma como você geriu isso, conseguindo manter esse boato como falso em vez de verdadeiro, além de sufoca-lo discretamente, garantiu o futuro do seu filho, mesmo que ele não tivesse nascido como uma cópia sua. Claro que a aparência ajuda, mas a estratégia que adotou e a forma como o aplicou fez toda a diferença, chegando ao ponto de não se importarem com a aparência da criança.
Ele sorri e fala, olhando para o seu amigo:
- Obrigado, Mahaado. De fato, eu notei esse olhar em meu povo junto do fato de eu realizar as minhas escapadas ao me disfarçar de aldeão com uma escolta disfarçada também e quanto ao boato, eu fiz, praticamente, um milagre. Além disso, devo dar os devidos créditos em relação ao império para aqueles que cuidam respectivamente de cada detalhe e função. Eu posso ser o Per'a'ah, mas é um fato inegável que um governante não pode gerir um império sem ter pessoas que cuidam dos diversos assuntos e que por sua vez, possuem superiores para fiscalizá-los. O crédito pela estabilidade e desenvolvimento do império não devem ser creditados somente para mim. É um esforço em conjunto, com cada pessoa cumprindo a sua respectiva parte. Eu apenas recebo as informações e tomo as devidas decisões, quando se faz necessário o meu parecer ou caso eu perceba algo de errado nos relatórios.
O mago sorri, admirado pela humildade do seu amigo ao mesmo tempo em que esperava essa consideração dele e passa a sentir ainda mais orgulho, além de devoção.
Então, Mahaado torna a ficar um pouco mais atrás, assumindo uma postura respeitosa e submissa para o soberano por se encontrarem em um local público, com vários guardas de prontidão nos corredores e portas.
Afinal, o Superintendente da corte dos magos precisava agir de acordo com a etiqueta para aborrecimento do soberano enquanto que Atemu havia colocado a máscara do Per'a'ah novamente, assim que o seu amigo adotou a postura respeitosa.
Então, ele entra no seu amplo e luxuoso escritório, seguido do Hem-netjer. Havia alguns servos ajeitando vários pergaminhos em uma bela mesa com detalhes dourados.
Assim que o monarca entrou no local, Jounouchi, Ryou, Mariku e Honda demonstraram o devido respeito, curvando a fronte após colocarem o pé esquerdo na frente porque você colocava, simbolicamente, o seu coração nas mãos do soberano, simbolizando assim o seu respeito, humildade e submissão.
O monarca faz um aceno e os guardas, assim como os servos e ocasionais escravos, que se retiram do ambiente, fechando em seguida a porta.
Então, ele retira a sua máscara enquanto que o mago passa a agir naturalmente, assim como os amigos deles, com Atemu comenta em um tom aborrecido:
- E pensar que terá que ser assim a minha vida inteira enquanto estivermos em público.
- De fato, isso é chato. – Honda consente, com todos relaxando as suas posturas.
- Põe chato nisso. – Mariki fala enquanto suspirava.
- Ei, Atemu, o que acha de fugirmos? – Jounouchi pergunta, envolvendo o braço ao redor de Atemu enquanto Mahaado arqueava o cenho direito.
- Ele pode fazer isso, turma? – Ryou pergunta exibindo preocupação em seu semblante – Eu pensei que houvesse um ritual no ḥwt-nṯr (templo) principal do complexo do palácio antes da cerimônia de aniversário.
Honda, Jounouchi e Mariki olham de forma indagadora para o albino que pergunta confuso:
- O que foi?
- Tem um ritual antes, Ryou? – o loiro pergunta com evidente surpresa em seu semblante.
- Sim. Bem, foi o meu pai que contou.
- De fato, eu tenho que participar de um ritual antes de qualquer cerimônia. – Atemu fala sorrindo.
Mahaado pigarreia, para depois, perguntar enquanto arqueava o cenho direito, olhando de forma incrédula para todos eles:
- Como assim "fugirmos"?
- O que você entendeu. Nós podíamos fugir do palácio para nos divertirmos um pouco antes da festa de aniversário.
- Não acha que isso é um ato irresponsável? – o mago comenta enquanto dobrava os braços na frente do tórax.
- Mahaado, você tem que relaxar mais. Eu entendo que é um Hem-netjer que faz parte dos Guardiões Sagrados e que é Superintendete da corte dos magos, mas precisa aprender a relaxar. – Mariki fala.
- Eu sou considerado o braço direito de Atemu e tenho uma discípula, que apesar de ter dezesseis anos, age como uma criança de oito anos, fazendo com que eu precise ter dois olhos atrás da cabeça para vê-la, além do fato de eu estar organizando a cerimônia junto do Conselheiro real e Tjaty (Vizir), Shimon, assim como dos Hem-netjer Shada, Hem-netjer Karim e Hem-netjer Seto. Portanto, eu acho difícil, para não dizer impossível, conseguir um tempo para relaxar.
- Eu não quero estar no seu lugar, amigo. – Honda comenta.
- Eu acho que ninguém desejaria isso. – Jounouchi comenta, para depois, olhar para Atemu – E aí? Já se decidiu? Podemos ir disfarçados até o mercado.
- E o ritual? – Ryou torna a perguntar.
- Ryou, você não quer que o nosso amigo relaxe?
- Claro. Mas ele é o Per'a'ah e tem o ritual e posterior cerimônia. – o albino fala – Hoje é um dia complicado para fazer isso.
- É apenas uma fuga rápida, qual o problema? Ninguém vai notar a ausência dele.
- Eu acho que dá tempo para fugirmos antes de eu ter que aturar o ritual na parte da manhã, para depois, ficar a tarde inteira sendo preparado pelas filhas dos nobres que eu escolhi e servas em alguns momentos. Ainda bem que no almoço, eu poderei ver o meu filho.
- Pai coruja. - Mariki fala sorrindo.
- Como vocês sabem? – Atemu pergunta arqueando o cenho direito.
- Kesi comentou que basta o pequeno Iry-pat (príncipe herdeiro) fazer um som, que você salta da cama e chega ao berço antes mesmo que ela chegue até ele e olha que a cama dela está próxima do berço. Ela também comentou que a sua velocidade é incrível e sabemos que quando surgem os primeiros raios de sol do Netjer Ré (Rá), você se encontra com o seu filho em seus braços por algumas horas, além de sempre procurar estar junto dele quando é possível, isso sem contar que você dá banho nele, de vez em quando. Eu me esqueci de listar algo? – o moreno pergunta sorrindo enquanto erguia os dedos conforme contava.
O monarca gargalha e fala:
- Sim. Eu sou um pai coruja. Quando vocês forem pais, vocês irão compreender. – ele fala sorrindo.
- Pelo visto, sim. – o albino comenta sorrindo.
- Eu estou surpreso por você aceitar fugir conosco em vez de estar com o seu filho. – o loiro comenta, exibindo surpresa em seu semblante.
- Eu conheço os horários dele. Ele deve estar cochilando agora. No almoço ele estará desperto e poderei brincar um pouco com ele. Quando forem pais, vão compreender o que eu sinto. Acreditem.
- Eu não duvido. – Mariki fala.
- Bem, a conversa está boa, mas devemos fugir! – Jounouchi exclama animado.
- Sim! – Honda e Mariki exclamam animados enquanto o soberano ria levemente.
- Gente, é o ritual? – o albino volta a perguntar.
O moreno coloca um braço em volta do pescoço dele e fala, sorrindo:
- Você tem que relaxar Ryo.
Mahaado pigarreia novamente e Jounouchi arqueia o cenho direito, com o Hem-netjer falando:
- Ryou está certo. Antes da cerimônia, Atemu deve ir até o principal ḥwt-nṯr (templo) deste complexo e participar do ritual antes da cerimônia do seu aniversário. Teremos alguns cânticos para homenagear os Netjer (Deuses) e mostrar o nosso respeito. Todos os Guardiões Sagrados e sacerdotes escolhidos para a cerimônia vão estar no local para dedicar o seu respeito e obediência. Eu não acho que vocês tem tempo para uma "fuga". Afinal, o palácio ficaria em alvoroço atrás do Per'a'ah.
- Acha mesmo que não dará tempo para "fugirmos"? – o monarca pergunta.
- Pelos meus cálculos, é impossível.
O monarca fica pensativo e depois suspira, falando:
- De fato, os seus cálculos estão corretos. Hoje é um dia complicado.
Jounouchi, Honda e Mariki ficam cabisbaixos ao mesmo tempo em que ficavam desanimados enquanto que Ryo suspirava de alívio.
- Vocês podem conversar um pouco. Quando tudo estiver pronto, os chamarei. Você pode jogar algo, o que acha? Isso sempre relaxa você – o mago comenta porque sabia que Atemu adorava jogos.
Como perceberam que não era possível saírem do palácio, eles optaram por jogar com o amigo deles enquanto Mahaado saia do escritório, para depois, encontrar Isis no corredor, com ambos olhando um para o outro enquanto coravam levemente, antes de inspirarem profundamente, voltando a assumir a postura de Guardiões Sagrados, com ela se aproximando, exibindo preocupação em seu semblante, fazendo com que o poderoso mago exibisse preocupação em seu semblante.
- Aconteceu algo, Isis?
- Eu tive uma visão com o meu Sennen Tauku.
