Notas da autora
Após o relato do escravocrata...
Seto começa...
Atemu decide...
Akhenaden decide...
Capítulo 27 - A fúria de Atemu e de Seto
Então, ele termina o relato ao mesmo tempo em que Atemu faz um gesto discreto a Seto que consente, exibindo um brilho de satisfação em seu olhar com a mensagem silenciosa do seu primo que retribui com um leve menear da cabeça.
O Hem-netjr (sumo sacerdote e chefe de um templo) chuta o escravocrata, quebrando o seu braço, para depois, erguê-lo, exibindo a mais pura fúria em seu semblante, com o homem se encolhendo enquanto exibindo confusão em seu semblante, fazendo-o murmurar:
- Eu os treinei bem e eles continuam puros.
Sem falar mais nada porque o monarca não havia se pronunciado, Seto continua a surrá-lo ao mesmo tempo em que Kisara assistia pelo canto dos olhos e apesar dos olhos ainda estarem opacos, surgiu uma espécie de faísca enquanto a sua mente, que se encontrava amortecida pelo treinamento, tentava compreender o motivo do seu dono estar fazendo aquilo.
Quanto a Yuugi, ele olha para o lado com os orbes opacos, não compreendendo o motivo daquele que os vendeu e treinou estar apanhando porque em sua mente fragilizada e rompida em muitos pontos, os golpes que o outro tomava não faziam sentido. Em relação a Yukiko, ela estava estupefata pelo gesto deles ao mesmo tempo em que ficava aturdida pelo que presenciou até aquele instante porque não conseguia acreditar que eles tivessem sentido pena e ódio pelo que aconteceu aos seus amigos.
Afinal, essa explicação que surgiu em sua mente era demasiadamente insólita, além do fato dela ainda estar irada porque a fúria de um dragão não podia ser aplacada tão facilmente.
A surra prossegue enquanto era cortada pelos gritos de dor do escravocrata que se encontrava imerso no mais puro desespero e dor lacerante conforme era surrado ao ponto de ter vários ossos quebrados e escoriações ao mesmo tempo em que via a mais pura fúria nos olhos do Guardião Sagrado.
Atemu faz outro gesto e Seto deu uma última pisada violenta, quebrando uma parte da perna do homem que ainda não estava quebrada enquanto voltava a se posicionar onde estava antes, percebendo que os olhos de Kisara não estavam tão opacos quanto antes. Era algo ínfimo, mas era melhor do que nada e ao olhar para o jovem de cabelos tricolores, consegue perceber a confusão que o acometia embora os olhos parecessem menos opacos. Era algo ínfimo, mas era melhor do que nada ao pensar no quanto o seu primo devia estar sofrendo com o estado do jovem.
- Saiba que não foi somente o Hem-netjr Seto que você enfureceu. Você enfureceu o Netjer (Deus) de todo o Kemet e irei conceder a fúria divina que tanto buscou – o tom de voz barítono profunda dele era Inflexível, furioso e desafiador.
Ao olhar para o seu soberano, o homem fica mais aterrorizado enquanto vertia novas lágrimas de medo que juntavam as lágrimas de dor que verteu enquanto era espancado. Era visível a fúria no semblante do monarca e de fato, era a fúria dos próprios Deuses.
O escravocrata passou a chorar ainda mais intensamente enquanto se encontrava imerso no desespero apesar de ainda se sentir confuso porque tinha acreditado que o seu soberano estava satisfeito com a disciplina que executou nos escravos.
- Por que Per'a'ah?
- Eles não pertenciam mais a você e o Guardião Sagrado Seto não solicitou nenhum treinamento ou qualquer outra modalidade semelhante a essa. Você infligiu danos em propriedades de outras pessoas – Atemu odiava se referir aos escravos daquela forma, mas era o que esperavam dele enquanto mantinha o mesmo tom ao mesmo tempo em que ocultava a intensa satisfação que sentia ao poder punir escravocratas - Além disso, você ousou falar sem a minha permissão e olhou para o meu rosto sem receber autorização. Os crimes que cometeste somaram-se uns aos outros. Portanto, eu darei o meu veredito. Você está privado do seu nome e de todos os direitos sobre as suas terras e quaisquer outras propriedades que possui. Agora, você é um prisioneiro do reino em decorrência dos seus crimes perante as leis sagradas de Maʽat, aos Netjer (Deuses) e ao Netjer vivo de todo o Kemet. Você será curado e usaremos heika (magia) para que resista ao resto da punição. Receberá setenta chicotadas. Trinta e cinco minhas e trinta e cinco do Hem-netjr Seto. Após ser curado, será chicoteado na mesma quantidade novamente. Isso irá continuar por uma semana, interrupta. Não se preocupe que o heika vai garantir que você resista ao resto da punição e que não enlouqueça pela dor. Depois dessa semana de punição diária, se tornará escravo e irá trabalhar até morrer nas minas.
Se recuperando da sentença que o deixou chocado, balbuciando palavras incompreensíveis, o monarca faz um gesto para Seto que pisa na outra perna, quebrando o outro osso e arrancando um novo grito lacerante enquanto que a garganta do escravocrata se encontrava ferida pelos gritos anteriores, para depois, chutá-lo no abdômen, fazendo-o perder o fôlego. Ele somente para ao ver um gesto do seu primo.
Então, o Tjaty (Vizir) e Conselheiro real Shimon repete a punição e que deveria ser executado imediatamente, assim como a comunicação ao escriba do escravocrata para fazer a relação de tudo o que o seu ex-patrão possui enquanto que o Escriba real, sentado em uma mesa no canto acompanhado de seus servos, anotava tudo o que ocorria no salão usando a escrita hierática (escrita sagrada) que surgiu nos templos e que depois, passou a ser usada em documentos por ser uma escrita mais rápida do que a medu-netjer (mdw.w-nṯr - palavras do Deus - hierógrifos), ensinada aos homens pelo próprio Netjer Djehuty (Thoth) e que exigia mais do Escriba por ser mais complexo, acabando por reduzir a velocidade da escrita.
- Você está privado do seu nome e de todos os direitos sobre as suas terras e quaisquer outras propriedades que possui. Agora, você é um prisioneiro do reino em decorrência dos seus crimes perante as leis sagradas de Maʽat, aos Netjer (Deuses) e ao Netjer vivo de todo o Kemet. Você será curado e usaremos magia para que resista ao resto da punição. Receberá setenta chicotadas. Trinta e cinco serão do Per'a'ah e trinta e cinco do Hem-netjr Seto. Após ser curado, será chicoteado na mesma quantidade novamente. Isso irá continuar por uma semana interrupta. Será usado heika (magia) para garantir que não enlouqueça pela dor e para que resista ao resto da punição. Depois dessa semana de punição diária, se tornará escravo e irá trabalhar até o fim dos seus dias nas minas. Esse é o veredito sobre anuência da Netjer Maʽat através do julgamento divino do filho do Deus Re (Ra), Per'a'ah Atemu. Portanto, não cabe nenhum recurso. Que seja escrito e que seja feito.
O Escriba real anotou tudo exemplarmente e após terminar, entregou o papiro ao seu escravo pessoal que entregou ao servo responsável por levar os pergaminhos para apreciação do monarca que carimbava com o selo real em seu escritório após aprovação.
O monarca faz um sinal discreto com a mão e os guardas se aproximam de frente para o trono, para depois, se ajoelharem para o seu soberano.
- Retirem esse lixo da minha frente. Leve-o até os curandeiros. Depois, o levem até a masmorra e o prendam para evitar qualquer tentativa de fuga ou dele tentar tirar a sua própria vida. Eu o quero vivo para cumprir a sua sentença.
Eles consentem e conforme era agarrado por dois soldados e arrastado de qualquer jeito, gritando também pela dor dos ferimentos, o homem começa a implorar por clemência dentre os seus gritos até que outro guarda o acerta lateralmente na cabeça, fazendo-o desmaiar, recebendo um sorriso de satisfação do rei.
Após os gritos dele ficarem cada vez mais baixos, restando o sangue próximo dos degraus, Atemu ordena:
- Limpem o local.
Os escravos que se encontravam posicionados próximos do trono e ocultos pelas pilastras surgem munidos de pano e vasilhas no local onde o vendedor foi surrado.
Quando eles terminam de limpar o local, se prostram para o Faraó, se retirando em seguida frente a um gesto especifico do soberano.
- Hem-netjr Mahaado.
O superintendente da corte dos magos fica na frente do seu monarca e se curva enquanto aguardava as suas ordens.
- Efetue os feitiços necessários para garantir que ele cumpra integralmente a sua pena.
- Como desejar, Heru. Eu irei aplicar pessoalmente o heika nele.
O soberano consente com a cabeça e faz um gesto discreto, com Mahaado se curvando novamente antes de voltar ao seu lugar dentre os Guardiões Sagrados.
Então, o soberano fala, olhando para o jovem que se encontrava prostrado:
- Yuugi, você pode se erguer.
O garoto se ergue, com Atemu percebendo que o olhar havia mudado quase que imperceptivelmente, o fazendo ficar preocupado porque esperava um pouco mais de mudança e apesar da intensa preocupação e tristeza que o acometia, cortando o seu coração e o engolfando em desespero ao ver o estado daquele que amava e que há anos o procurava, ele nada demonstrava em seu semblante.
Seto pega no punho de Kisara ao segurá-la porque ela estava rente ao chão e a faz se erguer, percebendo uma leve confusão na face dela.
- Quanto a essa coleira neles... – Shimon comenta, olhando atentamente para o objeto.
- Segundo o escravocrata, eles têm magia e para evitar que atacassem o seu mestre, a coleira age como inibidor. Você pode controlar quando e onde deseja ou bloquear. Segundo aquele bastardo, está bloqueado. – o portador do Sennen Shakujou responde, olhando para o Tjaty (Vizir).
- É verdade que eles têm magia em seus corpos? Ter magia é algo raro.
- Eu não tenho certeza Per'a'ah. – Seto fala de forma respeitosa.
Então, o monarca olha para Yuugi e pergunta:
- Você tem heika (magia)?
Devido ao treinamento brutal que teve, ele não pôde se impedir de responder ao seu mestre:
- Não sei se é heika, mestre. Eu uso o meu Kiei para manipular os elementos, plantas e animais.
- "Kiei"? Explique-me detalhadamente sobre esse poder.
- É uma espécie de energia que alguns escolhidos possuem em seu corpo. Costuma ser passado pelos ancestrais. Nós pensávamos que precisávamos orar para os nossos Deuses, além de concentrar o Kiei. Porém, após me afastar da vila, descobri que mesmo sem oração posso executar esse controle e se usá-lo constantemente, eu posso ficar esgotado.
- Que tipo de ancestrais possuem o Kiei?
- Os que pertencem à linhagem de sacerdotes da minha vila natal. Meu pai foi o Sumo sacerdote e o meu avô também foi e assim por diante. Eu tinha terminado o meu treinamento para assumir como Sacerdote e me tornaria Sumo sacerdote com a morte do meu genitor. Os sacerdotes ficam no cargo até a sua morte e somente se afastavam por motivo de força maior, como demência pela idade avançada.
- E quem mandava na sua vila?
- O Sumo sacerdote. Havia o Líder da vila para cuidar dos outros assuntos porque o Sumo sacerdote cuidava dos assuntos espirituais. Portanto, ele poderia questionar ordens do Líder da Vila e modificá-las, caso fosse necessário.
Todos notaram que o garoto falava com uma voz sem exibir qualquer emoção enquanto permanecia cabisbaixo e com os olhos sem vida.
- Onde fica a sua vila?
A pergunta faz o sangue de Yuugi gelar porque havia uma pequena parte dentro dele que havia se recolhido e que tinha medo de sair.
Então, ele fica aliviado ao ver que não sabia exatamente onde ficava e isso o faz responder a pergunta sem hesitar:
- Eu não sei. Nós vivíamos isolados em uma montanha altíssima e intransponível. Podíamos ver os picos nevados. Nós éramos autossuficientes e completamente isolados do mundo exterior. A nossa localização exata se perdeu ao longo dos milênios de isolamento.
- O que aconteceu com a sua vila? Afinal, se viviam isolados, não haveria motivo para estar aqui. – o monarca pergunta enquanto que internamente, se sentia feliz que Yuugi tivesse saído da sua vila natal porque graças a isso, ele pode encontra-lo enquanto suprimia ferozmente a culpa que surgia nele frente a este pensamento por ser plenamente ciente que era demasiadamente egoísta.
- Pensávamos que vivíamos isolados e que ninguém nos atacaria. Mas o ataque veio. O meu povo conseguiu fugir e eu fiquei para trás porque em termos de Kiei, eu tinha a maior concentração e precisava retardar o ataque. Por isso, comecei a usar as árvores para detê-los, além de manipular outros elementos. Eu consegui retardá-los para o meu povo fugir e depois, eu consegui fugir.
Mesmo que estivesse quebrado, a parte que havia sido poupada por Yukiko, ainda era consciente e procurava filtrar o máximo possível o que falava.
De fato, ele não havia contado nenhuma mentira. Apenas havia ocultado algumas coisas e isso não é necessariamente mentir. Essa parte remanescente decidiu agir dessa forma para evitar que descobrissem sobre a sua amiga dentro dele.
Muitos dos que ouviram, ficaram admirados pelo ato do jovem de se sacrificar para salvar o seu povo ao deter os inimigos para que os outros escapassem. Era um ato demasiadamente altruísta e Atemu não podia deixar de sentir intensa admiração pelo ato de amor de Yuugi porque acreditava que o coração do jovem era tão cristalino e brilhante como as belas gemas ametistas em seus orbes. Um coração nobre e gentil era algo raro, fazendo com que o monarca ficasse feliz em saber que ele era tão precioso quanto a joia mais preciosa.
Isso apenas o fez sentir mais raiva daquele que feriu tal preciosidade, uma vez que o adolescente de cabelos tricolores era o dono do seu coração e predestinado a ser apenas dele, com o rei sendo plenamente ciente do sentimento de possessividade que sentia por aquele que amava.
Nesse interim, Akhenaden se encontrava pensativo conforme se recordava da desconfiança dos outros Guardiões sagrados porque eles poderiam atrapalhar o seu plano.
Portanto, para tentar ludibriá-los, decidiu que iria fingir ser exemplar e para isso, precisava agir como seria o esperado.
Sorrindo internamente, ele fica na frente do rei e se prostra enquanto o monarca estranhava a atitude do seu tio.
Afinal, há quase dois anos, atrás, ele se mantinha ausente de qualquer manifestação como membro dos Guardiões Sagrados.
Ademais, como o portador do Sennengan nunca demonstrou qualquer ato ou pensamento que fosse contra os interesses do império ou a sua autoridade como soberano, Atemu não via necessidade de expulsá-lo de sua corte e de mandar retirar o Sennen Aitemu.
Ademais, se fizesse isso, seria necessário encontrar um sucessor e o monarca era plenamente ciente que o uso do item era algo brutal em decorrência do sacrifício de um olho, fazendo com que fosse algo extremamente doloroso para o sucessor do item.
Arqueando o cenho, ele pergunta com a sua voz barítono profunda:
- O que deseja falar, Hem-netjr Akhenaden?
