Notas da Autora
Yukiko decidiu...
Kisara se encontra...
Seto procura...
Eles descobrem que...
Mahaado se recorda de...
Capítulo 36 - Ka e Ba
Longe dali, Yukiko havia decidido enrolar o seu pescoço felpudo em volta do corpo, após comer a imensa bandeja de carne que serviram para ela, concordando que era muito bom ter o seu próprio corpo e poder provar os alimentos.
Porém, mesmo apreciando tudo isso, a albina desejava voltar para dentro de Yuugi para poder mantê-lo a salvo, pois, atualmente, a sua proteção encontrava algumas limitações, sendo que a dragoa começou a alterar as memórias e percepções dele do que ocorreu, para que diminuísse a angústia do jovem ao ponto das lembranças trazerem apenas uma leve tristeza e não mais sofrimento, reduzindo também, drasticamente, o sentimento de culpa dele, aproveitando o fato da maioria dos seus ferimentos terem sido curados por aquele Ka e que o seu corpo estava curando o resto, fazendo assim com que aquele que via como um filho querido não se recordasse dos reais ferimentos que sofreu, assim como dos detalhes das batalhas, principalmente contra o dragão vermelho e o último Ka do Faraó, sendo que havia terminado de modificar as memórias de Kisara, sem que ela percebesse, visando evitar qualquer problema com o dono dela.
Afinal, tinha o pressentimento de que aquele sumo sacerdote não era, apenas, um subordinado do Faraó e sim, um familiar. Pelo menos, era a sensação que tinha.
Não muito longe dali, em um determinado momento, Seto se aproxima de Kisara que provava uma bebida, para depois, demonstrando em sua face que não havia apreciado o sabor amargo da bebida, ela é surpreendida pela presença do Sumo sacerdote que pega o copo e após cheirar o resto do conteúdo, sorri de canto, falando:
- É uma bebida muito forte para quem nunca bebeu. Quer continuar provando outras desse tipo?
A adolescente fica surpresa e depois, responde cabisbaixa, demonstrando nervosismo:
- Nunca provei bebidas amargas com exceção dessa bebida, mestre.
- Seto.
Ela arqueia o cenho, sem olhá-lo diretamente, com ele tornando a falar:
- Eu me chamo Seto. Não gosto de ouvir a palavra mestre da sua boca. Além disso, a autorizei a olhar para mim – ela ergue seus orbes azuis e perde o fôlego ao ver o sorriso gentil em seus olhos - Qual o seu nome?
- Kisara, mest... quer dizer, Seto.
Ele pega um copo e estende, com a jovem o pegando, para depois provar, mostrando uma face que não gostava, fazendo-a falar, enquanto sorria:
- É a bebida mais fraca que temos. É para os iniciantes. Quer continuar tentando? Ou prefere outro tipo de bebida?
- Acho que quero outro tipo de bebida.
- Temos aquelas. – ele aponta para várias jarras em um canto.
Ela vai até elas, mas para no meio do caminho, o fazendo arquear o cenho.
- Posso mesmo tomar? – a prateada pergunta com hesitação, enquanto tentava compreender os atos dele que eram contrários ao que ela aprendeu a esperar naquela tarde de treinamento.
- Fique a vontade. Não precisa pedir autorização.
O Hem-netjr mantém o sorriso em seu rosto, sendo que ele raramente sorria, decidindo que dedicaria os seus sorrisos a bela jovem a sua frente, sorrindo ainda mais ao vê-la corar, conforme apreciava o rubor em seu rosto, achando a cor linda e que contrastava com a pele de porcelana dela.
Nisso, ela se serve e bebe, apreciando o sabor, decidindo provar outros sobre o sorriso de Seto, que em seguida, desfaz o sorriso ao perceber que as mãos dela tremiam, com ela exibindo um intenso nervosismo, enquanto voltava a exibir uma névoa de medo e tristeza em seus olhos.
Então, ele se aproxima a passos largos e pergunta com evidente preocupação em seu semblante, enquanto lutava contra o desejo de erguer as mãos e tocar a pele acetinada ao toque, pois não queria assustá-la:
- Eu percebi que você treme, demonstrando medo e preocupação, mesmo que eu não tenha dado motivo. O que a está afligindo, Kisara-chan?
Ela fica surpresa e esfrega nervosamente as mãos, para depois, responder em um fio de voz e em um tom que era tão baixo que ele teve que se concentrar para ouvir, enquanto via lágrimas cristalinas se formarem nas gemas preciosas que eram os olhos dela:
- O senhor é muito gentil com uma escrava. Mas, eu sei que terei que servi-lo na cama também e isso está me assustando. Eu sei que é o meu dever, mas...
Ela para de falar quando ele coloca gentilmente o dedo embaixo do queixo dela, com a prateada desviando o olhar, ouvindo-o falar:
- Olhe para mim.
A adolescente engole em seco e olha para ele, notando que o sumo sacerdote exibia uma face gentil e uma voz que transbordava determinação:
- Nunca violei uma mulher e não pretendo começar a fazer isso. Do jeito que você se encontra, seria estupro, mesmo que não reagisse em virtude do treinamento que aquele bastardo deu a você e aquele rapaz. Se eu tenho uma mulher é porque ela deseja por si mesmo. Ou seja, somente pratico atos consensuais. Portanto, se o motivo de você temer ao meu toque e se encontrar nesse estado é por causa do que aquele desgraçado disse, eu peço para que esqueça. Nunca tomarei uma mulher se essa não desejar por si mesma, sendo fruto do seu desejo e não por imposição de qualquer tipo.
O portador do Sennen Shakujou fica feliz ao vê-la corar, achando o rubor lindo, percebendo a face surpresa dela, com a luz voltando aos seus olhos, gradativamente.
Seto solta o queixo dela e se afasta, com ela tocando onde o sumo sacerdote a havia tocado, enquanto passava a observar a forma imponente como ele se movia, percebendo o quanto o homem era lindo.
Kisara sai dos seus pensamentos ao perceber que um grupo de homens se aproximava dela, fazendo-a ficar assustada ao perceber os olhares repletos de luxúria que lhe dedicavam da cabeça aos pés e que a faziam tremer intensamente, enquanto se encolhia, começando a andar para trás, até que se choca contra uma pilastra.
- Vejam que beleza...
- Sim. Ela é exótica.
Kisara já ouviu essas palavras antes. A sua pele era exótica, assim como os seus cabelos prateados e olhos azuis, sendo que acreditava que era em decorrência da sua herança hekau khasut (Hicsos).
Claro que a sua família procurava ocultar a sua origem para evitar suscitar raiva entre os keméticos e ela continuava essa tradição para se proteger.
- Esses olhos são como duas safiras.
- Vou fazer uma oferta para comprá-la do seu dono.
- Sou eu quem vai compra-la!
- Não! Serei eu!
Então, eles começam a discutir entre si, até que param ao sentir uma intenção assassina e ao olharem para a fonte daquela emanação, identificam como sendo proveniente do sumo sacerdote Seto que escudava Kisara, enquanto que o olho do seu Sennen Shakujou brilhava intensamente e ao olharem para o rosto dele, podiam ver a mais pura fúria em seu semblante, com os olhos azuis frios os perfurando brutalmente, conforme sentiam um forte terror tomá-los, pois, naquele olhar havia a promessa de uma morte horrível, fazendo-os começarem a tremer incontrolavelmente ao ouvirem a voz fria e cortante, mesclada a desprezo:
- O que vocês acham, seus vermes, de provar o poder do meu Sennen Shakujou? – ele termina o final com um sorriso diabólico.
Aterrorizados, eles fogem do local, caindo no processo, sendo que Kisara havia se encolhido atrás de Seto, buscando proteção de forma instintiva, ficando admirada ao ver como ele os dispersou, observando o grupo tropeçando no chão, enquanto procuravam se afastar o quanto antes.
O sacerdote relaxa a postura e massageia a nuca, virando-se em seguida para Kisara, exibindo preocupação em seu semblante.
- Você está bem, Kisara-chan?
Ela fica surpresa e cora levemente, falando:
- Sim, Seto.
- É melhor você ficar comigo pelo resto da noite. Há vários desses vermes por aqui e eles podem tentar algo físico.
Ela treme frente a essa menção, para depois, começar a andar um pouco atrás dele, com o mesmo voltando ao seu lugar, enquanto continuava examinando a festa e os convidados.
Então, Shada se aproxima e fala, com Seto arqueando o cenho ao ver o semblante sério do seu colega, sendo que o Sennenjou resplandecia na sua mão:
- Eu detectei um Ka nela e é muito poderoso.
Todos ficam estarrecidos, sendo que Akhenaden fala, olhando para o seu sobrinho:
- Precisamos fazer o julgamento dos itens, Per'a'ah.
- Façam o julgamento dos Sennen Aitemu. – o soberano de todo o Kemet ordena em sua voz barítono profunda, enquanto Seto posicionava Kisara.
Antes de se afastar dela, para fazer o julgamento, ele acalma o olhar de medo que ela exibia e que estava imerso em confusão, também, ao falar gentilmente:
- Não se preocupe. É apenas um julgamento. Eu acredito que se você tiver mesmo um Ka, ele não é maligno.
- Ka?
- Uma criatura criada pelos sentimentos do coração do usuário. Não se preocupe que nenhum mal irá ocorrer a você. Eu prometo.
Ela olha a face confiante dele e consente timidamente, confiando nas palavras do sumo sacerdote, enquanto o mesmo se afastava, tomando o seu lugar usual durante o julgamento dos itens.
O primeiro a ficar na frente dela é Karim que ergue o seu Sennenbakari, falando:
- Eu, o Hem-netjr Karim, irei julgar o coração dessa jovem – ele tira uma pena de dentro das vestes e a coloca em um dos pratos da balança dourada – Essa é a pena de Maʽat. Veremos se o seu coração pesa mais do que a pena.
Nisso, o item brilha e demonstra que a pena de Maat é um pouco mais pesada que o coração da jovem, deixando todos estupefatos, pois era algo inédito.
- Isso é impossível... – o sumo sacerdote murmura em estado de choque, para depois, se refazer e se afastar.
Shada se aproxima e fala:
- Eu, o Hem-netjr Shada, usei o meu Sennenjou e revelei a existência de uma espécie de dragão que resplandece dentro dela.
Os sumo sacerdotes voltam a ficarem surpresos, sendo que Shada se afasta, com o tio de Atemu se aproximando, até ficar de frente para a jovem, falando, enquanto concentrava poder no seu Sennen Aitemu:
- Eu, o Hem-netjr Akhenaden, usarei o meu Sennengan para revelar a verdadeira forma do Ka!
Ao fazer isso, todos notam que a jovem fechava gradativamente os olhos e após fechá-los, cai inconsciente no chão, com Seto resistindo a vontade intensa de acolhê-la em seus braços.
Então, a prateada começa a resplandecer, fazendo um brilho intenso ser irradiado pelo local, para depois, surgir um brilho, praticamente, cegante que obriga todos a fecharem os olhos, sendo que Yukiko conseguia mantê-los abertos ao usar a sua magia em seus orbes azuis.
Quando o resplendor reduz, todos observam um grande dragão branco surgir, após o brilho se condensar para assumir a aparência da dragoa.
O ser abre os olhos e observa todo o local, sendo que todos ficam surpresos ao ver que o Ka não demonstrava qualquer hostilidade.
Inclusive, a dragoa deita no chão, procurando envolver, protetoramente, a prateada com o seu corpo e após esquadrinhar a área inteira com o seu focinho, volta a olhar para o sacerdote Seto.
Enquanto isso, Mahaado se encontrava pensativo, desde que a jovem desmaiou, pois não havia motivo para isso ocorrer e conforme tentava compreender o motivo dela ficar inconsciente, ele se recorda de algo sobre selamentos de Ka, enquanto era trazida uma placa de pedra sagrada que foi posicionada atrás de Seto.
O primo do Faraó ergue o seu item, falando, após se recuperar da surpresa da existência do dragão, embora o achasse estranhamente familiar, sentindo que não era a primeira vez que via esse ser:
- Eu usarei o poder do meu Sennen Shakujou para selar o Ka em uma pedra de tábua sagrada – o Sennen Aitemu começa a reluzir, fazendo a dragoa inclinar a cabeça para os lados em confusão, enquanto demonstrava curiosidade com o objeto dourado, sendo que tal reação não era esperado em um ser prestes a ser selado – Ka, sej...
- Não o sele! Se selar o dragão, ela morre! Não podemos matar uma inocente! Eu acredito que ele seja um Ka e um Ba! Algo raríssimo, mas que pode ocorrer! - o mago exclama desesperado, pois compreendeu as repercussões de selar o dragão na tábua de pedra sagrada ao se lembrar do que foi ensinado sobre Ka e selamentos.
Todos olham para ele, enquanto o portador do Sennen Shakujou ficava estarrecido e ao imaginar a prateada morta, ele sente o seu coração se restringir, sendo que o Faraó disfarçava exemplarmente a surpresa dele frente a esta revelação, enquanto Seto cessava o poder do seu item.
Então, Yukiko se manifesta ao erguer o seu focinho, aproveitando o silêncio retumbante que surgiu, frente as palavras do mago:
- Ele está certo – todos olham para ela – Eu sinto que esse dragão é a alma dela, também e eu sei que se tirar a alma de alguém, essa pessoa morre, automaticamente. A pergunta que faço é, vão sacrificar essa jovem por um Ka que nunca ofertou nenhuma ameaça?
- Uma besta como você devia ficar calada! - Akhenaden fala irado, arrancando um rosnado dela.
- E um velho decrépito como você já devia ter morrido faz tempo. Tem certeza que é humano? Eu tenho as minhas dúvidas.
Os outros sentiam vontade de rir, mas conseguiram evitar que o riso surgisse em seus lábios, para depois, olharem para o Ka que estava deitado, envolvendo a cauda ao lado de Kisara, enquanto repousava placidamente a sua cabeça ao lado dela, suspirando.
De fato, a dragoa não tentou atacar e estava apenas relaxando perto da jovem, enquanto olhava com curiosidade o seu entorno.
Nesse interim, um vulto se aproximava lentamente do trono ao se esgueirar atrás de uma pilastra, se preparando para erguer algo em suas mãos contra o soberano de Kemet, quando o Sennen Tauku de Isis brilha intensamente, com a sumo sacerdote exclamando para o sacerdote que se encontrava mais próximo dela:
- Hem-netjr Seto! O Per'a'ah...!
O sacerdote observa a movimentação no local que ela apontava e se desloca, até ficar entre o Faraó e o agressor, erguendo a sua capa e usando o seu Sennen Aitemu para bloquear a espada, sendo que Atemu tinha se erguido do trono com o seu Sennensui brilhando intensamente, enquanto se preparava para usar a sua magia.
Porém, o agressor ergue uma segunda espada curta e avança em direção ao pescoço exposto do sacerdote em virtude do bloqueio que realizou anteriormente.
Então, antes que o Faraó e o sumo sacerdote pudessem reagir, a dragoa branca de olhos azuis se desloca velozmente, chicoteando a cauda contra o braço do agressor, o arremessando violentamente contra a parede, quebrando o braço do bandido, para depois, envolver a sua cauda na cintura de Seto, o colocando próximo dela, sendo que Kisara se encontrava em uma de suas patas, com todos testemunhando a cauda do ser repousando em torno de si mesmo e do portador do Sennen Shakujou, enquanto assumia uma postura defensiva, com os seus orbes nunca deixando o criminoso que havia tentado assassinar o monarca de Kemet e o sacerdote.
Enquanto o homem gemia de dor, Mahaado, junto de alguns soldados, rendem o agressor que estava sendo observado atentamente pela dragoa, com todos se encontrando estupefatos com a conduta protetora do dragão.
Atemu fala com a sua voz barítono profunda, após ficar pensativo por alguns minutos, conforme observava as atitudes do Ka:
- Eu irei realizar um teste pelo bem de Kemet. Hem-netjr Seto, você deve ordenar ao dragão para que ele retire a cauda que o está envolvendo.
O sumo sacerdote consente ao compreender a essência do teste e que consistia em demonstrar publicamente o controle que tinha sobre o dragão, sendo que Seto orava para que tivesse esse controle pelo bem de Kisara, enquanto era plenamente ciente de que o seu primo não teve outra escolha, além de propor esse teste.
Afinal, uma das suas obrigações como Faraó, era zelar pela segurança e bem-estar do seu povo e aquele dragão emanava um poder que poderia rivalizar com os Deuses, podendo ser visto como uma ameaça, caso não pudesse ser controlado, sendo o mesmo princípio que usou com Yukiko.
Quanto ao monarca, ele esperava que o seu primo conseguisse controlar o dragão, pois não desejava tomar mais uma decisão, que apenas o faria se sentir mal, bastando as decisões que precisou tomar, por mais que o fizessem sofrer por dentro e conforme se recordava das decisões que foi obrigado a tomar pelo peso da sua coroa, os seus olhos vagam entre a dragoa felpuda e o seu amado Yuugi, que ainda estava dormindo profundamente em cima da pelagem dela.
