Notas da Autora

No Qenbet...

Yuugi observa...

Capítulo 57 - Súplica de uma mãe

Sentindo-se confiante, o idoso ergueu levemente a cabeça, evitando olhar diretamente para o seu rei, enquanto exibia um olhar humilde e um semblante igualmente abatido, sendo visíveis os sinais do tempo e da labuta, além dos olhos cansados que demonstravam a falta de um sono decente, sendo a mesma situação da outra idosa e da mulher em seus braços que chorava em silêncio.

- Eu e a minha esposa estamos aqui em nome da nossa única neta, Neema. – ele falou, apontando para a mulher amparada nos braços da senhora.

Então, com um último suspiro trêmulo, a mulher deu um passo a frente, exibindo um postura humilde, enquanto evitava contato com os olhos, sendo que havia se prostrado e após perceber que o soberano assentiu, ela inalou profundamente e falou com uma voz cansada, controlando o seu choro ao mesmo tempo que levantava a fronte totalmente no chão, enquanto permanecia ajoelhada:

- Per'a'ah, eu estou grávida do meu marido – ela falou tristemente, enquanto acariciava o ventre que começava a despontar – Ele era membro do Medjay e faleceu honrosamente em uma batalha contra o Rei dos ladrões, lutando até o último suspiro pelo que me falaram. Agora, o meu sogro deseja roubar o meu filho, após me expulsar de minha casa, sendo que também expulsou os meus avôs do único pedaço de terra que possuíam.

Os olhos de Atemu se estreitaram levemente, apesar do seu semblante continuar impassível, sendo que foi Shimon que se pronunciou, arqueando o cenho:

- Por que você acha que ele quer roubar o seu filho e como ele expulsou os seus avôs da terra deles, assim como expulsou você da sua própria casa?

A idosa que a amparava até alguns momentos atrás, se adiantou e falou com uma voz repleta de desdém e raiva ao se referir ao sogro, após se prostrar em respeito, para depois, afastar a fronte do chão, enquanto mantinha uma postura humilde perante o Deus vivo de todo o Kemet:

- Ele é um homem cruel e perverso, além de ser implacável não somente com os seus funcionários. O seu filho conheceu inúmeras vezes esse temperamento e personalidade desde que era criança, assim como a falecida esposa dele. Ele nos contou que a sua mãe era agredida verbalmente e fisicamente. Antes que a genitora dele pudesse solicitar o divórcio, ela caiu das escadas e morreu. Essa é a versão oficial, porém, o marido da minha neta contou que não acreditava nisso. Inclusive, ele jura que quando era criança, por uma fresta da porta, viu o seu pai discutindo com a sua mãe e depois, as mãos dele estavam esticadas ao mesmo tempo em que os gritos ecoavam pelo corredor e conforme olhava para a escada ao mudar o ângulo de onde olhava a cena, ele testemunhou o seu genitor exibindo um sorriso de satisfação. Afinal, ele perderia metade dos seus bens em um eventual divórcio. Portanto, era mais barato matar a esposa e fingir que foi um lastimável acidente do que arcar com a separação e como o filho dele era criança na época, mesmo testemunhando o assassinato, a palavra dele não teria nenhum peso contra o do seu genitor. Claro, houve desconfiança na forma como ela morreu e em decorrência do fato dela desejar o divórcio, juntamente com os indícios de ranhura das suas unhas nos braços do marido como se tentasse se segurar, contestando a alegação que ele a viu cair, mas, que não conseguiu chegar a tempo de evitar a queda. Porém, ele é dono de muitas terras e comércios, além de ser muito rico e poderoso, juntamente com o fato de ser um grande benfeitor para o templo da cidade. Portanto, juntamente com o seu poder, riqueza, fama e atitude, ninguém iria contra ele e a sua versão foi aceita sem qualquer contestação, juntamente com o fato dos seus atos cruéis perante outras pessoas e funcionários não terem qualquer consequência legal. Atualmente, estamos morando nas ruas e o pouco que conseguimos com alguns serviços esporádicos são usados para comprar comida, sendo dedicados em sua maioria a nossa neta grávida. Eu e o meu esposo apenas comemos o suficiente para nos manter.

Yuugi olhou mais atentamente para eles e pode observar as roupas rotas e as bochechas cavadas, além de poder ver nitidamente os ossos e mesmo Neema não estava incólume em seu estado físico, embora estivesse mais nutrida que o casal, enquanto que as suas roupas eram tão pruídas quanto aos dos idosos que se encontrava sobre escrutínio dos demais.

- Nós pagamos compensação para soldados do Medjay que morreram no cumprimento do dever, assim como de qualquer funcionário, não importando o cargo, com a compensação sendo condizente com o serviço. Os membros do Medjay recebem uma compensação generosa para oferecer alguma estabilidade aos entes queridos deixados para trás, além de poderem arcar com os custos funerários. Portanto, a quantia era o suficiente para conseguirem alguma acomodação definitiva. Não precisavam morar nas ruas. – Shimon comentou, para depois, arquear o cenho e indagar para a mulher que se encontrava em um pranto mudo, enquanto era abraçada pela avó – Por acaso, a senhora não recebeu a compensação? Afinal, é a esposa dele.

- Ela recebeu. Porém, o bastardo a roubou e depois, nos expulsou de nossa terra, após expulsá-la de sua casa. – a idosa fala com raiva e amargura em sua voz, enquanto o idoso afagava as costas da neta, tentando acalmá-la.

- Como assim a roubou? – Atemu pergunta.

- Sim, grandioso nsw – Neema sai dos braços da sua avó e fala, juntando as mãos em seu tórax, enquanto lutava contra as lágrimas, com a sua voz saindo pesarosa – Quando fui avisada da morte do meu marido e antes que pudesse receber o dinheiro, a quantia foi roubada pelo meu sogro.

- Por que ele faria isso? – o Faraó perguntou com uma sobrancelha arqueada, enquanto exibia suspeita em seus olhos e apesar da sua voz barítono se encontrar em tom calmo, continha um ar intimidador.

Yuugi suspeitava que aquele olhar e tom, desafiava a mulher a mentir para ele, pois, era visível o fato de que não confiava na narração dos acontecimentos ao mesmo tempo em que não o contestava, pois, queria juntar todas as provas possíveis, além de desejar descobrir se era verdade ou não o relato dos três, antes que realizasse o seu julgamento para emitir a sua decisão.

Afinal, pelo que ele viu, o seu mestre parecia analisar e aferir todas as informações que podia reunir a partir da observação e de informações de outras pessoas que eram de confiança, quando as possuía, antes de dar o seu parecer.

- Meu sogro alegou que como estávamos casados há pouco tempo e não tínhamos filhos, nosso casamento não era válido. Portanto, ao ver dele, a compensação financeira deve ir para a família do filho e não para a viúva e...

- Ou seja, para ele mesmo, pois, não possuí esposa e nem filhos. O meu falecido cunhado, Khnemu, era o único filho dele. – o idoso fala com amargura na voz.

- Esse casamento foi validado aos olhos dos Deuses e do governo? – o Conselheiro real perguntou, enquanto demonstrava pouca simpatia, pois, achava a história inverossímil até aquele instante, sendo que estava se abstendo de fazer qualquer comentário.

Neema assentiu e disse, após inspirar profundamente, evitando que novas lágrimas brotassem dos seus olhos:

- Nos casamos em frente a um juiz e nossa união foi celebrada no templo de Bastet em Per-Bast. Depois do casamento, o meu esposo pegou um pedaço de suas terras e deu de presente aos meus avôs e em outra parte do terreno, nós construímos a nossa casa. Eram terras que ficavam distantes da casa do meu sogro, mas, que pertenciam ao meu marido que comprou com o seu saldo do Medjay. Nossa moradia se encontrava nos arredores de nossa vila, sendo um local calmo e pacifico, pois, era longe da agitação do centro.

- Como o seu sogro expulsou você e os seus avôs das terras que eram do filho? Com a morte do seu esposo, as terras passam para o seu nome automaticamente e se as terras foram ofertadas por ele aos seus avós quando estava vivo, pertencem a eles desde o momento que foram dadas. O seu sogro não tinha como pegar as terras deles – Atemu fala, enquanto mantinha uma face impassível, apesar da clara suspeita em seus olhos.

- Ele disse que como meu casamento foi breve e não tínhamos filhos, após a morte dele, as propriedades retornavam a família daquele que faleceu. Eu não sei como ele conseguiu pegar as terras dos meus avós, pois, foi passado para o nome deles. Expulsou-nos, depois de roubar a compensação financeira. Eu saí, apenas, com a roupa do corpo, assim como os meus avós e agora, temo pelo bebê em meu ventre.

Shimon virou-se para Atemu que consentiu, enquanto apoiava o queixo na mão, com o cotovelo desse braço apoiado no apoio no trono que continha a forma da cabeça de um leão.

- Por que você disse que teme pela criança? – Shimon pergunta, arqueando o cenho.

Os olhos da jovem caíram e mais lágrimas brotaram dos seus olhos, com ela os secando rudemente, para depois, inspirar profundamente, enquanto voltava a falar, sendo que os seus avôs a abraçavam, procurando transmitir conforto:

- Antes que o meu marido fosse colocado em sua tumba, após ser realizado os ritos funerários, meu sogro, que havia acabado de roubar a compensação, mostrou um documento que ordenava que eu e os meus avôs saíssem de suas terras e conforme éramos escorraçados, perguntou se eu estava grávida, pois, se eu estivesse grávida, ele tinha direitos sobre a criança. Portanto, ele estaria no momento do nascimento para levá-lo para a casa dele. Ele disse que eu nunca amei o seu filho e que só queria um marido para me sustentar... – a voz da jovem quebrou, enquanto ela cobria o rosto, lutando contra as lágrimas, sendo evidente em seu semblante a tristeza pela perda do marido e o medo de ter o seu filho tirado dela.

- É verdadeira a acusação dele? – o Faraó perguntou gentilmente, sendo que os seus olhos eram gentis e a voz era suave pelo que Yuugi percebeu ao olhá-lo discretamente pelo canto dos olhos – Você amou o seu marido?

- O que é mais triste em meu casamento é que eu amei o meu marido e que ele me amou. Agora, só me resta a dor da perda daquele que amei com todo o meu coração. Nós tínhamos tantos planos e ele estava tão empolgado quando eu falei que me encontrava grávida – os olhos dela demonstravam a tristeza da dor da perda, sendo que haviam brilhado com amor quando se recordou do seu esposo - Claro, ás vezes, ele perdia a paciência e quando isso ocorria, chorava e implorava por perdão e eu o perdoava. Afinal, ele me contou o seu passado e a fama do meu sogro o precede. O que se pode esperar de uma pessoa oriunda de um lar conturbado, cuja mãe era agredida verbalmente e fisicamente, com um pai que tratava o filho tão cruelmente quanto a esposa e que para agravar a situação, testemunhou a morte da mãe nas mãos do seu pai, agravando o fato de ser uma criança na época do assassinato? Ele não era e nunca foi um homem irritadiço. Apenas foi danificado pelo genitor.

Ela fez uma pausa, enquanto lutava inutilmente contra as novas lágrimas quer surgiram em seu semblante, para depois, cair de joelhos, enquanto se prostrava aos pés do Faraó, rogando em uma voz repleta de desespero e medo:

- Eu não me importo com a compensação financeira, com as terras, com a minha antiga casa, com roupas e qualquer bem que tenha deixado para trás! A única coisa que me importa é manter o meu filho a salvo do meu sogro! O meu filho é o meu bem mais importante! – ela havia ficado histérica em seu desespero, enquanto exclamava em pura súplica – Não posso deixar meu filho a mercê dele!

Os avos abraçam a sua neta que funga levemente, enquanto lutava para se acalmar e quando o avô se prepara para continuar falando, a jovem murmura algo e ele consente, com ela voltando a se curvar ao Faraó, falando com a voz embargada em lágrimas, enquanto exibia esperança em seu semblante:

- Nós esgotamos os nossos parcos recursos advindos do trabalho dos meus avós em conjunto com alguns pequenos serviços que eu fiz de limpeza para vir ao Qenbet, na esperança que o grandioso Hórus fizesse uma proclamação afirmando que a criança era minha e que se algo acontecesse comigo, será dos meus avôs e caso aconteça algo com eles, pois, acredito que o meu sogro irá fazer algo, a criança irá para adoção e ele nunca poderá reivindicá-la. Por favor, nsw, é tudo o que eu peço! Não posso permitir o mesmo dano ao meu filho que ele fez ao meu marido. Não posso! Tenho que proteger o meu filho. É só isso o que busco.

Atemu se põe a refletir sobre o assunto e antes que ele proferisse a sua decisão, as portas do tribunal se abrem com estrondo, fazendo Yuugi pular, assim como Kisara, enquanto todos se viraram para trás ao mesmo tempo em que o Faraó, o Conselheiro real e os membros do Rokushinkan olhavam para frente, observando o recém-chegado.