Notas da Autora

O homem se revela...

As pessoas no Qenbet se encontram...

Atemu decide...

Capítulo 58 - O predador e a presa

Era um homem que trajava um kalasiris com detalhes dourados e um orksh cravejado com joias, além de exibir anéis e braceletes dourados, sendo quem em sua cabeça jazia uma peruca ônix com um corte curto e devidamente escovado, além de usar brincos de ouro em suas orelhas.

A sua fisionomia era cruelmente envelhecida e os seus olhos ônix estavam vermelhos de raiva, com o seu semblante demonstrando a mais pura fúria, sendo que o eu rosto era marcado por linhas feias em seus olhos e mandíbulas, como se uma vida inteira de carrancas tivesse sido gravado permanentemente em suas feições raivosas, enquanto exibia uma pose altiva e igualmente ameaçadora, assim que entrou no majestoso e opulento recinto dedicado ao Qenbet.

O casal de idosos se encolheu, embora o homem estivesse em uma posição defensiva para escudar sua esposa e neta, sendo que a sua tensão, apenas fazia os seus ossos ficarem mais aparentes em sua face envelhecida e marcada por dificuldades de uma vida sofrida, enquanto que as suas mãos calejadas estavam cerradas. Os seus olhos cansados pelos tormentos, sofrimento e luta diária, ainda demonstravam seu desejo ardente de defender seus entes queridos.

Então, o grito de puro terror e angústia de sua neta cortou o ar como uma faca afiada, enquanto os olhos tementes da mulher olhavam atemorizados para o homem, confirmando para todos naquela câmara que o recém-chegado era o seu notório sogro.

Yukiko confessava que a espécie de aura dele ou algo similar a isso, não sabendo como se referir ao que via, demonstrava a mais pura maldade e crueldade que refletiam em sua aparência. Seu interior era muito mais feio e grotesco do que o seu exterior, o que evidenciava o mal dentro dele. Se o Faraó fizesse o julgamento dos itens, eles iriam encontrar o ser que chamavam de Ka.

Inclusive, ao fazer os seus olhos brilharem, ela conseguiu ver um Ka vicioso e grotesco em seu interior, para não dizer, abominável e igualmente medonho.

Conforme refletia sobre isso, ela acreditava que fariam um julgamento dos itens, com a albina acreditando que o Ka dele não o fez agir cruelmente e sim, que foi criado pelo mal no coração dele.

- Sua prostituta mentirosa! – o grito de fúria do homem tirou a albina dos seus pensamentos, enquanto o ouvia rosnar, para depois, vê-lo invadir a sala abruptamente, sendo detido prontamente pelos guardas do Medjay, fazendo-o exigir furiosamente – Deixe-me passar!

- Quem você pensa que é para perturbar o julgamento de Heru (Hórus)! – Shimon exclamou furioso ao ver um desrespeito tão descarado frente ao Deus vivo de todo o Kemet – Este é o Qenbet semanal onde o grande Per'a'ah realiza o seu julgamento divino sobre a luz de Ma´at!

- Isso não importa! – ele exclamou e todos ofegaram com tais palavras – Essa vadia me roubou e vim reivindicar a minha propriedade!

- Como assim o "roubou"? E a que "propriedade" se refere? – a voz barítono reverberou pela câmara, fazendo todos olharem para o Faraó, sendo que os olhos de Yuugi estavam arregalados, assim como os de Kisara.

Com um aceno de mão do monarca, os guardas deixaram o homem passar, enquanto Atemu dedicava um breve olhar e aceno para Mahaado e Seto, que estavam próximos dele e que se entreolham, para depois, consentirem, passando a se moverem discretamente para se aproximarem do casal e da jovem.

- Como assim o "roubou"? E a que "propriedade" se refere? Por favor, diga-me como foram realizados esses roubos.

O velho caminha até o centro sentindo-se jubiloso, enquanto exibia em sua carranca o mais puro triunfo ao mesmo tempo em que os seus olhos ônix brilhavam com vitória, fazendo com que Yuugi, Kisara, Nuru e os amigos de infância do Faraó exibissem olhares repletos de asco assim como Shimon e o Rokkushinkan, sendo que o Conselheiro real e os shinkans procuravam ocultar tais semblantes, com exceção de Akhenaden (Akanadin) que sentia simpatia pelo homem, enquanto se lamentava pelo mesmo não ter percebido a intenção do sobrinho dele, conforme voava como uma mariposa rumo à chama de uma vela.

- Ela – ele fala apontando o dedo em riste para a jovem que se encolhia contra os seus avôs, enquanto os dois shinkans se posicionavam defensivamente em torno deles, sendo um gesto que passou despercebido para o homem que falou – roubou o meu herdeiro.

Antes que Shimon perguntasse, Atemu se pronunciou, arqueando uma sobrancelha, enquanto sorria, sendo que os seus olhos destoavam do sorriso e refletiam parcialmente o seu interior:

– Como ela pôde roubar o seu herdeiro? A menos que de, alguma forma, ela tenha induzido o seu herdeiro a se casar com ela, tanto perante os Juízes, quanto perante os Deuses. Por acaso, contesta a aceitação dos juízes e a anuência dos Deuses a essa união?

O homem zombou das palavras do Faraó e exclamou, corrigindo o soberano de todo o Kemet como se estivesse repreendendo um servo estúpido:

- Não o meu filho! O seu filho! Meu neto!

O tom dele e a forma como se referia ao Deus vivo de todo o Kemet fez todos arfarem, com exceção de Akhenaden que assistia desgostoso o rumo daquela audiência e que o homem estava se enforcando de bom grado com a corda ofertada pelo seu sobrinho.

Com audácia, o homem os ignorou, voltando a apontar o dedo em riste para a mulher protegida pelos avós e pelos dois shinkans, enquanto que os guardas do Medjay se posicionavam estrategicamente sobre um comando discreto do seu Faraó.

- Eu perguntei a essa vadia se ela estava grávida, pois, se estivesse grávida, estaria no momento do nascimento para levar o meu herdeiro para a minha casa. Afinal, detenho direitos sobre a criança. A prostituta bastarda mentiu para mim quando disse que não estava grávida!

Era visível para todos, que apesar do semblante aparentemente impassível, os orbes rubis ardiam em brasas e que em breve, explodiriam em chamas furiosas. Yuugi, que estava mais perto, podia ver nitidamente o incêndio que estava surgindo neles e questionava-se como o homem bastardo a sua frente não percebeu o fato de que estava atiçando a fúria de quem não deveria atiçar.

Suprimindo exemplarmente seus reais sentimentos, a voz barítono do Faraó reverbera impassível pelo ambiente, questionando o homem a sua frente, olhando-o como um predador observava a sua presa, sendo que havia decidido quando e como daria o bote:

- Ela disse que você roubou dela a compensação financeira pela morte do marido. Não é a lei que caso ocorra a morte de trabalhadores do império, a família deve receber uma quantia considerável para permitir os ritos funerários e garantir a estabilidade financeira, mesmo temporariamente?

- Sim! Essa é a lei! – os olhos cruéis do homem brilhavam de júbilo, enquanto acreditava piamente que o rei estava concordando com os seus argumentos, enquanto zombava das palavras como se fosse algo exclusivo e privado – Como foi dito, é para a família do homem e ela não é da família.

- Ela era a esposa dele e consequentemente, viúva.

- Como eu disse anteriormente, o casamento não contou, pois, foi curto e eles não tiveram filhos. Portanto, ela não era verdadeiramente a sua esposa. Se fosse um casamento longo e principalmente com filhos, ela seria a sua esposa verdadeira.

- Eles não construíram uma casa juntos, antes de Anúbis vir recolher o esposo dela para ser julgado por Osíris? Esse fato não conta como um casamento legal, sendo que ambos se casaram em frente a um juiz, com a união oficializada perante os Deuses, também, no Templo de Bastet em Per-Bast?

- Eu disse que foi um casamento curto! Por isso, não contou! – ele exclamou novamente em tom raivoso, sem oferecer qualquer outra desculpa.

A maioria esmagadora questionou a si mesmo se alguém tentou argumentar contra as concepções distorcidas do homem e igualmente ilógicas, além de serem contrárias às leis do império, até que se recordam da fama dele que foi exposta pela mulher e pelos avós dela, fazendo-os acreditar que dificilmente alguém iria contra ele por temer represálias.

- Então, você é o pai do noivo que tomou a casa da viúva, que não fez nada além de sofrer? – o Faraó perguntou, sendo perceptível em sua voz barítono uma falsa diversão, enquanto continuava encarando-o como uma presa que se exibia ao predador sem ter nenhum apreço pela vida.

O homem exclamou em um misto de triunfo e de satisfação por ainda acreditar, piamente, que o imperador estava do seu lado, aceitando os seus argumentos que, ao ver dele, eram plausíveis e igualmente lógicos por mais distorcidos e ilógicos que fossem aos outros e ao próprio rei:

- Isso mesmo!

- E quanto ao fato de recolher juntamente com a casa, todos os pertences, além de tomar a terra dos avós dela?

O homem deu uma risada berrante repleta de triunfo:

- Ela e seus avós eram mendigos de rua quando o meu filho a encontrou – ele bufou, para depois, dedicar um olhar enojado e igualmente arrogante para a mulher e aos seus avós – Por isso, ela não trouxe nada para o casamento, além de si mesma. Portanto, todos os chamados pertences dela eram do meu filho que pagou por eles, assim como pagou pelo terreno desses velhos, fazendo com que fossem meus por direito, após Anúbis o levar. Afinal, os bens pertencem à família e como eu disse, ela não é da família. Portanto, os pais dela também não pertencem à família. Ela teve sorte de eu ter aceitado a presença dela na vida do meu filho, não tendo nada para trazer ao casamento, além do seu corpo!

- No entanto, você argumenta que ela não tem direito a compensação financeira, sendo que este valor foi criado para a viúva e família dos soldados e trabalhadores, caso o pior acontecesse, visando o conforto e a segurança financeira em um momento desolador, porque o casamento foi curto e eles não tiveram filhos, mesmo com ela engravidando durante o casamento, antes que Anúbis o levasse para ser julgado por Osíris, enquanto você mantém para si mesmo a casa e os bens adquiridos na constância da união, juntamente com a propriedade que foi dada de presente aos avós dela para que tivessem um local para poderem cultivar e criar os seus animais para o seu sustento? – ele pergunta com escárnio frente à hipocrisia da declaração e argumentos do homem a sua frente, enquanto era visível, mesmo em seu semblante aparentemente impassível, a raiva da injustiça que ardia em seus olhos como chamas incandescentes repletas da mais pura fúria ao mesmo tempo em que as unhas raspavam os braços do trono onde ele estava sentado.

O jovem de orbes ametistas estava estarrecido ao ver que o homem não percebia a fúria divina que estava desencadeando com os seus argumentos distorcidos e igualmente injustos, sendo que o jovem percebeu que a injustiça sempre inflamava o seu mestre, assim como os crimes de qualquer espécie, enquanto sentia pena e igual pesar da mulher e dos seus avós pelo sofrimento e medo que passaram frente as ameaças do homem a frente deles.

- Sim, nsw! – ele exclamou orgulhosamente, enquanto se gabava de deixar explicito o seu ponto, acreditando que o monarca os havia aceitado.

Atemu pergunta, mantendo um tom impassível, apesar da fúria represada em seu anterior, fazendo Yuugi questionar a si mesmo como o soberano de todo o Kemet conseguia manter o semblante e a postura impassíveis, apesar da evidente fúria que se agitava em seu interior, como um vulcão prestes a entrar em erupção:

- E quanto ao filho dela? Qual o motivo da sua alegação dele ser seu e não da genitora?

Ainda inconsciente de qualquer perigo, sem perceber que não passava de uma mera presa se aproximando de forma suicida do seu predador, enquanto o atiçava com palavras, pose e conduta, ele ri, para depois, responder:

- É o filho do meu filho! Os filhos pertencem ao pai e não a mãe. Portanto, é meu por direito! – ele aponta novamente o dedo em riste para a mulher sem fazer qualquer esforço para esconder a sua repugnância e arrogância – Ela somente iria estragá-lo. Além disso, não tem como ela sustentar a si mesmo e a criança. Quanto aos pais dela, eles são tão pobres quanto ela! Portanto, eu o pegarei para criá-lo como se deve, sendo que possuo meios para isso.

O Faraó pergunta em um tom perigoso, sendo que as próprias sombras ao redor dele pareciam ganhar vida, enquanto era visível um leve brilho do olho de Wadjet no centro do Sennensui ao mesmo que os olhos ardiam como se fossem chamas vorazes, juntamente com o sorriso torcido e igualmente perverso que surgia em seus lábios:

- Da mesma forma que criou o seu filho?

- Sim! – ele exclama com visível satisfação e júbilo em sua voz, pois, acreditava piamente que o monarca concordava com a sua reivindicação.

Novamente, os itens pareciam pulsar juntos do Sennen Aitemu de Atemu, apesar de ser em uma intensidade menor do que antes, mas, igualmente visível, assim como os semblantes tensos dos membros do Rokushinkan que se encontravam mantendo os seus itens sobre controle, apesar da aparente ressonância entre eles.

O soberano de todo o Kemet encarava abertamente o homem a sua frente como se não passasse de um mero rato perante um poderoso leão que havia sido provocado ao ponto de quase ruptura, fazendo o majestoso felino se erguer em toda a sua elegância, poder e ferocidade, enquanto se preparava para abater a presa a sua frente, conforme se levantava do seu majestoso trono, dobrando os dedos em um punho de cada lado do seu corpo ao mesmo tempo em que a sala escurecia conforme ele falava em um tom perigoso, com a sua voz barítono profunda revibrando pelo ambiente, sendo que todos recuaram para trás, assim como Kisara, com exceção de Yuugi que continuava não sentindo medo, apesar da aparência e poder mágico que emanava do deus vivo a sua frente, assim como do item dourado e repleto de magia que ostentava em seu pescoço, percebendo pelo canto dos olhos que o homem manteve a sua postura, parecendo completamente alheio ao que acontecia no seu entorno, fazendo-o questionar como alguém podia ser tão cego:

- Eu quero propor um cenário ao senhor em busca da sua opinião, pois, parece ser bem ciente das leis. Um homem exigiu de um casal e sua filha os direitos sobre a carroça que eles possuíam, juntamente com o animal que puxava o veículo e os produtos, sendo que este homem nunca teve direitos sobre o animal e os objetos, segundo as leis de Maat. Porém, continuava a insistir que detinha direitos, justificando assim o seu ato, apesar das leis dizerem o contrário. Nesse caso, o conteúdo da carroça, o meio de transporte e o animal. A filha desse casal era casada com um parente dele que acabou falecendo, enquanto gerenciava a reforma de um templo da Deusa Isis em Hebyt. Ele roubou a compensação financeira dela, apesar da lei falar que a compensação financeira era para a viúva. Não obstante, ele roubou um bracelete dourado que a filha do casal possuía, porque simplesmente podia, usando a mesma lei que ele alegou para as outras situações ao tomar o que nunca foi dele. Esse homem que roubou o bracelete dessa viúva, além de subtrair de forma criminosa a compensação financeira dela, também tomou todos os bens da carroça dos pais dessa mulher, juntamente com a carroça e o cavalo que pertenciam aos pais dela, simplesmente porque desejou e por acreditar que era melhor do que ela e os seus pais. Ele foi trazido pelos guardas até a minha presença para que fosse julgado pelos crimes que cometeu. Diga-me, como esse homem pode ser punido por roubos tão ultrajantes e igualmente vis?