Notas da Autora

O homem se encontra...

O Faraó decide...

Capítulo 59 - Gratidão

Yuugi não sabia se era pela arrogância desmedida do homem ou por não perceber que estava sendo testado ou eram ambas as hipóteses, que o fez endireita-se orgulhosamente, exibindo uma pose altiva, enquanto falava inconsciente do que acontecia no seu entorno e da evidente fúria do Faraó, com o ex-sacerdote não compreendendo como alguém podia ser tão cego:

- Esse homem não passa de um ladrão ordinário, além de um valentão e cruel que deu o bote se aproveitando da pobre mulher e dos pais dela! Ele não pode ganhar o seu próprio sustento e por isso, decidiu tirar dos outros que eram mais fracos, provocando danos e dor ao se aproveitar da debilidade dessas pessoas! Esse ladrão usurpador, bastardo, covarde e ordinário não merece o que tem. Portanto, tudo o que ele tem e possui, assim como a sua riqueza, sua terra e eventuais títulos que detém, tem que ser tomados, para depois, serem entregues as suas vítimas, enquanto é convertido em escravo com uma dívida eterna, passando a trabalhar nas minas pelo resto dos seus dias!

Atemu sorriu como um lobo, enquanto demonstrava deleite em suas feições ao poder aplicar a justiça, com o próprio homem dando a sua condenação, sendo que as sombras pareciam estar em júbilo tal como o seu mestre, enquanto a luminosidade parecia retornar parcamente, embora permanecesse levemente sombreado, com o jovem sentindo que a magia que impregnava o local parecia recolher-se levemente frente a felicidade do mestre deles, que fala:

- De fato, uma excelente punição. – com um sorriso perverso, ele observou o homem arrogante estufar o peito, como se recebesse um enorme elogio.

O rei acenou com a mão e um soldado do Medjay que exibia destemor, assim como os demais soldados, mesmo com aquela magia sombria envolvendo o local, caminha até o velho e o força a cair de joelhos no chão ao acertar atrás dos seus joelhos, fazendo com que toda a confiança, bravura e arrogância abandonassem o seu semblante, cujo rosto encontrava-se chocado pela mudança abrupta da situação e igualmente inesperada ao ver dele.

Inutilmente, ele tentou protestar, sendo que o guarda bateu na nuca dele com a parte de baixo da sua lança, o silenciando eficazmente, enquanto o fazia curvar a cabeça com a força do golpe.

Debilmente, o homem olhou para o rei em busca de uma explicação e apenas encontrou um rosto furioso, sem qualquer indício de uma amizade que o homem julgou erroneamente ter visto no semblante do imperador, desde que foi permitido se aproximar do trono.

- Não ouse olhar para Heru (Hórus)! – o guarda acertou-o novamente na cabeça, forçando-o a abaixá-la em submissão.

- Você se atreveu a interromper o Qenbet semanal e consequentemente, a minha corte, como se estivesse acima das leis estabelecidas por Ma'at (Maat), enquanto acusa uma mulher inocente e igualmente desesperada para proteger o seu amado filho de você, após roubar tudo o que era dela por direito, desde a casa que construiu com o seu esposo no casamento deles e os objetos que adquiriram na constância da união, jogando-a nas ruas em seguida, com ela tendo apenas as roupas do corpo, juntamente com o roubo descarado do benefício financeiro para ajudá-la nos tempos difíceis que vivenciava, antes que pudesse terminar de sofrer a morte do marido. Não obstante, roubou um presente dado pelo falecido marido aos avós dela, enquanto ele estava vivo. Você zombou de mim, o filho dos Deuses, ao julgar que eu fosse um tolo que não enxergaria os seus jogos hipócritas regados a distorções alimentadas pela sua arrogância, ganância e crueldade, sendo que ao zombar de mim, você insultou os Deuses, também! – a voz barítono trovejante do rei se tornou mais profunda, ecoando como um trovão nas paredes de arenito, enquanto o seu semblante exibia uma fúria que podia rivalizar com a dos Deuses, fazendo o homem prostrado aos pés do Faraó exibir um olhar horrorizado para o seu monarca ao ousar erguer a cabeça, novamente.

Yuugi acreditava que aquela era a primeira vez que o homem tremia de medo na presença de outra pessoa, sendo que soava como uma justiça poética, por assim dizer, pois, após atemorizar tantas pessoas, enchendo-as de terror ao ponto de temerem, apenas, a sua presença, agora ele se encontrava na mesma situação que impôs aos outros por vários anos.

O homem exclama desesperado, ainda de joelhos:

- Nswt, por favor!

- É o suficiente! Não suporto mais ouvir a sua voz repulsiva na minha corte! – Atemu exclamou despejando a sua fúria em cada palavra, sendo que o homem podia ver as sombras se movendo sobre os pés do seu rei, além do semblante furioso que o silenciou eficazmente, enquanto olhava com olhos esbugalhados as sombras dançando sobre os pés do monarca, que sorri novamente de uma forma perversa e distorcida, exibindo prazer em seus olhos que brilhavam como duas chamas incandescentes – Você mesmo nomeou o seu próprio castigo! Afinal, não passa de um mentiroso, usurpador, bastardo, covarde e ladrão que rouba tudo o que acha ter direito ao menosprezar e deturpar as sagradas leis de Ma'at, usurpando o que é legalmente dos outros aos olhos dos Deuses ao tomar para si mesmo, enquanto promove o sofrimento, além de usar sua influência e poder para atemorizar os inocentes através de violência e de ameaças. Após fazer tudo isso, subvertendo as leis sagradas de Ma'at, além de julgar-me um tolo e zombar dos Deuses, você ousa ter a audácia de implorar por clemência?!

O homem ameaça abrir a boca, tentando debilmente encontrar alguma voz, enquanto movia os lábios sem fazer qualquer som ao mesmo tempo em que tremia intensamente, mantendo os seus olhos esbugalhados conforme lutava contra o terror que o tomava, buscando se encolher conforme as sombras pareciam se agitar em torno dele como se implorassem ao mestre para entregá-lo a eles, sendo este um pensamento aterrador que o fazia suar frio, olhando debilmente para o imponente e feroz leão que se elevava sobre ele.

Os olhos rubros do soberano de todo o Kemet pareciam duas lavas incandescentes, repletas da mais pura fúria que perfuravam os olhos covardes e igualmente atemorizados do homem a sua frente que chorava em um misto de temor e de desespero, enquanto a voz do Faraó ficava perigosamente baixa:

– Eu acho que não.

O monarca se afastou do homem trêmulo e igualmente aterrorizado que chorava em puro desespero, para se sentar em seu trono.

Instintivamente, Yuugi apoiou a mão dele na de Atemu, olhando-o pelo canto dos olhos, buscando confortá-lo com um gesto e olhar, além de um sorriso gentil em seus lábios pequenos e delicados. Tal como aconteceu anteriormente, a magia do item e do Faraó cessou quando o soberano se acalmou, com os outros Sennen Aitemu se acalmando, enquanto as sombras retornavam a normalidade ao mesmo tempo em que a claridade retornava ao recinto.

O Faraó confessava que estava surpreso pela capacidade de Yuugi de dissipar a sua fúria ou dor perante um toque gentil e olhar amável que era visível em seus orbes expressivos que envergonhava a mais bela ametista, sendo que também demonstravam a alma e o âmago do ex-sacerdote. Ao ver de Atemu, tudo isso reforçava o seu desejo de defender e proteger o seu amado que era uma joia de valor inestimável e igualmente rara.

- Façam o julgamento dos itens. – o rei sai dos seus pensamentos e profere a sua decisão, com os shinkans se curvando levemente, sendo que Akhenaden faz forçadamente, enquanto suprimia o seu dissabor pela ordem dada.

Os membros do Rokkushinkan assumem a sua posição usual de julgamento, para depois começarem, com Karim erguendo o seu Sennenbakari, falando ao ficar na frente do homem que era mantido prostrado pelos soldados:

- Eu, o Hem-netjr Karim, julgarei o coração desse homem – ele tira uma pena de dentro das vestes e a coloca em um dos pratos da balança dourada – Essa é a pena de Maʽat. Veremos se o seu coração pesa mais do que a pena.

Nisso, o item brilha e demonstra que a pena é mais leve que o coração do homem, com a balança demonstrando que o coração pesava demasiadamente ao pender para um lado.

Karim retorna ao seu lugar, enquanto Shada tomava o seu lugar na frente do homem, para depois, falar:

- Eu, o Hem-netjr Shada, usarei o meu Sennenjou para revelar o ser que habita o seu coração.

O item brilha e ele adentra o coração do homem, avistando um monstro com dois pares de braços e corpo deformado, para depois, sair do coração, enquanto falava:

- Há um monstro dentro dele.

O sumo sacerdote se afasta, com o tio de Atemu se aproximando até ficar na frente dele, falando, enquanto concentrava poder no seu Sennen Aitemu:

- Eu, o Hem-netjr Akhenaden, usarei o meu Sennengan para revelar a verdadeira forma do Ka!

Ao fazer isso, a criatura sai de dentro do homem, fazendo muitos no salão ofegarem ao verem o Ka que assumia uma postura agressiva, sendo que nesse ínterim, era trazida uma placa de pedra sagrada que foi posicionada estrategicamente atrás de Seto, enquanto as pessoas no salão ofegavam ao ver o monstro se materializar perante os seus olhos.

O Ka tinha um corpo comprido e deformado, contendo vários olhos em seu ventre, uma espécie de focinho alongado e igualmente distorcido com presas, sendo que do rosto até o focinho achatado havia olhos que estavam posicionados na mesma linha dos outros.

Além disso, havia uma espécie de crina formada por cabelos que saíam atrás da cabeça e que se propagavam pela sua coluna.

Ademais, os seus braços e pernas eram compridos para um corpo esguio, sendo que mesmo nos braços havia olhos. Suas garras eram imensas e afiadas, sendo que o monstro urra furioso, para depois, avançar na direção do Faraó, que meramente arqueia o cenho para o gesto da criatura enfurecida.

O primo do Faraó ergue o seu item, falando em um tom de voz firme e autoritário, enquanto encarava com destemor o ser a sua frente:

- Eu usarei o poder do meu Sennen Shakujou para selar o Ka em uma tábua de pedra sagrada – o Sennen Aitemu começa a reluzir, fazendo o ser avançar contra o sacerdote para atacá-lo, com Kisara sentindo que a sua dragoa se agitava levemente dentro dela ao vê-lo em perigo ao mesmo tempo em que a prateada se encontrava preocupada, temendo o pior – Ka maligno! Espirito negro do caos! Vá embora e seja selado nesta placa de pedra sagrada sem demora!

O olho no cedro resplandece mais intensamente do que o cajado que o apoia, subjugando eficazmente o monstro e selando os seus movimentos ao envolvê-lo em uma espécie de névoa dourada, para depois, o mesmo ser arremessado contra a placa de pedra sagrada com um movimento certeiro do braço do dono do Sennen Aitemu, fazendo o Ka ser absorvido pela superfície de arenito.

Após terminar o selamento, apareceu o contorno do ser na placa, sendo que a criatura poderá ser invocada pelos shinkans quando for necessário, através dos cânticos sagrados e enquanto a Placa de pedra sagrada era retirada do salão por alguns soldados, o homem prostrado no chão se encontrava atordoado pelo ser que foi retirado dele e por tudo o que presenciou.

Então, Atemu ordena com a sua voz barítono implacável:

- Rastreie a alma dele e verifique quanta escuridão há no coração dele, Hem-netjr Shada, usando o seu Sennen Bakari (Balança do Milênio).

- Como desejar, Heru. - ele fala respeitosamente, se curvando levemente.

Nisso, ele se concentra e o objeto brilha, com um dos pratos pendendo para baixo ao mesmo tempo em que a pena posicionada anteriormente era erguida pelo peso do coração maligno do homem no outro lado, para depois, o shinkan se afastar, enquanto o soberano de todo o Kemet falava em um tom autoritário e igualmente implacável com a sua voz barítono trovejante revibrando pelo recinto:

- Você estava plenamente ciente dos seus atos. A criatura não o forçou a nada. O seu coração nutriu esse monstro. Isso só prova o quanto o seu coração é cruel e perverso. Afinal, tanta crueldade só poderia gerar um monstro igualmente abominável. Quanto a sua punição, você mesmo a nomeou. – ele termina o final com um sorriso distorcido de puro deleite, enquanto via a sua presa balbuciar palavras incompreensíveis, sendo que o seu rosto se encontrava umedecido pelas lágrimas incessantes em seus olhos repletos de desespero e súplica silenciosa.

Então, Shimon anunciou a punição do homem e que deveria ser executada imediatamente, assim como a comunicação ao escriba do homem para fazer a relação de tudo o que o seu ex-patrão possui:

- Você está despojado dos seus títulos e todos os direitos sobre as suas terras e quaisquer outras propriedades que possui. Agora, você é um prisioneiro e em decorrência dos seus crimes perante as leis sagradas de Maʽat, aos Deuses e ao Deus vivo de todo o Kemet, você se tornará um escravo para o resto de sua vida e irá trabalhar até o fim dos seus dias nas minas. Sua riqueza, status, títulos e todos os bens que possui vão ser administrados pela mãe do seu neto até que ele atinja a maioridade, sendo que ela possuíra direito a metade desses bens e riqueza, após o filho se tornar adulto. As terras que pertenciam aos avós dela irão retornar a eles que serão declarados legítimos senhores delas. Esse é o veredito sobre anuência dos Deuses de todo o Kemet, através do julgamento divino do filho do Deus Re (Ra), perʿaa Atemu. Portanto, não cabe nenhum recurso. – o Escriba real anotava tudo exemplarmente e após terminar, entregou o pergaminho ao seu escravo pessoal que entregou ao servo responsável por levar os pergaminhos para apreciação do Faraó, para que os carimbasse com o seu selo real em seu escritório.

O Conselheiro real acenou para o guarda que consentiu, passando a arrastar o homem trêmulo e igualmente aterrorizado que gritava e suplicava por piedade, sendo que outro guarda o acerta lateralmente na cabeça, fazendo-o desmaiar, recebendo um sorriso de satisfação do Faraó.

Yuugi e Kisara ofegaram e quase gritaram de surpresa quando ouviram uma exclamação repleta de felicidade, gratidão e alívio, sendo que haviam se esquecido da mulher e dos seus avós:

- Oh! Muito obrigada, Heru!

Lágrimas da mais pura felicidade brotavam dos orbes da mulher, assim como dos seus avôs, com os três prostrados aos pés do rei, exibindo adoração e intensa gratidão pelo fim do terror, do sofrimento e do desespero. Os olhos dos três, principalmente da mulher, brilhavam de intensa emoção, enquanto ela falava com a voz embargada pelas lágrimas de felicidade:

- Muito obrigada, poderoso nswt, filho sábio dos Deuses, detentor da sabedoria Divina e dos poderes do seu pai, o todo poderoso Re! Muito obrigada! Obrigada! Obrigada! – a mulher exclamava com gratidão e suas palavras eram um misto de riso e de lágrimas de pura felicidade.

- Muito obrigado, grandioso per ʿaa! Obrigado! Obrigado! – o idoso chorava de felicidade, enquanto exclamava humildemente, com a voz tomada pela emoção e felicidade.

- Muito obrigada, Heru! Muito obrigada! Muito obrigada! - a idosa exclamava chorando de felicidade e com a voz embargada, enquanto exibia intensa gratidão e devoção ao soberano de todo o Kemet.

As palavras do casal de idosos e da mulher prostrados humildemente aos pés do Faraó também eram um misto de lágrimas e risos, enquanto demonstravam felicidade e alívio pelo fim dos tormentos que vivenciaram.

Atemu levantou-se do seu trono e se aproximou do trio que ainda estava prostrado no chão.