Notas da autora

Atemu fica...

Mana se encontra...

Em uma Academia...

Capítulo 67 - Mana

Naquele momento, Yuugi se encontrava caminhando por um longo corredor de arenito junto de Atemu, sendo que haviam acabado de chegar do templo.

Agora, eles estavam se dirigindo até os estábulos reais, sendo que o ex-sacerdote confessava que estava ansioso para ver os cavalos e conforme refletia sobre isso, sente o seu coração se restringir ao pensar na sua égua negra, a Yoru, que ele entregou para o seu pai, antes que ocorresse a invasão, visando salvá-la.

Claro, o animal não desejava se afastar dele, mas, não havia escolha e com pesar para ambos, eles se afastaram, com o animal sendo levado em segurança pelos seus pais que se prontificaram a cuidar dela.

Ao perceber um olhar distante e triste no semblante do seu amado, Atemu pergunta em um tom repleto de preocupação:

- O que houve, Yuugi?

Ele sai das suas recordações tristes, falando:

- Estava me lembrando da Yoru.

- Yoru?

- É uma égua toda negra. Eu a salvei quando era filhote de um predador e desde então, conforme crescia, ela somente aceitava o meu toque. Algum tempo depois, enquanto eu estava sentado em cima de uma cerca, acarinhando-a, ela posicionou o seu corpo lateralmente ao meu e relinchou, como se me convidasse a subir em seu lombo. Após saltar para o dorso dela, passamos a galopar juntos sobre o fascínio de muitos. A Yoru não foi domada, porque eu não quis isso e eu era o único que ela aceitava em cima dela. Todos falaram que era uma égua de um só cavaleiro.

- Ela te amava muito. – Atemu fala com um sorriso gentil.

- Sim. Conforme eu penso na minha vila, eu fico preocupado com o destino de todos eles. Claro, eu acredito que estão em um local seguro e inacessível, mas, sempre há essa dúvida em minha mente. – ele murmura cabisbaixo.

- As asas de Yukiko são fortes e poderosas. Afinal, eu a vi lutar contra dois deuses, antes de cair para o último. Talvez, ela possa ter alguma ideia da rota que vocês tomaram e durante a noite, pode pesquisar o local onde os moradores da sua vila se mudaram.

- Mas, eu não sei se em uma noite ela conseguiria esse feito.

- Mais para frente, eu possa encontrar alguma justificativa para dar um tempo maior, sem deixar que ela suspeite de que eu sou incapaz de punir você. – o Faraó comenta pensativo.

- Vou perguntar para a Yukiko se ela consegue voar a noite para procurar a minha vila.

O monarca segura a mão de Yuugi e passa o dedo suavemente no punho dele, falando, enquanto olhava para o ex-sacerdote ao mesmo tempo em que exibia a sua inabalável autoconfiança:

- Com certeza, eles estão bem.

O jovem sorri e consente, murmurando:

- Obrigado.

Então, o Faraó pega o rosto redondo e delicado dentre as suas mãos másculas, com Yuugi sendo um cativo voluntário das duas esferas carmesins intensas, enquanto que os lábios do soberano se aproximavam dos lábios macios de pétalas de lótus, quando o som de passos quebra o contato visual de ambos, fazendo com que o jovem corasse três tons carmesins ao mesmo tempo em que Atemu suprimia eficazmente a intensa frustração que o acometeu pela interrupção inoportuna.

Afinal, por não desejar deixar o seu amado constrangido pelo seu ato, ele afastou prontamente as mãos do rosto dele, enquanto se afastava um pouco do adolescente, passando a olhar para a origem do som e quando os passos ficam mais próximos, aparece um servo que se curva respeitosamente, para depois, falar:

- Per'a'ah, o superintendente dos exércitos e do Medjay solicita uma audiência urgente com o senhor no escritório.

A face que era um misto de frustração e raiva pela interrupção inoportuna dá lugar a uma face repleta de preocupação, com ele se virando para Yuugi, que também estava preocupado.

- Eu vou ver Rishido. Você deve ficar aqui, pois, eu vou mandar chamar Mana. Não saia daqui até ela aparecer. Provavelmente, assim que terminar essa reunião, precisarei me reunir com os meus guardiões sagrados. Nós vemos quando a barca do Netjer (Deus) Ré estiver no seu auge no céu e depois, quando a barca do Netjer Re começar a sua jornada ao submundo para enfrentar ʻAʼpāp (Apep).

Yuugi sorri sobre o sorriso de Atemu que o faz corar, com o jovem observando o monarca se afastando do local, após dar ordens ao servo que curvou para o monarca, antes de se retirar rapidamente do local para que pudesse cumprir com a ordem dada.

Pacientemente, Yuugi espera no local e após algum tempo, ouve passos de uma pessoa correndo e quando o som se aproxima do local, ele avista uma jovem kemética saltitando animadamente até ele, sendo que usava uma túnica diferenciada e uma espécie de cobertura na cabeça que na sua vila chamavam de chapéu. Ela usava argolas e pulseias de ouro, assim como tornozereiras douradas, além de calçar um sapato fechado, provavelmente confeccionado com papiro, além de ostentar embaixo dos seus olhos a típica linha de Khol usada por aquele povo em suas maquiagens. Olhando para a garota, ele julgava que devia ter dezesseis anos. Seus olhos eram verdes como esmeraldas e seus cabelos eram negros e ligeiramente compridos, embora os fios fossem levemente arrepiados nas pontas, além da pele ser marrom dourada.

A adolescente para de saltitar e os seus olhos ficam arregalados, enquanto exibia visível surpresa em seu semblante, para depois, rodeá-lo com um sorriso animado, exclamando em seguida, após ficar na frente dele:

- Incrível! Os seus cabelos lembram os de Atemu, com exceção da cor das pontas, além de não ter algumas franjas douradas espetadas para o alto! Quando falaram que tinha algumas características que o lembravam, eu não imaginei que fosse relacionado a esse cabelo espetado. Mesmo assim, é surpreendente! Os seus olhos são tão grandes e expressivos! Dá para ver a sua alma, se bobear. Ou, pelo menos, o seu âmago! A cor é a da ametista que é a joia dos Per'a'ah! A sua pele é tão clara! Lembra a cor do marfim! E é tão pequeno! Não acredito que é mais velho do que eu! Também possuí uma constituição tão delgada e delicada. Você é um estrangeiro bem distinto! Além disso, é tão fofo! – enquanto Yuugi tentava compreender onde ela conseguia tanto fôlego para falar de uma só vez e sem se atrapalhar no processo, ele é abraçado pela jovem empolgada que esfrega a lateral do rosto na bochecha dele ao se curvar levemente, murmurando – A sua pele é tão macia! Lembra a suavidade e a maciez de uma pétala de flor!

A bronzeada se afasta levemente, para depois, o segurar pelos ombros, sorrindo imensamente, enquanto o ex-sacerdote se encontrava embaraçado com o entusiasmo inesperado e a expressividade da jovem, assim como a capacidade de falar tanto sem se atrapalhar, fazendo-o perceber de imediato, que ela era muito animada.

- O seu nome é Mana, certo? – ele pergunta em tom de confirmação.

A jovem sorri e consente com empolgação, para depois, abrir um imenso sorriso:

- Sim. Atemu pediu que me chamasse para levá-lo aos estábulos reais. Também sei que preciso levá-lo para almoçar junto dele, sendo que os Guardiões sagrados vão estar presentes! Depois, vou levá-lo até os outros. Venha, vamos aos estábulos! Vou mostrar a minha égua! Podemos apostar uma corrida! Temos tempo até a barca de Re ficar no auge da sua passagem pelo céu!

Então, sem dar chance dele falar algo, ela o agarra pela mão e o puxa dali, fazendo ambos correrem, com o ex-sacerdote possuindo a ligeira impressão que precisaria agir prontamente como um adulto, pois, a jovem que o arrastava pelos corredores de arenito, parecia mais uma criança do que uma adolescente.

- Calma, Mana!

- Vamos logo! Estamos pertos! Tem cada cavalo lindo! Você pode escolher um deles para ser a sua montaria! Eu vou mostrar o garanhão de Atemu! Também vou mostrar os cavalos de todos os Guardiões sagrados, inclusive o do meu mestre Mahaado! Eu também tenho um! Ela é uma égua linda!

- Mestre? Por acaso, é uma escrava? - ele pergunta, sendo que achava estranho o fato da jovem usar tantas joias se era uma escrava, apesar de não poder falar muito, enquanto tentava compreender o motivo de alguém com o seu status usar vestes com tecido usado por nobres, além de várias joias.

- Eu fui uma escrava no passado. Mestre Mahaado me libertou! Eu sou uma aprendiza de mago! Um dia, serei uma maga tão poderosa quanto o meu mestre! Ele me ensina magia! – nisso, ela faz alguns floreios com a mão, fazendo surgir pétalas de flores no ar, sobre um olhar surpreso do jovem.

- Isso é incrível!

- Você também tem magia, né?

- Bem, eu tenho um poder chamado Kiei. Posso manipular elementos.

Eles param de correr e ela solta a mão dele, para depois, exibir um semblante expectante que faz Yuugi coçar o queixo, sem jeito, já prevendo o que a jovem ia falar.

- Por favor, você pode mostrar o seu poder?

O ex-sacerdote olha para os lados, buscando algo, sendo que após alguns minutos, não encontra nada para fazer a demonstração dos seus poderes.

Então, ele comenta:

- Preciso ter algum elemento. Pode ser água, uma chama ou qualquer outra coisa.

- Eu posso criar um vaso com água! Eu aprendi ontem!

Nisso, ela conjura um vaso com água e após coloca-lo no chão, Yuugi se concentra, começando a fazer a água sair do recipiente, com o líquido tomando a forma de um corpo esguio que lembrava o de uma serpente e que passa a flutuar no ar, seguindo os comandos dos seus dedos, passando a circundar ambos sobre o olhar maravilhado da jovem que bate palmas alegremente, para depois, levar os dedos até a serpente de água, a acarinhando, sendo que o adolescente de cabelos tricolores faz a água retornar obedientemente ao vaso, fazendo com que voltasse a sua forma original.

- Foi maravilhoso! Isso funciona com qualquer elemento? – ela pergunta com um semblante curioso.

- Sim. Inclusive com plantas, se eu assim desejar. Quando houve a invasão a minha vila natal, eu fiz os ramos das árvores agirem como chicotes, golpeando os invasores e cheguei a manipular as chamas que eles provocaram na mata adjacente a minha vila.

- Oh! É bem útil.

- Sim. Somente a linhagem da minha família detém esse poder.

Mana olha para o céu e arregala os olhos, exclamando:

- Precisamos correr o quanto antes! Vamos!

Ela pega a mão dele e o puxa, com eles correndo do local, sendo que o jovem de cabelos tricolores comenta, olhando para trás:

- E o vaso que você conjurou?

- Alguém vai achar e...

Nisso, eles ouvem o som de alguém caindo, assim como o barulho de metal atingindo o chão, com ambos avistando dois soldados com lanças, sendo que um deles havia tropeçado no vaso de água que estava no chão e que naquele momento, estava fragmentado, além do homem estar estatelado no chão, fazendo Mana e Yuugi suarem frio.

- Vamos!

Eles correm mais rápido ainda, enquanto podiam ouvir maldições daquele que caiu, sendo que os gritos cessavam gradativamente ao mesmo tempo em que observavam outros soldados se dirigindo para a origem dos gritos.

- Mana... – ele murmura com evidente preocupação em seu semblante.

- Não se preocupe! Nunca descobriram e não vai ser agora que vão descobrir!

A revelação o deixou chocado, fazendo-o questionar quantas vezes isso ocorreu no passado, com ele passando a ter a confirmação de que a jovem ao seu lado era tão imatura quanto uma criança.

Em outro universo, mais precisamente em uma Academia de estudos, um dragão em sua forma humana estava estudando alguns livros com afinco, enquanto tentava ignorar a preocupação que o tomava ao pensar na despedida daquele dia e na promessa mágica que foi obrigado a fazer e que o mantinha naquele lugar, apesar dos sentimentos que o tomavam, sendo que houvera sacrifícios e manipulações para que pudesse se encontrar ausente de quaisquer consequências indiretas das decisões de terceiros.

O homem olha rapidamente para os lados e para os seus colegas, sendo que era ciente do fato de estar sobre observação, pois, seria o esperado, considerando o fato de que a imperatriz não era estúpida e que manter um olhar atento sobre ele era uma precaução necessária, embora fosse estúpida, na visão dele.

Afinal, ele não desejava fazer algo naquele momento e nem mesmo posteriormente. Os seus planos eram outros e confessava estar ansioso para terminar de cumprir a promessa mágica feita por imposição e ao pensar nos seus planos futuros, não consegue impedir que um sorriso maligno surgisse em seu rosto, sendo que é obrigado a suprimir abruptamente, antes que alguém percebesse o seu semblante de cruel satisfação.