Notas da autora

Atemu decide...

Shimon se encontra...

Yuugi se encontra...

Capítulo 75 – O arrependimento de Shimon

O soberano decide se dirigir o quanto antes para a vila onde Shimon residia depois de solicitar um cavalo.

Após montar o seu garanhão Khnurn que relinchava em sinal de aborrecimento, provavelmente pelo horário ímpio que foi retirado da sua baia, Atemu o acalma com toques gentis e murmúrios de desculpas que fez o imponente e majestoso garanhão ficar calmo novamente, se limitando a dar apenas um bufo de aborrecimento.

Então, ele sai a galope com o Ka de Mana ao seu lado.

Quando era de dia e por causa do status, além da aparência, ele se deslocava através do palanquim que era carregado por escravos.

Porém, como era de noite, não havia necessidade, além de não achar certo acordar os carregadores após ter sido carregado grande parte do dia para os seus compromissos diários. Eles mereciam uma noite decente de sono na visão dele.

Após atravessar o trecho de areia até a construção onde Shimon morava e que era uma mansão com vários quartos, área de lazer, biblioteca, salas, refeitório e cozinha, ele desmonta do seu garanhão e prontamente, um servo que trabalhava no turno da noite pega as rédeas depois que se prostrou ao monarca, encostando a fonte no chão enquanto outro abria as portas duplas, se prostrando em seguida ao soberano.

Algumas casas que compunham aquela vila dentro das paredes imponentes do complexo, exibe luzes de velas ao mesmo tempo em que servos e escribas, além de alguns funcionários sobre a jurisdição de Shimon, colocavam a cabeça para fora para observar a movimentação incomum, com muitos deles olhando com fascínio para o Ka ao lado do rei.

O Tjaty (Vizir) desce as escadas em vestes simples, provavelmente por estar na cama naquele horário, segurando uma vela que se encontrava repousando em cima de um apoio de cobre.

Após descer o último degrau, ele boceja, antes de se curvar levemente por causa da idade que o impedir de se curvar mais profundamente enquanto deixava a sua perna esquerda na frente do seu corpo.

- Atemu, que honra recebê-lo em minha morada. – como era um membro da família, além de ter sido confirmado o direito de chamar o governante pelo seu nome de nascença pelas mãos do mesmo, ele o chama pelo seu nome verdadeiro.

Então, o Conselheiro real faz um movimento discreto com as mãos e os servos que estavam no local, se prostram para o rei e depois, se curvam para Shimon, antes de se afastarem para voltarem as tarefas que estavam fazendo por serem do turno da noite.

Após eles saírem, o Vizir pergunta com evidente preocupação em seu rosto ao ver o semblante impassível do seu sobrinho neto ser tomado pela aflição após a saída dos servos do recinto:

- Atemu, aconteceu algo? Por que você está com o Ka da Mana? É o ka dela, né?

- Sim. Mana me emprestou, caso eu precisasse de alguma ajuda adicional apesar de eu ter o meu próprio Ka pessoal para isso. Eu acredito que é para ela saber o resultado da minha busca. Eu descobri através da Mana que Yuugi estava com você.

- Sim. Ele estava no final do corredor norte, perto da biblioteca pública. Normalmente, esse é um lugar movimentado. Eu fiquei com ele por alguns minutos após a fuga de Mana, antes de sair pelos corredores para procurar Mahaado.

- Ele não chegou ao meu quarto. – ele fala, ficando cabisbaixo e era visível a angústia em sua voz e semblante.

Como estava na presença de um familiar e sem ter nenhuma outra pessoa o observando, ele permite que as suas emoções se tornem visíveis.

Shimon vai até ele e o abraça, o confortando, uma vez que estavam sozinhos.

- Droga. Eu estava tão nervoso com Mana e desejando ardentemente achar Mahaado para que ele desse uma punição por ela fugir das aulas, que acabei me esquecendo de pedir para alguém escoltá-lo. Eu acreditei que ele acharia algum guarda para pedir orientação. Afinal, o chefe dos guardas do palácio, assim como os soldados membros do Medjay sabem da importância dele para você.

- Eu vou adiantar as buscas antes de ordenar a todos para procurarem por ele.

Com a sobrancelha arqueada, Shimon segue o seu sobrinho neto que sai da sala, com ele observando um dos seus servos segurando as rédeas de Khnurn.

O monarca começa a concentrar o seu bah e faz surgir o seu ka pessoal na sua frente que foi criado pelo seu coração.

Possuía uma forma humana com pele na cor verde claro e olhos vermelhos que possuíam um traço vertical negro em cada olho. Ele tinha um chapéu côncavo inclinado para o lado na cor verde escuro com relevos dourados, possuindo uma joia esmeralda circular de cada lado da cabeça. Somente alguns fios do seu cabelo prateados eram visíveis por saírem do chapéu que parecia uma armadura. Todo o seu corpo era coberto por vestes verdes escuras que se estendiam até metade das suas mãos e por cima destas vestes, jazia uma armadura esverdeada escura com relevos dourados circundando as bordas das peças que compunham a armadura. O peitoral que se estendia até atrás da sua cabeça possuía joias circulares de esmeralda incrustadas, circuladas por relevos na cor dourada. As suas ombreiras se estendiam além do ombro e eram em formato de duas camadas. Os seus braços e antebraços eram cobertos por placas estilizadas de armadura, com os cotovelos contendo joias verdes. Suas penas e pés eram cobertos pela armadura esverdeada escura que continha relevos dourados em toda a sua extensão. Na sua mão direita jazia uma espada estilizada comprida serrada, com os vãos entre as serras sendo espaçosos e no total de três com as pontas sendo ligeiramente curvadas. O metal era envolto em um relevo dourado, o mesmo relevo da armadura e que dividia a espada em três seções enquanto que em cada seção havia uma joia circular de esmeralda. O formato distinto da espada veio da visão que ele teve de alguns Ka que usavam armas quando era criança e que acabou influenciado na criação da arma do seu Ka.

O ser se curva para o monarca, que fala:

- Nms Km Heika (Guerreiro negro da magia - Black paladino), vá até o Chefe dos Guardas do palácio e fale para ele me encontrar na câmara de audiência.

- Sim, mestre. – o Ka responde audivelmente.

Ka´s poderosos e racionais possuíam links de comunicação com os seus mestres, desde que fossem os seus criadores. Alguns destes podiam se comunicar mentalmente com outras pessoas em caráter temporário, desde que tivessem mais poder que o usual ou pela força de vontade do seu criador, assim como pela força do seu Bah.

Ele parte do local voando para atender a demanda enquanto Atemu voltava a se concentrar, com o seu Sennen aitemu brilhando, mais precisamente o olho de Wadjet, com ele murmurando algumas palavras antigas, fazendo surgir um bloco de pedra.

Se fosse qualquer outro cavalo, sem qualquer treinamento para gerenciar o uso da magia de invocação de Ka e invocação do mesmo, estaria se debatendo contra as rédeas enquanto empinava e relinchava, visando fugir do local ao lutar contra aquele que segurava as suas rédeas, chegando ao ponto de derrubar o seu cavaleiro ao ser tomado pelo medo.

Porém, Khnurn havia recebido treinamento do próprio Atemu e gerenciava a invocação de Ka, assim como todas as montarias daqueles que podiam invocar um ka ou usar magia.

Inclusive, mesmo um animal que não fosse montado por um invocador ou mágico, recebia o treinamento para gerenciar manifestações mágicas ou ataques mágicos.

Afinal, um cavalo assustadiço com a invocação de magia se convertia em uma ameaça não somente ao cavalheiro ao poder derrubá-lo no chão, assim como ao atingir um inocente em sua fuga desenfreada e caso estivessem dentro de uma guerra, seria uma reação indesejada.

Portanto, o garanhão do monarca apenas relincha levemente enquanto observava o seu mestre usando magia.

Após fazer surgir uma placa de pedra, a figura de um monstro surge e pegando o seu Sennen aitemu em suas mãos, Atemu concentra magia em sua mão, incidindo no objeto que segurava, para depois, usar a ponta para quebrar a placa de pedra em milhares de pedaços que formam a imagem do mesmo monstro, fazendo com que se manifestassem várias cópias do original que passam a flutuar no ar, fazendo ter a aparência de uma nuvem pela quantidade imensa.

- Quem diria que um monstro tido como o mais fraco dos Ka´s, pudesse ter tais habilidades.

O original fica ao lado de Atemu que o afaga, fazendo o monstro falar animado, assim como as suas cópias:

- Kuriii... Kuri!

- Karibou, procure o Yuugi. Ao achá-lo, me avise. Andem em dupla. Assim, um continuará observando ele enquanto que outro irá me chamar. Ao achá-lo, avise as outras cópias para cessarem as buscas.

- Kurii! – ele consente animado, antes deles se espalharem para cumprirem a ordem.

- O poder é ilusão. Karibou é fraco, porém, mesmo um fraco pode derrotar alguém mais forte.

- Fale isso para o seu primo. Infelizmente, certos aprendizados não mudam. Akhenaden (Aknadin) incutiu fortemente muitos ensinamentos nele enquanto ele estava sobre a sua tutela antes que se afastasse do seu genitor.

- Eu pretendo fazer isso quando a oportunidade surgir.

O monarca faz um gesto com a mão e o servo entrega as rédeas, com ele apeando habilmente o seu garanhão ao demonstrar a sua destreza como cavaleiro:

- Vou ordenar que outros se juntem ao Karibou na busca pelo Yuugi. Com certeza, a notícia vai se espalhar pelo palácio.

- Acho uma boa ideia. Eu peço desculpas, Atemu. – Shimon fala o final tristemente e era implícito na face dele o pesar de não ter buscado um soldado para escoltar o jovem.

- Eu sei... Infelizmente, algo assim nunca ocorreu. Devemos aprender com os nossos erros. Eu só espero que ele esteja bem. – Atemu fala com um semblante imerso em preocupação, sendo visível o quanto ele lutava para manter a pose altiva e impassível que ele devia exibir em público, independente da situação ou sentimentos que o tomavam.

Afinal, era o dever dele, principalmente em um momento de dificuldade porque ele precisava espelhar força, determinação, implacabilidade e confiança nata por representar o seu império e consequentemente o seu povo, assim como para dar confiança e coragem aos outros porque o povo se apoiará em seu monarca e ele precisava ser firme como uma rocha. Pelo menos, em público. Demonstrar fraqueza e consequentemente, sentimentos não é e nunca será uma opção. Estes eram alguns dos vários ensinamentos que recebeu enquanto crescia ao ser preparado desde pequeno para herdar o trono.

Então, se despedindo, ele parte a galope, com Shimon solicitando a um dos servos para preparar o seu cavalo para ir ao palácio.

Afinal, era o Conselheiro real do jovem monarca.

Por onde os Karibous passavam voando, as pessoas apontavam para eles, com muitos os identificando como sendo Ka´s e quando alguns deles ficaram apavorados, outros os acalmaram falando que era a invocação de alguém e que não havia motivos para temê-los porque não apresentavam agressividade.

Além disso, regulamente havia treinos de Ka e a maioria havia visto a invocação dos monstros pelo rei e seus Guardiões Sagrados, além de Rishido e outros escolhidos para manter os seus ka pessoais.

Claro que esse conhecimento não os impedia de se assustarem ao ver as duplas de Karibou voando pelos corredores apesar do tamanho deles enquanto que muitas mulheres o achavam fofo.

Nesse interim, de volta ao cômodo que Yuugi se escondeu junto de Yoru e Kiara ao mesmo tempo em que estava inconsciente da busca frenética de Atemu, o jovem continuava chorando compulsivamente e em silêncio.

- Quem é? – uma voz fraca seguida de uma tosse áspera é ouvida ao mesmo tempo em que o vulto se levantava com dificuldade, acabando por se limitar a se encostar melhor nos travesseiros da cama enquanto virava o rosto para o canto que Yuugi se encontrava.

Graças à visão noturna deles, eles haviam identificado o vulto como um homem de meia idade e de aparência moribunda que se arrastava com dificuldade para ficar com as costas apoiadas nos travesseiros, antes de dedicar um olhar cansado para o local em que Yuugi e o casal de gatos se encontravam.

A tosse áspera desperta Yuugi da tristeza que o tomava e com os olhos lacrimosos e face úmida, ele olha para o ocupante da cama e se ergue enquanto temia o que aconteceria se o homem chamasse os guardas que estavam de prontidão atrás das portas duplas.

Ele observa o homem arregalar os olhos, olhando-o com visível surpresa, para depois, comentar:

- Olhos de ametista grandes e expressivos, cabelos tricolores espetados com pontas ametistas e franjas douradas emoldurando um rosto oval com contornos suaves. Um corpo com traços delicados e estatura pequena. Pele da cor do marfim. Vestes nobres e joias. Você é o Yuugi, certo? – ele pergunta o final em tom de confirmação, com a sua voz ameaçando falhar algumas vezes quando as tosses roucas não interrompiam momentaneamente a sua voz.

Era evidente para o jovem e para o casal que o homem na frente deles estava gravemente doente.

- Sim. Perdoe-me por entrar em seu quarto. Por favor, me perdoe. – o ex-sacerdote fala antes de começar a chorar ao ser tomado pelo medo e estava tão assustado com que iria acontecer com ele, que não ousou questionar a si mesmo com o homem sabia quem ele era.