Notas da autora

Atemu começa...

Yukiko decide...

Capítulo 80 – A decisão de Yukiko

Meia hora depois, na espaçosa e opulenta sala do trono, Atemu estava sentado em seu trono com Yuugi ao seu lado em uma cadeira de madeira com adornos dourados contendo algumas joias cravejadas e apesar de ser mais simples do que o trono, a cadeira era mais imponente do que as usuais. Havia também inscrições egípcias em sua superfície que consistiam de feitiços de proteção.

O jovem confessava que estava confuso por ter uma cadeira luxuosa no lado direito do rei e após pensar por vários minutos, tentando compreender o motivo, ele decide deixar para escanteio porque não estava chegando a lugar nenhum. O som de vários passos ecoando no piso de arenito o tira dos seus pensamentos.

Yoru e Kiara se encontravam sentados ao seu lado e observavam com atenção os acontecimentos enquanto confessavam que começaram a sentir que algo iria acontecer, confirmando o temor da princesa deles embora não soubessem quando iria ocorrer e de que forma.

De ambos os lados do trono, se encontravam distribuídos todos os seis Guardiões Sagrados, o Hem-netjr Mahaado, Hemt-netjr Isis, Hem-netjr Seto, Hem-netjr Karim, Hem-netjr Shada e Hem-netjr Akhenaden que assumiram posturas austeras enquanto observavam servos, escravos e alguns soldados entrando escoltados por outros soldados. Somente o tio de Atemu demonstrava também aborrecimento em seu único olho embora procurasse disfarçar o máximo possível ao abaixar levemente a sua cabeça, usando o manto para ocultar parte do seu rosto, mais precisamente, o lado que tinha o seu olho, deixando descoberto o Sennen Aitemu que ocupava a sua órbita esquerda.

No lado esquerdo do monarca se encontrava o Tjaty (Vizir) e Conselheiro real, Shimon Muran. Atrás dele se encontrava o escriba real junto de alguns servos que carregavam canetas de junco e tinta em potes de barro ricamente trabalhados em sua superfície, além de rolos de pergaminho. Ele estava sentado em uma espécie de mesa no canto dos degraus, pronto para documentar os acontecimentos em medu-netjer (mdw.w-nṯr - palavras de deus - hierógrifos). Ao lado dele se encontrava o imi-r ḫtmt (Superintendente do selo).

O General e Superintendente do exército e do Medjay, Rishido, se encontrava de prontidão, observando os membros do Medjay posicionados estrategicamente junto com os seus soldados e que estavam preparados para qualquer incidente. O Superintendente dos Guardas reais, com a sua usual feição séria e olhar atento também estava ao lado do general e esperava que nenhum dos seus homens estivesse envolvido com o envenenamento de Akhenamkhanen.

A imi-r pr wr (Superintendente da grande casa), Cynthia, também estava no canto esquerdo das escadas, observando atentamente os recém-chegados junto do seu filho, Leon e do seu marido, Maximillion (Crawford), com ele se destacando pelas vestes nobres helênicas que usava junto do seu cabelo prateado e olhos azuis.

A Superintendente da Grande casa havia herdado a aparência da avó dela, fazendo com que tivesse a pele clara, com um leve bronzeado enquanto que os seus cabelos loiros cacheados e olhos azuis se destacavam dentre os keméticos. Cynthia era neta do Tjaty (Vizir) e Conselheiro real, Shimon Muran.

Era evidente que muitos deles demonstravam sonolência por estarem dormindo antes de serem convocados, com estes se encontrando confusos, assim como os outros conforme era percebido em seus semblantes e quando chegam ao meio do salão e na frente do seu rei que estava no trono acima das escadas, eles se prostram, encostando as testas no chão enquanto aguardavam a autorização do soberano deles para se erguerem.

- Fiquem de pé. – Atemu ordena com a sua voz barítono profunda.

Prontamente, todos obedecem sem olhar no rosto do seu monarca. O silêncio que reinava no ambiente era opressor e somente o som da caneta de junco percorrendo a folha de papiro era ouvido enquanto que era evidente a tensão no ambiente, com muitos acreditando que podia ser cortado com uma espada e aqueles que se encontravam no grupo em frente aos degraus, não conseguiam compreender o motivo da tensão que pairava no ar.

O som das enormes portas duplas da entrada sendo fechadas fez alguns saltarem enquanto que outros grupos de soldados fechavam as outras portas espalhadas pelo entorno do grande e opulento salão, fazendo com que as pessoas que compunham o grupo de frente para o trono se sentissem presas.

Então, o monarca se levanta e fala com a sua voz de abismo profundo, exibindo o semblante de um governante que era inabalável, severo e calculista enquanto que o seus olhos penetrantes com sua sombra vermelho sangue eram onipresentes, afiados e calculistas:

- Foi descoberto que o meu honorável genitor estava sendo envenenado gradualmente e hoje, o veneno em seu corpo alcançou o ápice e ia matá-lo. Yukiko conseguiu salvá-lo a tempo. Considerando o fato de que ele ficou acamado enquanto o envenenamento continuava sendo aplicado, somente aqueles com acesso ao quarto dele conseguiriam envenená-lo após ele ficar preso na cama, sem conseguir se levantar por causa do seu estado debilitado. Portanto, os meus Guardiões sagrados vão usar o poder de seis dos sete tesouros para descobrirem o responsável pelo envenenamento. – ele se vira na direção deles - Comecem.

Então, um dos soldados presentes no salão conduz um dos servos que trabalhavam na cozinha até a frente do trono, mas na parte debaixo das escadas enquanto Akhenaden dava os primeiros passos com o seu item brilhando após concentrar a magia do objeto, com Shada se dirigindo a outras pessoas para agilizar a busca pelo culpado.

Longe dali, mais precisamente onde Yukiko se encontrava repousando, ela havia adormecido profundamente, com o seu último pensamento consistindo de tentar encontrar a vila do seu amigo para saber sobre os pais dele e o resto dos aldeões.

Porém, para aqueles que conseguiam vê-la se assim quisessem, eram visíveis os movimentos frenéticos das pálpebras enquanto o seu focinho se contraia, mostrando algumas fileiras de presas, com a sua enorme cabeça se remexendo ao mesmo tempo em que as suas asas pareciam se movimentar, mais precisamente as juntas. As garras de suas patas se contraiam no mesmo momento em que a sua cauda se remexia levemente, não sendo o suficiente para o porrete na ponta provocar qualquer dano nas estruturas adjacentes e na escuridão parcial de onde ela se encontrava, era visível o fulgor do símbolo de lua crescente.

Após vários minutos, ela abre os olhos e levanta a cabeça de cima das patas, para depois, abanar levemente como se estivesse tentando dissipar o sono enquanto que o símbolo em sua testa começava a perder gradativamente o brilho até retornar a cor normal. Os seus olhos se estreitam na direção do palácio e depois, para o seu lado direito, olhando para o horizonte.

- Droga. Como pode ser...? – ela murmura enquanto cerrava os punhos.

Então, Yukiko começa a pensar consigo mesma:

"O que eu faço? Eu não sei se conseguiria... Quer dizer, há um modo de eu recuperar os meus poderes, mas, não sei se dará tempo hábil. Ambos são quase simultâneos. E se..."

Ela suspira profundamente, para depois, tomar uma decisão e usando ao máximo as suas forças restantes, a princesa dos dragões se levanta e praticamente caminha lentamente para fora, com as suas asas se arrastando no chão de arenito decorado com imagens de plantas e água para tornar mais fresco o ambiente em que ela ficava durante o dia.

Depois, passou a arrastá-los na areia enquanto se encontrava ciente que não se recuperou por completo porque ainda estava exausta e com os músculos doloridos, fazendo com que cada movimento fosse um grande esforço, além de disparar dores intensas pelo seu corpo.

Ademais, o seu nível mágico estava demasiadamente baixo e ela não sabia se teria capacidade de chegar até onde precisava.

Porém, conforme se recordava das imagens e sabendo das consequências em ambos os casos, a albina exibe um olhar determinado e decide usar a sua férrea determinação para transcender os seus limites porque não podia hesitar em seu intento. Somente lhe restava bater as suas asas possantes em direção ao seu primeiro alvo, com Yukiko sendo ciente que os acontecimentos em seguida iriam deixá-la mais debilitada do que já estava e que provavelmente, quando cessasse os seus movimentos, dormiria por dois dias inteiros.

Porém, era um preço pequeno a se pagar caso tivesse êxito.

Afinal, não era somente o seu destino que estava em jogo e sim, o de várias pessoas. Ela não podia negligenciar ambos os acontecimentos. Um por desejar proteger aquele que via como um filho e o outro porque tinha a sua responsabilidade que era advinda com o fato de ainda ter os seus títulos reais junto dos sentimentos de Yuugi.

Claro, Yoru e Kiara podiam cuidar do que ia acontecer, mas, se fizessem tudo o que podiam, iriam revelar que não eram gatos comuns e naquele momento, eles precisavam manter os seus disfarces.

Portanto, esse fato iria limitar drasticamente a capacidade do casal de atuar e de gerenciar os acontecimentos que se desenvolveriam ainda naquela noite.

Yukiko inspira profundamente, para depois, começar a assumir a sua postura para o voo, conseguindo sentir a dor pungente em cada movimento que fazia e enquanto posicionava o seu corpo e asas usando os seus músculos doloridos, as dores se alastravam impiedosamente. A expectativa de colocar o seu corpo imenso no ar a fazia sentir dor antecipadamente.

Ela podia assumir a sua forma humana após ascender para o céu, visando reduzir o esforço e peso ao mesmo tempo em que buscaria alguma corrente de ar para planar, reduzindo drasticamente os movimentos e consequentemente a dor enquanto usaria o ar frio e gélido das altas altitudes na sua cura e recuperação, para depois, chegar ao primeiro lugar que deveria se dirigir antes que pudesse cuidar dos preparativos para atuar conforme o que era necessário. Restaurar a sua magia e o seu corpo eram as suas prioridades naquele momento.

Então, inspirando profundamente, suprimindo os gemidos e gritos de dor que queriam sair das suas mandíbulas, a meia dragoa se ergue nas suas possantes patas traseiras e as flexiona enquanto mantinha a posição das asas para usar o impulso das patas e os movimentos iniciais dos músculos para se afastar do solo.

Sobre a surpresa de alguns guardas no entorno, ela consegue subir rumo ao céu.

O motivo de ficarem surpresos é porque eles imaginaram que ela ficaria descansando após voltar cedo do seu voo noturno.

Conforme Yukiko batia vigorosamente as suas asas de envergadura imponente, ganhando altitude gradativamente, se afastando cada vez mais do solo, mais as dores aumentavam em proporção a força e aos movimentos exigidos, fazendo com que a sua mente se focasse exclusivamente em ultrapassar as nuvens em busca da umidade e das temperaturas congelantes, assim como de alguma correnteza de ar enquanto agradecia que naquele período do mundo não havia aviões, ainda.

Afinal, a sua concentração estava totalmente focada em permanecer no ar e alcançar o primeiro lugar que ansiava, fazendo com que não conseguisse prestar maior atenção no ambiente a sua volta. Se tivessem aviões cruzando os céus como era em seu planeta natal, ela não conseguiria ver em tempo hábil, fazendo com que a responsabilidade de impedir a colisão caísse exclusivamente no avião, o que era injusto porque a capacidade de manobra de um dragão era mais funcional e eficaz do que manobrar aquele meio de transporte.

Yukiko sai dos seus pensamentos enquanto se focava em um determinado ponto no horizonte ao mesmo tempo em que assumia a sua forma humana, confessando que havia sentido muita falta daquela forma ao mesmo tempo em que usava a sua magia para achar a rota mais curta para onde desejava chegar.

A princesa dos dragões sabia que a sua parte dragoa das neves divinas acabava possuindo certa facilidade para encontrar o que desejava ao fazer o seu corpo agir quase que por instinto, como se algo a guiasse. Isso era próprio da raça da sua mãe e que a impulsionava em uma espécie de frenesi intenso que reduzia consideravelmente as dores, se provando como sendo algo benéfico enquanto se surpreendia ao sentir que mesmo naquele mundo, havia este instinto primordial inerente a uma das suas naturezas.

A meia dragoa consegue achar uma correnteza de ar particularmente gélida e começa a planar, batendo ocasionalmente as suas asas possantes. O frio nessa correnteza de ar e da atmosfera ao seu lado ao mesmo tempo em que o ar rarefeito não possuía qualquer efeito nela, começaram a restaurar as suas forças e a sua magia enquanto reduzia as dores intensas que a acometiam.

Porém, Yukiko sabia que para ter uma recuperação completa em decorrência do uso do cedro, esse ar gélido não era suficiente.

Afinal, ela precisava de algo bem mais frio e igualmente gelado.

Após algum tempo, a princesa dos dragões consegue chegar onde desejava e ao transpassar as nuvens densas, ela avista a imensidão gelada que se estendia além do horizonte, sabendo que estava em um dos polos daquele planeta. Lágrimas de alegria brotam dos seus olhos enquanto que os ventos gélidos não passavam de ventos extremamente prazerosos. O ar frio que entrava em seus pulmões, os revitalizava.

Sem poder esperar mais, Yukiko assume a forma de um dragão peludo imenso e mergulha no oceano gélido, se deliciando com a água congelante, para depois, subir até a superfície, saltando para fora e ao olhar um rochedo composto puramente de gelo, ela avança em frenesi como se fosse um náufrago em busca de terra firme.

Ao alcançar o imenso bloco congelado, a princesa dos dragões começa a se alimentar do gelo, escancarando as suas mandíbulas possantes para engolir grandes quantidades enquanto se alimentava, fazendo com que ela sentisse que a sua magia era revitalizada, assim como o seu corpo que se enchia de uma nova energia ao mesmo tempo em que as dores desapareciam gradativamente conforme se banqueteava.