Notas da autora
Em Men-nefer (Menphis)...
Em um local onde...
Os aldeões se encontram...
Capítulo 81 – Ameaças
Há milhares de quilômetros do local, mais precisamente nos arredores da capital Men-nefer (Menphis) e as suas paredes de tijolos de barro pintadas de branco que a destacavam, havia um séquito de criminosos liderados pelo seu líder e companheiro dele que olhavam com determinação para o palácio. Eles haviam reduzido o galope dos animais ao trote enquanto se aproximavam das construções ao longe.
Era possível ver Per-nefer, o porto de Men-nefer, a principal doca e porto marítimo da capital e o centro mais próspero de todo o Kemet. Eram visíveis os barcos que se encontravam ancorados em atracadouros possuindo tamanhos diferentes, com as barcas do exército se destacando dentre todas ao mesmo tempo em que a barca real se destacava mais do que qualquer outra embarcação e que ficava em seu próprio atracadouro.
Os criminosos murmuravam entre si e foram silenciados eficazmente quando o líder ergueu a sua mão bronzeada repleta de joias assim como os seus punhos e que eram oriundas dos seus saques aos túmulos, muitos destes no Vale dos reis enquanto era visível o seu cardigã vermelho com bordados de ouro e que estava aberto em seu tórax ao cobrir apenas os seus ombros e costas enquanto era preso na cintura por faixas de ouro ao mesmo tempo em que jazia em seu pescoço colares de ouro, com alguns contendo joias. Havia inclusive um colar Sekh. Um shendyt de linho cobria as suas partes inferiores chegando quase acima do joelho. Havia faixas de ouro que cobriam os seus tornozelos e parte da perna enquanto calçava um sapato de linho com bordados dourados. As suas roupas também eram oriundas de saques.
Então, todos os criminosos passam a olhar com expectativa para o seu chefe que fala após abaixar a sua mão:
- Irmãos! É chegado o momento de mostrarmos a esses desgraçados todo o nosso poder. Se lembrem do local que devem se dirigir e o que devem fazer. Vamos ensinar a esses bastardos uma lição que nunca vão esquecer! Mas, lembre-se, eu serei único a enfrentar o Per'a'ah. Afinal, eu preciso dar o meu presente. – ele fala o final com um sorriso maligno enquanto que o corpo de uma pessoa enrolada em faixas de linho desgastadas atrás dele jazia deitado lateralmente e pendurado no lombo do seu cavalo ao mesmo tempo em que havia uma corda grossa e rústica amarrado no pescoço da múmia com a outra ponta se encontrando presa na mão do líder dos ladrões.
Enquanto todos comemoravam, ele puxa as cordas e o derruba no chão, para depois, fazer o seu cavalo empinar e relinchar, com os outros criminosos fazendo o mesmo, assim como o companheiro dele, Kura, que usava um manto branco com detalhes de ouro e um shendyt preso na cintura por bordados de ouro. Ele tinha algumas joias em seu pescoço, punhos, dedos e tornozelos enquanto calçava um sapato fechado de linho com detalhes dourados. Ele também tinha um colar Sekh pendurado em seu pescoço.
Após os cavalos abaixarem, o albino fala:
- E eu irei ajudá-lo. Eu e os outros escolhidos. – ele fala sorrindo enquanto que alguns ladrões consentiam.
Kura exibia roupas de nobres e joias roubadas das tumbas, assim como os homens do rei dos ladrões. As joias e vestes que cobriam os seus corpos eram frutos de roubos. Eles também roubavam de nobres, não se limitando apenas as tumbas porque somente os melhores conseguiam ludibriar as armadilhas físicas e mágicas que foram colocadas para deter os saqueadores, com o rei deles sendo proficiente ao ponto de roubar qualquer tumba que desejasse. Ele nunca encontrou nada que não pudesse saquear e se gabava de suas habilidades, dentre elas, a de se infiltrar nos locais sem ser avistado graças a habilidade especial do seu Ka.
- Vamos! – ele exclama e faz o cavalo empinar, para depois, instigá-lo a galopar, com os demais fazendo o mesmo, para depois, segui-lo, com todos se dirigindo até a capital.
Há centenas de quilômetros dali, em Suméria, mais precisamente no palácio da capital, uma mulher bronzeada de cabelos negros compridos e olhos carmesins observava o céu estrelado enquanto suspirava, para depois, começar a massagear a nuca com os dedos. A costumeira dor retornando enquanto aguardava ansiosamente o liquido que tomava quase todas as noites porque sempre aliviava a dor e lhe trazia sonolência.
Enquanto esperava a porção, ela se questionava o que eram os seus sonhos que tinha quase todas as noites e que também contemplavam ambientes desconhecidos, mas que por algum motivo eram estranhamente familiares ao mesmo tempo em que trazia uma intensa saudade e tristeza.
Por algum motivo que não compreendia, não conseguia contar ao seu marido, que naquele momento se encontrava em uma reunião estratégica com o enviado de outro reino. A rainha detestava a guerra e odiava o fato do seu esposo desejar atacar outro reino, sem qualquer provocação deste, fazendo com que ela tentasse dissuadi-lo do seu plano.
Porém, nada que falava o fazia repensar ou recuar em seu intento.
A bronzeada suspira novamente, para depois, virar o rosto ao olhar para as portas duplas que foram abertas, com a rainha sorrindo gentilmente ao ver uma serva idosa entrando com uma bandeja em suas mãos e um corpo de ouro com joias encrustadas em cima dele.
A rainha não se importava com esse luxo. Se viesse em uma caneca de bronze, para ela, seria igual. Não era somente pelo fato do liquido não ter qualquer mudança em seu efeito não importando o recipiente que o continha e sim, pelo fato de não sentir desejo de se exibir e que somente se exibia com joias e vestes luxuosas por causa do seu título.
A serva se curva levemente e oferece a bandeja, com a mulher agradecendo gentilmente com um sorriso no rosto, para depois, sorver o conteúdo enquanto que a idosa olhava tristemente para a bronzeada, sentindo o seu coração se restringir porque não concordava com muitas decisões do seu rei e em relação à rainha, era uma das decisões que ela desaprovava.
Porém, nada podia fazer. Pelo menos, ainda. A serva esperava surgir alguma oportunidade no futuro.
Afinal, também havia uma dívida que devia pagar, com ela precisando retribuir o quanto antes, não importando as consequências oriundas das suas ações.
Não muito longe dali, o rei havia acabado de sair da reunião com o seu general e comandantes, assim como com outros que eram fundamentais para o êxito do seu plano. O mensageiro do reino aliado se retirou, se curvando levemente, para depois, sair com uma bolsa de couro em seu ombro contendo a resolução e planos orquestrados naquela noite e que iriam ser entregues para apreciação do outro rei.
Ele avista o chefe dos médicos reais e se aproxima dele, que se curva ao seu monarca.
- Como ela está?
- Eu a examinei. Ela está bem. A porção tem mantido os seus resultados.
- Tem certeza?
- Sim. Porém, eu já contei ao senhor as consequências do uso em longo prazo. Eu recomendo interromper o tratamento atual e usar outro. Se continuar assim, a rainha...
- O outro não surgiu o mesmo efeito deste. Eu não posso arriscar, ainda. Porém, posso mudar se o meu plano tiver êxito.
- Eu temo que quando isso ocorrer será tarde demais para impedir as consequências e isso fará com que...
O rei faz um gesto cortante com a mão, obrigando o chefe dos médicos a se calar enquanto se lastimava pela rainha.
- Não quero ouvir mais contestação da sua parte. Eu preciso arriscar e sou ciente dos riscos. Quando eu desejar que você altere o tratamento, eu irei comunicar a você. Agora, se retire.
O homem se curva novamente enquanto o rei saía do corredor rumo aos aposentos reais, com o médico suspirando ao mesmo tempo em que tomava uma decisão porque a sua consciência não podia continuar com aquele esquema.
Claro, o chefe dos médicos sabia das consequências de ir contra as ordens do seu soberano e para assegurar as melhores chances à rainha, ele deveria agir com cautela enquanto que não se sentia culpado por ocultar alguns detalhes dos sonhos que ela confiou a ele e que implorou que não contasse ao esposo, com o médico procurando reforçar a concepção da rainha de não contar o rei porque não podia arriscar que o seu monarca soubesse dos sonhos que a bronzeada tinha.
Nesse interim, há milhares de quilômetros dali, em um local repleto de árvores, surge uma revoada de pássaros que batiam desesperadamente as suas asas para se afastar o quanto antes. Os animais também fugiam em uma fuga desenfreada como se a mata estivesse pegando fogo ao mesmo tempo em que um tremor intenso sacode o local enquanto que um rugido ensurdecedor reverbera no ar, gelando o sangue de todos que ouviam. Um rochedo imponente adjacente à origem do rugido desmorona e a densa nuvem de poeira se torna visível ao longe, fazendo com que o pânico generalizado se instaurasse na pequena vila.
Animais lutavam desesperadamente contra as restrições, outros arrebentavam os cercados como os bois que estouravam as cercas e causavam uma debandada, com os cavalos os acompanhando, derrubando cavaleiros ou arrastando as carroças em que estavam atrelados, com alguns exigindo o uso demasiado do freio em suas bocas para impedir os equinos de galoparem para longe enquanto que outros proprietários não tinham sorte em relação aos seus animais.
Os gritos de desespero das pessoas ecoavam pela vila enquanto que muitos estavam orando desesperadamente no pequeno e singelo templo onde o sumo sacerdote se encontrava. A sua esposa e filha estavam sendo evacuados junto das outras mulheres e crianças, além de homens jovens segundo ordens do Líder da aldeia. Somente os idosos ficaram orando para implorar ajuda aos Deuses, com o sumo sacerdote liderando as orações ao seu ajoelhar no altar com oferendas.
Dentre os animais que fugiam desesperados, se afastando o quanto antes da aldeia, estava Yoru. A égua de pelagem obsidiana se encontrava com a mãe de Yuugi e irmã dele em cima do seu dorso coberto com apenas uma manto enquanto galopava o mais rápido que podia.
Enquanto todos os outros animais ficaram de pé em seu desespero, derrubando os seus cavaleiros, a bela égua negra conseguiu impedir um gesto natural de um cavalo aterrorizado e tratou de correr a galope, sem perder tempo se empinando sobre as patas traseiras e como ela sempre galopava solta pela região porque tinha a liberdade que os outros animais não tinham, o animal sabia por instinto uma trilha dentre as árvores densas e copas fechadas que descia rumo um terreno baixo em vez de subir para o lugar mais alto, fazendo com que tomasse uma rota diferente daquela que os outros tomaram.
Como não havia rédeas, não tinha como a mulher impedir a direção que a égua tomou.
Claro, havia como tentar controlá-la através da crina, mas ela não havia tentado tomar o controle por se encontrar congelada pelo medo ao olhar para o ser que havia emergido da mata enquanto que a sua filha estava grudada nela, chorando e chamando pelo seu pai que havia ficado para trás junto dos idosos e mesmo quando se recuperou parcamente, não fez qualquer tentativa de comandá-la porque sabia que a égua não aceitaria qualquer tentativa de controle através da crina.
Afinal, Yoru somente aceitaria o controle do filho dela além do fato de não querer abusar da sorte da equina ter aceitado ela e a sua filha em seu dorso, algo que nunca permitiu porque somente Yuugi conseguia montar nela, com a mãe dele acreditando que elas não conseguiriam essa proeza novamente e que somente aceitou a montaria delas para ajuda-las na fuga.
Pelo menos, era a impressão que tinha por mais surreal que fosse esse pensamento.
Quando saiu do estupor do medo, a bela mulher assimilou o fato de que a égua selvagem não empinou o corpo ao contrário dos outros cavalos que fizeram pessoas caírem e que não cessou o seu galope em nenhum momento. A mulher se segurava firmemente no animal ao pressionar o mais fortemente possível as suas pernas no costado no equino de manto obsidiana, mantendo firmemente o seu abraço no pescoço elegante do animal, com a sua filha entre o seu tórax e o pescoço, mantendo-a firme enquanto evitava comprimi-la demasiadamente conforme a égua de pelagem negra descia audaciosamente uma trilha íngreme que contornava um rochedo escarpado, com ela notando que o animal procurava usar a pouca e espaçada área gramada para apoiar o peso do seu corpo, ignorando algumas pedras soltas que rolavam encosta abaixo em contato com os seus cascos enquanto descia intrepidamente ao mesmo tempo em que parecia buscar algo.
Com terror absoluto, a mulher avistou as densas nuvens tenebrosas que compunham o céu naquele momento e que eram atrelados a relâmpagos que flagelavam impiedosamente as nuvens junto do som ensurdecedor de trovões. O vento cortante fustigava a sua pele e ela podia ouvir os gritos ao longe de desespero e de terror que ficavam cada vez mais baixos conforme se afastavam da fonte. Era possível ouvir os cascos da bela égua selvagem fustigando a terra e trechos de grama, arrancando tufos enquanto Yoru avançava intrepidamente a um destino que somente ela conhecia.
Enquanto isso, no centro da vila, as fortes rajadas que sopravam destelhavam algumas casas ao mesmo tempo em que sacudiam as construções feitas de madeira e pedra, com o templo tendo sido construído todo de pedra, fazendo com que resistisse mais aos ventos do que as demais construções. Eram visíveis no céu tenebroso os relâmpagos violentos que fustigavam brutalmente as nuvens e os sons aterrorizantes dos trovões que se propagavam no ar junto do vento fustigante.
Um idoso olha pela janela e seus olhos ficam arregalados, fazendo com que ele soltasse um grito de gelar o sangue, fazendo todos pararem de orar ao mesmo tempo em que passavam a olhar com medo para ele que estica a mão enrugada trêmula em direção à janela.
Todos acabam saindo do local junto do sumo sacerdote e ao olharem na direção que o idoso apontou, muitos caem de joelhos, murmurando embasbacados, tentando gerenciar o que viam porque era surreal ao mesmo tempo em que compreendiam a origem das fortes rajadas, com todos eles lutando para que não fossem arrastados para trás.
Era o maior e mais imponente dragão branco que avistaram com escamas belíssimas que cobriam a sua pele reptiliana e que brilhavam ao toque da luz enquanto exibia olhos verdes afiados que exibiam um brilho sádico. O seu corpo era robusto, composto de sua musculatura imponente e mandíbulas possantes onde repousava uma vasta fileira de dentes afiados. Suas garras eram curvadas e igualmente mortais. As suas asas massivas eram cobertas por uma pele semelhante a dos morcegos, só que na cor branca, possuindo uma envergadura imponente. A sua cauda robusta arrancava árvores como se fossem gravetos no chão quando era brandido.
Ademais, era visível a todos que não era um besta e sim, um ser muito inteligente com um sorriso e olhar que beirava ao deleite sádico.
O dragão solta um rugido de gelar o sangue, para depois, bater vigorosamente as suas asas imensas, gerando uma rajada de vento opressora e feroz, arrancando árvores do solo, levantando telhas de palha e arrastando as casas mais próximas, com as pessoas se preparando para o impacto mortal dos projeteis, inclusive aqueles que haviam se afastado conforme a forte rajada e os objetos voavam impiedosamente em direção as pessoas, varrendo implacavelmente tudo em seu caminho ao mesmo tempo em que apenas algumas pessoas tratavam de correr desesperadamente embora pudesse ser considerado um ato inútil porque nunca conseguiriam superar a velocidade da rajada mortífera enquanto que a maioria estava congelada pelo terror absoluto. Alguns murmuravam palavras incompreensíveis enquanto que outros choravam em um pranto mudo, observando a morte se aproximando deles porque nada podia sobreviver a aquela rajada letal e igualmente devastadora que arrasava tudo em seu caminho.
