10. Xeque-Mate
Seus dedos se torciam num gesto de agonia. De minuto em minuto, os olhos voltavam-se na direção da porta da enfermaria, temerosos. Não sabia se queria que ele chegasse. Não tinha certeza se queria vê-lo entrar em estado deplorável novamente ou se seria pior ainda não ver, por que simplesmente não saber o que estava acontecendo a fazia arquejar.
Havia acabado de trocar as ataduras de uma das pacientes que havia sido torturada pelos comensais na última semana e dava para ver na pele dela, na altura do antebraço, um corte feito por feitiço que imitava a marca negra. Aquilo lhe fez refletir muito sobre o que acontecia com os prisioneiros dos bruxos das trevas.
Certamente que ficar em algum porão ou masmorra não era nenhuma colônia de férias. Mas, aparentemente, não era o suficiente. As pessoas que ficavam aprisionadas lá ainda sofriam terror psicológico e violência física por terem feito coisas que os comensais consideravam imperdoáveis. E isso a fazia tremer só de imaginar o que poderia acontecer com Draco, Harry e Hermione.
Foi uma surpresa quando ficou sabendo que Rony decidiu não ir. Embora fizesse um pouco de sentido, devido à mágoa pelo relacionamento de Harry e Hermione, ainda era uma atitude infantil e infundada que certamente o faria tomar uma baita bronca dos pais, mais tarde. Gina ficou se perguntando como ele passaria o resto da vida lidando com a própria consciência caso alguma coisa acontecesse com os amigos e ele não estivesse lá para ajudar. Não era como se ele tivesse algo melhor para fazer ou pacientes num hospital para cuidar...
De verdade, era algo que lhe contrariava um pouco ficar presa no hospital, somente ajudando os feridos. Pensava que poderia ajudar muito em campo, mas um certo receio lhe assombrava. Sabia que fazia muito tempo desde seu último duelo e temeu que pudesse acabar tornando-se um peso, uma preocupação, e não a ajuda que deveria. Aparentemente Luna tinha o mesmo pensamento, pois preferira ficar no hospital com Blaise, que já desfrutava da recuperação proporcionada pela poção de óleo de dragão e estava fazendo corpo mole na enfermaria para não ser liberado a julgamento.
Mas, de verdade, Gina alimentava dentro de si a esperança de que os três fossem voltar e de que ficaria tudo bem. Mas uma parte sua temia, sofria e dizia que Draco não voltaria. E toda vez que dava ouvidos a esse pensamento, seus olhos marejavam. Por isso se afastou um pouco dos pacientes e caminhou lenta e certamente na direção da entrada do hospital.
Por terem conversado tanto e tão profundamente sobre vários assuntos, Gina sabia que havia uma parte de Draco que até mesmo desejava morrer. Uma parte que queria colocar fim àquela história e simplesmente não existir mais. E saber disso, saber que essa parte existia, fazia com que ela temesse que, em determinado ponto daquela batalha, ele pudesse se entregar e não lutar até o fim, com tudo que tinha, pelo desejo de escapar dessa realidade.
Ainda que houvessem tido um momento juntos antes de se separarem e ainda que ele tenha feito questão de dizer que gostaria de viver ao seu lado, Gina não sabia ao certo o quão forte esse sentimento seria. Bastaria? Ela mesma seria suficiente para que o fizesse querer continuar e não simplesmente fugir dessa realidade, dessa vida que o assombrava?
Sentiu uma mão tocar seu ombro e virou-se na direção, assustada. Deparou-se com o semblante sorridente de Luna. Os longos cabelos loiros soltos, cheios de ondas nas pontas e sem a menor necessidade de estarem alinhados. Tinha o rosto alvo e sereno, com os lábios sutilmente curvados num sorriso gentil, digno de alguém que consola um ente querido. Os olhos azuis cristalinos a observavam com carinho e interesse de uma forma que fez Gina se sentir melancólica, lembrando da época de colégio.
- Nada ainda?
A voz de Luna soou bem baixa e Gina apenas sacudiu a cabeça, sentindo que se começasse a falar, certamente choraria. A loira sentou-se ao lado dela e enroscou os dedos nos da Weasley, como se quisesse afirmar que estava ali, independente do resultado da batalha.
Ficaram em silêncio por um tempo, com Gina olhando para a porta, contemplando as luzes do amanhecer, e Luna observando os próprios sapatos lilases. As mãos dadas, os dedos entrelaçados e aquela sensação em particular de que estariam sempre ali, uma para a outra.
Por fim, Luna disse.
- Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.
E Gina torcia para que ela estivesse certa.
•
As luzes alaranjadas do entardecer adentraram pela enfermaria, pintando todas as paredes daquele tom vibrante que não combinava muito com a ansiedade de Gina.
Estava sentada, um pouco melancólica, ao lado da janela, na cadeira que costumava ficar ao lado da maca onde Draco dormia. Ficou contemplando as luzes e o céu, pensando que era um desperdício poder ver tão pouco, devido a quantidade de prédios que rodeava o hospital. Que gostaria de poder ter uma vista mais privilegiada, talvez em algum lugar distante, mais aberto.
A verdade era que desde que conversara com o Malfoy sobre a possibilidade de uma vida distante, conhecendo outros países e lugares, o pensamento não desaparecera. Cada dia mais, na verdade, imaginava que gostaria mesmo de ir embora de Londres, embora não visse muito como isso poderia ser possível com seu trabalho no St. Mungus.
De forma que, ainda que aquele fosse um belo pôr de sol, a sensação de assisti-lo era meio agridoce. E Gina temeu que, a partir de agora, fosse para sempre assim.
- Oi Gina.
A familiar voz de Harry surgiu ao seu lado, fazendo-a virar-se na direção dele abruptamente. Parecia cansado, absurdamente cansado. Dava para ver alguns pequenos cortes em seu rosto e os cabelos pretos desgrenhados, um pouco úmidos, mostravam que as coisas não haviam sido fáceis.
A roupa toda absolutamente suja e com alguns rasgos, tanto nos joelhos da calça quanto nas mangas da jaqueta. Ele aproximou-se lentamente e apoiou a mão nas costas da cadeira onde Gina estava, tentando se apoiar. Ela, no entanto, se levantou muito rápido e quase o fez se desequilibrar.
- Harry! Ai, ainda bem!
A mão de Gina apoiou-se na bochecha dele enquanto seus olhos castanhos analíticos procuravam por alguma ferida ou algo que fosse grave. Mas assim, de primeira vista, ele parecia bem. Só mesmo muito cansado, mas isso era possível superar com banho, janta e uma boa noite de sono. Não era nada alarmante. E se Harry estava assim, poderia significar que as coisas... tinham dado certo?
- Você parece bem. Deu tudo certo?
Perguntou agitada, ao que ele apenas sorriu. Foi sentando-se na cadeira e suspirou, parecendo ter se esquecido como era bom descansar as pernas. Mas assentiu, querendo indicar que estava tudo bem, o que fez o coração de Gina se agitar por um momento. Se estava tudo bem, onde estava Draco? E Hermione? A ruiva imediatamente virou o rosto na direção da porta da enfermaria, mas não havia mais ninguém.
- Sim. Foi um processo meio doloroso, eu admito, mas foi tudo bem... do melhor jeito que poderia ter sido, eu acho.
- Onde está Mione?
Pareceu sensato para Gina perguntar sobre Hermione primeiro. Não que não estivesse preocupada com a amiga, obviamente que estava (e muito), mas certamente que a alucinação que tivera na casa de Luna não parecia se relacionar com a morte da Granger de forma alguma e não podia dizer o mesmo sobre o Malfoy, que saiu do hospital carregando uma sentença (ao menos, na visão dela).
- Ela não quis vir, decidiu ir logo até o ministério fazer um relatório. Você sabe como ela é...
E Harry coçou a cabeça, como se aquilo o incomodasse um pouco, mas Gina apenas sorriu.
- Ela está bem?
- Sim, só um pouco cansada.
Ao que Gina apenas assentiu.
Ficaram em silêncio por um segundo, com os olhos de Gina fitando Harry cheios de expectativa e ansiedade pelo restante da notícia. E ele pareceu perceber que aquela aflição, agora, se destinava para outra pessoa. Foi quando arqueou as sobrancelhas, demonstrando que acabara de se recordar de alguma coisa, e começou a procurar nos bolsos.
- Escute, o Malfoy pediu para te entregar isto aqui...
E tirou do bolso da jaqueta um pedacinho de papel dobrado no meio. Entregou para Gina, que apenas segurou. Hesitou, durante alguns segundos, se queria mesmo saber o conteúdo daquele bilhete (e se deveria ler ali, na enfermaria, ou em algum lugar mais privado). Porém, se Draco havia tido a confiança de entregar nas mãos de Harry, não devia ser nada muito pessoal. Por isso, se apressou em desdobrar.
"Você sabe onde.
DM"
"Sei?" Ela pensou em resposta num tom de ironia, enfiando o bilhete no bolso do avental. Claro que sabia. Só podia ser no terraço do hospital. Não havia mais nenhum lugar exatamente íntimo que partilhassem. E um misto de emoções lhe dominou, fazendo seus olhos dançarem um pouco pela enfermaria enquanto raciocinava.
Era certo de que Draco estava bem, o que fazia Gina se sentir infinitamente mais tranquila e finalmente poder voltar a respirar normalmente. Por um instante, pensou que as pernas fraquejariam, tamanho alívio. Mas manteve-se firme, como sempre, engolindo a emoção e dando apenas um sorrisinho contido para Harry, que parecia analisa-la discretamente.
Só que era curioso que ele tivesse escolhido encontra-la no terraço e não na enfermaria, como Harry havia feito. Será que tinha alguma coisa que precisasse dizer em particular? Será que ele estaria no terraço mesmo? Não é possível que ele fosse embora sem sequer se despedir, seria?
Antes que os pensamentos a dominassem e Gina entrasse em parafuso, sacudiu de leve a cabeça e voltou sua atenção para Harry.
- Ele está bem?
Quis se certificar.
- Ele pareceu preocupado, mas estava bem.
A forma com que Harry falou pareceu sincera, o que a fez sentir segura em relação às suas preocupações com a integridade física do Malfoy. Mas não explicava direito sobre o mistério do encontro no terraço.
Por isso, Gina apenas suspirou e virou-se de costas para o Potter, rumando na direção da saída da enfermaria.
- Muito obrigada, Harry!
Ela disse antes de sair, mas sem sequer olhar para trás. E Harry apenas assentiu, constatando que, definitivamente, Gina Weasley agora só tinha olhos para Draco Malfoy.
E, ao perceber a improbabilidade da realidade, o pensamento o fez rir.
•
Assim que chegou no terraço, ainda dava para ver os últimos traços alaranjados do céu da tarde, que agora dava espaço para uma noite clara e límpida, completamente sem nuvens e com uma brisa fria que bateu contra o rosto de Gina.
Ela tirou o véu do uniforme e soltou os cabelos vermelhos, que se bagunçaram no vento assim que foram expostos. Os olhos fixos em Draco, que a esperava escorado ao parapeito, observando-a com interesse. Parecia abatido, meio cansado, assim como Harry estava. A roupa suja e o semblante de quem havia enfrentado o mundo e estava de volta.
Foi se aproximando devagar e não pôde evitar de sorrir para ele, que a observava de uma maneira diferente. Como se estivesse vendo-a pela primeira vez ou reparando muito, deslizando os olhos por seu rosto e seu corpo de uma maneira que não se lembrava de ter visto ninguém fazer antes. Um jeito digno de alguém que admirava uma pintura.
- Eu não entendi seu recado.
Disse, por fim, parando ao lado dele e apoiando as costas no murinho do parapeito. Draco sorriu cansado e olhou para o céu, mais uma vez.
- Eu acho que entendeu. Você está aqui.
Gina rolou os olhos nas órbitas e ficou brincando com o véu do uniforme por entre seus dedos, passando-o de uma mão para a outra. Era uma situação esquisita estar ali, ao lado dele, por que não estava sabendo se comportar direito. Ou, ao menos, imaginava que não sabia. Estava tão feliz por vê-lo ali, cansado, mas bem, perfeitamente bem, e não sabia se podia demonstrar.
Tinha seus receios de que o beijo e os carinhos houvessem sido coisa de momento. Uma parte muito grande de si gritava que não, que havia sido tudo genuíno e bem pensado, mas uma pequena parte estava repleta de insegurança, de vergonha, e tentava ao máximo parecer natural, ainda que soubesse que havia algo grande entre eles que precisava ser conversado.
- Como foi lá hoje?
Ela perguntou, meio acanhada, ainda que soubesse que esse papel envergonhado não lhe caia muito bem. Draco manteve os olhos no horizonte, um tanto distante, como se não quisesse partilhar muitos detalhes da batalha. O que era um pouco torturante, pois Gina estava extremamente aflita e curiosa.
- Bom, inesquecível é a palavra.
Dito isso, ele virou os olhos acinzentados na direção dela, que deu um meio sorriso, tentando esconder sua inquietação.
- Inesquecível?
- Isso.
Ele afirmou, ainda com os olhos em Gina. Estava um pouco mais quieto do que o comum e ela supôs que deveria ser pelo cansaço. E então Draco continuou dando um pouco mais de informações somente por saber que ela gostaria de ouvir.
- Vou te poupar dos detalhes sórdidos de ter que ouvir Parkinson me chamando de traidor e todas as outras coisas que eu ouvi da minha turma de escola.
Disse, virando as costas para o murinho e ficando lado a lado com Gina. Daquele ângulo era visível o quão mais alto ele era, pois dava para perceber que a olhava de cima. Os olhos castanhos da Weasley ainda estavam meio oscilantes, ainda que felizes por senti-lo se aproximar, de alguma forma.
- O que vai haver com eles agora?
Draco ergueu os ombros.
- Vai haver um julgamento, mas estão em Azkaban de forma provisória. Aquilo deve estar bem tumultuado agora.
Ao que Gina apenas assentiu, voltando a atenção para o véu, que ela passava entre os dedos de forma despretensiosa. Draco notou que a enfermeira estava tentando manter as mãos ocupadas e ficou observando-a durante um tempo, parecendo se divertir com o que via.
- E como você se sente sobre tudo isso?
- Indiferente. Eu acho que um pouco aliviado em saber que não os verei por aí tão cedo. Mas admito que é meio estranho. Quer dizer, nós costumávamos ser amigos, eu acho.
Então coçou a cabeça, repensando o que acabara de dizer. Devia ter soado esquisito para ele, assim como soara para a Weasley, que apenas sorriu. Gina o permitiu refletir em silêncio e não demorou muito para que Draco tornasse a falar.
- Claro que Blaise se tornou mais próximo nos últimos tempos, sabe, mas ainda assim... eu treinava quadribol com eles, nós tomávamos café juntos, eu costumava...
- Eu me lembro de observá-los, vez ou outra. Vocês tinham uma dinâmica diferente da que eu estava acostumada.
Interrompeu de propósito, pois não gostava muito de se recordar do envolvimento dele com Pansy. Por mais que já houvesse muito tempo e claramente não restasse nada entre eles, era meio esquisito lembrar dos dois juntos, especialmente agora, que tinha sentimentos pelo Malfoy.
- Não era uma amizade de contos de fadas, mas nós nos entendíamos de alguma forma.
Ele disse de uma forma muito sincera, indicando que já havia pensado sobre isso antes, algumas vezes. E deveria mesmo ser verdade, pois eram todos adolescentes, filhos de bruxos das trevas e somente um sabia aquilo que o outro passava. Gina imaginava que a pressão que sofria da Ordem em ser boa e tomar o lado certo deveria ocorrer do lado oposto, como se seguir Voldemort fosse a atitude correta. E não precisava ser muito inteligente para concluir que esse tipo de peso não era justo de ser jogado sobre ombros infantis, independente do lado de quem se olhasse.
- E, agora, eu não consigo me reconhecer em nenhum traço deles. É esquisito, por que sei que fui eu quem mudou, mas me parecia natural que eles mudariam também, sabe? E isso não aconteceu.
Gina assentiu, sentindo um certo pesar na fala de Draco, que lamentava não poder partilhar dessa nova fase com ninguém, além de Blaise. E, talvez, fosse por isso que fossem próximos. Por terem aprendido lições parecidas e pensarem de uma forma mais alinhada. Obviamente que o Zabini era um pouco mais fácil de lidar do que o Malfoy, mas era de se considerar que havia um peso extra em ser criado por Lucius e Narcisa.
- Mas enfim, acho que Hogwarts foi mesmo há muito tempo.
Disse, por fim, olhando para Gina novamente, dando o assunto por encerrado. Ela, no entanto, apenas ergueu os ombros e deu um sorriso meio acanhado, sem desgrudar os olhos das próprias mãos e do véu que segurava.
- Ainda acho incrível que não tenha sequer uma lembrança de mim em Hogwarts. Eu era meio popular, sabia?
- Ah, eu tenho uma lembrança.
Aquilo surpreendeu Gina de uma forma muito abrupta. Chegou a deixar cair o véu que segurava e virou o rosto para olhar bem para Draco, que sorria de uma maneira engraçada, como se soubesse que fez uma bobagem e não exatamente se envergonhasse. Ela o empurrou de leve, mostrando um pouco de indignação pela mentira.
- Você mentiu para mim! Disse que não se lembrava do meu rosto!
Draco abaixou-se e apanhou o véu que Gina deixara cair. Começou a bater de leve no tecido, limpando-o de alguma possível poeira ou sujeira que houvesse no chão.
- Eu menti, mas não menti sobre isso! Eu realmente não me lembrava do seu rosto, ele não faz parte da minha lembrança.
Gina arregalou os olhos e se sentiu um pouquinho ultrajada. Se não se lembrava do rosto, se lembrava do que?
- O que faz então?!
Diante da indignação de Gina, ele riu.
- Eu menti sobre não me lembrar de ter perdido no quadribol para você.
Então foi se sentando no chão, sentindo um pouco o cansaço do dia. Ainda segurava o véu dela e era sua vez de ficar alisando-o suavemente e passando-o de uma mão para a outra. Foi começando a falar sem olhar diretamente para Gina, como se estivesse visualizando de novo a cena que narrava.
- Você estava voando na sua vassoura, e eu te vi de ponta cabeça, se segurando com as pernas enquanto esticava o braço para apanhar o pomo. Seus cabelos estavam voando muito, em todas as direções, então eu não podia te ver.
Ele gesticulou sutilmente, imitando o movimento do cabelo dela na frente do rosto e Gina foi se abaixando aos pouquinhos, se ajoelhando ao lado dele com um pouquinho de dificuldade devido ao uniforme. Draco ainda não olhava para ela, apenas para o véu, parecendo imerso na lembrança de uma forma que a deixou encantada.
- E eu achei aquilo incrível. Ou, o mais incrível que o antigo eu poderia achar de uma Weasley, ao menos, e eu passei muito, muito tempo tentando encontrar alguma coisa que tornasse aquela cena menos indefectível na minha cabeça.
Draco deu um meio sorriso e ergueu os ombros, como se achasse engraçado o desfecho que estava por vir.
- E tudo que eu consegui foi a sua vassoura, que era bem velha. Mas isso não foi nem de longe suficiente para quebrar meu encanto daquela cena. E foi isso.
Quando seus olhos se voltaram na direção de Gina, ela estava prendendo o choro. Dava para ver os orbes castanhos grandes, marejados e o lábio inferior que tremia de leve, enquanto ela sacudia as mãos, tentando se recompor. Draco ergueu uma das sobrancelhas e se segurou para não rir de sua expressão infantil.
Antes que tivesse a chance de falar alguma coisa, Gina apoiou-se em seus joelhos e lhe capturou os lábios num beijo. Um pequeno e suave beijo, que não durou muito. Foi sutil e cuidadoso, tanto por que queria prender o choro quanto por que não queria parecer muito atirada.
Draco permitiu-se ficar ainda de olhos fechados mais um segundo, quando ela se afastou. Assim que voltou a observa-la, a viu sorrir.
- Foi a coisa mais legal que você já me disse.
Ele deu um daqueles sorrisos meio sem graça, de quem não tem o hábito de ouvir ou dizer esse tipo de coisa.
- Não se acostume com isso. Ou se acostume, eu não decidi ainda.
Gina riu e estendeu a mão para que ele lhe passasse o véu. Draco apenas entregou a ela e eles ficaram se olhando, em silêncio, durante alguns segundos. Era confortável, até, ficarem um pouco calados, mas um na presença do outro. Trazia uma sensação boa só de estarem juntos, ainda que não houvesse necessariamente o que dizer.
Porém, para ela, haviam ainda algumas coisas.
- O que você vai fazer agora?
Aquela pergunta certamente ecoava na cabeça do Malfoy e Gina pensou que poderia ser um pouco de maldade sua força-lo a pensar nisso justamente naquele momento, todo cansado e abalado, mas seu coração precisava de uma resposta. E precisava logo, com toda a urgência que ela tentava esconder na voz branda o sorriso contido.
- Eu ainda não sei.
Foi uma resposta tão sincera quanto a pergunta.
- Não sei se volto para a mansão, não sei se devo me esconder... eu sinto que preciso estar na mansão para não perde-la, sabe? Quero ver se alguém vai lá atear fogo ou algo assim...
Se fosse para ser sincera, aquilo lhe irritava um pouco. Gina não conseguia compreender muito bem esse apego com a mansão. Claro que entendia a parte sentimental, de que fora ali onde ele crescera e como era um símbolo de sua família e todas essas coisas. Era completamente razoável.
O problema nisso tudo é que o próprio Draco tinha suas reticencias com a família, o dinheiro e a própria mansão. Ele parecia melhor no hospital, por exemplo, do que vivendo sozinho naquele lugar enorme e completamente isolado. Mas por mais distante que estivesse de Lucius e Narcisa, ainda estava inserido, de alguma forma, com aquela proteção com os bens materiais.
Foi então que, num rompante, Gina lembrou-se do sonho. Lembrou de como ouviu, repetidamente, a mensagem de deixar os diamantes e não conseguiu não relacionar com o que Draco lhe dizia agora. Seus lábios se entreabriram e ela balbuciou, meio sem querer, como alguém que faz uma descoberta incrível.
- Deixar os diamantes...
Ao que Draco apertou os olhos, sem entender direito.
- O que?
Então Gina se concertou, sentando-se corretamente e ajustando a postura. Precisava elaborar bem uma frase que soasse razoável e não demonstrasse a provável maluquice de toda aquela visão.
Agora as coisas faziam sentido!
Não se tratava da poção ou da guerra, mas na verdade, a chave para sobrevivência, tanto dela quanto de Draco era deixar de lado os malditos diamantes e seguir em frente. E toda essa noção a fez se sentir iluminada de uma maneira tão incrível e tão insensata que teve medo de parecer uma lunática. Por isso, engoliu e umedeceu os lábios, ainda meio incerta do que diria, mas com convicção em tentar alguma coisa.
- Quero dizer, você devia... parar de se preocupar com sua riqueza e prestar mais atenção na sua vida, sabe?
Seus olhos assumiram um certo brilho e seu sorriso foi crescendo conforme falava. Aquilo soava libertador demais para si própria, especialmente quando pensava em todas as possibilidades que o mundo poderia lhe oferecer. Estava tão acostumada com seu trabalho e mergulhada em tudo que ele trouxe que acabou deixando passar outras coisas. Mas, afinal de contas, de que valia trabalhar tanto se não fosse para poder viver como bem queria?
- De que importa tanto dinheiro e mansão e afins, sabe? Nada disso te fez ser salvo aqui, quando você precisou.
Gina torceu para que aquilo fizesse tanto sentido para Draco como fazia para ela. Os olhos acinzentados a acompanhavam, com um pouco de surpresa a expectativa, parecendo gostar de que ouviam. Então ela respirou fundo, preparando-se para dizer em voz alta uma de suas ideias mais impensadas e propostas no puro calor da emoção.
- Vem ficar comigo e com o Bob por um tempo.
Foi a primeira vez que o viu rir aquela tarde.
Mas rir mesmo, não simplesmente sorrir.
Draco definitivamente não estava esperando por aquele convite e a ideia devia ter soado muito engraçada. Era, de fato, uma jogada precipitada, especialmente por que tudo que haviam feito, até então, era trocar dois beijos (ou um beijo e um selinho, tanto faz).
- Você está maluca?
Quando ele perguntou, Gina apenas ergueu os ombros.
- Não estou te pedindo para casar comigo. Você precisa de um lugar para ficar até que as coisas se resolvam, certo? Por que não fica comigo?
Os lábios dele se apertaram e ele a observou como se a oferta fosse tentadora. Ficou em silêncio por um tempo, raciocinando, deixando os olhos oscilarem dela para o céu e o véu que estava entre os dedos de Gina.
Obviamente que seria um problema se sua família ficasse sabendo disso e era bem lógico que poderia dar muito errado, especialmente pelas diferenças que tinham, mas Gina acreditava que valia a pena a experiência. Estavam com um prazo determinado, até que as coisas se resolvessem, o que significava que seria apenas até a data da audiência, e era um fato de que não iria demorar mais do que um ou dois meses.
Se tudo desse errado, poderiam retroceder um passo e voltar a morar separados. Mas, de verdade, ela não acreditava que esse seria o caso. Por mais impensado e súbito que fosse, tinha um bom pressentimento sobre isto e dava para notar que ele também, por mais que hesitasse.
- Não sei, Ginevra.
Ela revirou os olhos e foi colocando-se de pé, batendo as mãos no uniforme para limpar-se da poeira do chão.
- Vamos. Está decidido.
E estendeu a mão para o Malfoy, que a encarou de uma maneira engraçada, como uma criança prestes a embarcar em uma montanha russa. Doido para ir, mas com um pouco de medo de morrer.
- Não seja medroso, Draco Malfoy. Deixe essas coisas para trás.
Os dedos dele se enroscaram aos dela e ela o puxou para cima, dando um passinho para trás. Assim que Draco ficou de pé, Gina bateu de leve com seu indicador na ponta do nariz fino do Malfoy e sorriu.
- Siga seu belo nariz e vá em frente.
•
Ainda que soubesse das boas intenções de Gina, Draco duvidava que ele sequer coubesse naquele apartamento.
Quer dizer, quantos metros devia ter?
Certamente metros de menos.
Se surpreendia em como aquela maluca sequer criava um cachorro ali dentro. Isso explicava o motivo de ter de levar o pobre Bob ao parque. Ele morreria de tédio, sem sombra de dúvidas. O pensamento fez com que Draco se inclinasse um pouco e acariciasse as orelhas do cachorro num gesto meio impensado, se compadecendo da situação do pobre animal.
Sentou-se no sofá por um instante e Bob ficou logo em seus pés, cheirando e abanando o rabo, meio que se acostumando com sua presença naquele ambiente. Pelo jeito com que o recebia, dava para perceber que Gina não levava muitas pessoas no apartamento. E isso o fez achar esquisito, por um segundo. Ela parecia tão sociável, mas, na verdade, vivia sozinha ali com o cachorro?
Por mais que ela tenha lhe dito para explorar o apartamento enquanto se ausentava para buscar as coisas de Draco na mansão, ele achou muito indiscreto e não quis assumir o papel de bisbilhoteiro. Por isso, se conteve em ficar na sala, observando aquele sofá creme que definitivamente era grande demais para o ambiente.
A janela da sala estava aberta e a brisa sacudia sutilmente as cortinas brancas. Havia uma mesinha de centro logo em frente ao sofá e um pratinho sujo, com migalhinhas de pão que ela certamente deixara ali na noite anterior. Draco achou surpreendente que Bob não tivesse limpado o prato.
Havia uma série de prateleiras espalhadas pela sala. Algumas com livros de enfermagem ou romances. Havia também velas de decoração e um quadrinho fino, de uns 30 centímetros de altura por dez de largura, com uma moldura esguia e dourada, que parecia somente um fiozinho. Foi quando percebeu que era uma notícia de jornal emoldurada e levantou-se novamente para se aproximar e ler o conteúdo.
Era uma notícia qualquer da época da batalha de Hogwarts, que falava sobre o desdobramento dos eventos de uma maneira muito romantizada, na visão de Draco, e exaltava os feitos do famoso Harry Potter. As imagens que ilustravam, no entanto, chamaram a atenção do Malfoy.
A primeira, a principal, era do Potter sorrindo ao lado da Granger e do Weasley. Eles pareciam não ter notado a foto e estavam sentados, em meio aos escombros, conversando sobre alguma coisa que os fez achar graça. Talvez fosse algo que Voldemort disse ou uma piadinha grifinória, quem sabe? No fundo, no entanto, dava para ver Gina, virada de costas, com aqueles cabelos vermelhos inconfundíveis.
Gina estava parada, de braços cruzados, sozinha, olhando na direção da floresta. Como mantinha-se de costas, não dava para saber se ria ou chorava, mas parecia esquecida naquele cenário apocalíptico. Parando para reparar, haviam grupos de alunos em outros cantos, desfocados, assim como ela, do trio principal. E isso soava meio esquisito.
Como se somente Potter, Weasley e Granger fossem relevantes para o sucesso daquela batalha. E além de achar incrivelmente injusto com Gina e a Lovegood, por exemplo, Draco entristeceu-se um pouco ao reparar a solidão que devia estar com a menina que acabara de perder o irmão e estava sozinha, no fim de uma guerra. O que será que passava na cabeça dela? O que será que sentia, naquele momento?
Baixando os olhos, logo abaixo, havia uma série de pequenas fotos, quadradinhas, com o nome dos mortos identificados na batalha. E havia ali um retrato do irmão de Gina, que sorria para a câmera. Imaginou que este era, na verdade, o motivo que a fizera enquadrar aquela matéria. Uma homenagem à Fred.
Era esquisito pensar que Gina havia passado por tantas coisas. Ela sempre tão sorridente, cheia de vida, exalando confiança por aí, já passara maus bocados. Fosse pela morte dos irmãos, pelos terrores dos comensais ou pela experiência com Voldemort logo em seu primeiro ano de Hogwarts.
Se fosse para ser sincero, Draco não imaginava que ela regressaria a Hogwarts depois daquilo. Era esquisito pensar em tudo que acontecera e saber que seu pai era o responsável direto por tudo. Se não fosse aquele maldito dedinho de Lucius, Gina poderia ter sido poupada de conhecer Tom Riddle e todos os seus tentáculos cruéis.
No entanto, no ano seguinte, lá estava ela. E, ainda que não se lembrasse do rosto dela, recordava-se de pensar que devia ser muito corajosa ou estúpida por ter voltado especialmente no ano em que dementadores rondavam a escola, deixando aquele clima delicioso de morte e medo.
Agora, sabia que era apenas forte. Forte como ele jamais poderia ser.
Ainda estava observando a matéria quando a ouviu aparatar na sala. Virou-se na direção da ruiva, que sorria com uma mochila nas costas e uma malinha nas mãos. Só de ver, soube que nem metade de suas coisas estaria ali. Mas isso não lhe preocupou de qualquer forma, na verdade achou engraçadinho vê-la ali, cheia de esperanças e expectativas que ele temia não corresponder.
Bob foi correndo na direção de Gina e fez festa, ganindo baixinho e abanando o rabo numa velocidade alucinante, como se ela houvesse se ausentado por um mês. A ruiva riu, colocando as coisas de Draco em cima do sofá e arregaçando as mangas do suéter vermelho que usava. Foi fazendo carinho no cachorro enquanto olhava para o Malfoy, cheia de curiosidade, e ele percebeu que precisava falar alguma coisa sobre o minúsculo apartamento.
- Não parece muito com você, sabe?
Disse erguendo o indicador e fazendo um círculo, como se quisesse ilustrar que estava falando do arredor. Gina arqueou as sobrancelhas, meio surpresa, mas sem perder o sorriso.
- Como assim?
- Este apartamento. É muito...
E Draco não sabia exatamente como explicar. Ao mesmo tempo que era minúsculo, parecia que aquela sala havia saído da página de uma revista. Se não fosse pelo pratinho de migalhas, mal dava para saber que era habitado por alguém. Tudo em seu lugar, perfeitamente alocado e, por Merlin, velas de decoração...
- Perfeito?
Gina perguntou, colocando as mãos na cintura. Ainda sorria e olhava para Draco com certa desconfiança. Ele assentiu prontamente, ainda olhando ao redor e percebendo que havia uma televisão presa na parede, como se fosse a casa de algum trouxa.
- É... eu não sei, onde estão as bandeirolas da grifinória, ou, sei lá, uma pintura renascentista da sua família com aquelas blusas de tricô horripilantes?
Ela riu e virou os olhos, meio que desconsiderando o que Draco dizia. Abaixou-se de frente para o rack que ficava logo abaixo da televisão e abriu uma das portinhas, puxando algumas fotografias de lá de dentro. Foi chegando próxima do Malfoy e lhe mostrou, com um pouco de pressa, cada uma.
- Eu tenho foto com eles.
Eram umas dez. Havia fotos com os irmãos, em Hogwarts, na casa dos pais dela, com o Potter, Granger e uma bem esquisita com a Lovegood em que as duas estavam de ponta-cabeça, penduradas em um galho de árvore.
- Não, Ginevra, uma pintura. Um baita dum quadro aterrorizante assim...
E gesticulou abrindo os braços para dar a dimensão do tamanho do quadro. E Gina deu-lhe um cutucão num tom falsamente ameaçador.
- É esse tipo de gosto que você imagina que eu tenha?
Embora tenha ficado em silêncio por alguns segundos, Draco virou os olhos na direção dela e apertou os lábios, fingindo um desapontamento.
- Nem uma estatueta do Dumbledore, nada?
Ao que Gina apenas apertou os olhos.
- Muito engraçado.
Então os dois sentaram-se no sofá. Draco ainda estava profundamente sem jeito, querendo não soar ingrato ou pessimista, então tentou ficar calado, apenas observando. Mas Gina o encarava de uma forma que o instigava a falar. Meio desconfiada, mas aparentando se divertir.
- É muito pequeno, não é? Achei um pouco claustrofóbico.
Ele disse, voltando a ficar de pé e observando o piso de cerâmica. Gina soltou uma risada curta e sacudiu os ombros.
- Era o suficiente só para mim. Eu passo a maior parte do tempo no hospital.
- Aposto que vou daqui até a cozinha em menos de dez passos.
E começou a caminhar, contando os passos. Gina grunhiu do sofá e se levantou num salto, vindo atrás dele. Apoiou as mãos em seus ombros e o puxou, fazendo-o ficar de frente para ela.
- É um apartamento normal, Merlin! Você que é megalomaníaco.
Finalmente Gina perdeu um pouco a paciência. Então fechou os olhos e apoiou os dedos nas têmporas, massageando suavemente enquanto devia repetir mentalmente algum mantra de boa samaritana. O Malfoy apenas a observou, umedecendo os lábios e pensando que tinha ido longe demais. Imaginou que não a magoaria ou chatearia logo no primeiro dia, mas ali estavam eles, começando uma discussão sobre o tamanho do apartamento.
E isso pareceu tão idiota quando começou a pensar a respeito que gostaria de poder simplesmente enterrar a cara no chão, como um avestruz. Para quem passou dias num hospital, o apartamentinho de Gina estava mais do que excelente. Só gostaria de ter chegado a essa conclusão um pouco antes.
- Olha, eu sei que você não gostou, mas isso não vai durar para sempre, está bem? É só até a audiência...
A voz dela tremeu enquanto tentava soar calma e controlada. Draco pôde perceber que havia um certo cuidado na escolha das palavras, como se estivesse não tentando ofendê-lo de alguma forma, mas, mesmo assim, tinha algo dentro de Gina que precisava mostrar-se correta diante daquela situação.
Num flash, ele se lembrou da imagem do jornal, com uma Weasley um pouco mais nova, calada e quieta, reprimindo várias coisas dentro dela. Certamente que era uma dificuldade, para Gina, simplesmente aceitar as coisas sem protestar, especialmente sabendo-se correta. No entanto, mesmo assim, ponderava e se esforçava para soar razoável em uma situação em que podia simplesmente explodir e manda-lo procurar um lugar melhor para ficar.
E perceber isso foi o suficiente para que Draco fosse se aproximando e passando os braços por volta dos ombros estreitos da ruiva, que pareceu um tantinho surpresa com o gesto e ficou subitamente em silêncio, apenas observando-o.
- Não, eu sei. Eu sei.
Foi apoiando seu queixo no topo da cabeça de Gina, que permaneceu em silêncio, sem compreender o que estava acontecendo. Ficaram daquele jeito por alguns instantes, com Draco observando, agora, o que seria a entrada do quarto dela. Não dava para ver muita coisa, mas pôde observar um pedacinho de uma cômoda azul, com três gavetas brancas e que ficava logo ao lado da entrada, com uns papéis em cima e um vasinho de planta com uma suculenta.
Se sentiu mal por tê-la feito se defender. Ainda que a discussão houvesse morrido antes de sequer se tornar, de fato, uma argumentação, era uma situação chata e não queria deixa-la pensando que seus dias seriam assim dali para frente. Se havia uma coisa que o Malfoy havia aprendido a prezar nessa vida era por sua paz. E longe dele querer tirar a paz de alguém, naquela altura do campeonato.
- Você já deve ter se arrependido de me oferecer para ficar aqui, não é?
Perguntou baixinho, perto do ouvido da ruiva, que apenas soltou uma risadinha baixa.
- Ainda não.
Sem olhar nos olhos dela, Draco começou a falar algo que sentia que precisava deixar claro.
- Olhe, eu... eu estou tentando, tá bem?
Ela não se mexeu e nem respondeu, apenas ficou parada, do mesmo jeito que estava. E, por mais estranho que fosse, pareceu para ele um tantinho mais fácil de falar sem ter que olhar diretamente naqueles olhos castanhos curiosos, que o deixavam sempre tão ansioso e o instigavam a continuar simplesmente soltando as palavras, sem nem pensar direito sobre o que dizia.
- Nem sempre eu vou ser a melhor versão de mim. Eu sei que nós somos muito diferentes e sei que você está tentando também.
As mãos dela se moveram devagarzinho e foi envolvendo-o num abraço, parecendo ficar até mesmo um pouquinho aconchegada em seu ombro. Ao senti-la assim, tranquila, Draco fechou os olhos e se permitiu sentir o cheiro dos cabelos vermelhos, concluindo seu pensamento.
De verdade, gostaria de agradece-la. Não somente pela estadia, mas por tudo. Desde o primeiro dia, no hospital, até agora, que a via relevar suas idiotices. Mas se sentia muito ridículo e infantil simplesmente dizendo "obrigado", por isso decidiu elogiar a atitude dela. Parecia mais maduro, um pouco mais genuíno e específico.
- É muito legal da sua parte me deixar ficar aqui.
Novamente aquela risada baixinha.
- Essa é a forma que você usa para dizer "obrigado"?
A cabeça dela se mexeu e Draco acabou dando-a algum espaço. Gina ergueu os olhos para ele e o permitiu ver que sorria daquele jeito meio travessa, como se estivesse disposta a deixar tudo de lado e voltar a brincar. E isso soava realmente tentador.
Mas ele quis aproveitar e preveni-la, de alguma forma, das coisas que pudessem acontecer dali para frente. Claro que não pretendia agir como um estúpido ou menospreza-la e diminui-la. Mas sabia que ainda podia pensar e dizer coisas das quais se arrependeria e que não eram e jamais seriam por culpa de Gina, mas somente dele. Por ser quem era e por carregar consigo todas aquelas coisas que ele tentava, a todo custo, esquecer.
- Como eu disse, eu estou tentando... eu sei que já não sou mais o mesmo merdinha que eu costumava ser, mas acho que ainda tenho um longo caminho pela frente.
Foi se afastando um pouquinho de Gina e se escorando à parede, ao lado do sofá. Ela o observava daquela maneira atenta e interessada de sempre e isso fez Draco se perguntar qual fora a boa ação que fizera na vida que o permitira desfrutar, agora, da companhia daquela grifinória faladeira e encantadora.
- O que quero dizer é que, às vezes, eu posso parecer com aquele merdinha, mas eu não sou. Não mais. Só que, às vezes, eu me esqueço disso, então...
Gesticulou de uma forma meio exagerada, tentando ilustrar que essas coisas estavam no passado, mas sentiu-se muito estúpido. Não sabia se conseguia ser claro o suficiente com tudo aquilo, quando na verdade só queria dizer a ela que não gostaria de ser um perfeito idiota, embora fosse, e estava tentando mudar isso. A forma curiosa com que Gina o observava lhe incentivava a se abrir, a tentar falar a mesma língua que ela ou que qualquer ser humano normal falava, mas, ao mesmo tempo, o fazia perceber o quão distante estavam quando o assunto era qualidade de comunicação.
- Só quero que se lembre que aqueles tempos já foram, e se eu agir como aquele merdinha, você pode me dizer para parar de agir feito um idiota, tá bem?
Quando terminou de falar, se sentiu mais ridículo e infantil ainda. Imaginava que, quanto mais tentava, mais se enrolava e menos compreensível soava. Chegou a baixar os olhos de constrangimento, querendo passar uma borracha e recomeçar, se fosse possível. Mas Gina apenas sorriu e voltou a se aproximar dele.
- E eu só quero que se lembre que eu não sou sua inimiga. Nunca fui, na verdade, nem com o pequeno merdinha que você costumava ser.
Gina esticou a mão e entrelaçou os dedos nos dele, chegando um pouquinho mais perto ainda, encostando seu corpo no peito de Draco.
- Então não precisa ser bélico comigo, tá bem?
E deu-lhe um selinho. Daqueles bem rapidinhos e cheios de vergonha, como se fosse uma adolescente. Draco prendeu o ar quando passou os dedos pela bochecha corada da ruiva.
Quis dizer a ela que sabia. Que ficava agradecido. Que jamais seria cruel ou faria intencionalmente coisas para feri-la.
Mas apertou os lábios e suspirou, apenas assentindo, de forma cordial.
- Não serei. Eu prometo.
•
- É um pouco claustrofóbico.
Assim que Blaise terminou de falar, Gina olhou para Draco. Ele apenas ergueu uma das sobrancelhas, como se dissesse "eu te falei", o que a fez bufar. Ainda que parecesse nervosa, o Malfoy sabia que aquilo não a havia afetado de qualquer forma, então permitiu-se apenas em vê-la virar-se emburrada na direção do amigo.
- Zabini, eu estive no apartamento da Luna e é do mesmo tamanho.
Pontuou enquanto enrolava os cabelos e os prendia em um coque. Já estava vestida com o uniforme do St. Mungus e prestes a sair. Bob a esperava, sentado, de frente para a porta de entrada, super ansioso. Ainda não estava de coleira e peitoral, mas já parecia saber que aquele era um dos dias em que a acompanharia.
Devia ser por volta de sete da manhã. Àquela altura, Gina já havia se levantado, tomado banho, colocado a comida de Bob, regado as plantas, feito o café e lido as manchetes do jornal. Draco, no entanto, havia acordado somente quando ela já estava terminando de ler sobre a última notícia. A Weasley estava terminando de se vestir quando Blaise bateu na porta.
- Eu também acho lá meio claustrofóbico.
Ele confessou, largando-se no sofá ao lado de Draco. Era irritantemente cedo para visitas, mas Blaise andava meio entediado. Luna acordava muito cedo para fazer suas atividades no jornal e conciliá-las com as pesquisas do óleo de dragão. E, quando não a acompanhava ao laboratório, não havia muito que o Zabini pudesse fazer às sete da manhã.
Ao menos, não até que o resultado de sua audiência saísse. Precisava ser inocentado para voltar a procurar algum ofício, qualquer um que fosse, pois não era difícil ser reconhecido por todo o mundo bruxo. Não era tão chamativo quando um Malfoy, mas, ainda assim, não costumava passar desapercebido.
Quando o ouviu falar sobre o apartamento de Luna, Gina arregalou os olhos.
- Você disse isso a ela?!
- Eu tenho cara de maluco? Claro que não. Ela é muito sensível, sabe?
E olhou para Draco com um sorrisinho de cumplicidade que o Malfoy não correspondeu.
Se tinha uma coisa que conseguia estragar completamente o doce gosto do café, era uma visita que chegava de manhã. Especialmente a de Blaise, que demandava atenção e costumava sempre trazer algum compromisso irritante e que o fazia ter de sair de casa.
- Eu posso imaginar.
Disse friamente, ao que Gina repreendeu com o olhar, tentando dizer que ele deveria ser legal com Blaise. Então o Malfoy apenas suspirou e ergueu os ombros, demonstrando que aquele era o melhor que ele poderia fazer.
- Ela decorou sozinha a maior parte das coisas. Aquelas gaiolas, por exemplo, ela pintou todas. A mão! Sem usar magia!
- Gaiolas?
Isso realmente despertou o interesse do Malfoy, que finalmente tirou os olhos de Gina para volta-los na direção de Blaise. A ruiva começou a prender a coleira e o peitoral em Bob, o que significava que estavam prestes a sair.
- Nem pergunte.
O Zabini advertiu.
Ao colocar-se de pé, Gina sorriu. Apanhou a bolsa cinza de couro e colocou no ombro, preparando-se para ir trabalhar. Deu um sorrisinho meio íntimo para Draco e voltou o olhar para Blaise logo em seguida.
- Bem, nós temos que ir. Vocês se divirtam aí. Tem cookies na cozinha, Zabini.
E acenou, antes de abrir a porta.
- Obrigado, Weasley!
Ele agradeceu, ficando de pé quase que imediatamente e rumando na direção da cozinha. Ainda deu tempo de Gina mandar um beijinho para o Malfoy antes de fechar a porta e ele apenas sorriu para o espaço onde ela estava, tomando coragem para seguir Blaise até os cookies.
Parou na soleira da porta e se escorou no batente, observando o amigo simplesmente devorar um dos cookies que estavam na assadeira, sobre a pia. Talvez aquela fosse a receita que Gina melhor executava e dava para ver como o Zabini aprovava, pois até fechara os olhos para saborear.
Draco chegou a torcer o nariz, observando-o. Ainda parecia exatamente o mesmo dos tempos de Hogwarts. Completamente ignorante de bons modos quando o assunto era comida.
- Então, está ansioso para a audiência?
Perguntou de boca cheia. Draco suspirou, coçou a cabeça e decidiu que era muito fácil ser a melhor versão de si ao lado de Ginevra, que não o irritava daquele jeito, em ponto de fazê-lo simplesmente virar as costas e largar Blaise na cozinha, falando e comendo sozinho como uma fábrica de migalhas. Então respirou fundo e olhou para o alto enquanto pedia ao divino um pouco de paz interior para não ser grosseiro antes do meio-dia.
A verdade é que não havia uma resposta muito certa para aquilo. Óbvio que estava ansioso, pois queria se livrar logo deste empecilho, mas, ao mesmo tempo, temia que seu destino pudesse não ser um dos melhores.
- Sim e não. Ás vezes eu penso que não quero perder isto. É o mais próximo de "paz" que eu já cheguei nesta vida, Blaise.
- Próximo?
Draco maneou com a cabeça e coçou o queixo, ainda olhando para o teto, refletindo sobre o assunto.
- Bom, como você consegue imaginar, Ginevra é bem teimosa e, quando ela decide alguma coisa, não há quem a faça mudar de ideia.
E baixou os olhos na direção de Blaise, que o encarava com curiosidade.
- O que ela fez?
- Bem, ultimamente, ela cismou que eu estou ocioso, então semana passada chegou um kit de poções aqui, um caldeirão e três livros diferentes sobre o assunto.
"Não que isso seja suficiente para tirar minha paz..." Draco pensou por um momento, avaliando um pouquinho seus últimos dias. Quando Gina estava no hospital, ele podia refletir um pouco mais. Lia muito, fosse o jornal, os livros de enfermagem ou até mesmo os romances que ela mantinha na sala. Até se aventurava na cozinha, vez ou outra.
Quando ela estava em casa, sempre havia uma novidade do hospital para ouvir ou uma memória que Gina gostaria de compartilhar. Era inquieta e sempre estava fazendo alguma coisa, fosse na cozinha, com as plantas ou Bob. Mas era preguiçosa de manhã, especialmente aos finais de semana, e gostava de se enfiar entre os braços dele por um tempo, às vezes até cochilava, antes de acordar de vez e começar sua rotina frenética.
Embora fossem ficando mais íntimos a cada dia, Draco ainda sentia que pisava em ovos com ela algumas vezes, e por isso tirava um pouco seu sossego quando Gina inventava alguma coisa que ele não queria fazer. Ficava numa baita saia justa de negar a ela alguma coisa e se via obrigado a ceder, por mais que não quisesse. E via que essa história de poções seria mais uma dessas situações embaraçosas, o que o perturbava um pouco, mas não exatamente a ponto de ser um problema...
- Ela não está exatamente errada, sabe?
Quando Blaise falou, o Malfoy saiu um pouco dos devaneios e virou-se na direção dele. Finalmente havia deixado a assadeira de cookies na pia e cruzava os braços, como se achasse o argumento de Draco uma grande bobagem.
- Qual é. Pense em oito anos atrás. Nas preocupações que tínhamos. Agora, pense no hoje. Não há nem comparação, certo?
Era óbvio. Não havia como comparar Gina tentando tirá-lo do tédio com Voldemort. E só de pensar nisso, teve vontade de rir por ter se deixado preocupar com algo tão pequeno. Então encarou Blaise com as sobrancelhas curvadas, perguntando-se quando o amigo se tornara perspicaz daquela forma.
- Desde quando você se tornou tão reflexivo?
- Desde que Luna me ensinou a meditar.
Foi como se uma bomba houvesse explodido na cozinha, ali, bem diante de seus olhos.
O queixo de Draco caiu e seus olhos se arregalaram enquanto olhava para Blaise, incrédulo com o que acabar de escutar. Quis muito rir, mas fora pego tão de surpresa que mal podia dizer se era real ou se havia dormido no sofá e estava sonhando.
- Me permita dizer O QUE?!
E Blaise simplesmente assentiu.
- É, eu andava muito ansioso aguardando pela minha audiência. Ainda estou, na verdade. Então ela me ensinou essas técnicas de meditação, respiração e funciona!
Com um sorriso incrédulo no rosto, Draco apenas sacudiu a cabeça negativamente. Era como se, de repente, Blaise decidisse que as aulas de adivinhação eram as melhores do currículo escolar. Não fazia o menor sentido, especialmente com tudo que conhecia do amigo durante todos esses anos.
- Eu não acredito que você está fazendo meditação voluntariamente.
- Você devia tentar um pouco.
O Malfoy apenas apertou os olhos, numa feição de quem diz "Sério? Você realmente acha que vou fazer isso?"
- Zabini.
- Ué, pode ser uma boa ideia. Quando é sua audiência?
Draco suspirou, perdendo um pouco a graça ao lembrar-se da audiência.
- Mês que vem.
- É muito tempo sem fazer nada, não acha?
"E eu me meto nos teus assuntos? " Pensou antes de apertar os lábios, tentando conter seus próprios comentários. Percebia que o fato de se irritar era por que, no fundo, sabia que Blaise tinha razão. Era, mesmo, muito tempo sem fazer nada. No entanto, não gostava de encarar que se tornara um perfeito peso morto. Ao menos, até a data da audiência.
- E quando é a sua?
Perguntou, tentando desconversar.
- Em quinze dias. Eles adiantaram, devido ao efeito da poção.
Quinze dias. Parecia desesperador, de um certo ponto de vista, mas também poderia ser melhor do que ficar em agonia por mais um mês.
- Não sei se isso é bom ou ruim.
Disse com sinceridade. Blaise ergueu os ombros.
- Eu prefiro resolver logo. Ah, minha mãe me enviou uma coruja, ela disse que estará lá.
Draco não resistiu e riu. Ouvira falar tanto da mãe de Blaise. Tantas coisas e tantas histórias que seria interessante, finalmente, colocar um rosto no personagem. No entanto, sabia que não teria permissão de comparecer na audiência e não valia a pena lutar por isso. Ultimamente andava tendo que escolher muito bem as batalhas que travaria com o ministério e essa certamente não era uma delas.
- Eu não perderia isso, se pudesse. Queria ver sua cara quando te mandarem para Azkaban.
Blaise bufou e virou os olhos, parecendo ter se cansado daquela visita. Apanhou a varinha e resmungou.
- Eu vou ficar muito feliz, pois sei que você virá logo na sequência.
Logo em seguida aparatou, deixando um Draco sorridente olhando para o vazio.
Pena que a preocupação com seu próprio destino fez o sorriso durar pouco.
•
N/A: Acho que ninguém mais acreditava que o final dessa fanfic ia vir, né?
Pois é, nem eu hahahahahaha
Acabei de escrever agora e postei, pra vocês ficarem felizes (se é que alguém ainda se importa com isso)
Vou deixar pra me despedir apropriadamente de vcs no epílogo, tá?
Espero que ele saia em breve também...
Beijos!
