NOTAS DO AUTOR:
Eiiita que demorei, mas cheguei!
Bom, como sabem, toda terça-feira lanço prévia nas redes sociais, mas como o próximo capítulo estava em votação, não tive tempo hábil de fazer as devidas preparações.
Enfim, como podem perceber, a maioria dos votos foi para "dividir o próximo capítulo" para garantir duas semanas seguidas de postagem! Então aqui estamos, Pétalas de Cerejeira e eu, dando as caras!
Muito obrigada a todos por terem votado! Foi importante demais o voto de cada um de vocês!
Sobre esse capítulo, é transicional. Como o nome do capítulo mesmo sugere, há dois acertos de contas e o início de uma movimentação política importante que [SPOILER] no próximo capítulo trará a presença do nosso ilustre Kazekage Gaara!
Nada disso é enchimento de linguiça, hein. Já avisei lá no começo que tudo o que coloco nos capítulos são extremamente necessários e nunca será diferente disso. Mais para frente vão entender o motivo de todos esses acontecimentos serem tão importantes.
É isso! Boa leitura!*~
Obs.: Me perdoem por vir responder vocês só ontem, mas é que, como já tinha explicado, estou fora de órbita praticamente. Longe de casa, longe da família, numa viagem a trabalho desgastante, mas extremamente necessária. Minha vida pode mudar significativamente se tudo der certo, então me perdoem pela ausência e torçam por mim!
Obs.²: Créditos do banner aos fanartistas! Apenas a edição é minha. Infelizmente não conheço ou tenho conhecimento de quem seja o artista da fanart, pois peguei no Google ou nos grupos do Facebook ou Whatsapp, mas se alguém souber, por favor, me diga que credito sem problemas!
[…]
CAPÍTULO 14
ACERTO DE CONTAS
O silêncio caiu entre eles soberano, mas não havia mais aquela tensão, aquele muro invisível, porém onipresente. Depois do avanço de alguns quilômetros em uma disputa por quem chegava primeiro, onde não houve vencedor – tanto por ela quanto por ele não ter levado tão a sério aquele jogo infantil –, pararam para se higienizar no lago que tinha no caminho para o esconderijo provisório deles, pois seria a única chance de fazê-lo já que no dia seguinte pretendiam seguir viagem para encontrar o Gobi. Tinha plena certeza de que conseguiu um informante de qualidade e de que o parceiro conseguiu extrair as informações necessárias.
Tendo feito tudo o que era preciso, inclusive pescar a janta e encher os cantis de água, retomaram o caminho, só que caminhando, uma vez que estavam perto.
Itachi parecia pensativo e ela não estava num estado diferente.
Teve tanto trabalho em camuflar todo o caos que estava em seu interior por tanto tempo e tudo ruiu diante dos seus olhos conforme o controle a abandonava no pior momento possível: durante a difícil conversa com o Uchiha primogênito.
Ela pretendia começar, continuar e concluir aquela conversa do jeito mais prático e racional que pudesse, para não deixar o bombardeio de sentimentos cair sobre ele, mas foi impossível. Quando viu, já tinha misturado a razão com a emoção e jogado na cara dele verdades cruéis que, se fosse em outro momento e em outro clima, jamais teria jogado.
Olhou de esguelha para ele, tão calmo e sereno como sempre aparentou estar, mas no olhar negro – graças aos céus ele entendeu que usar constantemente o Sharingan prejudicaria ainda mais sua visão – havia uma tempestade de emoções que certamente se esforçava para conter.
Depois de tudo o que foi dito e ouvido, percebeu que tinha uma verdadeira relação de compaixão e ódio com ele.
De compaixão porque em circunstâncias Ninja eles eram exatamente iguais:
Se aproveitaram das oportunidades para fazer o que era necessário, sacrificando-se por um bem maior e por aqueles que mais amavam;
Seguiram e trilharam por um caminho obscuro;
Mudaram e se adaptaram diante de todos os obstáculos;
Fizeram coisas ruins, que iam contras suas índoles, apenas para não falhar e, o mais importante, porque ambos eram solitários e não tinham mais um lar para voltar, então tinham que seguir em frente sob quaisquer circunstâncias.
E tudo aquilo destruía pouco a pouco parte de si, ela sentia na pele.
E de ódio… não porque ele quebrou Sasuke no passado, entendeu que ele agiu sob desespero e cometeu um erro – grande e quase irreversível –, mas porque ele insistia em seguir por um caminho solitário – quando estava lá para ele, para ajudá-lo no que fosse possível já que só podiam contar um com o outro atualmente – para cometer um erro que será verdadeiramente irreversível e que só piorará tudo.
Torcia para que a abordagem que escolheu tenha funcionado e que o faça ver que o plano dele tinha tudo para dar errado e, assim, consequentemente, consiga ter sucesso em reverter o suicídio altruísta dele, salvando assim duas pessoas: a que era importante para si e a que era importante para essa pessoa, pois Sasuke pode dizer aos quatro ventos que o odiava, mas sabia que por baixo daquele ódio havia um amor decepcionado e quebrado, que só precisava ser regado com a verdade.
Era engraçado como em outros tempos, outra vida, lhe daria um cascudo, o chacoalharia e até gritaria com ele até não ter mais voz de que o plano dele era idiota – certo, ela disse isso em algum momento do descontrole – e que ele era cego – tudo bem, ele realmente estava perto de ficar cego de verdade e essa analogia não seria muito bem-vinda – por não ver o que estava há um palmo a frente dele e burro por não entender o óbvio e certamente o obrigaria a fazer as coisas do jeito dela. Sim, obrigaria mesmo. E no meio de tudo aquilo choraria, ah, com toda a certeza choraria horrores – muito mais do que chorou – porque, mesmo depois daquela conversa, continuava com o choro preso na garganta.
Mas ela não era mais daquele jeito e a pessoa que se tornou encontrou uma maneira mais eficaz e menos cansativa de lidar com as coisas: a psicologia – e naquele caso específico reversa. Afirmar que não se importava a ponto de contrariá-lo e colocar em pauta todas as possibilidades, opções e possíveis resultados foi a melhor solução, visto que ele estava irredutível até mesmo diante das tentativas do Jiraya e ainda no estágio de negação diante de fatos. Se seguisse pelo mesmo caminho, obteria o mesmo resultado e ainda iria se desgastar emocionalmente à toa.
Já estava esgotada o suficiente e precisava se poupar o máximo possível.
Olhou ao redor percebendo o cenário atual. Nada favorável. Nuvens acinzentadas se acumulavam acima de suas cabeças, o vento estava a cada minuto mais agressivo, lampejos silenciosos prometiam trovoadas devido ao colapso térmico do ar quente com a chuva fria que estava a caminho e, tirando a caverna pelo qual vão passar em alguns minutos, não havia nenhum outro abrigo seguro à vista.
Suspirou exausta e olhou para Itachi, ainda perdido na própria mente. Estava tão imerso em pensamentos que sequer prestava a atenção ao presente, ficando descuidado e disperso.
Talvez tenha pegado pesado demais com ele.
— Acho melhor acamparmos naquela caverna. O tempo está virando e nosso esconderijo está a uns trinta quilômetros daqui. — avisou, percebendo que tinha que tomar as rédeas da situação antes que as coisas começassem a desandar.
Itachi, com o cenho franzido, mirou o céu noturno coberto por nuvens carregadas, depois ao redor, exatamente como ela alguns segundos antes, e assentiu.
Adentraram a pequena caverna, mas com um espaço suficiente para os dois pernoitarem confortavelmente protegidos e sob o calor de uma boa fogueira.
Por mais que não houvesse diálogos, a dinâmica entre eles era bem prática. Enquanto ele preparava a fogueira e buscava por água para repor os cantis, ela colhia frutas ou caçava a refeição ou o contrário. E naquela noite não foi diferente, embora o jantar já tenha sido caçado. Ela saiu dizendo que ia conferir o perímetro e ele concordou com um aceno de cabeça, se retirando para buscar gravetos para a fogueira.
Depois de cobrir os próximos cinquenta quilômetros em trezentos e sessenta graus de cinco pontos ao redor da caverna e de deixar armadilhas pelo caminho para garantir a segurança caso se distraia, voltou pensando sobre as coisas que ouviu no bar referente ao alvo, coisas um tanto preocupantes.
— Demorei porque estava pensando… — divagou ela, se sentando e observando os peixes já a postos para um bom assado — aquele homem que subiu para o quarto comigo deixou escapar que tinha um acampamento militar há alguns quilômetros a oeste, então fui investigar e não encontrei nada nos próximos setenta quilômetros, nada relevante, quero dizer. — se corrigindo, tirou o manto negro para ficar mais à vontade — Só alguns civis-…
— Como consegue fazer isso? — ergueu o olhar esmeraldino para ele com a sobrancelha arqueada numa pergunta muda — É uma Ninja Sensorial ou Rastreadora?
— Não exatamente. — respondeu evasivamente, desviando o olhar só para respirar fundo, entrando em um embate mental se deveria se abrir ou não para ele.
Eram aliados, sob as mesmas circunstâncias e com as diferenças acertadas. Estava na hora de confiar mais nele, certo?
— Não precisa me contar se não quiser. — "se não confia em mim", ela quase pôde ouvi-lo dizer.
Outro suspiro partiu dela, então se endireitou e o encarou com seriedade.
— Eu só tenho um bom controle de chakra e com isso emito ondas de chakra pelos pés utilizando o solo como recurso, assim como uma energia diferente que consegue captar qualquer ser vivo, num raio de até quarenta quilômetros em trezentos e sessenta graus de onde estou e cinquenta quilômetros se eu estiver parada e puder me concentrar unicamente nisso.
Itachi ergueu uma sobrancelha, parecendo genuinamente surpreso.
Coçando com desconcerto a bochecha que ardia um pouco pela dedicação do olhar dele, desviou o olhar.
— Como eu dizia, só encontrei civis nesse raio de mapeamento, foi quando pensei: os Ninjas de Iwagakure – Vila oculta da Pedra – são conhecidos por técnicas secretas de infiltração e espionagem, então… e se o acampamento militar estivesse escondido?
— No solo? — ela assentiu e ele pareceu cogitar aquela possibilidade — É possível, isso os impede de serem rastreados.
— Inclusive por mim. Sinto que tem alguma barreira há mais ou menos sessenta quilômetros daqui, mas só terei certeza se estiver mais próxima… de qualquer forma, desconfio que pode ser o acampamento.
O ponto chave era que: se estavam escondendo um acampamento militar, era porque faziam treinamentos especiais e isso poderia trazer problemas numa possível futura Guerra Ninja.
Há alguns meses ouviu um boato de que Iwagakure estava interessada em negociar com Sunagakure – Vila Oculta da Areia – o poder sobre as cinco pequenas Vilas entre suas fronteiras que estavam se esforçando para se tornarem militar e economicamente independentes e o fato do Jinchūriki do Gobi estar à frente de treinamentos militares só reforçava aquela teoria. Talvez almejavam disputar os territórios e isso era ruim até mesmo para o Pain, que acabou de tomar o poder de Amegakure – Vila Oculta da Chuva, Kusagakure – Vila Oculta da Grama – e Kōtetsugakure – Vila Oculta do Aço –, três dos cinco territórios "sem lei"; não que estivesse preocupada com as consequências que o líder da Akatsuki teria que arcar com a disputa, mas aquele fato seria primordial para fazer o que era preciso, pois, com certeza, poderia para usá-lo a favor como argumento quando começasse uma investigação.
— Sei que já estamos atrasados na captura do Gobi, mas precisamos investigar isso. — ela continuou, virando os assados — Se estão fortalecendo a força militar é porque pretendem agir sob ataque pelas fronteiras e minha aposta é que será contra Suna, que está enfraquecida politicamente ainda pelas conspirações no alto escalão provocado pelo Sasori e militarmente por causa das constantes investidas da Akatsuki e das aldeias Ninjas que rodeiam o País, devido as diferenças de ideologias.
O argumento tinha como base todos os esforços que Tsunade fez para prestar apoio ao Kazekage – Sombra do Vento – quando soube que ele era um potencial alvo da Akatsuki.
— Sim. — Itachi comentou longínquo, até olhá-la — As Vilas que atualmente estão sob o poder da Akatsuki estão nas fronteiras, então podemos utilizar isso para justificar nossa investigação.
— Foi exatamente nisso que pensei.
Conversaram um pouco mais sobre o assunto durante o jantar e também sobre o que o Uchiha descobriu com o cara que ela capturou e no fim ela enviou um pergaminho para Konoha de alerta sobre a movimentação suspeita através de Katsuyu e Itachi enviou outro para o Pain através de um corvo de invocação.
— Distribui armadilhas em volta, então podemos descansar essa noite. — comentou assim que Itachi retornou para dentro da caverna, pois tinha saído para soltar o corvo mensageiro.
Assentindo, se sentou do outro lado da fogueira — E com esse temporal acredito que não teremos problema.
Assentiu também, dobrando o próprio manto negro para usar como um improvisado travesseiro, já se deitando de barriga para cima.
Ficou observando a luz alaranjada da fogueira ricocheteando na mistura de barro e pedras do teto, criando movimentações que a hipnotizavam visualmente e a faziam mergulhar em um estado reflexivo que evitou o dia todo.
A confissão nua e crua do Itachi voltou a atormentá-la, junto do olhar carregado de culpa, de transtorno, de medo e… solidão.
Fechou os olhos com um suspiro resignado. Tinha certeza de que aquele olhar irá assombrá-la por muito tempo.
Abriu os olhos respirando fundo e se concentrando em outra parte daquela conversa que ainda não estava resolvida. Podia ouvir com clareza aquela acusação se repetir em sua mente.
— Não forjei minha morte para fugir das consequências. — o corpo começou a se agitar e para descontar a tensão por tocar naquele assunto, brincou com a barra da camiseta arrastão por baixo da regata com as pontas dos dedos, a enrolando e a desenrolando repetidamente — Eu precisava redirecionar todo o meu chakra para o Byakugō no In – Selo da Força de uma Centena – para que assim eu pudesse completá-lo e, como consequência, ter acesso a um grande poder que me ajudaria a colocar em prática meu Kinjutsu – Técnica Proibida. Isso me tornaria vulnerável, então a única solução que me deixaria segura sob aquelas circunstâncias era forjar minha morte e viver nas sombras de Vilarejos ou Vilas Civis que estivessem fora da mira de qualquer Vila Ninja ou da própria Akatsuki.
Sabia que Itachi não esperava aquela explicação, porque estava claro que ambos disseram coisas que normalmente não diriam, apenas para magoar da mesma maneira que estava sendo magoado, mas sentia a necessidade de esclarecer aquilo, porque não passou por sua cabeça, nem por um instante, fugir das consequências de se tornar uma desertora.
Por isso, desde que Jiraya informou que seu nome será inserido no Bing Book – Lista Negra Shinobi –, repetia diariamente para si mesma de que logo Konoha, seus habitantes, sua família e amigos vão descobrir que sofreram pela morte dela por todo aquele tempo à toa, de que ela estava viva, conspirando contra todos ao lado da Akatsuki e de que se tornou uma ameaça, uma inimiga.
Sentia uma terrível dor no coração ao pensar no momento em que terá que confrontá-los. Seus pais, o que restou do Time 7, Naruto…
Com o estômago embrulhado se sentou, engolindo com dificuldade a saliva e o choro.
Oh, o que era aquilo? Por que estava se torturando previamente daquele jeito depois de um dia tão conturbado?!
Dobrou uma perna e apoiou o antebraço com traços negros em forma de ramificações de Cerejeira no joelho, contendo um praguejo verbal.
Itachi já estava perturbado o suficiente para ter que, no final de tudo, ainda vê-la se descontrolar mais uma vez. Devia à ele um pouco de maturidade e controle.
— Quando eu disse aquilo… — ele disse e ela se sobressaltou por ter sido pega desprevenida. Estava tão absorta em pensamentos que se esqueceu totalmente dele — desculpe, não quis assustá-la.
O olhou com um pequeno sorriso constrangido e bochechas ardendo.
— Não… eu-… me desculpe, me esqueci de você. — confessou atordoada, levando a mão no coração agitado, depois no rosto junto de um suspiro exasperado conforme desviava o olhar para o chão — Nossa, eu realmente me esqueci de você.
Riu, achando graça do Uchiha primogênito ser tão quieto que dava a impressão de que ela estava sozinha. Negou com a cabeça ainda rindo e o olhou expressando um pequeno sorriso fechado.
— Desculpe, de verdade…
Ele negou com a cabeça.
Quieto e educado, era assim que o via. Mesmo quando não tinham a melhor das convivências, admitia que ele sempre foi um homem que exalava educação até mesmo calado e por gestos calheiros e excessivamente respeitosos, o que era engraçado, já que, como era um Nukenin – Ninja Fugitivo –, esperava o pior dele.
— Quando eu disse aquilo… — ele repetiu e ela desfez o sorriso, vendo-o desviar o olhar para a fogueira — não acreditava realmente no que eu disse. Só o fiz por… por saber que ia afetá-la.
Assentiu e mirou a fogueira também, percebendo que eram parecidos também na maneira como pensavam. Julgou o mesmo há pouco.
Que coisa.
— Sakura. — o olhou, encontrando-o a encarando — Você é a pessoa mais corajosa que conheço.
Sorriu fraco, sentindo as bochechas aquecerem rapidamente devido ao constrangimento de ser elogiada. Assentiu e se deitou para fugir do olhar dele, encarando o teto.
— Me desculpe, Itachi, mas você é a segunda pessoa mais corajosa que conheço. — confessou em tom brincalhão que há muito não usava, ainda sorrindo.
— Segunda pessoa? — assentiu, sabendo que ele ainda a olhava — Quem é a primeira?
O tom curioso… uau, nunca pensou que ouviria o imponente Uchiha Itachi usá-lo.
— Um cara que enfrenta qualquer batalha e supera qualquer obstáculo, porque é o Ninja número 1, hiperativo e cabeça-oca de Konoha. — respirou fundo para controlar o embargo da voz e as lágrimas que já se acumulavam em peso — No começo achei que era apenas mais um idiota no mundo querendo atenção, mas depois entendi que, mesmo que fosse aquilo, era preciso ser muito corajoso para fazer as idiotices que ele fazia.
Sentiu o sorriso, já fraco, se desfazer. Por que ela estava tão sensível e nostálgica daquele jeito? Era porque viu o quarto que um dia a pertenceu?
— Ele parece ser importante para você.
Assentiu.
— E é.
Suspirou, sentindo mais uma vez a garganta apertar, os olhos arderem e o peito doer. A parte mais difícil era saber que se não conseguisse parar a Akatsuki – coisa que não estava nem perto de descobrir como o faria – se tornar inimiga dele seria inevitável e não conseguia nem se imaginar lutando contra ele para manter o disfarce.
Enxugou as lágrimas que derramou e suspirou mais uma vez decidindo seguir por outro caminho.
Havia mais uma coisa pendente a esclarecer.
— Itachi?
— Sim?
Se sentou, virando-se para ele. Precisava olhar nos olhos dele na hora de obter aquela resposta.
— Aquele Genjutsu… — começou, observando o pomo de adão subir e descer lentamente, indicando dificuldade em engolir a saliva. Subiu o olhar ao rosto aparentemente inexpressivo, mas que tinha linhas rígidas demarcadas no maxilar, provando a tensão prévia. E o olhar… nunca expressou tanto desconforto como expressava naquele instante; — não era uma mera ilusão, não é? — aguardou uma resposta verbal, mas só o que recebeu, depois de algum tempo em que apenas se encararam, uma negação gestual com a cabeça — Era real. Uma lembrança. — ele assentiu, desviando o olhar triste para a fogueira — Por quê? Por que me mostrou aquilo?
Os minutos posteriores foram uma longa tortura. Itachi parecia cada vez mais destruído a cada segundo. A postura levemente retraída – dentro do possível vindo de alguém tão imponente quanto ele –, o olhar perdido nos fantasmas do passado, os lábios levemente curvados para baixo demonstrando o desgosto.
Era tão claro o quanto ele se martirizava por ter feito o que fez que Sakura – que já chorava silenciosamente mais uma vez – sentia uma imensa vontade de abraçá-lo e dizer que ele fez o que era certo e o que era necessário, até ele compreender e parar, ao menos um pouco, de se culpar tanto.
Pelo amor de Deus, ele era apenas um adolescente quando tomou aquela decisão!
E, de fato, não havia nada que pudesse fazer para evitar aquela tragédia, mesmo que tivesse tempo para gerenciar todos os acontecimentos de outra forma. Tanto era verídico aquele fato que nem mesmo o Sandaime Hokage, que era um Ninja e homem mais experiente, não conseguiu pensar em outro desfecho.
— Para que você me odiasse ao ponto de que, se Sasuke falhasse em me matar, você o fizesse por ele.
Sorriu com escárnio e negou com a cabeça o vendo esboçar um discreto sorriso de canto junto de um olhar esperto. Ao menos não parecia mais tão deprimido e isso a deixou aliviada.
— Nem você acredita nisso. — ele deu de ombros, parecendo se divertir — Ah, vamos. Diga logo a verdade, Itachi! — ralhou, jogando uma pedra pequena na direção dele.
Viu-o puxar um pouco mais o canto dos lábios num meio sorriso ainda mais evidente quando a pegou por reflexo.
— Você é mesmo insolente, garota.
Então foi ela quem deu de ombros sorrindo de canto. Quase o rebateu com um "Bom, segundo o seu irmão, eu sou irritante e não insolente.", mas achou que trazer à tona aquele tipo de piada não seria adequado quando lembrar do Sasuke o deixava tão deprimido.
De repente, aquela pequena descontração caiu por terra e deu espaço a uma tensão palpável. Nenhum dos dois sorria mais e Itachi suspirou, jogando a pedra na fogueira com os olhos fixos nas chamas. Minutos depois, a voz dele soou distante:
— Eu só queria que você o entendesse… que o perdoasse e o aceitasse de volta quando for a hora. Sasuke só fez tudo o que fez porque eu o mostrei, erroneamente, de que não importava como, ele precisava ser forte. Eu o fiz mergulhar na escuridão porque não pude protegê-lo eu mesmo e-…
— Eu não precisava daquele Genjutsu para entendê-lo e perdoá-lo. — o cortou, sentindo um aperto no peito pela culpa dele ser tão palpável que a machucava só de ouvir — Sasuke-kun só-… — vacilou, mordendo o lábio inferior para conter todo o sentimentalismo que a guiava quando se tratava dele — Sasuke-kun só não consegue enxergar que não está sozinho como acha que está. E ele não tem culpa disso. A solidão é algo que cega e desespera num ponto em que quase nada é capaz de alcançá-lo… por isso Naruto e eu nunca desistimos dele. — desabafou, abraçando as pernas ao dobrá-las rente ao peito e olhou para a fogueira — E tenho certeza de que, mesmo que eu não esteja mais ao seu lado nessa empreitada, Naruto jamais vai desistir dele até trazê-lo para casa, porque é o seu jeito Ninja não voltar com sua palavra. — olhou determinada para seu parceiro — Posso garantir isso.
Itachi assentiu e recostou contra a parede da caverna, dobrando um joelho e apoiando o antebraço numa postura mais relaxada e ela continuou abraçada às pernas observando as chamas.
Ambos ficaram um bom tempo presos em pensamentos, ouvindo o som do temporal lá fora junto do crepitar do fogo, até que Itachi quebrou o silêncio.
— Como… — ela o olhou diante da hesitação e o encontrou com uma expressão incomum: uma mistura de curiosidade e constrangimento, com o olhar fixo na fogueira, como se estivesse envergonhado de encará-la ao perguntar o que queria — como ele era? Digo, quando vocês ainda eram um time.
Sakura quis rir. Ele estava mesmo curioso, constrangido e envergonhado de verdade! Aquilo era inédito!
No entanto, para poupá-lo, forçou os lábios a manterem-se neutros e desviou o olhar para a fogueira para deixá-lo mais confortável, enquanto buscava na memória a resposta para aquela pergunta.
Então acessou lembranças doces, de uma infância onde a preocupação deles era completar missões Rank D ou de descobrir como era o rosto do Kakashi, ou mesmo aprenderem a agir como companheiros de equipe.
Sorriu fraco ante ao peito aquecido. Era tudo tão mais fácil.
— Sasuke-kun sempre foi muito introvertido e um pouco ranzinza também. Até mesmo em seus melhores dias ele mantinha a expressão fechada e usava poucas palavras. — divagou, olhando para um ponto qualquer no teto ainda com um sorriso contemplativo — Naruto e ele viviam disputando para ver quem era o melhor e… — ofegou quando lhe veio à mente a batalha entre eles na cobertura do hospital, onde o Rasengan – Esfera Espiral – e o Chidori – Mil Pássaros – ia matá-los se Kakashi não interferisse.
— O que foi?
Itachi perguntou, parecendo preocupado e ela o olhou e forçou um sorriso para tranquilizá-lo, embora tenha levado a mão fechada ao peito, que doeu ao perceber que já naquele momento as coisas não iam bem.
Pigarrou para limpar a garganta e prosseguiu, fingindo não estar afetada pela lembrança nada agradável.
— Bom… — recomeçou, mas perdeu completamente a linha de raciocínio. A partir dali, não tinha muito o que contar, pois Sasuke começou a agir estranho. Então voltou para o início da história do Time 7 — Sasuke-kun também era muito protetor. Sempre que não dávamos conta, ele nos protegia. E do jeito dele, até nos incentivava e nos mostrava que éramos melhores do que achávamos.
Seguir por aquele caminho funcionou. Lembrou-se do Chūnin Shiken – Exames Chūnin –, quando ele orgulhosamente se gabou da inteligência dela e de sua sensibilidade aos Genjutsu.
E então foi fácil encontrar mais memórias agradáveis para contar ao Itachi, que ouvia tudo atentamente, com o olhar fixo no fogo, mas com a mente claramente longe, como se tentasse imaginar tudo o que ela dizia. Vez ou outra, um pequeno sorriso orgulhoso pairava sobre os lábios sempre retos e inexpressivos e ela sorria por ver que, de algum jeito, estava contribuindo para que ele conhecesse melhor o irmão mais novo.
Já havia amanhecido quando ela bocejou pela primeira vez, sentindo o cansaço abatê-la. Era acostumada a passar as madrugadas em claro fazendo a ronda, treinando para passar o tempo ou só olhando para o céu, mas naquela madrugada específica ficou agitada e eufórica contando em frases exasperadas e animadas as encrencas em que o Time 7 se metia na época em que ainda eram uma família unida, e isso sugou toda a energia que tinha, porque fazia muito tempo desde que se sentiu tão… feliz, embora a nostalgia e tristeza estivessem ali, à espreita.
Olhou para o Itachi, que ainda tinha um meio sorriso formado e olhar cansado fixo na fogueira, provavelmente assimilando a última história contada: quando Sasuke decidiu aceitar uma missão que lhe era muito pessoal: que era recuperar a cópia da pata de um gato para a enciclopédia de uma velha chamada Nekobaa.
— Acho melhor dormirmos um pouco antes de seguirmos viagem. — comentou, olhando para fora da caverna.
O Sol estava nascendo e continuava chovendo, mas bem mais fraco. Logo pararia ou apenas chuviscaria.
Itachi assentiu e se deitou, passando a fitar o teto.
Se deitou também e virou para ficar de frente para a parede, mas antes de fechar os olhos, recobrou uma velha e quase esquecida saudação que não usava desde que deixou de ser a Haruno Sakura da Vila da Folha.
— Bons sonhos, Itachi. — sussurrou, fechando os olhos.
E mesmo quando sentiu o corpo se desligar aos poucos, pôde ouvir um contemplativo "Bons sonhos, Sakura" em retribuição, o que a fez sorrir brevemente ao mergulhar no mundo que esperava ser dos sonhos.
Acordou desorientada, sentando-se ao mesmo tempo que sacou a Kunai no coldre lateral da coxa e a empunhou defensivamente enquanto forçava os olhos inchados a focar ao redor, à procura de um inimigo, mas não havia nada perigoso lá: Itachi ainda ressonava baixinho num sono tranquilo, aparentemente; a fogueira ainda estava acesa, embora menor e quase sem suprimento para as baixas chamas; a caverna estava tão silenciosa quanto quando foram dormir.
Só que o coração dela ainda estava acelerado, o rosto, pescoço e peito estavam excessivamente suados e a mente dela estava embaralhada o suficiente para sequer conseguir lembrar o próprio nome.
O que estava acontecendo?
Devolveu a Kunai ao coldre lateral da coxa e inspirou e expirou profundamente fechando os olhos, se forçando a se acalmar.
Outro pesadelo.
E diferente dos anteriores até aquela data, era coerente e fortemente passível de se tornar real: Sasuke matando o Itachi, Tobi trazendo a verdade à tona e convencendo o irmão caçula a entrar para a Akatsuki para ajudá-lo a destruir Konoha e ela querendo reviver Itachi só para matá-lo de novo por ter acontecido exatamente o que tinha dito que aconteceria quando ele morresse, só que sem a conotação sarcástica daquela situação, no mínimo, inusitada.
Tudo aconteceu de forma sombria e se encaminhou para uma obscuridade mais sufocante do que a que estava vivendo atualmente.
Estremeceu por lembrar do quão insano Sasuke estava. Ele feriu pessoas que aparentemente estavam ao lado dele só para não perder a oportunidade de matar quem queria e Tobi alimentou ainda mais o ódio dele mirando em alvos do alto escalão de Konoha e dos pilares que mantinham a Vila segura. Foi quando ela decidiu interferir o atacando para impedi-lo de fazer aquilo, o que rendeu uma longa luta penosa em que no final ela o matava com o Kinjutsu para não deixá-lo matar Naruto, que em certo momento se envolveu na luta.
Oh, céus… que aquilo fosse apenas um pesadelo e nada mais.
Se levantou enxugando o suor que escorria pela lateral do rosto e decidiu se banhar, deixando um Kage Bunshin – Clone das Sombras – para trás para o caso de Itachi acordar e não se assustar ao não vê-la ali e para protegê-lo, já que parecia cansado e precisava descansar pacificamente.
Fez tudo o que queria e mais um pouco e quando estava voltando, recebeu a informação do Clone que Itachi tinha acordado. Apressou os passos, mesmo sabendo que seu Clone o explicou o que aconteceu e quando chegou, se surpreendeu por ser recebida por um sorriso fechado tranquilo.
— Por que a pressa?
Ele estava tão… leve. Ao contrário dela, que acordou assustada, desorientada e com o choro preso na garganta, ele estava pleno e até mesmo… alegre?
Franziu o cenho.
Itachi era extremamente discreto e quase inexpressivo, então era difícil julgar, mas a áurea dele estava tão diferente que era impossível não notar.
Desviou o olhar quando ele ergueu uma sobrancelha numa pergunta muda do porquê estava que nem idiota o encarando e mostrou os peixes que pescou.
— Trouxe o café da manhã.
A refeição ocorreu sob o silêncio, mas não daqueles opressores. A tranquilidade que Itachi emanava especificamente naquela manhã a contagiou de modo que, sem perceber, sentiu como se estivesse em Konoha, tendo um daqueles dias normais em que a sensação de paz era a única coisa que a preenchia.
Talvez a conversa da madrugada o tenha feito bem, o feito ver que, mesmo que tenha sido por uma curta fase da vida, Sasuke chegou perto de ser feliz;
Que foi amado;
Que teve uma segunda família;
E, mais importante, que não estava sozinho como ele imaginava.
Só que eles não estavam em Konoha e jamais poderiam voltar para lá, tanto um quanto o outro. E não estavam sob um dia normal, menos ainda em paz, aliás, estavam muito longe de alcançar esse estado.
E isso a deixava péssima. Péssima por ter que ser a que vai trazê-los à realidade cruel e injusta.
— Temos que conversar.
E aquilo foi só um aviso de que a coisa era séria.
Na primeira tentativa de retornar, sentiu no limite de seu mapeamento movimentações Ninja e foi até lá para conferir do que se tratava e não foi nenhuma surpresa quando encontrou um esquadrão de Iwa trocando informações entre si, dando a ela o privilégio de ter acesso:
A primeira informação era que Han – nome, que Itachi descobriu com o cara que deixou em suas mãos, pertencente ao Jinchūriki – convocou todos os quarenta pelotões espalhados pela fronteira para uma reunião dali doze noites no ponto C;
Por ponto C, deduziu que era um ponto de encontro pré-definido e por isso deixou um Kage Bunshin especial – de origem de uma técnica própria onde era preenchido não só de Chakra, como também de energia vital, propositalmente para que tivesse uma duração e independência maior – seguindo um daqueles Ninjas para descobrir posteriormente. E estranhou ter sido o Jinchūriki a fazer aquela convocação, já que não era mais um Shinobi ativo e só estava responsável por treinamento.
Alguma coisa muito errada estava acontecendo.
A segunda informação era que um tal de Hidetaka estava em movimentação para com seus homens para a mesma data;
Não seria uma informação de grande valia se não fosse pelo fato de o homem ter dito: "com seus homens" e coincidisse ser no mesmo evento.
Somente um tolo não veria de que se tratava de um líder e sua tropa indo para lá com a intenção de travar uma batalha.
E a terceira e última informação – e a mais grave também – envolvia "Kazekage", "acordo" e "emboscada" numa mesma frase.
O que se poderia concluir daquilo?
— O Kazekage está em perigo. — Itachi deu voz à sua conclusão em tom sério e denso, totalmente oposto ao de mais cedo.
O cérebro dela estava fritando, tirando conclusões cada vez piores.
Precisavam avisar Tsunade, para que ela pudesse alertar o Kazekage de que era uma emboscada a tal chamada para um acordo.
Depois de contar todos os detalhes para Itachi, invocou Katsuyu, mas além de receber a notícia de que ela não conseguiu fazer a entrega do último pergaminho, ainda descobriu que Tsunade estava inacessível para recebê-la.
Por que Tsunade não queria receber Katsuyu?
O que estava acontecendo?
Eles decidiram voltar para o esconderijo o quanto antes e traçar novos planos investigativos, mesmo que ainda estejam aguardando a autorização da Akatsuki para tal.
A resposta do Pain chegou três dias depois, tempo de viagem de ida e volta do corvo, os autorizando a investigar e agir sob qualquer ameaça imediata. E estranhamente, mesmo depois de seis dias, nove no total, não obtiveram nenhum retorno de Konoha. Nem mesmo Katsuyu conseguiu aproveitar da invocação reversa para entregar a mensagem e isso estava a preocupando consideravelmente, porque nunca ficou tanto tempo sem contato daquele jeito.
No entanto, aquele período não foi de todo improdutivo.
Conseguiram avançar significativamente nas investigações, tanto do Gobi como da conspiração contra Sunagakure, onde conseguiram ainda mais certezas do que era necessária para justificar qualquer ação imediata. E, também, ela avançou em seus treinamentos e calibração de chakra e energia vital no braço esquerdo. Ainda não estava com o controle ideal de sempre, mas já conseguia fluir ambas as energias com mais facilidade e precisão do que antes.
No décimo dia desde a descoberta, Tobi apareceu em seu campo de mapeamento sensorial, há alguns quilômetros dali, fazendo-a congelar.
Estava afiando e banhando suas Kunai em venenos e Itachi estava ao seu lado lendo um pergaminho que conseguiu na infiltração em um dos esquadrões da fronteira de Iwa.
— Tobi está aqui. — avisou, vendo-o assentir, ativar o Sharingan e se levantar, vestindo o manto negro e pegando o pergaminho para se afastar.
Decidiram juntos que era melhor a Akatsuki não saber que a convivência entre eles era melhor, pois traria suspeitas desnecessárias sobre o motivo e até poderia levá-los a pensar em possibilidades que, naquela realidade fictícia, eram impossíveis: como terem se aliado verdadeiramente e que estão conspirando juntos contra a Akatsuki em nome de Konoha.
Pelo mapeamento sensorial, pôde sentir Tobi perdido, pois aparecia e desaparecia em lugares diferentes ali perto.
Suspirou, se preparando mentalmente para vê-lo.
Os dias que passou longe da caverna e em uma convivência pacífica com Itachi a deixaram desacostumada de se manter indiferente, inexpressiva e alheia à qualquer coisa, por isso precisou reunir, com certo esforço, toda aquela postura desdenhosa até o mascarado encontrar o esconderijo deles no meio da mata fechada.
Era um acampamento pequeno, discreto e simples; uma pequena tenda que os protegia de possíveis chuvas e equipamentos, mapas e pergaminhos empilhados num canto qualquer.
— Uwaaah! — Tobi exclamou assim que os alcançou, fazendo-a olhá-lo sem parar de afiar a Kunai — Vocês estavam mesmo escondidos, hein! Puxa vida, foi difícil encontrá-los!
Revirou os olhos e continuou se mostrando desinteressada até mesmo quando Itachi o recepcionou calorosamente com toda a alegria, educação e acolhimento digno de um bom anfitrião:
— O que veio fazer aqui?
Tobi estremeceu teatralmente e ela teve que se esforçar para não rir e quebrar o desinteresse exterior.
— Oh, Pain-sama me pediu para ver como estavam as coisas por aqui.
Estreitou os olhos e desviou o olhar para a Kunai que agora banhava no veneno. Deixaria Itachi lidar com aquele cretino cínico, mentiroso e fofoqueiro.
Os dois conversaram por um tempo, tempo esse que usou para criar mais venenos, antídotos e mais da solução para passar no braço quando o tiver ferido pelo uso do Kinjutsu no Gobi, já que não sabia quando irão capturá-lo, agora que deter o ataque às fronteiras era prioridade.
Quando terminou o que o tinha e também não tinha mais para fazer, suspirou enxugando a testa úmida com o suor do dia abafado e olhou ao redor. Em algum momento os dois saíram, a deixando sozinha.
Pelo mapeamento sentiu Itachi e Tobi há um quilômetro e meio dali e não resistiu ao ímpeto de conferir o que faziam tão longe e há tanto tempo.
Como de praxe, já tinha o chakra suprimido e ocultado totalmente, então só precisou usar do Shunshin no Jutsu – Técnica de Cintilação Corporal – para alcançá-los rapidamente e sem ser notada.
Chegou num momento tenso, onde Itachi encarava Tobi com afinco.
Franziu o cenho quando o mascarado entornou levemente a cabeça para o lado.
— Eu não sei onde quer chegar com essas perguntas, Itachi.
Oh, o tom atípico sério e grave, sem aquela encenação infantil. Será que ele só encenava na presença dela? Ora, tinha escrito "Burra" em sua testa por acaso?!
Não era possível que ele só subestimava ela daquele jeito grotesco!
— Sabe. Sabe sim. — o Uchiha primogênito deu um passo à frente, sem desviar o olhar carmesim enfurecido do único olho exposto do mascarado — Entretanto só tenho um aviso a lhe fazer: ninguém nunca conseguiu me enganar e isso não vai mudar.
O tom sombrio a fez estremecer. Era diferente de todos os tons que Itachi usou consigo e aquilo a surpreendeu na mesma medida que a assustou, mesmo que soubesse que ele jamais o usaria consigo.
Seja lá o que conversavam, era para lá de hostil e tinha a impressão de que envolvia o que ela disse naquela conversa no Genjutsu; suas teorias sobre Tobi e o risco que ele representava.
Deixou o local antes de ouvir a resposta, mais para se prevenir de ser pega no flagra os espionando do que por não estar interessada no que o outro responderia. A última coisa que precisava era passar por aquela possível saia justa.
De qualquer forma, não era como se não soubesse o desfecho daquela conversa: Tobi não era desprovido de inteligência como demonstrava ser e certamente era capaz de se desviar de qualquer situação que o pressionasse. Provavelmente encontrou um jeito de aquietar a fúria do Uchiha.
Do outro Uchiha, se corrigiu mentalmente.
Sasuke achando que Itachi e ele eram os únicos Uchiha vivos e olha só um terceiro integrante daquela família perambulando por aí.
Aliás, será que eram parentes de segundo grau? Ou terceiro?
Soltou um estalo com a língua diante da barbaridade que estava pensando.
Era só o que faltava. Se envolver em assuntos de família e da família mais complicada que existia.
Sentou-se irritada, recostando-se sobre um dos pilares da tenda improvisada e decidiu esvaziar a mente e meditar para aquietar o próprio corpo. Ao menos assim não precisaria interagir com o fingido do Tobi.
Não demorou muito para sentir a aproximação do dito cujo e o afastamento do Itachi.
Suspirou, previamente cansada. Não acreditava que seu parceiro teve a indecência de deixá-la sozinha lidando com aquele homem.
— Haru-chan! — optou por fingir demência. Continuou na mesma posição, como se estivesse tão imersa na meditação que sequer o ouviu — Haru-chan! Oe! Aqui!
Grunhiu irritada, para demonstrar a insatisfação e abriu os olhos, o mirando.
Tobi se sentou exatamente à sua frente, como uma criança prestes a brincar de "adoleta".
— Sentiu minha falta, Haru-chan? Eu senti a sua! — o homem realmente ousou se abraçar e se balançar como um bobo apaixonado.
Torceu os lábios e franziu o cenho.
Por que ele só agia daquele jeito idiota com ela?
— O que acha de irmos caçar para matarmos a saudade?
— Estou meditando.
— Mas você pode meditar quando eu for embora! Por favorzinho, Haru-chan! — implorou manhoso, juntando as palmas das mão num gesto suplicante.
Quis mandá-lo para o inferno, mas se deteve quando pensou melhor: qual era o interesse dele em tirá-la dali?
Se levantou a contragosto, apenas porque queria saber o que estava por trás daquele interesse súbito e o seguiu pela mata até o lago de mais cedo.
Tobi, por estar com "vontade" de comer um ensopado, pescou alguns peixes e ela caçou duas aves para fazer assado.
— Um para você e outro para o Senpai – Veterano –? — ele perguntou.
A pergunta até soaria inocente pelo tom infantil, mas era esperta o bastante para entender onde ele queria chegar.
Tobi, Tobi… achava mesmo que a pegaria com uma armadilha medíocre daquela?
— Se Itachi tiver fome, que se vire. Isso aqui é para mim.
— Oh… a convivência entre vocês ainda parece bem ruim. — ele comentou despretensiosamente enquanto torcia a barra do manto negro que estava molhada e ela começou a andar na direção do acampamento — Por que você o odeia, Haru-chan?
Cessou os passos para criar certo drama. Estava disposta a ensiná-lo como se encenava de verdade.
Olhou-o por cima dos ombros com o cenho franzido.
— Eu tenho mais o que fazer do que odiar alguém, não acha?
Tobi levou trinta e três segundos para respondê-la, ela contou.
— Claro, claro… — parecendo desconcertado, ele começou a segui-la quando ela retomou os passos — falando em ter mais o que fazer, como está a missão de captura do Gobi? — suspirou alto, demonstrando tédio e aborrecimento — Itachi-senpai me contou, mas você sabe como ele é, não é, Haru-chan?
— Por que eu saberia? — respondeu com descaso, vendo-o tropeçar numa pedra e quase ir ao chão, se não fosse por ela segurá-lo pelo braço.
Por quê? Por que ele agia como um idiota daquele nível só com ela?!
— Há, há… obrigado. — revirou os olhos voltando a caminhar, ainda mais ágil, obrigando-o a acelerar os passos também — Itachi-senpai não dá a devida importância para as coisas. Era isso que eu queria dizer. Vocês conviveram por um tempo, já deve ter percebido isso.
Cessou os passos e o encarou, vendo-o parar de andar tropeçando sobre os próprios pés.
E olhando para aquela máscara alaranjada, estranhou o andamento daquela conversa que parecia sem pé nem cabeça.
Por três segundos ficou perdida, mas depois sofreu uma epifania tão forte que quase expressou com uma careta.
Havia duas possibilidades: ou Tobi desconfiava do Itachi ou desconfiava da veracidade da incompatibilidade que Itachi e ela estavam tentando passar.
Ambas eram possibilidades ruins.
E não poderia deixar que aquela desconfiança propagasse ainda mais aquela mente distorcida.
— Preste bem a atenção, porque só vou dizer isso uma única vez: — começou, encarando-o com o semblante mais aborrecido que tinha — Itachi e eu só colaboramos com essa convivência porque Pain nos escalou como dupla, mas é só isso. Eu na minha e ele na dele. — manteve o olhar firme e deixou que a seriedade tornasse-se sombria na continuação do que pretendia dizer em seguida — E no dia que isso fugir dessa delimitação, a Akatsuki terá um problema para lidar. Entendeu?
Pela falta de resposta do mascarado, concluiu que sim, ele entendeu. Apostava que naquele exato momento, ele estava se lembrando das palavras do Pain logo após a luta dela contra o Itachi.
"Levando em conta o que houve mais cedo, sua convivência com Itachi nos trará problemas?"
— Mas, Haru-chan… — até o tom de voz dele estava engasgado, como se fosse difícil proferir alguma coisa com a mente que, com certeza, estava bagunçada diante da hostilidade dela — você disse que não o odiava.
Ergueu uma sobrancelha e sorriu de canto com desdém.
— Eu disse que tinha mais o que fazer do que odiar alguém. É diferente. — esclareceu com sarcasmo — No entanto, se eu me irritar, não há nada que eu vá querer mais do que me livrar dessa irritação.
O silêncio caiu entre eles pesando toneladas. Tinha certeza de que ele entendeu a ameaça implícita, tanto era que estava sem palavras. E demorou muito tempo até que ele articulou uma risada forçada conforme coçava a cabeça.
— Espero que a Haru-chan nunca se irrite comigo.
Sorriu de canto e o encarou por um tempo, só para deixá-lo na expectativa. Depois voltou a andar, mas ousou um pouco mais, advertindo-o:
— Para o seu bem, eu também espero.
Eles voltaram, fizeram a refeição e no meio daquilo Itachi chegou, trazendo consigo outro pergaminho. Tobi continuou atuando como o idiota que queria fazer parecer que era e ela continuou desdenhando da presença dos dois, anunciando, certo tempo depois, que faria a ronda.
E quando estava longe o suficiente, ousou socar uma árvore para descontar a raiva, derrubando-a com facilidade devido à potência de chakra.
Odiava ser subestimada.
E odiava mais ainda ser testada.
E Tobi deliberadamente fazia os dois.
[…]
NOTAS FINAIS:
Olha só o Tobi subestimando a Sakura de novo… quem aí quer ver ele quebrando a cara mais uma vez? Kkkkkkkkkkk
Vou deixar umas perguntinhas para reflexão!
O que acham que aconteceu com a Tsunade para que nem a Katsuyu consiga entrar em contato?
Nos capítulos anteriores já deixei pistas sobre todos os problemas que rondam nossa Hokage e Konoha, pensem nisso!
Outra coisa: Imaginam o motivo do Tobi estar tão preocupado com a interação entre o Itachi e a Sakura? Esse é mesmo o único problema? Ou tem outra coisa por trás dessa aparição dele?
E por último: o que Tobi e Itachi conversaram?
Será que Itachi viu que Tobi é uma ameaça? Será vai mudar de ideia? Vai aceitar a ajuda da Sakura e vai escolher viver?
Veremos tudo isso no Globo repórter! Kkkkkkkkkkk
Brincadeira, de qualquer forma, sei que vocês amaram a conversa lá no começo onde a Sakura contou sobre a fase feliz do Time 7 e do Sasuke para o Itachi, certo?
Me emociono tanto quando penso no quanto tudo poderia ter sido diferente se o Sasuke não tivesse saído da Vila. E vocês? São assim também?
É isso, gente! Terça-feira tem prévia normalmente e na sexta-feira outro capítulo!
Comentem! É muito importante para mim, porque comentários servem como termômetro sobre o que estão achando. Então não deixem de me presentear com a opinião de vocês, ok?
Posso demorar, mas sempre respondo um por um assim que tenho a oportunidade!
Até a próxima!*~
Obs.: Caso queiram ter prévias de capítulo, spoiler e interagir comigo além daqui, me sigam no Twitter por SenpaiNani, Instagram por NaniSenpaiNK e Facebook por Haruno Sah ou Nani Senpai!
