Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Barbara Cartland, que foi publicado na série homônima de romances, da editora Nova Cultural.


Capítulo 7

Contrastando com a cidade iluminada, o campo apresentava-se escuríssimo. Gradualmente, Usagi foi se acostumando às trevas da noite.

A Lua começou a surgir no céu imenso, que se estendia a perder de vista, permitindo-lhe enxergar melhor.

Não podiam cavalgar muito depressa, pois Toshio conduzia dois cavalos, o dele e a montaria para Mamoru.

Usagi sabia que o empregado a achava otimista demais, crendo que o patrão voltaria com eles. Mas, para não ser chamado de covarde mais uma vez, aceitara tomar parte na perigosa tarefa.

Usagi, não obstante, tinha fé de que sabia onde Mamoru se achava escondido.

O sr. Tsukino sempre se interessara pelas missões jesuítas, construídas em meados do século XVII, agora em ruínas.

Ele e a filha visitaram muitas dessas ruínas, enquanto percorriam o território argentino a cavalo.

A mais importante localizava-se na província chamada Misiones; havia muitas outras, e uma delas ficava na vizinhança de Buenos Aires.

Kenji Tsukino explicara à filha que os espanhóis haviam tido muita dificuldade na colonização dos índios, que eram caçadores e não se dedicavam a ofícios domésticos. Ligeiros, corriam pelos pampas como avestruzes e fugiam com facilidade.

Por essa razão os espanhóis construíram casas, verdadeiras fortalezas, onde os aprisionavam como escravos e forçavam-nos a trabalhar.

As missões jesuítas consistiam em pequenas aldeias cercadas por muros altos. Continham, além de mosteiros e conventos, pavilhões onde os índios trabalhavam.

Usagi encantara-se com a beleza dessas ruínas, em especial com a elegância das colunas de pedra esculpidas pelos nativos. A ruína para qual ela se dirigia no momento, e onde acreditava que os guerrilheiros se encontravam, ficava num local isolado, bem distante da estrada principal.

Ela e o pai descobriram-na por acaso, num dos passeios a cavalo. Situava-se no centro de uma sede cheia de espinhos, através da qual seria impossível a um homem ou animal passar.

Porém o sr. Tsukino encontrou um meio de entrar. Anos de pesquisa ensinaram a ele que os índios escravos tinham seus próprios métodos de fugir dos conquistadores. A paixão pela liberdade dos pampas era mais forte que o medo de ser morto ou torturado. E, muitas vezes, os espanhóis consideravam-se vencidos, pois não conseguiam impedir essas fugas.

- Como eles podiam fugir, papai ? - indagara Usagi, em certa ocasião.

- Enquanto esculpiam as colunas, cavavam, às escondidas, túneis que lhes permitiam fugir na hora adequada.

- Devia ser uma fuga perigosa, papai.

- Claro ! Quando descobertos, morriam ou eram submetidos a torturas, mas freqüentemente escapavam. Pode-se ainda ver em algumas ruínas a passagem subterrânea através da qual eles atingiam seus amados pampas.

- Mostre-me esse túnel, papai.

- Temos, antes, de encontrar um - respondera o sr. Tsukino, entusiasmado com o interesse da filha.

Após visitarem mais ou menos oito ruínas, Kenji Tsukino descobriu, enfim, o que procurava, numa ruína bem próxima a Buenos Aires.

Para essa ruína Usagi dirigia-se, crente de que lá se achava Mamoru Chiba, aprisionado no pavilhão destinado aos índios.

As paredes eram grossas e resistentes, lembrava-se ela, e havia no centro um enorme pátio. Sem o túnel, seria impossível a um prisioneiro fugir, a menos que fosse capaz de escalar uma muralha de seis metros de altura e depois atravessar o espinheiro.

"É lá que se encontra Mamoru", pensou Usagi. Esperava apenas que não tivesse sido torturado.

Embora achando que traía seu pai por salvar Mamoru, Usagi não conseguia deixar de amá-lo.

"Como pude ser tão boba em não imaginar que, estando sozinha por tanto tempo com o homem mais atraente da Argentina, me apaixonaria por ele ? Seria inevitável ! E haverá no mundo coisa mais sem esperança que amar um homem que já teve todas as mulheres do país aos seus pés ?"

Usagi achava que, para Mamoru, ela não era mais que uma empregada de categoria; e reconhecia seu lugar.

Em muitos aspectos os argentinos conservavam o protocolo social rígido, herdado de seus antepassados espanhóis. Um espanhol jamais se rebaixaria casando-se com alguém de uma camada inferior da sociedade; e as grandes famílias argentinas contraíam matrimônio entre si, e eram mais orgulhosas de suas raízes ancestrais do que qualquer aristocrata inglês.

Cavalgando dentro da noite, ela se perguntava:

"Por que essa minha idéia, agora, de me casar com Mamoru ? Seria inconcebível. Já analisei a situação antes, e ri muito".

Acima de tudo, sua condição era de proscrita, pária, filha de um diplomata acusado de traição ao país. Por esse motivo jamais poderia ser a esposa de um homem decente.

"Mas eu o amo ! Eu o amo !", seu coração dizia.

Usagi esporeou o cavalo. Ela e Toshio haviam cavalgado por quase uma hora quando pararam.

"E se eu não me lembrar do caminho ? Se não achar o que procuro ?", questionava-se.

Então, um pouco adiante, enxergou o que queria: uma sombra negra formada por arbustos, junto de uma enorme pedra redonda que parecia ter sido posta lá por uma mão gigante. Era um lugar perfeito para deixar os cavalos. Ela deu as rédeas de sua montaria a Toshio, que já havia desmontado.

- Fique aqui - sussurrou - E não faça barulho.

Com um movimento de cabeça, o empregado demonstrou que entendera a ordem.

Usagi desceu um pequeno declive. A missão fora construída numa colina não muito alta, porém bem acima das terras circunvizinhas. Aos pés dessa colina ela procurou o que seu pai descobrira três anos atrás: a entrada do túnel. O orifício estava coberto por pedras, tufos de grama e uma vegetação espessa própria da época do ano.

Afastou as pedras, uma a uma, com cuidado para não fazer barulho, até deparar com um buraco escuro, suficiente para um homem nele entrar de gatinhas. Ela trouxera consigo uma lanterna pequena, como aquelas que os pastores carregavam à noite, contendo apenas um toco de vela com um vidro grosso ao redor.

Ela entrou no túnel protegendo a lanterna com a mão. Depois de percorrer dois ou três metros, sentou-se no chão e acendeu a vela.

De acordo com o que se lembrava, o teto do túnel era mais alto naquele lugar, e permitia que um homem de estatura média caminhasse com a cabeça inclinada.

Ela imaginava como fora difícil aos índios abrir caminhos na terra dura, sem ferramentas adequadas. E surpreendia-se pelo fato de o túnel ter se conservado quase intacto por três séculos.

Com a lanterna acesa, Usagi movia-se vagarosamente através do subterrâneo, e suas costas começaram a doer na subida. Um outro orifício similar ao da entrada apareceu logo depois.

Ela inspecionou o local cautelosamente e encontrou a alavanca que o pai lhe mostrara e que movia uma grande pedra colocada na base da parede que cercava o pátio da missão.

A obra fora tão bem-feita que, do lado de dentro, não se podia ver nada. Apenas a persistência de Kenji resultara na descoberta de tudo aquilo. A alavanca estivera enferrujada, mas ele a limpara e lubrificara, até que se movesse com facilidade.

Usagi rezava para que não tivesse enferrujado novamente; e duvidara poder manejá-la apenas com uma das mãos. Por isso colocou a lanterna no chão; com ambas as mãos, forçou a alavanca que cedeu logo, e a grande pedra tombou para o lado. Usagi apagou a vela, e só restava saber se Mamoru Chiba achava-se mesmo escondido naquele lugar.

Ela ouviu vozes de homens que conversavam, risadas e o som de um violão.

Nada poderia ser melhor ! Se houvesse feito algum barulho, a música o teria abafado.

Com grande esforço, ela empurrou um pouco mais a grande pedra e foi possível ver as luzes e sentir o cheiro da fumaça de uma fogueira e do tabaco. À direita havia vários guerrilheiros sentados ao redor do fogo. As chamas iluminavam rostos rudes e de barba crescida. Alguns dos homens bebiam do gargalo da garrafa, outros comiam.

Olhando para uma direção, Usagi estremeceu ao ver Mamoru. Ele estava sentado junto à parede bem oposta a ela. Com as pernas esticadas, botas de cano alto, continuava muito elegante e incrivelmente calmo. Dava a impressão de estar ligado ao movimento reinante em torno da fogueira.

Um guarda armado achava-se a uma pequena distância de Mamoru, e tinha as costas voltadas para o orifício.

Usagi empurrou um pouco mais a pedra para passar sua cabeça e ombros. Encarava Mamoru, tentando atrair-lhe a atenção. Sussurrava:

- Eu amo você ! Eu amo você !

Subitamente, Mamoru saiu de seu alheamento e levantou a cabeça, olhando na direção dela. Usagi acenou com a mão e moveu-se para o lado, a fim de que a abertura ficasse exposta e ele entendesse o que havia sido planejado.

Esse foi o momento mais perigoso. Ele levantou-se bem devagar, bocejou e espreguiçou-se. Agia com extrema prudência, Usagi percebeu, para não alertar os guerrilheiros.

Nesse instante, o guarda fitou-o.

- Que chão duro ! - observou Mamoru, de maus modos.

- O que esperava, senhor ? - replicou o guarda, rindo muito - Um colchão de plumas ?

- Até que não seria nada mau !

- Talvez eu compre um para o senhor com os pesos que devem chegar amanhã - o guarda falava com sarcasmo.

- Vou insistir no cumprimento de sua promessa - disse Mamoru, andando até o muro do túnel.

Encostou-se próximo ao orifício e, devagar, sentou-se no chão, fazendo bastante barulho com as botas.

A música aumentava de intensidade, e o homem que tocava violão começou a cantar. Os outros fizeram coro.

O guarda apanhou uma garrafa de bebida e levou-a aos lábios.

Foi então que Mamoru, com incrível agilidade, com a flexibilidade de uma serpente, escorregou para dentro do buraco. Usagi ajudou-o e, assim que todo o corpo dele passou, a alavanca foi puxada e a pedra voltou ao seu lugar.

Havia apenas trevas dentro do túnel, e o som da respiração de ambos.

Usagi acendeu a vela e fitou Mamoru, sentado ao seu lado. Ele estava bem-disposto, bonito como sempre, e tinha no olhar uma expressão que a deixou embaraçada.

Sem dar uma palavra, ela tomou a dianteira na direção da saída do túnel.

Andava devagar, ciente de que a caminhada seria difícil para Mamoru, homem de estatura alta e ombros largos. A passagem fora feita para índios, pessoas de porte bem menor.

O mais importante, contudo, era agir com rapidez. Quando os guerrilheiros descobrissem que o prisioneiro desaparecera, iniciariam a busca nas redondezas.

Acreditariam, embora sendo quase impossível, que ele houvesse escalado o alto muro, passado pela cerca de espinhos e atingido o campo aberto.

Felizmente Usagi encontrou com mais facilidade na volta o caminho que na ida. Em alguns minutos chegaram na entrada do túnel. Lá fora, soprava um vento refrescante. Usagi apagou a vela e quis passar primeiro, porém Mamoru segurou-a pelos ombros e saiu antes dela. Então abraçou-a e beijou-a longamente.

Usagi foi tomada de surpresa. Tentou reagir; porém teve uma reação tão maravilhosa, um êxtase tão incrível, que resolveu ceder. Era como se uma nova vida se iniciasse, provocada por aquele arrebatamento amoroso ! Mamoru segurava-a cada vez mais perto, tornando-a uma parte de si mesmo; e ambos parte integrante da noite e das estrelas !

E só quando o solo pareceu ter sumido de seus pés, o mundo desapareceu, e ela não podia pensar em outra coisa além de seu amor, Mamoru soltou-a.

Tomando-lhe a mão, levou-a para o lugar onde se encontrava os cavalos.

Ainda atônita, ela movia-se como uma sonâmbula. Jamais supusera que um beijo pudesse ser tão incrivelmente, tão miraculosamente maravilhoso !

Chegaram, de mãos dadas, junto aos cavalos. Toshio murmurou, mal podendo acreditar no que via:

- Sr. Chiba !

- Psiu ! - repreendeu-o Mamoru, enquanto carregava Usagi, pondo-a na sela.

Os dois homens montaram também e, no espaço de alguns segundos, galopavam numa velocidade incrível, sabendo do risco que ainda corriam.

Os três esperavam a cada minuto ouvir tiros e o ruído de patas de cavalos. Os guerrilheiros, ao descobrirem a fuga, certamente iriam persegui-los.

Após cavalgarem dois quilômetros, Mamoru e Usagi olharam para trás. Mas era difícil ver se alguém os seguia; as sombras da noite e o capim agitando-se ao vento enganavam a vista. Eles prosseguiram então num galope violento, que não permitia nenhum tipo de conversa entre os dois.

Usagi teve um prazer imenso ao ver as luzes de Buenos Aires. Significavam segurança; Mamoru não estava mais em perigo ! Ela não podia nem pensar que Mamoru fora ameaçado de morte ou mutilação pelos homens que vira sentados ao redor da fogueira. Ela nunca tivera certeza de que, recebido o dinheiro, os raptores devolvessem Mamoru com vida. Não existia honra nem honestidade para esse tipo de gente. Os criminosos não arriscariam suas próprias vidas soltando o homem capturado.

Enfim, os três cavaleiros pararam à porta da mansão da Plaza San Martín.

O sr. Kou, cercado pelos empregados da casa, foi ao encontro deles. Os empregados já deviam ter adivinhado alguma coisa ao ver que Usagi sumira e que Toshio tirara três cavalos das estrebarias. Mas não houve tempo para averiguações, pois os criados aclamavam o patrão que chegara, com enorme algazarra.

Como em geral acontecia com os argentinos, quando excitados, todos falavam ao mesmo tempo e faziam mil perguntas. Naquele instante, portanto, Mamoru Chiba não era mais o patrão, porém um homem igual a eles que fora miraculosamente salvo do perigo.

Mamoru sorria enquanto ajudava Usagi a apear. Os dois entraram no imenso hall.

- O que houve, sr. Chiba ? Como conseguiu fugir ? - indagou o sr. Kou várias vezes - Estava com o dinheiro pronto para levar amanhã. Não posso acreditar que o senhor já tenha chegado ! Como escapou ?

- Devo tudo a miss Hasegawa - Mamoru simplesmente replicou. Percebeu então que Usagi desaparecera.

Ela já estava em seu quarto. Não queria dar explicações, não queria revelar a Mamoru que conhecia o segredo do túnel.

Vinha pensando, na volta a Buenos Aires, em como iria ser difícil explicar-lhe a razão de estar a par da existência dessas ruínas.

O que dizer ? Que história inventar ? Além disso, ele acreditaria numa história inventada ?

Usagi trancou-se no quarto. Mas, dessa vez, não fugia de Mamoru e sim de si mesma.

Olhou para o traje de montaria que vestia, cheio de terra. Seus cabelos estavam em desordem devido à corrida desenfreada pelos campos. Mas seus olhos brilhavam e os lábios vermelhos, suaves e convidativos entreabriam-se num esboço de sorriso.

"Ele me beijou !", pensava.

O amor explodia como uma chama ardente dentro dela.

Usagi nunca imaginara ser possível experimentar aquelas emoções; sentira-se levada às nuvens, a ponto de esquecer-se de tudo, exceto dos lábios de Mamoru nos seus.

Convencia-se de que precisava partir. Não era mais admissível continuar na casa dele, desejando que a beijasse de novo.

Não podia permanecer lá, vendo-o afastar-se com horror, e talvez com desprezo, ao constatar que tinha diante de si a filha de Kenji Tsukino !

"Preciso fugir, e depressa !"

Retirando as malas do guarda-roupa, começou a arrumá-las. Mal havia iniciando sua tarefa quando alguém bateu à porta.

- Quem é ? - indagou.

- Sou eu, senhorita, Minako. Trouxe-lhe alguma coisa para comer e beber, por ordem do patrão.

- Estou cansada demais para comer, Minako. Agora só preciso dormir.

- Nesse caso vou dizer ao sr. Chiba que não quer ser incomodada.

- Diga-lhe que já me deitei, Minako, por favor.

- Pois não, senhorita.

Usagi ouviu o ruído dos passos de Minako desaparecendo no corredor e continuou a fazer as malas.


Eram três horas da madrugada. Poderia descansar por uma hora e depois ir ao cais. Sabia que os navios geralmente zarpavam às sete horas. Imaginou então que, se chegasse no porto antes das seis, conseguiria com facilidade uma cabine.

Por sorte, tinha consigo a passagem de volta, e o dinheiro que a mãe insistira que trouxesse. Estava intacto.

Usagi tentou dormir, mas sem sucesso. Estava muito agitada. Qualquer coisa dentro dela lhe dizia que não deixasse Mamoru, e ela repetia consigo mesma:

"Quero ficar… quero ficar…"

Todavia, seu cérebro insistia na fuga, e imediata.

Mamoru não saberia de nada até a hora de descer para o café, na manhã seguinte.

Ela ficou pronta antes das cinco horas. Os primeiros raios de Sol riscavam o céu, e o movimento nas ruas começava.

Tocou a sineta. Minako atendeu-a, sonolenta.

- Chamou, senhorita ?

- Chamei, Minako. Tenho de voltar para a Inglaterra agora mesmo. Minha mãe está muito doente e precisa de mim.

- Sinto muito, senhorita. Mas o que dirá o patrão ?

- Ele vai entender, e espero que você me ajude, Minako. Não quero criar confusão nesta casa. Necessito apenas de alguns empregados para carregar minhas malas lá para baixo.

- Vou também avisar nosso cocheiro, senhorita.

- Não… não ! Uma carruagem de aluguel pode me conduzir ao porto. Quanto menos gente for incomodada, tanto melhor.

Minako fitou-a espantada, mas não disse nada. Foi providenciar os criados para o transporte da bagagem e, bem depressa, encontrou uma carruagem de aluguel.

- O sr. Chiba não precisa ser informado de minha partida até de manhã, quando descer. Ouviu bem, Minako ? Eu detesto despedidas.

- Entendi, senhorita. Sinto muito por sua mãe !

- Agora, por favor, Minako, faça o que lhe pedi.

Usagi, ao entrar na carruagem, deu uma de suas preciosas moedas de ouro à empregada e partiu para o cais.

"Adeus, Buenos Aires; adeus, Palácio de San Martín; adeus, Mamoru", dizia ela mentalmente.

Não parava de sentir a pressão dos lábios dele nos seus. Fora um beijo apaixonado, ávido, e Usagi se perguntava se Mamoru havia sido possuído pelo mesmo êxtase que esse beijo causara nela.

Em seguida, considerou-se ridícula. Ele já beijara muitas mulheres. Mulheres sedutoras, lindas, e o beijo que lhe dera fora de gratidão, apenas ! Um beijo automático, a resposta que se esperava de um homem resgatado da prisão e possivelmente da morte.

Ele com certeza não sabia como agradecer, e achou o beijo o meio mais fácil. Usagi estava segura de que Mamoru já se esquecera de tudo.

Ela, porém, jamais se esqueceria !…

Procurou não pensar na sua vida futura, mas não ignorava que nunca mais sentiria aquele fantástico arrebatamento que a tornara parte do céu e das estrelas.

A carruagem parou no cais. Vários navios preparavam-se para a partida.

Ela aproximou-se do guichê e um funcionário que acabava de acordar informou-a:

- O navio Hibiscus vai zarpar às sete horas. Mas a senhorita só poderá subir a bordo meia hora antes.

- Obrigada, senhor.

Um carregador amável cuidou de suas malas.

Minutos depois, os passageiros foram notificados de que haveria um pequeno atraso na partida. Eles só poderiam embarcar às sete horas.

Usagi olhou o relógio e sorriu para o carregador.

- Não tenho outro remédio senão esperar - disse ela, sentando-se na beirada de uma das malas.

Às sete e meia, após uma discussão com um marinheiro do Hibiscus, o carregador informou a Usagi que haveria um atraso ainda maior.

- Oh, não ! - exclamou ela, nervosa com a demora.

- Sinto muito, senhorita, mas há problemas nas máquinas - ela ficou desesperada. Queria partir o mais depressa possível, sair de Buenos Aires antes que Mamoru descesse para o café da manhã. Olhou de novo o relógio.

- Não adianta, senhorita - comentou o carregador - Olhar as horas não faz o tempo passar mais depressa.

- Preciso ter paciência - replicou ela, sorrindo para o homem.

Nesse momento, pensou em Giovanna, a antiga empregada da casa. Era incrível ter ela estado em Buenos Aires sem visitar Giovanna. Então, teve uma idéia e pediu ao carregador:

- O senhor pode cuidar de minha bagagem ? Vou visitar uma amiga que mora aqui perto. Não levarei mais de meia hora.

O carregador aceitou de bom grado a incumbência e chamou uma carruagem que tinha acabado de encostar no cais, trazendo passageiros.

Usagi tomou-a e deu o nome da rua ao cocheiro.

- Qual é o número da casa, senhorita ? - perguntou ele.

- Dezoito.

A casa de Giovanna era pequena e ficava numa rua modesta, a dez minutos do cais.

Usagi receou que fosse cedo demais para visitá-la. Porém, assim que bateu na porta, Giovanna abriu-a. Usava um gorro cobrindo os cabelos grisalhos, do qual Usagi lembrava-se muito bem.

A antiga empregada deu um grito de alegria:

- Mia bambina ! É realmente você ? Não pode ser verdade ! - Usagi abraçou-a e beijou-a.

- Sou eu, Giovanna. Sabia que iria surpreendê-la.

- Estou encantada ! Que dia feliz para mim, este. Oh, mia bambina ! Tenho pensado tanto em você ! Como vai você ? Como vai sua mãe ?

- Está um pouco doente, Giovanna, mas vai melhorar.

Giovanna conduziu-a a uma pequena sala e arrumou a mesa. Apressou-se em preparar um café, falando o tempo todo com lágrimas correndo-lhe pelas faces.

- Achei que nunca mais poria os olhos em você, bambina. Quando partiram daqui, sua pobre mãe, seu pai…

Giovanna enxugou as lágrimas antes de continuar:

- Penso em seu pai, e em tudo que se falou sobre ele, cada dia; e rezo por vocês, de joelhos, todas as noites.

- Sabe que papai morreu ?

- Li nos jornais. Que a mãe de Jesus o tenha ! Era um homem maravilhoso, nunca me esquecerei dele.

- Eu também nunca me esquecerei.

- Vai ficar muito tempo aqui, bambina ?

- Estou de partida - replicou Usagi - Fiquei em Buenos Aires só por alguns dias, e tenho de voltar para a Inglaterra.

Usagi achou melhor não entrar em detalhes sobre a razão de sua ida a Buenos Aires.

- Vai embora ? Oh, minha querida, que pena ! Mas posso agradecer a Deus por eu ter tido a ventura de ver minha bambina por ao menos um minuto. Você está linda ! Também, sempre foi igualzinha a um anjo do céu.

- É como você me chamava, Giovanna, quando eu era pequena. Agora estou mais velha, e não é mais possível comparar-me a um anjo do céu.

- Compreendo… você odeia os homens que foram cruéis para com seu querido pai. Eu os odeio também. Mesmo depois de confessar ao padre que tenho ódio no coração, continuo a odiá-los.

Para desviar o assunto que a deixara emocionada, Usagi decidiu falar sobre a doença da mãe. Contou que a sra. Tsukino encontrava-se na Suíça, doente, mas com grande esperança de recuperação.

Assim que terminou de tomar café, Usagi disse:

- Preciso ir, Giovanna. Foi bom ter estado com você. Vou dizer a mamãe que a visitei e que você goza de ótima saúde.

- Diga a sua mãe que penso nela o tempo todo, e que rezo por vocês de manhã e à noite ! Estou velha, mia bambina, e só me restam recordações do passado ! Recordações de você, de sua mãe e de seu pai !

Giovanna emocionou-se. Usagi sabia como a boa italiana adorava o sr. Tsukino, seu patrão.

- Ele era o homem mais maravilhoso do mundo - repetiu Giovanna - Olhe, ainda tenho tudo o que seu pai me deu.

De uma gaveta ela tirou um pacote com cartões de Natal que os Tsukino lhe tinham dado com presentes, ano após ano. Havia também desenhos que Usagi fizera, pequenos esboços muito interessantes.

Em dado momento, Giovanna falou, com a voz embargada:

- Este foi o último presente de seu pai.

Do fundo da gaveta ela retirou um pacote com uma figura de porcelana. Usagi lembrava-se muito dessa peça. Eram duas estatuetas e, limpando o escritório do sr. Tsukino, Giovanna quebrara uma delas. A pobre empregada caíra em pranto.

- Senhor… senhor… perdoe-me ! - suplicara ela.

- Não se preocupe, Giovanna - respondera Kenji - Para dizer a verdade, eu não gostava muito desses bibelôs.

- Vou comprar outro para o senhor. Posso economizar meu salário…

- Não faça nada disso. Fique com o que sobrou. Assim nem eu nem você nos lembraremos deste acidente.

- E eu sempre guardei o bibelô na gaveta, com medo que quebrasse - explicou Giovanna a Usagi - É meu maior tesouro, porque veio de seu pai.

- Ele se alegraria se pudesse saber que isso lhe dá tanta satisfação.

Giovanna começou a embrulhar a estatueta. Usagi deu um grito:

- Que papel é esse, Giovanna ?

- Estava no chão do escritório - disse a empregada - Quando seu pai me deu a estatueta, procurei qualquer coisa com que embrulhá-la, e encontrei este papel ao lado do cesto do lixo; não dentro, mas bem perto. Achei que não prestava. Fiz mal em usá-lo, bambina ?

-Não, Giovanna, mas pode me dar o papel de volta ?

- Claro que posso, querida. É seu. Sabe, peguei-o só porque estava no chão.

"Estava no chão", pensou Usagi. Talvez por algum descuido e, em conseqüência disso, estourou o maior escândalo na história da diplomacia britânica na Argentina.

Giovanna embrulhava o presente com o mapa do porto de Buenos Aires, com todas as posições de defesa. Kenji Tsukino fora acusado de ter fornecido o tal mapa aos americanos. E esse incidente arruinara a carreira e causara a morte de um homem inocente.

Usagi pegou o mapa e alisou-o. Pensou que fosse desmaiar de tanta emoção.

- Preciso ir, Giovanna.

- Vai para o porto, bambina ?

- Não. Primeiro irei à Legação Britânica. Mas muito obrigada, Giovanna, você acaba de me dar o melhor presente de minha vida.

Giovanna não entendeu o que Usagi quis dizer com aquelas palavras, mas conduziu-a até a carruagem de aluguel que aguardava à porta.

Usagi foi direto à Legação. Passando por um terreno baldio, jogou fora os horríveis óculos escuros. Fora um gesto simbólico !

Enquanto subia os familiares degraus da escadaria da Legação, sentia-se mais alta, pois conservava a cabeça erguida, tão orgulhosa estava.

- Quero falar com o Ministro Britânico imediatamente - disse ela ao porteiro.

- Sinto muito, mas é impossível, senhorita, a menos que tenha hora marcada.

- Ele vai me receber - insistiu Usagi - Quer, por favor, dizer-me o nome dele ?

- O nome de Sua Excelência é sir Kazuo Adachi. Mas ele não vai recebê-la, senhorita.

- Sir Kazuo ! - repetiu Usagi, surpreendida - Então informe a sir Kazuo que Usagi Tsukino deseja falar-lhe.

Ela expressou-se com tanta autoridade que o homem, após indicar-lhe onde ficava a sala de espera, dirigiu-se ao escritório de sir Kazuo Adachi, que fora um dos velhos amigos do sr. Tsukino. Usagi o conhecera desde menina, em Buenos Aires. Convivera com ele mais tarde na Embaixada Britânica, em Madrid, e de novo em Buenos Aires. Era bem mais velho que Kenji, porém os dois homens possuíam muitos interesses em comum.

Usagi chamava-o de "tio Kazuo" e considerava-o um membro da família. Portanto, não estranhou quando, alguns minutos depois, o porteiro voltou dizendo-lhe que sir Kazuo iria recebê-la.

Assim que Usagi o viu, correu para os braços dele.

- Usagi ! - exclamou sir Kazuo - O que faz aqui ? Achei que o empregado se enganara ao me dar seu nome.

- Oh, tio Kazuo ! Se pudesse saber como estou radiante ! Olhe o que eu trouxe !

Usagi entregou-lhe o mapa. Sir Kazuo arregalou os olhos, atônito.

- Onde encontrou isso ? Como chegou a suas mãos ?

- Por intermédio de Giovanna, nossa velha criada. Oh, tio Kazuo, parece impossível, mas Giovanna esteve com o mapa o tempo todo. Lembra-se dela, não ?

- Claro que me lembro de Giovanna.

- Ela usou o mapa para embrulhar uma estatueta de porcelana que papai lhe dera. Encontrou o mapa junto ao cesto de lixo, com certeza levado pelo vento.

- É incrível ! Mas diga-me, Usagi, como vai você ? E sua mãe ? Por onde andaram ? Procuramos tanto pelas duas… sumiram do mundo !

- Ficamos tão humilhadas e aborrecidas com o que houve com papai…

- Posso entender - replicou sir Kazuo - Minha querida, o Ministério do Exterior dará uma satisfação ao corpo diplomático sobre o assunto, e nosso erro estará reparado. Mas há uma coisa que você precisa saber. Lembra-se de Tetsuo Inamoto, não? Pois bem; ele sofreu um acidente no ano passado e, antes de morrer, confessou que inventara a história da traição de seu pai, por vingança, pois considerara-se insultado por ele.

- Imaginei que fosse isso ! - ela murmurou.

- A única coisa que nos faltava era o mapa - prosseguiu sir Kazuo - E, agora, o Ministério do Exterior vai apagar qualquer estigma que possa estar ligado ao nome de seu pai. E, é evidente, sua mãe receberá uma pensão.

- Isso não trará papai… de volta - gaguejou Usagi, com os olhos rasos d'água.

- Eu sei, minha querida, mas pelo menos tornará a vida de vocês mais fácil. Onde está sua mãe ?

- Na Suíça. Ela não se encontra bem de saúde, tio Kazuo. Mas, se alguma coisa pode fazê-la recuperar-se mais rapidamente, será essa boa notícia ! Ela sofre tanto por causa de papai !

- Na Suíça ?! - repetiu sir Kazuo - Acontece, Usagi, que eu vou a Genebra na próxima semana. Quero ver sua mãe. Eu mesmo explicarei tudo a ela.

- Será maravilhoso ! Sabe como mamãe gosta do senhor, tio Kazuo.

- E eu dela… sempre gostei de sua mãe, mais do que de qualquer outra mulher do mundo. Na verdade, sempre a amei…

- Por isso nunca se casou, tio Kazuo ?

Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, e Usagi beijou-o, dizendo:

- Querido tio Kazuo ! Talvez agora, após todo esse tempo, o senhor e mamãe possam encontrar a felicidade juntos. Ela tem estado tão sozinha… tão terrivelmente só, depois da morte de papai…

Sir Kazuo comoveu-se com a confissão de Manuela, e abraçou-a com carinho.

O som de vozes no corredor interrompeu o diálogo dos dois. A porta se abria e sir Kazuo exclamou:

- Mamoru ! Você não podia ter chegado em melhor hora ! Tenho boas notícias, muito boas ! Ficará contente ao saber. Você lutou tanto para provar a inocência de Kenji Tsukino, e agora o último elo da cadeia se entrosa. O mapa foi descoberto !

Sir Kazuo ergueu o papel e acrescentou, com ar triunfante:

- Eis o mapa que procuramos tão arduamente.

- Onde estava ele ? - interrogou Mamoru Chiba, os olhos fixos em Usagi.

- Usagi encontrou-o na casa de Giovanna, uma antiga empregada de Kenji - sir Kazuo ia entrar em detalhes quando se lembrou de que não apresentara Usagi a Mamoru. Desculpou-se, então: - Esqueci-me de que não se conhecem. Usagi, este é Mamoru Chiba, um grande amigo de seu pai, que sempre acreditou ter sido ele injustamente acusado e perseguido. Mamoru, esta é Usagi Tsukino, filha de Kenji Tsukino.

- Já nos conhecemos - respondeu Mamoru, secamente.

- O que vou fazer agora - disse sir Kazuo a Usagi - é enviar um telegrama ao Ministério do Exterior informando que o mapa foi encontrado. Nada nos impede mais de fazer uma declaração exonerando seu pai das mentiras que circularam sobre ele. Sei que as autoridades providenciarão isso logo, porque já falei com o secretário do Ministério por ocasião de minha última viagem a Londres.

- Também falei com ele - declarou Mamoru - Além disso, contratei um detetive na Inglaterra para descobrir o paradeiro da sra. Tsukino e da filha.

- Por que fez isso ? - ela perguntou.

- Porque eu acreditava na inocência de seu pai, com ou sem provas.

- Porém nunca lhe respondeu à carta que papai lhe escreveu, pedindo ajuda.

- Eu estava no Uruguai, e só encontrei a carta ao voltar. O navio que conduzia vocês à Inglaterra já havia partido.

Usagi suspirou. Era uma explicação razoável, mas tanto ela como a mãe não haviam pensado nisso. Apenas admitiram que Mamoru se voltara contra Kenji, como os demais homens que se diziam seus amigos.

- E agora, Usagi, você vai me dizer o que faz em Buenos Aires e onde está hospedada - pediu-lhe sir Kazuo.

- Ela está hospedada na minha casa - replicou Mamoru, antes que Usagi se manifestasse.


P. S.: E, a seguir, o último capítulo.