Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Barbara Cartland, que foi publicado na série homônima de romances, da editora Nova Cultural.


Capítulo 8

À porta da Legação Britânica achava-se uma carruagem, puxada por quatro cavalos. Era um cabriolé da última moda, que Usagi ainda não tinha visto em Buenos Aires, porém muito usado em Londres como o meio mais rápido e confortável de transporte.

A carruagem, de corpo muito leve e rodas grandes, movia-se com grande velocidade, e ao mesmo tempo quase sem sacolejar, em estradas acidentadas.

Usagi surpreendeu-se ao constatar que Mamoru iria, ele próprio, conduzir o veículo no centro de Buenos Aires.

Ele ajudou-a a subir no cabriolé, e o cavalariço, que segurava as rédeas, pulou para o banco traseiro.

A presença do rapaz significava que tudo que eles dissessem seria ouvido. De uma certa maneira, Usagi alegrou-se com a presença do criado. Havia muitas explicações a serem dadas, Mamoru Chiba lhe faria mil perguntas; e naquele momento, ela estava tão radiante com o desenrolar dos acontecimentos que seria impossível pensar em outra coisa.

Não haveria mais necessidade de subterfúgios, disfarces, e poderia voltar a ser ela mesma, e ter orgulho de si.

Mamoru conduzia o veículo em marcha moderada pelas ruas de tráfico intenso, mas com uma habilidade invejável.

Usagi notou que não tomavam a direção da Plaza San Martín, mas enveredavam por uma longa via que os levaria para fora da cidade.

Fitou Mamoru com o intuito de lhe fazer perguntas, mas ele tinha uma expressão tão séria que receou falar. Estaria ele bravo ? Mas, pensando bem, que diferença faria isso agora ? Conversariam de igual para igual, e ela não precisaria mais submeter-se aos caprichos do chefe.

Todavia… amava-o. Enquanto, no passado, unira-se a ele com laços de empregada e empregador, os laços que a prendiam agora eram outros. Sentia-se fraca, vulnerável e indefesa só por estar ao lado dele. Fora de Buenos Aires, Usagi não resistiu e perguntou:

- Para onde vamos ?

- À estância.

Minutos depois, apareceram quatro cavaleiros. Ela assustou-se, mas percebeu logo que usavam o traje de montaria dos empregados de Mamoru, com muita prata nos arreios e na sela. Cada homem carregava no cinto uma pistola e uma faca.

- Não quero arriscar mais nossas vidas. Como pode ver, Usagi, nós estamos bem protegidos.

- Que bom - murmurou ela, sorrindo para ele.

- De qualquer modo, os homens que me seqüestraram não causarão mais problemas. Foram presos pela polícia militar e passarão muitos anos na cadeia por seus crimes.

- Que tipo de crimes ?

- Três deles eram assassinos… além de seqüestradores - Usagi sentiu um aperto no coração, ao pensar que Mamoru poderia ter sido assassinado.

Ele sorriu, adivinhando o pensamento dela, e continuou:

- Devo minha vida a você, Usagi. No futuro, não vou mais arriscar nada em relação à minha segurança… e à sua - após uma pausa ele disse: - No caso de estar preocupada com suas malas, já seguiram na frente.

- Encontrou-as no cais ?

- Sim. O carregador contou-me para onde a dona das malas tinha ido. Ele ouviu o endereço que você deu ao cocheiro. Mandei então que meu cavalariço levasse sua bagagem à fazenda. Depois, sua ex-empregada italiana informou-me de sua ida à Legação Britânica, e também me disse quem era você.

Usagi concluiu que não tinha nada mais a revelar.

Mamoru continuou a viagem em silêncio, concentrando-se nas rédeas, pois a carruagem desenvolvia enorme velocidade. Os cavaleiros da escolta galopavam ao lado.

Uma nuvem de pó erguia-se atrás deles, cobrindo o capim ondulante dos pampas.

Chegaram à fazenda em tempo recorde. A princípio divisou-se apenas uma sombra arroxeada no horizonte, brilhando ao Sol, como uma ilha rodeada de mar azul.

Depois, pouco a pouco, apareceram os álamos centenários, visíveis a uma grande distância. Em seguida, as acácias, os pessegueiros, as cerejeiras e os marmeleiros surgiram com todo o seu esplendor. Algumas árvores estavam em flor, e exibiam uma beleza sem par.

A carruagem entrou numa avenida cheia de curvas, até a casa. Usagi recordou-se de que o pai lhe dissera que a fazenda de Mamoru Chiba era uma das mais lindas da Argentina.

Os jardins que cercavam a casa eram magníficos. Duas torres laterais davam à construção um aspecto medieval e, na frente, haviam pilares entalhados e muitas arcadas.

Mamoru parou à porta do edifício e uma multidão de criados correu para recebê-los.

O hall estava repleto de flores, e o pátio interno era mais lindo que a Plaza San Martín, na opinião de Usagi.

Mamoru tomou-lhe a mão e disse, num tom de voz carregado de carinho:

- Você dormiu muito pouco, ontem. Sugiro que vá para a cama e descanse. Nosso casamento terá lugar às sete horas da noite.

Ela levou tamanho choque que não conseguiu emitir um som sequer. Tinha os olhos muito abertos e o rosto pálido.

Ele beijou sua mão e, instintivamente, ela apertou-lhe os dedos, como uma criança que tinha receio do que a aguardava.

Usagi ouviu uma voz familiar, bem junto dela.

- Venha comigo, senhorita. Eu lhe mostrarei o quarto - era Minako.

Apesar de haver muitas coisas que Usagi desejava perguntar a Mamoru, a presença da empregada a impediu.

Acompanhou-a, então, passando pelo pátio cheio de estátuas e urnas. O chão de mármore branco fazia contraste com o colorido das flores.

O quarto para onde Minako a levou, espaçoso, tinha as venezianas abaixadas para protegê-lo do Sol. Era ainda bastante cedo, porém, naquela região da Argentina, fazia um calor intenso.

- Não terminei de guardar suas coisas - comunicou-lhe Minako - Mas, como o patrão quer que a senhorita durma, acabarei com isso mais tarde.

- Não esperava ver você aqui, Minako.

- O patrão achou que eu cuidaria das roupas da senhorita melhor que uma empregada nova.

Uma criada entrou no quarto trazendo uma bandeja com sanduíches e chá. Usagi comera muito pouco até aquela hora, e estava com fome. Mas foi só quando Minako saiu do quarto que ela pôs-se a pensar com mais coerência.

Mamoru avisou que iam se casar ! Como ele providenciara tudo sem consultá-la ? Que ousadia ! De repente, seu coração falou mais alto: não desejava outra coisa além de estar nos braços dele, de sentir os lábios dele nos seus, como na saída do túnel.

"Eu amo Mamoru ! Contudo, como posso saber se ele me ama de verdade ?"

Mamoru sentira a mesma magia que ela experimentara quando os lábios de ambos se uniram ?

Por um breve momento, o mundo todo tinha parado para Usagi. Não houvera mais perigos, temores, nem dificuldades. Apenas um êxtase indescritível !

Ela refletia sobre a firmeza de Mamoru ao dizer a sir Kazuo: "Usagi está hospedada na minha casa !"

E, quando ele a encontrara no escritório de sir Kazuo, Usagi notou uma expressão no rosto de Mamoru que não era apenas de alívio, mas de outra coisa… que coisa ? Seria amor ? Era difícil acreditar.

Mesmo assim, todo o seu corpo ardia de desejo por ele. E, pensando em seu amor, ela adormeceu.


Teve a impressão de que dormia há poucos minutos quando Minako acordou-a, oito horas mais tarde.

- Tudo está pronto - declarou a empregada - A senhorita com certeza vai usar aquele lindo vestido branco que estava no fundo da mala, não é ?

"O vestido de minha mãe !" lembrou-se Usagi. "Ela adivinhara alguma coisa, por isso obrigou-me a trazê-lo".

Pulou da cama muito feliz. Tomou banho com essência de jasmim, flor que crescia em abundância na fazenda.

Minako penteou-a, ajudou-a a se vestir, e colocou um véu em sua cabeça preso por uma tiara de diamantes que substituía o pente enorme que as espanholas usavam em grandes ocasiões.

- É uma jóia de família, senhorita, presente do patrão - explicou-lhe Minako, referindo-se à tiara - Pertenceu à tataravó, que veio da Espanha com o marido para começar uma nova vida na Argentina.

Usagi olhou-se no espelho e achou-se muito bonita com o vestido de cetim branco de saia drapeada, e o véu à moda espanhola caindo sobre os ombros.

O brilho de seus olhos fazia eco ao brilho dos diamantes dos cabelos. E a expressão de seu rosto era a de uma menina tímida que entrava num mundo desconhecido.

- Está pronta, senhorita ?

- O que devo fazer agora ?

- O patrão espera-a lá embaixo. Não é habitual, mas ele mesmo vai conduzi-la à igreja.

Minako abriu a porta do quarto. No corredor, um menino vestido de gaúcho entregou a Usagi um buquê feito de pequenos lírios. Ela se perguntou se Mamoru, ao encomendá-lo, lembrara-se de que a comparara a uma flor chamada Lágrimas de la Virgem. Mas seria impossível fazer-se um buquê com essas flores, pois suas pétalas murchavam ao contato com a mão humana. De qualquer maneira, contudo, os pequenos lírios consistiam numa mensagem.

Bem devagar, Usagi desceu a escada. Mamoru aguardava-a. Ela achou-o tão belo, tão majestoso, que por alguns segundos teve medo. Pela primeira vez via-o vestido de gaúcho, e nada poderia ser mais apropriado para um homem tão fascinante.

O paletó curto, as bombachas folgadas, as botas de couro e a larga faixa vermelha da cintura ornamentada de prata, faziam-no mais romântico e, ao mesmo tempo, mais viril.

Os olhos de ambos se encontraram, e não houve necessidade de palavras nem de explicações.

- Você está mais linda do que nunca, Usagi - sussurrou ele, enfim.

Ela encostou a ponta dos dedos no braço que Mamoru lhe ofereceu, e os dois dirigiram-se à carruagem ornamentada com laços de tafetá coloridos, que os aguardava à porta. Os cavalos tinham guirlandas de flores, e o cocheiro tinha uma flor no chapéu alto.

Ele ajudou-a a subir na carruagem, sentou-se ao lado dela e seguiram pela longa avenida ladeada de árvores até a velha capela com suas torres de linhas medievais.

Mamoru não falou e nem segurou a mão de Usagi durante o trajeto. Preparava-se, com certeza, para a cerimônia que iria se realizar, pois havia uma força espiritual em seu silêncio.

Em poucos minutos chegaram à capela. Fora, havia uma multidão de pessoas em trajes de festa. As saias vermelhas e blusas bordadas das mulheres do campo contrastavam com as jaquetas pretas dos gaúchos. Dando também uma nota alegre, com suas roupas multicoloridas, estavam os jardineiros e trabalhadores da estância.

A capela achava-se repleta. Não era grande, e centenas de olhos fitaram Usagi, assim que a música começou.

Acanhada, ela baixou a cabeça e apertou o braço de Mamoru. Ele entendeu o gesto e cobriu-lhe a mão com a sua. Usagi sentiu-se então protegida.

Muitas velas ardiam no altar enfeitado com pequenos lírios.

"Especialmente escolhidos para mim por Mamoru", concluiu ela.

A cerimônia não foi longa. Mamoru era católico, mas Usagi não. Ela era protestante. Como bons religiosos, ao pronunciarem os votos matrimoniais, ambos pediram as bênçãos de Deus.

"Ajude-me, Senhor, a fazê-lo feliz", pensou Usagi.

Os recém-casados saíram da capela ao som do órgão e, fora, o barulho que os argentinos faziam era quase ensurdecedor. O entusiasmo era enorme.

O dia terminava e o crepúsculo cedia lugar à noite.

No pátio da casa, enfeitado de flores, lanternas e bandeirolas, uma grande recepção fora preparada. Os convidados ocuparam as mesas, e a festa teve início.

Um boi inteiro estava sendo grelhado na churrasqueira colocada no centro do pátio, e pratos típicos argentinos iam sendo servidos. Usagi lembrava-se de ter experimentado muitos deles.

Havia peixe preparado à moda espanhola, corvina e pescada, os favoritos de todos; e grande quantidade de mariscos, moluscos e escargots.

Camarões vermelhos, lagostas e caranguejos faziam parte do menu, não apenas como alimentos, mas também como decoração.

Não poderia faltar na sobremesa o famoso doce de leite argentino, adorado pelas crianças e pelos adultos.

Barris de vinho eram consumidos rapidamente. Todos mostravam-se alegres. Usagi nunca vira Mamoru tão feliz. Observando-o conversar com os trabalhadores, deduziu que o sucesso da estância devia-se ao fato de não haver distância entre o patrão e os serviçais. Todos viviam em harmonia, em bons termos de relacionamento.

O som de violões e violinos animava a festa.

Quando os últimos pratos foram retirados, Mamoru sorriu para Usagi e disse:

- Os convidados esperam que comecemos o baile.

Ele a conduziu para o chão de mármore polido, e os músicos executaram os primeiros acordes de um tango.

- Nossa segunda dança - ele murmurou.

- Então você… me reconheceu naquele baile de Carnaval ? - Usagi estava perplexa.

- E achou que eu poderia tocar em você sem me dar conta disso ?

Os dois dançaram como no baile de Carnaval, porém muito mais perto um do outro. Mamoru cortejava a mulher amada não com palavras, mas ao movimento sensual do tango. E Usagi vibrava ao contato das mãos dele.

Ambos ardiam de vontade de ficar sozinhos. A melodia da música incentivava esse desejo, os passos do tango eram como uma antecipação ao amor.

Acabada a dança, foram aplaudidos. E, quando as pessoas presentes começaram a dançar, ele levou-a para um canto. Discretamente saíram do pátio e foram para o quarto nupcial.

Estava cheio de flores: lírios mais uma vez. Havia somente dois candelabros, um em cada lado do enorme leito de cortinas brancas e dossel dourado com anjos esculpidos. Junto às paredes, nas cômodas, na penteadeira, foram colocados vasos com lírios, os mesmos lírios pequenos do buquê e da capela.

- Você é tão linda, Usagi ! - sussurrou ele - Mas eu estou com medo.

- Medo ?!…

- Medo de que você seja como as Lágrimas de la Virgen,que não podem ser tocadas por mãos humanas.

Com os olhos nos de Mamoru, a respiração ofegante, os lábios entreabertos, Usagi aproximou-se dele vagarosamente.

- Posso tentar, Usagi, para ver se isso é verdade ? - indagou Mamoru, começando a acariciar-lhe o rosto.

Com muito cuidado, ele tirou-lhe a tiara e afastou o véu.

- Você é minha… Aliás, como eu sempre soube. Como pôde pensar em fugir de mim ?

Abraçou-a. Ela achou que Mamoru fosse beijá-la, mas ele limitou-se a remover os grampos de seus cabelos, que caíram sobre os ombros, como na noite da cabine do navio. Depois, ergueu-lhe o queixo e murmurou:

- Eu adoro você !

Beijaram-se. Um beijo terno que logo se tornou violento, ávido e possessivo.

Uma chama queimava o corpo de Usagi, que mais uma vez teve a sensação de que o mundo girava em torno de ambos. Perdeu a consciência do lugar onde se achava, das flores, e viu apenas Mamoru diante de si.

Pertenciam um ao outro, e o amor que os consumia era forte como o vento que soprava nos pampas, como as ondas do mar, e profundo como a escuridão da noite.

- Eu te adoro, Usagi ! Oh, Deus, como te adoro ! - repetia Mamoru, beijando-a sem parar.

Ele desabotoou o vestido de Usagi, que deslizou para o chão como um raio de luar quando cai sobre a terra. Beijou-lhe em seguida o pescoço, os ombros, os seios, e carregou-a para o leito branco.

O pio distante de uma coruja a fez aconchegar-se mais ao ombro nu de Mamoru. Era a corujinha cinzenta, com a qual ele a comparara um dia.

- Lembra-se… - ela sussurrou.

- Eu disse que você se parecia com essa coruja - adiantou-se ele - Quantas noites fiquei acordado tentando adivinhar como eram seus olhos, minha querida. E você, com aqueles malditos óculos ! Não podia acreditar que seus olhos fossem tão lindos como seus lábios !

- Quando foi que você… começou a me amar, Mamoru ?

- Quando escutei sua voz falando em espanhol. Achei-a musical, adorável, e me fascinou como voz de mulher alguma me fascinara antes - ele sorriu e acrescentou: - Mas, depois, essa voz tornou-se distante e repressiva.

- Você falou que eu era tal qual um "frigorífico" !

- Era como sua voz soava para mim. Porém, em contrapartida, seus lábios de curvas suaves diziam-me que você não era fria ! E eu estava certo !

Ela corou, gaguejando:

- Você… me excita… tanto !

- Verdade, amor ? Será que eu a excito loucamente como você a mim ?

- É verdade, sim, Mamoru. E você sabe que… é verdade.

- Vou ensiná-la a me amar, meu tesouro, até que o fogo de seus olhos se torne muito, mas muito intenso mesmo.

- Eu… adoraria… isso !

- Se você pudesse saber, Usagi, como receei que me odiasse como demonstrava !

- Eu me esforçava para odiar você, Mamoru, pois achei que traíra… papai.

- Como pôde imaginar algo tão revoltante ?! Eu gostava muito de seu pai, lutei com todas as armas possíveis para provar a inocência dele…

Abraçando-a com força, ele continuou:

- Como puderam, você e sua mãe, esconderem-se tão bem ? Todo o pessoal do Ministério do Exterior, tanto na Inglaterra como na Argentina, procurava pelas duas. E eu também !

- Nós não podíamos encarar o mundo… que acreditava em coisas tão absurdas sobre papai.

- Agora esse mundo reconhecerá que seu pai era inocente, e vai admirá-lo !

- Mal posso crer que toda aquela tristeza e angústia tenham terminado.

- Você nunca mais será infeliz, Usagi. Eu prometo !

- Nunca mais ?

- Nunca mais, enquanto eu viver. Eu te amo, eu te adoro, querida. Isso a faz feliz ?

- Claro, Mamoru, porque também te adoro !

- Amo cada pedacinho de você, seu cérebro fascinante e alerta, seu corpo tentador e seu rosto adorável !

- Isso tudo… é mesmo verdade ? - ela falava como uma criança insegura.

- É verdade, meu tesouro.

- Você nunca me pediu em casamento, Mamoru. Como soube que eu o amava ?

- Soube sem necessidade de palavras. Quando você me salvou do cativeiro, num ato de bravura inacreditável numa mulher, beijei-a. Assim que seus lábios tocaram os meus, eles me disseram, querida, que você me amava. Foi tudo o que eu precisava saber.

- Mas… eu não me casaria com você… a menos que a honra de meu pai fosse restaurada.

- Você se casaria comigo, sim, Usagi.

- Impossível ! Uma mulher com a nódoa de ser a filha de um traidor jamais poderia ser sua esposa.

- E acha que faria diferença para mim você ser a filha do diabo em pessoa ou de um mendigo ?

- Eu não… me casaria com você - teimava Usagi.

- Nesse caso, eu a raptaria. Você tinha de ser minha esposa, Usagi, eu não a deixaria escapar. Nunca pedi uma mulher em casamento, querida, até conhecê-la. Amei-a antes mesmo daquela noite na cabine do navio, eu já lhe disse.

- Como… foi possível ?

- Amei-a instintivamente desde o início. E, quando a vi com o bebê no colo, foi como se uma luz intensa me iluminasse. Senti que você me pertencia, que era a perfeita manifestação do ideal que existia no santuário de meu coração, onde ninguém jamais penetrara.

Usagi escondeu novamente o rosto no ombro de Mamoru. Após algum tempo, ele indagou:

- Está chorando, querida ?! O que foi que eu disse que a aborreceu ? O que fiz para feri-la ?

- É porque… estou muito feliz - soluçou Usagi - É porque você falou coisas… tão lindas para mim ! Achei que nunca me casaria… e agora sou sua esposa.

Ele beijou-lhe os cabelos, consolando-a:

- Você passou por tantos dissabores, amor. A tensão de viver escondida deve ter sido intolerável. Mas tudo está acabado agora, minha adorada esposa !

- Sinto-me tão… tão feliz ! Tão maravilhosamente feliz ! - depois, num tom de voz de carinhosa censura, ela acrescentou: - Você queria que eu chorasse…

- Essas são lágrimas de amor, Usagi.

- Você sabe, Mamoru, que as Lágrimas de la Virgen são chamadas de "Lágrimas de Amor" por algumas pessoas ?

- Claro que sei - replicou ele - E algo poderia ser mais perfeito, mais encantador, do que você derramar lágrimas de amor por mim ?

- Eu adoro você - sussurrou Usagi.

- Eu também adoro você, querida ! Há tantas coisas que podemos fazer juntos !

- Quando dançamos, senti que eu era parte… de você - confessou Usagi.

- E é, como sempre será. Agora, amor, não tenho mais medo de tocá-la.

- Concluiu que posso ser tocada por mãos humanas ?

- Sim, mas só pelas minhas - ele corrigiu-a - E eu chicotearei qualquer homem que tentar fazer o mesmo.

- Tudo que desejo é estar com você, é ser sua.

- Você é minha, minha até que as estrelas caiam do céu e não haja mais capim nos pampas. Minha, querida! Agora e por toda a eternidade!

Os lábios de Mamoru tocaram os de Usagi; suas mãos, as dela; seus corações batiam em uníssono.

E nada mais existia no mundo além do êxtase da posse mútua de duas criaturas que se amavam; além do louco, apaixonado enlevo de serem uma só pessoa !


P. S.: E aqui chegamos ao final de "Encontro em Buenos Aires", que é a minha vigésima adaptação. Também é a minha segunda adaptação com o fandom de Sailor Moon, e a segunda adaptação com o ship Usagi/Mamoru. E eu espero que vocês gostem dela.

E, se gostarem... reviews, pode ser ?