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As coisas não estão indo bem.
Essa semana, eu mal comi. Tenho me arrastado pela casa, cuidando apenas das necessidades da Sarada do jeito que eu consigo porque, na maior parte do tempo, me sinto letárgica. Fico deitada quase o tempo todo, apenas vendo o tempo passar enquanto me conformo com a vida, tomando coragem para fazer o que deve ser feito.
A Sarada vai ter uma vida incrível, eu tenho certeza. Eu tenho absoluta certeza. A vida dela vai ser bem melhor sem mim. Meus pais vão cuidar dela, e vai dar tudo certo pra ela. É no que eu acredito. É no que eu coloco toda a minha fé.
Meus planos para mim, no entanto, envolvem uma praia distante que fui quando tinha apenas 14 anos. Eu nunca vi um pôr-do-sol tão lindo quanto naquele lugar. O céu todo laranja, a vida enchendo meus pulmões através da maré intensa e a textura da areia nos meus pés me fazia querer ficar ali pra sempre.
Então, eu decidi que vai ser lá.
Talvez, um dia, alguém me ache, mas não é com isso que eu tô preocupada. Quando eu estiver lá, nada disso vai importar. Quando eu estiver lá, nada mais vai importar além do pôr-do-sol e das decisões que me levaram até lá. Nada vai existir além da maré, do laranja e da areia. Absolutamente nada.
Por enquanto, eu tô aqui no supermercado com a Sarada, que tá tão tristinha esses dias. Eu sinto tanto por ela estar absorvendo esse clima de merda que eu emano, mas vai ser por pouco tempo. Eu só preciso que o Sasuke viaje pra algum lugar pra ter certeza de que vou ter tempo de fazer tudo direito, e aí as coisas vão acontecer.
Tudo vai ficar bem.
Hoje, porém, as coisas não estão ao meu favor — mas quando estiveram?
Tô com três sacolas pesadas no braço, fora a Sarada, e meu celular descarregou. Não consigo chamar um Uber e não existe mais táxis nessa cidade.
Deve ser umas nove horas da noite, e eu tô quase chorando. Eu tô a isso de me sentar no chão e começar a chorar como uma criança, porque é só isso que eu sei fazer.
Eu só devia comprar um carregador, mas tô me sentindo tão mal que... nossa, que merda que tá acontecendo comigo? Até as pequenas coisas tão indo de mal a pior.
Olho pra o alto, tomando coragem pra fazer uma longa caminhada até onde eu moro, segurando uma criança em pleno sereno e três sacolas que pesam uma tonelada, mas nada é tão ruim que não possa piorar, porque é nesse momento que eu escuto alguém chamar meu nome e eu já conheço aquela voz. Ela me assombra em meus melhores sonhos, e apesar de seu timbre reconfortante, essa é a última voz que eu queria escutar. A última pessoa que eu queria ver.
Olho pra Kakashi, que parece inseguro em se aproximar, mas quem pode culpá-lo? Eu bloqueei ele, não é? Já é um milagre que ele fale comigo.
— O-Oi... — Eu tento dizer de uma forma que não pareça tão patética, mas sei que tô horrível. Como essa situação poderia ser melhor? Ele tá aí, lindo como sempre foi, e eu tô no pior momento da minha vida.
Ele olha para Sarada em meus braços e não sei bem o que ele vê nela, mas o sorriso que ele dá me faz chorar. Não consigo nem levantar a mão para enxugar as lágrimas, e ele rapidamente me acolhe. Sakura, ele diz preocupado e, merda, mas eu nem sabia que gostava tanto do jeito que ele chama meu nome.
Nesse momento, eu me odeio um pouco, mas não consigo evitar mais lágrimas quando ele me abraça. Eu tô tão mal. Nem sei quanto tempo eu fico ali, me sentindo patética em meu colapso. Céus, que fiasco. Esse homem, que eu deixei sem mais nem menos, tá aqui esperando de maneira paciente enquanto me abraça, que eu me sinta um pouco melhor.
Quando meu choro acalma, ele pergunta se pode ajudar, e eu digo que preciso de uma carona. É tudo o que eu preciso no momento. De uma carona.
Kakashi me olha como se tentasse ver através de mim, como se soubesse que não é só disso que preciso, mas o que mais ele pode fazer ? Eu não o envolveria. Eu jamais arrastaria alguém pra essa minha vida de merda, e mesmo que eu dissesse algo pra ele, o que ele poderia fazer além de me dar uma carona?
Ele pega minhas compras e vamos até o carro. Enquanto ele dirige, o rádio toca baixinho e Sarada resmunga sua conversa de bebê como há dias não o faz. No meio do caminho, ele comenta sobre como a Sarada tá bonita com o laço cor-de-rosa na cabeça, pede desculpas pelo estofado estar cheio de pelos de cachorro, e pergunta se eu quero conversar.
Economizo palavras ao responder cada fala dele, dizendo, ao final, que não quero. Não tenho o que conversar. Tudo na minha vida já foi decidido e eu não tenho mais o que pensar. É melhor que ele não saiba de nada. É melhor que ele nem pense em mim. Se eu pudesse voltar no tempo, sequer teria ficado com Rin naquela primeira sessão.
Na verdade, eu nem teria ido àquela entrevista de emprego.
Olho pela janela, a cidade noturna passa diante dos meus olhos. Eu tento não chorar enquanto abraço Sarada um pouco mais. Estamos passando pela rua que levaria à casa dos meus pais, onde ela vai morar em alguns dias, eu espero.
Eu só preciso da carona.
O silêncio continua, mesmo que as músicas da rádio preencham o ambiente, nada além do silêncio chega aos meus ouvidos. Talvez eu esteja vazia. Talvez eu esteja preenchida por coisas que não consigo sequer nomear e que ao lado dele se inquietam. Olho discretamente para ele, e o vejo sério, preocupado.
Com sorte, em alguns dias, ele sequer vai se lembrar de mim. Com sorte, ele nunca mais vai ouvir falar de mim. Nunca vai saber o que eu fiz, e nunca se sentirá culpado por isso. Com sorte... ninguém vai lembrar de mim.
Chegamos ao meu prédio e, ainda dentro do carro, eu o agradeço, pronta para sair dali o mais rápido possível.
— Ei, hã... eu te ajudo com as compras.
É o que ele diz, apressado, quando sai do carro também. Eu o olho.
— Não precisa. Eu... Não precisa, Kakashi. Tá tudo bem.
...
Ele me olha por um longo momento e nega com a cabeça de maneira mínima.
— ...eu levo as compras pra você — diz, mas por trás daquele tom de voz, eu escuto os pensamentos dele me dizerem eu sei que não tá tudo bem. — Você tá com a Sarada, que já é pesada o suficiente. Eu levo as compras, deixo na sua sala, e vou embora.
Não sei se demorei demais olhando para ele, pensando em uma desculpa, pensando em como fazê-lo me deixar, mas Sarada começa a reclamar em meu braço. Eu fecho os olhos. Tá bom, querida, tá bom. Eu sei que você gosta dele.
Concordo com a cabeça, exausta de tentar mudar o fluxo das coisas. Que elas aconteçam como têm que acontecer. Que Kakashi leve as compras. Que a noite continue linda com esse monte de estrelas no céu. Que o mundo gire. Que a vida continue.
Eu vou na frente, subindo com o barulho de nossos passos nos acompanhando, e a cada degrau, eu vou me sentindo mais e mais cansada, mais e mais derrotada, mais e mais triste. Sarada põe a mão no meu rosto e faz aquele biquinho de quem vai chorar, mas não chora. Ela é sempre tão mais forte que eu.
Ao menos a sorte de Kakashi não ver meu rosto, eu tenho.
Chegamos na porta do meu apartamento e eu estranho quando ponho a chave, percebendo que já está destrancada. Não lembro se fechei a porta antes de sair, mas uma sensação me invade, e quando finalmente entro...
...não há nada tão ruim que não possa piorar.
Ele tá aqui dentro, parado com um olhar severo e se levanta assim que me vê. Eu abraço Sarada, girando o corpo para protegê-la, porque essa é a versão bêbado irritado.
— Onde merda você est-
Estranho quando ele para do nada e recua antes mesmo de me alcançar. O olho confusa, com medo. Sarada tá agarrada em mim, sentindo esse clima péssimo, mas ele tá ali, parecendo tão confuso quanto eu, amedrontado de um jeito que eu nunca imaginei vê-lo.
— ...Itachi?!
Eu giro, vendo Kakashi na porta com o cenho franzido. Eles se encaram por um longo momento, até que Kakashi olha pra mim e depois para Sarada, e aí ele olha para o homem parado na minha sala, que parece estar se recompondo, porque mesmo hesitante, ele consegue dizer num tom que parece normal:
— O que você tá fazendo aqui, Kakashi?
...eu não tô entendendo nada. Absolutamente nada. Aquela reação dele quando Kakashi coloca as compras no chão e volta a encará-lo o faz parecer uma outra pessoa, alguém pequeno e amedrontado.
Kakashi, no entanto, é um homem esguio, magro até, mas naquele momento, ele parece crescer.
— O que você tá fazendo aqui? — Ele pergunta, e algo que eu não entendo está acontecendo. Eles se conhecem? — Não me faça perguntar de novo, garoto.
Garoto?
Ele me olha com um aviso, como se estivesse me dizendo alguma coisa, mas eu tô tão confusa que só consigo segurar minha filha mais forte. Eu não faço ideia do que tá acontecendo, mas sei que o olhar dele para mim não se passou despercebido por Kakashi, que logo continua:
— Ei! Você tá olhando pra onde?! Eu te fiz uma pergunta!
Após engolir em seco, ele responde:
— Tô visitando a minha namorada.
O quê?! Meus olhos se arregalam, eu olho para Kakashi completamente aturdida, mas ele não me olha de volta. Na verdade, ele não tira os olhos daquele homem e continua encarando-o como se estivesse usando todo o autocontrole do mundo para não partir pra cima dele.
— E por que sua namorada tá morando no apartamento do Sasuke? — O tom dele é firme, alto, e em nenhum momento parece acreditar no outro. Na verdade, ele parece já saber exatamente o que tá acontecendo.
Mas eu continuo sem entender como Kakashi sabe quem é ele, qual é a relação deles, como ele sabe que esse apartamento é do Sasuke e do porquê desse homem, que sempre foi tão valente na minha frente, parecer tão hesitante agora. Tão amedrontado.
Ele abre a boca e fecha, então sua expressão muda para algo mais irritado, como quando eu entrei.
— Eu não tenho que te dar justificativas da minha vida, Kakashi! — ele diz mais alto, mais corajoso. — E é você que tá invadindo a nossa privacidade-
Kakashi o faz calar a boca com um tapa, e nesse mesmo momento Sarada começa a chorar. É só aí, quando eu já tô tentando acalmar ela com sussurros, que Kakashi olha pra mim. Ele tá claramente arrependido do excesso que cometeu, eu posso sentir no jeito que ele abaixa a cabeça por um segundo e volta a olhar pro outro, que não revida.
Não.
Ele continua ali, ofendido, mas resignado. E o que o faz não reagir é um mistério pra mim.
— O que você tá fazendo?!
A pergunta surge de maneira urgente quando Kakashi coloca a mão no bolso, tirando o telefone de lá num gesto comedido, e até eu me preocupo com isso. Eu tremo sem saber o que ele tá fazendo, pra quem ele tá ligando, ou o que tá acontecendo nesse exato momento.
— Kakashi...
Minha voz oscila ao chamá-lo, mas ele não hesita em me olhar e acho que finalmente percebe minha respiração ofegante, o tremor nos lábios e meu olhar suplicante. Eu preciso entender. Eu preciso que ele me diga alguma coisa.
Então ele se aproxima de mim, e seu olhar é suave de novo. Ele sorri, apesar de tudo, e passa a mão na cabeça da Sarada quando me diz:
— Desculpe por isso. Eu vou fazer um telefonema e tirar o Itachi daqui, tá? Depois, eu te explico tudo.
O jeito com que ele me olha, gentil em sua preocupação, me faz confiar nele. Seja lá o que tá acontecendo, eu acredito na urgência dele.
— Pra quem você vai ligar? — É o outro que pergunta, antes mesmo que eu possa responder, e Kakashi fecha os olhos como se estivesse juntando toda a paciência do mundo antes de virar por cima do ombro e responder:
— Pro seu tio.
Minha cabeça dá um nó. Será possível que Kakashi conheça todos os Uchihas? Será possível que a relação deles seja tão intrínseca a ponto de fazer o homem em minha sala arregalar os olhos em uma espécie de medo que eu nunca imaginei ver naquele rosto?
— Deixa o titio fora disso! Ele não tem nada a ver com a minha vida! Nem você, nem ninguém! — Ele berra com raiva, mas Kakashi apenas coloca o telefone no ouvido, olhando para ele com indiferença; é por isso que ele olha pra mim, por fim, e usa seu último recurso: — Diz pra ele, Sakura! Diz pra ele ir embora!
Eu tremo. O jeito com que ele olha pra mim, a forma com que as palavras saem da boca dele... é quase como se ele estivesse jurando que vai fazer uma loucura se eu não colaborar. Eu abro a boca, trêmula, confusa... mas é Kakashi quem fala:
— Tobi?
...o quê?!
O silêncio na minha sala é pesado. Eu olho para Kakashi ao telefone, tentando entender o porquê de ele ter ligado pro esposo da Rin, enquanto que o outro parece estar tendo uma crise de ansiedade. Kakashi, no entanto, é o único que parece calmo. Mesmo Sarada choraminga em meus braços.
— Cadê você, hein?! Porra, só se atrasa... — A voz alta vaza do autofalante do celular de Kakashi.
— Não vai dar pra eu ir. Descobri uma situação do seu sobrinho.
Não consigo entender o que Tobi responde, mas Kakashi continua:
— Eu prefiro que ele mesmo conte pra você o que tá acontecendo, porque, pra mim, ele só contou mentiras.
Depois de um momento, Kakashi estica o telefone na direção do outro, que parece a beira de um ataque. É quando um grito surge do autofalante, alto o suficiente para qualquer um escutar. Atende essa merda! É o que o Tobi diz, e só então ele finalmente pega o telefone.
— Titio...
Kakashi se vira pra mim, me dá um sorriso fraco e, mexendo apenas os lábios, diz que tudo vai ficar bem. E por um segundo, enquanto vejo os olhos gentis que estão em sua face, eu sinto verdadeiramente que, de alguma forma, tudo vai dar certo.
— ...sim, senhor...
Seja lá o que Tobi disse a ele, não demora muito. A face dele é completamente diferente de tudo o que eu já vi estampado naquele rosto, como se ele estivesse a ponto de explodir, mas o próprio medo não deixasse. Ele não olha para Kakashi quando devolve o telefone, mas nossos olhos se esbarram.
Ele me odeia.
Com todas as forças, ele me odeia.
E naquele ódio, ele me faz a pior das promessas.
Eu abraço Sarada mais forte, e apesar de ela reclamar, eu não a solto. Eu nunca vou soltá-la.
Kakashi coloca o telefone no ouvido, e dessa vez a conversa é ainda mais breve. Num segundo, o celular volta pro bolso dele e ele diz para o outro:
— Vamos.
Ele aponta pra porta e eu vejo aquele homem que tanto me odeia sair com uma espécie de resignação fajuta, pois consigo sentir o ódio dele, a raiva. É por isso que, sem sequer perceber, dou um passo para trás e Kakashi me olha novamente, dessa vez, ele nem tenta disfarçar sua preocupação.
— Eu volto, tá? — Ele diz pra mim quando chega mais perto. — Sei que tudo deve tá parecendo bem estranho, mas primeiro, me deixa tirar o Itachi de perto de você.
— O que é que tá acontecendo? — pergunto aflita, quase implorando por respostas, porque tá tudo tão confuso.
Kakashi passa a mão na cabeça de Sarada, que ainda tá bem assustada.
— O esposo da Rin é tio do Itachi, e... — Ele hesita, olhando pra mim como se não soubesse bem quais palavras usar, mas por fim continua: — É complicado. Mas o Obito vai resolver tudo, Sakura. Por hora, apenas me espere voltar, mas não sozinha. Ligue pra alguém, chame qualquer um, só não fique sozinha. Eu prometo que volto.
Sei que, apesar de ele precisar ir, Kakashi quer ficar.
A preocupação dele tá estampada no jeito que as sobrancelhas dele se franzem brevemente, mesmo que seus olhos me munam com uma calma que por muito tempo eu fui incapaz de sentir; é por isso que é até difícil pensar que só isso seja suficiente pra evocar essa segurança.
É isso. Essa é a palavra.
O que ele diz e o jeito que me olha me fazem confiar nele. Por isso eu concordo com a cabeça, ainda sem saber direito o que vai acontecer, sem saber se no minuto seguinte eu vou me arrepender dessa decisão, mas, por hora, eu apenas aceito as palavras dele.
— Volta logo.
Ele concorda com a cabeça e hesita por mais um momento antes de se virar e sair. Sarada choraminga quando a porta se fecha, iniciando um choro sofrido ao qual eu tento propiciar algum alento. Eu olho ao redor, a casa vazia e completamente igual, exceto pelas sacolas pesadas na sala, mas ao mesmo tempo, tudo parece diferente. Tudo parece ainda menor, ainda mais claustrofóbico.
Eu ofego enquanto balanço Sarada ainda mais forte e nem sei mais o que fazer. Tem muita coisa na minha cabeça, muita informação solta, muita incerteza... Por isso eu corro pra janela da cozinha, abrindo para que uma lufada de vento frio sopre com força contra nossas peles. Eu abraço ainda mais a Sarada, para que ela fique quentinha, mas preciso sentir esse vento na pele, o ar entrando na casa, em mim...
Quando fecho os olhos, é aí que as palavras de Kakashi me surgem novamente. Não fique sozinha, ele pediu um momento atrás, e tem razão. Acho que vou enlouquecer se ficar aqui sozinha, esperando. Porque aquele último olhar que eu recebi dele fica me assombrando. Ele vai me matar, ou pior.
Tremendo, eu pego o celular e ligo pra primeira pessoa que consigo pensar.
E agora, só me resta esperar.
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