A cor do dinheiro
Capítulo 2: A família Shiroi
Para Lan Ayath.
Shiroi Rin deu um largo sorriso ao ficar satisfeita com a própria imagem no espelho.
Há tempos que não saía num encontro, e estava muito feliz em saber que seria num lugar que ela mesma escolhera, diferente de outra certa ocasião quando escolheram o encontro para ela.
Deu um suspiro quando lembrou-se da noite. Um verdadeiro desastre. Só a lembrança dava-lhe calafrios.
-Muito bem... Ninguém vai estragar a sua noite, menina! – sorriu mais uma vez.
Sim, ninguém iria. Principalmente porque não teria a companhia de cinco guarda-costas.
Quando Rin tinha treze anos, descobrira que a família fazia parte de algo que ela achava que só existia em filmes de ação. A yakuza era para ela algo tão incrível quanto os contos ocidentais que a ensinaram na escola.
A partir dali, a vida de Rin não foi das mais tranquilas. Era constantemente acompanhada de guarda-costas que tinham a obrigação de dar a própria vida para proteger a dela.
Como se ela merecesse um sacrifício daqueles.
Depois que percebeu o quão ruim era ter que viver constantemente protegida, Rin apenas desejava atingir a maioridade e arrumar a própria vida. Ser independente, viver longe de todo aquele círculo e nunca mais cruzar com a própria família. Começou a ansiar pela vontade de arrumar alguém e mudar de nome.
Depois que o pai morreu, a surpresa foi enorme, não apenas para família Shiroi, mas também para outras famílias da máfia, com a descoberta de que o falecido líder deixara a liderança ao cargo de Rin, a filha legítima, em vez de Bankotsu, o meio-irmão. Claro que ela não queria, mas tivera que obedecer por ordem de outra pessoa. Teve que estudar sobre negócios e trabalhar muito.
A partir do momento que assumira a posição de líder da família, a vida dela apenas piorou. Pois agora ela não poderia mais escolher com quem casar e mudar de nome, não poderia deixar de entrar em contato com a própria família, não poderia viver longe de todo aquele círculo. Nunca mais poderia ter a própria vida, em resumo.
Como se ela tivesse vivido uma, pensou com tristeza.
E é claro que certas discordâncias entre ela e o irmão aumentaram... Percebera que ele queria ser o líder, e há alguns meses deixou que tomasse conta de alguns negócios. Por ela, podia ser até imperador do Japão que nem ligava. Bankotsu podia ser... quer dizer...
Se ao menos soubesse o porquê do pai querer que fosse ela a líder e não o outro filho... Se ao menos pudesse entender por que não poderia sair do cargo e deixar outra pessoa no lugar...
-Chega de pensar nessas coisas, menina! – começou a passar a mão nas pontas do cabelo negro e tentar arrumar um laço atrás e deixar uns cachos caírem graciosamente sobre os ombros – Você tem um encontro!
Terminou de arrumar o cabelo e cantarolou uma antiga canção infantil:
-"Yama no naka, kaze no naka..."
A tevê estava ligada num volume considerável, apenas para não perturbá-la. Entretanto, uma notícia chamou-lhe a atenção:
"O menino Ochi Shippou, que na última semana sofreu um terrível choque ao presenciar a morte dos pais, saiu do hospital e ganhou um novo lar. O casal que o adotou não foi revelado, mas deve-se saber que muitos casais se disponibilizaram às autoridades para ficarem com a guarda do garoto de seis anos..."
-Pobrezinho... – ela falou, indo em direção da tevê e desligando-a – Espero que fique bem com os novos pais.
Uma batida na porta fez com que parasse de se arrumar.
-Pode entrar.
Uma garota de cabelos negros e olhos verdes entrou, deslizando a porta para fechá-la.
-Bankotsu quer falar com você.
-Onde ele está? – ela perguntou, indiferente.
-No escritório... Onde mais?
– Já irei vê-lo. -Baka, Rin pensou .
Alguns minutos se passaram até que Rin percebeu que a prima não saíra do quarto.
-Quer falar mais alguma coisa, Tsubaki?
-Vai sair? – ela perguntou, curiosamente.
-Não acho que seja da sua conta saber. – Rin respondeu, deslizando a porta e saindo do quarto.
Nem ao menos podia manter os desejos em segredo. A própria família transformava a vida dela numa prisão.
Dirigiu-se até o escritório da casa, abrindo a porta para encontrar Bankotsu, o meio-irmão, sentado à mesa de trabalho do falecido pai.
-Irmãzinha, já está pronta? – ele falou, levantando-se e aproximando-se de outra cadeira, ao qual ele apresentou à irmã para que pudesse sentar-se.
-Eu não acredito que me fez vir aqui só para dizer isso, Bankotsu. – Rin falou, sentando-se em outra cadeira, fingindo não ver a gentileza do rapaz. Este percebeu e aproximou-se dela por trás, pousando as mãos gentilmente nos ombros dela.
-Rin, só quero garantir que volte segura hoje. Tem certeza de que não quer levar sua guarda pessoal?
A garota deu um suspiro cansado e moveu a cabeça afirmativamente, sentindo o irmão apertar-lhe os ombros e fazer-lhe uma forte massagem.
-Eu acho isso tão cansativo, Bankotsu. – ela começou – Vocês estragaram meu primeiro encontro. Queria que este segundo fosse bem melhor.
A massagem no local ficou mais forte.
Rin deu um suspiro. Há tanto tempo que não se sentia relaxada... A última pessoa que fizera aquilo fora a madrasta.
Aguentou a vontade de chorar. Não queria que alguém como Bankotsu sentisse pena dela.
-Pode parar com essa droga de massagem? – ela perguntou num tom irritado.
Bankotsu tirou as mãos dos ombros dela e arqueou as sobrancelhas, tentando também reprimir um sorriso.
-Voltarei muito tarde. – ela avisou, levantando-se da cadeira – Não precisam me esperar.
-Claro, irmãzinha. Desejo boa sorte no seu encontro com Hinten.
Rin resmungou algo pelo qual ele não se interessou em pedir tradução e saiu do escritório.
Bankotsu deu um sorriso. Naquela noite, nada realmente sairia errado e ele teria o controle completo dos negócios da família Shiroi.
A porta deslizou novamente e ele virou-se para ver quem era, ficando surpreso em ver Rin parada na entrada, notando os olhos arregalados dela.
-Como... Como você sabia... Como você sabe o nome dele? – ela perguntou assustada.
O sorriso morreu nos lábios dele.
-Você... Você me falou dele, Rin. – ele deu dois passos em direção dela.
-Eu falei que sairia com alguém – ela recuou dois passos -, mas não disse o nome dele.
Bankotsu deu mais dois passos e Rin recuou mais um pouco. Ficaram se encarando, silenciosamente.
-O que está aprontando, Bankotsu? – ela perguntou, mas ele não respondeu.
Cansada de esperar por uma resposta, Rin saiu dali correndo, virando o rosto para olhar o meio-irmão mais uma vez antes de virar no primeiro corredor.
Sesshoumaru tinha apoiado nas mãos cruzadas enquanto esperava pacientemente pelo jantar que pedira, sentado à mesa do restaurante de uns dos hotéis mais caros da capital.
Era o terceiro dia das "férias" que autorizara a si mesmo. Não saíra da cidade, aceitando um pouco o termo "sem graça" que Miroku usara para definir o tempo livre que tivera em três dias. Estava preocupado demais em deixar tudo nas mãos de uma equipe formada por membros da família Akai: Inuyasha, Miroku e Hakudoushi.
Três incompetentes, falou para si mesmo.
Eram incompetentes, mas esperava que dessem conta. A última coisa que queria era se preocupar com negócios durante este período.
Mas as coisas estavam tranquilas no momento. A última notícia boa que recebera fora hoje: o filho de Musou fora definitivamente adotado pelos Akai e já tinha mudado de nome. Havia demorado em recuperar a fala, mas, quando conseguiu, caiu no agrado de Kagome, para felicidade de todos e desespero de Inuyasha.
Sesshoumaru sorriu para si mesmo. Agora tinha um sobrinho que descobrira o prazer que existia em atormentar e irritar Inuyasha. "Eu acho que Kagome gosta mais de mim do que de você. O que vai fazer, hein?"
A resposta do irmão tinha sido um cascudo na cabeleira ruiva do garoto. Deste, um grito que fez Kagome dar centenas de tapas no braço do marido até deixar o membro dormente.
Sorriu para si mesmo quando lembrou-se da cena. Aquilo tinha sido a piada da família Akai e dos Higurashi por dois dias.
Cansado de relembrar esses fatos da "administração provisória" da família, Sesshoumaru resolveu observar outros clientes do restaurante. Gostava de fazer a leitura corporal das pessoas, habilidade adquirida durante as primeiras reuniões da yakuza que presenciara. "Aquele está com medo; este está cansado...", ainda lembrava com perfeição. Com o tempo, aperfeiçoou aquela habilidade e frequentemente usava o que descobria das leituras contra as pessoas que as demonstravam."Se está com medo, é melhor nem assinar o contrato. Saiba que eu detesto gente que sente medo".
E a pessoa ficava ainda mais apavorada.
Mas os olhos dourados fixaram-se numa solitária garota sentada a algumas mesas da dele.
Era bonita. Definitivamente bonita. Não era do tipo de arrasar homens e dilacerar corações como nos romances, mas tinha certa beleza por ser tímida e discreta. Mas não era aquilo que prendia a atenção dele. Ela tinha um rosto que já vira antes...
-Deseja algo para beber, senhor? – um dos que serviam perguntou a Sesshoumaru.
-Sim, eu... – ele deu uma pausa e tirou discretamente a carteira do bolso do paletó. Abriu-a e tirou de lá uma nota graúda de iene – Água com gás e... – entregou a nota ao garçom, acrescentando num sussurro – O nome daquela jovem. – indicou com a mesa com a cabeça.
O rapaz pegou o dinheiro e fez uma reverência, afastando-se dali. Sesshoumaru observou calmamente quando o mesmo rapaz aproximou-se da mesa da garota e perguntou-lhe o pedido. Ele demorou mais tempo com ela, mas anotou diversas coisas no caderninho e retirou-se depois com uma reverência.
Sesshoumaru esperou apenas alguns minutos até o rapaz voltar a aparecer ao lado dele, este segurando uma bandeja com duas garrafas com água gaseificada.
-Aqui está a sua água com gás, senhor. – o rapaz começou – A senhorita Shiroi Rin fez o mesmo pedido.
-"Shiroi Rin"? – Sesshoumaru repetiu, mecanicamente.
O rapaz fez "sim" com a cabeça e outra reverência, afastando-se de novo.
Ah, não!
Como aquela menina poderia ser Shiroi Rin? Ela era até mais nova que a fotografia do jornal mostrara. Era mesmo a líder de uma poderosa família? E onde estavam os guarda-costas? O que fazia sozinha ali, tão indefesa?
Fazendo a leitura corporal dela, percebeu que Rin estava ansiosa demais, provavelmente porque esperava pela chegada de outra pessoa. Os dedos tamborilavam na mesa e ela tomava alguns goles da água na taça. Seria aquilo um encontro secreto?
Ridículo. Era algo tão típico de adolescentes.
A garota deve ter sentido que estava sendo observada, pois olhou em direção de Sesshoumaru e o encarou.
Nenhum deles desviou o olhar. Ele fez questão de analisar e gravar na memória até a cor dos sapatos de certa grife que ela usava. Passou pelas pernas, pela blusa branca que combinava agradavelmente aos olhos com a saia rosada, passando pelo rosto e tentando definir daquela distância qual seria a cor dos olhos dela, que ele julgava serem castanhos, combinando assim com o cabelo preso por um laço e com algumas mechas caindo pelos ombros.
A garota notou o olhar de inspeção, e ele ficou surpreso quando a viu corar e virar o rosto para o lado. Ridículo, ele pensou e reprimiu um sorriso, voltando a esperar pelo jantar que chegou minutos depois.
Enquanto jantava, parou um momento para observar a mesa de Rin. A pessoa por quem ela esperava havia chegado e notou o modo com que ele a tratou, fazendo uma demorada reverência, beijando-lhe a mão, passando os dedos no rosto dela e fazendo-a corar pela segunda vez naquela noite.
Na outra mesa, Rin deu um suspiro de alívio ao ver a figura de Hinten na entrada do salão. Ficou feliz e esqueceu-se por breves momentos do estranho de brilhantes olhos dourados que a observava em outra mesa.
-Desculpe o atraso, Rin. – ele falou quando fez uma reverência – Um engarrafamento monstro me impediu de chegar dez minutos antes e ver seu rosto. – ele pegou a mão dela e a beijou.
-Tu-Tudo bem, Hinten. – ela ficou surpresa com aquele toque – Eu...
-Eu sinto muito mesmo. – ele passou a mão pelo rosto dela e sentou-se para depois colocar um guardanapo no colo, dando um sorriso ao vê-la corar – Preparada para esta noite?
-O que planejou?
-Eu tenho várias coisas em mente, mas gostaria de saber o que você planeja.
Rin não comentou, dando um sorriso sem graça e virando o rosto para o outro lado, encontrando novamente os olhos de Sesshoumaru.
Pelos deuses... Esses olhos... Parecia que estavam lendo os pensamentos dela.
Que exagerado.
Balançou a cabeça e sentiu-se culpada. Hinten estava ali com ela e prestava atenção em outro! E nem ao menos sabia o nome dele.
Tinha feito de tudo para que aquele encontro desse certo, e daria! Sem guarda-costas, sem comentários de Bankotsu. Hinten não era, pelo que sabia, ligado à máfia; era um comum e ótimo estudante na faculdade, parecia tranquilo e dedicado aos estudos.
-Já fez o pedido? – ele perguntou.
-Ainda não. Só quis água. – ela falou com um sorriso tímido.
Ficaram alguns minutos conversando sobre certas coisas – futilidades: como tinha sido o dia, o que haviam feito, o que achavam da comida servida etc. A conversa estava boa até soar o alarme de emergência.
-Incêndio? – Rin perguntou, olhando para os lados.
A voz do gerente pediu gentilmente que os clientes mantivessem a calma e fossem para os elevadores das saídas de emergência. Rin e Hinten levantaram-se e ele a guiou até um dos elevadores afastados, notando a preocupação no rosto dela.
-Não deve ser tão grave assim, Rin, mas devemos fazer os procedimentos.
-Claro. – ela falou, tristemente. Parte do encontro tinha sido arruinada com aquela emergência.
-A noite começou agora, Rin. – Hinten falou quando entrou com ela no elevador vazio – Isso não irá estragar meus planos.
Rin corou novamente e deu um sorriso.
As portas fechariam com apenas os dois, mas abriram quando os sensores alertaram mais uma pessoa desejando usar o elevador. E a garota arqueou as sobrancelhas ao ver o estranho de olhos dourados entrar e as portas fecharem atrás dele.
Nada foi dito durante alguns segundos, até que Hinten, ignorando a presença da outra pessoa, recomeçou a conversa com Rin, acariciando o rosto dela.
-Aonde quer ir depois? - Ele perguntou.
-Qualquer lugar, menos voltar para casa. – ela respondeu, sorrindo.
O "estranho" tinha o rosto impassível e observava o casal pelo canto dos olhos.
Sesshoumaru se perguntava como era possível que aquela adolescente fosse chefe de uma família que rivalizava com a dele. Um ar romântico e até meio infantil em contraste com o ar sério que alguém naquela posição deveria ter.
Tudo bem, ela não era tão nova assim. Só agia como uma adolescente apaixonada.
E tinha um pressentimento que essa forma de agir ainda ia causar problemas a ela.
Não que ele estivesse preocupado, claro.
-Do jeito que você fala – Hinten começou –, parece até que não gosta de lá.
-Eu odeio. – Rin falou, friamente. No canto, Sesshoumaru arqueou disfarçadamente as sobrancelhas ao escutar a conversa.
-Ora, Rin... – ele falou, aproximando os lábios. Rin ficou séria e preparou-se para o momento – Então esqueça Bankotsu e companhia enquanto estiver comigo...
O tímido sorriso dos lábios desapareceu centímetros antes de Hinten tocá-los. O rapaz arregalou os olhos quando Rin afastou-se abruptamente e arqueou as sobrancelhas ante ao rosto impressionantemente pálido dela, que somente agora percebera que se envolvera em algum plano de Bankotsu.
Sesshoumaru observava tudo curiosamente. O que estava acontecendo, afinal?
-Como sabe o nome dele...? – ela murmurou, tentando não chamar a atenção do estranho. Como se fosse possível.
-Rin, você me falou que ele é seu...
-Mentira. – ela o interrompeu, tocando os botões do elevador para fazê-lo parar. Estava sozinha, com um estranho, ou melhor, dois estranhos naquele elevador. Pela primeira vez sentia falta da guarda e arrependia-se por tê-los dispensado.
O elevador parou subitamente no segundo andar e a porta abriu-se atrás de Rin. Ela rapidamente virou-se para sair, mas soltou uma exclamação de surpresa ao ver os guarda-costas DELA parados atrás de Bankotsu, este sério e com a testa franzida.
-Rin, vamos ter uma conversinha... - ele falou. A garota recuou e foi agarrada por Hinten, sendo arrastada para fora do elevador fazendo inúmeros protestos.
Antes do elevador se fechar, ela lançou um olhar ao estranho de olhos dourados. Talvez fosse para pedir ajuda, talvez fosse para se certificar se ele não estava com eles.
No último segundo, ela percebeu que ele não fazia parte do plano de Bankotsu.
Quando se foram e o elevador ficou em silêncio, Sesshoumaru calmamente tirou a manga de cima do relógio de pulso para ver as horas. Depois olhou para o teto e esperou pacientemente para que chegasse ao térreo.
-Ban... Bankotsu... Está... ma-machucando! Que brincadeira idiota é essa? - Rin gritava ao tentar soltar-se.
-Não é brincadeira, Rin. - ele falou sério - Vamos acertar algumas coisas.
Rin sentia o pavor aumentar enquanto percebia para onde a levavam para o estacionamento nos fundos do hotel.
-Ei, 'pera lá! - Hinten se meteu na conversa - Vamos primeiro acertar as contas, Bankotsu! Você disse que me pagaria antes de trazê-la pra cá!
"Pagar"? "Trazer"? Então eles estavam mesmo juntos. Maldito dia em que Rin pousou os olhos no idiota com testa grande.
-Depois acertamos isso. - Bankotsu falou sem ao menos olhá-lo, ainda andando em frente ao grupo - Vá pra casa e depois acertamos as contas.
-Acertar depois, uma vírgula! Quero acertar AGORA!
Bankotsu parou de andar e imediatamente todos pararam. Virou-se subitamente para Hinten, tirou um revólver e, escutando um grito de Rin, acertou um tiro na testa dele.
-Deuses... - ela gemeu, sentindo as primeiras lágrimas descerem ao olhar o corpo de Hinten.
-Rin... - Bankotsu deu um suspiro e aproximou-se dela, colocando as mãos nos ombros dela - Eu preciso da senha de todas as suas contas bancárias.
-O... O quê? - ela arregalou os olhos, sentindo um calafrio.
-Renkotsu errou uma negociação... Temos pelo menos cinquenta milhões por aí espalhados pelas suas contas... Aquele idiota não transferiu tudo pra minha conta. Ainda tenho que descobrir o que ele fez com outros dez milhões que eu mandei que roubassem. Agora sim eu vou matar esse idiota depois que descobrir onde 'tá todo dinheiro. - baixou o rosto.
Rin deu um gemido e baixou o rosto. Aquilo era muito, muito ruim.
-Ban... Ban... - ela tremia - Eu... Eu dou pra você depois... Não precisa... fazer isso... - mordeu os lábios - Podemos voltar agora... pra casa...
-Eu não quero apenas isso... - ele parecia controlar a irritação que sentia e ergueu o rosto para continuar - Passe também todos os títulos da família.
-QUÊ? - ela gritou.
-Mas que... - ele apertou o ombro dela e gritou próximo ao rosto dela - DROGA, RIN! COLABORE, PÔ!
-Mas os títulos... Eu sou a dona... Pa-Papai...
-Vou resumir tudo: entregue tudo a mim e eu serei o líder. Você não precisa se preocupar com dinheiro porque você receberá uma mesada muito boa.
-Mas o Bokuseno...
Bankotsu irritou e pegou o revólver, dando um tiro num dos guarda-costas e matando-o, apontando a arma para Rin.
-Rin... Pela última vez... Está no seu quarto, no quarto do papai ou no escritório?
Rin olhava trêmula para a mira, sentindo as pernas balançarem a ponto de pensar que estava morrendo.
-Não vai dizer?
Rin continuava assustada, arregalando os olhos quando o viu afastar-se e fazer sinal a um dos guarda-costas e ver uma criança ali, com uma venda nos olhos e na mira de uma automática.
-Fale, Rin... - ele falou - Ou esta noite vai ser bem dramática.
-Bankotsu, não... - ela gemeu, sentindo mais lágrimas escorrerem - Eu... Eu...
-DIGA LOGO! - ele apontou de novo a arma na testa dela.
-Está no...
Dois tiros soaram e Bankotsu virou para ver o que acontecera. O homem que segurava a criança estava morto, o menino caído no chão vivo, mas assustado. O outro tiro acertou outro homem perto de Bankotsu, e este estreitou os olhos para ver ali quem tinha feito aquilo.
Mais quatro tiros soaram, e quatro outros homens caíram mortos, inclusive os dois que seguravam Rin.
-Quem é o animal que 'tá fazendo isso? - Bankotsu falou, ignorando uma Rin assustada que correu para abraçar o menino que fazia força para não chorar também.
Um silêncio perturbador pairou ali, apenas três da guarda ainda estavam vivos.
-Calma... Calma... Vai ficar tudo... bem... - Rin sussurrou por entre os cabelos negros do menino, abraçando-o fortemente.
-S-Senhor Bankotsu! - uma dos homens falou, apontando para um ponto além do canto que Rin estava. Bankotsu olhou e viu o estranho que vira no elevador parado atrás de Rin terminando de recarregar o cartucho da automática.
-Mas que inferno... - Bankotsu praguejou - O que vocês estão esperando? Que o cara caia morto no...
Sesshoumaru apontou para os dois dos que sobravam e matou um e feriu o outro, deixando Bankotsu boquiaberto.
-Então foi você quem roubou o meu dinheiro? - Sesshoumaru falou, friamente. Apontou para Bankotsu e este sentiu a dor em ter o ombro atingido por um tiro.
-Quem diabos é você? - Bankotsu perguntou, apertando o ombro ferido e apontando o revólver com a outra mão.
Sesshoumaru ignorou a pergunta e agarrou Rin pelo braço, e esta foi erguida sem resistência por estar assustada demais. Ele apontou a arma para a têmpora, dando um "click" para ameaçar:
-Qual o seu nome, menina?
-Hãã... Ah... - ela não sabia o que falar. Qual era o nome dela mesmo?
-Seu nome é Shiroi Rin? - ele perguntou, pressionando o braço e o corpo dela fortemente ao dele.
-So-Sou... Sou! - ela falou.
-Não minta, menininha... - ele falou, pressionando mais a arma até deixar marca na pele - Se é mesmo Shiroi, por que estão atacando você?
-Matem esse cara! - Bankotsu ordenou - Rin, onde estão os títulos?
-É mesmo uma Shiroi? - Sesshoumaru perguntou, fazendo Rin virar o rosto para ele.
-Eu... Não tô mentindo! - ela falou, chorando de olhos fechados e aumentando o tom de voz - Você 'tá apontando uma arma, não tenho por que mentir!
-Muito bem... - Sesshoumaru desviou a mira para Bankotsu, este ainda surpreso e tentando entender o que estava acontecendo - Quero meu dinheiro de volta, ou matarei a menina.
Um momento de silêncio se passou. Bankotsu respirava pesadamente, estreitando os olhos para a cena. A meia-irmã se encontrava ameaçada, aquele maluco dizia que ele havia roubado o dinheiro, o braço latejava de dor e poucos guarda-costas haviam sobrevivido.
Se Bokuseno soubesse o que estava acontecendo...
-Dane-se... - ele finalmente disse - Pode matá-la. Eu posso conseguir o que quero sem ela.
E virou as costas, saindo dali apressado e acompanhado do único homem que não estava ferido. O outro correu para alcançá-lo, mas caiu no chão ao ser atingido nas pernas por Sesshoumaru, este ignorando os gritos de Rin. Soltou-a e viu-a cair no chão e arrastar-se para abraçar de novo o menino. Ele deu um suspiro e observou durante alguns segundos aquela garota.
-Menina... - ele começou.
A garota abraçou fortemente a criança e olhou-o desafiadoramente.
-Não ma-machu... que... menino... - ela murmurou, tremendo.
Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas e deu as costas a ela, começando a andar em direção do homem caído no chão e que se arrastava para fugir dali. O líder dos Akai o pegou por um pé e arrastou sob os protestos dele e aproximou-o de Rin, jogando o corpo dele perto dela como se fosse um saco de lixo.
-O que você sabe? - Sesshoumaru perguntou, puxando-o pelo cabelo e apontando a arma na testa dele - Se mentir, não vou tolerar.
-Deuses... - Rin baixou o rosto para não ver aquilo.
-Por que tentaram matá-la? - Sesshoumaru perguntou.
-O senhor Bankotsu quer ser o líder da família. - o rapaz começou - Ele planejou matar a senhorita Rin depois que conseguisse tudo.
Um gemido de Rin foi ouvido.
-E quem é Bankotsu?
-O meio-irmão dela. - ele respondeu - Ele sempre quis ser o líder, mas a senhorita Rin foi escolhida como líder porele –Sesshoumaru estreitou os olhos ao ouvir a referência, sabendo de quem se tratava -, por isso não entregou o cargo.
-Já é o bastante. - ele falou, puxando o gatilho.
-CHEGA! - Rin gritou.
Sesshoumaru baixou a arma e olhou-a surpreso.
-Por quê...? - ela começou numa angústia, escondendo o rosto ao olhar para baixo - Por que todos estão nisso? Por que logo com ele... Com Bankotsu...?
O rapaz não respondeu e Rin mordeu os lábios.
-Pode atirar. - ele voltou a falar para Sesshoumaru - Se eu voltar, o senhor Bankotsu vai matar minha família. Vai me matar também.
-Não... Parem com isso... Por favor... - Rin gemeu, chorando.
Sesshoumaru guardou a arma e virou-se para Rin, falando para o homem:
-É melhor correr, então.
O rapaz não esperou segunda ordem. Levantou-se fazendo uma careta e saiu dali meio que mancando e correndo. Era uma visão que certamente faria Inuyasha e Miroku rirem por dias.
Finalmente, quando ficaram sozinhos, Sesshoumaru aproximou-se da garota, jogou a bolsa que deixara cair quando era levada àquele lugar no colo dela e estendeu a mão para que ela pudesse se levantar.
-É melhor se levantar. - ele falou, sério.
Rin ignorou a mão e continuou abraçando o menino. Desta vez, Sesshoumaru impacientou-se e agarrou-a pelo braço, não falando mais nada. Já que ela não falava, seria melhor não falar também.
Arrastou tanto Rin quanto o garoto, que estava sem a venda, para fora do estacionando, chegando ao lado menos iluminado do lado de fora do hotel.
Quando percebeu que ninguém os olhava com suspeita, ele a soltou e ignorou-a quando ela caiu no chão molhado.
-Menino - ele começou, abaixando-se para ficar da mesma altura do garoto -, onde você mora?
-Na... Zo-Zona leste... - ele balbuciou.
-Vou levar você pra casa, mas não conte a ninguém sobre o que ouviu ou escutou, entendido?
O menino não respondeu, ainda impressionado com o que acontecera.
-Você entendeu? - Sesshoumaru voltou a perguntar, desta vez num tom de ameaça, o que fez o garoto mover a cabeça num "sim".
Levantando Rin de novo e escutando um gemido dela por estar apertando demais o antebraço, Sesshoumaru pegou na mão no menino e levou-os para a avenida, esperando pacientemente pelo táxi.
Alguns minutos depois, um carro parou e os três entraram sem falar mais nada além do endereço da casa do garoto, que continuava abraçado a Rin como se ela fosse a irmã mais velha dele.
Próximo capítulo:
"-Sua família roubou meu dinheiro e eu o quero de volta."
"-O que vai acontecer... comigo? Você... Você vai... me... matar?"
"-Talvez eu goste delas porque elas têm uma vida. Algo que nunca tive."
Capítulo 3: Uma vida não vivida – parte 1
