Nota da autora: Esqueci-me de postar o capítulo na sexta, mas aí está com um pouco de atraso. Há algumas modificações nele. Não se preocupem, essencialmente ainda é o mesmo.
Obrigada a quem está comentando. Espero que gostem da revisão e das mudanças :) Alguém mais aí está lendo pela primeira vez?
Disclaimer: "Inuyasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.
A cor do dinheiro
Capítulo 3: Uma vida não vivida - parte 1
Para Lan Ayath.
Às dez da noite em Tokyo, capital japonesa, um táxi com três passageiros estacionou em frente a uma casa simples num bairro de classe média. De lá, duas pessoas saíram: uma garota, com a roupa suja, e um menino.
-Nós nos separamos aqui. - Rin falou - Acho que nunca mais voltaremos a nos ver.
O menino fez "sim" com a cabeça e notou que o terceiro passageiro saíra do táxi e aproximava-se deles. Rin ignorou-o e continuou olhando tristemente a criança.
-Qual é o seu nome? - ela perguntou, sorrindo.
-Satoro. - ele falou, fungando.
-Menino - Sesshoumaru começou -, diga a seus pais que você se perdeu e que foi encontrado por assistentes sociais. Eles encontraram seu registro e trouxeram você para casa, e que amanhã eles conversaram com seu pai e sua mãe.
O menino não falou.
-Entendeu? - Sesshoumaru perguntou mais impaciente.
Desta vez, Satoro murmurou um "sim".
-Não se preocupe, vai dar tudo certo para você, Satoro. - Rin falou, abraçando-o - Boa sorte. - murmurou depois que beijou a testa e cheirou os cabelos dele.
Ficaram assim por certo tempo, ignorando Sesshoumaru, que pacientemente esperava que Satoro entrasse na casa.
-Abrace-me mais forte. - ele escutou-a falar, notando que o menino esticava os pequenos braços pela cintura dela.
Finalmente os dois se separaram e Rin acenou para Satoro quando este virou-se para acenar para ela pela última vez.
O silêncio durou vários segundos angustiantes. Sesshoumaru estava atrás de Rin e arqueou as sobrancelhas quando percebeu que ela estava chorando ao virar-se para olhá-lo.
-O-Obri... gada... por não machucar o Satoro.
Sesshoumaru deu-lhe as costas e começou a falar:
-Não se engane. Eu não costumo fazer essas coisas. O menino nada tinha a ver com nossos problemas. Eu mato quem pensa em me trapacear. Eu mato quem tenta me matar. Eu mato quando é necessário.
E caminhou até o carro, entrando nele.
Rin esfregou os olhos com as costas da mão, borrando ainda mais a maquiagem. Deu um longo suspiro para controlar o choro e foi até o táxi, entrando pelo outro lado e sentando-se afastada de Sesshoumaru.
-Escute, menina. - Sesshoumaru começou - Sua família roubou meu dinheiro e eu o quero de volta. Seu irmão falou que está na sua conta. Você precisa confirmar isso e fazer a transferência para minha conta.
Rin ficou calada, mas fez "sim" com a cabeça.
-Leve-nos até um caixa eletrônico da Rua 24 horas.
O taxista falou "sim" e o carro partiu.
-Se não conseguirmos transferir esta noite, você ficará comigo até amanhã. Iremos ao banco fazer isso pessoalmente. - ele voltou a falar, não escutando a resposta dela.
Num caixa eletrônico, Sesshoumaru praguejou mais uma vez quando, pela terceira vez, Rin falou sem emoção alguma que a terceira conta dela estava bloqueada.
-Ele deve ter mandado bloquear tudo... - pegou o celular e digitou um número qualquer, escutando parte da mensagem da operadora, entregando a Sesshoumaru, que escutou o resto: "... está bloqueado por tempo indeterminado..."
Entregou a ela o aparelho e pegou o dele, novo, escolhendo um dos números da memória para ligar. Esperou apenas alguns segundos:
-Taijya, aconteceu uma emergência.
-Pode falar, Sesshoumaru-sama.
Rin olhou para os cantos, disfarçadamente querendo saber com quem ele falava, mas sem que ele se incomodasse em vê-la escutando a conversa alheia.
O que será que ele iria fazer agora?
-Quero que desbloqueie e mude a senha de algumas contas bancárias. E libere um celular.
-Isso tudo em quanto tempo?
-Tente o possível em duas horas. Se não conseguir, não durma esta noite.
-O senhor manda. - ela falou, alegremente -Pode passar os números das contas e das agências.
Sesshoumaru entregou o aparelho a Rin:
-Fale para ela apenas os números. Não diga seu nome.
Rin começou a falar e escutava os "sim, continue" de uma voz feminina enquanto falava pausadamente todos os números de contas, agências, as senhas e o número do celular.
-Muito obrigada. – a mulher na linha falou -Tenha uma boa noite.
-Boa noite... - Rin murmurou, entregando a Sesshoumaru o celular. Olhou-o com ansiedade, esperando por alguma declaração dele quanto ao futuro dela.
O rapaz deve ter percebido isso, pois encarou-a e começou a falar:
-Você ficará comigo até que minha secretária retorne a ligação.
-E... depois?
-"Depois" o quê? - ele perguntou, surpreso.
-O que vai acontecer... comigo? Você... Você vai... me... matar?
-Eu não sei se será necessário. Você poderá voltar para sua casa.
-Mas... - ela mordeu o lábio inferior.
-O quê?
-Bankotsu vai me matar. - ela sussurrou assustada - Ele armou isso e não vai parar até conseguir tudo.
Definitivamente aquela menina precisava de umas aulas particulares com a líder dos Higurashi, pois realmente não tinha noção de como ser líder de uma família mafiosa.
-Quando conseguirmos desbloquear as contas, você poderá ficar com o resto do dinheiro e morar longe de tudo. - Sesshoumaru falou - Pode até mudar de nome, se quiser.
O rosto dela estava voltado para o chão, mas ele notou um certo brilho de alegria quando ela o olhou rapidamente, mas que logo desapareceu.
-E se não conseguirmos? - ela perguntou.
-Eu vou conseguir. - ele falou, friamente – Eu sempre consigo tudo o que quero.
Ficaram calados.
-Eu não quero que Bankotsu me mate. - ela começou, balançando a cabeça para os lados - Se eu tiver de morrer, eu prefiro que você me mate. - finalizou, fazendo-o arquear as sobrancelhas.
Ficaram se encarando por algum tempo, até que Rin finalmente desviou o olhar, sentindo o coração bater rápido porque, ao encontrar os olhos dourados, ela tinha certeza de uma coisa: Sesshoumaru poderia matá-la.
Depois de saírem da Rua 24 horas, uma rua que, como o próprio nome dizia, não parava nunca na capital japonesa, Sesshoumaru pediu ao motorista que os levasse a uma loja de conveniência para comprar roupas novas para Rin. Enquanto a garota escolhia o que queria, Sesshoumaru recebeu a ligação da secretária quase uma hora depois de pedir o serviço.
-Consegui acesso, Sesshoumaru-sama. Foi bem difícil. Acho que alguém sabe o que estamos fazendo e quer dificultar meu trabalho.
-Transfira dez milhões para minha conta de Genève. Seu serviço acaba aí.
A mulher na linha riu e murmurou alguma coisa com "fazer uma brincadeira" antes de desligar.
Sesshoumaru guardou o celular no bolso do paletó e procurou por Rin, esta saindo de uma das cabines usando uma roupa mais simples. Calça jeans preta e uma blusa branca de mangas curtas e listras verticais rosas.
-Suas contas estão liberadas agora. - ele começou - Minha secretária irá transferir o dinheiro e depois eu poderei levar você a um hotel para resolver a sua vida.
-Minha "vida"? - ela repetiu.
Que vida?, ela se perguntou.
Alguns segundos depois, o celular de Sesshoumaru tocou e ele atendeu.
-O que foi agora?
-Sesshoumaru-sama - a secretária falou - As contas estão negativas!
-Quê? - ele falou, olhando Rin, esta segurando uma sacola com o nome da loja como se estivesse segurando uma pasta de colegial.
-As contas estão negativas. - a mulher repetiu- Foi por isso que foram bloqueadas pelo banco.
-Você tem contas negativas! - Sesshoumaru falou em tom acusativo e fazendo Rin ficar assustada - Por que não falou isso?
-Eu... - ela recuou, assustada – E-Eu não sabia...
O rapaz contou mentalmente até dez e voltou a falar ao celular.
-Hakudoushi está em casa?
-Está no escritório... - ela respondeu –O senhor desapareceu e ele estava esperando algum contato, mas falei o senhor estava ocupado e resolveu esperar eu terminar minha tarefa para pode ligar.
-Peça que ele me ligue daqui a dez minutos.
-Tudo bem. - ela falou e disfarçou inutilmente um bocejo ao telefone -Até daqui a pouco, Sesshoumaru-sama.
-Eu... Eu não sabia... -Rin começou quando o viu guardar o celular - Eu nem ao menos sabia que tinha o dinheiro e... - mordeu o lábio e parou de falar ao receber um olhar irritado dele.
-Seu irmão tirou todo o meu dinheiro. - Sesshoumaru falou - Suas contas estão negativas e ele deve estar com... - parou de falar ao ver que os olhos dela brilharam de excitamento como se tivesse se lembrado de algo.
-Ele não tem os títulos da família. - ela começou a falar, interrompendo-o por ter uma oportunidade de se salvar - Os títulos valem milhões... Ele também os queria, mas não sabe onde estão. Eu posso... - ela engoliu em seco - Pagar seus dez milhões com um deles e... – resolver minha vida, completou em pensamento.
-Pode mesmo fazer isso?
-O quê? Devolver seu dinheiro ou resolver minha vida?
Sesshoumaru franziu a testa. De onde ela havia tirado aquilo?
-Devolver meu dinheiro. – ele respondeu, indiferente – Eu quero apenas o que vocês pegaram de um homem que estava me devendo. Ele morreu no mesmo dia que deveria me pagar, e vocês foram os responsáveis por isso.
Rin mordeu o lábio inferior e franziu a testa. É claro que aquilo era obra de Bankotsu.
-Sim. - ela confirmou com a cabeça.
-E como você sabe se seu irmão não os pegou também? – ele perguntou, estreitando os olhos.
-Apenas eu sei onde estão... Ninguém mais sabe. – ela balançou a cabeça – Minha madrasta me disse onde estavam e que eu deveria usá-los numa... emergência. Isso é uma emergência, certo?
Isso foi antes de ela morrer. Será que ela já sabia o que iria acontecer?
-E onde eles estão?
-Num banco em Osaka. Eu só preciso ir lá para assinar os papéis e retirá-los.
-Então iremos até lá. - ele falou, fazendo-a arregalar os olhos - Vamos esta noite. Pegue mais algumas roupas para trocar-se durante a viagem. Arrume inclusive uma roupa social. Você não pode ir a um banco assim. – gesticulou na direção dela, fazendo menção ao conjunto simplório que ela usava.
A garota piscou duas vezes depois de olhar-se e depois murmurou "sim", afastando-se dali.
O celular tocou mais uma vez e Sesshoumaru atendeu.
-Onde você está? - uma voz tão fria e calma quanto a de Sesshoumaru estava na linha –Vi num noticiário o tiroteio na garagem do restaurante e ligaram para cá dizendo que o seu carro está abandonado lá. Aconteceu alguma coisa?
-Arranje duas passagens de trem para Osaka. Preciso que seja com nomes falsos. E preciso de documentos falsos. - o líder começou a falar - Vou recuperar meu dinheiro e tirar as férias que Miroku sugeriu.
-É? E a outra passagem é pra quem?
-Uma mulher.
A linha ficou em silêncio por dez segundos.
-Você escutou direito, Hakudoushi. É uma mulher que pode recuperar meu dinheiro.
-Por um momento... - ele começou a falar -Por breve um momento, pareceu-me que voltei no tempo...
Sesshoumaru não falou e Hakudoushi continuou:
-Essa mulher correrá algum perigo?
-Vai conseguir as passagens e os documentos ou não?
-Qual o nome dela?
-Preciso que mandem algumas roupas também. Liguem-me quando tiverem confirmado a partida e quando a minha mala estiver na estação.
-Você se lembra do que aconteceu com Sara, não?
-Hakudoushi... - Sesshoumaru começou - Se não vai me ajudar, é bom chamar Sango, pois ela obedece minhas ordens sem fazer perguntas.
-Não sou empregado seu pra obedecê-lo. - Hakudoushi falou -Assuntos da nossa família também são resolvidos por mim. Essa mulher correrá perigo ou não?
-Sim. - Sesshoumaru finalmente respondeu.
-Qual o nome dela?
-Não posso dizer.
-Por que não? É perigoso pra segurança dela?
-Muito.
-Então não precisa mesmo. - Hakudoushi falou -Quer pegar o primeiro trem da manhã?
-Sim.
-Eu mandarei arrumarem agora. Acho muito difícil ter uma viagem neste horário... Entraremos em contato quando conseguirmos resolver. Até logo.
-Até.
Deu um suspiro quando guardou o celular. Seria uma longa noite, sem dúvida. Resolveu convidar Rin para comer alguma coisa ali mesmo enquanto esperavam pelos resultados.
Às cinco e meia da manhã, numa das principais estações de trem da capital, Sesshoumaru acordou Rin, que dormia num dos bancos da plataforma por não ter o que mais fazer enquanto esperavam o horário de embarque. Ao acordar, ela notou uma gentileza dele: talvez para evitar que ela sentisse frio, Sesshoumaru colocou o paletó dele em cima do corpo dela para mantê-la aquecida.
A garota abriu os olhos e esfregou-os para ver melhor o rosto sério de Sesshoumaru.
-Já está na hora de ir. - ele começou - O trem sairá em dez minutos. É melhor lavar seu rosto agora.
Rin não falou nada, mas obedeceu-o ao ficar em pé e rumar ao toalete que existia perto dali. Sesshoumaru pegou o casaco e vestiu-o.
O rapaz deu um suspiro. Depois que chegassem a Osaka, iria tirar uma tarde só para dormir. Ficou acordado a noite inteira, aguardando as ligações do primo Hakudoushi e da secretária, descobrindo quase às três da manhã que a viagem estava marcada para às cinco e vinte. Por uma questão de segurança dos membros da máfia, era sempre preferível viagens de trem, principalmente porque ele portava uma arma e não poderia se livrar dela num aeroporto. Rin ficou acordada apenas porque queria saber tanto quanto ele se realmente viajariam naquela noite, mas não aguentou o sono quando soube que conseguiram uma viagem apenas para o início da manhã.
Deu um suspiro. As coisas tinham se complicado demais.
Percebeu que outros passageiros já estavam se organizando em fila para subirem a plataforma para adentrarem no veículo. Em pouco mais de três horas chegariam ao destino e ele poderia dormir.
Olhou para trás e viu Rin aproximando-se dele, esta segurando duas sacolas e com o rosto limpo e o cabelo arrumado.
-Vamos. - ele falou, pegando a mala que lhe enviaram.
Rin fez "sim" com a cabeça.
-Está com frio? - ele perguntou.
-Só um pouco. Acho que daqui a pouco esquentará.
O rapaz retirou de novo o casaco e entregou a ela, que o pegou com surpresa e vestiu-o sem comentar nada.
Cerca de cinco minutos depois, já estavam dentro de uma cabine, os dois sendo os únicos ocupantes. Ela sentou-se no banco em frente a ele e evitava olhá-lo.
-Pode dormir, se quiser. - ele falou, deitando-se no banco.
-Obrigada. - ela respondeu - Não quer o seu casaco? - estendeu a roupa a ele.
-Não preciso. - ele respondeu, colocando as mãos atrás da cabeça e olhando para o teto.
Rin engoliu em seco e abraçou a roupa. Olhou para o chão e apertou os dedos no tecido que há pouco fora usado por Sesshoumaru, conseguindo sentir o calor que restava ali.
Um choro de alguém gritando pelo pai e pela mãe chamou a atenção da garota, que deslizou a porta para encontrar um menino, de mais ou menos cinco anos, chorando próximo à cabine deles. Sesshoumaru virou o rosto para o lado para ver Rin abaixar-se para falar na mesma altura da criança:
-O que foi? Está perdido? - ela perguntou, sorrindo.
-Papai... Mamãe... - o menino fungou.
-Não chore... - abraçou-o e falou - Vou procurar com você, tá bom?
Virou-se para Sesshoumaru para dizer que sairia da cabine por alguns minutos, mas ficou surpresa ao encontrá-lo parado ao lado dela.
-Vamos logo. - ele falou - Quero dormir antes de chegar a Osaka.
Rin pegou a mão do garoto e saiu acompanhada pelos dois.
Momentos depois, eles encontraram os pais, que fizeram uma reverência em agradecimento por ajudarem o filho deles. Quando iam separar-se, o garoto agarrou a blusa de Rin.
-Obrigado, moça.
-De nada. - Rin respondeu com um sorriso, pousando a mão no topo da cabeça dele e afagando-o - Tenha uma boa viagem.
-Peraí... - ele colocou a mão no bolso esquerdo e tirou algo de lá, entregando na mão dela - Toma.
Rin abriu a palma e viu um chiclete. Os pais riram e ela deu um sorriso.
-Obrigada. - falou, ajoelhando-se para abraçá-lo - Abrace-me forte.
Novamente, Sesshoumaru viu pequenos braços esticarem-se ao redor da cintura de Rin e esta pressionando o pequeno corpo contra o dela.
Quando se separaram, o pai pegou a pequena mão do filho e falou, rindo:
-Ora, ora, Takeshi... Não tinha nada melhor pra dar pra ela?
-Ela tá triste. - ele falou, fazendo os quatro adultos ficarem surpresos - O chiclete vai alegrar a moça.
Rin piscou e deu um sorriso que tentou disfarçar o que sentia. Os pais curvaram-se e levaram o garoto para a cabine deles.
Quando ficaram sozinhos no corredor, Sesshoumaru a viu suspirar pesadamente antes de virar-se para inclinar-se.
-Obrigada mais uma vez. - ela começou - Obrigada por ajudar a encontrar os pais dele.
-Não pode andar sozinha por aí. - ele justificou-se - Você não está acostumada a andar sem seus guardas, está?
Rin meneou a cabeça.
-Tenho que garantir que chegueviva a Osaka. - ele recomeçou - Numa hora dessas, seu irmão já deve saber que não está morta e vai começar a busca por você.
Deu as costas e começou a andar em direção da cabine, escutando os passos dela atrás.
-Você também. - escutou-a falar e parou.
-Eu o quê? - ele perguntou, virando-se.
-Você não anda com seguranças.
-Não preciso deles. - ele falou rispidamente - Posso me proteger sozinho.
-Entendo. - ela baixou o rosto por conta da resposta áspera.
-Nunca há garantias de que eles realmente irão cumprir o dever deles, como os seus fizeram.
A garota deu um sorriso fraco e fez um movimento afirmativo.
Alcançaram a cabine e Sesshoumaru deitou-se novamente depois que Rin deslizou a porta para fechá-la. Ela sentou-se no outro banco e tirou os sapatos para unir as pernas e abraçá-las.
Abriu novamente a mão para admirar a goma de mascar que acabara de ganhar, admirando a embalagem e as letras garrafais da marca com um sorriso, como se nunca tivesse visto um antes.
-Você gosta de crianças, não? - escutou Sesshoumaru perguntar, erguendo o rosto para olhá-lo.
-Gosto. - respondeu, voltando a baixar o rosto e admirar o chiclete, acariciando-o como se fosse algo precioso.
-Você tem filhos?
Rin moveu a cabeça num "não".
-Você tem? - ela perguntou.
-Não. Mas quase tive.
-"Quase"?
-Minha esposa morreu.
Um momento de silêncio.
-Sinto muito. - ela murmurou.
Mais um momento sem palavras.
-Tudo bem. - ele comentou.
Outro silêncio.
-Por que gosta de crianças? É estranho que goste se não tem filhos. - Sesshoumaru comentou – Você convive com elas?
-Não é necessário ser pai ou mãe para gostar de crianças, assim como não é necessário que sejamos pais delas pra que elas gostem de nós.
Sesshoumaru não falou.
-Eu sempre fui muito sozinha. - ela desabafou – Minha mãe verdadeira morreu há anos e fui criada pela minha madrasta.
Foi ela quem me contou que éramos de uma família de mafiosos. Eu confesso que fiquei assustada porque vi muita coisa dentro de casa, e ela que me protegia do meu pai.
Ele não era uma boa pessoa e nós só descobrimos isso tarde demais. Eu soube que ele matou muita gente... culpada e inocente. Quando minha mãe soube, ela o deixou. Eu acho que ele mandou matá-la, porque eu nunca mais soube dela.
Mas eu nunca saí de casa porque... acho que ainda tinha esperança que ele mudasse de lado e que pudéssemos ser uma família, afinal de contas. Acho que no fundo eu... gostava dele.
Ficou calada por alguns segundos.
-Eu sou louca, não?
-Pra gostar de alguém que matou asua mãe, com certeza. - ele falou, sem emoção.
-Foi culpa minha que as coisas ficassem desse jeito.
Rin baixou o rosto.
-Bankotsu não é meu irmão de verdade. Ele era filho do meu pai com minha madrasta. Eles estavam juntos beeem antes de minha mãe morrer... – ela deu uma risada curta – Minha madrasta era uma pessoa muito boa, ela não sabia que meu pai era casado e mesmo assim me adotou como se fosse filha dela. Eu tinha mais um irmão mais velho e Bankotsu. Ela quis me proteger de tudo e me fez jurar que não iria participar de nenhum negócio da família.
-Por que então você aceitou ficar com o cargo? - Sesshoumaru perguntou, ainda deitado e olhando o teto da cabine.
Rin soltou o ar preso nos pulmões.
-Foi ele quem disse que eu deveria aceitar. - ela falou num sussurro, e Sesshoumaru sentou-se rapidamente na cadeira, ansioso para ouvir o resto da história – Que assim eu poderia acabar com os negócios da família na yakuza e ficar longe de Bankotsu. Ele disse que minha madrasta havia conversado com ele e que havia concordado. Agora eu sei que é mentira. – balançou a cabeça – Nada mudou e ele nunca mais falou comigo. Eu não sei o que fazer. Eu queria só que tudo isso acabasse e ficar sozinha, longe de toda a minha família.
Sesshoumaru franziu a testa. Agora entendia qual era a relação dela com a família, e muita coisa fazia sentido. Ela não tinha perfil de mafiosa. E aquele plano de sair da yakuza nunca daria certo.
-O que pretende fazer com o resto do dinheiro dos títulos? – ele perguntou, já num tom mais curioso. Estava interessante saber aquela história. Ele teria muito o que conversar com Hakudoushi.
-Acho que vou doar pra alguma fundação e ficar com uma parte pra me manter. Eu confesso que vai ser difícil porque eu não sei fazer nada... - deu um sorriso sem graça - Eu só terminei o ensino médio e meu pai disse que poderia me sustentar, que não deveria me preocupar com o futuro... Que não era necessário continuar estudando ou trabalhando.
Rin olhou para a paisagem pela janela.
-Talvez eu arranje um emprego num instituto, fundação ou qualquer outra coisa relacionada com crianças... Meu histórico escolar é bom.
-Não acha cansativo trabalhar com elas?
-De jeito nenhum. - ela falou - Eu as adoro. Não há nada tão bom quanto o sorriso delas... Elas sorriem quando você sorri, abraçam quando você as abraça, brincam quando você brinca, e não pedem nada em troca... É por isso que sempre que vejo uma eu a abraço. São diferentes das pessoas que conheci... Quando alguém da minha família sorri, é porque quer algum favor seu.
Sesshoumaru continuou olhando o teto. Alguém já dissera a ele algo parecido... Se não estava enganado, tinha sido a líder da família Higurashi.
-Talvez eu goste delas porque elas têm uma vida. Algo que nunca tive. - Rin disse, pressionando o rosto nas pernas enquanto as abraçava - Porque eu não acho que tenha vivido uma.
Próximo capítulo:
"-Eu não estava fazendo nada de errado. Estou agradecido aos deuses por a deixarem estar comigo."
"-É que minha esposa falou isso também e ela morreu."
"-Algumas coisas não podem ser evitadas, Sesshoumaru-sama."
Capítulo 4: Uma vida não vivida – parte 2
