Nota da autora: Eu não tive como atualizar na sexta. Fiquei completamente cheia de trabalho. Mas aí está. Gostaria muito de evitar os atrasos porque só posso atualizar uma vez por semana, mas não posso impedir meus chefes de me chamarem para o trabalho :( Vamos ver como fica na semana que vem, né?
Recomendo muito que leiam este capítulo enquanto escutam a canção da Sakamoto. Quem quiser, pode pedir que eu mando por email. Mas dá pra encontrar na internet, faz parte também da trilha do anime Angel Sanctuary.
Obrigada a quem está comentando :)
Disclaimer: "Inuyasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.
A cor do dinheiro
Capítulo 5: Apenas te tocando
Trilha sonora: "Cries in the dark", por Sakamoto Maaya.
Para Lan Ayath
No quarto que alugara, Sesshoumaru mudou pela quinta vez o canal da televisão. Não havia absolutamente nada de interessante para ver. Algumas notícias sobre o congresso, sobre a família do Imperador, revoltas de partidos anarquistas, terremotos, maremotos, investigações de algumas famílias mafiosas... Nada fora do comum. Ele nem ao menos estava preocupado em se informar sobre alguma coisa, pois geralmente eram os outros que se encarregavam de dar as notícias mais importantes.
A garota no quarto ao lado estava dormindo quando a deixou, depois que recebera os remédios que encomendara de uma farmácia próxima ao hotel. Jinenji havia dito que ela ficaria boa, que era apenas uma gripe, que precisava de uma boa noite de descanso. Portanto, não precisava se preocupar. Ela ficaria boa logo, não?
E se...
Balançou a cabeça. Bem, ele estava nas férias dele, não? Só estava ali porque tinha que cuidar de alguém... Logo ela melhoraria e ele poderia sair pela cidade e se divertir pela zona noturna, como costumava fazer antes com o irmão e os primos, após Miroku começar a morar com a família dele.
Aquela menina Shiroi poderia se divertir também... Se bem que ela não parecia ser muito próxima de tais "diversões".
Falando nela...
Deu um suspiro e levantou-se. Talvez fosse culpa o que sentisse por fazê-la sofrer tanta pressão de uma única vez. E agora? Estava há quatro dias cuidando de uma garota doente, coisa que nem ao menos fizera com Sara, ou mesmo o irmão. Uma vez mandou Inuyasha se levantar com as próprias pernas quando este fora baleado nos membros inferiores.
Riu quando se lembrou dos adjetivos que o irmão proferiu.
O chão estava frio naquela noite, então pegou um par de sandálias de madeira para calçar e ir até o outro quarto para ver Rin. Logo ela teria que tomar outro remédio... Se bem que deixara um bilhete para que ela mesma o fizesse, caso acordasse antes dele aparecer por lá.
Quando abriu a porta, Rin ainda estava dormindo. E também não tinha acordado antes para tomar o medicamento. Era a única coisa que ela fazia nos últimos quatro dias. E ela parecia tão calma, tão tranquila, sem preocupação alguma...
Aproximou-se da cama e tocou-a no ombro.
-Ei... Acorde. – balançou-a um pouco até notar aqueles enormes olhos castanhos abrirem e olharem-no com um brilho fraco – Está na hora do seu remédio.
-"Remédio"? – ela repetiu numa voz mole.
-Sente-se. – ele falou, tirando um comprimido de uma cartela e enchendo um copo com água, tudo em cima da mesa ao lado da cama.
Rin fez o ordenado, e deixou o pano que cobria a testa cair na cama e levou as mãos à cabeça, puxando o cabelo.
-Minha cabeça está... doendo... tanto... – ela murmurou.
Sesshoumaru entregou o copo e o comprimido, colocando depois as costas da mão direita na testa dela.
Quente.
-Obri... gada... – ela murmurou quando entregou o copo a ele, desabando a cabeça no travesseiro e fechando os olhos.
Pronto. Tarefa cumprida. Podia voltar para o quarto e voltar a ver as notícias sobre o congresso, sobre a família do Imperador, revoltas de partidos anarquistas, terremotos, maremotos, investigações de algumas famílias mafiosas...
Passou a mão no cabelo em sinal de exasperação.
Qual era o problema que o incomodava, afinal?
Era melhor ficar ali. A vista da cidade do quarto dela era melhor que a dele. E ela ainda tinha mais um remédio para tomar durante a madrugada.
É, seria melhor que ficasse logo ali. Mas era um pouco ridículo que ele, o líder da família Akai, tivesse que cuidar de uma garota gripada. Para isso ele sempre contava com a presença de Hakudoushi, que se negava a deixar qualquer outra pessoa leiga cuidar de gente doente.
Resolveu então, numa certa hora, aproximar a poltrona da cama para velar a garota melhor.
Molhou novamente o pano e ajeitou-o na testa dela, preocupando-se com o fato da febre não ter baixado.
Foi nessa que o celular tocou e ele afastou-se para ir para a sacada e atender, dando um suspiro ao ver o nome na tela.
-O que foi, Kikyo?
-Que Higurashi é essa que você tem aí em Osaka?
-É impressionante como as notícias voam entre uma cidade e outra.
-"Agradeça" a Hakudoushi. - Kikyo voltou a falar - Ele recebeu um comunicado do hospital daí. Um médico atendeu uma conhecida sua e você falou que era uma Higurashi. – ela bufou na última palavra - Hakudoushi pediu para que eu ligasse porque disse que se aborreceria e acabaria discutindo com você por não levá-la ao hospital. - tomou fôlego - Pode me dizer o que está acontecendo?
-Uma garota passou mal e estou cuidando dela. Tive que inventar um nome para preencher o formulário de Jinenji.
-E quem é ela?
-Não posso dizer.
-E que diabos faz em Osaka com uma mulher?
-Preferia que eu estivesse com um homem?
-Não teste meu humor, Sesshoumaru. - Kikyo falou com frieza - Por acaso está acontecendo algum problema para fazer você sair de Tokyo e ter que resolver aí?
-Não acho que isso seja importante para você.
-Eu fico preocupada porque meu sobrinho poderá correr perigo. Qualquer ameaça à sua família também é uma ameaça a ele.
-Seu sobrinho anda não nasceu, e não esqueça que ele é filho do meu irmão.
Silêncio por alguns segundos.
-Já resolveu o problema? - ela voltou a falar.
-Ainda não sei. - ele respondeu numa voz pausada - Vou descobrir quando voltar a Tokyo.
-Se precisar de ajuda, não hesite em pedir ajuda aos Higurashi. Falo isso porque temo pelo nascimento da criança.
-Vou pensar nisso.
-"Pensar"? - ela repetiu, dando uma risada - Como se tivesse outra opção.
E desligou.
Sesshoumaru guardou o aparelho e deu outro suspiro. Saiu da sacada e deslizou a porta, voltando a sentar-se na poltrona para cuidar de Rin.
Mas ficou sentado por muito tempo, adormecendo um pouco antes de acordar com algumas falas curiosas. Era Rin falando durante o sono, a voz quase rouca e com suor escorrendo pela testa.
-Ma... Ma... mãe...
O rapaz esfregou os olhos e bocejou, levantando-se da poltrona. Que maravilha, agora ela estava delirando por causa da febre.
-Se... sshou... maru... – ela finalmente falou.
Sesshoumaru, que estalava o pescoço enquanto observava o horizonte, olhou-a com curiosidade.
-Dei... xe... me... ir... com ela...
Aproximou-se dela e tocou mais uma vez a testa. Estava tão quente quanto antes, o que o fez molhar o pano e colocá-lo de novo no local, afastando a franja que estava lá.
-Deixe... me... ir... com... ela...
Então ele estava nos sonhos dela?
"Eu me sinto segura com você."
Puxou o tecido da calça folgada para agachar-se, cruzando os braços em cima da cama para apoiar o queixo enquanto observava a garota daquele ângulo. O rosto pálido, com suor nas laterais, testa franzida e parecendo bastante sofrida, nada que combinasse com uma garota daquela idade, com uma vida como a dela. Geralmente elas eram sempre muito mimadas e...
-Mãe...
"Quando minha mãe soube, ela o deixou. Eu acho que ele mandou matá-la, porque eu nunca mais soube dela."
-Sesshou... maru...
-Estou aqui... – ele nem ao menos sabia o porquê de ter falado. Foi algo que simplesmente escapou.
-Quero ir... com ela...
Devia ser algo muito deprimente não saber onde estava uma pessoa tão importante como a mãe, imaginando o que poderia estar fazendo ao lado dela...
Ou ter uma e imaginar o que ela poderia fazer se...
Entendia um pouco o que ela sentia.
Mesmo ele já tinha discutido muito, até demais com a mãe com relação a algumas decisões na vida. A última, e que totalmente cortou o relacionamento entre eles, foi depois da morte de Sara. Também teve a vez quando ensinou a Inuyasha a matar, lembrava-se da angústia da voz dela quando ela perguntou o porquê dele ter obrigado o irmão a fazer aquilo. E quando Sesshoumaru perguntou o motivo de tanto barulho por ter matado um rapaz, ela respondera que a mãe dele sofreria demais.
Pensando por outro lado, Rin também sofria por não saber o paradeiro dela, mas, no fundo, já sabia.
Sempre soube.
Na noite do dia seguinte, Sesshoumaru estava novamente deitado na cama, trocando os canais pagos de filmes. Quanta porcaria se produzia para a tevê hoje em dia. Como alguém conseguia aguentar ver o que um grupo de pessoas desocupadas fazia isoladamente numa casa vigiada por câmeras?
Uma semana e meia havia se passado desde que começara a cuidar de Rin. A febre havia baixado, as condições melhoraram, ela começou a se esforçar para comer sem vomitar. O sono ficou também mais regular – diferente do dele.
Depois que oficialmente se declarou "saudável", Rin ficou mais isolada no quarto dela, sem sair para absolutamente lugar algum, pedindo as refeições diretamente do quarto. Conversava pouco com o rapaz, e apenas quando este ia vê-la. Havia poucos indícios de febre – às vezes ela baixava durante o dia, no final da tarde voltara, ora sim, ora não. De qualquer forma Rin ficava de cama, descansando, evitando ficar novamente doente e retardando a volta para Tokyo. No décimo primeiro dia ali, quando foi vê-la, quase oito da noite, apenas para se certificar de que ela estava ali, ele a viu dormindo de novo e tremendo. A febre aparentemente voltara e com força total, e ele finalmente admitiu que teria sido melhor deixá-la no hospital.
Os remédios pareciam não estar fazendo efeito, e ele acreditou que estava mais alta que da noite anterior.
Normalmente ele teria ordenado que alguém cuidasse dela, mas como estavam sozinhos...
Mas ele voltou depois para o quarto. E ficou aí ficou impressionado com a quantidade de filmes ruins produzidos nos dias de hoje...
Quando se cansou de um em que o soldado matava civis numa guerra, num país que nem sabia onde ficava, ele desligou a tevê e levantou-se. As expressões faciais dos que morriam podia provocar risos em quem visse... Ele pelo menos já vira expressões mais fortes nos rostos das pessoas que matou ou que mandou matar.
Era quase meia-noite, e ele foi ao quarto de Rin apenas para se certificar de que ela estava... ali. E que tinha tomado o remédio, o mesmo do dia anterior.
Viu-a sonolenta e sentada na beirada da cama, ajeitando um dos kimono que usava ao redor do corpo.
-Foi aonde? – ele perguntou, aproximando-se da cama.
-Só ao banheiro... – ela murmurou com a voz rouca – Acho que preciso tomar meu remédio, né?
O rapaz pegou um copo e encheu-o com água, vendo-a beber alguns goles junto a um comprimido.
Quando Rin deitou-se, Sesshoumaru estava cobrindo-a de novo quando escutou:
-Desculpa... por eu dar tanto trabalho...
Sesshoumaru não falou, mas tinha a mão na testa dela. Ainda estava com febre alta, o que o fez colocar o pano molhado no local.
-Não precisa... cuidar tanto... de mim. - ela murmurou numa voz suave - Pode voltar para seu quarto, Sesshoumaru-sama.
-Não diga bobagens. - ele falou, sentando-se na poltrona - A febre pode aumentar.
-M... Mas...
-Vou ficar aqui ao seu lado. - disse o rapaz - Segurando sua mão.
Hitotsume no kotoba wa yume
Nemuri no naka kara
Rin o encarou como se o olhasse pela primeira vez, e ele fez o mesmo.
Mune no oku no kurayami wo
Sotto tsuredasu no
Rin moveu a cabeça num fraco "sim" antes de fechar os olhos e cair na inconsciência.
Durante a madrugada, ela piorou e Sesshoumaru chegou a ligar para Hakudoushi para pedir ajuda, ao que o primo, sob um sensível mau humor, sugeriu que ele desse mais um comprimido para a febre e colocasse um outro pano ao redor do pescoço. Ah, e que a levasse a um hospital.
Somente ao final da madrugada é que ela apresentou melhoras. A febre diminuiu e o pequeno momento de delírio que ela tivera em certa hora acabou. Os arrepios também cessaram e a garota parecia dormir tranquilamente, o que também era uma boa ideia para o rapaz, que saiu do quarto e trancou-o para segurança dela, indo depois ao quarto dele para jogar-se na cama e dormir.
Por volta de nove horas, Rin acordou. Olhou para um lado, olhou para o outro e não viu Sesshoumaru.
O cansaço havia passado, mas ela sentia o corpo incomodamente quente e pesado. Sentiu-se fraca, mas não o bastante para não poder levantar e andar pelo quarto. Foi até a sacada e deslizou a porta, observando a paisagem do centro de Osaka.
Tinha parado de nevar, mas a neve da madrugada não derretera, deixando aos visitantes um belo cartão-postal, no qual o sol também brilhava fracamente, derretendo o gelo das folhas de árvores e plantas. Mas continuava frio. Foi o frio que a deixou novamente doente. Por que tinha que ficar observando essa neve no dia anterior?
Balançou a cabeça e voltou para o quarto, deslizando a porta para fechar. Foi até a outra para sair do quarto, mas percebeu que estava trancada.
Outra vez balançou a cabeça. Com certeza era obra do acompanhante daquela viagem. É para a própria segurança, certamente ele diria.
Foi então ao banheiro e encontrou tudo que precisava para um banho relaxante: toalhas limpas, sabonete, água num vasilhame, uma banheira e um chuveiro para quem preferia o estilo ocidental.
Rin tirou as roupas lentamente, sentindo-se muito indefesa sem o que protegia a pele. Prendendo o cabelo, sentou-se no banquinho e pegou o balde e o sabonete para começar a lavar-se.
O primeiro contato com a água foi sob uma exclamação de susto, já que ela não imaginava que estivesse tão gelada. Pele quente e água gelada, será que passaria mal de novo?
Na banheira, a água estava morna e ela aproveitou para fechar os olhos e relaxar.
Que vergonha... Uma criatura daquela idade passando mal como se fosse uma criancinha. Sesshoumaru devia estar pensando horrores dela por ter dado tanto trabalho.
Decepcionante.
Estava há pelo menos dez dias ao lado de um homem como ele e ficou doente... Bem, ele ficou ao lado dela, embora não como muitos esperariam. Quer dizer... Estava sozinha, com um homem que mal conhecia como companhia...
Colocou um dos braços na testa, olhando o teto enfeitado do quarto de banho.
Só tivera um encontro em toda a vida, um único beijo que fazia questão de esquecer que tivera.
-Que menina boba... - ela falou numa voz fraca.
Quero meu dinheiro de volta, ou matarei essa menina.
Não se engane. Eu não costumo fazer essas coisas. O menino nada tinha a ver com nossos problemas. Eu mato quem pensa em me trapacear. Eu mato quem tenta me matar. Eu mato quando é necessário.
Sesshoumaru era tão...
Você gosta de crianças, não?
Pra gostar de alguém que matou a sua mãe, com certeza.
Eu apenas queria conversar.
Estou aqui...
... próximo e também tão distante.
Futatsume no kotoba wa kaze
Yukute wo oshiete
Um som no quarto chamou a atenção dela e Rin saiu da banheira, pegando o roupão para vesti-lo e ir para fora.
Quando abriu a porta, alguém tinha acabado de sair. Além disso, havia um carrinho com a refeição matinal perto da cama.
-Sesshoumaru-sama... – ela murmurou.
Mas Sesshoumaru não estava ali.
Minutos depois de arrumar-se, Rin comeu o desjejum, sempre pensando numa forma de agradecer a Sesshoumaru por estar... ali.
Quando acabou a refeição, foi até a porta para descobrir que não estava mais trancada.
No final da tarde, Rin subia as escadas do hotel para voltar ao quarto depois de jantar no restaurante, dando um suspiro cansado ao fazê-lo.
Finalmente havia decidido sair do quarto e dar um passeio dentro do hotel, almoçando no próprio restaurante, descobrindo nessa hora o nome com que Sesshoumaru a "batizou". Um dos garçons perguntou use tinha sido ela quem havia passado mal, chamando depois a nutricionista do local para preparar uma comida saudável depois de ouvir a resposta afirmativa de Rin. Obrigação para com os hóspedes e sempre pensando no bem-estar de todos, lemas comuns dos serviços oferecidos por eles.
Depois que acabou de almoçar, Rin foi para as salas de jogos infantis para se divertir com os menores. Era melhor que ficar no quarto sozinha, vendo a neve que voltara a cair cobrir a cidade. Ela detestava inverno. Era a época do ano que mais sentia frio.
Deu outro suspiro cansado e abriu a porta do quarto, fechando-a quando entrou e surpreendendo-se ao notar a presença de Sesshoumaru na sacada, pensativo.
Estava na hora de agradecê-lo, Rin. Melhor preparar-se para fazer bonito.
A porta da sacada estava aberta, deixando o frio invadir o quarto. Rin foi até lá silenciosamente, ajoelhando-se no chão gelado no momento em que Sesshoumaru virou-se para ver quem havia entrado.
Estava ele pensando no porquê de Rin ter sido atacada daquela forma. Se ele quisesse matá-la, não escolheria um local público; se tivesse que tomar os títulos e ficar com todo dinheiro, simplesmente mandaria Sango mudar toda a papelada para o nome dele. Mas o mau pressentimento quanto ao plano do irmão dela continuava, e ele resolveu pedir a opinião de Hakudoushi, presumindo que também seria melhor reunir o Conselho da Yakuza e...
O mau pressentimento ficou mais forte ao pensar naquilo. Será que tinha algo a ver com isso?
Quando virou-se, ficou surpreso com aquela reverência, ainda mais quando Rin encostou a testa no chão.
-O que está fazendo? – ele perguntou.
-Estou agradecendo por ter cuidado de mim. E pedindo aos deuses que o protejam também.
Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas, olhando a garota prostrada aos pés dele.
Kami-sama no ude no naka e
tsubasa wo aoru no
-Levante-se, menina. – ele falou – O chão está frio.
Rin ergueu o rosto, franzindo a testa quando tentou descobrir que tipo de tom de voz era aquele que ele usara. Algo meio suave, meio preocupado, meio... triste.
Mas ela levantou-se, limpando as mãos e o tecido que cobria o joelho, aproximando-se do parapeito, um pouco afastada de Sesshoumaru.
-Está se sentindo melhor? – escutou-o perguntar.
-Minha garganta dói um pouco e meu corpo parece pesado... Mas estou melhor que antes... Eu acho...
Ficaram olhando a neve cair, e ele notou pelo canto dos olhos a forma com que ela abraçou os ombros para se proteger do frio.
-Gosta do inverno? – ele perguntou, fingindo estar interessado na paisagem branca.
-Não.
-Por quê?
Rin não sabia como dar uma resposta satisfatória, demorando a responder.
-Acha muito frio? – ele tentou adivinhar.
-Também.
-"Também"?
-Eu sempre me sinto mais sozinha. Dá a impressão de que as pessoas se afastam, em lugar de ficarem mais próximos. No verão é muito melhor. As pessoas ficam mais animadas, mais... humanas.
Era uma boa observação, foi o pensamento dele, isso para quem nunca teve alguém.
Nunca...?
-Você nunca teve alguém?
-"Alguém"? – ela repetiu, movendo a cabeça negativamente.
-Aquele rapaz? – Sesshoumaru perguntou – O que estava no restaurante com você?
Ah, aquele... Pobre Hinten, era a primeira vez que Rin pensava nele desde que toda aquela confusão acabara. Ele tinha sido um canalha no final das contas, mas não merecia morrer.
-Nunca tivemos nada. – ela falou com um sorriso tímido – Aquele foi nosso primeiro encontro.
-E não teve outro antes dele?
A garota demorou a responder, e ele percebeu a hesitação dela.
-T-Teve...
-Por acaso ele também morreu no primeiro encontro? – ele perguntou, deixando-a ainda mais sem jeito.
-Ah... Não. – Rin engoliu em seco – É que terminou na mesma hora.
-Sério? – perguntou, ainda olhando a neve, mas persuadindo-a a contar.
Rin ficou em silêncio.
-E como foi? – ele foi insistente.
Desta vez, Rin ficou irritada.
-Prefiro não contar. – falou num tom áspero.
-Mas eu estou interessado. – o rapaz falou, fitando-a mais seriamente – Quero ouvir.
Rin corou e tentava pensar em alguma outra coisa para falar e ignorar as insistências dele.
-Se não morreu, então ele não foi ao encontro.
-N-Não. – ela gaguejou, sentindo o rosto aquecer. Como é que iria contar para alguém como ele que afinal de contas não tinha experiência alguma com homens? Porque era o que a história dela iria provar.
-Ou ele fez algo que você não gostou.
-Podemos mudar de assunto, por favor? – ela fez uma súplica.
Ficaram finalmente em silêncio.
Céus... Como ele podia fazer perguntas e mais perguntas sobre algo que ela detestava lembrar?
-Por que não gosta de falar? – Sesshoumaru perguntou.
-Porque foi simplesmente horrível! – ela finalmente falou, abaixando o rosto e tocando a testa no parapeito, não criando coragem de olhar o rapaz ao lado – Não gosto de lembrar.
-Por quê?
Rin endireitou o corpo e olhou o céu, dando outro suspiro.
-Você vai rir de mim... E eu não quero parecer... motivo de piada. – finalmente confessou, soltando todo o ar dos pulmões.
-A única pessoa que é motivo de piada pra mim é meu irmão. – ele falou com suavidade, completando – Não vou rir.
-É que... – Rin começou numa voz trêmula – Foi terrível... Nós... Nós... – engoliu em seco e tomou coragem – Minha família atrapalhou tudo... Nós jantamos em casa e o idiota do Bankotsu apareceu... Queríamos ficar sozinhos, mas não conseguimos...
Rin passou a mão no canto dos olhos.
-E-Ele tentou me beijar, mas Bankotsu ordenou que ele fosse revistado... E ainda viram tudo...
Deu uma pausa e começou a chorar, não enxugando as lágrimas quentes que escorriam pelo rosto vermelho.
-Foi tão ridículo... Ele nunca mais falou comigo e era um dos meus amigos... Parece até que fizeram de propósito, só pra me deixar envergonhada.
-Foi de propósito. – Sesshoumaru falou, suavemente.
Rin soluçou e tentou limpar as lágrimas, esfregando a manga da blusa no rosto.
-Eu... N-Não nasci pra isso... Eu não entendo de máfia, eu não gosto da minha vida.
O vento começou a soprar mais forte, indicando que viria uma tempestade de neve ainda naquela noite.
Tokete itta kanashii koto wo
Kazoeru you ni
Kin iro no ringo ga
Mata hitotsu ochiru
-Era meu primeiro beijo, e foi estragado... Nunca pensei que seria daquela forma... Eu nunca me senti tão idiota. Todos rindo de mim.
Sesshoumaru fingiu não escutar os soluços dela.
-É nessas horas que eu percebo que sou uma garota sozinha... Que sinto a falta do apoio de alguém. De um amigo. De qualquer um.
Vou ficar aqui ao seu lado... Segurando sua mão.
Rin balançou a cabeça e enxugou os olhos com as mangas do blusão de lã azul-claro que usava.
-Desculpe por falar essas coisas... – ela disse – Acho que aborreci você.
O rapaz continuou olhando a paisagem, parecendo não se importar com o vento frio.
-Vou deixá-lo sozinho. Aqui está frio... Vou arrumar minhas coisas. – ela falou, virando-se para sair da sacada.
-Mas você gostou? – foi a pergunta dele, fazendo-a parar.
Rin virou-se e deu um passo para trás ao ver o rapaz encarando-a pela primeira vez desde que começaram a conversar, os olhos serenamente dourados.
-Como disse?
-Você gostou... do seu primeiro beijo? – ele perguntou sem deixar de encará-la, dando um passo em direção dela.
A garota fez "não" com a cabeça e ficou petrificada quando viu-o estender a mão e pegar o queixo dela, puxando o rosto rosado por causa do choro para perto dele.
Mita koto mo nai fuukei
Soko ga kaeru basho
Tatta hitotsu no inochi ni
Tadoritsuku basho
Os olhos dele se fecharam e os de Rin ficaram arregalados os lábios se encontraram, fazendo-a prender a respiração, sentindo-a deslizar a língua para tocar a dela, aprofundando o beijo. Aquilo fez com que o rosto dela ficasse mais rosado, desta vez por causa da timidez, e fechar os olhos.
Furui mahou no hon
O frio pareceu desaparecer por completo quando ele puxou o corpo dela para mais perto do dele e depois segurar o rosto dela com as mãos para ensiná-la a beijar, escutando um tímido gemido dela.
Tsuki no shizuku
yoru no tobari
Quando se separaram, os dois abriram os olhos lentamente.
Uma Shiroi...
Itsuka aeru
Yokan...
Quero meu dinheiro de volta, ou matarei essa menina.
Dake...
Pareceram esquecer tudo quando fecharam de novo os olhos para beijarem-se de novo, desta vez com mais vontade, sentindo mais calor. Rin enlaçou timidamente os braços ao redor do pescoço dele, sentindo os dedos Sesshoumaru apertarem fortemente o quadril.
We can fly
We have wings
We can touch floating dreams
Call me from so far
Through the wind
In the light
Não tinham ideia de quanto tempo durou, mas, quando se afastaram, olharam os lábios um do outro. Sesshoumaru viu que os de Rin estavam abertos, como se quisesse mais; Rin o viu passar a língua por entre os dele como se ainda pudesse sentir o gosto dela.
Finalmente ele deu passos para trás, ignorando-a ao entrar no quarto e falando num tom para qualquer um audível:
-Se decidir ir embora amanhã, não se esqueça de me avisar. Vou jantar daqui a pouco.
E ela escutou a porta ser fechada com força.
Demorou alguns minutos até Rin se recuperar do último acontecimento. A garota levou uma das mãos aos lábios e a outra ao peito, como se tentasse controlar as batidas de quando se sentiu viva pela primeira vez. Apoiou-se na porta da sacada e deslizou por ela, ficando sentada no chão frio, olhando a neve cair.
Mittsume no kotoba wa...
Mimi wo sumashitara
Anata no furueru ude wo
Sotto tokihanatsu
Próximo capítulo:
"-Por acaso a garota que está com você é Shiroi Rin?"
"-Eu o matei. A culpa de tudo isso ter começado foi dele."
"- Não se sente mais segura comigo?"
Capítulo 6: Olhando a neve cair.
