Nota da autora: Como alguns de vocês sabem, meu pai faleceu em abril e não tive condições de atualizar antes. Acho que nem vou conseguir com frequência. Só o tempo dirá.
Este capítulo contém cenas de violência e nudez.
A cor do dinheiro
Capítulo 10: Akai Izayoi
Para Lan Ayath
Música: "For Fruits Basket", abertura do anime Fruits Basket (2001).
Quando Rin desceu as escadas no dia seguinte para tomar chá antes do almoço, viu a sala do segundo andar ainda em reforma. No local, apenas uma estante com uma valiosa coleção de espadas japonesas estava inteira em meio aos estragos.
Balançou a cabeça ao lembrar-se do aviso de Sesshoumaru a Jaken. Ele queria que tudo estivesse arrumado ainda pela manhã, não?
Havia acordado tarde, como muitos ali também, pois demorara a pegar no sono depois de tanta agitação da noite passada. Quando viu que estava quase na hora do almoço, resolveu que seria melhor tomar um pouco de chá.
Ao chegar ao primeiro andar, encontrou Kagome sentada em um enorme sofá ao lado da irmã, de Shippou e do marido, os três fazendo comentários a respeito do ombro de Inuyasha para deixá-lo irritado. Não pareceram notar a presença dela, Rin pensou.
Entretanto, antes de se afastar, notou a própria figura ser alvo do olhar de inquisitório de Kikyo, que virou o rosto para encará-la por cima do ombro por alguns segundos.
Aquela garota era tão estranha e fazia Rin sentir-se tão mal com aquele olhar... Rapidamente virou o rosto e foi embora dali, deixando a família sozinha.
Aquela era irmã de Kagome-sama, Kikyo-sama... Sesshoumaru esteve com ela em Ise... Não é mesmo?
E os dois chegaram juntos... E ela era tão bonita... Tão decidida, determinada e...
–Senhorita Rin. – escutou a voz de Hakudoushi atrás dela antes de chegar à mesa de refeição.
–Ah... – ela virou-se e curvou-se numa reverência – Bom dia, Hakudoushi-sama.
–Conseguiu dormir? – ele aproximou-se, olhando para os lados.
–Foi um pouco difícil... – ela sorriu sem graça – Passei quase a noite toda pensando no que aconteceu.
–Achei que já fosse acostumada depois do que jápassou com o seu irmão. – Hakudoushi comentou casualmente.
Arrependeu-se do que falou ao ver Rin desviar o olhar para evitar o assunto.
–Desculpe-me. Eu não quis...
Ficaram os dois constrangidos. Para sair daquela situação, o médico começou a andar a outro lugar, forçando-a a acompanhá-lo até o jardim sem que percebesse.
–Vai tomar um pouco de chá antes do almoço? – ele olhou para o céu.
Rin confirmou com a cabeça.
–Você já conhecia a irmã de Kagome? – ele perguntou para ter assunto na conversa.
–Eu lembro que ela já apareceu uma vez lá na casa de Bokuseno-sama. – ela respondeu vaga e timidamente depois de um tempo, completando num sussurro depois – Eu não gosto do jeito que ela me olha.
O jovem médico evitou que aparecesse um sorriso nos lábios. Quantas vezes já escutara Inuyasha, Miroku e Sango falando o mesmo?
–E por quê? – a pergunta era tola. Todos falavam que não gostava do olhar de Kikyo. Se fosse o mesmo motivo que escutava dos outros, que ela poderia matá-los com o olhar se ficasse muito tempo encarando alguém, não ficaria tão surpreso – Ela não é nossa inimiga.
–Ela parece muito próxima de Sesshoumaru. Ele não falou comigo depois que chegou. – ela falou num tom meio ressentido, rosto indiferente.
Se antes Hakudoushi queria rir, a vontade desapareceu ao escutar a resposta. Não esperava que fosse por aquele motivo.
Pararam de andar quando alcançaram uma árvore morta por causa do inverno. O dia estava novamente frio e parecia que ia nevar.
–Sesshoumaru está ocupado com alguns assuntos... – ele escolhia as palavras certas cuidadosamente – Mas isso não significa que não vai falar com você mais tarde... Ou a qualquer outra hora.
A expressão indiferente que Rin tinha desde que ele tocara no assunto que a desagradava continuou.
–Acha que estou mentindo? – ele arriscou.
–Não. – ela respondeu sincera – Hakudoushi-sama não mentiria para mim.
Um vento muito frio de inverno soprou e embaraçou o cabelo de Rin. Aquilo fez com que precisasse erguer o braço machucado para ajeitá-los e, com isso, a manga da blusa de lã encolheu. Hakudoushi viu então o curativo mal feito por ela naquela manhã.
–O que foi isso no seu braço? – ele perguntou um pouco alarmado.
–Ah... – ela descobriu completamente o membro e mostrou o pano meio manchado de sangue, dando um sorriso tímido – Aquele homem que nos atacou fez isso.
–Eu não vi isso antes. Por que não me mostrou? – Hakudoushi pegou quase rudemente o braço para examiná-lo, deixando Rin muito sem jeito.
–Eu não queria preocupá-lo. Você estava cuidando de Inuyasha e Sango-sama.
–Não subestime meu trabalho. – ele a censurou com um estreitar de olhos – Vamos cuidar logo disso. Sabe-se lá em quem aquele ninja usou aquela arma antes. Nem Sango tem cuidado com a própria katana.
Lembrar-se do momento quando Shippou e Rin foram atacados a fez estremecer, principalmente quando o brilho da lâmina ao cortar a pele repassou na mente.
Sentindo olhares sobre eles, Hakudoushi voltou a cabeça para trás e Rin inclinou o rosto para o lado para ver o quê ou quem era, prendendo a respiração.
Sesshoumaru e Miroku estavam acompanhando a saída de um membro da yakuza, este acompanhado por dois homens de confiança.
Embora o homem estivesse de saída, ele parou antes de entrar no carro e olhou na direção do médico e de Rin, fixando o olhar na garota. Sesshoumaru também os observava daquela distância, quase esquecendo que o convidado iria embora.
A garota engoliu em seco e corou por ser encarada por aqueles meros segundos por ele. Era a mesma reação que teve quando foi observada por aqueles olhos dourados naquela noite no restaurante.
–Quem é ela? – o homem perguntou, sorrindo – Tá passando férias aqui?
–Senhor Kouga, quer que a gente chame essa garota? – um dos seguranças perguntou, forçando Sesshoumaru a desviar o olhar de Rin e encará-los, ainda mantendo a fachada de tranquilidade.
Miroku deu uma risada alta. Felizmente Rin e Hakudoushi não escutavam a conversa daquela distância. Inclinou-se um pouco no ouvido de Kouga e sussurrou algo que o fez arregalar os olhos com espanto.
–ÉÉÉ? – perguntou impressionado, recebendo uma confirmação de cabeça de Miroku.
Kouga olhou tanto para o líder da família Akai quanto para a "líder" dos Shiroi, finalmente rindo da notícia que recebera. Entrou no carro sozinho e, vendo que os outros ainda tentavam entender o que havia se passado, falou:
–Vocês vão ficar aí parados, hein, Ginta? Hakkaku?
–N-Não! – os dois falaram ao mesmo tempo, correndo cada um para um lado do carro para entrar ao mesmo tempo.
O veículo partiu lentamente, deixando marcas de pneus na neve, um rastro sujo de lama até o portão de saída. Todo cuidado era pouco em dias como aquele, com risco de ter acidentes graves.
Melhor que Kouga tomasse cuidado, Sesshoumaru pensou com um sorriso maligno, ou alguém poderia fazer com que ele sofresse um. Qualquer pessoa, a qualquer dia e a qualquer hora.
Virou-se e deu um passo, parando ao escutar Miroku perguntar:
–Ei... Não vai falar com ela?
O líder virou apenas o rosto e viu o primo apontando na direção de Rin e Hakudoushi, este largando o braço dela ao perceber que ainda o segurava.
Totemo ureshikattayo
Kimiga warai kaketeta
Subete wo tokasu hohoemide
Rin forçou um sorriso e curvou-se numa reverência. Recebeu uma piscadela e um aceno de Miroku e Sesshoumaru se limitou a dar um fino sorriso malicioso, dando-lhe as costas para se afastar.
–Eu, hein... – Miroku balançou a cabeça, acompanhando o primo – Que modo mais estranho de tratar a namorada...
O silêncio predominou por um tempo entre os dois que estavam perto da árvore até ser quebrado por Hakudoushi. Limpando a garganta, ele falou:
–Eu estava pensando que seria melhor você falar a ele sobre o resultado de seus exames.
–E-Eu? – ela empalideceu – Mas Sesshoumaru-sama está muito ocupado... Você mesmo disse isso. E ele não falou comigo ainda.
–Mas ele vai falar, não é mesmo? – ele argumentou com um sorriso – Só não puderam ainda porque os últimos acontecimentos não permitiram.
–Ver... Verdade... – Rin corou e Hakudoushi pousou a mão direita no topo da cabeça dela, afagando os cabelos negros.
–Espere por mim para o chá. Vou cuidar desse ferimento. – ele falou antes de afastar-se para voltar para dentro da casa.
Haru wa mata tookute
Tsumetai tsuchi no naka de
Mebuku toki wo matte tanda
A garota deu um suspiro e voltou para casa para procurar por Jaken. Chá, torradas e alguns bolinhos de arroz antes do almoço seriam bons.
Algumas lágrimas escorriam mais fortes, antes mesmo que Sango pudesse impedir que a raiva que sentia não as provocasse.
A conversa que queria ter com aquele homem nãoera para ter acabado daquela forma, simplesmente não poderia. Estava muito machucada, com ferimentos por todo o corpo, talvez uma costela quebrada.
Não conhecia direito a família Akai. A única coisa que sabia era que o irmão dela trabalhou como chefe da guarda pessoal da esposa do líder. Tanto ela quanto o irmão morreram, e Sango não poderia pedir ajuda de pessoas como eles.
E agora estava daquela forma. Parte da roupa rasgada, machucados, uma costela quebrada, luxações... Tinha levado uma surra da guarda que protegia o homem que matou o irmão, e foi socorrida pelos Akai. Eles receberam uma ligação "anônima" sobre uma "conhecida" em perigo e imediatamente foram resgatá-la, em respeito ao irmão, possivelmente.
Encolhida no banco de trás do carro, ela continuava com o rosto voltando para o chão e chorava enquanto o homem ao lado dela falava ao celular sem parecer se importar com o que ela havia passado. Parecia que ele tinha problemas com a mãe e se recusava em falar com a tal senhora por telefone.
Não que Sango se importasse se prestavam ou não atenção ao estado dela. Era bem melhor que fosse assim.
Finalmente ele guardou o celular no bolso interno do casaco e deu um suspiro irritado, parecendo amaldiçoar alguém. Ela o conhecia, tinha falado mais de uma vez com ele. Era o líder da família, o mesmo que comunicou a morte do irmão e se propôs a pagar todas as despesas do funeral.
–Eles violentaram você? – foi a pergunta em alto e bom som que veio dele, num tom frio e despreocupado. Era como se ele perguntasse se ela achava que iria chover naquela noite.
A pergunta tinha sido com tanta violência como se ela tivesse sofrido também o abuso.
–N-Não... – ela engoliu o choro e abraçou-se, mas continuava com raiva – Eles não chegaram a fazer isso...
–Por que foi procurá-lo? – o líder perguntou – Não sabia que ele era líder de um grupo de extermínio?
Sango apenas negou com a cabeça.
–Foi a coisa mais estúpida que já vi alguém fazer. – ele falou.
–Eu só fui lá pra conversar! Pra dizer o que sabia e que ia falar pra polícia! – ela gritou – Não sabia de nada e fui atacada! Por que ninguém me falou que tudo isso era yakuza? Por que vocês não me falaram nada sobre isso? Meu irmão morreu há quase quatro meses e ninguém me falou nada, e eu era a irmã, seu idiota!
O líder ficou calado, vendo-a pressionar a testa nas pernas encolhidas, que eram abraçadas com força para esconder os seios que apareciam entre os rasgos da roupa.
–Meu nome é Sesshoumaru. – ele finalmente falou – Trate-me por "-sama".
–Dane-se o seu respeito! Cadê o meu? – ela berrou dentro do carro – Eu fui espancada por dez homens ao mesmo tempo!
Ficaram os dois em silêncio.
–E você quer se vingar? – Sesshoumaru perguntou tranquilamente.
Em vez de responder, Sango recomeçou a chorar e tentava segurar as lágrimas inutilmente, cerrando os punhos.
–Você sabe usar isso, menina? – ele perguntou.
Querendo saber o que era o "isso", Sango virou o rosto para o lado.
–Você quer mesmo se vingar? – ele perguntou mais gentil, mais calmo, como se quisesse encantá-la com a ideia.
Sesshoumaru segurava uma arma, uma automática que estava carregada e sem a trava, o que facilitava na hora de usar. Ela estava vulnerável e ele poderia disparar a qualquer momento. Era tão leve, tão simples, tão perigosa.
–S... Sim... – ela respondeu, quase que hipnotizada pelo objeto.
De tão impressionada com o objeto, Sango não percebeu o sorriso que ele tinha, o que o deixou em dúvida se ela escutaria ou não a pergunta que faria:
–Eu vou ajudá-la a se vingar. Vai precisar aprender a usar isso. Você quer?
Ainda hipnotizada, ela confirmou com a cabeça.
Sango aceitara a arma que ele estendera.
Encostada numa parede, Sango bateu a cabeça de propósito numa punição por tanto desperdício de energia que tivera desde que começara a treinar naquele dia, o primeiro de muitos que viriam. Há uma semana que saíra do hospital e aceitava morar com a família Akai, declarando que estava "bem" para treinar. A sala que Sesshoumaru cedera tinha de tudo para um bom treinamento, menos alguém que pudesse ensiná-la apropriadamente.
Apoiou as costas na parede para beber um gole de água da garrafa. Depois jogou um pano, que usava para enxugar o suor, para cobrir a testa e os olhos.
–Você não deveria estar fazendo isso. – alguém falou na sala.
Imediatamente ela tirou o pano do rosto para descobrir que havia mais alguém na sala. Era a pessoa que chegara de uma viagem ao exterior naquela manhã na mansão. Usava roupas claras e não parecia japonesa, embora falasse o idioma muito bem.
–Desculpe... – ela falou num tom indiferente – Mas eu estou cansada de ficar repousando.
–Mas deveria. – a pessoa voltou a falar.
Sango ergueu uma sobrancelha.
–Meu nome é Akai Hakudoushi e moro nesta casa. O hospital onde ficou internada é de minha direção e os médicos que a atenderam me entregaram o seu prontuário.
Novamente Sango ergueu uma sobrancelha.
–Vá repousar. Você não quebrou nenhum osso, mas está com algumas áreas que precisam de cuidados. Por acaso pode se mexer direito sem que suas costas fiquem doendo?
Sango enrubesceu e franziu a testa irritada.
–Sua família foi muito gentil e sou grata a Sesshoumaru-sama. Vou recompensá-lo de alguma forma a partir de hoje. E eu não posso perder tempo... Preciso vingar meu irmão.
–Ele não vai aceitar.
–E por que não? – ela já estava com raiva. Mas que cara mais arrogante era aquele médico.
–Porque vou dizer que você não está em condições de fazer nada. Se eu tocá-la agora, é capaz de cair no chão e ficar três dias sem se mover.
–Duvido. – ela desafiou.
Daquela vez, quem ergueu uma sobrancelha foi Hakudoushi.
Como era irritante aquilo... Sango lembrava agora que o líder também tinha aquela mania.
Ficaram se observando, analisando as feições um do outro. Sango estava tensa, irritada por ele tentar convencê-la a repousar; ele, calmo e muito confiante.
–Então vamos ver... – Hakudoushi cruzou os braços e baixou o rosto, deixando que o cabelo encobrisse os olhos lilases – Vamos ter uma rápida luta... Se diz que está bem para lutar, vai conseguir me vencer.
Descobriu os olhos e ela notou um brilho diferente neles.
–Certo? – ele perguntou.
–E por que isso? – Sango pegou discretamente por precaução uma katana que usou para o treino, a única coisa ao lado dela. Aquele cara era estranho...
Por que os olhos dele brilhavam daquela forma?
–Se não conseguir me vencer, você vai morrer.
–Você vai me matar? – ela perguntou incrédula – Mas você não é um médico?
Hakudoushi não respondeu, observando pelo canto dos olhos a garota andar círculo em torno dele.
Quando Sango deu uma volta completa e estava exatamente atrás dele, ela piscou ao perceber que não mais olhava as costas do médico e que havia apenas um rastro de poeira levantada no lugar em que ele estava.
–... Eu não preciso ser um médico pra matar você. – ele respondeu finalmente ao ouvido dela.
"ATRÁS DE MIM!", Sango percebeu, virando-se abruptamente.
Alguma coisa acertou o cotovelo dela e a fez largar a arma por causa da dor que começou naquele ponto e se espalhou para o braço, dando alguns saltos para trás para se afastar dele.
–O que foi que você...? – ela olhou o membro e depois o médico, que a olhava tranquilamente. Só então que Sango notou que ele segurava uma espada, uma wakisahi com um cabo de bonito design. Como ele tinha a espada em uma das mãos e a bainha em outra, a que estava erguida, a garota concluiu que tinha sido aquilo que a acertara no braço.
–Isso foi uma onda de choque. Vai sentir dor por algum tempo aí.
Sango tocou o braço, que estava pendente ao longo do corpo, e viu que não tinha mais reações.
–Eu ia dizer que não o tocasse. Dizem que dá azar quando fazemos isso. – Hakudoushi completou com um sorriso maligno.
Imediatamente ela o soltou e olhou para o médico de novo.
–Como acredito que você vai ficar entre nós por algum tempo, é bom que eu conte logo a história da minha família. – Hakudoushi começou, ignorando a dor que ela sentia depois de atingi-la – A família Akai era composta por samurais falidos que se comprometiam a proteger famílias de políticos na era Taisho. De fato, foi uma das únicas que conseguiu sobreviver às passagens do tempo. Só que nós éramos pobres, e as famílias que protegíamos eram ricas. Você imagina o que aconteceu depois, senhorita Sango?
A garota balançou a cabeça para os lados.
–Em uma das gerações, da qual o pai de Sesshoumaru, meu tio Toga, fazia parte, houve um casamento. Meu tio se casou com a filha de um dos homens mais poderosos da yakuza. Ela era rica, ela era forte, tinha boas relações, era líder de uma guarda, uma assassinae deu a liderança ao meu tio quando perdeu o nome da família dela para casar com ele.
Sango moveu-se um pé. Havia uma saída atrás dele e ela podia escapar por ali.
–E foi assim que a família Akai entrou para a yakuza. Somos muito famosos nesse meio.
Viu-o pegar a wakisahi e posicioná-la em frente ao rosto, estreitando os olhos perto do fio de corte.
–E o nome da senhora é Akai Izayoi. Se você realmente quer ficar entre nós, terá que protegê-la também. Minha tia não tolera erros de qualquer natureza. Deve ser leal a nós, assim como seu irmão foi. Ele foi morto por causa disso.
De repente, ele virou o rosto para trás e comentou:
–Se quer fugir por ali... – voltou a olhá-la e a voz assumiu um tom de ameaça – Terá que passar por mim.
Arregalando os olhos, Sango só conseguiu jogar o corpo para o lado quando ele avançou num ataque. Sentiu as costas doerem, mas fez um esforço sobre-humano para levantar-se, começando a correr.
–Por acaso foi isso que fez quando eles começaram a atacar? – Hakudoushi conseguia acompanhar a velocidade dela com facilidade.
A lembrança da surra fez com que o sangue corresse gelado nas veias dela. Será que todo mundo iria torturá-la com aquilo?
Algo fez com que ela caísse no chão, alguma coisa que a acertara no joelho. Era a bainha da espada, que a fez tropeçar e provocou novo choque, agora naquela região. Sango conteve um grito por causa da dor nas costas na hora de se levantar, começando a correr com dificuldade.
Não durou muito. Hakudoushi a agarrara pelo cabelo e cortara a mecha que cobria um dos ouvidos quando ela se desviou. Depois a pegou pela camisa suada de treinamento e a jogou no chão com força.
Sango gritou e ouviu alguma coisa estalar.
Desviou-se de novo para o lado quando ele tentou acertá-la no ombro, arrependendo-se de tudo que dissera para provocá-lo.
O medo fez com que ela criasse força e fugisse até a saída, mas novamente Hakudoushi estava em frente a ela, bloqueando a passagem. Sango congelou no lugar, apavorada, e fechou os olhos quando o viu avançar.
"EU VOU MORRER!", ela gritou mentalmente.
No outro segundo, sentiu-se carregada e aquecida contra o peito de alguém. Abriu os olhos lentamente, percebendo que parecia um bebê no colo do pai, e viu o rosto sorridente de um rapaz que já conhecia.
Ah, não... Era aquele cara chato de novo, o mesmo que ia todas as manhãs ao quarto dela para levar o café da manhã e dava um monte de cantadas.
Miroku era o nome dele, certo?
Parecia que ele estava preocupado, mas quando viu que ela abria os olhos, deu um sorriso maroto.
–Ah, senhorita Sangozinha... Eu fiquei tão preocupado quando fui ao seu quarto e não vi. Ia chamar pra gente tomar um chá, que tal?– ele falou.
Sango piscou duas vezes. Havia sangue que saía de um corte na testa dele e que chegava ao pescoço por uma trilha, mas ele não pareceu se importar. Miroku alargou o sorriso e virou o rosto para trás.
–Você também quer tomar chá conosco, Hashi?– ele perguntou ao médico – A Sangozinha disse que vai ser um prazer ter a sua companhia.
Hakudoushi estava ainda curvado e segurava o cabo da arma, cuja lâmina tinha sangue e estava fincada no chão de madeira, respirando ofegantemente e com o rosto coberto pelo cabelo.
Finalmente ele pareceu se recuperar e estava calmo, levantando-se depois de respirar profundamente e sorrir quando a franja descobriu os olhos.
–Chá depois de uma longa viagem será um prazer. Ainda mais se tiver a companhia da senhorita Sango. – Hakudoushi falou numa voz calma, que, para os familiares, era típica dele.
Sango sentiu o suor escorrer pelo rosto. Ele nem parecia a mesma pessoa de antes.
Viu-o se dirigir até a porta e parar ao colocar a mão na batente da porta, virando o rosto para o lado.
–O chá pode ser servido no quarto da senhorita Sango? Acredito que ela precisa de um descanso agora. Ela vai precisar cuidar dessa costela que quebrou.
E saiu.
–Senhorita Sangozinha? – Miroku a chamou.
Houve silêncio por um momento. Ela estava com o rosto abaixado e parecia que ia chorar a qualquer momento.
–Posso fazer uma pergunta?
Fazendo um esforço, ela assentiu com a cabeça.
–Posso treinar você? – ele perguntou gentilmente.
Foi aí que ela começou a chorar, agarrando a camisa dele para esconder o rosto molhado. Miroku se abaixou, ainda com aquela carga preciosa nos braços, e sentou-se no chão, fazendo o possível para consolá-la enquanto passava uma das mãos no cabelo negro dela.
Lembranças, lembranças... Não precisava pensar naquilo agora.
Sango abriu a garrafa com água e bebeu um gole, deixando algumas gotas escorrerem pelos cantos da boca, enxugando com as costas da mão o excesso.
Afinal, onde foi que tinha errado? A luta da véspera tinha sido tão ruim... Ruim, não! Tinha sido péssima. Teria que se explicar com Sesshoumaru-sama e o resto da família mais tarde. E agradecer a Miroku por salvá-la... De novo.
–Você não deveria estar fazendo isso. – alguém falou enquanto ela estava olhando para o chão, pensativa.
Não. Ela realmente não tinha que estar ali. Hakudoushi tinha recomendado que deixassem Sango repousar até a hora do almoço, mas ela se sentia tão inquieta depois do que aconteceu na noite anterior... Ela acordou quase às oito horas, muito tarde para ela, com o corpo dolorido e Miroku babando ao lado da cama dela.
Que cena horrível de se ver logo quando alguém acorda.
Pensando que era Hakudoushi, ela pensou logo numa desculpa para dar, mas esqueceu-se dela ao ver quem era.
–Hakudoushi vai se aborrecer se vê-la aqui, Sango. – Sesshoumaru falou serenamente.
Sango baixou de novo o rosto. Era vergonhoso ter que encarar o chefe depois do ocorrido.
–O que foi que aconteceu? – ele perguntou.
–Eu não sei. – ela fechou os olhos ao responder – Sinto muito, mas eu não sei onde estava com a cabeça pra agir daquela forma.
–Miroku contou que você perdeu a calma. – ele parecia um pai falando com uma criancinha – Já deveria saber que numa luta isso não é permitido.
–Eu sei. – ela ficou irritada.
–E que deve agir em equipe.
A lembrança de jogar Miroku no chão quando ele quis atacar a assassina passou-lhe pela mente.
–Também já sei disso.
–E por que quis fazer as coisas do seu modo?
A garota não respondeu. Coçou a parte de trás da cabeça e levantou-se com a ajuda da katana, com a qual treinara durante quase toda manhã.
–Farei o possível pra não acontecer de novo, Sesshoumaru-sama.
Alguém bateu na porta da sala de treinamento e, antes que algum deles desse permissão para entrar, Miroku apareceu com o sorriso malandro estampado no rosto.
–Bom dia para vocês... Principalmente para você, Sangozinha! Eu te procurei pela casa toda... Por que tá aqui?
Ficaram os três em silêncio. Então Miroku percebeu, por uma expressão indiferente do primo, que estava atrapalhando uma conversa.
–Hã... – ele começou a andar para trás, apontando na direção de um canto onde Sango jogava as coisas dela – Eu vou esperar por você ali, tá?
Quando ficou longe deles, Sesshoumaru voltou-se de novo para ela:
–Precisa de um treino melhor. E eu quero resultados. Bons resultados, Sango. Vou precisar mais de você daqui por diante.
–Claro, Sesshoumaru-sama. – ela não parecia irritada por causa de uma parte de si que estava contente com aquele comentário. Ela devia muita coisa para aquela família, principalmente para ele.
–Quero que treine o melhor que puder. Se precisar de algo ou de alguém, não hesite em pedir. – ele virou-se para sair – E trate de melhorar.
Antes de ir embora, ele a ouviu chamá-lo.
–Sesshoumaru-sama?
O líder parou e a olhou por cima do ombro.
–O que foi? – ele perguntou sem emoção.
Habilmente, ele agarrou uma katana jogada na direção dele.
Os dois se encararam por um ou dois segundos, como se estudassem o perfil um do outro. Miroku olhava curiosamente, mas subitamente o interesse acabou quando viu Sango assumir uma posição de ataque e partir para cima do líder da família, que não se moveu do ponto onde estava.
Pronto. Aquilo seria uma boa apresentação do que Sango, ao longo dos anos, conseguiu desenvolver sob o teto da família Akai. Sesshoumaru poderia ver e analisar o que deveria ser melhorado.
Atacando insistentemente, Sango tentou usar uma técnica que aprendeu com Miroku e Hakudoushi: atacar em círculos e em grande velocidade para confundir os sentidos do adversário.
Uma pena que aquilo não funcionasse contra Sesshoumaru. Descobriu quando tentou atacá-lo por trás e ele moveu-se para o lado, fazendo com que ela acertasse o chão.
–Isso é inútil, Sango.
–Eu sei... Era só pra testar. – ela deu uma risada meio nervosa e assumiu uma nova postura – Gostaria apenas que visse no quê posso melhorar.
–Em primeiro lugar, atacar em círculos só serve contra pessoas que não sabem lutar. Se quiser realmente fazer direito... – ele, que estava a certa distância dela e de costas, ergueu o braço direito na horizontal – Faça assim.
Antes que Sango pudesse piscar, ele já estava na frente dela, que precisou usar a bainha para se proteger de um ataque inesperado de Sesshoumaru. O objeto cortou ao meio e a garota recuou alguns metros para se proteger de um novo ataque que visava acertar o braço dela. Quando ficou em pé, Sesshoumaru estava novamente perto.
Com um único movimento, ele jogou a arma dela longe. A dele também teve o mesmo destino com um golpe arriscado de Sango, que usou o punho e recebeu um corte na região. Abaixando-se rapidamente para pegar um punhal escondido no hakama de treino, ela ergueu o rosto e sentiu uma gota de suor escorrer num lado do rosto quando se viu sob a ameaça da automática de Sesshoumaru, a mira certeira na testa dela.
–Precisa melhorar seus reflexos e algumas técnicas. As suas são boas, mas você tem que ser melhor. A melhor, Sango.
Sango confirmou com a cabeça. Viu o líder guardar a arma dentro do casaco e estender a mão direita para ajudá-la a se levantar. Antes de ela aceitar, ele começou:
–Agora você será paga para proteger mais uma pessoa. Uma garota que é considerada líder de uma família e que foi atacada pela própria segurança. O mais interessante é que quem comandou e treinou a guarda dela nesse ataque foi...
Sesshoumaru inclinou o rosto e chegou ao ouvido dela para pronunciar dois nomes – o primeiro e o último de um homem.
Sango se limitou a arregalar os olhos de espanto e horror e deixá-los sem brilho por um momento.
Mas aquela expressão não durou muito, pois logo ela permitiu que um sorriso maligno curvasse os lábios enquanto os cabelos cobriam o olhar.
–Será um prazer fazer esse serviço... Sesshoumaru-sama.
Finalmente ela aceitou a mão e se levantou.
–Miroku pode ajudá-la no treinamento, se quiser.
Sango fez um careta e olhou o sujeito que lia com verdadeiro interesse um livrinho de piadas já mofado no canto da sala.
–Algum problema em treinar com ele? – ele perguntou quando notou a hesitação nela.
–É que o cérebro de Miroku é dividido em duas partes, que são duas strippers que ficam dançando naquelas barras de palco de boate. Daí ele às vezes esquece que tem que me treinar em técnicas e quer me treinar em posições.
Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha.
–Trate de educar o cérebro dele de outra forma, então.
Uma gargalhada chamou a atenção deles. Era Miroku rindo de alguma coisa engraçada que lia.
–Cuide disso imediatamente, Sango.
Sesshoumaru deu as costas e não ouviu o suspiro de desânimo dela ao sair.
No horário do almoço, Rin foi a primeira a sentar-se à mesa e a esperar pacientemente pelas outras pessoas para a refeição ser servida.
Depois dela, Kagome e a irmã apareceram e novamente Rin sentiu-se incomodada com a presença de Kikyo, que não fazia questão de disfarçar que a observava continuamente.
Sango e Miroku se fizeram presentes também ao se acomodarem ao lado de Rin, o que foi, de certa forma, um alívio para ela. Inuyasha surgiu à mesa com Shippou grudado no braço dele, assustando-se ao ver a cunhada sentada perto dele e da esposa.
Ainda faltavam Hakudoushi e Sesshoumaru, mas logo o líder apareceu e sentou-se na ponta, longe de Rin.
–Comida, comida! – Shippou falou, batendo palmas.
–Calado, pirralho. – Inuyasha resmungou.
–Shippou também é meu sobrinho, Inuyasha. – Kikyo falou num tom sinistro, fazendo-o estremecer.
–Podemos almoçar. – Sesshoumaru deu o comando como chefe da família.
–Mas Hakudoushi ainda não chegou. – Shippou avisou.
Sesshoumaru franziu a testa e olhou para os lados, aparentemente notando somente naquele instante a ausência do primo.
–Estou aqui. – Hakudoushi falou na entrada da sala, deixando todos surpresos ao chegar acompanhado de Izayoi, esta numa cadeira de rodas.
Um estranho silêncio pairou no local. Todos olhavam admirados para Izayoi, que sorria gentilmente enquanto tentava controlar o tremor nas mãos, agarradas aos braços da cadeira de rodas.
–Oi, mamãe... – Inuyasha começou com um sorriso – Resolveu descer?
–Sei que pra alguns a minha presença não é bem-vinda, mas eu gostaria de almoçar com minha família. – ela olhava diretamente para o filho mais velho enquanto falava.
Todos os olhares se voltaram para ele, que respondeu com a habitual calma:
–Sinta-se à vontade, minha mãe.
–Que bom. – Izayoi respondeu.
Em instantes, Hakudoushi a aproximou da mesa e, com a ajuda de Miroku, conseguiu acomodá-la em uma cadeira vaga na outra ponta da mesa.
Outra cadeira foi arrumada para o médico, que sentou-se próximo da tia e fez menção de servi-la.
–Não se preocupe. – Izayoi ergueu a mão em uma ordem – Não precisa.
–Jaken, sirva minha mãe. – foi a ordem que partiu de Sesshoumaru do outro lado da mesa.
–Sssim, como quissser. – o outro se prontificou e ficou ao lado de Izayoi.
–Obrigada, Jaken. – ela agradeceu.
Enquanto Jaken servia a senhora Akai, todos continuavam em silêncio. Rin fazia questão de não fazer barulho nem com o hashi para não chamar a atenção de ninguém e também não virar o rosto para o lado onde Izayoi estava acomodada.
Mas não conseguiu evitar por muito tempo. Num determinado momento em que a curiosidade foi mais forte, ela ergueu a vista e encontrou o olhar da matriarca da família Akai. Ela era observada com olhos cuidadosos e curiosos, como se estudasse alguma capacidade que Rin tivesse.
A garota sentia as mãos suarem e rezava para que Izayoi desviasse o olhar para outra pessoa.
–Ah, não, Inuyasha... – Kagome reclamou de repente, chamando a atenção de Izayoi para o casal perto dela – Eu quero mais um pouco de soba... Só mais um pouquinho...
–Você já comeu metade da tigela, Kagome! – o marido sussurrou um protesto.
A resposta da mulher foi beicinho e uma carícia dela no volumoso ventre, como se o ser que estivesse ali também estivesse reclamando.
–Kagome, minha irmã... – Kikyo manteve os olhos fechados quando começou – Inuyasha está negando comida a você, é isso?
Ao abrir os olhos, o cunhado estremeceu ao notar um vazio assustador neles, encolhendo-se ao perceber que a guarda de Kikyo entrava discretamente na sala para posicionar-se atrás da líder.
–Inuyasha... – Miroku sussurrava rangendo os dentes e sentia Sango tremer ao lado dele – Dá essa tigela pra ela, idiota.
Um segundo depois, Kagome já comia soba como se fosse uma morta de fome num banquete.
Como tudo parecia ter voltado ao normal, Izayoi voltou a observar Rin, que, por medo, não desencontrou o olhar.
O hashi tremeu na mão dela quando a viu abrir a boca para falar-lhe algo.
–Ops... – Kagome novamente fez as atenções serem dela ao passar a mão da barriga.
–O que foi, Kagome? – Shippou perguntou.
–O bebê se mexeu. – ela respondeu com um sorriso.
–Isso é um bom sinal. – Hakudoushi se limitou a falar – Mesmo assim, não vai escapar dos exames da semana que vem.
–Que história é essa de "tentar escapar"? – Inuyasha franziu a testa, perguntando à mulher – Cê não quer fazer os exames, hein?
Enquanto a discussão começou a girar em torno da "rebeldia" de Kagome em não querer fazer exames na próxima semana, Rin respirou aliviada em perceber que não tinha mais olhares examinadores sobre ela. Entretanto, aquilo cessou quando viu que outra pessoa a observava.
Ao olhar par a outra ponta da mesa, viu Sesshoumaru com uma expressão tão tranquila, tão serena, mas que teve um efeito mais forte do que a da matriarca. Parou de comer de vez, largando o hashi e balançou nervosamente os pés embaixo da mesa.
Era como se tivesse voltado no tempo, logo que se conheceram. Ela evitava olhá-lo para não ficar inquieta.
Tatoeba kurushii kyo datotoshitemo
Kinou no kizu wo nokoshite itemo
Shinjitai kokoro hadoite yukeruto
A mesa então ficou dividida. A maioria conversava com Kagome, que sentia uma das mãos de Inuyasha passando pela barriga para tentar sentir algum chute do filho; duas outras pessoas não ligavam para eles e tinham pensamentos voltados neles mesmos, principalmente Rin, que se perguntava o motivo da aparente indiferença de Sesshoumaru, quando aquele olhar dele provou que havia desejo em se falarem quando estivessem sozinhos.
Mais tarde, ao anoitecer:
Akai Izayoi virou o rosto para o lado ao escutar uma batida na porta. Era tarde, quase hora do jantar.
Devidamente acomodada na cama, ela sabia quem estava à porta.
–Pode entrar, Sesshoumaru.
Segundos depois, escutou alguém entrar no quarto e os passos do filho. Ao virar o rosto para o lado, ela o viu ao pé da cama, mãos nos bolsos da calça social, olhando para os lados como se nunca tivesse estado ali e precisasse observar os detalhes.
–A senhora pediu para conversar comigo.
Izayoi deu um fraco sorriso e quis sentar-se, o que o fez aproximar-se para ajudá-la.
–Não precisa. – ela o deteve com uma das mãos erguidas.
Com esforço, ela conseguiu sentar-se na cama, apoiando as costas na cabeceira.
–O que deseja? – ele manteve certa distância dela, colocando novamente as mãos nos bolsos da calça.
–Gostaria de falar sobre aquela menina. – ela ajeitou as almofadas perto dela – Foi sua a ordem pra não contarem pra mim que ela está morando na minha casa?
Sesshoumaru não respondeu e ela deu um suspiro.
–Eu não gosto de eufemismos, Sesshoumaru. Você sabe disso.
–Não. – ele foi cauteloso – Não sei. Poderia esclarecer.
–Eu estou preocupada com a presença dessa menina aqui. Eu me lembro do pai dela e já ouvi do próprio Bokuseno sobre o que aconteceu com ela na infância.
Era a segunda vez que a mãe tratava Rin por "menina", o que ele sabia definitivamente que ela não era.
–Ela não é uma "menina". – ele corrigiu friamente.
Um sorriso irônico apareceu nos lábios da mãe.
–Ora... Então já percebeu. – ela viu o filho arquear uma sobrancelha – O pai dela era o homem mais desprezível que já conheci. Foi a decisão mais estúpida que Bokuseno teve ao permitir que essa garota liderasse uma família com tantos problemas. Agora ela está aqui, quais os problemas que vamos ter por causa dessa sua decisão de...
–Chega. – ele a cortou repentinamente.
–Não me interrompa. – ela falou indignada – Eu estou falando a verdade. Acho você ainda não percebeu a ameaça que ela traz pra nossa família. O seu pai ficava muito irritado quando discutia com... Com aquele pai dela. Não vou ficar nem um pouco surpresa se me contarem que ela tem medo até de arma descarregada.
Por concordar, o filho não se atreveu a falar.
–Eu não quero que aconteça com ela o que aconteceu com Sara. – ela olhou para os lados como se procurasse por algo – Não é justo que mais gente inocente morra depois do que passamos. Quero um pouco paz. Teremos mais uma pessoa na família daqui a algum tempo, não quero riscos à segurança do meu neto.
–A senhora não vai gostar dela também? – ele perguntou com frieza. Izayoi nunca escondeu que não gostava de Sara.
A mãe o olhou com surpresa por alguns segundos. Depois procurou algo pelo quarto e apontou para uma mesinha longe deles.
–Ali... Pegue meu remédio, por favor.
Sesshoumaru obedeceu ao pedido, trazendo para ela um copo com água e duas pilhas de caixas de remédios em uma bandeja, organizadas uma ao lado da outra.
–Qual deles? – perguntou.
–O primeiro da fila à esquerda. Um comprimido, por favor. Coloca a caixa em cima da outra pilha.
Aquilo deveria ser mais um dos truques de Hakudoushi para que qualquer um pudesse ajudá-la quando o médico não estivesse por perto.
Depois de Izayoi tomar o remédio e Sesshoumaru ajeitar as caixas de remédios na mesinha, eles retomaram a conversa:
–Eu não disse que não gostava dela. – ela falou calmamente, tentando mudar a imagem que o líder certamente tinha dela – Na verdade, deveria pensar que eu gosto porque não quero que ela saia ferida nessa história. O certo seria que ela sumisse e mudasse de nome, que ficasse longe de tudo. Mas ela está envolvida com você agora. Não sabemos o que pode acontecer.
–A senhora também falou o mesmo de Sara.
Izayoi ficou receosa de tocar naquele assunto. Era um ponto muito delicado na relação entre mãe e filho.
–Sara não sabia de nada e estava sozinha, assim como essa Shiroi. Ou vai me dizer que a família dela a apoiou para vir para cá?
–É irônico que a senhora só faça objeções comigo. – ele estreitou os olhos – Quando Inuyasha falou que queria casar com Kagome, pareceu-me que ficou muito feliz e o apoiou.
A mãe ficou com a boca ligeiramente aberta.
–Mas não é de se estranhar. Hakudoushi e Inuyasha sempre foram seus preferidos. – ele usou um tom sarcástico.
–Isso não é verdade. – ela falou sincera – Eu gosto tanto de você quanto deles. Por isso que não quis que passasse pelo que passou com Sara, nem que aconteça o mesmo com essa Rin.
Era a primeira vez que a mãe a chamava pelo nome.
–Não vai acontecer nada com ela. – ele garantiu – Este Sesshoumaru não vai deixar.
Izayoi ergueu uma sobrancelha e olhou aborrecida a borda da cama.
-Por acaso pretende fazer dessa menina Shiroi a sua nova esposa?
-Isso não é da sua conta. – ele respondeu, encarando-a por alguns segundos.
Depois de momentos de silêncio, ela deu um suspiro pesado. As conversas eram limitadas a aqueles desafios: um recusando se explicar ao outro.
–Se já acabou, vou me retirar. – ele virou-se.
–Ainda não acabei. – a mãe o deteve num tom de aviso – Volte aqui.
Sesshoumaru ficou parado, de costas, o rosto virado para o lado, mas não obedeceu ao pedido dela.
–Eu ainda quero conversar com você. – ela insistiu – Venha cá, por favor.
Devagar, ele se reaproximou e viu o movimento da mão dela, que bateu num ponto da cama.
–Sente aqui. – ela apontou para o lado dela – Ficar te olhando aí em pé me deixa cansada.
Olhando ao redor e, numa das poucas vezes que ficou sem jeito, Sesshoumaru sentou-se na cama cauteloso. Era um pouco estranho ficar tão perto dela, com tanta intimidade, depois de tantos problemas e discussões que já tiveram.
–Como foi sua viagem? – Izayoi perguntou depois de umedecer os lábios – Fazia muito frio em Osaka?
–Sim. – ele limitou-se a responder.
–Ela já estava por lá?
Uma confirmação de cabeça veio por parte dele.
–E depois você foi pra Ise, não? Hakudoushi me contou que Midoriko morreu por lá.
–Isso mesmo.
Ficaram os dois em silêncio, um olhando o outro. Depois ela deu um suspiro e pegou na mão dele.
–Não vai contar pra sua mãe como foram as suas férias?
Sesshoumaru deu um meio sorriso e ela fez o mesmo.
Rin voltou animada do jardim, de onde passara a maior parte do tempo brincando com Shippou. Subindo as escadas do andar do quarto dela distraidamente, ela cantarolava alguma coisa sem grande importância.
Fazia frio e nevava bastante naquele dia. Ela e Shippou ficaram brincando sozinhos na neve, voltando para o interior da mansão apenas quando Kagome deu ordem ao filho para se arrumar para o jantar.
Ao chegar ao topo da escada do andar onde estava hospedada, ela subitamente parou para levar a mão direita ao nariz e conter um espirro.
–Está muito frio lá fora?
A voz a fez dar um grito se susto.
A alguns passos da porta do quarto dela, viu Kikyo sentada numa cômoda de madeira nobre, ao lado de alguns vasos de porcelana extremamente caros, provavelmente de alguma dinastia chinesa. Ela tinha as pernas cruzadas e segurava um cigarro com a mão direita.
Rin colocou a mão no peito, num sinal de nervosismo, para tentar se acalmar. Diante da reação dela, Kikyo fingiu-se surpresa.
–Assustei você?
Rin ficou calada.
–Não? – Kikyo tentou responder por ela.
–Com licença. – Rin engoliu em seco e curvou-se – Preciso me trocar agora.
Passou por ela para entrar no quarto, mas paralisou a mão na maçaneta ao ouvi-la novamente falar:
–Eu soube que você não gosta de mim.
Chocada, ela virou-se para encará-la.
Viu Kikyo jogar as cinzas dentro de um dos vasos e manter o rosto tão sem emoção quanto Sesshoumaru.
Rin simplesmente não acreditava que Hakudoushi tivesse contado o que tinha dito a respeito dela! Por que ele tinha feito aquilo? Para humilhá-la?
Sentiu um tremor percorrer o corpo ao ver Kikyo terminar o cigarro e jogar a ponta dentro do vaso chinês, descendo da cômoda para andar na direção dela.
–Não foi Hakudoushi que me contou, se é isso que está pensando. Eu tenho meus métodos pra descobrir o que falam a respeito de mim ou da minha família. – Kikyo a analisava de alto a baixo – E como sou uma pessoa muito compreensiva, vim saber o motivo.
Kikyo conteve o sorriso ao ver a garota ficar vermelha por vergonha, medo e possivelmente raiva.
–Você não gosta de mim por causa de Sesshoumaru, é? – ela arriscou.
–Acho que... – Rin olhou para o lado e apoiou-se na porta – Não é tão importante assim.
–Não?
Ficaram em silêncio. A líder dos Higurashi pegou outro cigarro e o isqueiro de um bolso da calça preta, acendendo-o antes de falar e colocá-lo nos lábios:
–Você não precisa ter ciúmes de mim, se for esse o problema. Eu só mantenho uma saudável relação de negócios com Sesshoumaru. Pra dizer a verdade, eu sou mais amiga de Hakudoushi. Então, eu deveria sentir certo... receio por você ficar tanto tempo conversando e tomando chá com ele nas últimas semanas.
Rin franziu a testa irritada.
–Isso não é verdade? – Kikyo perguntou com um sarcasmo disfarçado – Foi a impressão que tive quando vi vocês dois perto daquela árvore.
Rin sentiu outro estremecimento. Ela não estava na sala com a irmã e os outros? De onde ela a viu conversando com o médico? Da janela?
–"Impressão"? – alguém repetiu perto delas.
As duas viram Hakudoushi parado no degrau e as observava curiosamente. Ele havia acabado de subir.
–Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou suavemente.
–Eu estava conversando com essa Shiroi. – a irmã de Kagome sujou de cinzas de cigarro o chão daquele corredor – O jantar vai ser servido agora, não?
–Não fume aqui. – Hakudoushi a repreendeu.
Por um momento, Kikyo franziu a testa e o encarou até ser vencida e ter que jogar o cigarro no chão e apagá-lo com a ponta do sapato.
–Sesshoumaru não gosta, Kagome não pode cheirar, você proíbe fumantes aqui. Eu imagino o quanto Inuyasha sofre com isso. – Kikyo jogou os longos cabelos negros para trás dos ombros com um único movimento da mão depois do comentário.
–Rin... – Hakudoushi começou e ela fixou o olhar nele – Poderia avisar a Sesshoumaru que o jantar será servido em breve? Ele está no quarto da minha tia.
–S... Sim... Posso ir, claro. – ela apressou-se a fazer uma reverência aos dois e correr para as escadas que levavam ao quinto andar.
–Muito obrigado. – o médico falou quando Rin passou por ele.
Quando ela estava longe, o médico estreitou os olhos ao falar:
–O que você está aprontando, Kikyo?
–Eu? – ela parecia surpresa – Eu só estava conversando. Ela não falou nada.
Hakudoushi balançou a cabeça e virou-se para descer, parando ao escutá-la:
–Eu vi vocês dois conversando lá no jardim.
O médico parou no degrau e virou o rosto para olhá-la por cima do ombro, erguendo uma sobrancelha.
–E..?
Kikyo se limitou a dar de ombros e o viu balançar a cabeça antes de ir embora daquele andar.
Mas que mulherzinha mais prepotente, Rin pensava enquanto marchava na escadaria do quinto andar, rosto voltado para o chão enquanto se perguntava quais eram os motivos de Kikyo para querer irritá-la. Ela não precisava fazer aquilo, não precisava de...
Ao chegar ao topo da escada, ela esbarrou em alguém e bateu o nariz, dando um passo para trás:
–P-Perdão... – falou com a mão no nariz e voz nasalada.
Ao abrir os olhos, viu que era Sesshoumaru.
Ficaram os dois em silêncio, a respiração dela presa na garganta.
–Machuquei você? – ele perguntou suavemente.
Rin não respondeu de imediato. Parecia assustada em encontrá-lo, escutando a própria respiração quase ofegante.
–Eu... O... – respire fundo e fale de uma vez, Rin – Hakudoushi-sama pediu pra avisar que o jantar será servido logo.
–Eu já ia descer. – ele a olhava com um interesse que ela não notou – Por que a sua roupa está suja?
–Eu estava brincando no jardim... Com Shippou. – ela engoliu em seco – Já ia me trocar quando Hakudoushi me pediu para chamá-lo.
–Então vá se trocar, Rin. – Sesshoumaru falou compreensivamente – O jantar será servido, certo?
Rin piscou curiosamente e confirmou com a cabeça. Deu as costas para ir embora, mas parou por um segundo ou dois ao ouvir a voz dele novamente:
–Posso acompanhá-la?
Se ele podia? Mas é claro que sim! Rin deu um sorriso e ele começou a andar ao lado dela, descendo as escadas devagar, como se quisessem gastar mais tempo que o necessário para chegarem ao quarto dela.
–Eu não falei que eles iam aproveitar uma hora que ninguém estivesse por perto? – Miroku cutucou Inuyasha e este rosnou alguma coisa, irritado pelo primo ter acertado na dedução. Sango e Shippou também observavam o casal pela fresta da porta do quarto de material de limpeza.
–Esse cheiro de desinfetante é horrível. – Sango apertava a ponta do nariz, depois brigou por um espaço na fresta para ver o chefe e a protegida descendo as escadas – Sesshoumaru-sama parece mais calmo quando está com ela.
–Como é que você sabe? – Inuyasha não tirava os olhos do irmão – A cara dele de raiva é a mesma de quando tá feliz.
Miroku se virou e tentou imitar uma expressão séria do primo, miseravelmente falhando na hora de fazer o mesmo com a voz.
– "Eu estou feliz com você aqui, Rin". – falou.
–Eu vou contar pro Sesshoumaru. – Shippou ameaçou.
–Ei, ele vai passar por aqui! – Inuyasha falou, encostando a porta alguns segundos antes de Sesshoumaru e Rin passarem pela frente.
–Você ficou doente de novo? – ele perguntou.
Rin confirmou com a cabeça.
–Sim, mas Hakudoushi-sama está cuidando de mim.
Ao passarem, Sesshoumaru viu que havia uma mínima fresta no quarto de limpeza e fez a coisa mais certa nessas ocasiões para não saírem de lá insetos indesejáveis.
Trancou a porta pelo lado de fora.
Ao chegar ao quarto dela, ele apoiou um braço na batente da porta.
–Obrigada por me acompanhar. – ela encostou-se na porta – Eu já vou me trocar e descer.
Ficaram em silêncio, com ele apoiando uma das mãos na parede e o rosto quase encostando ao dela. Ele notou o vermelho formado nas bochechas, quase chegando às orelhas, por causa da timidez.
–O que foi? – ela sussurrou.
–Não vai me convidar para entrar?
Novamente ela prendeu a respiração e forçou um sorriso, passando a língua entre os lábios para umedecê-los e meio que tomar coragem:
–Eu acho que não precisa pedir isso... Você é o dono daqui.
–Mas eu não entro em qualquer quarto sem ser convidado. Não gosto que entrem no meu quarto assim.
Rin olhou para trás e tocou na maçaneta. Abriu a porta e entrou, dando passagem a ele também.
Ao pôr os pés no aposento, Sesshoumaru olhou ao redor. Ali ela esteve dormindo por duas semanas.
Respirou profundamente e olhou para trás, notando Rin estava parada atrás dele com um sorriso tímido e as mãos nas costas, balançando-se na ponta dos pés.
–Gostou do quarto?
–Muito confortável. – ela respondeu, educadamente – Foi muita gentileza cederem um pra mim.
–Por que não cederiam? – Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas – Alguém não queria?
–Não foi isso que eu quis dizer! – ela corrigiu nervosamente – Eu só estava agradecendo.
Como ficaram novamente em silêncio, Sesshoumaru colocou as mãos nos bolsos ao perguntar:
–Você não ia se trocar?
A garota deu uma risada nervosa e olhou as unhas recentemente feitas, torcendo os dedos.
Parecia que ela voltara a agir da mesma forma de antes, quando se conheceram, ele analisou. Tímida e receosa na hora de falar ou agir.
Passando por ela, aproximou-se da cama e sentou-se na beirada, no lado esquerdo.
–Pode vir aqui? – ele deu um suspiro cansado e fechou os olhos, esperando pela aproximação dela.
Alguns segundos se arrastaram até ele sentir o colchão ceder com o peso dela para poder abrir os olhos.
–Deite-se. – ele pediu e Rin timidamente ajeitou-se na cama e nos travesseiros.
Tiveram diversos momentos como esse em Osaka, mas ele ainda não se cansava de olhar aquela graciosa figura de enormes e brilhantes olhos castanhos.
Umarekawaru koto wa dekinaiyo
Dakedo kawatewa yukerukara
Let's stay together... itsumo
Curvando-se, ele aproximou o rosto do dela para iniciar a conversa:
–Você se sentiu bem aqui?
A resposta demorou.
–Sim... Claro que sim.
–Todos a trataram bem?
–Sesshoumaru... – ela deu um sorriso – Se eu me senti bem, foi porque me trataram bem. Mas eu não estou acostumada, sabe? Quando morei na casa de Bokuseno-sama, eu me senti muito isolada.
A informação o fez estreitar de leve os olhos.
–Você já morou com Bokuseno?
Ao vê-la confirmando com a cabeça um pouco hesitante, Sesshoumaru se perguntou como aquela informação não havia chegado até ele ou se Hakudoushi contou e ele não havia prestado atenção.
–Eu queria que tivesse me falado mais a respeito da sua família... – ela falava devagar – Você não me falou nada a respeito de Hakudoushi-sama ou... da sua mãe ou de Sango.
–Mas eu já tinha falado a respeito deles... Você conversou com minha secretária uma vez por telefone, também contei que meus primos e meu irmão são uns idiotas.
Rin não aguentou e começou a rir, cobrindo o rosto vermelho com as mãos, o que fez subir um pouco a manga de um dos braços e deixar à mostra gases e esparadrapos do curativo feito por Hakudoushi.
–Que ferimento é esse? – Sesshoumaru quase tocou, mas hesitou na última hora por não saber se ainda estava doendo ou não.
–Ah... Foi que... – Rin parou de rir e falou sem jeito – Aquele homem de ontem à noite fez isso... Mas Hakudoushi-sama já cuidou de tudo.
–Deve ter doído. – ele comentou cautelosamente e tocou a região machucada, esfregando a palma da mão de leve.
–Na hora, sim. Mas agora não mais.
Sesshoumaru parou o movimento e olhou-a longamente, observando cada detalhe que julgava não ter esquecido: as linhas dos olhos, as orelhas, o modo com que o cabelo caía na testa...
Boku dake ni waraatte
Sono yubi de nee sawatte
Nozomi bakari kahateshinaku
Baixando mais um pouco o rosto, ele a beijou. Foi algo tão suave e natural, que foi aos poucos aprofundado. A mão dele segurou o queixo dela com firmeza e Rin já ousava enrolar os dedos no cabelo liso de Sesshoumaru.
Yasashiku shitai yo
mooku yanu you ni
nageki no yumi mo koete yukou
Minutos depois, ele lentamente terminou o beijo e aproximou os lábios do ouvido dela:
–Se não se importar, posso mandar tirar suas coisas daqui e levar tudo para o meu quarto.
Rin o olhava imensamente surpresa e boquiaberta. Sesshoumaru, não dando maiores explicações, levantou-se da cama e ajeitou a camisa antes de continuar:
–Depois do jantar, você pode ir direto para lá. Vou pedir a Jaken para tirar tudo daqui.
Rin continuava tão surpresa que não conseguia pronunciar uma palavra.
–Espero você lá embaixo, Rin.
–S... Sim... – um sorriso se alargou no rosto dela – Claro que sim!
Depois de beijar a testa dela, ele saiu do quarto.
Pensativo, deu alguns passos calculados no corredor para subir as escadas que levavam ao andar do quarto dele.
Antes, porém, parou em frente ao quarto de limpeza e abriu a porta.
Com as mãos nos bolsos, fitou com calma os rostos envergonhados de Sango, Miroku, Inuyasha e Shippou. Pareciam quatro criancinhas de castigo.
–O jantar será servido daqui a pouco. – Sesshoumaru começou – Melhor se prepararem.
Shippou foi o primeiro a sair correndo e pulando. Inuyasha resmungou alguma coisa quando passou por Sesshoumaru e Sango curvou-se num pedido de desculpas antes de sair.
Quando Miroku passou por ele, o líder o fez parar ao tocá-lo no ombro:
–Por acaso Kikyo já terminou de interrogar o homem que capturaram?
–Acho que ela falou alguma coisa como interrogá-lo.
–Não pretende ainda matá-lo?
Miroku deu nos ombros. Aquilo significava "provavelmente sim".
Sesshoumaru aproximou-se do primo para sussurrar:
–Quando ela quiser fazer isso, certifique-se de mandar cortar o braço direito dele antes; depois pergunte a ele se dói.
E virou-se para subir para o quarto dele.
Mais tarde, depois do jantar:
Enquanto Sesshoumaru ainda tinha assuntos a tratar com Hakudoushi, Rin aproveitou o momento para arrumar as roupas em um espaço reservado no guarda-roupa do quarto dele. Depois, cansada com os eventos do dia e muito ansiosa, sentou-se na beirada da cama e observou o ambiente.
Ninguém podia negar que Sesshoumaru tinha um bom gosto. Tudo era tão limpo e organizado, com cores escolhidas combinando com tudo. Essa cama em que estava sentada, por exemplo. A do outro quarto era muito confortável, mas a dele era possivelmente o dobro.
A única coisa que não combinava era um futon num canto do quarto, um pouco longe da cama. Não precisava de um se havia uma cama tão confortável ali.
Sem precisar bater, ela viu Sesshoumaru entrar e levantou-se imediatamente.
–Demorei tanto que pensei que estivesse dormindo. – ele disse ao se aproximar dela e beijá-la na testa – Fui conversar com Hakudoushi depois que acabou o jantar. Desculpe a demora.
–Tu-Tudo bem. – ela sorriu e continuou em pé, observando o modo como ele se sentou na cama, quase no mesmo ponto onde ela estava antes, e desabotoou a camisa sem tirar os olhos dela.
–Você vai ficar aí em pé, Rin? – ele perguntou repentinamente.
A garota piscou várias vezes. Era visível que não havia entendido.
–Eu achei que você quisesse dormir. – ele deu um meio sorriso.
–Oh... – ela murmurou.
Um momento de silêncio se passou e Rin continuou onde estava.
–Rin... – ele começou novamente – Pode sentar comigo aqui?
Caminhando devagar, ela sentou-se e evitava olhá-lo, novamente extremamente tímida. Como aquilo podia ser adoravelmente irritante? Ele não gostava, mas admitia que era muito bom tirar vantagem daquilo nos melhores momentos entre os dois.
–Está gostando do quarto?
Rin deu um sorriso e olhou o ambiente:
–É bem maior que o outro onde eu estava. E bonito. Só aquele futon que não combina muito.
O líder olhou o canto indicado por ela.
–Sara gostava de dormir ali.
Rin estremeceu e piscou, incrédula. Quer dizer que Sara dormia ali e...
–Acho que vai gostar de ficar aqui, então. – ele resolveu falar para chamar a atenção dela.
–Ah, eu não sou exigente, você sabe... – ela ficou sem graça – É mais fácil você não me querer aqui.
–Eu quero você aqui. – ele afirmou com certa repreensão.
Rin mordeu o lábio inferior e voltou o rosto para o chão do quarto. Ela tinha que parar de falar aquele tipo de coisa. Sesshoumaru já havia falado mais de uma vez que era uma bobagem ela, já adulta, querer se inferiorizar ou achar que não era necessária em algum lugar.
A garota sentiu o cabelo que cobria a orelha dela ser movido para trás, depois o queixo ser virado na direção dele para facilitar a abertura dos lábios para um
Alguns minutos depois, eles já estavam deitados e abraçados.
–Ah...! – ela gemeu quando ele parou de beijá-la para morder o lóbulo da orelha direita.
–Precisou de alguma coisa nessas últimas semanas? – ele tinha os olhos fechados beijava o pescoço até o ombro – Dinheiro? Roupas? Comida?
–N... Não... – ela falou quase sem fôlego, sorrindo quando ele voltou a encontrar o olhar dela – Eu queria mais que você estivesse aqui.
–Eu também queria que estivesse comigo. – ele deslizou um dedo pela testa dela para tirar os fios que queriam cobrir parte do olhar – Mas não queria que passasse por mais estresse. Pensei que aqui estivesse mais segura.
Ficaram os dois por um momento em silêncio até ele limpar a garganta e decidir falar:
–Hakudoushi contou que você fez alguns exames, mas não quis me dizer o resultado.
Rin ficou inquieta nos braços dele, sentiu a boca secar e respirou fundo. Por fim, passou a língua entre os lábios para umedecê-los.
–Eu... Eu estou doente, Sesshoumaru – ela engoliu em seco – Hakudoushi-sama explicou que é um tipo de anemia aguda... Preciso tomar muitos remédios agora. Hakudoushi-sama tem sido paciente comigo porque sempre me esqueço de tomá-los.
–Por quanto tempo precisa fazer isso?
–Ele disse que seria por mais ou menos um ano. – ela pigarreou e ficou extremamente vermelha – Também falou pra não ficar grávida nesse período porque meu corpo pode não aguentar.
A expressão dele não se alterou, o que a deixou um pouco mais contente. Ele não parecia alarmado com a notícia, mas aparentemente também não prestava atenção ao que falava. Ele estava mais interessado em outra coisa: na roupa de dormir dela, um robe de seda branco muito provocante. Por baixo dele, era possível ver os contornos de um conjunto de roupa íntima na cor vermelha.
–Que roupa é essa? – ele perguntou.
Rin forçou os lábios a darem um sorriso, gaguejando:
–B-Bem... K-Kagome insistiu em comprar esta r-roupa, mas acho que não ficou bem em mim...
–Quem decide isso sou eu, Rin.
Kagome havia falado algo parecido, ela pensou enquanto Sesshoumaru continuava a olhar o corpo e o rosto dela... Não estava mais tão pálida e nem magra demais, parecia saudável e... Bem. Ela estava muito bem, muito melhor com ele.
–Tire-a. – ele falou de repente.
–Hã? – ela arregalou os olhos.
–Tire essa roupa para mim, Rin. – ele repetiu, estreitando levemente os olhos.
–Pelos deuses... – ela gemeu, escondendo o rosto.
Sesshoumaru a puxou pela cintura para sentá-la na cama.
–Vamos, tire logo. – ele disse, deslizando a mão direita dentro da roupa.
Um pouco hesitante, ela tirou graciosamente o robe branco, depois o sutiã. Com auxílio de Sesshoumaru, deitou-se de novo para tirar a parte de baixo.
Foram duas semanas longe.
–Sesshoumaru? – ela ficou assustada quando ele a agarrou e pressionou com força o corpo despido nele.
Duas semanas sem...
–Se-Sesshoumaru! E-Espera! – ela deu uma risada forçada, tocando de leve os ombros dele – Calma!
Duas semanas que passaram arrastadas demais!
–Nunca mais fique longe de mim. – ele passou as mãos pelas costas nuas e a abraçou mais forte – Nunca mais.
Tatoeba kurushii kyo datotoshitemo
itsuka atatakana omoide ni naru
Kokorogoto subete nagedaseta nara
Rin parecia um pouco chocada, mas depois de escutá-lo com as batidas do coração normalizadas, ela retribuiu o abraço e fechou os olhos para se beijarem com intensidade.
Momentos depois, ela ficava sem ar e separava os rostos.
–Deuses... – ela olhou-o com certo carinho – Eu senti tanta falta disso.
–Sentiu? – ele tirou o cabelo que insistia em cair nos olhos dela, satisfeito em vê-la sorrir.
–Você já quer dormir? – ela mordeu de leve o lábio inferior. Tinha acabado de ter uma ideia.
–Por quê?
–Eu... Eu gostaria de... – Rin sentou-se na cama, cobrindo os seios com um braço e olhando hesitante o futon.
Ficaram os dois em silêncio. Ele queria que ela tentasse se expressar.
–Aquilo ali... Está assim desde que... Ela morreu?
Houve um momento de silêncio entre eles.
– "Assim"? – ele quis esclarecimentos.
–O futon... – Rin falou cautelosamente – Ele está... limpo?
Sesshoumaru abafou uma risada. Como ela era hesitante por tão pouco.
–Eu gosto de dormir lá algumas vezes... Seria um pouco estranho que nunca o lavassem desde que Sara morreu.
–Ah... – ela se sentiu uma estúpida por pensar numa coisa absurda como aquela. Claro que lavariam tudo.
–Por quê? – ele quis saber.
Rin demorou a falar, respirando pesadamente e baixando o rosto.
–Pode... Podemos... Será que podemos dormir lá?
Como ele ficou calado, ela arrependeu-se da pergunta que fizera. Era um pedido tão idiota quanto o comentário a respeito da limpeza do colchão.
–Você quer mesmo dormir lá?
Rin sussurrou um "sim" meio vago.
Um momento depois, Sesshoumaru levantou-se e tirou de vez a camisa já desabotoada e a largou na cama. Depois pegou os cobertores e as almofadas para levar ao futon, onde sentou-se.
Já pronto para deitar, arqueou as sobrancelhas ao ver a garota vestir novamente o conjunto de dormir.
–Por que está fazendo isso?
–Tá frio... – ela confessou timidamente – Nas últimas noites eu tenho dormido com duas blusas e dois cobertores.
Sesshoumaru nada comentou. Simplesmente estendeu a mão, indicando silenciosamente que ela viesse se juntar a ele.
Apenas alguns segundos depois foi que Rin andou até ele e aceitou a mão estendida.
koko ni ikiteru imiga wakaruyo
umareochita yorokobi mo shiru
Let's stay together... itsumo
Próximo capítulo:
"–Quer que eu comece a tocá-la, Rin?"
"–Parkinson é uma doença que..."
"–Está pensativa de novo, Rin."
Capítulo 11: O coração de um criminoso
