Disclaimer: "Inuyasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.
A cor do dinheiro
Capítulo 12: A mente de uma criança.
Para Lan Ayath
Andar só camisa numa noite de inverno era insensato e incômodo. Principalmente quando se estava com a saúde prejudicada. Mas não era tão importante quanto a incrível curiosidade e vontade de confirmar algumas coisas. Era um sentimento que costumava dominar os seres humanos e os forçava a esquecerem as fraquezas.
Foi isso que aconteceu a Rin. Logo que viu Sesshoumaru respirando regularmente, ela desceu da cama e voltou até a cômoda onde havia chocolates, um laptop de última geração e várias fotografias. Uma delas chamava a atenção mais que as outras.
Simplesmente não acreditou no que viu. Sesshoumaru não poderia ter aquela foto na casa dele.
Na imagem ela via o pai dele, o falecido líder da família Shiroi, um homem cujos traços lembravam Kikyo, o próprio Sesshoumaru – adolescente -, a madrasta e o pai dela.
–Etsuko... – ela murmurou.
Um pensamento a fez estremecer. E se Sesshoumaru soubesse que ela havia...?
–Rin?
A garota sufocou a vontade de gritar com a mão, virando-se para ver Sesshoumaru deitado de costas e a cabeça virada na direção dela.
–O que faz aí? – escutou-o perguntar.
A garota umedeceu os lábios e engoliu em seco depois.
–Estava... vendo... se tinha mais doces. – ela mentiu.
Não pôde ver de onde estava e por causa da pouca iluminação, mas teve a certeza de que ele arqueou uma sobrancelha.
–Venha aqui. – ele indicou com a mão, convidativo, um espaço vazio ao lado dele – Volte para cama.
Será que ele sabia?
–J-Já... Já vou... – ela murmurou.
Sabia sobre a históriadela de verdade?
–Aconteceu alguma coisa, Rin? – ele perguntou ao notar a apreensão no rosto nela.
–Nada... – ela não quis encontrar o olhar dele e pôs um joelho na beirada da cama.
Foi recebida, porém, nos braços dele, o que a fez encará-lo depois.
–Quer conversar sobre alguma coisa? – Sesshoumaru perguntou.
Balançando a cabeça antes de sentir a camisa ser levantada, ela respondeu:
–Não...
Assim que a peça que ela vestia foi jogada para o lado, ele segurou o rosto dela pelo queixo e forçou-a a beijá-lo. Ou melhor, fez com que os lábios se encontrassem, o que a deixou surpresa.
Fazendo-o sentar-se, ela apoiou as mãos nos ombros e começou a responder às carícias, primeiro com um beijo suave, aprofundando-o depois.
Subiu mais no colo dele e estremeceu ao sentir as mãos quentes deixarem de segurá-la na cintura para tocarem-na nas costas.
–Não quer mesmo me contar? – ele perguntou no ouvido dela – O que quer que esteja preocupando minha Rin também me preocupa.
Fechando os olhos para aproveitar aquilo, Rin apenas murmurou um "sim" meio sofrido, meio extasiado, gemendo o nome dele quando sentiu uma leve mordida num dos ombros.
–Você... – ela começou – Você promete que...?
Sentiu-se deitada na cama e abriu os olhos, encontrando os de Sesshoumaru.
–Prometer o quê? – ele perguntou, deitando-se em cima dela.
–Que não vai... – em lugar de gemer, estremecer, extasiar-se com aquilo, Rin engoliu em seco e sentiu os olhos marejarem – Pensar coisas erradas a respeito de mim...?
–Que coisas?
Rin levou uma das mãos à cabeça, como se estivesse doendo. Não precisava contar toda verdade. Não precisava saber do que realmente precisava ser ocultado.
–Que coisas, Rin? – ele repetiu num tom mais severo.
–Não quero que... – tinha a voz embargada – Pense coisas erradas de mim...
Alguns dedos tocaram o rosto dela, esfregando-os de leve nas partes que estavam rosadas.
–Não vou pensar. – Sesshoumaru, sério, prometeu.
–Por onde eu começo? – ela repetiu a pergunta que ele havia feito no início da noite.
Sesshoumaru saiu de cima dela, sentou-se na beirada da cama e esperou.
–Do começo? – ela respondeu meio hesitante.
Viu-o confirmar com a cabeça e deu um suspiro. Ela também levou um tempo para começar a própria história.
–O meu pai foi casado no papel com a minha mãe e também tinha muitas amantes por aí.
Rin pausou por um segundo. Ela não queria trazer à tona, mas ia ser necessário tocar em um assunto um pouco delicado e esperava que ele não se aborrecesse com o que ela ia comentar:
–Pode ter ficado estranho, mas... quando soube que você estava com aquela mulher nessas duas semanas, eu pensei por um segundo que vocês estavam juntos... como meu pai e essas outras mulheres.
Uma sombra passou pelo rosto de Sesshoumaru e ela notou aquilo.
–Você me explicou, eu sei. Mas, por favor, entenda que não fui acostumada com isso. Minha mãe morreu e ele levou pra casa a outra família que ele tinha poucos meses depois. E minha madrasta também descobriu outras amantes dele.
–O seu pai era um imbecil.
–Você o conhecia? – ela estremeceu com a simples lembrança dele.
–Apenas de reuniões. Nunca troquei palavra com ele além do necessário.
Sesshoumaru deslizou o polegar na bochecha dela. Ela ainda parecia assustada com o que ia falar:
–Eu não tenho nenhuma outra mulher no momento além de você. Kikyo é uma pessoa muito próxima, mas não tenho e nunca tive nada com ela.
Diante da sinceridade das palavras dele, ela confirmou com a cabeça o entendimento.
–Continue.
Escondida dentro de um armário, ela olhava curiosa por uma fresta o homem que invadira o quarto. Rin tinha quatro anos e estava lá porque haviam avisado que havia... ladrões na mansão e ela precisava se esconder até chegarem os seguranças.
Porém, quando pensou que aquele homem iria embora depois de revirar todos os móveis à procura de algo, ela arregalou os olhos ao vê-lo escancarar a porta do esconderijo para surpreendê-la:
–Quer dizer então que achava que não iam te achar aqui, é?
O bandido ergueu o braço e a lâmina da katana reluziu, o que a fez gritar pelo pai e fechar os olhos.
Mas o golpe não veio. Por estar de olhos fechados, ela não viu um dos seguranças entrar e atacar o invasor.
O único problema foi que ele atirou e o matou na frente da criança. Sangue caiu nas roupas e no rosto dela.
Impressionada, ela não piscava mais.
O pai apareceu e mandou tirarem o corpo, ela não falava mais.
Nessa noite, ela não dormiu.
Nem naquela noite, e nem nos próximos dias.
–Ela não fala há mais de uma semana. – a mãe declarou – Temos que procurar um médico.
–Vamos esperar mais um pouco... Talvez isso mude. – o pai afirmou.
Porém, mais de um mês se passou e nada mudou.
Meses depois, Rin continuou sem falar, sem comer direito, sem notar a presença de outras pessoas, e os pais a levaram a um médico que deu o diagnóstico:
–Sua filha tem transtorno de estresse pós-traumático.
O médico não ficou nem um pouco surpreso quando notou a dúvida nos rostos dos pais de Rin.
–É essa a palavra que utilizam pra dizer que ela é anormal? – o pai parecia revoltado.
–Eu não falei isso. – o médico replicou fria e calmamente – Eu falei que sua filha está traumatizada. Quero dizer que ela necessita de uma atenção maior que as crianças normais e de um tratamento adequado por ter passado por uma situação de muito estresse e ansiedade.
–Mas... – a mãe murmurou – Não pode fazer nada por ela? Não pode fazê-la voltar ao normal?
O médico arqueou a sobrancelha. Era tão complicado para alguns pais entenderem certas coisas.
Apoiou os cotovelos na beirada da mesa e uniu as mãos.
–A filha de vocês... Rin é uma criança que criou um mundo particular, onde só ela mesma pode estar, para se proteger e não relembrar o que quer que tenha passado antes de vocês a trazerem aqui para eu examiná-la. Por isso que ela não responde quando vocês a chamam, não come ou dorme direito. Eu recomendo que a leve a um psicólogo e um psiquiatra para ajudá-los nessa questão... Eu só posso cuidar da saúde física dela. Ela está mal nutrida porque não come direito.
–É que ela se esquece de comer! Não responde quando falamos. – a mãe interrompeu.
–Minha filha não é anormal. – o pai de Rin declarou firmemente.
–Não estou dizendo que é. - o outro tornou a falar – Um psicólogo pode ajudá-los melhor que eu, já que não sou dessa área.
–Ela não é. Rin não anormal.
O médico deu um suspiro. Que pai mais difícil. Tão cabeça-dura...
–E a gente? – a mãe perguntou-lhe – O que o senhor nos aconselha a fazer? – forçou um sorriso amarelo – Tentar fazê-la falar?
Encarou-a por um momento. Aquele sorriso a fazia parecer tão tola... Talvez ainda tivesse dúvidas com relação ao que a filha realmente tinha.
Olhando para a criança, que estava dentro de uma sala – separada da deles por uma porta e uma janela de vidro pela qual conseguiam vê-la -, o médico, dando os ombros, arriscou um palpite:
–Sabem se Rin gosta de algum tipo de instrumento?
–"Instrumento"? – o casal repetiu.
–Deem a ela alguma atividade, qualquer coisa que a deixe ocupada. – ele falou – O comum é fazerem a criança aprender a tocar alguma coisa.
–Piano? – a mãe arriscou.
–Pode ser.
A mulher agora tinha um sorriso vitorioso. Com certeza pensava que poderia vencer aquela barreira e trazer a filha à realidade... de novo.
Dois anos depois, nada mudara. Rin, agora com seis, realmente aprendera a tocar piano, mas a mudança que os pais esperavam não aconteceu. Não era uma das melhores alunas e nem tocava bem, o que tornava as coisas ainda mais difíceis. Três professores haviam deixado o cargo em dois anos e a quarta estava quase para fazer o mesmo.
–Vamos lá, Rin-chan... – a mestra tentou mais uma vez – Vamos tentar de novo?
Rin ficou olhando as teclas e não moveu o olhar.
–Rin! – a mulher estalou os dedos severamente numa tentativa de acordá-la – Execute um arpejo para mim.
A garota não pareceu ter escutado, o que fez a professora dar um suspiro cansado. Era complicado demais trabalhar daquela forma.
–Boa tarde. – uma pessoa falou ao entrar na sala.
A professora olhou por cima do ombro e viu a mãe de Rin.
–Boa tarde. – ela se levantou do banco e fez uma reverência à dona da casa.
–Quero conversar um instante com Rin. – a senhora Shiroi falou – Pode sair?
–"Conversar"? – a professora estranhou o termo usado pela mãe, além da expressão que ela tinha. Parecia que estava preocupada com alguma coisa grave.
Mas aquilo não era da conta dela. Fez-lhe então outra reverência e saiu.
Depois que escutou a porta fechar, a mãe de Rin ficou em pé atrás da filha e tocou-lhe nos ombros, começando a massageá-los. Não teve reação alguma por parte da menina, mas não se importava mais: já estava acostumada.
Entretanto, aquele toque pareceu tê-la "despertado". Sem querer, Rin piscou.
–Estava dando trabalho à sensei de novo, Rin-chan? – a mãe perguntou.
As mãos saíram dos ombros e foram ao cabelo, no qual deslizava os dedos entre as mechas.
E Rin permanecia quieta, fitando algo que parecia interessante no teclado de marfim e ébano do piano de cauda.
–Talvez mamãe não veja mais você... – ela começou num tom melancólico – Mamãe vai ter que fugir daqui...
Shiroi Yuko começou a fazer uma trança no cabelo da filha.
–Ele descobriu que ainda estou... Com ele... E se eu ficar aqui, ele vai me matar.
Pela primeira vez, parecia que Rin estava prestando atenção ao que falavam perto dela, embora não desse sinal de que ouvia. Observava a mãe pelo canto dos olhos, conseguindo até mesmo sentir a tensão que a dominava.
–Engraçado que ele também tem outra família... Outra mulher... E ele não está errado, mas eu sim.
A mão no cabelo parou por um momento.
–Mas por que eu estou falando isso pra você, mesmo? Pra pedir conselho? – a mãe perguntou meio irônica, meio triste – Você é muda, que merda...
A trança terminara e Rin sentiu novamente as mãos nos ombros para massageá-los.
–Vou ficar num lugar seguro. Eu queria te levar, mas Bokuseno me aconselhou a deixá-la aqui... É mais seguro e ele vai dar um jeito de te proteger. Ele me garantiu que nada acontec...
A porta se abriu repentinamente e Yuko arregalou os olhos ao ver que eram os seguranças do marido.
–O senhor Shiroi quer vê-la, senhora.
Alguma coisa tentou sair da garganta quando abriu a boca, mas depois a fechou, já sentindo os primeiros tremores por aquela situação. Com certeza ela não esperava que o marido chegasse tão cedo...
–Eu... Eu já vou... – ela falou, começando a caminhar acompanhada da segurança, mantendo a cabeça baixa e submissa.
Rin não viu o último olhar que a mãe lançou a ela antes de fechar a porta, permanecendo na mesma posição por alguns momentos. Quando se moveu, foi para curvar as mãos no formato de concha para poder dedilhar.
Novamente a porta se abriu e ela escutou a voz da professora:
–Vamos continuar, Rin-ch...?
A mestra interrompeu a fala ao ver a cena.
–Mas...? – conseguiu murmurar depois.
Rin estava tocando um arpejo.
Três meses depois da morte da mãe, Rin sentia outros dedos se moverem no cabelo dela. Era de uma empregada que a arrumava para ficar apresentável a alguns novos "moradores" que o pai traria naquele dia.
–Pronto, Rin-chan. – a empregada falou – O senhor Shiroi já está na sala.
Pegou na mão da criança e a puxou pelos corredores, levando-a à escada e descendo, chegando à sala segundos depois.
A menina não se sentou: foi sentada pela empregada no sofá, no qual ela ficou até as "visitas" aparecerem, o que ocorreu dez minutos depois.
Primeiro o carro do pai buzinou a chegada. Depois algumas pessoas apareceram na sala: o pai, uma mulher, um menino do mesmo tamanho dela e um rapaz, um jovem de dezesseis a dezoito anos.
–Aquela é minha filha. – escutou o pai falar – Vamos até ela... Às vezes chamá-la pelo nome não funciona.
–Oh? – a mulher murmurou.
Rin sentiu a mão do pai levantá-la para fazer a apresentação:
–O nome dela é Rin.
Em frente a eles, a menina foi recebida com sorrisos. A mulher se curvou a tocou-lhe a face.
–Que menina linda! – ela exclamou – Tem os olhos mais bonitos que já vi.
–É ela que é doida? – o menino perguntou ao senhor Shiroi e ao rapaz, irmão dele. Este, ao escutar a frase, pressionou com força um punho no cabelo do menor para repreendê-lo.
–Cuidado com a boca, moleque.
–Ai, ai, ai! – o menino agitou os braços – Tá doendo!
Disputando espaço com a mãe, o mais velho de abaixou e ficou quase do mesmo tamanho de Rin, dando um sorriso gentil ao fechar os olhos.
–Meu nome é Yuri, Rin. Você é ainda mais linda do que papai nos contou.
Por um momento, um breve instante, os lábios dela pareceram se abrir e um arquear de sobrancelha tão leve apareceu na fronte dela. Então eram eles...
–Não ligue pro que Bankotsu fala, Rin. – Yuri voltou a falar – O moleque tem uma língua muito afiada.
–Ei...! – o menor protestou.
–Tá bom, tá bom... – a mãe deles, Etsuko, parou a briga – Vamos arrumar nossas coisas... Vamos lá, Rin-chan? – pegou no braço dela gentilmente – Somos sua família agora. Venha conosco que vamos te mostrar algumas coisas...
O pai permaneceu calado, observando as feições da filha, que foi levada de novo escada acima ao lado dos irmãos e da madrasta, não escutando os comentários que esta fazia à enteada:
–Sou sua mãe agora. Eu imagino que deve ser chato não conhecer a própria mãe... Seu pai me contou que ela morreu quando você nasceu...
–Mãe, isso não é hora de falar essas coisas... – o filho mais velho falou meio irritado.
–Ah, essa minha cabeça! – ela bateu na testa de leve – É que estou contente, sabe? Eu nunca tive uma filha... Ah, ela é tão linda... Morou tanto tempo fora do país que...
E Rin nada comentou a respeito.
Dois anos se passaram desde que os novos membros entraram na família de Rin. A madrasta era uma mulher boa e ingênua, acreditando em quase todas as desculpas que o pai dava a respeito da outra vida que tinha antes de trazê-los àquela casa.
Uma tola. E Rin gostava dela.
De todos, no entanto, ela tinha se apegado mais ao mais velho. Seguia Yuri por todos os cantos, e ele ainda se tornou o paciente professor de piano dela. Admirava as feições calmas e a paciência dele, que também tinha um ar misterioso.
Numa tarde, sentada ao mesmo e velho piano de cauda, Rin executava uma lição dada pelo irmão mais velho, que conversava com dois amigos, enquanto a madrasta não aparecia para levá-la para sair. O pai estava fora, possivelmente ainda procurando pelos responsáveis pelo atentado que sofrera dias antes. Um carro tentou provocar um acidente e houve também uma troca de tiros, mas os causadores haviam escapado depois de perceberem que não conseguiriam matar o chefe. Ninguém tinha sido encontrado até o momento, mas ainda se baseavam numa pista dada por um dos homens da guarda: um deles havia se ferido no braço. Só isso. O resto ainda era um mistério.
–Ela não tá mesmo escutando? – um dos amigos de Yuri perguntou.
–Já falei que não. – ele respondeu irritado – Só não tenho certeza se o moleque tá aqui também... – levantou-se e abriu a porta para olhar o corredor, fechando-a depois.
–Seu irmão tava revoltadinho ontem, né? – o outro amigo brincou – Qual o problema com ele?
–Acho que esse moleque tá usando drogas... – Yuri resmungou ao se dirigir a uma cômoda para pegar alguns doces.
–Vai comer isso agora? – um deles perguntou incrédulo.
–Isso é pra ela. – Yuri já se arrependia de ter convidados como aqueles em casa.
–Por quê?
Yuri revirou os olhos.
–É que às vezes ela esquece que precisa comer... – aproximou-se da irmã – Coma isto aqui, Rin... Até a hora do jantar não fará mal.
Não teve reação por parte dela e esqueceu-se de estalar os dedos para chamar-lhe atenção. Isso porque notou uma coisa na música que ela tocava.
–Não, Rin... – ele sentou-se ao lado e apontou a partitura – Está errado. O começo é com um compasso ternário. – curvou as mãos no formato de concha e começou a tocar – Um forte e dois fracos. Forte, fraco, fraco. É no um e dois e três e quatro. Um e dois e três e quatro.
Os olhos, que pareciam admirar os movimentos rápidos dele, perderam por um momento a atenção quando ela notou algo muito curioso. No momento em que ele estalara os dedos para executar a nota, a manga da camisa de inverno subiu e Rin notou um ferimento quase cicatrizado no pulso do irmão. Yuri notou que a atenção dela não estava mais centrada na lição e sim na marca, encontrando os olhos dela.
Um pouco sem jeito, ele piscou um instante, mas recuperou a pose ao cobrir o ferimento, não desencontrando, corajoso, o olhar.
–Não suspeitam mesmo de nada? – o mesmo amigo que perguntou a respeito dos doces voltou a falar.
–O Velho falou que não ia deixar. – Yuri garantiu, levantando-se e deixando Rin com mais uma lição ao piano – Só espero que minha mãe não suspeite de nada depois que tudo acabar.
–Você é doido por escolher isso, cara. – um falou.
–Eu só quero que minha família fique bem, mas não com esse Shiroi. – falou o filho mais velho do primeiro casamento de Etsuko, sentando-se num sofá perto de onde as visitas estavam – Mamãe merece coisa melhor.
A porta da sala de música se abriu e os três se ergueram abruptamente e ficaram tensos. A guarda da família Shiroi entrou e os cercaram, ficando todos em silêncio e escutando apenas o som do piano de Rin, que não pareceu notar a confusão.
–O senhor Shiroi quer vê-lo, Yuri-sama. – o chefe falou – Ele está no escritório.
Um ar mais carregado atingiu os amigos, mas Yuri recuperou a calma.
–Tudo bem... Já vou falar com ele. – deu as costas e voltou para perto da menina – Rin, toque isto aqui quando eu voltar, ok? – indicou uma partitura de Brahms e piscou um olho – Faça um esforço, certo?
Não esperou resposta dela e foi até a segurança, passando altivo por todos e parando ao escutar:
–Seus amigos também devem ir, senhor. – o chefe voltou a falar – O senhor Shiroi quer conversar com todos.
Nesse instante, Yuri sentiu um pouco de medo, mas não quis demonstrar. Qualquer coisa que fizesse poderia piorar a situação. E também tinha um pouco de esperança. Afinal, Bokuseno deu a palavra dele ao dizer que não aconteceria nada.
E, junto com os amigos, saiu da sala, deixando Rin sozinha. A segurança também tinha ido, claro, e a menina continuou com as lições. Uma música calma, fluída e com ritmo bem marcado.
Nem cinco minutos se passaram até a porta abrir de novo e a madrasta, arrumada para sair, entrar.
–Rin-chan, terminou a lição? – ela perguntou sorridente, virando o rosto para procurar por alguém – Ué? Cadê o Yuri?
Como Rin ficou calada, ela ficou sem graça e aproximou-se da menina, beijando os cabelos:
–Está na hora de ir ao shopping, Rin-chan. Vamos, lá?
A música parou e Etsuko a levantou, levando-a pela mão para fora da sala, pelo corredor, à sala, saindo pelo jardim até entrarem num carro.
Quando o motor ligou e o veículo começou a andar lentamente pelo caminho até o portão, Rin olhou pela janela. Por um dos lados da mansão, os seguranças levavam os amigos de Yuri para o quintal. E embora o rosto estivesse coberto por um pano preto, ela reconheceu o irmão mais velho pelas roupas. O carro continuou seguindo reto, mas o rosto de Rin virava à medida que ficavam longe.
–O que foi, Rin-chan?
A menina não respondeu. E algo semelhante a um tiro soou, o que deixou Etsuko assustada.
–O que foi isso? – ela perguntou ao motorista, levando uma das mãos para controlar o coração.
–Deve ter sido um pneu de outro carro, senhora.
–Ah... – ela suspirou mais calma.
No outro dia, nos jornais havia a notícia num dos cantos da primeira página de que a família Shiroi estava de luto. O filho do primeiro casamento da atual esposa do chefe Shiroi fora assassinado. No enterro, a mãe, com horríveis olheiras, observava o caixão com o nome do filho ser carregado com flores. Rin observava que, embora quisesse mostrar frieza, a mulher queria chorar. O outro irmão, Bankotsu, também estava lá, e parecia ser indiferente à perda.
À noite, algumas pessoas que foram ao enterro ainda estavam na sala. Rin tocava o Brahms que o irmão pedira na véspera e a madrasta olhava fixamente alguma coisa no teto, o braço esquerdo apoiado na testa naquela postura desleixada num sofá.
–Boa noite. – uma voz masculina falou, o que chamou até mesmo a atenção da menina, que parou de tocar por três segundos.
Era um homem sério, maduro, não deveria passar dos quarenta anos, mas tinha um ar de respeito de uma pessoa idosa e sábia.
Aquele era o homem mais importante da yakuza, atual chefe do Conselho da mesma. Vindo da província de Chiba, Hatsutomi Bokuseno apagou o cigarro assim que entrou, percebendo quem estava em sala: uma mulher e uma criança.
–Não pare de tocar, Rin-chan. – Etsuko ignorou o visitante – Estava muito bonito.
–Senhora... – ele aproximou-se dela e fez uma reverência – Eu sou um... amigo do seu marido. E estou profundamente sentido com essa perda. Seu filho tinha um futuro promissor.
A mulher lançou-lhe um olhar de ódio.
–Quero ficar sozinha com a minha filha.
Bokuseno arqueou uma sobrancelha e olhou a menina.
Alguns segundos se passaram até o comentário dele:
–Que eu saiba, a mãe dela é outra.
–Rin-chan, vamos pro quarto. – Etsuko falou irritada – Já cansei dos mesmos discursos de toda essa gente que vem aqui.
–O meu discurso não é o mesmo. – Bokuseno falou com certa autoridade – Entender de mortes é algo que eu aprendi ao longo dos anos.
Etsuko ficou em frente a ele e o desafiou no olhar. Antes que ela pudesse falar algo, ele se adiantou:
–Eu acredito que hoje não seja um dia bom para discutir, principalmente comigo, senhora. – o homem tentou mostrar-se calmo com um meio sorriso – E acredito que a sua... filha não vai querer escutar uma resposta minha.
–Eu queria meu filho, eu! – ela batia de leve um punho no peito – Tiraram o meu filho! Nada do que me digam vai me fazer sentir melhor! – a voz começou a falhar e Bokuseno já imaginou que ela fosse chorar, suspeita confirmada quando escutou alguns soluços – Meu filho... Eu queria meu filho...
Bokuseno arqueou as sobrancelhas e balançou a cabeça um pouco desalento. Cansava-se facilmente em ver aquelas cenas e não estava mais nem tão preocupado com ela, mas sim com a menina tocando. Era a primeira vez em muitos anos que voltava a ver Rin e ela nem tinha percebido que estava ali.
–Não é certo que uma mãe tenha que enterrar seu próprio filho! – o grito de Etsuko fez com que as atenções fossem somente para ela – Deveria ser o contrário... Ele deveria viver mais que eu...
A mulher caiu sobre as próprias pernas e chorava descontrolada, a mão ainda no peito para diminuir o sofrimento. Ela nada sabia dos negócios do marido e, se soubesse, toda aquela cena seria ainda mais dramática. Até mesmo Rin parou de tocar e a olhava, embora ainda desinteressada por tudo.
Foi nesse instante que os olhares centrados na figura de joelhos no chão se desviaram dela e se encontraram.
–Não se preocupe, senhora. – ele falou sem deixar de encarar a menina – Quem fez isso será encontrado e vai pagar.
E um sorriso de Bokuseno fez com que algo mexesse dentro de Rin, que arregalou os olhos e piscou assustada, entrando novamente na mesma realidade que os outros. Parecia que ela já sabia de toda a história e que realmente faria o que disse.
–Tem a minha palavra... – ele finalizou – De que isso vai acontecer um dia...
–Eu me sinto culpada... – Rin falou a Sesshoumaru – Eu não fiz nada por ela e já suspeitava do que tinha acontecido...
Sentada sobre os joelhos na cama e o rosto abaixado por não conseguir suportar o olhar do homem com quem vivia nas últimas semanas, Rin sentia as lágrimas quentes escorrerem à medida que ia lembrando os fatos. Ele calmamente a fitava, notando a cabeleira negra dividida ao meio e caindo como uma cortina pela lateral do rosto, os braços trêmulos, mãos fechadas em punho e pressionadas no lençol.
Sesshoumaru tinha as costas pressionadas na cabeceira da cama, os braços cruzados, os lábios um pouco separados - se fosse o caso de ter que interromper em algum momento a história.
–Rin...?
–Eu me odeio por causa disso. – ela confessou – Eu agi como uma idiota o tempo todo e deixei que essas coisas acontecessem. Se eu tivesse avisado, Yuri estaria conosco... E minha madrasta também.
–O que aconteceu com ela?
Por um instante, ela ergueu a cabeça e tinha um brilho estranho nos olhos, como se tivesse se horrorizado ao lembrar algo já acontecido.
–Ela... morreu... – disse, voltando a baixar o rosto e sentindo os cabelos cobrirem a figura dela – Eu não quero mais falar sobre isso, por favor...
Acenando levemente com a cabeça, ele concordou.
–Amanhã eu... Preciso acordar cedo. Tenho uma reunião com Bokuseno. – Sesshoumaru pegou o lençol e puxou-a para si, passando alguns dedos entre os cabelos de Rin e levantando o rosto dela pelo queixo – Já que o conhece, deve saber que ele não gosta de atrasos.
–Eu... Eu sei. – ela olhou para o outro lado e piscou, sentindo uma lágrima escorrer pelo canto de um olho – Sinto muito por ter que me escutar... Se não fosse por mim, já estaria dormindo.
Foi deitada por ele na cama e coberta pelo lençol, sentindo novamente um peso – o dele – sobre ela e mãos quentes segurarem a face.
–E por que achou que eu iria pensar coisas "erradas" sobre você?
–Todo mundo pensou. – os lábios formaram num sorriso triste – Foi a primeira coisa que Bankotsu perguntou quando me conheceu.
–O que foi que falei na nossa primeira noite em Osaka? – ele quebrou um silêncio momentâneo.
Rin sentiu o rosto queimar. Tantas coisas que ele dissera naquela noite e nem metade delas escutaria de outra pessoa.
–Eu sabia que você era especial no momento em que a vi naquela mesa, olhando para este Sesshoumaru. – ele sussurrou no ouvido dela – E nada me fez e nem me fará mudar de ideia.
A língua logo passou a sugar o lóbulo e foi depois para o pescoço, fazendo-a estremecer e receber uma espécie de "retribuição" quando ela começou a fazer o mesmo nele.
Sesshoumaru não precisa saber o que se passou depois, Rin pensou com certa esperança. Não precisava saber sobre certo ponto da vida dela sobre a qual mentiu. Era certo de que não faria de novo, mas não contaria sobre o fato.
–Sess... Você... Você não disse que precisava...?
–Chega de falar. – ele ordenou, procurando os lábios dela e explorando a boca furiosamente, parando para falar – Bokuseno pode esperar.
–P-P-Pode? – ela ficou meio chocada – Mas ele...!
O beijo recomeçou tão inesperadamente quanto o outro, e ela teve que esquecer o que falaria para se ajustar ao corpo dele numa outra posição enquanto o sono não vinha para ambos.
No quarto de Inuyasha, o mais novo tinha que satisfazer outros "desejos" da mulher, que queria comer pizza, bolo, sorvete e frutas tropicais de uma única vez.
–Sorvete... Bolo... Pizza... – Kagome choramingava – Quero tudo...
–Não tem nada numa hora dessas, Kagome! Vai logo dormir! – Inuyasha falou irritado e cobriu-se com um lençol até a cabeça para deitar-se de costas para ela.
Segundos depois, alguém o empurrava da cama.
–Caramba, Kagome!
–Você é muito mau! Você não gosta de mim e do nosso filho! – ela passou a mão na barriga e fez um beicinho infantil.
O marido pulou na cama e pegou o rosto dela, estreitando os olhos ao encará-la.
–Nem mesmo você tem direito de falar uma coisa dessas, Kagome. – falou num tom de aviso – Já me conhece melhor que ninguém e sabe que não é verdade isso.
–Mas eu quero bolo...
–E eu quero dormir!
Novamente foi empurrado para fora da cama.
Rosnando, ele apoiou primeiro um dos braços para subir parte do rosto, arqueando as sobrancelhas ao ver a mulher fitando o nada e acariciando o ventre.
–O que... O que foi? – ele subiu de novo e sentou-se ao lado dela.
–Eu ainda estou... Preocupada com aquilo.
–Com os chocolates que você queria roubar de Miroku?
A garota estreitou os olhos e ele suou frio.
–Você sabe... – ela sussurrava num segredo – Eu não gosto nada disso... Poderíamos ter morrido no ataque, Inuyasha. E eu ainda estou esperando que me dê uma resposta sobre sair ou não da yakuza, Inuyasha!
–Kagome... – ele piscou.
–Rin-chan se machucou, Sango também! E se tivesse acontecido algo com Shippou? Se tivesse sido comigo? Com o nosso filho?
O marido desviou os olhos e passou a fitar o chão de um dos lados da cama.
–Eu ainda não sei o que vai acontecer... E também não falei com Sesshoumaru... – ele começou, assumindo um ar sério – Também não esperava mais ataques como esses desde que a maluca da sua irmã resolveu nos atacar naquele ano.
Kagome ficou calada e olhou os desenhos da camisola, concentrando-se apenas no que havia dentro.
–Não quero que ele... Que... – falou o nome do menino em voz tão baixinho que só o marido entendeu -... participe disso. Podemos até morar longe de tudo isso, em outro país, se for necessário. Não quero que Kikyo faça dele um líder, como ela quer, nem que você o ensine a matar. Não quero...
Sentiu a mão de Inuyasha no ventre.
–Eu vou... Vou conversar com Sesshoumaru depois que isso acabar. Mas vamos esperar mais um pouco... Só até tudo isso acabar. Eu prometo.
Pegou na mão dela e apertou-a.
–Certo?
Uma confirmação com a cabeça e um sorriso gentil de Kagome foram as respostas mais do que suficientes para ele.
–Mas... Mas... Eu estou com fome... – ela arregalou os olhos como se fosse alguém quase para desfalecer – Onde você disse que estão os chocolates que Miroku escondeu? Vou mandar Shippou ir lá pegar.
–Estão no quarto de Sesshoumaru.
Kagome sorriu extremamente sem jeito.
–Então compre uma pizza pra mim. – ela ordenou, cruzando os braços com autoridade.
–Ah, pelos deuses, né, Kagome? – ele se deitou de novo e cobriu a cabeça com a almofada – Boa noite. E dorme logo.
–Ah... – ela fez outro beicinho – Acho que vou ter que falar pra minha irmã que estou com fome e pedir pra guarda dela comprar alguma coisa.
Um minuto de silêncio se passou. Inexplicavelmente, Inuyasha se sentou e, sem graça, pegou o telefone da mesinha ao lado da cama e perguntou à mulher:
–Quer pizza de quê, amor?
Próximo capítulo:
"–Durma, Rin."
"–E desde quando o senhor presta atenção nessas coisas, meu pai?"
"–Eu estou morrendo por causa disso."
Capítulo 13: Todos têm um pouco de culpa.
