Disclaimer: "Inuyasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.

A cor do dinheiro

Capítulo 13: Todos têm um pouco de culpa

Para Lan Ayath

Um beijo atrás do outro, uma carícia seguida de um gemido ou de um sussurro fraco no ouvido. Um corpo feminino embaixo do masculine em um momento, ele deitado e ela por cima no outro. Ele avisara que aquela seria a última vez, pois precisava realmente dormir e acordar cedo.

Os joelhos dela estavam separados, um em cada lado do corpo masculino, as mãos pressionadas contra o peito dele.

Sess... – ela sussurrou.

Momentos depois, ele baixava o corpo dela para deitá-la na cama, murmurando algo. Ela, embora estivesse cansada, pediu para que ele deitasse a cabeça entre os seios dela, como se fossem uma almofada. Se aquilo tinha sido só para animá-la, ele havia conseguido... tranquilizá-la.

Escutou-o rosnar alguma coisa e puxou o lençol para cobrir os dois corpos, pressionando o queixo no cabelo dele.

Durma bem... Sess... – Rin falou, permitindo que um sorriso meio gentil aparecesse nos lábios, deslizando a mão direita pelo tecido que cobria as costas dele.

Sesshoumaru já deveria ter adormecido porque não veio uma resposta. O sorriso então desapareceu e ela suspirou, virando o rosto para um dos lados. Estava sim mais calma, mas ainda não esquecida do que acontecera. Ela não contara toda a verdade a Sesshoumaru sobre a família dela, nem sobre o que aconteceu com a madrasta.

A mão que deslizara pelas costas dele parou o movimento e foi até um dos olhos dela para impedir que ela chorasse. Não, chorar era ruim. Se ele acordasse e perguntasse o motivo...

Nem ao menos sentia mais a vontade de dormir. Lembrar o passado a fazia sentir-se muito mal.

Fechou os olhos e tentou se entender o motivo de uma foto de Sesshoumaru ter a presença da madrasta dela quando nem ao menos ela, que se considerava filha, tinha uma. Queria saber mais ou menos a época em que foi tirada.

Dois anos depois da morte de Yuri, Etsuko havia se tornado ainda mais apegada à menina, tratando-a como filha e conseguindo finalmente fazer Rin sair do trauma de infância. Acompanhou o desenvolvimento da menina em idas à terapia que ela mesma pagava, tornando-se ambas melhores amigas.

Mas o mesmo não havia acontecido com o outro filho.

Numa tarde de verão, ela estava escutando algumas notas de Rin como se fosse a plateia. Não sabia tocá-lo, mas escutá-la tocar a fazia lembrar-se de algumas cenas de quando Yuri estava vivo e foi professor da enteada.

Rin terminou de tocar a partitura e escutou os aplausos da madrasta.

Muito bem... Muito bem! – ela dizia entusiasmada – Pode tocar outro?

Um empregado entrou e aproximou-se da patroa, que estava sentada com as pernas em cima das almofadas do sofá.

Senhora... Seu marido não está e eu acho que é meu dever informar que seu filho foi visto cabulando as aulas e em companhia de uma gangue da zona sul.

Etsuko piscou várias vezes. Os lábios tremeram. Passou a língua entre eles e sentiu as mãos geladas, respirando fundo antes de falar:

O que você acha que devo fazer?

Se me permite... – ele começou – Providenciarei uma equipe para ir buscá-lo.

A mulher baixou o rosto e ficou pensativa. Há tempos que já sabia do envolvimento do filho naquilo e com drogas, mas o pai não deveria saber. Não ainda.

Faça isso... Mas não deixe que ele descubra.

Pode confiar em mim, senhora.

E ele saiu da sala.

Vai dar tudo certo, né, Rin-chan? – a madrasta falou com a menina depois de um momento de silêncio – Vou conseguir conversar com ele.

Rin deu um sorriso e concordou com a cabeça.

Mas não fale com ele. – a mulher continuou – Não quero que se envolva nisso.

Etsuko levantou-se e começou a andar pelo local, um braço cruzado que servia de apoio ao outro para que pudesse morder o nó de um dos dedos.

Acho melhor conversar com aquele homem a respeito de Bankotsu...

O "aquele homem" era Bokuseno, o que fez Rin parar de virar as folhas do caderninho de partituras e arregalar os olhos. Ela não gostava dele. Ainda lembrava-se da última conversa com Yuri – que fora ele quem metera o meio-irmão naquela história que causou a morte deste.

Toque aquela música que Yuri gostava... – Etsuko falou continuava andando de um lado a outro – Preciso pensar com calma.

Rin começou a tocar "Berceuse" por alguns minutos e só parou quando sentiu os braços da madrasta a envolverem, o queixo dela na cabeça dela.

Se Yuri estivesse aqui... Ele ia me ajudar a pensar no quê fazer.

É...

Eu acho que vou sair... – Etsuko falou, virando o rosto de Rin para encará-la – Vou ver aquele senhor... Você quer ir comigo?

Não. Rin não gostava daquele homem.

Não.

Está bem... – a mulher repuxou os lábios para um dos lados num tique enquanto pensava no que poderia fazer – Você pode ficar aqui sozinha?

Rin confirmou com a cabeça.

Mas eu não quero que converse com os outros... – Etsuko confessou – Não converse com ninguém. Não quero que se envolva com essa gente.

Rin ainda não sabia o motivo daquele conselho. Há tempos que a madrasta descobrira os verdadeiros negócios do marido e evitava a todo custo que a menina conversasse com os membros daquela família. Não tivera a mesma sorte com o filho, mas ainda sentia um pouco de esperança.

Não saia daqui até eu voltar. Chegarei antes do jantar, 'tá?

Tá.

Continue tocando. Assim ninguém vem te perturbar. – foi a última recomendação de Etsuko antes de sair.

E muito tempo foi que Rin ficou sozinha. A tarde se foi e começava a anoitecer, mas a madrasta ainda não havia voltado. Poucos a incomodaram, apenas alguns empregados entraram para saber se ela precisava de alguma coisa, mas não tiveram resposta.

Numa hora, escutou o som de carros e pensou que talvez Etsuko tivesse voltado, mas para a surpresa dela era só Bankotsu, com cara de poucos amigos. Parecia que ele estava se divertindo em algum lugar e foi tirado de lá arrastado.

Fora isso, continuou tocando.

Depois de alguns minutos da chegada dos carros, ela escutou a porta ser aberta, mas não olhou para trás. Deveria ser alguém para saber se ela queria comer alguma coisa.

Onde tá a mamãe? – Bankotsu falou atrás dela, o que a assustou num segundo. As mãos pararam no teclado e ela virou a cabeça para trás, encontrando um Bankotsu nada satisfeito com a vida encarando-a.

Seguindo a recomendação de Etsuko, Rin não respondeu, o que deixou Bankotsu extremamente irritado.

Onde ela tá? – ele perguntou.

O menino estreitou os olhos diante da mudez da meia-irmã e, para a surpresa dela, deu um sorriso.

Você tá... sozinha aqui.

Bankotsu olhou para trás e, num tique que herdou da mãe, sorriu puxando um dos cantos dos lábios.

Vamos brincar... irmãzinha? Só até mamãe voltar.

A menina piscou, o que o deixou satisfeito. Há tempos que suspeitava que ela não tivesse problema algum de saúde. Percebera isso por causa das reações positivas que Rin tinha quando ficava sozinha com a mãe.

De repente, ele apontou uma arma tirada de trás da calça e falou:

O nome do jogo é... "roleta-russa". – ele fez mira na testa dela.

Rin arregalou os olhos e jogou-se no chão no momento em que ele fez menção de puxar o gatilho, levantando-se depressa para correr.

Era incrível como, em poucos segundos, ela já estava com as roupas suadas de tanto medo. Bankotsu a puxou pelo vestido e a jogou no chão, perto do pé do piano, fazendo com que Rin batesse a cabeça nele. Ele deveria estar transtornado com alguma coisa, revoltado com algo que não era do conhecimento dela.

Gemendo, ela sentiu outro puxão no vestido e teve a cabeça virada para trás violentamente.

O primeiro tá vazio. Vamos ver os outros também. – ele falou ao ouvido dela.

Então... – era o pai falando atrás dele – Quer dizer que é você que anda por aí as minhas armas, moleque?

Bankotsu largou a arma assustado e Rin encolheu-se, tremendo no chão.

Atrás do pai estavam outros empregados e uma guarda, que se aproximou mais quando o patrão moveu a mão e apontou para a filha.

Levem a menina pra emergência.

Os guardas se aproximaram dela e um deles a carregou nos braços e passou direto pelo patrão.

Não. Não tinha sido naquela época, Rin pensou.

Sesshoumaru remexeu-se e ela assustou-se.

Rin... – ele falou sem abrir os olhos – Por que ainda não dormiu?

Ah... – Rin sentiu quando ele saiu de cima e deitou-se de lado, puxando o corpo dela para si – Ainda não... Ainda não senti sono.

Os olhos deles abriram um pouco e ele murmurou alguma coisa que ela não conseguiu entender, fechando-os novamente antes de pressionar o rosto dela contra o corpo dele. Rin sentiu uma das mãos tocando-lhe a cabeça e passando para as costas, parando lá.

Depois, percebeu que ele já estava dormindo de novo.

Tentou afastar o rosto, mas ele era mais forte.

Deu um suspiro e teve forças para afastar-se. Mas só um pouco. O corpo de Sesshoumaru era tão quente... Tão bom de ser abraçado... E ele tinha dito que nunca se sentira tão bem ao lado de alguém...

Mudou de posição. Com certo esforço, ficou de costas para ele, sentindo um braço tentar contornar a cintura e o rosto dele encontrar a curva entre o pescoço e o ombro dela.

Fechou os olhos e deu um longo suspiro. Estava mesmo na hora de dormir. Sesshoumaru estava preocupado com ela.

No entanto, o coração bateu forte. Lembrou-se de uma ocasião em que ele talvez tivesse conhecido a madrasta. Os olhos marejaram ao relembrar e começou a tremer.

O abraço de Sesshoumaru ficou mais forte, mas ele não acordou, para alívio de Rin.

Mais alguns meses de passaram desde o incidente com a "roleta-russa". Bankotsu tinha entrado num reformatório e passado meses sem falar com os familiares. Isso até um dia, quando Rin soubera pela madrasta que o meio-irmão voltaria por causa das férias escolares.

Tinha ela agora onze anos e ele, treze.

Já havia se passado uma semana desde que ele voltara e Rin ainda não o tinha encontrado. Isso até uma tarde. Disseram que precisariam acompanhar o pai na celebração de alguma coisa. Parece que uma família aliada tinha escolhido o futuro líder, que assumiria o comando quando o pai deste falecesse ou simplesmente o entregasse o cargo.

Apenas Rin acompanhou os pais, mas não participou da celebração. Havia decidido ficar na sala de piano de Bokuseno, apenas sentada no banco, sem tocar nas teclas.

Talvez tenha sido nessa ocasião. Sesshoumaru parecia bem mais velho do que ela pela foto, mas ainda adolescente.

E o que mais aconteceu?

Ah, sim. Foi nessa ocasião que aquilo aconteceu.

Naquela tarde, quando voltaram para casa acompanhados da ilustre presença de Bokuseno, ela deixou os pais e foi à sala de piano, encontrando-a bagunçada. Era estranho, considerando que apenas ela e a madrasta entravam ali e sempre a deixavam arrumada. Havia uma colher... Vidros... Um pó branco... Alguma coisa quebrada em cima da mesa.

Não havia mais ninguém.

Decidiu não se importar com a bagunça e sentou-se no banco estofado, abrindo o caderno de partituras. Já sabia qual tocaria.

"Horowitz & Reiner". Considerado um dos mais difíceis clássicos pelos pianistas. Ela não era boa, mas gostava de tentar. Bem, Yuri sempre a incentivou a tocar.

Começou. Um compasso quaternário, um binário, e um e dois e quatro. Primeiro forte, segundo fraco; forte, fraco, forte, fraco; passava depois a meio-forte...

Pare com isso. – alguém falou perto dela e imediatamente reconheceu a voz. Era Bankotsu.

Por uma incrível habilidade que aprendera com Yuri, ela não se distraiu com a voz. Concentrar-se em interpretar a partitura era mais importante para si mesmo... por uma questão de segurança.

-Minha cabeça tá doendo... – ele reclamou, esfregando as têmporas. Parece que ele estava atrás do sofá no qual a madrasta costumava sempre ficar quando estavam a sós.

Hora de executar um arpejo, Rin. Você ainda se lembra de como fazer um sem erros antes de fazer os saltos da nota .

Era incrível como conseguia esquecer das coisas fazendo aquilo. Nem ao menos precisava se importar com o garoto que reclamava atrás de si.

Já falei pra parar, caramba!

Sentindo algo se aproximar, ela desviou-se do piano antes de uma lâmina fazer contato e rasgar a pele do braço.

Era Bankotsu com uma velha espada de samurai que estava sempre ali na sala de enfeite.

Assustada, ela caiu no chão de costas. Havia sangue em cima do teclado, em cima do banco, no chão e nela. O golpe atingira o braço e acertara a oitava média do piano, destruindo as teclas de marfim.

Eu te mandei parar! – ele gritou – Custava ter parado? Hein?

No outro instante, ele perfurou uma das mãos dela com a arma, o que resultou num grito que ecoou pela casa.

No escritório da família, Bokuseno e o senhor Shiroi se entreolharam. Etsuko também estava lá, entediada, e arregalou os olhos ao reconhecer a voz, saindo em disparada, acompanhada de Bokuseno e do marido.

Quando chegaram à sala, encontraram Bankotsu ainda pressionando a ponta da espada no ferimento.

A primeira coisa que aconteceu foi o pai avançar no garoto e empurrá-lo para longe; a outra foi Bokuseno tirar a lâmina fincada na mão de Rin, agora chorando, e carregá-la nos braços.

Eu devia ter te deixado naquele reformatório! – o pai berrou ao garoto, que estava pálido – Você vai pra um lugar bem pior agora mesmo!

Arrastando um Bankotsu aos berros, o senhor Shiroi saiu dali, acompanhado da guarda. Depois, Bankotsu e Etsuko, que chorava e tremia, escutaram um carro partir.

Deuses... – a mulher lamentou, caindo no sofá – Isso não deveria acontecer...

Bokuseno deixou Rin no chão e foi até a mulher, aproximando-se para falar algo ao ouvido dela, o que a fez arregalar os olhos.

Ver... Verdade? – ela perguntou, recebendo uma confirmação de cabeça dele – Pode mesmo fazer isso?

Será bem melhor que morem por lá... Para ela não se sentir tão... estranha aqui.

Etsuko virou a cabeça para o lado e lamentou com desgosto:

Bankotsu não era assim quando Yuri estava vivo.

Bokuseno ia falar, mas virou o rosto quando escutou um choro infantil, vendo Rin sentada, um braço passando pela vista enquanto chorava.

Eu achei... – ela começou com a voz embargada enquanto escondia o rosto, sangue ainda escorrendo pelo braço – Que ele... fosse me... matar...

Rin olhou a própria mão. Sesshoumaru nunca perguntou o que eram aquelas cicatrizes maiores... Com certeza deve ter percebido e talvez, apenas talvez, ele não quisesse perguntar... ainda.

Depois daquele incidente, o irmão foi enviado a uma clínica de reabilitação e a madrasta e Rin foram morar com Bokuseno enquanto a menina não esquecia o acidente ocorrido na sala de piano.

Bokuseno aproveitou uma tarde em especial para conversar com Rin. Etsuko tinha saído para visitar o filho na clínica e deixou a menina na casa, tocando piano numa sala que ficou reservada apenas para ela.

A menina estava tão concentrada em tocar que nem escutara a porta abrir. Só percebeu que havia alguém na sala quando ele sentou-se ao lado dela. Parara de tocar e olhou-o curiosa.

Surpresa em me ver aqui?

Rin baixou o rosto e voltou a tocar.

Espero que tenha gostado da sala de piano. – ele falou, olhando as paredes decoradas recentemente – Sua mãe tocava aqui também todas as noites quando estávamos juntos.

Sorriu quando viu as mãos dela pararem de mover e tremeram. Rin tinha os olhos arregalados, gotas de suor frio pela testa, estava mais pálida que o habitual.

Era evidente que ela ainda lembrava que tinha uma mãe biológica e o que havia acontecido com ela.

Eu não pude salvá-la e o mínimo que posso fazer é o oferecer o que era dela.

Rin virou o rosto e parte do cabelo liso caiu na testa, outra encobriu um dos olhos. Estava assustada.

Eu sei que não gosta de mim por causa disso e que ainda estou em débito com você... – ele a encarava serenamente – Mas eu vou acabar com a raça miserável daquele homem por eles.

Acabar...? – ela repetiu, piscando assustada.

Tudo dos Shiroi será seu, pequena... – ele confidenciou – Vou fazer isso por sua mãe.

A cortina da janela balançou por causa do vento, o caderno de partituras quase teve as folhas arrancadas de tão depressa que viravam. Parecia que mais tarde ia chover.

Um brilho de esperteza passou pelos olhos do homem e ele completou:

Você será dona de tudo.

Parecia aquelas promessas que um pai faz a uma filha, prometendo a ela a boneca mais especial de uma loja.

Pegou na mão de Sesshoumaru. Ele ainda estava tão quente...

Instintivamente, ele apertou a mão e acomodou-a entre os braços.

E depois veio a morte da madrasta e ela...

Sesshoumaru mudou de posição, deitando-se de costas e deixando que Rin deitasse ao lado dele.

Ah... É verdade.

Rin deitou a cabeça no braço dele e fechou os olhos. Depois de Yuri e da madrasta, Sesshoumaru era o único que fazia questão de tê-la como companhia.

Mudou a posição do rosto para poder esfregá-lo contra o travesseiro. Tinha começado a chorar e precisava parar ou ele iria acordar.

Anos passaram até Rin completar dezesseis anos.

E era incrível como algumas coisas não mudavam.

Numa manhã, ela voltou da escola e parou na entrada da sala para arquear as sobrancelhas de surpresa. Havia malas ali e ela...

Sentiu alguém se aproximando por trás dela.

Há quanto tempo que não nos vemos... Irmãzinha.

O coração de Rin pareceu ter parado ao reconhecer a voz da pessoa.

Sabe pra onde o Velho foi?

A garota virou o rosto e viu Bankotsu. Parecia melhor, saudável, bem-humorado... e não deixava de sorrir gentilmente.

Como Rin não respondeu, ele se aproximou. Antes que pudessem perceber, os pés de um já estavam diante do outro.

Você ainda é muda, Rin? – ele perguntou, baixando o rosto para ficar na mesma altura do dela.

Com isso, ela saiu dali correndo, deixando o rapaz ali na entrada da mansão com um sorriso vitorioso.

Nessa mesma tarde, madrasta e afilhada tinham ido à casa de Bokuseno, que virou um dos melhores amigos de Etsuko, para não presenciarem a uma reunião que Bankotsu e o pai teriam. A mãe não estava feliz com a volta dele. Ficou por vê-lo, mas a alegria sumiu ao escutar a notícia de que, como adulto, poderia assumir os negócios com o pai.

Eu não gosto dessa ideia. – Etsuko desabafou na conversa que teve naquela tarde com Bokuseno, com Rin ao piano – Ainda mais agora que ele voltou.

Você se preocupa demais com coisas desnecessárias. – Bokuseno preparava uma bebida a mais um convidado que participava da conversa – O menino acabou de voltar. Nada pode dar errado.

Eu achei que pelo menos o senhor fosse me apoiar a dizer "não". – ela disse meio triste, meio amargurada.

Eu acho que a senhora não deve se preocupar. – o outro, um homem de cabelos claros e ondulados, deu a opinião – Afinal, foi só um despreparo do seu primeiro filho que o levou à morte.

O copo tremeu na mão de Bokuseno.

Kagewaki! – ele o repreendeu e os dois se encararam. Um estava tenso, o outro mantinha-se calmo.

Só Etsuko não estava nem uma coisa nem outra.

Mas meu filho não era da yakuza... – ela falou inocentemente, piscando ao olhar Bokuseno.

Era talvez a primeira vez em muitos anos Etsuko não o via tão seguro de si.

Os dois se encararam. Ela continuou sorrindo até perceber que ele estava nervoso, precisando desviar o olhar.

Como se um raio passasse pela mente dela, Etsuko arregalou os olhos quando ligou um fato ao que o outro homem falara, uma coisa que acontece quando menos esperamos... E quando menos queremos.

Foi um momento perturbador. Ninguém sabia o que fazer e o que falar. Rin até tinha parado de tocar, imaginando o que mais poderia acontecer.

Rin... – ela se levantou subitamente sem deixar de encarar Bokuseno – Vamos pra casa.

A garota piscou com evidente surpresa.

Mas...

Vamos logo. – ela pegou a bolsa e foi até a enteada, puxando-a pelo braço e praticamente arrastá-la dali às pressas.

Na casa da família Shiroi, uma movimentação nunca antes vista acontecia. Rin seguia a madrasta a passos rápidos, quase escorregando ao tirar os sapatos quando entrou na sala.

Mãe, espera! – ela correu atrás da mulher, que seguiu direto ao escritório onde geralmente o marido costumava ficar.

Rin entrou depois dela.

Onde está Bankotsu? – foi a primeira coisa que Shiroi Etsuko perguntou ao marido.

Sankotsu arqueou as sobrancelhas.

Está... Fora... Fazendo um serviço para mim.

Ficaram os dois em silêncio, encarando-se.

Você matou Yuri? – ela perguntou subitamente.

Parecia que o mundo havia parado dentro de sala. Ninguém respirava, ninguém se movia.

–Você matou meu filho? – ela intensificou o tom da voz, parecendo por um momento mais forte que ele.

Sankotsu não respondeu à pergunta.

Rin, saia daqui. – ele ordenou – Vá para seu quarto.

Não saia, Rin! – a madrasta falou – Foi esse homem quem matou seu irmão!

Os olhos da garota se arregalaram e ela precisou encostar-se a uma parede. Aquilo só confirmava o que ela já suspeitava. Lembrou-se da última cena de Yuri, quando este foi arrastado para os fundos da casa, assim como os amigos dele.

Ah... – ela falou, levando as mãos aos lábios trêmulos e fazendo o possível para não chorar – Ah... não...

A porta abriu e ela quase caiu, mas foi amparada por alguém. Reconheceu a guarda inteira do pai parados, prestes a entrar, e percebeu que quem a segurava era um deles.

Levem-na ao quarto. – o pai ordenou e Etsuko correu até Rin, mas foi impedida de chegar até ela pelos seguranças.

O que vai fazer com ela? – a mulher perguntou antes de a menina ser levada, mas não recebeu resposta. A porta se fechou e ela ficou a sós com o marido.

SOLTEM! – Rin se debatia no corredor enquanto era arrastada ao quarto – O QUE ELE VAI FAZER COM ELA?

O coração dela batia por causa de um único pensamento.

Vão matá-la!

Como era carregada pelo corredor, foi posta no chão quando chegaram a um dos quartos, o dela, que foi aberto por um dos homens. Foi empurrada para dentro e nem pôde impedir de ser trancada.

Vão matá-la!

Encostou-se à porta e escutou:

EU VOU CONTAR A BOKUSENO! – era Etsuko gritando – ELE FARIA QUALQUER COISA POR NÓS DUAS! QUALQUER COISA!

Depois disso, fez-se silêncio.

ABRAM ESSA PORTA! – ela batia desesperadamente na madeira, as lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos em abundância. – ABRAM!

Passos do lado de fora e...

NÃO MATEM! – ela berrou com todas as forças, fazendo o grito ecoar pela casa – NÃO A MATEM!

... e, em seguida, um tiro.

Por um momento, um breve instante, ela pensou que o coração tivesse parado de bater. Ela olhou a porta, esperando por algo. Tinha a esperança, bem pequena, de que ela se abriria e apareceria a madrasta. Poderia ter até sido ela quem tivesse...

Sentiu os olhos marejarem de novo. O coração voltou a bater e ela escorregou pela porta para ficar de joelhos no chão, em prantos enquanto, do lado de fora, mais pessoas corriam. O peito doía, a cabeça girava e até o choro parecia machucar os ouvidos na hora de soluçar.

No banheiro, Rin lavava o rosto. Tinha voltado a chorar e escapara da cama da forma mais discreta e silenciosa possível, tentando se acalmar enquanto bebia um gole da água que escorria num fino jato pela torneira.

Olhou-se no espelho. Não dava para ver direito as feições por estar escuro, mas ela julgava estar melhor.

Abaixou-se de novo para beber mais um gole, mas foi surpreendida com dois fortes braços que a envolveram.

Volte pra cama... – Sesshoumaru estava sonolento demais para notar que Rin chorava, mergulhando o rosto nos cabelos dela e cheirando-os.

Eu só... saí um instante... – ela tentou justificar, fazendo o possível para que a voz saísse natural – Daqui a pouco eu vou...

Sesshoumaru rosnou. Ela às vezes não sabia se gostava ou não daquele ruído que ele fazia quando estava frustrado ou com raiva. Era adorável num momento, mas assustador noutro.

Então... vamos, Sess.

De novo, ele rosnou.

Sesshoumaru a guiou pela mão de volta à cama. Desta vez, só como garantia de que ela não sairia sem avisá-lo, ele pediu para que ela deitasse de costas para ficar por cima dela, respirando suavemente contra o pescoço de Rin.

Durma, Rin. – ele avisou. Era uma ordem. Ambos precisavam dormir.

Tá... – ela mordeu os lábios e sorriu. Era melhor mesmo dormir. Chega de pensar demais nas coisas que já aconteceram.

Abriu uma última vez os olhos e olhou tristemente algum ponto no teto. Não, não poderia esquecer. Tanto que o pai teve o que merecia anos depois.

Suspirou cansada e escutou o tom de aviso na voz dele:

Rin.

Boa noite. – ela falou num murmúrio, passando a língua entre os lábios quando ficaram secos.

E depois fechou os olhos.


Então... Vai antes? – Sesshoumaru perguntou ao primo.

O líder estava sentado na beirada da cama, usando apenas o roupão. Rin ainda dormia e Hakudoushi entrara apenas para avisar que iria com Kikyo antes de todos para a mansão de Bokuseno.

Você não me falou que tinha interesse em participar da reunião. – o chefe voltou a falar – Para quem quer o mínimo de ligações com a yakuza, é estranho.

Hakudoushi arqueou uma sobrancelha.

É que há algumas coisas que eu gostaria de conversar com ele... – ele olhou a figura feminina coberta pelo lençol.

O primo seguiu o olhar dele e arqueou uma sobrancelha.

Ela já me contou que está doente.

Apenas uma questão de boa alimentação, ela vai melhorar. – o médico se virou e pôs as mãos nos bolsos – Encontrarei vocês lá.

Sesshoumaru ergueu as sobrancelhas. O primo falou em "vocês".

O líder olhou novamente a garota coberta pelo lençol.

Certo. – o líder finalmente confirmou.

Hakudoushi saiu do quarto. Sozinhos, Sesshoumaru inclinou-se sobre o corpo Rin e cheirou o cabelo dela, depois o pescoço.

Quer ir? – ele sussurrou.

Rin abriu os olhos e apertou uma parte do lençol entre os dedos. Sesshoumaru percebera que ela estava acordada desde a hora que ele tinha se levantado.

Não. – ela não queria falar com Bokuseno. Não depois do que aconteceu numa das últimas vezes que se falaram – Quero dormir mais um pouco.

Sesshoumaru beijou o ombro dela e a acariciou no braço.

Eu voltarei antes do almoço. – afirmou – Será só uma reunião... Prometo voltar logo e trazer alguma coisa que a agrade.

A garota se virou e deu um sorriso, deslizando os dedos entre os fios de cabelo dele.

Só de você prometer voltar... Eu não preciso de mais nada. – ela confessou, enrolando alguns dedos no cabelo solto dele. Ele os pegou e beijou alguns deles.

Vou tomar banho. – ele falou, afastando-se dela ao soltar a mão.

Banho? Até que era uma boa ideia para Rin também, principalmente depois da noite que tiveram.

Corou com o pensamento e mudou de posição.

Mas queria ficar por um momento sozinha. Apenas um instante para pensar.

Anos se passaram novamente. Já com dezenove anos, ela presenciava, sem muito interesse, a cerimônia de casamento do irmão de um dos líderes mais importantes da yakuza de Tokyo, tudo organizado e com muito luxo nos jardins do Templo Higurashi. A noiva estranhamente comia quase tudo que havia na mesa, a ponto de pegar todos os pratos do agora esposo e não dar chance para que ele mesmo se alimentasse.

Os demais convidados se divertiam com a cena e com as danças.

Afastada dos demais, Rin estava sentada numa das cadeiras reservadas à família. Apesar das roupas elegantes – um terninho azul escuro com detalhes delicados de flores brancas e um chapéu nos mesmos tons, ela estava pálida, extremamente magra, o cabelo sem brilho. Os acessórios não traziam nenhum destaque ao frágil perfil. O olhar, vazio, observava algum ponto do jardim. A bolsa de couro preto estava jogada no chão de qualquer jeito, completando o desleixo.

Tão perdida estava em pensamentos que ela não viu alguém sentar-se na cadeira ao lado.

Bela festa, não?

Rin virou apenas os olhos para observar de canto quem estava ali.

Há quanto tempo... Rin. – Bokuseno falou com suavidade.

A garota voltou a olhar o ponto vazio no jardim. Fazia realmente muito tempo. A última vez que se viram foi no dia que Etsuko saiu às pressas da casa dele para confrontar o pai na mansão, o último dela com vida. Não houve funeral e então ninguém sabia o que havia acontecido com o corpo.

Não tem mais comida na sua casa?

Rin girou novamente os olhos para observá-lo pelo canto.

Está só pele e ossos. – ele explicou.

A garota deixou escapar um suspiro e apertou a lapela quadrada contra o pescoço como se quisesse se proteger. Ela considerava rude os comentários sobre a aparência dela.

Deveria comer um pouco aqui. A dona deste lugar gosta de oferecer o que há de melhor. Capaz de se sentir ofendida se sair daqui sem experimentar Jingisukan. Ela deve ter mandado buscar direto de Hokkaido.

Vou comer em casa. – ela sussurrou por fim, pronunciando-se pela primeira vez ali.

Bokuseno nada comentou. Ele a comparava mentalmente com uma daquelas mulheres zumbis de produções americanas. Ela parecia completamente sem vida.

E aqueles olhos castanhos, herdados da mãe biológica, estavam tão fundos que era possível ver os ossos da face.

Como anda Sankotsu?

Rin apertou o tecido da saia-lápis azul escura, os dedos inutilmente sem forças.

Vivo. – foi tudo que ela disse, baixando os olhos.

Soube que ele anda doente. – Bokuseno limitou-se a sorrir, mesmo sabendo que o olhar dela estava em outro ponto – Muito doente.

Uns problemas no coração. – a voz saiu sem emoção – Ele toma remédios agora.

Fez-se silêncio novamente. Ela olhava para a frente. Ele virou o rosto para o lado.

Precisamos sempre tomar cuidado com esses remédios. – Bokuseno falou repentinamente – Dizem que, se tomados em excesso, podem matar em vez de ajudar.

Rin continuou sem esboçar reação, até que os olhos novamente viraram para o lado onde Bokuseno estava sentado. Ele procurava alguma coisa nos bolsos do paletó, remexendo aqui e ali, até retirar alguma coisa de um dos bolsos com um "ahá" vitorioso.

Era um vidro sem rótulo cheio de comprimidos.

–Isso é um remédio para o coração. Só que se deve tomar apenas um por dia. Uma vez, soube que um homem morreu porque tomou quatro desses em vinte e quatro horas. Estes comprimidos provocaram uma taquicardia nele.

A garota continuou com os olhos virados para o lado dele.

Não é estranho? Nós confiamos a nossa vida num vidrinho desses para nos curar e qualquer erro, qualquer dose errada... Pode nos matar.

A garota achava estranho vê-lo sorrir daquela forma enquanto segurava aquele vidrinho, mas não se interessou pelo motivo.

Também não tinha forças para fazer qualquer tipo de pergunta. Mesmo aquela conversa estava deixando-a extremamente cansada.

Senhor. – um rapaz com uniforme de segurança fez uma reverência antes de interrompê-los – O senhor Akai deseja vê-lo por alguns minutos.

Vamos lá... – ele ergueu-se com um suspiro cansado e virou-se para a garota que ainda tinha os olhos vazios – Prazer em revê-la... Rin.

A garota virou o rosto para o lado como se quisesse encerrar de vez a conversa.

Depois que se viu sozinha, ela fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, respirando profundamente. Queria muito voltar para casa logo. Estava com dor de cabeça e sono, resultado de mais uma noite mal dormida, cheia de pesadelos com pessoas que já estavam mortas.

Olhou para o lado no qual Bokuseno se sentara e viu algo muito curioso: o vidro de remédios estava ali.

Aparentemente, ele havia esquecido de levá-lo.

Deu outro suspiro pesado. Não planejava levantar-se tão cedo dali, ainda mais por causa de Bokuseno. Mas o fez: pegou a bolsa do chão juntamente com o frasco e levantou-se para devolver ao dono.

Andou por alguns corredores lotados de convidados, todos conversando animadamente. Havia muita gente da yakuza, a maioria era de seguranças – reconhecidos pela roupa preta. Quase todos tinham a mesma marca de roupa, os mesmos óculos escuros, a mesma cara. Seria bom se alguém inventasse os crachás para identificar quem é quem.

Nem precisou andar muito para encontrar o segurança que os interrompera. O rapaz conversava com outra pessoa e logo a reconheceu assim que a viu.

Precisa de alguma coisa? – ele se curvou.

Procuro por Bokuseno-sama. – ela guardou o vidro na bolsa e passou a mão nos cabelos quando estes se esvoaçaram por causa de uma corrente de ar – Sabe onde posso encontrá-lo?

Acredito que esteja em reunião com o meu chefe. – o rapaz coçou um dos lados do rosto – Gostaria que ele fosse chamado?

Um instante para pensar e para decidir.

Não... – ela finalmente falou, dando as costas – Não precisa. Obrigada.

Chega de ficar ali. Hora de procurar pelos parentes e voltar para casa. O pai, o meio-irmão e as primas Kagura e Tsubaki não deveriam estar longe.

Quando passou por um corredor para encontrar o pai conversando com outras pessoas, ela esbarrou num rapaz. "Esbarrou", não. As roupas chegaram a encostar uma das outras quando passaram um ao lado do outro. Rin escutou apenas o segurança falar algo como "Ah, senhor A..., aquela jovem estava procurando por Bokuseno-sama..."

Mas não virara o rosto para vê-lo, tampouco ele.


A primeira coisa que o senhor Shiroi falou ao chegarem à mansão da família foi algo bem desagradável aos ouvidos dos quatro membros da família que haviam ido como companhia:

Um tremendo gasto de dinheiro. E aposto como aquele moleque vai se separar dela daqui a alguns meses!

Na sala de estar da mansão Shiroi, o líder da família se servia de saquê enquanto sabia que era ouvido pelos filhos e sobrinhas. Rin, Bankotsu, Tsubaki e Kagura apenas aguardavam a ordem para se retirarem. Nenhum gostava da companhia dele.

Eles me pareceram felizes. – Tsubaki jogou-se no sofá e sentou-se alguns instantes depois para acender um cigarro.

Ninguém é feliz depois de dois meses de casamento. – o homem resmungou, entregando um recipiente com saquê para o filho – Eu tive minha primeira briga com aquela mulher seis semanas depois de casarmos.

O "aquela mulher" chamou a atenção de Rin.

Quem? – Tsubaki perguntou, seguindo a mesma linha de pensamento da prima.

Etsuko.

Desta vez, tanto Bankotsu quanto Rin o encararam em silêncio. Kagura observava os detalhes de um prendedor em forma de pena sem o mínimo interesse nas baboseiras do tio. Tsubaki limitou-se a arquear as sobrancelhas enquanto permitia que a fumaça do cigarro saísse pelos lábios, mas ainda encarava o homem que fora casado com a irmã da mãe dela.

Era uma mulher muito complicada... Brigava pelos motivos mais idiotas, apesar daquela carinha ingênua.

Bankotsu deixou cair o saquê no chão, deixando pedaços de cerâmica espalhados por todo piso. O engraçado era que não parecia ter sido acidente.

Oh... Desculpe, meu pai... – ele falou, pegando um pedaço do chão – Como sou desastrado.

O rapaz passou um dedo no vidro e zombou de si ao ver sangue. Tudo era visto pelo pai, que fechou os olhos por um instante e sorriu com ironia:

Vou trabalhar... Só me chamem quando for a hora do jantar... – levantou-se e seguiu o caminho até um corredor, gritando – Rin, você pode levar meus remédios?

A garota virou o rosto na direção do homem mecanicamente.

Sim. – ela respondeu.

Os quatro encararam a porta aberta em estranho silêncio.

Ali estava um homem que havia arruinado uma parte da vida de cada uma daquelas pessoas. Todos consideravam a existência de Sankotsu um mal para a humanidade.

Rin foi a primeira a retirar-se para atender ao pedido do pai, disfarçando o suspiro e o desânimo através da indiferença. Segurou a bolsa contra o corpo ao andar pelos corredores.

No quarto do pai, ela encontrou parte da medicação que ele deveria tomar, exceto por uma caixa de remédio que ainda estava na bolsa que havia levado para o casamento.

Colocou-a em cima da mesa e abriu-a, arregalando os olhos quando diversos objetos "saltaram" de lá. Rin largou a bolsa para impedir que nada importasse caísse no chão.

A mão agarrou alguma coisa no ar.

Ao abrir a palma, ela ficou surpresa em ver que era o vidro cheio de comprimidos que Bokuseno esquecera na cadeira.

"Dizem que, se tomados em excesso, podem matar em lugar de salvar", lembrou-se das palavras de Bokuseno.

Olhou fixamente o vidro sem rótulo.

Sentiu o coração ficar estranhamente acelerado e a respiração ficar presa no peito. Tirou um comprimido e o colocou vagarosamente na bandeja, como se ainda quisesse pensar no que ia fazer.

Pegou a jarra de água do frigobar e encheu um copo.

RIN! – ele a chamou.

Já estou indo! – as mãos tremiam enquanto executavam o serviço, diferentemente da voz, que estava firme.

Quase mecanicamente, ela pegou a bandeja e respirou fundo, andando decidida ao escritório do pai. Este, aborrecido com a demora dela, abriu a porta e ia chamá-la de novo para trazer os "malditos remédios" que precisava tomar.

Mas não era mais preciso. Rin já estava ali, parada, segurando a bandeja com água e a medicação.

Aqui está. – ela falou com um sorriso gentil.

O homem a encarou por alguns segundos e pegou o comprimido, arqueando de leve a sobrancelha.

É esse mesmo?

Desta vez, quem ergueu uma sobrancelha foi Rin:

Claro que sim.

Não me lembro de ter tomado um parecido com este...

Rin mudou o ângulo do rosto e deu um sorriso inocente:

E desde quando o senhor presta atenção nessas coisas, meu pai? – a voz saiu suave e tranquila.

O homem abriu a boca. Era para responder, mas desistiu em segundos. Tomou o remédio e entregou o copo à filha, agradecendo com um monossílabo.

E na manhã seguinte...

Senhorita Rin! – uma pessoa batia na porta do quarto dela – Acorde! É uma emergência!

Sonolenta, ela foi ver quem era depois de vestir o roupão e ajeitar o cabelo para que ficasse o mais normal possível.

O que... foi...? – ela bocejou.

O senhor Shiroi, senhorita! – um empregado novinho parecia nervoso, como se o pai fosse o dele.

O que tem ele? – Rin visivelmente ficou mais séria e preocupada.

Ele morreu, Rin. – Bankotsu aparecera atrás do empregado e não parecia tão abalado assim – Foi o coração.

O coração? – ela exclamou – Mas ele tinha...!

Os lábios tremeram. A boca fechou. Os olhos ficaram arregalados e um grito ficou contido na garganta. Ela se lembrara do que fizera.

Ah... – ela apoiou-se num móvel e colocou uma das mãos no peito, sentindo as pernas tremerem – Deuses...

Rin? – Bankotsu quis se aproximar dela – Está se sentindo bem, irmãzinha?

A garota fez um gesto brusco com as mãos, impedindo que ele chegasse mais perto.

Deixem... Deixem-me... – ela murmurou quase sem ar – Preciso ficar... sozinha...

Não viu o sorriso que Bankotsu tinha antes de fechar a porta. Ao se ver sozinha, caiu de joelhos aos pés da cama e ficou em pose de oração: as mãos fechadas tocando a testa, os olhos fechados, as lágrimas escorrendo pelo rosto, o cabelo solto e caído pelos ombros e costas.

Estava agora com medo. Se alguém descobrisse o que fizera, ela poderia ser...

O fio de pensamento foi quebrado por um beijo no pescoço dado por Sesshoumaru. Ele já estava pronto e viera se despedir dela.

Tenho que ir agora. – ele descobriu o ombro dela e mordeu o local, lambendo depressa o local para arrancar um gemido dela – Não quer mesmo ir comigo?

Não... – ela fechou os olhos, sentindo-se um pouco desanimada. Não era possível pensar naquelas coisas quando se tinha um Sesshoumaru por perto. Tinha sempre a impressão que ele lia a mente dela o tempo todo.

Você não precisa ficar na reunião... Pode ficar esperando em alguma sala.

Rin balançou a cabeça.

É que eu não dormi direito, Sess... – sentiu os lábios dele no braço.

Oh? E foi por culpa de alguém?

A garota virou-se para ele e conteve a vontade de rir. Beijou a testa dele e sorriu:

Tudo sempre foi e sempre será culpa minha.

Viu-o arquear as sobrancelhas e franzir depois a fronte.

Como?

Nada... – ela disfarçou – Vai se atrasar ainda mais, Sesshoumaru. É melhor ir.

O líder ajeitou os punhos da camisa social e afastar-se mais.

Até mais tarde. – ele a olhou uma última vez antes de sair.

Até depois. – ela deitou-se de lado na cama e sorriu. Era verdade o que dissera. Não era culpa dele que ela tivesse dormido tão pouco. Se não ela realmente não quisesse fazer nada do que fizeram durante a madrugada, bastava ter dito "não".

Deixou passar algum tempo até ter a certeza de que Sesshoumaru não voltaria. Dez minutos seriam suficientes.

Não sabe se foi isso que passou, mas ficou cansada de observar o teto e resolveu levantar-se. Vestiu um roupão, espreguiçou-se e abriu uma das janelas.

O dia amanhecera nublado e uma corrente fria passou por ela. Torcia para que não nevasse e pudesse brincar de novo com Shippou.

Fechou a janela e ligou o aquecedor que passara a noite desligado. Admitiu com um sorriso tímido que não houve a necessidade de usá-lo.

Precisava de um banho. No enorme banheiro da suíte, ela ligou o chuveiro e molhou a mão direita para se certificar de que a água estava realmente morna. Arrumou os cabelos num coque e entrou, sorrindo satisfeita com o efeito relaxante que a água e o sabonete provocaram nela.

Isso até ela ser novamente dominada por uma estranha melancolia.

Foi o que acontecera, certo? Ela tirou a vida de um ser humano.

"Era uma mulher muito complicada... Brigava pelos motivos mais idiotas, apesar daquela carinha ingênua."

Não! Ele era terrível, um monstro! Ele merecia aquilo e muito mais por ter tirado a mãe, Yuri e Etsuko dela!

Um braço a segurou no apoio do box e a outra mão foi aos olhos para conter o choro.

Tinha sim cometido um erro. E se alguém resolvesse investigar o caso, ela poderia ser presa.

De repente, arregalou os olhos ao lembrar-se de uma coisa:

"Sabe o que mais me irrita? É saber que o Velho te deixou tudo na mesma noite em que o matei!"

Foi Bankotsu quem o matou? Mas não tinha sido ela?

Relembrou a última vez que vira o pai vivo. Ele havia recebido a visita de algum conhecido à noite. A pessoa foi embora e ele a chamou para que ele tomasse o último medicamento do dia. Nem cinco minutos depois, ela já estava batendo na porta para dar o último comprimido. Viu também Bankotsu entrando no escritório depois de pedir licença ao pai para terem uma conversa a sós.

Então foi...!

Começou a rir e sentiu mais lágrimas escorrerem. Então tinha sido ele! Ela passou meses se sentindo culpada por nada!

O choro ficou mais forte e não mais dava risadas. Era angustiante toda a situação.

Tudo aquilo realmente tinha acontecido com ela?

A porta do box abriu repentinamente e ela virou o rosto para encontrar o surpreso de Sesshoumaru.

Por... – ele começou, esticando um braço para tocar o rosto dela e trilhar um fio de lágrima com um dos dedos – Por que está chorando?

A água ainda caía direto do chuveiro, provocando o vapor que os envolvia. Entretanto, Rin não ligava, muito menos ele.

Eu não estou chorando, Sess... – a voz estava normal e ela piscou, mostrando o sabonete em mãos – É que entrou espuma e eles ficaram irritados.

O rapaz a encarou por um tempo, de alto a baixo, fazendo-a se dar conta de que estava nua ali. Rin cobriu os seios com os braços e olhou os pés, afastando-se um pouco mais para um canto.

E por que esperou que eu saísse para poder tomar banho?

Hmm... – ela mordeu os lábios e riu envergonhada – Achei que você poderia me interpretar de forma errada se eu falasse que queria.

"Errada"? – ele repetiu com o cenho franzido, acariciando um lado do rosto dela – Você acha errado tomar banho comigo? E por que está com vergonha de ficar assim na minha frente?

Ah... – ela mudou o ângulo do rosto para aproveitar mais daquele carinho que ele fazia – Depois de tantas vezes numa única noite, achei que ia julgar que eu estou... um pouco...

Deixou a frase incompleta para que Sesshoumaru pudesse entender o sentido dela.

Dando um pequeno sorriso, ele desligou o chuveiro e pegou, com as duas mãos, o rosto dela para aproximá-lo do dele e beijá-lo.

Só vim pegar uma coisa que esqueci... E mais tarde eu gostaria de conversar com você a respeito de uma viagem que eu gostaria de fazer.

Oh?

Os dois sorriram e Sesshoumaru fechou o box, fazendo Rin suspirar aliviada.

A vida dela estava mudando, certo?

Deu mais um suspiro, desta vez apaixonado, e ligou o chuveiro.

Nada como um bom banho para começar uma nova vida.


Um rapaz deseja vê-lo, Bokuseno-sama. – um segurança avisou a Bokuseno.

Sentado no enorme sofá do escritório, ele tinha a cabeça jogada para trás, olhos fechados, um cigarro entre os dedos. As cinzas enchiam um enfeite da mesinha ao lado do sofá que não servia para ser um cinzeiro.

Diga para esperar a reunião começar. – ele nem ao menos abrira os olhos.

Ele pediu para que eu insistisse, senhor. – o rapaz anunciou – Disse que se chamava Akai Hakudoushi.

"Hakudoushi"? – Bokuseno não parecia se recordar do nome.

Ele parece ser um estrangeiro, senhor. – o rapaz deu uma tossida antes – Mas já veio aqui antes.

Ah, Hashi! – Bokuseno apagou o restante do cigarro dentro do enfeite e abanou as mãos depressa para diminuir o cheiro de cigarro da sala – Deixe-o entrar.

Cerca de dois minutos depois, o jovem primo de Sesshoumaru entrou, arqueando as sobrancelhas por alguns instantes.

O senhor sabia que cigarro faz mal à saúde? – foi a primeira coisa que Hakudoushi avisou.

Claro que sei. – Bokuseno deu um sorriso irônico, tirando outro "problema" de um maço bem na frente do outro – Eu estou morrendo por causa disso.

O jovem continuou encarando.

Pode desabafar agora, gaijin... – o dono da casa o convidou – O que o traz aqui? Mudou de ideia e quer ser chefe da guarda?

Hakudoushi estreitou friamente os olhos. Não gostava de ser notado como um "estrangeiro" no país onde nasceu.

O senhor me pediu para avisar sobre o estado de saúde de Shiroi Rin. Vim antes da reunião porque não acredito que acabará amigavelmente.

E alguma vez ela já acabou bem? – Bokuseno perguntou num tom sarcástico – Se a jovem Higurashi não vier, talvez tenhamos uma leve esperança que todos fiquem para o almoço.

O médico deu uma tossida de leve.

Kikyo já está esperando na sala. – ele avisou – Eu vim com ela.

Bokuseno riu discretamente e balançou a cabeça, levantando-se para ir à janela.

E como está a saúde de Rin? – ele perguntou, ficando mais sério. Notou que vários carros chegavam à propriedade, inclusive um do qual viu Bankotsu saltar.

Um pouco melhor... Há uma carência de vitaminas no organismo dela; a anemia chega a ser crônica de tanta coisa que...

O rapaz continuou falando e falando, fazendo os devidos comentários profissionais aqui e ali, certo de que Bokuseno o escutava com atenção.

Mas ela está bem, não é? – o dono da casa o interrompeu. Não gostava de falar de doenças, embora entendesse de várias muito bem.

Nada que um bom tratamento não resolva. Só tenho um pouco de trabalho: ela esquece demais do horário dos remédios.

Rin sempre fora assim, Bokuseno se recordou. Esquecia nomes, esquecia horários, esquecia de comer.

Um sorriso apareceu nos lábios dele quando mais um carro estacionou em frente ao portão da casa. Dele, Sesshoumaru, Inuyasha e Miroku desceram. O líder vinha na frente e os outros dois ficaram um de cada lado, acompanhando-o.

Acho que a reunião já vai começar, meu jovem. – o líder de toda yakuza falou enquanto estreitava levemente os olhos – Seus primos já chegaram.

Oh? – Hakudoushi ficou curioso.

Sim. – foi tudo que Bokuseno dissera.

Depois de tanto tempo, finalmente uma reunião do Conselho aconteceria.

E não a perderia por nada do mundo. Alguma coisa dizia a ele que seria muito interessante presidi-la, mesmo que não acabasse bem... como sempre.


Próximo capítulo:

"–A reunião de hoje foi proposta por Akai Sesshoumaru."

"'Tá doido, é? Ela já tentou me matar fazendo a mesma coisa!"

"Tire seu sapatinho Christian Louboutin de 800 dólares de cima da minha mesa de carvalho AGORA, antes que eu mande você limpá-la com a manga da sua blusa Dolce & Gabbana".

Capítulo 14: Conselho de criminosos.