Disclaimer: "Inuyasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.

A cor do dinheiro

Capítulo 15: Diálogos vazios.

Para Lan Ayath

Pra quem é isso, Kagome-sama? – foi a pergunta feita por Rin.

A garota acompanhava Kagome, Shippou e Sango num passeio a um dos shoppings centers mais movimentados em Shibuya.

Curiosa por saber ao que ela se referia, a grávida virou o rosto e viu o motivo da pergunta: em mãos, estava uma camisa colorida demais com o nome do marido estampado nela.

Eu mandei fazer pro Inuyasha. – ela tinha um sorriso tão doce que muitos poderia facilmente julgar que fosse travesso – Ele não quis procurar uns chocolates ontem à noite.

Hã? – Sango abraçava a própria cintura e não parecia interessada em estar com eles. Só estava ali por causa da proteção que os três mereciam.

Como disse, Kagome-sama? – Rin não entendeu.

Ele não quis pegar os chocolates que Miroku-sama escondeu. – ela ergueu um dedo e começou a explicar com os olhos fechados – E depois ele falou que estavam no quarto de Sesshoumaru-sama e não quis pegá-los.

Ah... – Rin fez o possível para não se sentir constrangida ao lembrar-se do que acontecera na noite passada.

Mas ainda não explica o fato de mandar fazer essa camisa. – Sango franziu a testa – O que uma coisa tem a ver com...?

Vou mandá-lo vestir isso na frente de todo mundo. – Kagome parecia uma criancinha prestes a fazer travessuras e deu uma risada maligna meio infantil.

Fui eu quem deu a ideia. – Shippou disse orgulhoso – Comprei outra camisa pra ele.

O menino rapidamente tirou um tecido branco de uma das sacolas e abriu para mostrar.

Sango e Rin se aproximaram e não conseguiram evitar um sorriso sem graça ao ler a inscrição da camisa: "Eu sou o superpapai de Shippou".

Ka... Kagome... – Sango não sabia o que dizer.

Ele não vai querer usar isso, né? – Rin já tinha notado que Inuyasha só usava roupas pretas e aquelas camisas definitivamente não combinavam com ele.

Ele vai dizer que é de tecido barato. – Sango balançou a cabeça e apoiou-se numa parede próxima, cruzando os braços. Era para ela estar numa reunião na casa de Bokuseno, não fazendo a segurança de Kagome. Queria tanto conhecê-lo.

Vocês não vão levar nada? – Kagome perguntou repentinamente, chamando a atenção de Rin e Sango.

"Levar"? – Rin repetiu.

Como assim? – Sango quis saber.

Não vai levar alguma coisa pra Miroku-sama, Sango? – Kagome arrumava as sacolas.

Não. – a outra respondeu secamente.

Vai sim. – Kagome usou um tom frio e autoritário e fez a outra suar frio – Vá procurar alguma coisa pra comprar pra ele.

Sango saiu discretamente e meio aborrecida. Kagome depois virou-se para Rin com um sorriso largo nos lábios.

E você, Rin-chan?

Eu... – como Kagome podia mudar de humor tão de repente? – Ainda não decidi o que comprar.

Posso te dar uma sugestão? Posso, posso? – a grávida tinha as mãos unidas para apelar.

Será que, se Rin aceitasse, Kagome sugeriria comprar uma daquelas camisas coloridas para que Sesshoumaru usasse? Rin com certeza não moraria na casa um minuto a mais se fosse aquilo.

Eu... eu acho que posso achar um...

Rin nem terminou a frase. Kagome agarrou o pulso dela e a puxou até uma vitrine.

Que tal isso? – a outra perguntou alegremente.

A loja era de relógios – de várias marcas, formatos e estilos.

Que tal um novo relógio pra Sesshoumaru-sama? – Kagome sorria – Algo que faça com que ele sempre se lembre de você quando olhar as horas.

Ah... – Rin ficou sem graça. Era um pensamento bem romântico. E a ideia dela não era má... – Podemos olhar.

Kagome-sama! – Sango segurava a mão de Shippou e as chamou de longe – Shippou quer comprar umas porcarias pra Miroku se encher.

Que tipo de porcaria? Será que é chocolate? Miroku-sama é viciado... – Kagome começou a acenar para os dois e Rin deixou de olhar os relógios para ver também.

Entretanto, o olhar dela encontrou o de outra pessoa.

Rin-chan? – Kagome estranhou a palidez da garota. Ela olhava fixamente alguém numa multidão atrás de Sango e não entendeu o motivo – Está tudo bem?

Pelo menos cinco segundos se passaram até Rin virar lentamente o rosto para ela e dar um sorriso muito forçado.

Está tudo bem, Kagome-sama. – ela fechou os olhos ao abrir mais o sorriso – Só um calafrio. Acho que vou gripar de novo.

Kagome segurou a mão dela e sentiu-a gelada.

Fale isso pra Hakudoushi, viu? – ela recomendou.

Vou falar. – Rin puxou a mão e passou-a entre os cabelos, dando alguns passos para trás – Vou ao toalete.

Tá... – Kagome piscou e olhou em direção de Sango, fazendo-lhe um sinal – Quer que a gente espere?

Não precisa. Eu vou atrás de vocês. – Rin se afastou mais e acenou – Volto logo.

Não olhou para trás. Andava apressada pelo corredor que tomou e abriu a porta do toalete. Entrou e se encostou a uma parede para dar um suspiro muito cansado e fechar os olhos.

Continuou na mesma posição mesmo quando a porta se abriu e alguém entrou, escutando a água escorrer pela torneira.

Quem é aquela? – a pessoa perguntou.

Aquela quem? – Rin perguntou sem abrir os olhos.

A grávida. – a torneira se fechou e o secador de mãos começou a funcionar.

Kagome-sama é irmã por casamento de Sesshoumaru-sama.

Ah...

Rin abriu os olhos e virou um pouco o rosto para o lado. De pé, abrindo a bolsa de forma quase desinteressada, estava uma jovem alta e esbelta, com o cabelo amarrado num coque elegante. Uma prima próxima e que achava que havia desaparecido também, assim como outras pessoas na vida dela.

Kagura... – ela murmurou um pouco triste – Eu achei que você tinha morrido.

A outra, encostada na pia, apenas arqueou as sobrancelhas.

Eu tive que fugir depois daquele dia.

Fugir? – Rin nem parecia abalada, repetindo mecanicamente a palavra – E por quê?

Bankotsu está atrás de mim. Ele quer me matar também.

Rin arregalou os olhos.

Não faça essa cara. Ele já falou isso três vezes desde que o tio Sankotsu morreu. – Kagura baixou o espelho e estreitou os olhos – Não que eu me importasse com as ameaças, mas eu estava confiante que aquele homem pudesse nos proteger depois que ele te colocou como líder da família. Mas não teve nada disso, como sempre.

A prima dela, Shiroi Kagura, a fitou durante alguns segundos, no qual o silêncio foi absoluto e os olhares não se desencontraram.

Acabamos não conseguindo, né? – ela cruzou os braços e olhou para o lado – Acho que as suas coisas ainda estão no guarda-volumes em Shinjuku.

Eu nem consegui comer qualquer coisa no restaurante naquele dia. – Rin confessou e baixou o rosto – Bankotsu me atacou antes. Aquele rapaz que encontrei era aliado dele. Até morreu nesse dia.

Kagura zombou baixinho.

Perdemos nossa liberdade e nossa chance de viver numa casinha à beira-mar.

Ficaram de novo em silêncio.

Você está muito magra... – Kagura comentou, olhando-a de alto a baixo – Muito pálida também.

É? – Rin ergueu o rosto – Hakudoushi-sama disse que eu já apresentei melhoras.

"Hakudoushi"? – a mulher repetiu – Ah, aquele médico famoso?

Sim... – Rin deu um sorriso – Ele está cuidando de mim desde que a família Akai me acolheu.

Então você devia estar pior. – Kagura foi seca no comentário – E ele?

O "ele" demorou a ser entendido por Rin, até que se deu conta sobre quem Kagura perguntava:

Ah... Sesshoumaru-sama quis que eu morasse com ele. – deu um sorriso especial – Ele me ajudou muito depois que Bankotsu quis... Depois do que ele tentou fazer comigo. E me ajudou a recuperar um dinheiro também. Agora eu posso comprar minha casa. Se um dia ele não que quiser mais, terei como me virar.

Kagura zombou de novo.

Ele está cuidando bem de você?

Ele e toda a família Akai são pessoas que me tratam muito bem. Eu sinto até vergonha por não saber como retribuir tudo o que eles já fizeram por mim.

Vi a foto dele num jornal. – Kagura cruzou os braços e apoiou-se na parede – Ele é muito bonito.

É. – Rin sorriu e corou. Sesshoumaru era mesmo. E estava com ela agora.

E o que aquele garotinho fazia com vocês lá fora?

Shippou-chan? – Rin piscou várias vezes num conhecido tique familiar – Eu sei que ele é filho adotivo de Kagome-sama.

Kagura a encarou curiosamente.

Você não sabe quem era o pai dele, né?

Rin piscou de novo.

Não... – murmurou, tendo um mau pressentimento.

Ele era sócio de vocês. Morreu num acerto de contas com Bankotsu. Não lembra que foi fuzuê nos jornais?

A garota ficou em silêncio, encarando os olhos cor de rubi da prima.

"O menino Ochi Shippou, que na última semana sofreu um terrível choque ao presenciar a morte dos pais, saiu do hospital e ganhou um novo lar. O casal que o adotou não foi revelado, mas deve-se saber que muitos casais se disponibilizaram para ficarem com a guarda do garoto de seis anos..."

"Eu lembro que também foi assim... Quando invadiram a minha casa e mataram meus pais... Mandaram eu me esconder no armário, mas me encontraram e me levaram pro quarto dos meus pais... Só pra matá-los na minha frente..."

Rin arregalou os olhos de tal forma que a cor quase sumiu, levando uma das mãos ao peito, o ar preso na garganta.

Não, não, não, não! – Kagura estalou severamente os dedos na frente dela e falava num tom de irritação – Não inventa de ter esses ataques agora!

Rin escorreu até o chão e ficou de joelhos, tapando a boca com a mão.

Rin... – Kagura tocou na cabeça dela e tentou acalmá-la – Eu não imaginava que as coisas chegariam a esse ponto. Mas sempre foi cada um por si na nossa família. Bankotsu com certeza vai te matar só pra frustrar os planos de Bokuseno... E não vou ficar neste país enquanto ele estiver na liderança.

Levantou-se e esticou os braços, pegando a bolsa que estava em cima da pia de mármore. Guardou o pó e passou a mão nos cabelos, escondendo uma mecha atrás da orelha.

Preciso ir agora. Acho que as aquelas pessoas já estão preocupadas com você. – respirou fundo antes de completar depois de um momento em silêncio - Só peço que se cuide... Certo?

A prima mais nova não respondeu, mas aparentemente estava mais calma e não mais em uma crise de pânico.

Adeus, Rin.

Rin continuava no chão, mas parecia melhor depois de começar a respirar com mais calma: inspirava e expirava suavemente. Escutou depois a porta abrir e fechar – Kagura tinha ido embora.

Levantou-se para lavar o rosto. Se Kagome e os outros a vissem daquela forma, poderiam fazer perguntas e seria ruim inventar uma desculpa. Apoiou-se na pia, encostando a testa no mármore.

Bankotsu ia matá-la. E poderia fazer o mesmo também com Sesshoumaru e a família dele. Precisava contar a ele sobre tudo que sabia para alertá-lo. Não que duvidasse das habilidades dele, mas Bankotsu tornou-se um especialista em ataques traiçoeiros.

Não queria mais aquilo. Não queria. Não queria!

Uma pessoa entrou e fechou a porta. Rin estava tão distraída que nem percebeu que não estava mais sozinha, até escutar a voz de Sango:

Kagome-sama estava preocupada e pediu para ver se está tudo bem. – ela parecia cautelosa na hora de falar. Como Rin continuou na mesma posição, curvada sobre a pia, Sango arriscou – Está passando mal?

Eu já vou. – rapidamente Rin se ergueu e respirou fundo. Qual desculpa inventaria agora? Em questão de segundos Hakudoushi e Sesshoumaru saberiam que ela estava "passando mal" porque ligariam para eles. Maldita tecnologia.

Quer que eu chame Kagome-sama? – Sango sugeriu.

Eu disse que já vou. – Rin virou o rosto para o lado para responder irritada.

Sango deu um passo para trás, sem jeito. Limpou a garganta e tentou se recompor.

Vou avisar Kagome-sama que está... tudo bem, então. – ela, constrangida, saiu do toalete e deixou a outra sozinha.

Rin deu uma risada seca e apoiou os braços na bancada para ver-se no espelho.

Como conseguiria olhar para Shippou depois do que descobriu?

Precisava falar logo com Sesshoumaru, revelar tudo o que sabia para ele sobre o plano de Bokuseno. Era uma vontade tão grande de contar sobre as coisas que estavam guardadas para ela mesma desde que...

Rin-chan?

Assustada, Rin virou o para o lado e arregalou os olhos para encontrar Kagome, preocupada, hesitante para tocar o ombro dela.

Kagome-sama... – ela tinha a voz quase sumida – Eu f-falei que j-já estava...

O que aquela mulher veio falar com você? - Kagome falava como se compartilhasse um segredo – Ela fez alguma coisa?

Como foi que ela tinha entrado sem que Rin percebesse?

Rin? – Kagome tentou de novo uma conversa, preocupada – O que aconteceu?

Ali estava uma pessoa que Rin admirava. Kagome era corajosa, decidida e tinha um coração tão grande – sempre se preocupando com os outros e sempre tão segura de si.

Kagome-sama... – Rin desabou no chão e não conseguia parar de tremer – S-Shippou... Shippou-chan...

O que tem Shippou? – Kagome abaixou-se para passar a mão na cabeça da outra, o tom na voz compreensível e amigável.

Os pais... – ela tentou falar, mas estava tão nervosa que a voz quase não saía –... Os pais dele... Por minha culpa...

Como? – Kagome arqueou um pouco as sobrancelhas e Rin ficou em silêncio por alguns minutos.

Meu irmão... mandou matar... os pais dele...

A grávida tinha ainda a testa franzida de preocupação.

Nós já sabíamos disso, Rin. – Kagome falou.

Mas como...? – ela fungou. As lágrimas escorriam em grossos filetes.

Nós sabemos o que aconteceu com Shippou. – ela sentou-se para conversar frente a frente – Mas não deve se sentir tão culpada, Rin. Você não sabia disso.

A garota escondeu o rosto entre as mãos; o cabelo caía-lhe pelos ombros.

Não fiz... nada.. Foi tudo minha culpa... E não sei como vou olhar pra ele sabendo dessas coisas...

Não foi você, foi o seu irmão, Rin... Não jogue pra si mesma a culpa que deve ser dos outros... – Kagome segurou o rosto dela – Nós decidimos contar a Shippou a respeito disso quando ele crescesse mais um pouco. Eu tenho certeza de que ele não vai achar que você foi a responsável por tudo.

Rin baixou o rosto, sentindo-se envergonhada.

Eu não mereço ficar entre vocês... – ela murmurou.

Mas por que não? – Kagome franziu ainda mais a testa.

Vocês são sempre fortes... – Rin tinha o rosto voltado para baixo e os olhos fechados, um estremecimento percorrendo o corpo – Eu não sou como vocês... Eu não sou forte. Vivi muito tempo sozinha e não sei como me virar. As pessoas que eu mais amava já morreram... Eu não me perdoo por não ter tido forças pra ajudá-los... E eu nunca vou me perdoar se algo acontecer com vocês. Preciso ir embora, eu não posso mais ficar com vocês.

Não, não, não! Você tem que aprender a se perdoar, Rin-chan, você não pode viver assim. – Kagome continuou passando os dedos no cabelo dela – Ficar ou na nossa família é algo que Sesshoumaru-sama e você devem discutir juntos. E eu acredito que ele não pensa da mesma forma. Eu sei que ele quer ficar com você.

Kagome suavizou o rosto ao dar um sorriso:

Você pode ser forte, muito forte, a partir de hoje, deste minuto. – ela esticou os cantos da boca de Rin numa travessura, abrindo assim um sorriso no rosto dela – Você deve seguir em frente. Você merece ser feliz. Você merece ter Sesshoumaru-sama na sua vida e ele merece estar com você.

Rin piscou várias vezes seguidas.

Estamos entendidas?

Mesmo diante das incertezas, Rin engoliu o choro e confirmou com a cabeça.

Bem... – Kagome alargou o sorriso – Pode me ajudar a me levantar? Acho que agora temos que ir.

Oh... - Rin ficou em pé e a ajudou a fazer o mesmo – Desculpe-me, Kagome-sama, mas eu nem tinha reparado que estávamos... – percebeu que a grávida não parecia prestar atenção ao que dizia e com o pedido de desculpas porque ajustava o folgado vestido pelo corpo, mantendo a expressão serena. Porém, Rin continuou – Sinto muito se...

Acho que é melhor lavar o rosto. – Kagome recomendou despreocupadamente, apertando a ponta vermelha do nariz de Rin – Vão fazer perguntas se verem você assim lá em casa.

Rin concordou um pouco relutante. Minutos depois, o rosto já escondia o desânimo e a angústia que sentia.

Pronto, né? – Kagome sorria e pegou a mão dela – Tô com fome. E Shippou também deve estar...

E Kagome puxou Rin pela mão, como se nada mais tivesse acontecido.


Mansão da Família Akai.

Depois do almoço, a tarde na mansão Akai foi de relativo silêncio. Muitos tinham o que fazer: Hakudoushi acompanhou Kagome e Inuyasha a uma consulta; Sango e Miroku saíram sozinhos e Izayoi estava sempre isolada no quarto por escolha própria. Um problema que os portadores de mal de Parkinson apresentam é o de sentirem orgulho demais para não mostrar a doença aos mais próximos.

Rin esperava por Sesshoumaru no quarto enquanto ele não voltava do escritório. Um quarto que agora parecia também pertencer a ela. As roupas estavam no armário. Ela podia entrar e sair quando quisesse, sem precisar bater na porta.

Primeiro ficou sentada na cama. Depois, deitou-se e olhou para teto. Virou-se de um lado. Virou do outro. Fazia desenhos com o dedo na colcha. Finalmente entediou-se e sentou-se novamente, colocando a mão embaixo de um travesseiro para pegar uma caixa com um timbre dourado. Era retangular e cinzenta, o que dava mais destaque à logomarca de uma marca de relógios muito famosa.

Já tinha tudo na cabeça sobre o quê e como deveria falar. Contaria tudo e queria ter a certeza de que não precisaria repetir para nenhum outro.

Ao escutar a porta se abrir, ela escondeu o presente atrás dela, empurrando-o de novo para baixo do travesseiro antes que Sesshoumaru visse.

O-Oi... – ela tentava sorrir para não estragar a surpresa.

O rapaz a olhou e deu um discreto sorriso ao tirar o paletó do terno negro e pendurá-lo em um cabide perto da porta.

Eu não pude vir depois do almoço. Tive a reunião e também comprar uma coisa para você. – ele começou a desabotoar os punhos da camisa branca e aproximou-se da cama, sentando-se na beirada – Discutimos coisas sérias.

E conseguiu resolver tudo? – ela continuava com as mãos atrás da costa, embora não segurasse mais o presente.

Ainda não. – ele afrouxou o nó da gravata – Só daqui a dois meses os resolverei.

Ah... – ela desviou o olhar do dele para o lençol.

Os dois ficaram em silêncio como se houvesse ali uma competição para saber quem falaria primeiro. E ele queria vencer.

Rin?

Oi? – ela levantou o rosto.

Ainda está escondendo aquela caixa aí?

Foi só então que ela percebeu como estava e arregalou os olhos, coçando a cabeça.

Eu ia fazer uma surpresa... Parece que não sou boa mesmo nisso.

Sesshoumaru aproximou-se mais dela:

Eu trapaceei. Vi quando você escondeu um pouco depois de eu abrir a porta. – ele estreitou levemente os olhos dourados. Ele detestava quando a ouvia falar dela mesma daquela forma – O que você tem aí?

É... – Rin virou um pouco o tronco e pegou o presente, sorrindo prontamente ao estendeu os braços para entregar a ele – Eu comprei para você.

Sesshoumaru pegou a caixa e abriu a tampa, mantendo a expressão impassível ao tirar um relógio masculino. Era caro e de bom gosto, algo que poderiam tranquilamente dizer que combinava com ele.

Você saiu hoje? – ele perguntou.

Kagome-sama me convidou para fazer umas compras. Ela queria ver umas roupas de bebê. – Rin deu uma leve risada – Ela deu muito trabalho aos vendedores.

Kagome sai todos os dias para fazer compras, não é?

Ela acha divertido. Ela comprou uma camisa horrível pro seu irmão usar. Acho que você não vai querer perder esse momento.

Sesshoumaru voltou a olhar o presente. Era um Rolex com detalhes da caixa e da coroa em ouro rosé e cristal de safira.

E você comprou uma coisa para mim e nada para você? – ele olhava os ponteiros do relógio e conseguia ver o próprio reflexo pelo cristal.

Ah... Eu só comprei roupas. – ela se abraçou e encostou o rosto nos joelhos unidos – Mas quando ela me convidou, eu pensei mais em trazer algo a você.

O jovem líder pegou o relógio, olhou-o mais uma vez, tirou o que tinha no pulso e colocou o novo, deixando que Rin admirasse o resultado quando puxou o braço dele para ver.

Você gostou? – ela perguntou alegremente.

Uma confirmação da cabeça veio por parte de Sesshoumaru e ela novamente abraçou os joelhos, não deixando de sorrir ao observar as feições dele.

Eu preciso fazer uma viagem. – ele quebrou o contato visual

Oh? – ela piscou curiosamente – Vai ficar muito tempo longe?

Eu pretendia ficar apenas duas semanas longe da capital, mas hoje eu descobri que posso estender isso para um mês.

Durante a fala dele, sorriso de Rin diminuía e perdeu completamente a graça quando ele falou "um mês". Era tempo demais.

Você não gostou? – ele perguntou ao notar a reação dela.

Eu... não... – ela coçou de novo um dos lados da cabeça, quase perto da nuca. Depois mordeu o lábio inferior de leve – Você precisa mesmo de um mês?

É o suficiente. – ele a viu abaixar o rosto e olhar para uma das paredes. Ainda assim, ele aproximou-se e tentou encontrar o olhar dela – Por quê? Então não quer ir?

Nisso, Rin arregalou os olhos.

"Ir"? Mas... Mas... Não são os seus negócios?

Eu nunca falei que era por causa disso. – viu-a abrir os lábios e dar um sorriso meio envergonhado - Eu falei que queria fazer uma viagem e que agora posso passar até um mês fora.

Comigo? – ela arriscou.

Você quer ir?

Muito. – ela confirmou com a cabeça.

O cabelo dela desalinhou um pouco e então ele notou o modo como ela o prendera. Ele geralmente ficava solto e cobria as orelhas, mas no momento estava preso por um enfeite e deixava parte da testa aparecendo. Era mais ou menos daquela forma que ela o usava quando a viu no restaurante pela primeira vez.

Puxou o rosto dela e ignorou a surpresa dos olhos castanhos. O lado que ele tinha apontado uma arma tinha sido o esquerdo, certo?

Se... Sesshoumaru? – ela estremeceu com a ação e tocou no ombro dele como se quisesse detê-lo. Ele a ignorou e pegou a mão para examinar o braço, o mesmo que ele apertara com força quando a levantou do chão do estacionamento naquela noite – O que foi... ?

Tinha mirado ali, ele pensou enquanto passava um dedo por entre os cabelos, sentindo o olhar dela sobre ele, a curiosidade em saber a respeito do que ele pensava, o que poderia perguntar.

Deitou-se na cama e puxou-a para cima dele, ainda esfregando o polegar nos cabelos e vendo-a sorrir.

Quando vamos viajar? – ela encostou o queixo no peito dele, aproximando ainda mais os rostos.

Daqui a cinco dias. – ele declarou – Eu preparei a viagem como um presente para você.

Ah... – ela piscou duas vezes – Preciso avisar Hakudoushi-sama por causa dos remédios. E saber se ele deixa...

Hakudoushi não interfere nas minhas decisões. – Sesshoumaru asseverou – Se tiver que seguir algum tratamento, pode fazer isso longe dele enquanto estivermos em viagem.

Ficara ela um pouco constrangida coma reação dele. Sentiu o rosto ficar vermelho e pensou em alguma coisa para dizer quando ficaram calados.

Entretanto, não foi necessário. A mão dele moveu do lado do rosto para a testa, tirando alguns fios que insistiam em cair ali.

Sinto dizer essas coisas... – ele falou – Mas eu não gosto de saber que ele conhece você bem melhor que eu nestas duas semanas que ficou aqui.

De novo aquilo? Kikyo também falara algo semelhante quando se falaram no outro dia. Rin disfarçou a vontade de rir e os olhos ficaram mais brilhantes ao se aproximar da testa dele e beijar o local.

Não existe outro homem que me conheça melhor que você. – ela falou, voltando à posição de antes e sorrindo ao vê-lo arquear as sobrancelhas.

Quando ela quis beijá-lo, ele não se moveu, mas a fez parar ao falar quase num sussurro:

Eu falei com seu pai hoje.

Rin afastou-se e mudou o ângulo da cabeça, piscando algumas vezes:

Mas o meu pai já morreu, Sesshoumaru. – ela ficou por um momento confusa, depois aproximou-se de novo para beijá-lo.

Entretanto, Sesshoumaru afastou o rosto.

Bokuseno falou que gostaria de vê-la tocando de novo no piano da sala dele.

Foi a segunda vez que ele a viu pálida, tão assustada quanto naquele dia do ataque no restaurante. Ela recuou abruptamente, pressionando as costas contra a cabeceira da cama. Os lábios estavam entreabertos, o ar preso na garganta, o coração acelerado.

Rin... – ele tentou segurar a mão dela, sentindo-a suada e gelada, e ficou receoso que ela fosse desmaiar – Você deveria ter falado com ele também.

Ele não é... Ele não é... não é meu paiiii... – a voz saiu na gagueira típica do nervosismo, os olhos ficaram arregalados – N-N-Não sei o que ele fa-falou, mas é mentiiiira...

Sesshoumaru tinha os olhos levemente estreitados e um pequeno sorriso malicioso subindo pelos cantos dos lábios.

Você não é filha dele, então?

E-Eu sei que ele f-foi amante da minha mãe... a pri-primeira. - ela ainda estava trêmula, a voz num sussurro – Foi por isso que meu pai mandou m... mmm... matá-la... Mas eu n-não sou filha d-dele...

O rapaz ficou em silêncio, os olhos focando ora nela, ora em um ponto do lado direito ou esquerdo. Era como se eles estivessem ajudando a montar um quebra-cabeça muito importante e as peças estivessem espalhadas no campo de visão dele.

E ela era uma delas.

Por que ele quis você como líder, Rin?

A voz não saiu de novo. Ela não sabia como falar mais.

Eu sempre quis saber o porquê de você ter sido escolhida em lugar do seu irmão ou de outra pessoa da sua família... Ele fez isso por causa de algum plano?

Rin balançou a cabeça e pôs a mão direita sobre os lábios dele, impedindo-o de continuar.

O que vo... – ela murmurou, procurando não piscar enquanto o encarava - O que você está pensando de mim agora?

Como ela continuava com os dedos em cima dos lábios dele, Sesshoumaru não quis responder por uma questão de educação. Rin retirou a mão e sentou-se, fechando a boca com força.

Bokuseno sempre tem um interesse quando indica um líder em uma família. Quando meu pai decidiu escolher o próximo membro da família para o cargo, ele queria indicar Hakudoushi para que eu continuasse cuidando da nossa família sem correr maiores riscos. – ele permitiu-se sorrir – Aquele maldito do Bokuseno não aceitou.


Por que não Hakudoushi? – Toga perguntou um pouco confuso ao líder. Os dois estavam, um ao lado do outro, a olhar o jardim da casa da família Akai pela janela do escritório.

Não tem confiança no seu filho? – Bokuseno o olhou pelo canto dos olhos.

Tenho. Bastante, por sinal. – Toga virou o rosto para olhá-lo, mas Bokuseno não fez o mesmo – Mas eu prefiro que ele fique cuidando de Izayoi e Inuyasha. Penso que também ele vai querer casar e proteger nossa família um dia.

Bokuseno zombou.

Sesshoumaru já está tão ligado a yakuza que será uma pena perdê-lo. – o líder do conselho falou – E acredito que ele também pense da mesma forma.

Oh?

Dê o cargo a Sesshoumaru. – Bokuseno continuou, estreitando os olhos ao ver a pessoa de quem falavam treinando na área da frente da casa com Miroku e Inuyasha – Ele será melhor que seu sobrinho.

Por que não quer que seja Hakudoushi, afinal de contas?

O outro estava impassível ao falar:

Seu sobrinho é um chato que não se cansa de repetir que cigarro faz mal para minha saúde toda vez que nos encontramos. Ficarei irado se eu tiver que me reunir com ele todos os meses.

Ficaram em silêncio por um minuto.

E tá errado? – Toga perguntou e se encolheu ao receber olhar assassino de Bokuseno.

Bokuseno sentou-se imediatamente no sofá para espirrar, voltando a deitar depois de assoar o nariz num lenço. Um dos seguranças, próximo a ele, perguntou:

O senhor está gripado?

Talvez... Com esse tempo... – o líder bocejou e esfregou a nuca. Engraçado espirrar num momento quando se lembrava de Sesshoumaru... Talvez o rapaz estivesse falando mal dele.

O senhor não quer que chame aquele médico da família Akai?

NÃO! – Bokuseno rebateu num tom extremamente irritado.


Conte-me tudo o que você sabe... – Sesshoumaru a puxou para si e colocou atrás da orelha dela uma mecha do cabelo que se soltou – Eu preciso saber para ajudar.

Rin mirou os olhos nos botões da camisa dele como se eles ajudassem a concentrar.

E-Ele falou que eu ia sofrer graves consequências se eu...

Um "hunf" de Sesshoumaru a interrompeu.

Bokuseno não vai fazer nada contra você, Rin. Ele não teria coragem.

Os olhos dela ainda estavam hesitantes.

Ele disse que se eu ficasse no posto, ficaria protegida.

Sendo indicada por ele, ninguém poderia tirá-la. – ele explicou – É uma posição privilegiada.

Ele apareceu em casa semanas depois da morte do meu pai. Eu fiquei com uma parte bem pequena do espólio, mas era suficiente pra me mudar de lá. E-Eu... já tinha tudo preparado pra ir... embora.

Para onde você iria? – ele quis saber por curiosidade.

Hmm... – ela baixou de novo o rosto, os olhos mudando para uma expressão mais triste – No último dia da minha mãe... da minha outra mãe, ela me disse que íamos fugir pra uma cidade na costa oeste... Íamos morar juntas numa casinha perto do mar. Eu quis um lugar assim e achei em Niigata. Organizei tudo pra ir pra lá, até conversei com algumas empresas pra poder trabalhar porque o dinheiro da herança era muito pouco. E ele me fez cancelar tudo. Tive que destruir o contrato do aluguel e do trabalho na frente dele.

E ele colocou você na liderança.

Hesitante, Rin confirmou com a cabeça.

Qual era o plano dele?


Isso não pode ser verdade. – Rin franzia a testa, os punhos fechados e pressionados contra a saia dela – Eu não posso ser herdeira de tudo isso.

Bokuseno, a olhar para o jardim da mansão Shiroi pela janela do escritório do antigo líder, tirou um maço de cigarros e um isqueiro do bolso interno do paletó.

Já está feito. – ele avisou antes de acender um cigarro – É melhor cancelar seus planos.

Claro que não. – ela falou numa extrema petulância – Eu não vou aceitar esse cargo.

O erro de Rin foi acreditar que estava em uma zona protegida, livre de qualquer ameaça. Ao decidir levantar-se do sofá, viu-se novamente sentada por dois braços que não a tocavam, mas ameaçadoramente a prendiam ali.

Olhou para o responsável por aqui: Bokuseno, com cigarro na boca e tudo, estava tão próximo que as testas quase se tocavam. Como ele tinha saído da janela e ido parar na frente dela em questão de segundos era um mistério para ela.

Antes de falar, ele tirou o cigarro dos lábios e o prendeu nos dedos, o odor nauseante preenchendo as narinas dela:

Você vai aceitar sim, mocinha. – a voz dele saiu num sussurro pausado e agressivo, e estava tão próximo que a impressão que ela teve era que ele iria bater com a cabeça na dela propositalmente – Vai fazer exatamente o que eu disser. Vai assumir o posto, vai descobrir as informações que eu quero, vai...

Pressionada, Rin fechou os olhos com força e baixou o rosto, levando as mãos à cabeça como se quisesse protegê-la de um ataque:

Por favor, não me machuque. – implorou.

Nisso, ele afastou-se, ficando em pé na frente dela.

Faça o que eu disser ou eu conto pra todo mundo o que você fez com o seu pai.

Rin ergueu o rosto. Os olhos dela estavam arregalados de medo.


O que você fez com o seu pai? – ele a interrompeu.

Viu-a passar a língua por entre os lábios secos para umedecê-los. Além disso, ela tinha leves tremores, facilmente notados nos braços que a sustentavam na cama.

Eu não gostava daquele homem... – Rin não o olhava. O lençol era o ponto fixo dela – Ele tirou de mim as pessoas mais importantes da minha vida e continuava vivo... Era insuportável estar debaixo no mesmo teto que ele, falar com ele, olhar pra ele. – a voz assumia um tom mais severo - A primeira noite em casa depois que ele morreu foi tão maravilhosa, eu nunca me senti tão tranquila...

Sesshoumaru arqueou de leve as sobrancelhas.

O que você fez com o seu pai? – ele tornou a perguntar. Não gostava de se repetir ou ser insistente, mas algumas vezes ela o forçava a aquilo.

Rin ficou calada. Olhar perdido nos detalhes da coberta da cama, pernas dobradas, braços suportando o peso do corpo, cabelo cobrindo parte do rosto.

O que aconteceu, Rin? – ele exigiu.

Outro silêncio. A continuação demorou a sair, vinda num sussurro infantil:

Eu amava tanto o Yuri... Minha madrasta... Eu achei que poderia fazer alguma coisa por eles... – ela passou o braço nos olhos para limpar a vista.

Ergueu o rosto e o cabelo cobriu a vista. A voz não saiu, mas Sesshoumaru conseguiu fazer perfeitamente a leitura dos lábios, palavra por palavra:

"Ele me fez matá-lo."

O silêncio que se fez por segundos foi quebrado por ele:

Ele ameaçou você com isso?

Uma confirmação de cabeça veio por parte dela.

E Bokuseno ainda tinha ameaçado Sesshoumaru de tirá-la dali se acaso alguma coisa acontecesse com ela... Queria muito saber o que se passava na cabeça dele ao agir daquela forma.


Enquanto observava aquela figura trêmula, aquela garota que ele mal acreditava ter sobrevivido à infância naquela casa, algo chamou a atenção dele pela visão periférica.

É melhor você sair daí agora ou vai se arrepender. – ele avisou para alguém.

Segundos depois, Shiroi Kagura saiu das sombras e apareceu na sala.

O que você está aprontando, velho? – ela perguntou, olhos estreitados como se pudesse surtir algum efeito nele.

Nada que lhe diga respeito... Kagura, né? – ele voltou a fumar, soltando uma longa baforada ao encará-la.

Você colocou um alvo na cabeça dela! – ela o alertou – Você não conhece a nossa família? Acha que meus primos vão deixar barato? Ela vai morrer!

Kagura piscou por um segundo e no outro já tinha os olhos arregalados: ele estava agora na frente dela.

Você parece ser uma boa pessoa pra ficar ao lado de Rin. Tenho um cargo pra você também: braço direito da nova líder da família Shiroi. Você vai ajudá-la em tudo. E se ela morrer, você também morre. Que tal?

Ouviu um "tchi" de desprezo por parte dela.

Não estou fazendo um convite. Isso é uma ordem. – ele avisou com os olhos estreitados.

Os dois olharam para a direção de Rin ao perceber que ela tentava puxar o ar para os pulmões, as mãos na garganta como se aquilo pudesse ajudá-la a respirar.

Mas que droga... – Kagura passou por Bokuseno e correu até a mesinha de água e café do escritório, enchendo um copo de vidro com água.

Foi até Rin e abaixou-se para ficar da mesma altura da prima sentada, tirando as mãos dela do pescoço para massagear os pulsos.

Ela tá tendo um ataque de pânico... – Kagura explicou enquanto colocava o copo no chão e ajudava Rin a recuperar o ar – Respire... Solte... Respire...

Minutos depois, ela a forçava a tomar um gole com água – tudo sob um olhar de Bokuseno.

Bem, vejo que sabe cuidar bem dela. – ele deu um sorriso irônico ao se aproximar das duas – Vai facilitar também o nosso contato. Eu quero que façam negócios por mim com algumas famílias. Quero que me contem tudo das reuniões. Se não souberem negociar, mandem Bankotsu. É importante deixá-lo no meio. Quero ver como ele vai agir.


Quando Rin terminou a história, Sesshoumaru ainda tinha uma expressão pensativa, como se estivesse calculando uma jogada de xadrez ou montando um quebra-cabeça de mil peças.

Sango me falou que você encontrou uma mulher hoje. Era essa sua prima? – ele quis saber.

Hm... Sim. – ela parecia envergonhada – Desculpe não ter contado logo sobre isso. Ela veio se despedir de mim. Disse que ia embora do Japão.

O alvo sempre foi Bokuseno. Nunca foi especificamente Rin, ele pensou. Mas por quê?

Você deveria ter me contato essa história, Rin. – ele falou num tom que se equilibrava entre o severo e o suave – Era importante eu saber sobre isso.

Rin baixou o rosto, envergonhada. Ela deveria ter feito aquilo mesmo.

Há mais alguma coisa para me contar?

Rin piscou várias vezes, sentindo o rosto ficar levemente corado.

Naquela noite do restaurante... – ela começou hesitante – Kagura e eu íamos fugir. Ela cuidou de tudo. Da casa, pra onde iríamos... As economias, novas identidades... Eu ia fingir que ia embora com aquele cara. Ninguém ia dar por falta de mim se pensassem que eu fugi com um "namoradinho"...

Foi um plano estúpido. Bokuseno iria descobrir em questão de horas.

Sesshoumaru viu os ombros dela caírem, a postura ficar mais curvada. Era claro que era estúpido, mas era o único plano que ela tinha.

Pensei que Bankotsu ia me matar por causa dos planos de Bokuseno... Mas ele contou em Osaka que tinha sido ele quem matou aquele homem... E eu me senti.. tranquila de novo... como na primeira noite depois que ele morreu.

Era impressionante como o ser humano podia agir nos momentos de desespero, Sesshoumaru pensou. Não que reclamasse: ele próprio agira uma vez daquela forma.

Voltou a erguer o rosto. O cabelo não mais cobria a vista e os lábios mostravam um sorriso - meio triste, meio esperançoso - que não combinava com o momento e com o que ela sentia.

Eu queria ir embora. Eu não queria que nada tivesse acontecido... Esse posto, o dinheiro, Bankotsu... – os lábios tremeram e ela sentiu o rosto queimar por causa da emoção, tentando controlar ainda a vontade de chorar desde que começara a falar – A única coisa boa disso tudo é que eu conheci você...


Mansão da Família Shiroi

Eu ainda não acredito que fez isso. – Suikotsu ria com pena da própria situação – Simplesmente não acredito...

Mas o que você queria? – Bankotsu sorria, mas, diferente do outro, estava confiante – Você devia ter ido pra ver a cara do Bokuseno.

O outro continuava balançando a cabeça.

E Rin?

O que tem ela? – Bankotsu o olhou com atenção.

O que ela acha disso?

O tal Sesshoumaru disse que ela não sabe desse desafio. – Bankotsu levantou-se e começou a andar pelo escritório, onde estavam – E já há uma família que diz que vai ajudá-lo.

"Família"? – Suikotsu ficou surpresa – Não me diz então que nós...?

Isso. – o líder sorriu consigo mesmo – Vamos arrumar os nossos aliados.

Mas nossos círculos de aliados são quase os mesmos. – Suikotsu fechou os olhos, cruzou os braços em frente ao peito e ajeitou-se confortavelmente na cadeira – Aposto que essa ideia estúpida foi de Hakudoushi.

Bankotsu riu.

Não, não foi. Pelo que explicaram, isso é algo que sempre fazem quando uma família quebra a aliança com eles. – sentou-se na ponta da mesa e ficou quase de frente ao primo – O que você tem contra esse cara? Ele é o único que não vai participar.

Por quê? – Suikotsu ficou pasmo.

Pelo que eu entendi, ele não quer se envolver com a yakuza.

Estamos falando da mesma pessoa? – Suikotsu ainda não acreditava – Hakudoushi é um de cabelos longos, claros...

Olhos lilases...

... Fala japonês direitinho...

... dois braços, duas pernas...

... tem os olhos puxadinhos como nós...

... uma cabeça, dois olhos, duas orelhas, uma boca? – Bankotsu dava risadas e o primo tentava chutar as pernas dele, mas conseguia se defender – Olha, eu acho que é a pessoa errada...

Hakudoushi vai participar disso, tenho certeza. – Suikotsu voltou a cruzar os braços, colocando uma perna em cima do outro joelho – Ele é o homem mais próximo de Sesshoumaru.

Ele disse que não tinha motivos pra se envolver na briga.

Suikotsu zombou do fato e estreitou os olhos ao falar:

Veremos mesmo. Ele sempre se mantém nas sombras antes de mostrar a cara. – o rapaz jogou a cabeça para trás – Ele era assim na faculdade. E eu não conseguia disputar com ele em nada. Acabei abandonando Medicina por desgosto.

Bankotsu apenas escutava com atenção.

Isso não deveria estar acontecendo. – Suikotsu declarou, olhando para alguma coisa por perto – Nós só tínhamos que frustrar o que Bokuseno planejou. Não íamos meter outra família nessa história. Se Rin colaborasse, teria uma bela pensão agora e nem moraria conosco. Ela ia seguir com aquele plano estúpido de fugir daqui e morar no litoral.

Então... – Bankotsu deu um sorriso – Vamos apenas acabar com eles e voltar ao nosso plano original. As coisas só saíram um pouco do nosso controle.

Suikotsu também sorriu e fechou os olhos.

Vamos ver mesmo... – este começou – Se Hakudoushi não tem motivos pra entrar na briga.

O que pretende fazer? – Bankotsu arqueou as sobrancelhas.

Em dois dias... Você vai descobrir. – foi tudo que o primo ousou responder, mantendo o mistério.


Dois dias depois.

Distrito de Oslo - Reino da Noruega.

Em Akker Brygge, um bairro central da capital norueguesa, os relógios digitais espalhados por toda cidade indicavam que eram apenas quatro da tarde. Por ser inverno, no entanto, tudo já estava escuro como se fosse noite. Os habitantes já estavam acostumados com aquela época, quando só tinham de cinco a seis horas de luz do dia. Oito horas marcavam a diferença no horário com o Japão. Se os turistas japoneses ou moradores nissei ou sansei tivessem que fazer uma ligação ao outro país, teriam que tomar cuidado com o horário, pois corriam o risco de acordar alguém durante a madrugada.

Próximos a um prédio de classe média alta, duas crianças conversavam descontraídas em japonês, acompanhadas de uma au pair também de mesma origem. Era uma espécie de guardiã legal, cuidando em tempo integral delas durante a estadia naquele país.

Voltavam eles de uma excursão escolar em Bergen, a segunda cidade a ser fundada no país. Uma das crianças era um menino e carregava uma mochila nas costas, não tão pesada quanto a que a mulher carregava facilmente com uma única mão. A outra era uma menina que segurava as sacolas mais leves com as compras que fizeram durante o caminho.

Pararam em frente ao prédio e a garota colocou a mochila no chão para procurar, em dos bolsos do casaco, pela chave do portão.

Falavam tanto do Fish Market... – o menino pisava duro no chão – Não é nada do que eu esperava! Não deu pra comprar tudo o que eu queria.

A au pair não se surpreendeu com a declaração do menino. As crianças da idade dele se interessavam por outras coisas – carrinhos, brinquedos novos e eletrônicos. Uma feira tradicional em uma cidade histórica como Bergen, com coisas de segunda mão como roupas, móveis antigos e acessórios de décadas passadas, não tinha muitas coisas atraentes para aquela faixa etária.

Eu queria tanto aquela boneca... – a menina mais nova reclamou.

Você já tem muitas. – a responsável por eles falou num tom calmo e indiferente – E aquela nem era bonita.

Kanna! – a menina exclamou num tom irritado.

O que foi? – a garota permanecia impassível.

Na frente do prédio, ela reparou em dois grupos de jovens conversando e bebendo, as garrafas e latas de cerveja na mão, mesmo quando naquela cidade havia restrição de circulação com bebidas em via pública.

Os olhos discretamente observaram de soslaio o grupo à direita deles.

Teru tá reclamando de novo!

Teru. – ela simplesmente falou num suave tom de aviso.

O que foi...? – ele falou numa irritação – Eu só falei que...

Enquanto o menino falava, os olhos dela passaram a observar o grupo à esquerda deles.

Vamos. – Kanna abriu o portão do prédio e deu passagem – Entrem logo.

As crianças pararam de brigar, como se nada tivesse acontecido, e entraram. Dentro do prédio, seguiram a garota até o elevador e voltaram a conversar sobre a excursão.

Na rua, o grupo de rapazes parou de beber e olhou a entrada do prédio. Um deles perguntou em japonês:

Então aqueles dois são os pontos fracos daquele médico?

Vamos começar a agir às onze. A partir de oito tem lei de silêncio no prédio. Provavelmente os pirralhos vão pra cama às nove. A empregada deve assistir a aquelas novelas escrotas daqui e depois vai dormir. – o que parecia ser o líder explicava – Vamos atacar quando as luzes do apartamento se apagarem.

Os outros apenas sorriram.


Prelúdio

Dentro do apartamento, o menino terminou de beber um copo de chocolate quente enquanto a irmã ainda mastigava o último pedaço de um pão sueco com patê de atum.

Ah...! – ele passou o braço pela boca para tirar o excesso que escorria pelos cantos – Muito bom, quero mais.

Voshê nhão defelhia tomar issho! – a menina apontou e cuspia os pedaços da comida da cara dele – Nhão me deisshar dormir!

O menino mostrou a língua para ela.

Dhifusagokdkppd! – ela começou a murmurar coisas sem sentido com a boca cheia, agitando os braços como se mandasse pragas a ele e jogando mais migalhas no rosto do irmão.

Um vaso foi colocado abruptamente no meio da mesa. Ele era geralmente recolocado toda vez que terminavam as refeições. O ato fez com que os dois arregalassem os olhos e se voltassem para a pessoa que o colocara ali.

Isso assustou, Kanna. – o garoto falou.

Está na hora de dormir. E você não deveria ter tomado isso. – ela falou num tom calmo e severo. A voz saía quase num sussurro.

Mas assim eu não fico com tanta fome durante a madrugada. – ele colocou os braços atrás da nuca e fechou os olhos para ignorar o pedido – Que Aki vá dormir em outro lugar se ela tá incomodada.

Kanna! – ela choramingou numa apelação.

Teru, Akiko. Dormir. – Kanna falou com seriedade – Agora.

Derrotadas, as crianças se levantaram e passaram direto para corredor do apartamento para irem, ela, ao banheiro e, ele, ao quarto.

Minutos depois, a menina já estava no quarto e passou pelo irmão, ainda remexendo a mochila da viagem, para deitar na cama dela, do lado oposto a dele.

Você já vai dormir? – ela perguntou.

Daqui a pouco, daqui a pouco. – ele ainda parecia estar cheio de energia.

Você não vai desligar a luz, vai? – ela parecia estar com medo.

Não, não vou. – ele revirou os olhos – Fecha os olhos e dorme logo.

A porta se abriu subitamente e o rosto de Kanna apareceu na porta para observar os dois no quarto.

Não se esqueçam de desligar o aquecedor e de fechar as janelas.

Tá. - menino concordou.

E desliguem as luzes.

Nããão... – a menina choramingou debaixo do lençol.

Eu vou desligar daqui a pouco. – o irmão garantiu, ignorando o choro da irmã – Vou ver as fotos antes.

Kanna nada mais falou e fechou a porta.

Achei! – ele triunfantemente pegou a câmera digital e pulou da cama para ir direto ao interruptor.

Teruuu... – a irmã implorou.

Calma. – ele já estava meio irritado com aquele medo dela – Kanna vai reclamar.

M-Mas...

As lâmpadas se apagaram e logo depois uma fraca luz brilhou no quarto, iluminando não muito bem o rosto do garoto.

Vamos usar isso. – ele jogou outra lanterna na cama da irmã – Depois você pega mais pilha se ficar fraca.

'Tá! – ela parecia mais tranquila.

Na rua, alguém falou:

Os pirralhos já foram dormir.

Um dos outros três companheiros deste falou, tirando o cigarro da boca:

Falta só a garota.

Uns dez minutos se passaram e finalmente viram, pela janela do quarto que observavam, as lâmpadas se apagarem.

Vamos lá. – o líder do bando anunciou, começando a correr.

Os quatro pularam o muro com a identificação do prédio e agilmente saltavam e escalavam como grandes aranhas as paredes de cada andar até alcançarem uma das janelas do apartamento desejado.

A garota tá dormindo. – um deles sussurrou.

O que liderava se aproximou do vidro e viu, através da cortina de renda, a figura feminina deitada de lado, mas de costas para eles. Estava totalmente coberta pelo lençol e provavelmente sonhava sem preocupações.

Primeiro as crianças, né? – ele falou – Depois a gente dá um jeito nessa aí.

Os quatro, colados na parede, olharam para o chão, para cada lado, para o horizonte deles.

Pera lá. – o chefe falou, interrompendo o próximo movimento – Era pra gente pegar essa garota também, né?

Ih... – os outros três reclamaram.

Ah, depois a gente vê isso. Vamos logo.

A janela do quarto das crianças ficava na outra parede. Estavam um pouco longe, mas o trajeto não era difícil. Só precisavam passar de novo e com cuidado pela janela do quarto da empregada.

Ao fazerem isso, a garota, ainda deitada de costas para a janela, abriu os olhos em alerta e os estreitou.


Próximo capítulo:

"Teru, eu escutei alguma coisa!"

"O quarto das crianças tá trancado e alguém tem que abrir aquela porra sem acordar os vizinhos."

"Uma ligação da Noruega para o sssenhor."

Capítulo 16: Um último passeio pela Escandinávia.