Nota da autora: Mais um capítulo. E terei que viajar de novo (pela última vez!) e então acho que tudo voltará ao normal. Espero que possam comentar! Estou adorando a participação de todos :)
(Fãs de Hakudoushi, nada de fangirlish aqui)
Disclaimer: "InuYasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.
A cor do dinheiro
Capítulo 16: Um último passeio pela Escandinávia
Para Lan Ayath
Distrito de Oslo – capital do Reino da Noruega.
Os residentes de um prédio de classe média alta, localizado no atrativo bairro de Akker Brygge, já haviam se recolhido às onze e meia da noite de uma quinta-feira. Quase ninguém estava na rua. Se havia alguém passando pelo local, com certeza dava atenção ao prédio e nem imaginava que quatro figuras se moviam pelas paredes.
–Pera lá. – o chefe falou e parou repentinamente – Era pra gente pegar essa garota também, né?
–Ih... – os outros três reclamaram.
–Ah, depois a gente vê isso. Vamos logo.
A janela do quarto das crianças ficava na outra parede. Estavam um pouco longe, mas o trajeto não era difícil. Só precisavam passar de novo e com cuidado pela janela do quarto da moça que parecia ser a empregada.
–Peraí. – o líder falou de novo.
–Cacete... – um dos companheiros se estressou – O que foi agora?
–Eles acabaram de dormir. – o chefe fingiu que o outro não estava irritado – Vamos esperar um pouco. Eu não quero escutar aquela garota gritar. Pior coisa que existe é mulher fazendo escândalo e acordando os vizinhos.
Ficaram olhando os lados e a frente por algum tempo.
–Ela não tava vendo novelas. – um deles falou de repente.
Os olhares se voltaram para ele.
–Cê tinha dito que ela ia ver novela até tarde. – ele falou ao chefe.
–Agora não passa novela, idiota. – um comentou.
–E eu acho que ela é racional o bastante pra não ver essas imundícies norueguesas.
–Você não gosta de novelas? – o outro parecia ofendido.
–Eu gosto daquelas coisas que chamam de dramalhões coreanos. – o colega comentou – Minha mãe via quase todo dia, acabei gostando.
Os companheiros o olharam, mas não quiseram comentar.
Dentro do quarto das crianças, Teru ainda via as fotos na câmera digital.
–O que gostei de Bergen foram os fjords. – ele comentou e mostrou uma das fotos à irmã – Se bem que esses aqui são decepcionantes se a gente já viu os do norte.
–Eu queria comprar aquela boneca do Fish Market. – Akiko lamentou.
–Mas que coisa... – o irmão revirou os olhos – Você já tem tanta boneca... Pra quê mais uma?
–É que... É que... – ela baixou o rosto e fitou os desenhos do lençol – Eu prometi comprar pra Kikyo-sama uma boneca de cada lugar que a gente visitasse...
O irmão não sabia mais o que falar. Baixou a câmera e tentou soar o mais compreensivo possível para uma criança de mais ou menos dez anos:
–Semana que vem você compra uma quando formos a Copenhague. – Teru prometeu – Tem mais coisas por lá... Você vai achar uma boneca mais bonita que aquela.
–É? – os olhos dela brilharam.
O irmão confirmou com a cabeça.
–Agora vai dormir. Vou ver as outras fotos e depois vou deitar.
–Tá. – ela se deitou e cobriu-se – Boa noite, Teru.
–Boa noite. – ele murmurou, mais interessado em ver mais fotos.
Quase cinco minutos depois, a menina se sentou abruptamente na cama.
–Teru, eu escutei alguma coisa! – ela falou assustada.
–Escutou o quê? – ele não parou de ver as fotos – Dorme logo.
–Teru...
–Deixa de ser medrosa, menina. – ele resmungou, desligando a câmera – Eu já disse que...
Parou de falar porque também ouviu. Parecia que algumas pessoas murmuraram do lado de fora do quarto.
Vira, pelo vidro da janela, algumas sombras se moverem, pessoas que praticamente podiam abrir uma fresta e entrar no quarto com muita facilidade.
–Teru! – ela cobriu a boca para que um grito mais forte não saísse.
–Desliga a luz! – Teru desligou a lanterna e a irmã fez o mesmo.
O menino puxou Akiko para o chão, arrastando-a até um dos cantos do quarto onde ficava um armário, o mais longe possível da janela.
–Devem ser só arruaceiros. – ele sussurrou – Vamos ficar quietos.
As sombras se moveram de novo perto do vidro e eles se encolheram ainda mais.
Para o terror deles, uma pequena mão cobriu-lhes a boca. Eles arregalaram os olhos, sentindo os corações disparados.
Para a surpresa dos dois, era a au pair deles.
O rosto sério de Kanna não demonstrava emoções. Estava calada, olhando a janela, mantendo a calma e indiferença numa situação de medo. Ela abriu a porta do guarda-roupa e os empurrou para dentro.
–Fiquem aqui.
–Kanna! – Akiko estava apavorada e fechava os olhos, assim como o irmão.
A garota aproximou o rosto do das crianças, um dedo na frente dos lábios e um brilho estranho nos olhos:
–Shh. – era a forma dela de pedir para que ficassem em silêncio e sabia que eles iriam obedecê-la.
Kanna fechou a porta e a trancou, guardando a chave num dos bolsos do longo robe branco que vestia.
Os irmãos se abraçaram no escuro e Akiko começou a chorar, os dois ignorando o que poderia se passar pelo apartamento.
No quarto de Kanna, alguém habilmente abriu a janela e entrou no quarto, caminhando na ponta dos pés até a cama, na qual repousava a moça que vira antes.
Entretanto, ao ver de perto, percebeu que eram almofadas.
–Mas que porra...? – ele jogou o lençol antes – Eu caí nessa?
Sentindo alguém atrás dele, ele abaixou-se um milésimo de segundo para defender-se de um golpe de taco de softball que receberia na cabeça, o que o atingiria na nuca para deixá-lo desacordado.
–Cacete! – ele deu dois saltos para trás e percebeu que era a responsável pelas crianças – Você tá...!
Kanna acompanhou os movimentos dele e tentou golpeá-lo de novo, mas o bastão quebrou-se ao meio quando o adversário a atacou com uma katana, indo ao chão para chutar a arma nas mãos dele e jogá-la longe.
–Você sabe ninjutsu, guria? – falavam em japonês. Ele defendeu-se de um golpe no ombro e recuou para reaver a arma.
A garota avançou de novo, não conseguindo impedir que ele recuperasse a espada. Entretanto, tão rápido quanto ele, ela já estava por trás do invasor e segurou a katana pelo cabo e pela ponta para pressionar a lâmina no pescoço dele para cortá-lo.
Curvando as costas, ele a jogou longe, mas ela conseguiu suavizar a queda com as mãos unidas no chão e ficar em pé novamente num elegante movimento. Ele avançou e a jogou na cama próxima a eles, tentando um golpe com a katana contra a cabeça dela, que desviou para o lado e deixou a arma fincada no colchão.
Cruzando as pernas nas dele, ela o virou na cama e ficou por cima dele, colocando as mãos no pescoço dele e aguentando os golpes que ele transferia com as mãos no rosto dela para evitar o estrangulamento.
Escutou o pescoço do invasor quebrar e ficou imóvel por alguns segundos. Saiu de cima do morto e pegou a katana, rasgando um pedaço da roupa dele para enfaixar a mão que seguraria o cabo da espada.
Olhou o cadáver. Não deveria ser muito pesado para ela carregar. Arrastou-o dali e abriu a porta do quarto, ficando de frente com mais um dos atacantes.
–Você é a...! - foi atingido por uma cabeçada que o deixou atordoado. Kanna chocou a cabeça do morto com a do outro ninja e o deixou atordoado.
Resmungando alguma coisa, ele a fez largar o corpo – puxando-o violentamente pelos cabelos - e o jogou longe, desviando-se agilmente dos golpes que ela investia contra ele – um pela direita, outro mirando a cabeça, um golpe visando o pescoço, um no coração.
–Ninja também? – ele sacou a espada e atacava-a nos mesmos pontos que ela tentara antes, com a diferença que também usava a bainha como arma.
Kanna sentiu uma corda passar no pescoço e começar a apertar, notando a presença de mais um invasor. A mão direita segurava a katana a afastava por alguns centímetros da outra, a esquerda tentava evitar que se sufocasse.
Fazendo um esforço sobre-humano, ela empurrou o corpo para trás e saltou por cima do agressor que o sufocava no momento em que o outro avançou para que este recebesse o golpe no peito, o que o matou na hora.
Rapidamente pegou a corda que não mais a prendia e correu para fora do apartamento, perseguida pelo outro.
O rapaz pôs os pés no longo e largo corredor e olhou para os dois lados e para cima. Ofegante, ele olhava as escadas em caracol do prédio à esquerda.
Nada.
Olhou na direção do elevador à direita.
Nem sinal.
Aquela garota era tão pequena, realmente usava aquilo como vantagem. Quem poderia imaginar que alguém como ela seria tão habilidosa?
Ao se aproximar da escada, sentiu alguém respirando. Ficou em alerta e parado, apenas tentando prever de onde viria o ataque.
–Tá fazendo o que aí? –o líder o assustou ao perguntar atrás dele.
O outro sufocou um grito de susto.
Respirando fundo, ele virou-se. Estava visivelmente nervoso.
–Onde cê tava, cara? Aquela garota matou Kuro e Masamu!
Aquela informação fez com que o líder do bando invasor estreitasse os olhos.
–Aquela menina? Mas ela nem tem cara de...
–Ela sabe lutar... e muito bem. E ninguém nos falou disso!
O chefe ficou um pouco... surpreso com tantas informações inéditas.
–Eu vou ligar agora pra saber disso... - ele procurou pelo celular nos bolsos das roupas escuras – O quarto das crianças tá trancado e alguém tem que abrir aquela porra sem acordar os vizinhos.
–Vai ligar. – o outro coçava o braço num cacoete nervoso – Vou cuidar dela. Depois a gente vê aqueles dois. É só pra levar, né?
Ambos concordaram com um aceno de cabeça. Um foi para dentro da casa para ligar e o outro aproximou-se cautelosamente das escadas. Nada de movimentos rápidos, já dizia o mestre dele. O adversário não precisava saber que ele estava preocupado, o que estava sentindo, o que pensava.
Olhou os degraus que levavam ao andar de baixo. Nada. Nem sinal de que havia alguém.
Um ruído atrás dele o fez virar-se.
Nada. Parecia que aquela vaca brincava com ele. Maldita.
Os sentidos dele ficaram em alerta e alguma coisa disse a ele para se afastar das escadas. Deu um passo para trás, deu outro e... Olhou para cima.
Para surpresa dele, Kanna pulou do andar de cima com as mãos estendidas para agarrá-lo, como um gato faz para pegar uma presa. Na mão dela, estava a corda que usaram para tentar matá-la.
Um grito soou no prédio e alguns moradores abriram as portas para verem o que os acordara. A primeira a gritar foi uma mulher de meia-idade ao ver o corpo de um homem enforcado no meio do corredor.
No alto do prédio, o líder dos invasores gritava ao telefone:
–Você sabia disso, não é?!
–Do quê? – a outra pessoa, um homem, perguntou com uma inocência forçada.
–Sabia que tinha alguém aqui que podia nos matar!
Ouviu, do outro lado, a pessoa começar a rir.
–Qual é a graça, palhaço?!
–Então tinha mesmo alguém protegendo os moleques? Eu só suspeitava, mas... Obrigado por confirmar.
–Suikotsu... – ele enfatizou a raiva na voz, arregalando os olhos ao escutar os alarmes da polícia. Aproximou-se da beirada e viu os carros dobrando a esquina da rua. Tinha que dar um jeito de sair dali antes que...
O pensamento foi interrompido. Aliás, tudo mais que ele sentia parou. Recebera um empurrão de costas e caíra do prédio, numa queda que durou apenas um ou dois segundos. O celular ficou em pedaços no chão, misturado ao sangue dele.
No alto, Kanna olhava o corpo como uma mensageira da morte. O vento frio da noite norueguesa soprava forte no corpo dela, agitando o tecido do roupão. Viu os carros da polícia e decidiu voltar ao apartamento antes que a vissem ali. Jogou fora, durante o caminho, o pedaço de tecido e o corda que pegara dos adversários.
Era uma verdadeira vantagem ter um perfil pequeno e discreto. Conseguiu passar disfarçadamente pela confusão que reinava nos corredores do prédio e entrar novamente no apartamento. Ela ia ter que chamar a polícia por conta dos corpos. Eles haviam invadido o local e se mataram, afinal de contas.
A prioridade agora era cuidar das crianças, tirá-las do armário e acalmá-las. Depois disso, precisava falar com a líder dela.
Mas, para falar com a líder, teria que antes falar com ele.
E já sabia que a conversa não seria boa.
Tokyo, Japão.
Henrik Hakudoushi Skaargård Akai estava absorto na leitura de documentos importantes durante uma manhã nublada na capital. Sentado à mesa do escritório que ocupava na casa da família Akai, ele balançava a caneta enquanto franzia a testa uma vez e outra na leitura. O dinheiro doado por Shiroi Rin ajudaria bastante numa pesquisa para tratamento de câncer realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Tokyo. Mas havia outros projetos e pesquisas que a Universidade desenvolvia, e ele precisava decidir qual ou quais eram de maior urgência.
Alguém bateu à porta e ele precisou deixar a leitura de lado.
–Entre. – falou.
A porta deslizou e Sesshoumaru apareceu, segurando um papel ao ficar, de pé, na frente do primo.
–O que foi? – Hakudoushi perguntou logo ao vê-lo intrigado.
–Vi o que você pôs para descontar no imposto de renda.
–Oh? – Hakudoushi arqueou as sobrancelhas.
Sesshoumaru jogou o papel na mesa.
–O que é isso em "educação"? – ele perguntou, estreitando de leve os olhos ao ver o médico entreabrir os lábios de surpresa.
–Bem... – Hakudoushi pegou o papel e leu os itens – Escola, curso de línguas estrangeiras, gastos no exterior... – ele franziu a testa levemente e baixou o papel – Eu acredito que isso não é de graça e que devemos declarar na nossa renda.
O líder arqueou as sobrancelhas.
–O quê? – o primo perguntou inocentemente – Não devemos, então?
–Gastos escolares de quem, Hakudoushi? De alguma criança?
Ficaram em silêncio.
–Você não está escondendo algo, não é... Hakudoushi? – Sesshoumaru perguntou com frieza.
–Se eu estivesse, não teria colocado nada disso aí. – o outro explicou com um sorriso – Tenho familiares na Noruega, esqueceu? Só que as coisas estão caras por lá e tenho que usar parte do dinheiro da família para pagar a educação e despesas extras de algumas crianças.
Sesshoumaru não tirou os olhos dele:
–Você tem filhos por lá?
O médico teve vontade de rir, mas controlou-se.
–Não. Eles não são meus filhos. Mas pago a educação deles... Sou o único da família que pode, financeiramente falando.
–E vai precisar de um aumento no que recebe?
–Não é necessário. – a ideia pareceu desagradá-lo – O dinheiro é suficiente... Viver por lá está caro demais... E gastei bastante com último período por causa das férias escolares.
Outra pessoa bateu e Hakudoushi escutou Jaken falar:
–Uma ligação da Noruega para o sssenhor.
Sesshoumaru notou o modo como Hakudoushi se... perturbou ao receber a notícia. A testa franzida e o modo como umedecera os lábios... Se prestasse mais atenção, poderia notar gotas de suor no rosto dele.
Para aumentar a apreensão que o médico tentava disfarçar, Miroku entrou sem bater e fez continência ao tomar a liberdade de puxar uma cadeira para sentar sem ser convidado:
–Bom dia a todos. – pôs o pé em cima da mesa como se fosse escritório dele – À que horas vamos sair?
Hakudoushi continuava parado, piscando aos dois. A mão hesitava em pegar o telefone para atender e Sesshoumaru percebeu isso.
–Não vai atender, Hakudoushi? – ele perguntou calmamente.
–Vocês não vão sair?
Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas, mas permaneceu no lugar. Miroku quis se levantar, mas o líder fez com que sentasse novamente ao pousar a mão no ombro dele.
–Por que deveríamos sair? – Sesshoumaru perguntou – Tem vergonha de falar com a sua outra família?
Hakudoushi estreitou os olhos, encarando Sesshoumaru. Não quebrou aquele olhar mesmo ao pegar o fone lentamente, começando em norueguês:
–Hei, det er Henrik.
–Fomos atacados durante a noite. A polícia ainda está aqui. – Kanna falava em japonês – Eu matei todos.
Hakudoushi arregalou os olhos de leve e, perturbado, quase derrubou um porta-retratos com a foto da mãe de cima da mesa. O objeto só não caiu porque a mão habilidosa de Sesshoumaru o salvou da queda.
O médico segurou o olhar do primo por segundos antes de virar a cadeira e ficar de costas para os dois que estavam ali:
–Unnskyld?
–Eu acho legal quando ele fala assim. – Miroku comentou enquanto brincava com alguns pesos de papel do primo, colocando o pé novamente na ponta da mesa – Parece mesmo um estrangeiro.
–Eles vieram atrás das crianças. – Kanna explicou, olhando de soslaio os policiais que trabalhavam na sala, uma parte dos cenários investigados – Eu falei que nos trancamos no quarto assim que percebemos que queriam nos assaltar. Para eles, eram só ladrões que brigaram entre si.
–O que mais aconteceu? – ele perguntou em norueguês.
–Não suspeitam de nós, mas não podemos sair daqui até as investigações acabarem. As crianças estão bem, só ficaram um pouco assustadas. Eles nem chegaram perto delas.
O olhar de Hakudoushi se concentrou em um livro qualquer da estante.
–Hva skjedde da? Hvordan kom de?
–Nós fomos a Bergen ontem. Eles já estavam na frente do prédio. As crianças já estavam no quarto quando Teru-kun os viu pela janela depois que Akiko escutou um barulho. Eles entraram pela sala e pelo meu quarto. – ela viu o modo como um policial tentava distrair as crianças durante a investigação, enquanto outro tirava impressões digitais da maçaneta – O último que matei falou o nome de uma pessoa ao celular.
–Hvilket navn?
–"Suikotsu".
Hakudoushi apertou a região entre os olhos por um segundo, depois os estreitou numa ameaça:
–Jeg vil at dere tre kommer derfra med en gang. Gå på det første flyet til Japan.
–Não podemos viajar hoje. – Kanna parecia a figura da tranquilidade diante do óbvio nervosismo do médico – Vamos ainda colaborar com a polícia. Kikyo-sa...
–Kom deg ut derifra. I dag nå.
–Preciso avisar Kikyo-sama sobre...
–Nei. – Hakudoushi negou com veemência – Jeg vil snakke med henne.
–Eu não obedeço às suas ordens. Minha líder é Kikyo-sama. – Kanna o contrariou, a voz soando mais fria. – E ela precisa saber o que aconteceu com eles.
–Por favor – ele repetiu do outro lado, ainda em língua estrangeira – Eu falo com ela pessoalmente.
Kanna ficou em silêncio, depois olhou de novo os policiais trabalhando.
–Vou ligar para avisar sobre o voo. E se mais alguma coisa acontecer. Só quem não vai gostar é Teru. Nós íamos para Copenhague na semana que vem.
Hakudoushi fechou os olhos e pareceu mais aliviado, como se fosse a primeira vez em anos.
–Tusen takk.– ele agradeceu e desligou.
Foi só então que o médico virou a cadeira e lembrou que não estava sozinho. Sesshoumaru o olhava curiosamente, Miroku ainda brincava com os enfeites da mesa dele.
–Aconteceu alguma coisa? – o líder perguntou.
–Hmm... – pigarreou – Um primo de segundo grau se meteu numa confusão e está preso. Disse a minha tia que contratasse um advogado que eu pagaria.
–Sério? – Miroku arregalou os olhos e colocou os enfeites na mesa – O que ele fez?
Miroku miserável, Hakudoushi o xingou mentalmente. Não esperava uma pergunta dessas... principalmente feita por ele.
–Ele... Hmm... Saiu de um restaurante sem pagar a conta.
–Caramba... – Miroku colocou os braços atrás da cabeça – Prendem pessoas na Noruega se não pagarem a conta?
Hakudoushi contava até dez para não se impacientar com os inconvenientes comentários do primo, optando por perguntar:
–O que veio fazer aqui, afinal?
–Ué... – Miroku piscou e olhou Sesshoumaru – Eu vim perguntar à que horas vamos sair. Inuyasha já foi pra lá com Kagome-sama e Shippou.
Hakudoushi ergueu uma sobrancelha sem entender e Sesshoumaru limpou a garganta antes de explicar:
–Não é hoje a comemoração das bodas do Imperador no Templo Higurashi? Caso não lembre, fomos convidados pela parte de Kikyo.
Não que Hakudoushi tivesse esquecido... As notícias que recebera antes o impediam de organizar coerentemente a agenda mental. Mas aquilo era muito bom: teria uma oportunidade de falar com Kikyo sem precisar ligar antes para marcar um encontro num lugar longe da residência e sem que Sesshoumaru descobrisse.
–Que tal às sete horas? – Hakudoushi sugeriu.
Oslo, Noruega
O dia amanhecia na capital. No bairro de Akker Brygge, os moradores de um prédio ainda tentavam entender o que havia acontecido de madrugada. Os crimes cometidos por alguns delinquentes não eram, entretanto, motivos suficientes para que as crianças faltassem à escola durante os cursos de férias.
–Eu não entendo! – Teru reclamava irritado enquanto amarrava os cadarços – O crime foi aqui! Quebraram nossa janela, o meu taco, sujaram o chão... A gente podia dizer que... que... Estamos assustados ainda!
–Estão? – Kanna perguntou sem muito interesse. A pergunta foi feita à mesa, quando Akiko cantarolava uma canção qualquer enquanto comia uma tigela inteira de arroz sem maiores preocupações.
–Aki... – Teru baixou a cabeça desolado.
–Vocês não podem faltar. – Kanna advertiu – Não ficará ninguém aqui hoje. Passarei o dia fora para resolver alguns assuntos de viagem.
– "Assuntos de viagem"? – aquilo chamou a atenção do menino – Ué... Mas a nossa viagem pra Copenhague já não tá resolvida?
–Não iremos mais. – Kanna anunciou.
O arroz parou centímetros antes de entrar na boca de Akiko e escorregou da colher, mostrando o choque da menina. Teru pareceu ter parado de respirar por um instante, gaguejando:
–M-Mas... N-Nós...
–Não iremos mais a Copenhague.
–Por quê?! – Teru se exaltou e estava prestes a começar uma enorme birra– Há um mês estamos falando nessa viagem, planejando cada detalhe! Por que isso agora?
Kanna não respondeu. Estava à pia, cortando alguns legumes para o almoço e não parecia comovida ou com vontade de replicar, limitando-se a um comentário:
–Hakudoushi-sama falou para cancelar.
–Isso não é justo! – Akiko protestou, caindo no choro.
–Ele não vem aqui há meses! Só telefona uma vez por semana! – Teru fechava os punhos irritado, levantando ainda mais a voz – O que ele sabe da nossa vontade em ir pra Copenhague?
Kanna virou-se para falar calmamente, contrastando com o tom que o garoto usava:
–Não vamos mais porque voltaremos ao Japão. Comprarei as passagens hoje no primeiro voo que tiver vagas. É melhor que comecem a arrumar as malas. Talvez nossa viagem seja amanhã. Se tivermos tempos, podemos voltar mais tarde ao Fish Market para comprarmos algumas lembranças.
As crianças piscaram e Teru até deu um passo para trás de tão surpreso que ficou. Ambos trocaram olhares até um sorriso se formar nos lábios de Akiko, que resultou num grito de alegria quando a garota pulou da cadeira para abraçar o irmão.
–Vamos voltar, Aki! Vamos voltar ao Japão!– ele segurava as mãos da irmã e começaram a pular.
Kanna voltou a cortar os legumes enquanto os dois ainda comemoravam. Era melhor que se animassem mesmo com aquela notícia e esquecessem o que aconteceu durante a madrugada... assim como esqueceram o que aconteceu em outra noite há alguns anos.
Tokyo, Japão
Rin andava pelos corredores da mansão à procura de Kagome, mas logo desistiu da ideia depois de dez minutos de buscas. Lembrou-se de um comentário dela a respeito de uma festa na casa da família Higurashi... Com certeza ela tinha ido com o marido e Shippou para lá. Tinha sido convidada por ela também, mas só iria se Sesshoumaru também tivesse sido.
Percebeu, ao procurar pelo líder da família, que estava numa parte que nunca andara pela mansão: o corredor que levava à sala de treinamento. Shippou já havia comentado diversas vezes sobre aquele local onde Inuyasha, Miroku e mesmo Sango treinavam à exaustão.
Será que Sesshoumaru estava lá...?
Andou ela até a grande porta deslizante, abrindo uma fresta. Ficou surpresa ao ver apenas Miroku, ele sentado em um banco de hakama e de costas para ela. A tatuagem do cão demoníaco era parecida com a de Sesshoumaru, mas ficava apenas nas costas, pegando quase metade dela.
O rapaz pareceu sentir a presença dela e virou o rosto:
–Ah, senhorita Rin! – deu um sorriso muito simpático – Prazer em vê-la por estas bandas.
Rin deu um meio sorriso. Não tinha muita intimidade em conversar com ele... Pensando bem, as únicas pessoas com quem conversava era Sesshoumaru, Kagome e Shippou. Ah, Hakudoushi também, quando não estava falando para ela tomar um remédio ou outro.
–Quer entrar? – ele perguntou – Sesshoumaru disse que viria pra cá.
–É? – ela piscou e deu um sorriso educado – Não vou atrapalhar?
–De modo algum. – ele se levantou da banqueta e foi só então que ficaram frente a frente.
O coração dela deu um salto ao vê-lo segurando aquela... Aquela automática. Estava carregando-a com a maior naturalidade, manuseando-a como um brinquedo.
Miroku não notou a apreensão dela e colocou a arma na cintura do hakama, indo a uma estante para pegar uma alpercata para que ela usasse quando subisse no tatame.
–Melhor usar isso. Pode esperar por ele naquele banco. – apontou para o móvel encostado a uma parede e estendeu a mão para que ela subisse.
Depois de calçar as alpercatas e de se sentar, Rin ficou em silêncio, apenas observando aquele primo de Sesshoumaru, o primeiro contato dela na capital depois de voltar de Osaka.
Ficaram o silêncio o tempo todo. Ele voltara a sentar e carregava outra arma, observando os detalhes dela depois de repor o cartucho.
–Por quê? – Rin perguntou repentinamente num sussurro e ele a olhou, sem compreender.
–Falou alguma coisa, Rin-sama?
–Por que pra vocês é tão fácil segurar essas coisas? – ela baixou o rosto.
Miroku só entendeu o que era o "essas coisas" quando olhou a arma em mãos. Piscou algumas vezes e coçou a cabeça, dando um suspiro.
–É preciso se acostumar.
–Por quê? – ela perguntou de novo.
–Porque isso – ele segurou a automática na palma da mão – não é mais forte que nós. - jogou-a e pegou-a rapidamente no ar, segurando-a corretamente para fazer a mira num ponto da sala – Não podemos ter medo dela. Somos mais fortes e inteligentes que isso.
O rapaz deu um sorriso e levantou-se, caminhando até ela para sentar-se no chão, perto do banco, ficando de frente para ela:
–Eu levava muito na brincadeira essa vida na yakuza. – o sorriso dele parecia de um garotinho – Só percebi que o negócio era sério quando um amigo meu morreu... Então eu percebi que nada era uma brincadeira e que eu tinha que ser mais forte que a outra pessoa que apontasse uma arma pra mim. Que... – o rosto dele iluminou-se com um sorriso – Que eu preciso ser mais forte que isso... – mostrou a arma - Pra proteger alguém.
–É? – ela estreitou os olhos de leve e sem malícia, como se refletisse sobre o que falou. Ela sempre via aquilo como algo maligno. Sempre foi usado para ferir alguém.
–Todo mundo tem, né? – ele alargou ainda mais o sorriso – Inclusive Sesshoumaru.
Os dois olharam em direção da porta ao escutarem a madeira deslizar: Sesshoumaru e Sango haviam chegado. O líder olhava a garota com curioso interesse, imaginando o porquê de Rin estar conversando com Miroku.
–Ah... apareceram. – Miroku se levantou e Rin fez o mesmo, curvando-se educadamente para saudar os outros dois – Achei que ficaria entretendo a senhorita Rin até a hora de nos arrumarmos pra festa do nosso Imperador.
–E o que define como "entreter"? – Sango evidenciava o sarcasmo na voz – Conversar a respeito dos seus casos?
–Bem... – ele deu de ombros – Às vezes, eu acho bastante divertido ouvir.
Miroku começou a correr pela sala para fugir de Sango, dando risadas da situação enquanto escapava das as mãos contorcidas dela que queriam esganá-lo.
Aproveitando que os dois estavam longe, Sesshoumaru começou a conversar com Rin:
–O que veio fazer aqui?
–Eu estava procurando por você... – ela se balançava na ponta dos pés – Kagome-sama me convidou pra uma festa... E Shippou falou que lá será divertido. Eu queria ir, sabe?
–Nós iremos juntos. – ele anunciou logo – Eu esqueci de avisá-la. Você pode ficar pronta às sete?
–Certo. – ela concordou com a cabeça, dando um sorriso ao ver como Miroku fazia o possível para escapar das mãos de Sango.
Desde que revelara como realmente se sentia a Sesshoumaru, há alguns dias, Rin sentia o coração mais leve e tentava esquecer tudo mais que poderia preocupá-la lá fora.
E nem mesmo Bankotsu tiraria a tranquilidade dela agora.
Casa da Família Higurashi – Templo Xintoísta Higurashi
O relógio de Hakudoushi marcava quase oito horas da noite. Havia ele chegado com os familiares há mais de meia hora e não encontrara Kikyo. Ela ainda não sabia o que acontecera, porque, caso contrário, ela já o teria procurado ou mesmo cancelado a própria presença na festa só para pegar o primeiro avião à Europa.
Deu um suspiro e observou a decoração da sala de estar da mansão Higurashi. A última vez que estivera ali foi durante o casamento de Inuyasha e Kagome – ela já grávida durante a cerimônia.
Havia pedido a Shippou para procurá-la, mas, como sempre pode acontecer, o garoto sumiu. Com certeza se distraíra com alguma coisa... Ele provavelmente estaria aproveitando o tempo disponível para brincar antes de Kikyo mandá-lo se retirar quando desse o horário de dormir, o que aconteceria em pouco tempo.
–Ei... Tá perdido? – escutou Inuyasha zombar. O médico virou-se e viu o primo acompanhado da esposa.
–Ora... – Kagome, trajando um elegante quimono escuro com estampas de camélias vermelhas, levou a mão direita graciosamente aos lábios para esconder o sorriso – Eu nunca mais tinha te visto tão elegante assim.
Hakudoushi ergueu uma sobrancelha. Era evidente que ela falava a respeito da roupa social dele – um terno azul marinho, camisa lavanda, gravata roxa.
–Shippou não estava com vocês? – Hakudoushi mudou de assunto, olhando ao redor.
–Ele está roubando comida pra mim. – Kagome encostou a cabeça no braço do marido e sorriu.
–É só para isso que usa o seu filho, Kagome? – o médico tinha o ar calmo, escondendo as mãos nos bolsos.
–Claro que não. Ele também rouba os chocolates de Miroku no quarto de Sesshoumaru. – ela empinou o nariz.
–Ele só pode ficar até às dez. – Inuyasha explicou – Horário estabelecido por Kikyo.
Então Shippou havia mesmo se desviado da missão. Era melhor agora ser direto:
–Vocês viram Kikyo por aí? – perguntou.
Kagome e Inuyasha se entreolharam.
O lugar da festa era o amplo salão da mansão Higurashi, atrás de um antigo e bem conservado templo xintoísta, uma atração aos turistas e aberto aos eventos sociais em nome do Imperador. A família Higurashi tinha prestígio religioso no país, tanto que o casamento da única filha do antigo Imperador ocorrera lá.
Fora da casa e do templo, havia uma área aberta aos visitantes: o jardim. Naquela noite, o local estava com um caminho aberto na neve. Fazia ainda frio e era bem melhor ficar na festa para se manter aquecido.
O único motivo que obrigava a Hakudoushi a estar naquele jardim era a mulher que conversava longe dos outros, perto das escadas do templo, com um homem que ele conhecia apenas de vista.
Kikyo usava um quimono azul marinho, com bainha, obi e afins brancos. O cabelo estava preso no alto num coque com um hashi e a pele clara chamava atenção no lugar iluminado pelas fracas luzes amarelas dos postes do templo.
A líder da família Higurashi conversava ali sozinha, sem a guarda pessoal, com Naraku Onigumo.
Era tão curioso que ela estivesse com ele... Hakudoushi só o conhecia de vista e nem sabia que os dois se falavam. Ficou um pouco longe, num ponto no qual podia ver fracamente as silhuetas deles. Esperaria pacientemente até que acabassem, nem que tivesse que aguentar o frio até a hora do discurso do Imperador.
Claro que aguentaria. Ele já havia passado por temperaturas extremas na Noruega.
Porém, não ficou naquela posição – as costas descansando contra o tronco da árvore sagrada do local, braços cruzados e cabeça erguida a olhar o céu – por mais de dez minutos.
–Hakudoushi? – escutou Kikyo chamá-lo. Ela e Naraku estavam observando-o daquela distância e tomaram a iniciativa de aproximação.
–Ah, desculpem... – o médico começou quando eles já estavam perto o bastante – Não tive a intenção de espioná-los. Só estava aguardando para conversar com você, Kikyo.
O casal ficou em silêncio. Nenhum deles parecia aborrecido ou constrangido com a presença de Hakudoushi. Simplesmente Naraku se voltou para ela e falou:
–Vou entrar. Está frio aqui.
Kikyo concordou com a cabeça e viu o também mafioso tomar o caminho do jardim para voltar à mansão. Foi tão discreto que o médico parecia não ter notado que estava sozinho com a líder da família Higurashi.
–Hakudoushi... – a voz dela era suave, livre da ironia que quase sempre a carregava – Naraku já foi embora.
Baixou ele o rosto e a olhava com calma.
–Desculpe... Eu estava pensando em como falar algumas coisas.
–Já conseguiu? – ela aproximou-se dele, unindo as mãos em frente ao corpo. Era uma das únicas vezes que Kikyo parecia uma pessoa normal, como se fosse apenas uma jovem comum e sem qualquer interesse por negócios obscuros.
–Ainda não. – ele deu um meio-sorriso e fechou os olhos – Não sabia que vocês eram amigos.
–"Vocês"? – ela arqueou uma sobrancelha.
–Naraku Onigumo... e você. – Hakudoushi endireitou a coluna e descruzou os braços, aproximando-se dela. Kikyo ficou calada, preferindo olhar algumas estátuas cobertas de neve perto deles.
Ficaram frente a frente. Ele era um pouco mais alto e precisava baixar o rosto; ela olhava sem muito interesse os pés.
–Preciso conversar com você. – ele sussurrou num pedido muito educado – Podemos ir ao seu escritório?
–Claro... Aproveito e pego um cigarro lá. – ela ignorou o olhar de aviso dele quando começaram a caminhar à mansão – Com Kagome aqui, não pude nem fumar hoje. Inuyasha ficava andando de lá pra cá com ansiedade.
–Foi muito adequado de sua parte. – Hakudoushi ainda estreitava os olhos, mas ela se negava a olhá-lo por orgulho – O correto seria não fumar mais.
Kikyo zombou discretamente e permitiu-se sorrir. Ele não se cansaria em dizer a mesma coisa até que ela largasse o vício. Andavam num passo lento, não tendo pressa em chegar ao destino.
Pararam por um momento quando um floco de neve caiu na frente deles e outro parou no ombro direito dela.
–Ainda vai nevar hoje? – ela indagou mais para si que para ele, unindo as mãos para pegar mais um floco que caía – Já fez tanto frio hoje à tarde...
Sentiu uma habilidosa mão limpando a sujeira do quimono, erguendo o rosto para encontrar olhar sereno dele.
–Kikyo... – Hakudoushi começou na mesma voz suave e calma que só ele sabia quando usar com ela – Elas foram atacadas...
Em muitos anos, foi a primeira vez que Hakudoushi viu Kikyo arregalar os frios e sempre sérios olhos castanhos e ficar realmente assustada.
Próximo capítulo:
"–E quando você pretendia me contar isso, Hakudoushi?"
"–Meu pai escreveu uma vez para eu não confiar naquela família."
"–Não solte minha mão, Rin."
Capítulo 17: Tempo para ficar com medo.
