Nota: Este capítulo também pode ser chamado "Tempo para Fofocar".


Disclaimer: "Inuyasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.

A cor do dinheiro

Capítulo 17: Tempo para ficar com medo

Para Lan Ayath

Ficar dentro da mansão Higurashi era a melhor opção aos convidados mais sensíveis ao frio. O evento estava acolhedor: as pessoas conversavam animadas, o sake aquecia o espírito, os casos eram sussurrados ao ouvido de um e outro.

Passando pela multidão apressadamente, quase perdendo a elegância que sempre demonstrava em eventos sociais, a dona da mansão, Higurashi Kikyo, dirigia-se ao escritório. Quem a seguia de perto era um médico famoso na capital, Akai Hakudoushi.

Kikyo, deixe-me terminar de contar! – ele falou num tom de sussurro quando subiam as escadas ao mesmo tempo.

A jovem líder o ignorou e entrou no escritório, dirigindo-se ao telefone. Tirou-o do gancho e ligou para alguém.

Não conseguiu, porém, completar o que fazia: Hakudoushi desconectou o telefone da tomada.

Coloque esse fio no lugar, Hakudoushi. – a voz dela estava carregada de ameaça.

Não seja inconsequente, Kikyo. – o médico tentou tirar-lhe o telefone das mãos – Eu já resolvi tudo. Deixe-me explicar o que houve.

Kikyo estreitava os olhos para intimidá-lo. As mãos de ambos se tocavam enquanto seguravam o telefone. Cedendo ao pedido, ela desfez o contato e cruzou os braços, esperando as explicações. Hakudoushi ficou de costas para ela, com as mãos apoiadas na mesa depois de pôr novamente o telefone no gancho.

Kanna ligou hoje de manhã avisando que invadiram o apartamento para atacá-los. – a voz dele estava calma, apesar da situação ser diferente – Estavam atrás deles, mas ela os matou.

O olhar de Kikyo mirava as costas dele como se quisesse fuzilá-lo.

À que horas ela ligou?

Por volta de nove da manhã. – ele fechou os olhos, imaginando o rumo da conversa.

E que horas são agora?

Não quis olhar o relógio, mas ele tentou acertar:

Acho que já passam das nove da noite.

E quando você pretendia me contar isso, Hakudoushi? – ela se irritou – Por que nem mesmo Kanna me ligou?

Eu pedi que ela não fizesse isso. – ele se virou e encostou-se na mesa, cruzando os braços – Ela falou que seguia somente as suas ordens, mas eu pedi que não contasse porque eu queria fazer isso.

Ambos ficaram num silêncio que chegava a incomodar, não desencontrando os olhares.

Já descobriu quem mandou fazer isso?

Por quê? – ele ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

Como "por quê"? Para matar a pessoa. Ou matá-los, se for o caso.

Elas já estão bem, Kikyo. – ele insistiu – O caso já foi até resolvido por lá. A polícia pensa que eram apenas uns delinquentes.

Mas você sabe foi, não?

O jovem deu um suspiro cansado. Ela descobriria de qualquer forma, não? Então seria melhor que ele desse a notícia em primeira mão.

"Suikotsu". – falou de um fôlego só.

Desta vez, Kikyo pegou o celular para ligar para a guarda pessoal, mas ele afastou o aparelho da orelha dela.

Hakudoushi... – ela rangia os dentes – Eu tenho que ligar agora para alguém matar esse tal de Suikotsu!

"Tal de Suikotsu"? – ele repetiu e estreitou os olhos – Não reconhece o nome?

O rosto dela não expressou emoções; também não respondeu. Não, ela não conhecia.

O nome do irmão de Rin é "Bankotsu"; o pai dela se chamava "Sankotsu". Suikotsu é da família Shiroi.

Ótimo. – ela deu de ombro – Mais um motivo para matá-lo.

Ficou maluca? Sesshoumaru concordou em não atacar por dois meses!

Meu pai escreveu uma vez para eu não confiar naquela família. – Kikyo deixou o celular na mão dele e deu a volta na mesa, abrindo as gavetas até encontrar um maço de cigarros.

Rin faz parte dela, esqueceu?

Kikyo pôs um cigarro na boca e o acendeu com um isqueiro que tinha um ideograma do nome dela.

"Sem exceções". – ela completou, dando uma baforada.

Hakudoushi estreitou os olhos.

O que foi? – ela ironizou – Ficou muito amiguinho dela, é?

Shiroi Rin tem a mesma confiança que Sesshoumaru deposita em mim. – ele retirou o cigarro educadamente dos dedos da líder e o apagou em um cinzeiro próximo – E não vai demorar muito para que se torne a segunda esposa do meu primo e tenha "Akai" no nome dela.

Ficaram de novo calados, olhando as feições de cada um no escritório iluminado apenas pela fraca lâmpada da mesa.

Eu já resolvi tudo. – ele reassegurou, tirando também o isqueiro que ainda estava nas mãos dela – Eles não ficarão por lá enquanto estivermos aqui.

Oh? – ela inclinou o rosto para o lado – E para onde eles vão agora?

Hakudoushi a encarou serenamente, esperando que, pelo silêncio, a líder compreendesse.

Eles vão voltar? – ela franziu a testa preocupada, a voz saía num sussurro –... Para Tokyo?

Não. – ele balançou a cabeça – Ficarão em outra cidade. Estou esperando Kanna ligar para avisar quando é o voo deles. Vão para um casa que temos em Sakai.

E por que lá? – ela arqueou as sobrancelhas.

Sesshoumaru nem se lembra que essa casa ainda existe. Ele e Rin vão passar alguns dias fora; vão para Gifu, Nagano e Shizuoka.

O quê? – ela sorriu divertidamente – Eles não conhecem o Japão ainda?

Viu-o estreitar os olhos novamente. Não era momento para essas brincadeiras.

Tudo bem... – ela cruzou os braços e fechou os olhos – Eles vão para Sakai... E quando vamos para lá?

Hakudoushi desviou o olhar para os livros da estante dela.

Você vai. Com a viagem, Sesshoumaru me colocou no lugar dele para resolver alguns negócios.

Kikyo estreitou ainda mais os olhos castanhos.

Eu não tenho culpa. Não posso sair daqui tão de repente. Sesshoumaru ficaria desconfiado.

Viu-a desviar o olhar para o lado e coçar a cabeça. Era óbvio que não gostara da ideia.

Certo... – ela suspirou, derrotada – Eu vou a Sakai para cuidar deles.

Acredite, eu gostaria de ir. – ele falava suavemente – Mas tia Izayoi está piorando e Kagome está com a gravidez muito avançada. Os exames são mais frequentes nessa fase.

Eu imaginei isso. – ela deixou os braços caírem em desalento pelos lados do esbelto corpo e suspirou – Não tem problema, posso ir sozinha.

Eu passarei um dia lá. – ele ficou próximo a ela – Vou conversar com tia Izayoi... Só preciso ter certeza de que ela não precisará de mim.

Eu já disse que posso ir. – ela foi à janela para ajeitar como podia o cabelo pelo reflexo no vidro – Vou voltar à festa.

Kikyo...

Ligarei para Kanna para saber se eles precisam de alguma coisa antes da viagem. – ela desprendeu alguns fios de cabelo dos brincos antes de dar as costas ao médico, afastando-se para chegar à porta.

Escute...

Ligo quando eu estiver por lá.

Ao abrir a porta, entretanto, prendeu a respiração quando viu o braço de Hakudoushi passar pelo lado do rosto para fechar a abertura com violência.

Ficaram os dois em silêncio. Ele, atrás dela e com o braço segurando a porta, os olhos lilases brilhando ameaçadoramente; ela, de costas para ele e olhando a maçaneta.

Eu já falei que eu odeio quando dá as costas quando estou falando. – ele sussurrou num aviso.

Mais silêncio se fez até ela se virar e erguer um pouco o rosto para que ele percebesse um brilho de raiva nos olhos, repetindo numa voz pausadamente fria:

Eu ligarei para você quando eu estiver em Sakai.

Aquilo fez com que ele relaxasse o braço e a deixasse abrir a porta. Kikyo aproveitou o momento e nem ao menos trancou o escritório, deixando Hakudoushi parado ali para observá-la andar pelo corredor da mansão e descer as escadas para voltar à festa.

Aquilo tinha sido apenas um aviso contido nas entrelinhas: "não me procure enquanto isso". E ele entendera.

Na ampla sala, as pessoas estavam com a expectativa da aparição do novo Imperador e a esposa. Apenas algumas pessoas - todos os primos de Hakudoushi e também Shippou, Kagome, Sango e Rin - notaram a rápida passagem de uma Kikyo mal-humorada pelos salões, cuja figura desapareceu na multidão.

O que deu nela? – Miroku perguntou, tomando alguns goles de sake. Ao lado dele, Sango piscava curiosamente.

Eu acho que vi Hakudoushi subindo com ela. – Inuyasha comentou ao lado de Kagome, Shippou agarrado às pernas dele.

Ele deve ter falado sobre o primo que foi preso na Europa por não pagar a conta. – Miroku deu de ombros – Aí ela ficou brava por coisas assim acontecerem em outros países.

Prendem pessoas no se não pagarem uma conta? – Inuyasha ficou impressionado.

Ela vai ficar assim o resto da noite, eu acho. – Kagome forçou um sorriso por causa dos modos da irmã e coçou graciosamente um lado do rosto.

Isso significa que eu posso ficar aqui? – o menor perguntou.

Não. – os quatro falaram ao mesmo tempo.

Em silêncio, Rin escondia graciosamente um pequeno sorriso atrás dos dedos. Hakudoushi e Kikyo poderiam ser...? Mas eles nem se falavam tanto...!

A mão de Sesshoumaru passou pelas costas dela e a tirou daqueles pensamentos. O corpo dela estava ainda mais perto do dele.

No que está pensando? – ele quis saber.

Hmm... – ela olhou os parentes dele e deu a entender que não queria conversar perto deles, o que o ele compreendeu.

Afastaram-se um pouco e ficaram perto do tapete por onde passaria, depois, o Imperador.

Aqui é melhor para ver uma pessoa. – ele comentou despreocupadamente, virando o rosto para ela – No que estava pensando tanto que a fez sorrir?

Ah... – então ele notara. Será que ela tinha chamado tanto assim a atenção dele? – Eu estava pensando naqueles dois...

"Dois"? – ele repetiu, relembrando os comentários do círculo no qual estavam antes.

É... – ela sorriu encabulada – Kikyo e Hakudoushi.

Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha. O que ela queria dizer?

Por acaso eles são...?

O rapaz olhou na direção do primo, agora junto ao grupo da família Akai. Hakudoushi parecia sério, falando alguma coisa importante para Miroku e Inuyasha. Provavelmente era algo relacionado à história do primo preso no outro país.

Não. – ele respondeu sem desviar o olhar do grupo – Não que eu saiba.

Rin perdeu o interesse na história e passou a olhar a multidão, sentindo-se ainda mais perto dele depois que Sesshoumaru contornou a cintura dela com um braço. Sentiu o hálito dele perto da orelha:

Não conte a ninguém... – ele começou calmamente, inalando o perfume dos cabelos dela – Mas... Por acaso vê um homem de cabelos negros perto do secretário de relações públicas?

A garota procurou com os olhos o homem que ela conhecia apenas de jornais – o relações-públicas do Governo japonês. Viu-o numa entusiasmada conversa com um rapaz de terno azul-marinho e cabelos – encaracolados e negros – amarrados.

Pelo que eu sei... – Sesshoumaru voltou a falar num tom sussurrado – Ela tem um caso com esse sujeito.

Tem?

Mas não com a mesma intensidade que nós temos. – ele pareceu ter lido os pensamentos dela – Soube que eles quase não se veem porque não têm tempo. Além disso, eles não falam para ninguém.

Ah... – ela fez o possível para disfarçar o embaraço. Sesshoumaru sabia como deixá-la sem jeito – E só você sabe disso?

Rin não percebeu o discreto sorriso que Sesshoumaru tinha ao afastar um pouco o rosto e falar atrás dela quando passou a segurar-lhe uma das mãos com força, como se formassem realmente um casal.

Aquele homem pelo menos sabe. – ele praticamente afirmou, olhando alguém à frente deles.

A cabeça dela moveu na mesma direção que a dele e procurou ver de quem ele falava.

Quando descobriu quem era, arregalou os olhos, assustada.

Aproximando-se do primeiro-ministro e fazendo-lhe uma reverência, Bokuseno conversava com a aquela importante figura como se fossem velhos conhecidos.

E-Eles... Eles se... conhecem... – foi mais um comentário que uma pergunta.

Por acaso você sabe o que é a yakuza, minha Rin? – novamente ele falava ao ouvido dela, completando quando percebeu que ela ficara confusa com a pergunta – Porque há gente que não conhece a verdade por trás dos termos.

Rin piscou assustada e balançou a cabeça para os lados.

Nós formamos um grupo organizado com atividades por todos os cantos e à margem da legalidade. – ele explicava calmamente, com os olhos fixos na figura do líder do todo o Conselho – Pelo menos alguns agem sobre o Estado, influenciando nas tomadas de decisões do Governo ou participando ativamente dele. Outros trabalham no contrabando, nos grupos de extermínio ou no tráfico. – respirou perto do pescoço dela, notando a forma como ela se arrepiara – Consegue imaginar onde estamos nisso, minha Rin?

V-Vocês... E o Estado... - ela balbuciou.

Exato. – ele permitiu-se sorrir – Não esperava menos de alguém como você.

Os olhos de Bokuseno encontraram os do casal quando ele ainda conversava com o primeiro-ministro. Pedindo licença, o líder da yakuza caminhou ao encontro deles.

Rin quis sair dali, mas Sesshoumaru segurou-lhe a mão ainda mais forte.

Não solte minha mão, Rin. – Sesshoumaru avisou, mantendo a cabeça erguida e não desencontrando o olhar da figura que se aproximava. A forma como estavam, lado a lado e de mãos dadas, davam a qualquer um que os visse a bela imagem de um casal oficial – Nem baixe o rosto quando estiver perto dele. Mostre que está bem ao meu lado.

Mordendo o lábio inferior, receosa e inquieta, ela calou-se.

Vejam só quem está aqui... Não sabia que era chegado a eventos sociais, Sesshoumaru. – Bokuseno falou o nome do rapaz num tom zombeteiro – E nem o imaginava acompanhado.

Como vai? – o líder Akai foi seco e educado.

Tirando o fato de que meu time perdeu a vaga dele para o do seu primo, eu estou bem. – ele virou o rosto para Rin, que evitava olhá-lo – E esta jovem que o acompanha em um evento oficial? Devo já me preparar para as fotos das colunas de fofoca?

Rin está melhor que nunca. – Sesshoumaru respondeu por ela, notando a forma como Bokuseno estreitara os olhos e sorriu maliciosamente – Já falou com Kikyo?

Ah... ela. – pareceu que o nome da líder da família Higurashi o desagradou – Passou por um agora há pouco sem nem ao menos me cumprimentar. Depois reclama quando digo que é estressada.

Uma movimentação chamou a atenção dos três. Pelos comentários sussurrados, parecia que o Imperador e príncipe-herdeiro haviam chegado.

Ah... Olha só... – Bokuseno olhava para outra direção, dando um sorriso maligno – Hakudoushi está ali. Faz dias que eu não o perturb... Quer dizer, não falo com ele.

O líder afastou-se com a intenção de ir ao grupo, mas parou de repente e voltou para perto do casal

Antes de eu ir... É verdade que pretende conhecer o Japão de novo?

Sesshoumaru franziu o cenho. Evidentemente não havia entendido.

Soube que vai viajar. – o líder explicou calmamente – Shizuoka é fria demais nesta época do ano.

Um brilho de alerta passou pelos olhos dourados e, desta vez, foi Rin quem apertou a mão.

Se quer fazer isso em segredo, evite contar a algumas pessoas, Sesshoumaru. – Bokuseno avisou sabiamente.

Os três escutaram Miroku dar uma gargalhada um tanto quanto indiscreta para uma cerimônia como aquela e só parou quando sentiu Sango pisar-lhe no pé. Bokuseno não o vira a cena, apenas continuou fitando Rin e Sesshoumaru calmamente. Depois, virou-se e foi em direção ao grupo, deixando-os sozinhos.

Foi só então que ela baixou o rosto e Sesshoumaru soltou a mão dela e afastou-se.

Rin o viu sair do salão principal, assim como Kikyo fizera momentos antes. Estava quase na hora do discurso do Imperador... Aonde ele ia?

Resolveu segui-lo, passando despercebida pela multidão. A única coisa que receava era o frio do lado de fora. O kimono verde-escuro com detalhes dourados a deixava aquecida, mas do jeito que não era resistente...

Quando passou pela porta e começou a andar pelo jardim, ela evitou pisar na neve e sujar as sandálias. Viu Sesshoumaru parado junto a uma árvore com uma shimenawa, uma corda sagrada, e foi até ele.

Sess? – ela aproximou-se e percebeu que o rapaz a olhava por cima do ombro.

Você não deveria estar aqui. – ele avisou, sabendo que logo ela começaria a tremer de frio.

Mas... – Rin hesitou ante a rispidez do tom dele e abraçou-se para proteger-se – Está quase na hora do discurso do Imperador. E... O que faz aqui? Está muito frio.

Sesshoumaru voltou a olhar os galhos retorcidos e sem folhas do símbolo do Templo Higurashi. Rin compreendeu que ele pensava e preferiu manter-se quieta.

O silêncio durou até escutá-lo perguntar:

Você consegue compreender quais são os planos de Bokuseno?

Não. – ela respondeu em desagrado, olhando sem interesse algum ponto do chão – E nem quero saber.

No outro segundo, Sesshoumaru já estava em frente a ela, tocando-lhe o lado do rosto. Ela pôde sentir as pontas do dedo dele frias, deslizando pelos contornos da face.

Pois deveria querer. – a mão passou a acariciá-la pelos lados e ela movia a cabeça para sentir melhor o toque, fechando os olhos – Deveria saber para sentir-se segura.

Rin nada quis comentar. Continuou movendo o rosto, sorrindo e de olhos fechados, e ele prosseguiu:

E também porque este Sesshoumaru irá apoiá-lo.

A garota arregalou os olhos, estremecendo.

Sempre foi assim: nós apoiamos todo e qualquer plano de Bokuseno. – ele deslizava um dedo pelos lábios dela e fingia não notar o choque nos olhos castanhos – Nossa família deve muito a ele e honramos isso. – aproximou o rosto da orelha dela e fechou os olhos, passando um braço pelas costas de Rin quando ela quis se afastar, trazendo-a para perto de si – Eu só peço que, a partir de agora, confie mais em mim que antes.

Mas... – ela tentou se afastar de novo e prendeu a respiração quando o sentiu respirar contra o pescoço – Aquele homem...

Eu não deixarei que façam qualquer mal, muito menos que tirem você de mim. – segurou-a com os dois braços desta vez e levantou um pouco o rosto para vê-la melhor contra a fraca iluminação do jardim – Você compreende, Rin?

Apesar de hesitar de novo, ela fez "sim" com a cabeça.

Ótimo. – deslizou uma palma pelas costas dela e sentiu mais um estremecimento – Vamos voltar? – a outra mão dele tirou um pouco de neve que caíra no kimono dela – Acredito que queira manter-se aquecida... E escutar o discurso do nosso Imperador.

Rin parecia ainda preocupada e Sesshoumaru tomou-lhe a mão para fazerem o caminho de volta à mansão juntos, lado a lado.

Prometo que não vai se arrepender de estar comigo. – ele avisou enquanto andavam.


Três dias depois:

Trancado no escritório dele, Hakudoushi continuava o trabalho de selecionar as melhores pesquisas da área de Medicina para serem financiadas. Não falara com Kikyo desde a noite em que discutiram e agora só aguardava por um telefonema de Kanna para saber quando ela e as crianças chegariam ao Japão. A au pair só conseguira vagas num voo no dia anterior, que chegaria ao Japão provavelmente no início daquela noite por causa do grande número de escalas.

E justamente o que esperava aconteceu naquela hora: o telefone tocou e ele atendeu antes que outro fizesse o mesmo na casa.

Hakudoushi falando.

Estamos em Estocolmo. – reconheceu a voz de Kanna, que falava em norueguês e com um evidente sotaque – O avião fez uma escala aqui por causa do tempo.

Compreendo. – ele deixou escapar um suspiro dos lábios – E as crianças?

Num telefone público do aeroporto internacional da capital sueca, Kanna desviou o olhar do painel para os dois que estavam numa loja de conveniência.

Estão gastando dinheiro. – ela comentou.

Hakudoushi fechou os olhos e permitiu-se sorrir.

E Kikyo-sama? – escutou-a perguntar.

O que tem ela? – ele abriu os olhos e piscou, acomodando-se na cadeira mais confortavelmente.

Só ela estará em Sakai?

Infelizmente, sim. – ele massageou um lado da testa e deu outro suspiro, desta vez mais cansado. – Estou cuidando de uma pessoa, eu expliquei a Kikyo. Mas eu já reservei um dia apenas para ficar com eles.

Kanna afastou o fone do ouvido e escutou uma chamada. Parecia que o voo deles estava previsto para sair em uma hora e meia e pediam para todos irem à sala de embarque.

Precisamos ir agora. – ela anunciou – Ou eles vão gastar toda a mesada deste mês antes de chegarem aí.

Novamente, Hakudoushi sorriu, desta vez imaginando como seria a cena de Teru e Akiko se desesperando infantilmente por ficarem sem dinheiro.

Liguem quando tiver entrado em território japonês, seja lá a cidade que estiverem antes de chegarem a Sakai. – ele pediu.

Perfeitamente. – e ela desligou.

Depois de olhar pensativa o telefone público por alguns segundos, Kanna dirigiu-se à modesta loja de conveniência na qual vira Teru e Akiko entrarem. Passando pelas portas, teve a impressão que estava no Japão. Isso porque foi recebida por alguém falando em japonês:

Ohayo gozaimasu.

Era um senhor, de pelo menos sessenta anos, que sorria de modo cortês atrás de um balcão. Pelo sotaque, Kanna percebeu que ele descendia de Okinawa. Inclinando a cabeça, ela respondeu na mesma língua:

Bom dia.

Está à procura dos pequeninos? – ele apontou para uma seção de brinquedos. Viu que Akiko realmente não desistira da ideia de levar uma boneca a Kikyo, indecisa na escolha de uma para comprar. Mas Teru não estava com ela.

Onde está Teru? – ela perguntou ao ver que o menino não estava perto da irmã.

Ta-da! – ele saiu detrás do balcão num pulo, recebendo um afago na cabeça do idoso.

Estava atrapalhando o serviço dos outros, Teru? – Kanna perguntou. Akiko saiu da seção de brinquedos e juntou-se a eles, mostrando a boneca que escolhera.

Vamos levar? – ela perguntou em japonês.

Não precisa pedir. – o homem sorriu-lhes de modo que quase sumiam os olhos puxados - É muito bom encontrar gente do nosso próprio país num em que vivemos há anos. – estendeu a mão e ela entregou a boneca a ele – Vou embrulhar para você. É presente.

Os olhos da menina brilharam e Teru aproveitou para mostrar cinco revistas em quadrinhos:

Isso pode ser presente também? Hein, hein?

Teru! – Kanna o repreendeu e o velho riu.

Tudo bem, tudo bem... É um presente por terem me distraído enquanto a mãe de vocês conversava ao telefone.

Ela não é nossa mãe. – Akiko corrigiu inocentemente – É nossa au pair.

Ah... – o velho nem pareceu se importar por ter errado, entregando aos "clientes" as compras – Aqui está. Façam uma boa viagem.

Arigatou, oyaji! – Teru agradeceu.

Teru! – Kanna o repreendeu novamente, mostrando-se horrorizada quanto aos modos do garoto.

Tudo bem, tudo bem... – o outro gesticulava – Faz tempo que eu não escuto isso e só me faz sentir mais saudades do Japão.

Mesmo assim, eu peço desculpas. – Kanna pegou as mãos das crianças e fez-lhe um educado agradecimento com a cabeça – E muito obrigada também.

Sem problemas. Boa viagem. – ele acenou atrás do balcão.

Os três se retiraram e o velho continuou os olhando, sentando-se numa cadeira de balanço para fechar os olhos e sorrir.


Japão – naquele mesmo instante:

Arrastando a pequena mala pelo chão do corredor do primeiro andar até chegar à porta da entrada, Rin só pensava na conversa que Sesshoumaru teve na noite anterior.

Pelo fato de Bokuseno saber a respeito da viagem, até mesmo o roteiro que fariam, Sesshoumaru decidira mudar os planos, entretanto não contaria a mais ninguém além dela. Visitariam outros lugares, mas ele garantiu que ela iria gostar de conhecer as outras propriedades da família Akai.

Não fez mais outras perguntas, embora quisesse saber o que deveria tanto ver em outra cidade e que não existia na capital.

Precisa de ajuda? – alguém perguntou quando ela parou olhar a escada, pensativa. Virou a cabeça e viu Hakudoushi se preparando para descer também.

Ah... – ela nem havia respondido quando ele pegou a maleta com uma única mão e carregou por ela – Obrigada, Hakudoushi-sama.

Espero que esteja levando seus remédios. – ele perguntou depois da curta caminhada até o carro que levaria o primo e Rin à estação – E também agasalhos. Eu soube que Shizuoka de vez em quando tem tempestades de neve.

Rin não comentou. Não iriam mais para lá e... Bem, é difícil de mentir a alguém como Hakudoushi, então ela preferiu apenas mover a cabeça num discreto "sim".

Você sempre costuma assumir os negócios quando Sesshoumaru não está por perto? – Rin perguntou quando o viu apoiar-se no carro e cruzar os braços para manter as mãos aquecidas.

Sim. – ele assentiu – Inuyasha nunca foi bom em negócios e Miroku age muitas vezes como um irresponsável. – sorriu achando graça no próprio "azar" – Então tem que ser eu, mesmo.

Ah... – Mas ela realmente não imaginava outra pessoa melhor que Hakudoushi para fazer isso.

Uma risada chamou a atenção dos dois. Tinha sido de Kagome, que conversava, sentada num banco junto a Shippou e Sango, com Izayoi.

Shippou falou mais alguma coisa a Sango e Kagome riu de novo, só parando quando percebeu que Rin e Hakudoushi estavam olhando para eles. Acenou-lhes, e os outros viraram o rosto para fazerem o mesmo, com exceção de Izayoi, que se manteve quieta.

Sesshoumaru e ela já haviam se despedido de quase todos. Quando foram bater à porta do quarto da mãe dele, Izayoi, de dentro, gritou que não estava se sentindo bem.

Agora ela estava ali, conversando com os outros como se não tivesse passado mal.

Rin sentiu um toque no ombro e viu que Sesshoumaru estava com eles, trazendo outra pequena mala. Também olhava na mesma direção que ela, com as sobrancelhas arqueadas.

Você vai nos ligar quando chegar a Shizuoka? – Hakudoushi desviou a atenção deles – Ou prefere que eu o faça?

Não precisa. – Sesshoumaru deu as costas ao primo e colocou a maleta na parte de trás do carro, fechando-o – Ligaremos quando chegarmos ao hotel.

Sango, Shippou e Kagome aproximaram-se de Rin e conversavam com ela enquanto os dois primos trocavam palavras:

Vocês têm ideia de quanto tempo ficarão longe? – Kagome uniu as mãos e deitou o rosto nelas.

-Ele disse que talvez um mês. – Rin abraçou-se por causa do frio. Não nevara desde o dia anterior, mas ainda sim a temperatura estava muito baixa – Se acontecer alguma coisa, podemos voltar antes.

Como o quê, por exemplo? – Kagome piscou.

Sango riu e apontou para o ventre da mulher de Inuyasha, que deu uma risada sem graça e passou a mão pela barriga.

Traz um brinquedo pra mim? – Shippou pediu.

Claro que sim. – Rin afagou os cabelos dele.

Vamos, Rin. – escutou Sesshoumaru chamá-la. Ele abrira até a porta do carro para que ela entrasse antes.

Até mais, Rin-chan. – Kagome acenou quando a garota afastou-se deles, acenando educadamente – Liguem para nós, tá?

Boa viagem! – Sango e Shippou gesticulavam com os dois braços erguidos.

Hakudoushi uniu-se ao grupo, e Rin e Sesshoumaru acenaram a eles.

Rin notou, pelo canto dos olhos, que Izayoi os observava. Acenou discretamente a ela e sorriu gentilmente preocupada, entrando no carro depois.

O carro partiu. Rin nem ao menos notou quando, ao entrar, Izayoi fez-lhe um discreto aceno de despedida.


Quatro dias depois:

Akai Izayoi estava deitava na cama, o rosto virado para a mesinha ao lado, na qual era possível ver uma imagem do falecido marido.

Os lábios se moveram como se quisesse pronunciar o nome, mas desistiu. Não era a doença que a impedia de fazer, e sim a falta de força de vontade.

Fechou os olhos e virou o rosto para o outro lado, forçando um sorriso que chegava a ser triste.

Tia? – Hakudoushi bateu à porta – Posso entrar?

Entre, querido. – ela falou no tom mais forte que podia.

O sobrinho entrou no momento em que a viu se esforçando para sentar-se na cama, apressando o passo para ajudá-la. Tentou primeiramente segurá-la pelos braços, mas a mão dela foi mais rápida para impedir-lhe de tocá-la.

Tudo bem. – ela o tranquilizou com o gesto – Eu posso fazer isso sozinha.

O médico sorriu consigo mesmo.

Claro que pode. – ele comentou ao sentar ao lado dela.

O que quer, meu querido? – ela levou uma trêmula mão ao cabelo dele, tirando alguns fios que caíam na alva testa – Eu já tomei meus remédios da tarde.

Não é isso... – ele tomou a mão dela e a cobriu com as dele, massageando-as suavemente – Lembra que eu falei a respeito de eu tirar um dia para viajar?

A testa dela enrugou um pouco, esforçando-se para lembrar a respeito do referido assunto. Quando conseguiu, as linhas se suavizaram e um sorriso passou-lhe pelos finos lábios.

Quando será? – ela perguntou.

Pretendia que fosse amanhã, caso realmente me garanta que pode ficar bem sozinha. – ele beijou os dedos dela – Tem algum problema?

Nenhum. – ela balançou a cabeça para os lados – Só que fiquei curiosa... Gostaria de saber pra onde está indo.

Ah... – ele baixou o rosto e ficou calado.

Nenhuma outra palavra foi dita até ele se levantar.

Não pretende mesmo me contar? – ela insistiu com um sorriso, não se aborrecendo com a omissão da resposta – Devo perguntar a Kikyo?

De costas para ela, Hakudoushi virou o rosto e sorriu:

Por que preciso responder se a senhora já sabe?


No dia seguinte:

Ao descer no primeiro trem que chegara àquele início de manhã em Sakai, Hakudoushi procurou por algumas pessoas depois de passar pelas catracas da estação.

Mas, antes de ter que dar um passo, elas o encontraram. Sentiu alguém pequeno agarrar-lhe as pernas como se quisesse derrubá-lo.

Hakudoushi-sama! – Akiko levantou o rosto para ele.

Aki... – ele passou a mão na cabeça dela, segurando com a outra uma pequena mala.

Eu estava com saudades. – ela falou com certo orgulho.

Hakudoushi desviou o olhar dela e procurou pelos outros: Kikyo tinha uma pose altiva enquanto fumava, Teru de braços cruzados perto dela.

Apenas Kanna parecia ignorar o que se passava e o recepcionou:

Seja bem-vindo, Hakudoushi-sama. – ela anunciou pelos demais.

Obrigado. – ele fez com que Akiko soltasse as pernas dele e foi ao encontro dos outros. Kikyo nem ao menos se mexeu e Teru parecia aborrecido com a presença do médico ali.

Trouxemos fotos da Noruega. – Akiko anunciou alegremente – Nós visitamos aqueles fyords e... E também visitamos Copenhague!

Ao pronunciar o nome da cidade, Hakudoushi percebeu que Teru cruzou os braços e fez-se inexpressivo.

Você vai me mostrar as fotos depois, Aki? – ele perguntou sem tirar os olhos do menino.

Estão com Teru. Mas ele me deixa mexer na câmera.

Claro que não. – o garoto virou-se e começou a marchar para ir embora. Kikyo seguiu-o com o olhar e tirou o cigarro para sorrir.

Não se preocupe. Ele está assim desde ontem. – ela explicou, mexendo nos cabelos com a outra mão.

Hakudoushi deu-lhe um sorriso irônico. E ela não estava assim quando se falaram da última vez, ainda em Tokyo?

Bom dia para você também, Kikyo. - foi o que ele falou.

Parando de mexer nos cabelos por um instante, ela encarou-o com a testa franzida, tirando algumas mechas negras de cima do ombro e jogando-as para trás.

Vamos logo. – ela deu as costas a eles e seguiu a direção de Teru – Você deve estar cansado.

Um pouco menos brava que em Tokyo, ele concluiu.

Sentiu uma pequenina mão envolver a dele, notando que era a de Akiko.

Vamos logo. – ela o puxava, indo atrás dos outros. Kanna mantinha-se distante e saiu por último da estação.

Um carro alugado os aguardava no estacionamento. Kikyo e Teru já estavam acomodados no banco de passageiros e Kanna pegou o lugar do motorista; Hakudoushi sentou-se no banco ao lado somente depois que Akiko ficou entre o irmão e a jovem líder no banco de trás.

Enquanto Kanna dirigia, o percurso só tinha o silêncio quebrado por um comentário e outro da menina, que contava novidades da Noruega, da Dinamarca e até mesmo da rápida escala que fizeram em Estocolmo. E Hakudoushi notou que Teru preferia não comentar nada.

Hvordan om været, Teru? – ele encontrou o olhar do garoto pelo retrovisor - Det var godt?

Kaldt. – o menino respondeu indiferente, em norueguês.

Ele perguntou se o tempo estava bom na Noruega. – Akiko explicou a Kikyo, que parecera curiosa em saber sobre o que conversaram – E Teru-kun disse que estava frio.

Veldig kaldt. – Teru continuava olhando as ruas pelo vidro ao dizer que o tempo estava extremamente frio.

É! – a menina confirmou.

Oh? – Kikyo arqueou as sobrancelhas, escutando Hakudoushi abafar uma risada e balançar a cabeça.


A casa de verão dos Akai em Sakai era apenas uma das inúmeras propriedades que a família possuía. Seis quartos, salão, jardim com um lago, totalmente murada... Hakudoushi começou a visitar aquela propriedade logo depois que o pai morreu – justamente quando passou a morar com o tio e os primos.

Pelo fato de ficar numa cidade costeira, a casa era usada nas visitas durante a época mais quente do ano. Havia lagos e rios por quase todas as partes da cidade, além de praias. No inverno, porém, todos passavam longe de tais locais, principalmente porque era extremamente perigoso andar pela superfície congelada de lagos.

Era um lugar perfeito para se isolar – ou se esconder, se fosse o caso.

Aqui está o chá. – Kanna serviu a Hakudoushi.

Todos estavam sentados à mesa da cozinha, incluindo as crianças. Kanna preparou um chá e bolinhos de arroz para todos. Kikyo tamborilava os dedos numa impaciência por ter sido proibida de fumar.

Obrigado. – ele agradeceu com um sorriso, tomando um gole para se aquecer – A viagem quase foi interrompida por alguns minutos por causa da neve nos trilhos.

Em Estocolmo estava nublado. – Akiko servia-se de bolinhos de arroz. Era a única que parecia contente com o retorno do médico.

Esse tempo está maluco. – Hakudoushi olhou Kikyo por um canto – E já foram passear?

Seria melhor se a gente estivesse em Tokyo. – Teru tinha o queixo apoiado na mão direita – Aqui não tem nada pra ver durante o inverno.

Hakudoushi admitiu silenciosamente que sim, mas não se deu por vencido:

Em Copenhague não é inverno também?

É, mas não é a mesma coisa! – Teru rebateu e virou o rosto – Copenhague é mais legal que Sakai. Por isso que, quando eu terminar a escola, vou estudar lá.

Oh? – Hakudoushi arqueou as sobrancelhas.

Eu quero ficar na Suécia. – a irmã menor comentou.

Você só conheceu o aeroporto de lá e achou bonito o país? – Teru revirou os olhos.

E daí? – Hakudoushi levantou-se e foi a pia para encher o copo com mais chá - Tokyo não é tão segura quanto Kyoto, mas ainda assim eu não troco de cidade.

Teru sabe sueco também! – Akiko exclamou repentinamente, como se só lembrasse naquele momento.

Sei nada. – ele negou – Foi só uma frase.

Sério? – Hakudoushi bebeu um gole do chá e o encheu até a borda – Minha mãe falava sueco também e me ensinou um pouco.

Diz pra ele, Teru, diz! Diz aquela frase! – a menina insistia e o irmão revirou os olhos novamente.

"Om du inte slåss kommer vi att döda dessa barn". Satisfeita? – perguntou a ela.

Algo quebrou e chamou a atenção deles. Tinha sido Hakudoushi que o largara a xícara dele para fitar o garoto com os olhos arregalados.

Hakudou... – Kikyo ia perguntar o que houve, mas ele avançara rápido demais no garoto para levantá-lo da cadeira e segurar-lhe o braço.

Onde aprendeu isso? – ele perguntou extremamente sério e ameaçador, assustando a Teru.

E-Eu... – era a primeira vez que Hakudoushi o tratava daquela forma. E o braço estava começando a doer – Me-meu... b-bra...

Onde foi, Teru? – o médico aproximou o rosto, os olhos brilhando de raiva e falando num tom de aviso.

N-No aeroporto... – Akiko falou assustada atrás deles, fazendo o médico encará-la por cima do ombro – N-na... na loja de conveniência... Havia um... senhor lá... Ele nos fez repetir isso e nos deu presentes...

Hakudoushi estreitou os olhos e voltou a encarar Teru para fazer-lhe mais perguntas, mas a mão de Kikyo tocou o braço que segurava o menino.

Teru... – ela estava calma – O que nós já falamos a respeito de não falar com estranhos? – conseguiu fazer com que Hakudoushi o soltasse e segurava Teru pelos ombros com delicadeza, tranquilizando-o.

Desculpe... – ele murmurou, encontrando o olhar dela quando ficaram do mesmo tamanho quando ela abaixou-se.

Hakudoushi só está bravo por causa disso. – ela deu um pequeno sorriso – Por que você e Aki não vão se arrumar para almoçarmos e irmos ao centro? Lembra que combinamos? Vamos comprar muitas coisas.

Ainda assustado, ele moveu a cabeça num "sim" e pegou na mão da irmã para saírem da cozinha, deixando os adultos sozinhos. Kanna, que observava o médico e a líder se encarando, interrompeu aquele momento para explicar:

No aeroporto havia um senhor de idade japonês. Ele deu algumas coisas para eles. Pensei que não havia perigo. Sinto muito pelo acontecido. – ela explicou. Depois fez uma reverência e também saiu, indo atrás das crianças para arrumá-las. Estava também preocupada. Ela havia falhado, por mais que não houvesse dano algum aos irmãos.

Suavizando a expressão por um momento e suspirando aliviado, Hakudoushi foi à pia e preparou uma nova xícara de chá, sentindo o olhar de Kikyo sobre ele.

Era uma ameaça? – Kikyo perguntou num sussurro, aproximando-se dele e cruzando os braços – O que queria dizer?

Vão matá-los... Se eu não lutar. – ele continuava olhando o chá, de vez em quando lembrando os detalhes da reunião de dias antes. Ele declarara, sim, que não queria se meter na história...

Porque ele não tinha motivos para lutar, diferente de Sesshoumaru.

Eu havia decidido não participar dessa história. – ele tocava a borda da xícara, o dedo circulando na cerâmica – Primeiro os atacaram em casa, agora isso. Eles estão me provocando.

Kikyo tocou no ombro dele e Hakudoushi virou o rosto para encontrar-lhe o olhar:

Nós combinamos de sair depois do almoço. – ela explicou, sorrindo da mesma forma que fizera quando conversava com Teru – Por que não descansa um pouco antes de irmos?

Dando outro suspiro cansado, Hakudoushi concordou.


Depois que as crianças aparentemente esqueceram o que aconteceu na hora do chá, todos se arrumaram para sair. O caminho até o centro de Sakai não era longe, sendo que era perfeitamente possível ir a pé, sendo que apenas os mais cômodos preferiam andar de carro pela cidade. Por causa da neve, as estradas estavam com um acesso difícil por causa do gelo nas pistas, o que deixava apenas a opção da caminhada e uso de transporte público aos moradores e turistas.

Literalmente empacotada, Akiko marchava com as pernas afastadas, deixando grandes pegadas na neve. O irmão ajeitava o gorro na cabeça e olhava para a janela da cozinha, onde Kikyo e Hakudoushi trocavam algumas palavras de novo com Kanna.

Vai comprar alguma coisa lá no centro? – a irmã perguntou, fazendo agora bolas de neve.

Tô doido pra ver as lojas de jogos! – ele parecia extremamente animado – Aqui tem mais opções que em Oslo. Talvez eu compre uma câmera digital nova!

Mexendo na neve, ele assustou-se quando um sapo pulou, saindo de um pequeno monte de neve, como se tivesse sido soterrado ali.

Ah... – ele ficou aliviado – Odeio quando essas coisas pulam.

Que bonitinho! – a irmã quis pegar, mas o bicho saltou e fugiu deles – Ei!

A menina correu para pegá-lo, afastando-se mais e mais da entrada da propriedade.

Aki! – Teru foi atrás dela. Parou e olhou a casa, depois para a irmã.

Depressa, ele optou por ir atrás dela.

Não sabiam bem por onde andavam, mas já estavam perto do grande lago da enorme propriedade. E era bobagem a irmã querer correr atrás de um sapo que estava morrendo de medo da cara dela.

Encontrou-a atrás de um arbusto coberto de neve, agachada. Ao vê-lo, ela fez-lhe sinal com um dedo para que fizesse silêncio, apontando para alguma coisa que existia depois do arbusto.

Pega pra mim? – ela pediu.

Aki, eu não acredito que estamos longe de casa por causa disso! – ele torcia as mãos como se quisesse agarrar o pescoço dela – Vamos voltar!

Medroso. – ela se levantou e limpou as luvas que sujaram quando tocou nos ramos cheios de neve – Eu mesma vou pegar.

Quando ela afastou o mato e deixou cair o gelo que os cobria no chão, ele teve a visão ampliada do que ela espreitava. O sapo fugitivo estava em cima de um dos lagos congelados das redondezas.

A irmã quis pisar na superfície, mas ele a puxou de volta.

Pode deixar. – ele olhou para os lados e depois para a irmã – Eu pego pra você.

Pisando com cuidado, ele andava em linha reta pelo gelo, mantendo os olhos fixos no pequeno ser esverdeado que olhava para o outro canto.

Vai, Teru! – Akiko torcia.

Shhh.

Dando mais alguns passos, ele preparou-se para agarrar. Só mais alguns segundos...

Para azar dele, no momento em que ia fazê-lo, o bicho saltou para outro lugar. Teru deu um pulo, mas escorregou e caiu na superfície.

O impacto com o gelo foi sentido primeiro num dos lados do rosto, o que o fez gemer de dor. Tentou se levantar e olhou o lago, estranhando como podia ver claramente a água escura através do gelo.

O chão rachou e os dois gritaram quando, rápido demais, ele foi para dentro d'água. A irmã quis socorrê-lo, mas o irmão agarrou-se na borda do buraco que abrira para berrar:

Não...! Não entre! – ele tremia. Se ela pisasse ali, poderia cair no lago também – Vai chamar alguém!

T-Tá! – ela venceu o tremor das pernas e correu para a casa.

RÁPIDO! – escutou ainda o irmão gritar.

Teru viu a irmã sumir na direção da casa e fechou os olhos. Ele estava bem protegido, mas o casaco impermeável não era resistente a um banho como aquele.

Sentiu os dedos ficarem adormecidos de frio e ficar sem forças, afundando novamente na água.

Não ficou muito tempo submerso, porém. Sentiu alguém puxando-o da água pela gola.

Quando Akiko voltou para casa, encontrou Hakudoushi e Kikyo olhando para os lados à procura deles. Ao ver apenas a menina ali, os dois perceberam que alguma coisa acontecera, correndo na direção dela.

Teru caiu, Teru caiu! – ela balançava os braços numa direção.

"Caiu"? – Kikyo repetiu. Akiko pegou nas mãos deles e os puxava.

Ele caiu num dos lagos! – ela gritou numa voz rouca – Ele está... Tremendo!

Foi o bastante para que Hakudoushi saísse na frente, numa corrida em que Kikyo fazia o possível para acompanhá-lo. A irmã dizia qual era o caminho: não escutavam mais gritos ou pedidos de socorro de Teru.

Ali! – ela reconheceu a cerca de arbustos onde se escondera antes – Ele tá ali!

Hakudoushi correu ao local e pulou o mato, estacando repentinamente. Kikyo estranhou e aproximou-se dele, ainda segurando a mão da garota.

O quê...? – ela viu que Hakudoushi estava assustado ao olhar o lago.

Parado na outra margem do lago, havia um casal cuidando de Teru, já resgatado e aparentemente bem. Estavam de costas para eles, mas Hakudoushi conseguia reconhecê-los.

O salvador de Teru batia nas costas dele e tirou até mesmo o casaco para aquecer a criança, olhando por cima do ombro.

Foi quando Kikyo escutou Hakudoushi pronunciar:

Sesshoumaru...


Próximo capítulo:

"-Essa casa é da nossa família, esqueceu?"

"-Você parece um velho, Hakudoushi."

"-Vai me contar o que está tirando seu sono?"

Capítulo 18: As razões de Sesshoumaru e Hakudoushi.