Disclaimer: "InuYasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.
A cor do dinheiro
Capítulo 18: Os motivos de Sesshoumaru e Hakudoushi
Música: "Love Boat Captain" (PJ).
Para Lan Ayath
–Teru caiu, Teru caiu! – Akiko balançava os braços numa direção. Não dava para ver quase nada por causa da neve cobrindo as árvores e arbustos. Tudo estava branco – e terrivelmente frio.
–"Caiu"? – Kikyo repetiu sem entender. A menina pegou nas mãos deles e os puxava.
–Ele caiu num dos lagos! – ela gritou quase rouca – Ele está... Tremendo!
Foi o bastante para que Hakudoushi saísse na frente, numa corrida em que Kikyo fazia o possível para acompanhá-lo. A irmã dizia qual era o caminho: nem ao menos escutavam gritos ou pedidos de socorro de Teru.
–Ali! – ela reconheceu a cerca de arbustos onde se escondera antes – Ele tá ali!
Hakudoushi correu ao local e pulou o mato, estacando. Kikyo estranhou e aproximou-se dele, ainda segurando a mão da garota.
–O quê...? – ela viu que Hakudoushi estava assustado ao olhar o lago.
Parado na outra margem havia um casal e Teru, já resgatado. Estavam de costas para eles, mas Hakudoushi conseguia reconhecê-los.
O salvador de Teru batia nas costas dele e tirou até mesmo o casaco para aquecê-lo, olhando por cima do ombro.
Kikyo escutou apenas uma palavra de Hakudoushi, e que soou aos ouvidos dela extremamente assustadora:
–Sesshoumaru...
Sim, era ele. Impossível de não se reconhecer. Roupas de inverno, acompanhado daquela tímida garota Shiroi e com duas malas pequenas... A garota estava absolutamente empacotada contra o frio, com casaco, blusas de lã, um cachecol e gorro de lã. Kikyo ainda se perguntava se era mesmo possível aquela frágil e tão delicada Rin fazer parte da família aliada.
Foi então que percebeu que os dois, Hakudoushi e Sesshoumaru, estavam se encarando. O médico parecia ligeiramente surpreso em ver quem menos esperava ali. E ela não encontrava uma palavra certa para saber como Sesshoumaru se sentia ao ver a pessoa que deixara como líder – para cuidar da casa, da família e, principalmente, da mãe doente – parado na outra margem do lago congelado, numa outra cidade, parecendo, de certa forma, despreocupado, com duas crianças e... Kikyo.
–Teru! – Akiko não fazia ideia da situação. Soltou a mão de Kikyo e quis passar pelo gelo, mas foi detida por ela – Eu quero iiiir...!
–Você quer se machucar também, Aki?
–Mas o moço...!
Enquanto discutiam, Sesshoumaru, Rin e o garoto, encolhido naquele enorme casaco de inverno, aproximaram-se dos outros três. Ela segurava a mão de Teru, trêmulo de frio e assustado, Sesshoumaru empurrada as duas malas pequenas de rodas naquela neve. Estava sem casaco, mas não parecia sentir frio ou sabia esconder muito bem o que sentia com uma expressão de indiferença.
A poucos passos de Kikyo, o menino soltou-se e correu até ela, aparentemente apavorado com alguma coisa. Já Sesshoumaru, frente a frente com Hakudoushi, esperava pelas devidas explicações.
–Não sabia... Não sabia que viria para Sakai. – o médico queria parecer seguro. Ele realmente parecia seguro. Mas alguém como Kikyo, que conhecia toda a história, sabia que Hakudoushi estava tudo, menos seguro.
–E por que eu deveria avisar? – as sobrancelhas de Sesshoumaru ficaram levemente erguidas, fingindo desinteresse – Essa casa é da nossa família, esqueceu? Eu posso vir quando eu quiser.
Hakudoushi preferiu não responder, simplesmente porque não sabia o que falar. Aquilo frustrou e muito alguns planos dele. Tudo deveria dar tão certo... Por que as coisas tinham que ficar dessa forma?
Por quê?
–Teru, você ainda está tremendo... Vamos trocar logo essa roupa. – Kikyo abaixou e ficou frente ao garoto. Começou a limpar parte do rosto dele com a manga esquerda, sujando-se para tirar a atenção dele do homem que o salvara.
Estranhamente, o garoto parecia conhecê-lo. E, coincidentemente, parecia que Sesshoumaru...
–Teru! – Kikyo estalou os dedos na frente dele e o menino pareceu ficar mais assustado. Era para ele olhar apenas para ela, mas a vontade de observar o estranho foi mais forte. Enquanto Kikyo limpava o rosto dele, Teru tinha os olhos grudados em Sesshoumaru, numa mistura de medo e curiosidade. Akiko também sentia o mesmo, escondendo-se atrás de Hakudoushi, tentando contornar as pernas dele com os pequenos braços.
Tentando quebrar a frieza do encontro, Rin curvou-se numa reverência.
–Olá. Boa tarde. – ela olhava tanto para o médico quanto para Kikyo –Sesshoumaru me falou muito daqui.
–Queria mostrar a casa a Rin. – Sesshoumaru tomou a mão da garota e olhava seriamente o primo – Mas confesso que não esperava uma recepção sua.
O silêncio voltou a tomar conta do grupo.
–Não vai nos apresentar, Hakudoushi? – o líder da família Akai indicou as crianças com um discreto movimento de cabeça – Rin também quer conhecê-las.
–Como? – ela sussurrou um pouco surpresa. Achava que Sesshoumaru já as conhecia. Como podia isso acontecer?
–São meus protegidos. – Kikyo falou repentinamente numa voz anormalmente arrogante, aproveitando que a atenção do mais velho estava no primo – E chamei Hakudoushi para examiná-las. Ele só chegou hoje de manhã.
Sesshoumaru a encarou. Ela fez o mesmo.
–Algum problema, Sesshoumaru? – ela perguntou calmamente.
Não houve resposta. E notou um leve estreitar nos olhos dourados. Era provocação, e ficou feliz por ter conseguido inventar uma história tão boa para livrar a pele de Hakudoushi das desconfianças do...
–E por que está hospedada na casa da família Akai com os seus protegidos, Kikyo?
Bingo.
–Kagome indicou esta casa. Achei que as crianças gostariam de passar uns dias nesta cidade.
–Impressionante como eu nunca as conheci, embora nossas famílias estejam unidas há bastante tempo. – Sesshoumaru não quis se dar por vencido.
–E por que diabos você tinha que saber? Não estão sob a sua proteção. – ela arqueou as sobrancelhas.
Os olhares se estreitaram. Hakudoushi bateu a testa e balançou a cabeça com pesar. Enquanto os dois líderes de famílias aliadas discutiam, Rin aproveitou a ocasião para afastar os pequeninos dali. Não era bom para que as crianças ouvissem uma conversa como aquela.
–E se estão sob minha proteção... – ela continuou – É muito natural que pouquíssimos saibam. Eu não posso ser tão idiota a ponto de pôr a vida deles em perigo.
Teru passou perto deles, correndo atrás do sapo que escapara e o fizera cair na água gelada. No encalço do bicho, estavam também Rin e Akiko.
–E se ninguém podia saber... – Sesshoumaru interferiu – Por que Hakudoushi está aqui?
–Por acaso está insinuando que eu poderia colocar a vida delas em perigo? – o médico franziu a testa. Os dois trocaram olhares de acusação – Pensa que eu ia espalhar por aí que essas crianças são protegidas de Kikyo da mesma forma que pensou que eu gritaria ao mundo todo o apelido que Rin deu a você?
–Ele tem um apelido, é? – Kikyo gargalhou num deboche, a mão delicadamente próxima ao rosto como se estivesse em deleite com aquela informação, perdendo a chance de ver Sesshoumaru fuzilar o primo com o olhar.
Novamente os três passaram perto deles, mas estes não se deram conta. Desta vez, corriam atrás do chapeuzinho de Rin, o vento levando para longe.
Hakudoushi indicou aos dois o que acontecia com um leve movimento de cabeça, fazendo notar como Rin, Teru e Akiko se divertiam, por mais que tivesse acontecido um incidente momentos antes.
–Kikyo-sama. – a voz calma e fria de Kanna chegou aos ouvidos deles. Ela, pequena, discreta e educada, curvou-se em uma educada reverência – Estou vendo que aconteceu outro acidente. Não é melhor levar Teru para casa para ele trocar de roupa?
–Teru! Aki! – Kikyo chamou de onde estava num tom de ordem que lhe era próprio – Voltem para casa com Kanna!
Enquanto as crianças – acompanhadas por Rin – se aproximavam correndo, Sesshoumaru notou, de soslaio, que Kanna não tirava os olhos de cima dele.
Para disfarçar, ela desviou o olhar para outro ponto, principalmente depois que o viu estreitar os olhos e franzir a testa.
–Teru, tome um banho quente e troque de roupa. – Kikyo guiou os garotos em direção da au-pair quando eles retornaram ao grupo junto a Rin – Hakudoushi ainda precisa examinar você.
–Tááá... – o menino fez um biquinho de raiva o médico. Teru não deveria dar tanta dor de cabeça e continuar ranzinza depois do acidente... Se continuasse com essa birra na frente do primo, Hakudoushi teria que...
–Vocês ficarão aqui? Conosco? – Kikyo gritou à pergunta.
–Sim. – Sesshoumaru respondeu num tom seco – A casa é minha, tenho pleno direito de ficar.
–Até parece que todo mundo quer isso. – ela rebateu.
–Está bem, Kikyo, deixe-o... – Hakudoushi tocou-lhe o ombro enquanto caminhavam e apertou-o de leve – Ele tem razão... Procuramos outro lugar pra vocês quatro ficarem. Há hotéis bons na cidade.
A garota estreitou de leve os olhos e confirmou com a cabeça. Ele tinha razão. Era possível procurar outro lugar confortável para ela, as crianças e Kanna.
Longe das vistas dos outros, a au pair certificou-se de que a automática estava bem escondida, incerta se alguém notara que carregava uma contra aquele que julgava ser uma ameaça: Sesshoumaru.
Sakai, centro comercial. Uma cidade que anteriormente teve uma forte expressividade política e econômica na era Sengoku, também conhecida como A Cidade da Liberdade. Ex-base da atividade econômica do Japão, os diversos pontos turísticos ainda atraíam muitos curiosos e estrangeiros.
Is this just another day
this god forgotten place?
–Atchim! – Teru espirrou e esfregou o nariz com a manga do casaco que fora forçado a vestir – Merda... Estão falando mal de mim...
A última frase, obviamente, chamou a atenção daqueles que estavam com o menino naquele passeio: de Hakudoushi, de Kikyo, da irmã e daquele casal que chegara um pouco depois do acidente no lago. Akiko riu e Teru ainda foi alvo de um olhar desconfiado de Hakudoushi, o qual retribuiu com um sorriso forçosamente inocente.
–Vamos ao hospital se ficar pior. – Hakudoushi asseverou, verificando a febre dele por precaução.
Teru virou o rosto para o lado num evidente sinal de protesto. Na mesma hora, o olhar encontrou um desconfiado Sesshoumaru e grudou-se no braço do médico, como se quisesse que ele o protegesse.
First comes love and then comes pain
–Isso me faz lembrar... – Hakudoushi não percebeu o motivo do menino fazer aquilo e voltou-se para Rin – Está melhor da gripe?
Let the games begin
–Sim, sim. – ela ergueu as mãos defensivamente, evidentemente um pouco sem jeito – Eu me cuidei direitinho.
–É mentira dela. – Sesshoumaru a denunciou calmamente, voltando a atenção dele para as horas no braço esquerdo. Rin empalideceu e forçou um sorriso ao médico, que ergueu uma sobrancelha e estreitou os olhos – Ela passou mal por dois dias em Shizuoka. Ficou em observação por dois dias.
Escutando a conversa enquanto olhavam as lojas numa galeria, Teru ficou curioso e voltou-se para Hakudoushi:
–Hvor er Shizuoka?
–Denne byen er langt herfra. – o médico respondeu automaticamente.
–Esse menino também fala a sua língua, Hakudoushi? – Sesshoumaru ergueu as sobrancelhas, tentando não mostrar-se assombrado.
Questions rise and answers fall
Mas não houve – e nem haveria – preço que pagasse ver o primo tão sem jeito com aquela pergunta. Até parecia que Hakudoushi não queria que ninguém mais soubesse que aquele garoto era protegido apenas de Kikyo.
Insurmountable
–Teru! Teru! Olha, olha só! – Akiko, excitada, apontava a vitrine de uma loja especializada em instrumentos musicais – Um cello!
–Oh... – ele se fez de emocionado – E aí?
–Você tem que pagar o cello que quebrou. – a irmã o denunciou.
–Você quebrou um o quê? – Kikyo piscou um pouco incrédula. Se isso ocorrera ainda na Noruega, ela já deveria saber. Será que era mais alguma coisa que Hakudoushi escondera dela?
–Um violoncelo, um grandão. – Akiko esticou os braços – Ele não gosta das aulas.
Graças aos deuses, Akiko foi a salvação de Hakudoushi. A mudança brusca de assunto nem foi percebida por Sesshoumaru. O médico não precisaria ainda explicar algumas coisas.
–Sabem tocar? – Rin se interessou pela conversa.
–Eu aprendo viola na escola. – Akiko falou orgulhosa – Teru não gosta de música.
–E quebrou um violoncelo? – Kikyo ergueu as sobrancelhas – Aquele grande?
–Foi sem querer. – Teru colocou as mãos cruzadas atrás da cabeça e evitava olhar todo mundo, tamanha a falta de vergonha em explicar o feito – O professor mandou repetir o mesmo acorde um monte de vezes e acabei quebrando de raiva.
–E agora ele tem que pagar. – a irmã concluiu.
–Você não tem vergonha? – Hakudoushi quis saber.
–Não.
Love boat captain,
Take the reigns and steer us towards the clear
–E você? – Rin sentiu a tensão entre os dois. Parecia pai brigando com filho revoltado – Gosta da viola?
A menina confirmou com a cabeça:
–O nome da minha é Satie.
–E piano? – Rin ficou ligeiramente entusiasmada – Gosta?
–Só sei um pouquinho. – ela dedilhou um teclado imaginário – Geralmente fazem uma seleção na escola, mas eu não passei e tentei a viola.
–Se quiser, eu posso te ensinar. – Rin tinha o rosto ligeiramente corado – Aprendi quando criança.
–Sério? – Akiko arregalou os olhos – Eu quero!
–Vamos fazer o seguinte... - Teru parou de andar de repente e apontou outra vitrine – Comprem um piano pra Aki e eu aceito o novo Playstation com todo prazer.
Here
–Para ficar jogando e faltar às aulas de violoncelo? – Hakudoushi ergueu uma sobrancelha.
–Você parece um velho, Hakudoushi. – Kikyo interveio e pegou na mão de Teru para que os dois andassem na direção da loja – Sempre reclamando de coisa sem importância...
It's already been sung,
but it can't be said enough
Aquele dia estava ótimo. Era a segunda vez que Sesshoumaru tinha a oportunidade única de ver o primo, evidentemente boquiaberto com o comentário, se sentir derrotado. E nunca imaginava que seria graças à Kikyo. Segurando a mão de Rin, ele seguiu uma vitoriosa Kikyo e um satisfeito Teru em direção de uma loja de artigos eletrônicos, o primo e Akiko seguindo logo atrás.
Dentro, houve uma demora até o garoto decidir o modelo que levaria – ele feliz por saber que era tão apoiado por Kikyo. Parecia até aquele problema dos complexos tão estudados no Ocidente. Édipo e Electra. Claro que Kikyo não era mãe deles, mas...
All you need is love
Na hora de pagar, Teru acompanhou Kikyo ao caixa e pegou o cartão dela:
–Posso passar? Posso? – ele esticou a mão para passar a faixa magnética do cartão na máquina, mas parou ao ver outro modelo parar diante dos olhos, exibido por outra mão.
–Pode usar esse. – Sesshoumaru, segurando um cartão de crédito platinado, oferecia ao menino para que pagasse o brinquedo.
Por um instante, uma fração de segundos, pareceu ao mafioso que Teru estremecera ao encará-lo. Viu-o recuar, aproximando-se mais de Kikyo, quase a esconder-se atrás dela. Não aceitara o cartão, também.
–Teru... – a protetora falou – Aceite a oferta de meu irmão.
O garoto arregalou os olhos.
–É mais irmã de Inuyasha que minha. – Sesshoumaru corrigiu, sem ligar muito para a expressão do pequeno.
–Faça isso pelo menos pela mulher dele, se está sem jeito com a generosidade dele. – ela continuou, pegando o cartão do aliado e indicando Rin com a cabeça – Ou prefira pensar que ele quer que compremos este videogame... – segurou a mão de Teru e habilmente a manipulou para efetuar o pagamento na máquina – para Hakudoushi ficar irritado, certo?
Teru concordou timidamente com a cabeça e murmurou:
–O-Obrigado.
Is this just another phase?
Of earthquakes making waves
Depois de uma tarde de compras, ao final do dia todos estavam reunidos à mesa da grande sala, ao típico estilo japonês: no chão, sentados sobre as próprias pernas em seiza. Kanna era a única a ficar de fora, limitando-se a ir e voltar com os pratos da cozinha para a sala.
–Você pode sentar conosco, Kanna. – Teru deu um espaço no chão.
–Eu janto depois, Teru-kun. – a guardiã na Noruega sentiu novamente o olhar Sesshoumaru, ciente de que este a observava desde que chegaram ali.
A au-pair retirou-se. Nem precisou ficar atrás de portas ou à espreita para escutar o resto da conversa:
–Ela é uma empregada? – Sesshoumaru bebeu um gole de saquê.
–Kanna cuida deles quando estou longe, cuidando dos meus negócios. – Kikyo passou a mão nos longos cabelos e jogou-os para trás – Né, Teru?
–Ela é legal, só quando não me manda ir pra aula de música. – o menino confirmou enquanto comia uma porção de yakimi.
–O rosto dela me é familiar. – o mais velho comentou.
Obviamente ele não percebeu que a mão de Kikyo com o pires de saquê estremecera ligeiramente:
–Deve ser só impressão sua. – ela bebeu um gole e tentou mostrar-se o máximo possível indiferente – O rosto dela é muito comum. Mas faz um sake excelente.
–Havia alguém parecida com ela na sua guarda pessoal, não?
–Hmm... é? – ela tinha um sorriso preguiçoso – Acho que não. Pra mim, todos têm a mesma cara quando estão de uniforme.
–Vou pegar mais yakimi. – Hakudoushi levantou-se de repente e seguiu em direção à cozinha.
Lá encontrou Kanna à pia lavando a louça, de costas para quem entrava. Em silêncio, ele enchia a tigela de comida.
–Kanna, meu primo não é uma ameaça.
Trying to shake the cancer off?
Oh, stupid human beings
A au pair nada respondeu. Apenas quando ele saiu da cozinha, ela tirou de dentro do quimono uma automática e a guardou no cômodo mais alto da cozinha.
–Eu pensei que você já tivesse ido dormir.
Sesshoumaru virou-se para ver quem interrompera os pensamentos. Estava no pátio da casa, olhando o céu sem estrelas e nublado, com as lembranças da infância ali durante o verão, com toda a família. Tinha sido talvez a única época em que se viu como uma criança normal.
Viu o primo parado na entrada preocupado, como quisesse fechar logo a casa e se retirar.
–Você já cuidou deles? Daquelas crianças? – perguntou calmamente e o viu confirmar com a cabeça.
–E volto amanhã para Tokyo. Prometi à tia Izayoi que ficaria só um dia aqui.
–Ela sabe a respeito de Kikyo e esses dois? – Sesshoumaru ficou um pouco surpreso. Sabia que era perfeitamente possível que aquela mulher conhecesse a história por trás daquelas crianças.
–Está frio aqui fora. – Hakudoushi desconversou, entrando na casa – Melhor entrarmos. Preciso pôr os dois na cama.
Os "dois" a quem ele se referia era Akiko e Teru, que dormiam na sala com a tevê ligada num canal de desenhos. Seguindo o primo silenciosamente, ele o viu pegar a menina do sofá cuidadosamente e segurá-la com extremo cuidado, a cabeça dela apoiada no ombro esquerdo dele. Sesshoumaru desligou a tevê e esperou Hakudoushi voltar do quarto onde os irmãos ficariam.
Once you hold the hand of love
–Sinceramente, espero que ainda não esteja com raiva por Kikyo e as crianças terem vindo para cá sem um "aviso prévio". – Hakudoushi pegou Teru nos braços com o mesmo cuidado que pegara a menina – Kikyo estava apressada e decidiu tudo em menos de um dia, este foi o único lugar que pensei em oferecer por ser o mais discreto.
–Entendo. – Sesshoumaru sentou-se no sofá, lugar antes ocupado por Akiko, cruzando os braços e fechando os olhos – Ela me falou que vai comprou uma casa para eles aqui na província. Vai mobiliar antes.
–Oh. Eu não sabia disso. – ele piscou e parecia realmente surpreso – É bem difícil Kikyo comprar imóveis fora de Kanto.
It's all surmountable
–É claro que você sabe dessas coisas sobre ela, não?
Hakudoushi preferiu não responder. Ele tinha razão, certo? Não era nenhuma novidade que ele conhecesse uma ou duas coisas a respeito da líder dos Higurashi.
–Desligue as luzes ao sair, por favor. – falou, retirando-se para levar ao quarto o também protegido.
Sozinho, o líder da família Akai apreciou o silêncio por dez minutos ou mais. Só não quis ficar mais tempo ali porque precisava voltar ao quarto onde iria dormir com Rin.
Encontrou-a já deitada, provavelmente dormindo devido ao cansaço. A viagem de trem havia sido longa e eles planejaram descansar pela tarde. Aquilo não acontecera: encontraram aquele menino caído no lago da propriedade, passaram a tarde toda andando em grupo no centro da cidade, irritaram Hakudoushi e a compra daquele brinquedo...
Depois de vestir a roupa de dormir, ele deitou-se ao lado dela, mas não fechou os olhos. Sem sono, ficou a encarar o teto.
Meia hora depois, ainda não havia conseguido dormir. Sentando-se, ele apoiou as costas na cabeceira depois de mudar posição pela quarta vez.
Segundos depois, ouviu a pergunta:
–Alguma coisa está incomodando você?
O rapaz olhou a garota, ainda deitada de lado e com os olhos fechados, por cima do ombro.
–Achei que tivesse percebido que eu estava acordada desde que entrou. – Rin continuou, sentando-se na cama.
Não perceber que ela estava acordada era algo que raramente escapava-lhe aos sentidos. Admitiu: sim, havia algo que o incomodava.
E o que era?
–Desculpe... Eu realmente pensei que estivesse dormindo.
Rin sentou-se sobre as pernas na cama e aproximou as mãos do rosto dele, observando se conseguia enxergar alguma feição mudar. Como isso não acontecera, e ele ainda fingia-se de tranquilo, resolveu tomar a iniciativa:
–Vai me contar o que está tirando o seu sono?
Hold me and make it the truth
Foi rápido, mas parecia que um brilho de alívio passou pelos olhos dourados. Como estava escuro, ela não pôde ter certeza.
–Sesshoumaru? – a voz dela soou preocupada – Tem algo mesmo incomodando?
That when all is lost
there'll be you
Escutou um suspiro escapar dele. As mãos dele tocaram as dela para levá-las aos lábios. Rin permaneceu calada até que ele resolvesse falar:
–Eu cometi um erro há alguns anos. – ele não a olhava diretamente nos olhos durante a confissão, limitando-se a observar os dedos e as costas das mãos, deslizando o polegar nas linhas das palmas dela – Pensei que nunca perderia o controle, que isso nunca aconteceria. Até hoje eu não sei as consequências de ter agido da forma como agi naquela noite.
Rin sabia de qual noite ele estava falando. Não era sobre quando se conheceram. Não era da noite quando ele a levou para a cama. Nem de quando houve a invasão na mansão e ele chegou pronto para proteger todos.
Apertando as mãos dele, ela hesitou um pouco:
–Eu não sei bem o que falar sobre isso... – os lábios estavam levemente secos e precisou umedecê-los – Mas é algo bastante humano errar por alguma decisão sem ligar pras consequências dela. E sempre é bom admitir que erramos e evitar um próximo.
Cuz to the universe,
I don't mean a thing
–A questão é... – ele a encarou, apesar do escuro – Eu não sei se posso evitar uma próxima vez.
–"Não"? – ela pareceu ligeiramente assustada.
–Eu tive um motivo para agir como agi da outra vez, e hoje eu tenho outro, mais importante. – viu Rin arregalar os olhos quando a trouxe para perto de si, colocando um braço por trás da cintura e colocando-a sentada no colo dele – Posso fazer algo pior se alguma coisa acontecer com esse "motivo".
And there is just one word
I still believe
Rin gemeu e estremeceu ao sentir os lábios dele deslizarem pelo pescoço.
and it's love...
–Meu motivo. – ele declarou ao ouvido dela, fechando os olhos.
A garota olhou para trás, receosa.
–Não vamos incomodar ninguém, né? – ela sussurrou.
–Está falando de Hakudoushi? – falou contra o pescoço dela.
–Hm. – ela confirmou com a cabeça.
–Ele deve estar também com os "motivos" dele, minha Rin. – ele a deitou na cama e ficou por cima dela – Ele só ficará aqui esta noite, afinal de contas.
–Oh. – ela murmurou realmente surpresa – Os dois estão juntos mesmo?
–O que você acha? – ele mordiscou o queixo dela – Foi você que me avisou sobre eles naquela festa do Imperador. Se não tivesse comentado, eu nunca teria notado.
–Então eu estava certa? – ela piscou novamente ainda mais surpresa.
–Você percebe algumas coisas além do esperado. Deve ser uma habilidade sua. Acho que foi por isso que Bokuseno queria que esses olhos observassem algumas coisas quando ele a colocou como líder da família. – ele tocou com o polegar a têmpora próxima ao olho direito dela.
Mudando novamente de posição, Sesshoumaru sentou-se na cama e a puxou para junto dele, deslizando a mão pelas costas dela ainda cobertas pelo roupão cor de salmão.
–Diga-me, minha Rin... – ele começou num sussurro – Qual é a impressão que você teve das crianças?
Rin franziu a testa e olhou para trás como se pudesse observar pelas paredes o quarto onde os irmãos dormiam tranquilamente.
–O que você quer saber?
Deu um gemido quando ele começou a afrouxar o nó do roupão.
–São filhos de Kikyo? De Hakudoushi eu sei que não são. – Muito diferentes, ele pensou. Se fossem, teriam um ou dois traços da ascendência do primo.
–Oh, parecem ser bem ligados a ela, mas não acho que sejam filhos. Ela os adora. Minha outra mãe também era assim. Devem ser adotados mesmo.
Adotados de onde, então?
O dedo dele deslizou sedutoramente pelos lábios dela.
–Eu pensei que eles pudessem ser parentes daquela babá. – ela comentou enquanto também tirava a roupa dele, ajeitando-se ainda mais naquela posição, guiada pelas mãos de Sesshoumaru. Daquela vez, ele ia querer que ficasse por cima – Ela parecia que iria atacar você a qualquer momento por ficar perto deles.
Um brilho de perspicácia passou discretamente pelos olhos dele, tão rápido que ela não percebeu.
–Muito bem, minha Rin. Podemos continuar o treinamento dessas suas habilidades depois. – ele tirou de uma vez o roupão dela e jogou longe, ajudando-a depois a tirar a roupa de dormir. Iria ser uma boa noite. Sesshoumaru queria que ela tivesse boas lembranças dentro daquela casa, assim como ele também tinha.
It's an art to live with pain,
mix the light into grey
Uma fumaça mais demorada escapou dos lábios de Kikyo antes de novamente pôr um cigarro nos lábios. Tinha sido proibida de fumar o dia inteiro, e naquele instante era realmente um alívio perceber que as crianças já estavam dormindo, Kanna se retirara e Hakudoushi...
Jogada no sofá, pernas esticadas, cabeça apoiada numa das almofadas e cabelos jogados para trás, ela fixou o olhar no teto antes de tragar uma última vez até o cigarro acabar.
And if our lives became too long,
Would it add to our regret?
–Divertindo-se? – escutou Hakudoushi perguntar.
Jogou a cabeça um pouco mais para trás, esticando o braço para apagar a ponta do cigarro num cinzeiro da mesa ao lado. Parado na entrada do corredor que levava aos demais aposentos, braços cruzados e corpo apoiado contra a parede, pareceu que ele esperava pelo momento em que ela terminasse aquele cigarro para poder se aproximar.
–Posso fumar agora, né? – ela fez-se de indiferente.
–Por mim, nunca mais você tocaria num cigarro na vida. – ele desencostou-se da parede e aproximou-se.
And the young they can lose hope
Cuz they can't see beyond today...
–Sério? – ela perguntou num tom indiferente, abrindo o maço para tirar outro cigarro, sentando-se no sofá.
Uma mão branca, habilidosa e gentil tirou-lhe o cigarro das mãos.
–Pare com isso, Kikyo... – ele pediu num sussurro educado, típico da parte dele – Eu realmente me importo com sua saúde.
Um leve arquear de sobrancelhas apareceu naquela fronte branca, com um sorriso divertido que se formou nos lábios dela.
The wisdom that the old can't give away
–Verdade?
Hey
–Claro. – ele ficou sentado em frente a ela, buscando a ponta da mesa como assento. Deste modo, podiam ficar frente a frente, olhos nos olhos – Sabe que eu sempre tive meus motivos para isso.
Constant recoil
O sorriso ficou mais largo em Kikyo.
–"Motivos"? – ela repetiu.
Ficaram em silêncio, aproveitando apenas o som das cigarras/grilos do lado de fora.
Sometimes life don't leave you alone
–Você está tendo um caso com Naraku, Kikyo? – ele perguntou num tom gentil. Não havia raiva ou ciúme algum na voz. Ele parecia... interessado em querer conhecer aquela história.
O sorriso morreu. Uma expressão mais sombria surgiu.
–Se chama de "caso" uma relação em que duas pessoas só vivem trabalhando e viajando, eu respondo: sim, estou tendo um caso com Naraku. – a voz estava incrivelmente irônica – E também com Bokuseno, com seu primo e, é claro, não posso esquecer, com você.
Hold me and make it the truth
that when all is lost there will be you
Desta vez quem sorriu foi ele.
–Não me agrada essa ideia de dividir você com eles.
O som dos grilos tomou conta novamente da sala.
–Se deixa você feliz... – ela permitiu-se sorrir novamente – você e eles sempre foram "motivos" meus.
–Sempre? – ele arqueou as sobrancelhas e um meio-sorriso – Det lager meg glad.
Cuz to the universe, I don't mean a thing
and there is just one word I still believe
–Pra você também. – Kikyo virou o rosto, fingindo-se de ofendida por não entender o que ele falava.
Hakudoushi levantou-se e suspirou profundamente.
–Mas eu falo sério quando se trata de você e Naraku. – ele a olhou por cima do ombro e Kikyo sentiu um arrepio ao ver, depois de tanto tempo, um conhecido brilho de ameaça naqueles olhos lilases – Não quero esse homem perto de você.
And it's love
A líder da família Higurashi levantou-se no ímpeto e fúria que já eram característicos da pessoa dela. Antes que pudesse abrir a boca e reclamar, Hakudoushi já havia se afastado para ir embora e deixá-la sozinha na sala.
Love, love
–E também falo sério quando digo que você é motivo meu. Apenas meu. – ele finalizou, desaparecendo no corredor e fazendo soar uma porta fechando.
love boat captain, take the reigns, steer us towards the clear
I know it's already been sung, it can't be said enough
love is all you need... all you need is love
love, love...
Próximo capítulo:
"–Não vou falar qual é o nome dele!"
"–É pra matar?"
"–Se quiserem, podem atirar na Shiroi que está por lá."
Capítulo 19: Humor para problemas.
