A cor do dinheiro

Capítulo 19: Humor para Problemas

Para a minha Rin-chan

A mulher deitada ao lado de Sesshoumaru murmurou alguma coisa durante o sono ao sentir o corpo dele se afastar. Ele sentou-se na beirada da cama e olhou-a curiosamente. Será que havia acordado desta vez?

Nos últimos dias, Sesshoumaru notara que Rin demorava a dormir por estar estranhamente disposta e agitada para tudo. Estava sempre sem sono, dando trabalho para dormir, com vontade de brincar com Shippou, andar por aí ou simplesmente fazer sexo. Como o rapaz sempre gostava das coisas em ordem, essa última parte era sempre controlada por ele. Sabia que havia alguma coisa errada, e devia ser por causa daqueles remédios que o primo Hakudoushi indicara para ela.

Abriu a gaveta e tirou o vidro de lá, lendo cuidadosamente o rótulo.

Como ele suspeitava, eram remédios para dar energia, algo que faltava a Rin há pouco mais de dois meses. Estranho que ainda estivesse se medicando, mesmo estando muito melhor.

Sim, depois de semanas, ela estava se sentindo muito melhor com ele. E o jovem líder orgulhava-se do fato.

Por isso Rin não precisava mais daqueles comprimidos, concluiu ao curvar-se sobre o corpo dela e beijar-lhe o rosto.

-Hmm... – ela murmurou sonolenta, mas não abriu os olhos.

Estava cedo ainda. Geralmente não costumava sair naquela hora, mas aquele dia era especial.

-Não vou sair de casa, mas tenho assuntos importantes para resolver com Hakudoushi e outras pessoas. – ele sussurrou no ouvido dela, na certeza de que, mesmo dormindo, ela compreenderia – Pode me procurar à hora que quiser.

Viu-a remexer-se debaixo do lençol e sorriu quando percebeu um movimento de cabeça. Parecia que ela fazia "sim".

Resolveu tomar banho para ficar preparado para o dia. Ao terminar de vestir a camisa, aproximou-se novamente de Rin e viu o sorriso dela, mesmo de olhos fechados.

-Não precisa fingir. – ele passou o dedo para tirar o cabelo da testa dela – Prometo não ficar zangado.

O sorriso dela alargou e ela abriu os olhos, esfregando-os com certa preguiça.

-Na verdade, queria continuar dormindo... – ela confessou, sentindo o rosto dele ficar mais próximo ao dela – Demorei pra pegar no sono esta noite.

-Oh? – ele ergueu a sobrancelha – E não foi porque tive que fazê-la mudar de ideia?

-Está fazendo piada de novo sobre minha disposição pra sexo?

Sesshoumaru ergueu novamente a sobrancelha. Aquela frase era comum saída da boca de Miroku, mas de alguém como Rin... Tão tímida e educada...

Será que era sinal de que as coisas estavam totalmente mudadas?

-Este Sesshoumaru não faz piadas, caso não lembre. – a frase soou fria, o que ele tratou de corrigir ao vê-la empalidecer e morder o lábio inferior – E sua "disposição para sexo" nada mais é que um efeito desses remédios – mostrou o vidro para ela – que Hakudoushi passou para você há algumas semanas.

Rin continuou sem palavras e assustada.

-Acredito que esteja na hora de parar com eles. – ele beijou a testa dela – Não precisa mais disso, certo?

-Eu não sei... – ela escondeu parte do rosto com o lençol e olhava-o timidamente – Eu achei que você era... viciado nessas coisas desde aquela noite que voltou de sei-lá-onde.

Sesshoumaru lembrou-se da madrugada daquele dia da reunião do Conselho. Ela mesma havia dito que tinha sido demais para uma noite só.

-A questão não é de eu ser viciado em sexo, como pensa. – ele beijou mais uma vez a testa e completou com um meio-sorriso que a fez piscar de surpresa – Eu gosto de você, apenas isso.

Viu-a sorrir e ficou em pé.

-Entendido?

Rin sorriu e mordeu novamente o lábio inferior e parecia hesitar em dizer alguma coisa.

-O que foi? – ele quis saber.

-Nada. – ela continuou sorrindo e fechou os olhos, voltando a deitar-se de lado – Vou dormir mais um pouquinho.

-Fique à vontade. – ele acompanha os movimentos dela com o canto dos olhos enquanto abotoava os punhos da camisa social. Não deixou de sentir aquele... desapontamento que sempre aumentava com o passar dos dias.

Parecia ser bobagem sentir isso. Quer dizer, era bobagem sentir. Ele compreendia perfeitamente o motivo daquela hesitação dela, a timidez, as dúvidas, mas...

Rin não deveria sentir isso depois de semanas ao lado dele. Sem mais medo, sem mais timidez, sem mais dúvidas.

E o motivo de estar tão desapontado era que...

-Bom trabalho, Sess. – ela murmurou antes de voltar ao sono.

-Obrigado. – ele murmurou mais para si mesmo que para ela.

... Rin nunca dissera que o amava.

Não precisava ele sentir-se assim, certo? Ambos tiveram tantos momentos juntos, tanta coisa boa que passaram... E eles se conheceram há pouco tempo!

E sempre, sempre ele procurou dizer e mostrar o quanto gostava dela, o quanto a amava.

E Rin mostrava, mas não dizia...

Por isso parecia ser bobagem ficar desapontado, e tratou de esquecer tais coisas.

Deu um suspiro antes de abrir a porta do quarto, lembrando-se do significado daquele dia.


Dois meses passaram desde a última reunião do Conselho da Yakuza.

Nela, problemas como a liderança da família Shiroi e a possível volta de Hakudoushi à máfia foram discutidos. Além disso, havia um combinado: em dois meses, a partir daquela data, haveria uma luta entre duas das famílias presentes à mesa, na qual se resolveria com quem uma grande fortuna ficaria.

Dito isso, o tempo foi marcado e alianças foram feitas.

-Muito bem. – Miroku mostrou uma tigela de creme de morango a Kagome, que estendeu os braços para tentar agarrá-la. Pigarreou e tentou adivinhar – É "Daichi"?

-É, é, é! É sim! – a mulher de Inuyasha queria desesperadamente a tigela – É um nome muito lindo, né? Agora me dá! Dá pra mim!

Miroku estreitou os olhos. Era a terceira vez que ela confirmava a aposta de qual seria o nome do menino que nasceria em breve. Muito em breve, para dizer a verdade.

-Mentir é feio, Kagome-sama. – ele apontou o indicador e moveu-o negativamente.

Cansada em, pela terceira vez, ver um delicioso lanche ser negado, Kagome fez um beicinho. Sempre que Miroku dizia um nome para tentar adivinhar aquele que, a sete chaves, ela e Inuyasha escolheram para o filho deles, Kagome confirmava. Só que Miroku era um homem esperto, e percebera que ela só fazia aquilo para ganhar a tigela de creme.

-Ah, não... – o primo previu que algo ruim aconteceria. Ela estava fazendo beicinho. O rosto estava vermelho. Os olhos lacrimejavam...

-INUYASHAAA! – ela berrou para ser ouvida por toda a casa.

-Maldição, Kagome-sama! – ele rapidamente entregou a tigela chantagista – É golpe baixo apelar, sabia?

-Sorte minha que ele é seu primo. – ela enfiava a colher na boca com extrema rapidez, habilidade adquirida no período de gravidez.

-KAGOME! – Inuyasha apareceu na sala, empurrando a porta com o pé – 'Tá na hora?

-Não. – ela sorriu e limpou o canto da boca com o dedo, sujo por causa do creme – Eu 'tava com fome, mas o Miroku já trouxe o que eu queria.

-Já? – o marido enrugara a testa. Como o Miroku conseguiu ser mais rápido que ele?

Uma confirmação de cabeça veio por parte de Kagome, acompanhado de um sorriso muito doce e inocente. Miroku estava estranhamente pálido, mas também sorria, só que mais abobalhado.

E o tempo passou. Exatos dois meses passaram.

-Isso foi Kagome? – Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas e olhou o teto, curioso em saber se a voz vinha do andar de cima.

-Deve ser Miroku querendo saber o nome do filho dela. – Hakudoushi opinou.

Ambos estavam no escritório do médico. Apesar de ter sido Sesshoumaru que o procurara para conversar, eles ainda não haviam trocado mais que cinco ou seis palavras.

-Eu soube que os guardas estão participando da aposta. É um nome mais estranho que o outro. – o líder da família comentou.

-Eu sei. – Hakudoushi estava sério, não tirando os olhos do papel – Até tia Izayoi está participando.

-E qual ela acha que é?

O primo tirou os olhos do papel e ergueu o rosto, fitando o líder com o semblante tranquilo.

-Você não veio aqui para falar disso, não é? – perguntou.

Sesshoumaru, em pé diante da estante de livros de medicina do escritório, voltou-se para encará-lo, igualmente sereno. O porquê de estar tão relutante em conversar, até ele queria saber.

-Ainda estou pensando no que falar. – ele simplesmente falou.

-Quer minha ajuda? – Hakudoushi se ofereceu.

O mais velho não respondeu. Mas, pelo silêncio, era óbvio que queria. Só que nunca, nunca diria isso ao médico.

-Vamos começar... – Hakudoushi apoiou as costas na cadeira e tinha um discreto sorriso, o que irritou de certa forma o líder – Sesshoumaru, meu primo, você sabe que dia é hoje?

Saindo de perto da estante, o líder dos Akai teve mais que liberdade de pegar uma cadeira e sentar-se.

-Dois meses, Hakudoushi.

-Impressionante, não? – o primo sorriu – Ontem fiquei pensando nisso. Só não comentei porque...

Ficaram calados. Querendo saber mais, Hakudoushi continuou:

-O que pretende fazer?

Sesshoumaru deu um sorriso maligno:

-Não adivinha?

-Não tenho ideia. – Hakudoushi admitiu – Só um temor.

-"Temor"? – o meio-sorriso de Sesshoumaru ficou mais evidente – E desde quando sabe o que é isso?

-Você sabe que... – Hakudoushi inclinou-se mais para frente, apoiando os braços na mesa – Sendo meu primo e tendo seus motivos, eu o apoiaria no que me parecesse mais justo.

-Vai me apoiar hoje, então?

O médico piscou duas, três vezes. Fez silêncio e inclinou o rosto para o lado.

-Eu não gosto de momentos de indecisão. – Sesshoumaru levantou-se e rumou à porta – Vou deixá-lo pensando.

-"Toga".

-O quê? – ele parou, já com metade do corpo para fora da sala.

-"Toga". – Hakudoushi repetiu – Tia Izayoi pensa que vão chamar o menino de "Toga".

O líder continuava tão inexpressivo quanto o usual ao comentar:

-E eu que achava que só os guardas apostavam em nomes estranhos... – e saiu.

Reprimindo a vontade de rir, o médico fechou os olhos e apoiou a cabeça entre as mãos. Afinal, assim como o primo, ele também detestava momentos de indecisão.

Se lutasse ao lado do primo, seria uma declaração de retorno à máfia. Se fosse o contrário, seria...

Pensou em Akiko e Teru, e também em outra pessoa.

Alguém bateu para entrar e ele recuperou a pose séria, ajeitando os papéis que lia antes e a postura.

-Pode entrar.

O rosto dele continuava voltado aos documentos, fingindo não prestar muita atenção em quem entrou e puxou uma cadeira para sentar-se. Os dois ficaram em silêncio provavelmente porque Hakudoushi esperava que a pessoa se pronunciasse, mas este resolveu falar antes quando a pessoa fez um movimento:

-Não pode fumar aqui... tirou a vista do papel – Kikyo.

A líder da família Higurashi brincava com um cigarro de chocolate entre os dedos, sorrindo com certa satisfação.

-Achei que não precisaria usar um de verdade para chamar sua atenção. – ela tirou o papel laminado da ponta e a mordeu – Não me viu entrar?

-Queria falar comigo? – ele levantou-se e foi a um arquivo, tirando uma pasta cor bege de uma das gavetas para guardar os papéis já lidos. Tirando outros de lá, ele voltou à cadeira.

Ficaram novamente em silêncio.

-Hakudoushi... – Kikyo jogou numa lixeira próxima o que restou da embalagem do cigarro de chocolate – Você sabe qual vai ser o nome do meu sobrinho?

O médico não deixou de lançar-lhe um olhar curioso.


À tarde.

Todo mundo sabia que, desde que Shiroi Rin começara a morar na mansão Akai, o jardim era o lugar preferido pela garota para passar o tempo: seja em companhia de Shippou, de Kagome, ou de qualquer outro que precisasse relaxar e conversar.

Naquele dia, o 60º depois da última reunião, Rin aproveitou o dia livre de Shippou para se divertir com ele, ajudando-o nos deveres de casa – que ele deveria fazer sozinho.

O único problema naquela tarde era que ela se sentia... estranhamente espionada.

-Rin! – Shippou gritou ao vê-la tão distraída – 'Tá tudo bem?

Sem graça e olhando rapidamente por cima do ombro para trás, ela moveu a cabeça num "sim" ao sentir de novo aquela estranha... coisa que sentimos quando alguns olhos estão grudados em nós.

-Tem alguma coisa lá atrás? – ele perguntou, olhando a mesma direção que ela.

-Nadinha, Shippou, não se...

De repente, barulho. Folhas farfalharam, passos foram ouvidos. Rin e Shippou recuaram um passo ao ver uma guarda inteira – a guarda comandada por Sango – ficar diante deles, saída das sombras.

-Senhora Akai. – um deles deu um passo e dirigiu-se a Rin, por saber que era protegida de Sesshoumaru – Precisamos ter uma conversa séria com a senhora...

Rin arregalou os olhos e Shippou escondeu-se atrás dela.


Mais tarde, depois do jantar:

Akai Kagome, membro de sangue da família Higurashi, sentia fome no momento.

Em outros tempos, ela sempre tinha algo importante para estudar – uma vida tranquila que ela levou até certa idade –, quando descobriu a verdade por trás dos negócios da família. Uma herança deixada pelo pai para a irmã dela, e que ainda hoje era bem mascarada para todos os outros Higurashi e membros da sociedade. Foi em uma confusão – um caso envolvendo traição e muitas mentiras – que ela conheceu Akai Inuyasha – e depois os dois precisaram desesperadamente esconder o que sentiam até tudo se resolver.

Olhou a barriga de nove meses. Já não deveria ter tido aquele menino? A ânsia de ser mãe a deixava ligeiramente faminta. Faminta depois de jantar.

Se demorasse mais uma semana, talvez optasse por métodos não muito aconselháveis para a ocasião, como a cesariana. Não queria, não queria de modo algum, mas aquela incerteza do momento do nascimento era uma agonia sem fim, e ela detestava sentir-se assim. Queria ter um parto normal, segurar o bebê entre os braços, mostrar aos outros e...

O nariz captou um cheiro bastante familiar. Cheirando o ar como um animal, ela buscou a fonte, saindo da sala de estar da mansão.

Não costumava andar muito pelo hall que levava aos escritórios da casa. Não tinha motivos para ir a uma daquelas salas. Felizmente Inuyasha não era tão ligado aos negócios. Para quê ter uma sala?

Mas lá estava ela. Andando por lá procurando alguém... ou melhor: algo. Alguma coisa cheirava bem por ali. Alguém tinha...

-Bolo. – ela cheirava o ar como um cachorro – E ainda tá quente... Foi feito por uma mulher e...

Pessoas a observavam de longe.

-Ela parece aquele cara de Lord of the Rings.

-Aragorn? - chutaram.

-Shh. – alguém ordenou o silêncio, murmurando ao microfone escondido na roupa – Ela vai entrar.

-Obrigada. – uma voz feminina agradeceu e a comunicação cessou. Kagome havia entrado no escritório de Hakudoushi.

A mulher de Inuyasha ficou um instante imóvel, piscando, muito confusa.

-Rin-chan? – ela sorriu – Foi você quem...?

-Sim. – a jovem, sentada na cadeira do médico, tinha diante de si um redondo bolo com cobertura de chocolate e morangos – Parece bom, né?

-Ah, com certeza! – Kagome aproximou-se e descaradamente puxou uma cadeira para sentar, nem escondendo o interesse que tinha – Vai dar uma boa esposa pra Sesshoumaru-sama.

A Akai casada com Inuyasha esticou o braço para puxar o bolo para si, mas arregalou os olhos quando a que futuramente seria uma Akai o reteve.

-R-Rin...? – Kagome piscou surpresa ao ver a outra segurando uma pequena faca.

-Eu vou cortá-lo, Kagome-sama. – Rin falou educadamente, cortando o bolo em enormes fatias – Eu também quero um pedaço.

Kagome observava o movimento dela silenciosamente. Rin calmamente cortava os pedaços, tirando uma fatia para colocar num prato diante da grávida.

-O-Obri... gada... – ela agradeceu, ainda com certo receio. Havia alguma coisa errada, aquele tipo de pressentimento...

Tirando um enorme pedaço com uma colher, Kagome levou-o à boca.

Rin estreitou os olhos ao vê-la largar a colher, escutando o metal cair no chão, e parecer um pouco... assustada com aqueles olhos castanhos arregalados.

-O que foi, Kagome-sama?

-E-Eu... não... acredi... to...

-No quê? – Rin estava fria, impassível.

-Esse bolo tem...? – ela não conseguia completar.

-Tem o quê? – a outra deu um sorriso suspeito.

-RECHEIO DE GELEIA DE MORANGO? – Kagome adivinhou espertamente.

-Exato. – Rin comeu um pedaço – É seu favorito, né?

-Sim, sim. – Kagome comia surpreendentemente rápido, quase sem mastigar.

A colher parou repentinamente, e a grávida ficou em estado de choque. A mão tremeu e olhou a ainda Shiroi, que permanecia calma.

-Você... você...!

-Eu o quê, Kagome-sama?

-Você... – ela se levantou e deu um passo para trás – Você está nessa aposta, não é? – falou com certa raiva.

-Bin-go. - Rin ergueu um braço e estalou os dedos. Imediatamente a porta abriu e uma guarda apareceu, ficando alguns atrás de Kagome, outros atrás dela.

-Eu achei que fosse minha amiga! – a outra gritou, indignada – Mas é como os outros! Quer só me comprar com essas coisas gostosas!

-Colabore, Kagome. – alguém falou atrás dela e ela arregalou os olhos ao ver quem era – Não queríamos te torturar usando essas coisas!

-Shi... Shippou-chan! – ela ficou boquiaberta ao ver o filho adotivo de braços cruzados e expressão séria diante de uma guarda, como se fosse líder desta – A-Até você...?

-Quer mais um pedaço, Kagome-chan? – Rin a fez virar-se com a pergunta. Esta segurava um prato com mais uma fatia – Acho que você gostou, não?

-Não adianta... – A grávida a encarou com muita coragem – Não vou dizer o nome dele!

As duas se encararam. Olho por olho, desafio por desafio.

-'Tá bom. – Rin deu de ombros – Vamos comer tudinho. – tirou mais pratos de plástico de uma das gavetas e começou a colocar mais fatias para entregar aos guardas – Não vamos deixar pra você.

-E-Ei! – Kagome gaguejou e tremeu.

-Ah, não... – um dos guardas murmurou.

-O quê? – Rin não entendeu.

Os guardas a levantaram e um deles a carregou no colo, saindo correndo dali no exato momento em que Kagome gritou para a casa inteira ouvir:

-INUYASHAAAA!

-A prioridade agora é tirar Rin-sama daqui! A guarda de Kikyo-sama pode saber que ela é nossa aliada! – um dos guardas falou ao que segurava a protegida de Sesshoumaru durante a correria pelas escadas.

-E-Ei! Esperem! – ela gritou – E Shippou-chan?

-Ele sabe se cuidar, Rin-sama. – o que a segurava respondeu fria e calmamente.

-Não! – ela se debateu, tentando se soltar – Esperem! – enquanto gritava e esticou os braços como se quisesse segurá-lo, mais ia se distanciando do pequeno, que escorregava pelo corrimão para ir se esconder em outro lugar, ainda acompanhado por outros guardas – SHIPPOU-CHAAAN!


-Isso foi aquela Shiroi? – Kikyo olhava para a porta do escritório de Sesshoumaru como se esperasse que esta abrisse e revelasse o que se passava do lado de fora.

A jovem líder Higurashi estava sentada perto da janela do escritório de Sesshoumaru. Este permanecia imperturbável à mesa, na cadeira dele. Também estavam presentes os primos, Kouga e Sango. O irmão saíra correndo antes, quando Kagome dera um grito anterior ao de Rin.

Muitos esperavam que Sesshoumaru também fizesse mesmo quando a voz da protegida dele foi ouvida aos gritos. Mas isso não acontecera. Sesshoumaru continuou sentado, calmo, pensativo.

-Ah, não... – Miroku ficou preocupado e fez menção de sair – Rin-sama também entrou na aposta?

A mão de Hakudoushi o parou:

-Fique calmo, meu primo. – ele deu um meio sorriso consolador – Nem sempre a gente ganha todas as apostas que faz na vida.

-Vou perguntar se ela pode dividir o dinheiro comigo. – Miroku cruzou os braços e parecia uma criança contrariada.

-Isso não será possível.

Todos olharam em direção de Sesshoumaru, este de mãos cruzadas em frente ao rosto, fitando seriamente a todos.

-Ela já disse que vai dividir o dinheiro comigo e com Shippou. – ele completou.

-Isso se por acaso o meu aliado não conseguir o feito antes. – Kikyo deu um sorriso misterioso.

Sesshoumaru estreitou os olhos.

-Não se esqueça, Kikyo, que eu sempre sei quem está do meu lado.

Desta vez, quem estreitou os olhos foi ela.

-Não pensava que eu descobriria sobre Shippou, Kikyo? – Sesshoumaru perguntou.

Todos a viram arregalar os olhos.

-Tomando as palavras de meu primo... – ele continuou, ignorando o olhar de ameaça dela – Nem sempre a gente ganha todas as apostas que faz na vida.

A porta abriu-se repentinamente e Rin foi empurrada para dentro por alguém, que fechou a porta antes que ela pudesse tentar sair. Do lado de fora, viram Shippou, em posição de comando, gritar:

-Peguem aqueles Akais!

Rin quis bater com os punhos nela e gritar, mas antes de fazê-lo a voz de Sesshoumaru a parou:

-Estão atrás de Inuyasha e Kagome, Rin?

A garota virou-se assustada. Parecia que não tinha percebido onde a haviam empurrado... Ficou ainda mais embaraçada por estar em frente a tanta gente importante, gente que sabia que fazia parte dos negócios de Sesshoumaru. Será que atrapalhou alguma coisa?

-Não está nos atrapalhando, se é isso que pensa. – ele levantou-se e ficou encostado à mesa, estendendo a mão para ela – Pode vir.

Mesmo sabendo que ninguém tinha interesse em observá-la atravessar a sala para ir até Sesshoumaru, ela sentiu o rosto ficar aquecido. Talvez fosse por causa disso, ou por causa dele, nunca se sabe. Aceitou a mão estendida e sentiu o corpo quase colar ao do rapaz.

-Ela gritou antes de dizer o nome?

Rin movimentou a cabeça num tímido "sim", incerta se poderia ou não falar abertamente sobre o assunto.

-Seria bom amarrar o Inuyasha das próximas vezes. – ela meio que murmurou, mas deu para todo mundo na sala ouvir – Todo mundo foge de medo por causa dele... Aí ela não diz mais nada.

-Oh? – Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas, surpreso com aquela observação. E não é que ela estava mesmo certa?

E o jovem mafioso notou os olhares que alguns naquela sala – incluindo Kouga – trocaram ao ouvir aquela ideia: uma pequenina ideia que ninguém ainda havia pensado em fazer.

-Fiquem onde estão. – Sesshoumaru ordenou ao ver Kikyo, Kouga, Sango e Miroku fazerem menção de sair da sala. Hakudoushi parecia se divertir com tudo, preferindo manter-se neutro naquela aposta – A reunião ainda não acabou.

-Oh? – desta vez quem murmurou foi Rin – Eu atrapalhei...?

-Não. – Sesshoumaru balançou a cabeça – Estamos quase terminando... Mas a chamei para falar algo.

-"Falar"? – ela repetiu um pouco surpresa – Então, os guardas me trouxeram pra cá...?

-Eles sabiam o que fazer desde o princípio. – ele a interrompeu e aproximou-se do ouvido para sussurrar – Espere-me no quarto. Vou subir daqui a pouco.

Um vermelho passou pelo rosto dela; o sorriso ficou doce; a cabeça moveu confirmando o pedido.

As mãos se soltaram e os olhares continuaram unidos. Olhos dourados encarando castanhos da cor de chocolate.

Ao virar-se para fazer uma reverência aos outros presentes, Rin arregalou os olhos ao deparar-se com Kouga e Sango remexendo uma caixa de fios de cobre; Miroku testando a firmeza de uma corda; Hakudoushi tentando fazer Kikyo soltar uma quantidade de arame farpado suficiente para fazer uma pequena cerca numa fazenda do interior. Ninguém sabia de onde aquilo havia saído, mas sabia-se exatamente a finalidade de tudo.

-Bo-Boa noite... – ela murmurou e recebeu um cumprimento de cabeça deles. Saiu da sala e a cena continuou até todos ouvirem um pigarrear de Sesshoumaru.

-Voltando a assuntos mais sérios... – o líder começou, voltando a sentar-se – O plano está correndo, o tempo está passando. Caso ainda tenham dúvidas ou queiram desistir, agora é hora de dizer.

A porta abriu e viram Inuyasha entrar, este apagando o cigarro logo na entrada do escritório do irmão. Ele fechou a porta e arqueou as sobrancelhas ao ver tantos fios de cobre, arame e cordas no local. Será que já estavam prontos para o ataque?

-Eu já tô pronto. – ele anunciou, colocando a mão nos bolsos – Kagome já foi pro quarto.

-Nenhuma pergunta? – o líder Akai estreitou espertamente os olhos.

Miroku levantou timidamente o braço, como um aluno com medo do professor.

-O que é? – o primo quis saber.

-É pra matar?

A resposta do jovem líder veio fria:

-Naturalmente que sim.

Os outros sorriam tranquilamente.

Exato um minuto se passou, e então Sesshoumaru levantou-se:

-Esta noite será muito longa, meus senhores. – ele deu um sorriso maligno.


Mansão Shiroi:

-Mais alguma pergunta, senhores? – Bankotsu cruzou os braços displicentemente atrás da nuca, balançando-se de quando em quando na cadeira. Em frente a ele, outros líderes da yakuza, rostos escondidos pelas sombras da sala pouco iluminada, o fitavam curiosamente.

Silêncio se fez. Bankotsu levantou-se depois que um minuto se passou. Os outros fizeram o mesmo.

-Boa "caçada", meus caros. Tenho certeza do sucesso de todos.

As sombras se ergueram dos lugares e rumaram à porta, parando a poucos segundos de sair:

-E... – Bankotsu coçava um dos lados do rosto – Se quiserem, podem atirar na Shiroi que está por lá. – completou, dando um sorriso esperto.


Prelúdio

-Ei, ei! – Miroku corria ofegante atrás de Sesshoumaru, quando este estava quase para entrar no quarto para ver Rin.

-O que foi? – o primo parou e ergueu as sobrancelhas ao vê-lo alcançá-lo.

-Esqueci de entregar. – pegou algo do bolso da calça e entregou na mão do outro – Ia sair carregando isso...

Sesshoumaru abriu o objeto – uma pequenina caixa preta – e o abriu, sorrindo ao ver o conteúdo.

-Era esse, né? – Miroku tranquilizou-se ao ver o meio-sorriso do primo. Se fosse o contrário...

-Obrigado. Era exatamente nesse que eu pensava. – fechou a caixa e fez menção de abrir a porta – Boa noite, Miroku.

-Boa sorte com sua menina. – o outro fez um sinal positivo com o polegar.

Sesshoumaru abriu a porta e fechou-a atrás de si ao ver Rin sentada na beirada da cama, começando a tirar a camisa e sorrindo diante da expressão de surpresa dela. Do lado de fora, Miroku voltou a correr, mas desta vez para alcançar um grupo que descia as escadas.

Kouga ia à frente e olhava o relógio, Sango ajeitava o rabo-de-cavalo, Inuyasha acendia um cigarro e Miroku passou a mão para ajeitar os cabelos quando se uniu a eles. Hakudoushi dissera que iria para o quarto e Kikyo ficara no escritório de Sesshoumaru, o que não foi, estranhamente, negado pelo dono. Todos tinham planos diferentes, mas com mesmo objetivo.

Jaken já esperava pelas pessoas que iriam sair. Abriu a porta para eles.

Parados do lado de fora, eles olharam o céu escuro.


Próximo capítulo:

"-Você matou a minha prima, Naraku?"

"-Quem deve gostar disso é Hakudoushi."

"-Você chama isso de 'recepção', Takeda?"

Capítulo 20: A mente perigosa de Kikyo.