Nota da autora: Este capítulo estava 90% pronto desde 2015 e só agora sentei pra finalizar. Sabem o motivo, né? Desde o anúncio de Hanyo no Yashahime fiquei super inspirada :) Imaginem minha felicidade e essa expectativa sobre as filhas gêmeas do Sesshoumaru. Alguém assistiu à live com os dubladores de Rin e Sess? Gostaram do trailer promocional? :) E da OST das gêmeas? Gente, e o trailer? Confesso, eu chorei muito. Estou ansiosa pelo dia 3 de outubro. Vou rever também os animes nesse tempo.
Vocês devem perceber que vários eventos ocorrerão ao mesmo tempo. Agora cada capítulo mostra um parte do que alguns personagens estão fazendo. Outros não aparecerão propositalmente. Hahahaha.
Uma coisa triste que aconteceu: eu fiquei basicamente um ano sem acessar o email do FFnet porque havia esquecido a senha e esta semana, quando fui logar, aconteceu de encontrar a caixa de mensagens completamente vazia. TODOS os e-mails que recebi desde que comecei a escrever e conversas do Messenger desapareceram :( Os primeiros reviews de ACD também estavam lá. Alguém sabe se é possível reverter isso? É uma conta do yahoo.
(Bem, eu tive que reler a história e encontrei muitos "deslizes" gramaticais e de pontuação. Pensei em revisar primeiro antes de voltar a postar, mas acho que farei uma revisão geral antes do último capítulo).
Boa leitura! Comentem se gostaram do capítulo. Acompanhem meu perfil aqui no FFnet sobre novidades do próximo capítulo.
A cor do dinheiro
Capítulo 21: O inimigo do nosso inimigo
Para Lan Ayath
Em Nagoya
Risos. Conversas. Uma exclamação aqui e ali.
Kanna estava, como sempre, atenta.
Sentada no banco do Parque Central de Nagoya, ela observava de uma distância segura os protegidos de Higurashi Kikyo se divertirem jogando bola.
Teru e Akiko aproveitavam a tarde de um dos primeiros dias de primavera passeando pela cidade. E naturalmente falavam alguma coisa de vez em quando sobre Kikyo e Hakudoushi, principalmente sobre os dias que passaram em Sakai.
Apesar da confusão familiar que aconteceu quando o médico chegara à cidade, aparentemente as crianças não tinham maiores reclamações e nem se importaram com as discussões entre os adultos. Aquele homem ficou apenas uma noite, assim como Hakudoushi. Teru e a irmã não tiveram muito contato com ele, mas "colaram" na mulher que o acompanhava.
E parece que se divertiram com ela tanto quanto se estivessem com Kikyo e/ou Hakudoushi.
Naquela tarde, enquanto os protegidos da família Higurashi brincavam de bola no gramado do parque, ela começou a sentir um incômodo.
Os olhos discretamente giraram para um lado.
Viraram depois para o outro, também disfarçadamente.
O vento tinha mudado de direção.
Kanna concentrou-se novamente nos ruídos: conversas. Gente rindo. Crianças cantando.
Crianças correndo. Passarinhos piando em árvores próximas. Folhas farfalhando.
Akiko e Teru discutindo sobre a posse de bola.
Nada.
O vento mudou de direção de novo.
Olhou as horas no celular e decidiu que já estava no momento de voltarem para casa. Os dois não reclamaram, suados e cansados como estavam, e também queriam voltar para casa para terem logo um banho e o jantar.
A sensação estranha que se prolongou até voltarem para a segunda melhor propriedade da família Higurashi: a casa de Nagoya. De volta à casa, ela preparou o banho das crianças, preparou o jantar e se comportou como sempre se comportava perto delas: ouvindo e comentando aqui e ali, respondendo aos questionamentos infantis ali e acolá. Sempre havia sido assim: Kanna era, desde que as conheceu, os ouvidos delas.
Por isso que, na hora de dormir, ela ouviu pacientemente os planos de Teru e Akiko para o dia seguinte: falaram do parque da Lego, conhecido como Legolândia, falaram do Aquário de Nagoya, também comentaram sobre a imensa vontade de ver o centro comercial e comprar algumas coisas.
–O que você acha, Kanna? – Teru perguntou, já embaixo do lençol. Ela notou que os dois lutavam contra o sono e queriam continuar conversando.
Sentada na beira da cama, ela ajeitou a almofada debaixo da cabeça dele e da irmã.
–Acredito que vocês vão preferir passar o dia inteiro no Aquário. – ela comentou num tom que parecia ser indiferente, mas que era, na verdade, o natural de voz dela – Ali é muito grande, leva um dia todo para visitar. A mesma coisa o Parque do Lego.
As crianças voltaram a discutir sobre o plano de visitas, tentando decidir entre uma coisa e outra. O que era mais urgente? Ver os golfinhos e todas as outras atrações do Aquário ou visitar o Parque do Lego e comprar as coleções disponíveis para se ocupar em montar tudo depois em casa?
Aquela sensação estranha voltou a incomodar Kanna. Ela tentava prestar atenção ao que as crianças diziam e fazer comentários.
Mas o bem da verdade era que ela estava tentando ouvir novamente as coisas ao redor da casa onde estavam.
Uma coruja do lado de fora da janela, em alguma árvore próxima. O vento soprando.
Olhando o relógio na parede, ela comentou:
–Hora de dormir. Amanhã podemos decidir onde ir primeiro.
–Ahh... – os dois lamentaram, mas a obedeceram.
O quarto tinha uma única cama. Kikyo não havia preparado um quarto com duas camas de solteiro, pois não imaginava que um dia teria que hospedar os dois ali. Provisoriamente, os dois ficavam no mesmo quarto, dividindo uma enorme cama de casal.
–Vou acordar vocês cedo para a gente decidir juntos. – ela prometeu – Agora fechem os olhos.
Os dois obedeceram.
–Durmam. – ela ordenou.
Cerca de dois minutos depois, ela escutou a respiração calma e regulada do sono pesado deles.
Era assim desde que eram um pouco mais novos. Alguns que sabiam daquela "técnica" dela perguntavam qual era o segredo para que fazer crianças dormirem tão rápido.
Continuou observando-as enquanto prestava atenção aos ruídos externos.
Resolveu arrumar a cozinha enquanto não tinha sono. Eram oito horas da noite ainda. Desde cedo ela havia acostumado aqueles dois a dormirem nesse horário, para ter tempo livre para se exercitar em alguma parte da casa.
Enquanto lavava a louça, continuou pensando no "incômodo" que sentira à tarde. Relembrou os detalhes do que estava ao redor dela e das crianças na hora. Mas não conseguiu perceber nada.
No momento que ela colocava o último prato lavado em pé no escorredor, ela atentou que o pio da coruja cessou.
Lavou as mãos para tirar o sabão e a espuma, enxugou as mãos no pano de prato e procurou alguma coisa nos bolsos da calça.
Não encontrou o que queria e saiu da cozinha, procurando em cima da mesa bagunçada com os desenhos e material de pintura de Teru e Akiko, que há dias ocupavam o espaço.
Não encontrou de novo o que queria. Na sala de estar começou a revirar as almofadas e enfiar a mão nos cantos da mobília, parando por um milésimo de segundo.
Franziu a testa e decidiu que era melhor ir para o quarto onde estavam as crianças.
Caminhou calculando os segundos. Era só sair da sala de estar, subir as escadas e entrar no cômodo.
Entrou e trancou a porta.
Assim que girou a chave, ela correu em velocidade em uma velocidade surpreendente aos seres mais comuns até a cama e pegou as duas crianças, carregando-os pela barriga como se não pesassem nada ao mesmo tempo.
O objetivo era colocá-los no cômodo secreto do recinto – o Quarto de Perigo, projetado especialmente para Kikyo depois que, há alguns anos, houve a invasão na mansão de Yokohama. Na época, a equipe de Kikyo percebeu que faltava um lugar mais seguro na casa para esconder pessoas que não precisavam ser feridas.
E foi isso que Kanna fez. Levou os dois adormecidos para o Quarto de Perigo, uma passagem escondida atrás do espelho perto dos armários. Havia uma trava de segurança e um aparelho que exigia abertura com senha.
Destravou tudo e entrou no recinto. Havia uma cama de solteiro, comida, geladeira abastecida com água, televisão, um computador, um telefone. Colocou-os na cama, cobriu-os com o lençol e pegou algo do bolso da calça: o telefone celular.
Colocou o aparelho no bolso do pijama de Teru. Aquele aparelho, com fotos e vídeos dos irmãos e com conversas e trocas de e-mail com a senhora Higurashi deveria ficar com as crianças, por mais que ali não pegasse sinal. O aparelho iria eventualmente para a líder e ela não precisaria se preocupar com as informações nas mãos de terceiros.
Verificou que em uma parede próxima da porta havia um papel colado com as instruções. Se ela não estivesse ali quando os dois acordassem, aquilo os ajudaria na saída.
Correu para fora, colocando senha no aparelho e travando a porta de aço.
Abriu uma parte do armário embutido e, pegando uma caixa, tirou de lá uma espada. A espada dela. Uma espada com assinatura do ferreiro Muramasa, de uso proibido pelo Império do Japão. A lenda por trás das espadas forjadas por Muramasa era que quem a possuísse se tornava um assassino sedento por sangue.
Lembrou-se que ela tinha também uma pistola .45 em uma gaveta nos altos da estante da sala. Mas ela estava em uma caixa fechada para que as crianças não a tocassem. Ela conseguiria pegar se destruísse a caixa com a espada.
Olhou novamente a katana. Aquilo bastava, tinha certeza. Não haveria necessidade de procurar a arma.
Agora ela precisava voltar para a sala.
Girou a chave e deixou-a em meio ponto no tambor. Na hora que fechasse, ela trancaria por dentro.
Ao correr para o corredor e bater a porta atrás de si, ela contou os segundos para ver se estava mesmo certa: um segundo para correr a extensão e ver quem eram as ameaças.
Estavam ali. Viu quatro ninjas armados no alto da escada, já próximos o bastante para invadir o quarto. Ao verem-na passar correndo, eles foram atrás dela, em direção das escadas.
Mas Kanna era mais rápida e silenciosa. Em outros dois segundos, ela já estava atrás dos agressores. Matou os quatro em mais três segundos.
E eles nem perceberam o que aconteceu.
Sem embainhar a katana, ela abaixou-se para observar o uniforme deles na tentativa de reconhecê-los. Era azul com o símbolo no peito de uma esfera cercada de pérolas. Não os reconhecia. Era alguma guarda nova?
E o que eles queriam com ela ou com as crianças?
Lembrou-se dos invasores em Oslo. Seriam eles também do mesmo grupo?
De repente, o ar escapou dos pulmões dela.
Tão rápido quanto o tempo que levou para sair do quarto e matar os invasores foi o que ela sentiu nos segundos seguintes. Não sabia direito o que havia acontecido até a dor do ombro ficar forte e ela se curvar para a frente.
Era muito difícil Kanna emitir qualquer tipo de som. Foi por isso que ela teve uma participação ímpar na guarda dos Higurashi, tendo em vista a rapidez e o silêncio com que trabalhava – eliminando adversários sem uma sentença, sem precisar conversar ou fazer perguntas. Falar era desnecessário.
Mas Kanna gritou, pela primeira vez em anos.
Uma lâmina atravessou o ombro direito tão rápido que ela nem percebeu que já havia saído.
Afastou-se o mais rápido que podia daquele ponto antes que pudesse receber um segundo golpe.
Em pé, ela tocou o ombro enquanto avaliava o cenário. Um quinto ninja estava ali, observando-a. O rosto estava coberto. Ele parecia tão inexpressivo que era como se ela estivesse se olhando em um espelho.
E não havia apenas uma pessoa com ele: pelo menos trinta ninjas estavam ali prontos para atacar.
Estava cercada.
Mansão Akai
Pelo lado de fora da mansão Akai era possível ver uma movimentação em uma das enormes sacadas da propriedade.
Uma mulher tentava constantemente ligar para alguém. Perto dela, pessoas vestidas com uniforme preto iam e vinham, parando momentaneamente para falar algo.
"O número chamado não está disponível no momento" foi a mensagem que Kikyo ouviu pela vigésima nona vez em oito minutos.
A garota deu um suspiro. Afastou o celular do ouvido, tocou mais uma vez no número já programado na agenda e ouviu: "O número chamado não está disponível no momento".
Trinta vezes a mesma mensagem ouvida e o mesmo movimento: afastou o aparelho da orelha, tocou novamente no número pré-programado da agenda e, novamente, "o número chamado não está disponível no momento".
Kanna sabia o que fazer. Ela estava já preparada para tudo. Foi por isso que ela e Hakudoushi a escolheram, há alguns anos, para ser responsável pelas crianças. Ela podia cuidar, viajar, educar e protegê-las, mesmo que, para essa nova tarefa, ela tivesse que perder o posto de líder da guarda pessoal de Kikyo.
"O número chamado não está disponível no momento".
Nessas horas, Kikyo ficava grata por ter aprendido a nunca mostrar as emoções aos outros. Os membros da guarda pessoal, muito ocupados por estarem limpando a sujeira que havia dentro do escritório de Sesshoumaru, passavam por ela sem perguntarem se estava tudo bem ou não, porque Kikyo realmente parecia que estava bem.
Mas, internamente, ela começou a ficar apavorada.
"O número chamado não está disponível no momento"
Pensou em pedir ajuda a Hakudoushi. Ou um conselho. Qualquer coisa para não pensar no significado por trás daquela mensagem gravada da operadora.
"O número chamado não está disponível no momento".
Olhou por cima do ombro para ver o que acontecia dentro do escritório. A guarda ainda limpava o sangue das cadeiras, da madeira, de cima da mesa. Um guarda tentava recuperar os papéis ensanguentados em vez de simplesmente jogá-los fora.
Evitou outro suspiro e olhou o celular antes de tocar novamente no número de Kanna.
"O número chamado não está disponível no momento".
Maldição.
"O número chamado não está disponível no momento".
Olhou para cima, perguntando-se se valia a pena chamar por Hakudoushi e pedir a ajuda dele.
"O número chamado não está disponível no momento"
Mas, se fizesse isso, se veria como dependente dele. E a última coisa que ela queria era ainda dever favores a ele.
Talvez fosse melhor continuar tentando. Ela confiava em Kanna. Kanna sabia o que fazer. Kanna sabia lutar pelas crianças e protegê-las ao mesmo tempo.
Certo?
"O número chamado não está disponível no momento".
Mansão Shiroi
Entrar na mansão Shiroi era a parte mais fácil da missão que Sesshoumaru ordenou a Sango. Ele disse que ela nem precisaria se preocupar com as cercas elétricas, guardas ou qualquer outra coisa que estivesse no caminho para entrar na propriedade. E era verdade.
Na companhia de Miroku, de Kouga e dos dois guardas que sempre estavam com este último, ela pulou com facilidade a guarita, matou um vigilante e desativou as cercas elétricas e os sensores de movimento. Os outros quatro homens ficaram para trás, obviamente não tanto em forma e preparados quanto ela estava.
Por que os homens eram tão despreparados? Por que não passavam uma semana direto treinando para uma missão como ela mesma havia feito? Eles sabiam da data. Eles conheciam o plano. Por que então eram tão estúpidos?
E por que estavam demorando tanto?
–Tudo okay por'aí? – sussurrou pelo transmissor sem fio a Miroku. Talvez ela pudesse deixá-los para trás. Não fariam falta.
–Teria sido melhor pela entrada mesmo. – escutou Miroku falar num tom mal-humorado. Ela sorriu. Sabia que o namorado/ex-namorado não gostava do outro rapaz – Eu odeio ter que fazer escadinha pro Kouga.
Por todos os deuses, ela gemeu em silêncio ao ouvir o comentário. Eles nem conseguiram entrar ainda. Nem sabiam como. Estavam fazendo escadinha para ajudar na subida, como as criancinhas durante o recreio.
Um movimento chamou atenção na visão periférica e ela olhou para a esquerda. Estava escuro, mas ela sabia o que estava acontecendo.
Mais seguranças. Pelo menos vinte deles se aproximando dela.
Eles sabem que estamos aqui.
–Sangozinha, o pateta não quer sair de cima de mim. Acho que vamos demor...
Não terminou de ouvir o lamento de Miroku. Os vinte homens estavam indo exatamente na direção dela e precisava se preparar. Ficou em pé, onde todos podiam vê-la, e ergueu a mão para puxar uma katana que estava presa às costas dela.
–Estou com companhia aqui.Falo com vocês depois.
E cortou a transmissão.
No outro segundo, três seguranças já estavam avançando nela, apenas com armas. Ela odiava armas. Aprendeu a usar porque Sesshoumaru, como chefe dela, havia ordenado que aprendesse a usar todo e qualquer tipo de armas. Claro que armas brancas eram as favoritas dela, exemplo disso é o domínio que ela conseguiu obter usando a katana, a kodachi e diversos punhais.
Como uma garota totalmente inexperiente em artes marciais e que sequer sabia segurar uma faca para atacar conseguiu isso em pouco tempo?
Um guarda recebeu um golpe na mão e teve a arma derrubada, logo em seguida recebendo um golpe de katana no ombro. Sango puxou o corpo dele pela região machucada antes de ir ao chão e o jogou contra os dois outros seguranças, que caíram e também, milésimos de segundos depois, foram atingidos nos braços e mãos.
Os outros dezessete guardas pararam diante da cena, receosos.
–Podem vir. – ela avisou, fazendo sinal com os dedos para se aproximarem dela.
Sesshoumaru fez questão que ela aprendesse primeiro as artes marciais e ioga para que controlasse a natureza rebelde que ela adquiriu depois da morte do irmão. Ele entrou em contato com Makiko Yuu, sucessora da famosa Fukuda Seiko, mulher que fez história nas artes marciais japonesas ao expandir o ensinamento para mulheres.
Foi o primeiro ano mais difícil que o ensino médio ou a faculdade. Ela, que só usava roupas largas, óculos, não cuidava do cabelo ou da pele e vivia na frente do computador, precisou emagrecer, acalmar-se, controlar-se e concentrar-se.
Concentração e determinação eram as chaves de tudo, dizia a mesma Makiko, de quase setenta anos.
Depois disso, ela continuou com Makiko-sensei até começar outras técnicas, incluindo artes marciais japonesas, coreanas e chinesas, como karate, aikido, jujutsu, taekwondo, kung fu, kenpo, kenjutsu e ninjutsu. Era treinamento de cinco da manhã até onze da noite, todos os dias, durante quatro anos.
Só para não dizer que Sesshoumaru era um mau chefe, ele dava um dia de folga a cada vinte dias de treinamento, durante o qual Sango saía para passear, fazer compras ou simplesmente ficar em casa praticando ioga.
Quatro, cinco, seis, ela contava quantos ela derrubava ou matava.
Concentração e determinação – durante quatro longos anos.
Finalmente, um dia depois de Sango completar quatro anos de treinamento, Sesshoumaru deu a ela um presente especial – a chefia da guarda pessoal da família Akai. Miroku tinha a chefia provisória, mas o líder da família não queria deixá-la permanentemente com ele. Miroku era braço esquerdo de Sesshoumaru em vários negócios, e não teria tempo suficiente para treinar ou comandar em casos especiais.
Sete, oito, nove..., ela continuou contando.
Claro que ela aceitou treinar e comandar a guarda. Sesshoumaru deu até o poder de decisão para ela escolher os membros, quando, anteriormente, ele que dava a palavra final.
Todos os novos membros passavam por testes físicos e de lealdade, algo que apenas ela teve a ideia de fazer depois da morte do irmão. Os candidatos em potencial eram chantageados e torturados, mas aqueles que não aceitavam propostas de trair a guarda e a família passavam a ser membros permanentes.
Dezesseis, dezessete, dezoito...
O relacionamento com Makiko-sensei, no entanto, continuou. Sango sempre arranjava tempo de ir encontrá-la para tomar chá verde e conversar com ela sobre o irmão, sobre a família Akai, sobre Miroku...
–O mundo sempre foi injusto com as mulheres. Foi por isso que Fukuda-sensei começou este legado e não quis mais parar. As mulheres não tiveram papel algum nas artes marciais até que o pai dela quis abrir vagas para as mulheres da família, depois para mulheres de fora. – Makiko-sensei contou uma vez enquanto tomavam chá juntas na residência dela – Ela nos deixou setenta anos de legado e precisamos continuar com isso.
A sensei tomou mais um gole de chá antes de continuar:
–O que você vai fazer depois que conseguir se vingar, Sango?
A garota não sabia o que responder. Ficou olhando a xícara e pensou em Miroku, pensou na cidade natal, pensou nos pais que estavam em um asilo recebendo cuidados de outros, pensou no irmão que estava enterrado.
–A primeira vez que nos encontramos, eu percebi que o seu ódio por ele poderia atrapalhar o seu treinamento e sua vida. Mas, de certa forma, esses pensamentos negativos lhe ajudaram a ser o que você é hoje: uma mestra em artes orientais com apenas quatro anos de treinamento.
A mestra tomou mais um gole do chá antes de continuar.
–Você vai se sentir vazia. – ela sentenciou num tom sombrio.
–Vazia? – a garota repetiu, obviamente sem entender.
–Depois que você concluir sua vingança e não tiver mais a quem odiar, você vai se sentir vazia. Você destinou sua vida nos últimos anos a derrotar um homem que a machucou profundamente, que tirou alguém importante da sua vida. Esse ódio a preencheu tanto que, quando concluir sua vingança, você não encontrará mais sentido na vida.
Sango baixou a xícara. Não sabia o que dizer. E era verdade o que a mestra dizia: o que ela iria fazer depois de matá-lo? Continuar na guarda? Ter uma família? Voltar a estudar?
Ficar com Miroku e com a máfia japonesa?
–Isso é apenas um conselho, Sango. – a idosa falou mais séria – Eu conheci uma moça que odiava o padrasto simplesmente porque ele mentiu dizendo que era pais dela por dezoito anos, quando, na verdade, o pai dela já havia morrido.
Por dezoito anos ele a tratou como se fosse filha de verdade, mas ele não achou justo que ela não soubesse a verdade. Eles sentaram, ele contou quem era, e ela nunca mais quis falar com ele.
–Parece ser injusto da parte dela.
–E foi. – a mestra suspirou – Ela não falou mais com ele por quase vinte anos, até que um dia ela soube que ele morreu em casa, ao lado de amigos, pedindo para falar com a filha pela última vez.
Os amigos entraram em contato com ela e contaram o que aconteceu. Ela atendeu ao funeral, mas depois desse dia... ela simplesmente enlouqueceu. Abandonou o emprego, os amigos, passou a ficar sozinha em casa, dormindo ou vendo televisão.
–Ela ficou "vazia" – concluiu Sango.
–Sim. Vazia porque não sabia mais qual era o sentido da vida. Ela quis mostrar durante vinte anos ela fez questão de odiar o segundo pai, e depois que ele se foi, ela não sabia mais o que fazer.
–Você não pode ser assim, Sango. – ela falou com firmeza – Antes de concluir sua vingança, você precisa pensar no que vai fazer da sua vida depois, para não enlouquecer.
–Vinte. – ela falou por fim, derrubando o último guarda. Deu um suspiro cansado, guardou a katana nas costas.
O cenário não estava tão ruim. Todos os corpos estavam no chão, deixando a trilha até a entrada da casa livre para ela e os companheiros. Mas era preciso ter atenção. Era bem capaz de ter mais por trás da porta ou escondido em outros cantos.
Virou o rosto ao ouvir respirações ofegantes. Viu os quatro companheiros pularem o muro com certo despreparo e ficarem em pé, cansados. Ela, menor e mais leve, conseguiu o intento em meros segundos.
Finalmente esses inúteis conseguiram subir.
–Vamos entrar? – ela convidou com um movimento de cabeça, indicando a casa. Estava ansiosa. Estava preparada. Tudo ia dar certo. Sentia a energia da vitória fluindo pelos braços dela. A Mestra já havia falado centenas de vezes sobre aquilo.
–Vamos logo. – Kouga tomou a iniciativa. Era incrível como ele não fazia nada, mas não podia faltar àquela festa. Sango esperava que ele pelo menos cumprisse a missão dele.
Um movimento suspeito chamou a atenção da visão periférica de Sango. Tanto ela quanto os demais companheiros olharam para os lados e para trás, até notarem um rapaz, quase na mesma idade que Miroku, aparecer. Usava um quimono caro, de boa qualidade, tinha cabelo escuro, olhos castanhos claros e, aos olhos das mulheres, poderia ser considerado bonito.
–Eu achei que vocês viriam mais cedo. – Kuranosuke Takeda se fez presente enquanto tentava andar sem tropeçar nos corpos dos jardins – Nesse dia tão especial, estávamos esperando o toque da campainha. Fiquei esperando pra "recepcioná-los".
Miroku arqueou as sobrancelhas, preocupado. Aquele homem agora era aliado da família Shiroi? Mas ele sempre foi tão neutro, por que só agora vai tomar um lado da batalha que nem era dele?
Por que isso?, perguntou-se.
Um pequeno calafrio correu a espinha dele. Por que não deu para perceber as intenções dele naquela reunião? Ninguém da família o considerou como um inimigo quando organizaram aquele plano. Ele não deveria estar ali.
Por que agora?
Sango afastou-se de Miroku e o deixou encarando o adversário. Não porque era egoísta ou não pensava nele. Ou porque não tinha a menor preocupação pelo namorado/ex-namorado. Simplesmente sabiam que Akai Miroku daria conta sozinho daquele homem.
–Eu sei o que está pensando... Eu sempre fiquei por cima do muro, não gosto muito de confusão... Mas eu tenho motivos pra entrar na briga... e ganhar.
–Você chama isso de "recepção", Takeda? – Miroku perguntou.
Kouga, Ginta e Hakkaku estavam na porta da mansão. Sango já havia sumido lá dentro e não tinham ideia se as coisas estariam complicadas para ela. Encontrou o olhar de Miroku e o viu mover "sim" com a cabeça.
–Pode ir, Kouga. – Miroku avisou, avistando o rapaz por cima do ombro – Eu tenho que ter uma conversinha com esse cara.
–Sango já está lá dentro. Vamos atrás dela.
Miroku fez uma pausa antes de comentar:
–Acho melhor ir atrás do que Sesshoumaru falou. Sangozinha tem outros assuntos pra resolver.
Um sorriso apareceu nos lábios de Kouga.
–Se realmente não vai precisar de ajuda... – ele deu as costas e escondeu, desta forma, o sorriso maligno das vistas de Miroku – Divirta-se. Vou dar um passeio pela casa.
E, junto com os comparsas, deixou Miroku para trás, adentrando na casa numa corrida. Passou pela sala, pelos corredores e alcançou uma escada que – sim – era a que o levaria aos outros andares.
Entretanto, parou ao passar por uma porta entreaberta. Ginta e Hakkaku esbarraram nele, já que foi tão súbito que...
–O que é isso? – Kouga perguntou num sussurro assustado.
Naquela sala, que parecia levar a uma sala de treinamento, Sango frente a um homem. Ele estava tranquilamente sentado em posição de lótus quase perto da parede – onde tinha ao alcance todo tipo de arma para atacar a mulher em pé na frente dele.
E Kouga sabia quem ele era. Mas nunca imaginaria que era atrás dele que Sango estava há pelo menos três anos. O cabelo, o sorriso zombeteiro, a pose confiante... Foi isso que chamara a atenção de muitos líderes da Yakuza, que ofereciam milhões para que aquele homem, que tinha sido também mestre dele, treinasse uma guarda pessoal.
–Kagewaki... – murmurou um pouco assustado. Os companheiros dele pareciam tão surpresos quanto ele.
–Bem-vinda, menininha. – ouviu o homem cumprimentar Sango – Estou esperando você aqui há muito, muito tempo...
–Você lembra de mim? – escutou-a perguntar.
A resposta dele foi se levantar e fazer um gesto tão rápido que apenas Sango percebeu, pois o alvo era ela.
–Sango! – Kouga gritou ao perceber o que tinha acontecido.
Uma lâmina pequena, quase do tamanho de um canivete, cravou no ombro dela.
Mas Sango parecia longe de se alarmar. Ela olhou para aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Pegou o cabo e tirou do ferimento, jogando-o longe.
–Está tudo bem, Ookami. – ela falou com a maior segurança e naturalidade – Pode passar. Ele não vai atrás de você.
Kouga franziu a testa. Mas seguiu o que ela tinha dito. Ele e os companheiros foram na direção de um recinto – onde Kouga deveria pegar algo para Sesshoumaru.
Kagewaki continuou fitando Sango até perceber que ainda não havia respondido a pergunta dela:
–Mas é claro que eu lembro de você, pequena. Eu sabia que um dia você viria atrás de mim. Só não imaginava que levaria tanto tempo assim.
O sangue do ferimento de Sango começou a escorrer pela ponta dos dedos. Mas ela não parecia se importar muito.
–Eu estava treinando. – ela afirmou com um sorriso irônico – Com a melhor do mundo.
–Com a Mestra.
Não houve resposta por parte dela, mas ele entendeu que era uma confirmação.
–Achei que ela já tivesse até morrido.
De novo, Sango manteve-se em silêncio.
–Como foi que descobriu que tinha sido eu?
–Um amigo que tem um amigo que tem um amigo que sabe sobre tudo me contou um dia depois de eu sair do hospital.
A sobrancelha de Kagewaki levantou rapidamente num alarme, como se não esperasse a resposta.
–Bokuseno.
–Ele tem os meios dele de saber as coisas.
–Acho que não tem nada que ele não saiba. – comentou ele, lembrando-se de todos as vezes que encontrou Bokuseno e quantas vezes o líder da yakuza perguntou sobre os treinamentos dele. Era óbvio que sabia que esse dia chegaria. O maldito chegou até a comentar que Kagewaki deveria realmente treinar, "treinar muito para não acabar morrendo".
Kagewaki mal pode terminar de lembrar sobre um dos últimos encontros com Bokuseno porque uma dor lancinante atacou o ombro esquerdo dele.
Apenas segundos depois entendeu que era uma adaga que estava cravada nele.
–Olho por olho, dente por dente, menina?
–Tudo isso e muito mais. – ela apontou uma arma para ele.
A mesma arma que Sesshoumaru deu quando ele a encontrou machucada depois do encontro com Kagewaki.
–Você sabe usar isso, menina?
Kagewaki não respondeu de imediato. Fez uma longa pausa até levar uma das mãos à cabeça e massagear a nuca.
–Sabe... é bom que você esteja mesmo aqui. – ele começou num tom sério – Mas cometeu um erro não trazendo a sua guarda também.
Sango continuava na mesma pose. Segurava a arma sem tremer, a mira certeira nele.
–Não cometi erro algum, Kagewaki. – ela tinha um sorriso maligno – A minha guarda está exatamente onde tem que estar neste momento.
Mansão Akai.
–O que foi isso? – Rin perguntou, afastando o rosto do de Sesshoumaru, olhando curiosa em direção da porta do quarto.
Alguém levou um tiro, ele pensou, mas não quis falar para não assustá-la. Perguntou-se quem havia matado quem. Será que foi Kikyo? E quem ela teria enfrentado?
Só esperava que não tivesse sido no escritório dele. Kikyo tinha uma péssima fama de deixar uma bagunça por todos os lugares que passava.
–Não ouvi nada. – ele mentiu, voltando a aproximar o rosto do dela. Ela afastou-se novamente, sorrindo.
–Não é melhor verificar?
Os dois, deitados ainda vestidos na enorme cama do quarto, estavam abraçados e completamente envolvidos um no outro. Ele, ao perceber que ela continuava preocupada e irrequieta, decidiu ser mais envolvente.
Deitando-a na cama e ficando por cima, ele começou a desabotoar a blusa dela.
–Não quero sair e nem tenho interesse em saber o que é, Rin.
Ela ofegou quando ele mergulhou o rosto no pescoço dela, beijando a região próxima ao ouvido.
–Mas... mas...
A garota esqueceu o que queria dizer. Começou a também a ajudá-lo a tirar a roupa.
Primeiro foi a blusa, depois a camisa que estava por baixo do casaco dele e assim por diante.
Depois ouviu um outro barulho, uma porta fechando com força. Ela novamente afastou o rosto e ergueu uma sobrancelha para ele.
Havia uma ordem bem clara por parte dele para não fazerem estardalhaços. Primeiro porque a mãe dele estava dormindo no andar mais protegido da casa; segundo porque Rin poderia se preocupar se soubesse que estavam atrás dela.
–Deve ser alguém torturando Kagome com doces para descobrir o nome da criança. – ele também ergueu uma sobrancelha, não querendo se mostrar derrotado diante da inquisição dela.
Rin deu uma risada.
–Eu gostei muito de participar da aposta. – ela falou, envolvendo o pescoço dele com os braços – Sua família é muito divertida.
E perigosa, ele completou em pensamento.
Se ele não soubesse do envolvimento dela com a família, o quão sozinha e manipulada ela era, com certeza estaria na lista negra dele também, junto com o meio-irmão, os primos, a guarda inteira da família Shiroi.
–Eu não posso dizer o mesmo da sua. – ele falou num tom sincero.
O rosto dela mudou de expressão. O sorriso que tinha desapareceu e ela desviou o olhar para algum ponto do quarto. Ele puxou o rosto dela para voltar a encará-lo.
–Bokuseno poderia ter ajudado você, se quisesse. – ele falou num tom calmo – Se tivéssemos nos conhecido antes, eu poderia ter ajudado. Você não merecia ficar no meio da tempestade sozinha.
–Eu não quero contato com ele. Nunca mais. Já falei isso. – ela deu um suspiro e fechou os olhos – Será que podemos mudar de assunto? Eu não gosto de falar desses negócios.
–Esses negócios são minha vida. – ele falou com firmeza. Rin precisava entender que, se ela se unisse a ele, os negócios continuariam. Ela continuaria a ver Bokuseno, Sesshoumaru continuaria com as reuniões e negócios com mafiosos, a fortuna da família dela passaria para as mãos dele.
Mesmo que ela mudasse de nome, a vida dele não mudaria.
–Apenas Inuyasha planeja sair disso tudo por causa de Kagome. Ela pediu e ele vai atender.
Rapidamente ele viu passar uma chama de esperança nos olhos dela, que ele logo tratou de apagar. Imediatamente compreendeu o pensamento dela.
–Você não pode me pedir o mesmo. Eu não posso sair.
–Entendo... – ela falou, mesmo sem entender direito. Talvez porque ela considerava fácil simplesmente pedir para Sesshoumaru sair e nunca mais falar de algo assim. Talvez porque não entendesse a importância dos negócios dele.
–Mas eu prometo que você não vai se envolver em mais nada. - Ele percebeu que ela não queria que ele continuasse. Mas ele tentou reassegurá-la – Você nem vai ouvir falar nisso, principalmente aqui, no quarto.
Rin franziu a testa. Aquela conversa estava estranha.
–Eu só não quero receber notícias ruins. – ela tocou o rosto dele, deslizando o dedo pela testa, os olhos, o nariz, até chegar aos lábios – Saber que alguma coisa aconteceu com você, que eu nunca mais vou vê-lo...
–Isso não vai acontecer. – ele a assegurou.
–Como pode ter certeza? – ela lembrou-se do meio-irmão Yuri. Ele também dizia que tudo ia ficar bem.
–Por que eu sei que não vai acontecer. – ele voltou à tarefa de tirar a roupa dela. A saia foi embora, e ela fez o mesmo com a calça social dele.
Chega de conversa.
Sesshoumaru era sempre muito seguro de si, ela pensou. E cumpria o que prometia. Nos poucos meses juntos, ela percebeu isso. Se ele dizia que iria protegê-la, que ela nunca mais ouviria falar dos negócios da yakuza mesmo tendo um relacionamento com ele, era porque era certo.
Logo o quarto foi tomado por sussurros e gemidos, e ela deixou aqueles pensamentos para depois graças às incríveis habilidades dele para fazer com que ela deixasse as preocupações momentaneamente de lado.
Era preciso fazer com que ela se sentisse segura para o que ele planejava fazer.
O pensamento dele voou depois para uma caixinha que estava escondida nos fundos de uma das gavetas de uma cômoda próxima.
Sim, ela teria que sentir-se segura.
Em Nagoya
A residência de férias da família Higurashi estava com todas as luzes acesas.
Quem estivesse do lado de fora ouviria de quando em quando sons de espadas, tiros, um grito engasgado aqui e ali.
Dentro, Kanna não encontrava mais forças. Tentou limpar o suor escorrendo com as costas da mão, só para sentir mais um líquido viscoso sujando o rosto. Sangue escorria aos montes do ferimento no braço. E ela achava que tinha rompido um ligamento na perna por conta de um golpe de espada transferido por alguém.
Lembrou-se da única vez que não venceu um adversário: na luta contra aquele médico. E só não venceu porque a tia dele interrompeu a luta.
Arfando, ela apoiou-se em uma parede da sala, avaliando o cenário. Havia ainda uns oito invasores ali. Os demais que conseguiu enfrentar estavam mortos – ou pelo menos achava que sim.
O problema é que surgiam mais invasores. Parecia que enquanto matava um, pelo menos quatro ou cinco surgiam no lugar deles.
Kikyo-sama já devia saber o que estava acontecendo. Mas não tinha como ligar para avisar. Assim que conseguisse resolver a situação, ela ligaria para avisar que estava tudo bem.
Ou pelo menos esperava que sim.
Não conseguiu descansar por muito tempo. Desviou de outro ataque do quinto invasor, o mais persistente. Conseguiu identificá-lo por causa do corte que havia feito no rosto dele. Se conseguisse feri-lo e identificá-lo, seria mais fácil depois planejar um ataque contra quem estivesse por trás daquilo.
Os dois se encararam pelas lâminas. Ele estava tão indiferente quanto ela tentava se mostrar.
Então ela sentiu de novo: em um movimento mais rápido do que conseguia prever, ele acertou com um punhal o ombro já machucado.
E então ela recuou. De novo.
Ainda tentando recuperar o ar, algumas perguntas passaram pela mente dela.
Será que as crianças iam conseguir ler as instruções coladas na porta do quarto?
Quem será que ficará no lugar dela como protetora?
O que eles fariam com o corpo dela?
Como as crianças vão se sentir quando não a encontrarem em casa pela manhã?
A cada segundo ela sentia o corpo perder o movimento. Era a falta do sangue. Era o corte no tendão da perna. O ombro machucado.
Lembrou-se novamente do médico, o único adversário que não venceu, como se tivesse acontecido ontem a luta entre os dois. A interrupção da tia dele. Como ela conseguiu dominá-lo e imobilizá-lo em segundos. A sede por sangue que ele tinha nos olhos.
Em uma última tentativa, ela se apoiou no cabo da katana. Ela não ia se dar ao luxo de mostrar o sofrimento dela.
Enquanto observava o adversário, ela notou que mais invasores chegavam. Não ia ser fácil.
Kikyo-sama nunca havia dito que seria mesmo.
Foi quando ela ouviu. E os demais que a cercavam também.
Era como uma marcha. Dava para ouvir uma pisada ritmada na grama do jardim.
O adversário mais resistente dela, o que a atacou primeiro, olhou para trás.
–Rápido! – ele ordenou, apontando para o alto da escada.
O quarto onde estavam as crianças.
Em condições melhores, eles correram para a escadaria. Ela tentou alcançá-los, mas o estado em que se encontrava não era o mesmo de antes.
Antes que eles pudessem alcançar a porta, entretanto, eles foram impedidos.
Em movimentos rápidos, outras pessoas uniformizadas apareceram atrás deles e os exterminaram. Foi tão rápido que Kanna nem conseguiu piscar. Em instantes só havia corpos na escadaria e um único ninja que tentou chegar à porta do quarto estava morto.
Kanna observava o uniforme deles. Todos de roupa escura, com faixas nas cores salmão e verde amarradas na cintura e uma máscara reforçadas cobrindo nariz e boca. Todos tinham cabelo comprido amarrado em um rabo de cavalo, inclusive os homens.
Um dos salvadores se aproximou cautelosamente dela. Parecia ser ele quem os liderava.
–Desculpe pelo atraso. – o aparente líder do grupo começou – O GPS não nos mostrou adequadamente a localização da mansão. Acredito que a sua líder fez questão que ela não aparecesse em nenhum lugar. – ele a encarava com seriedade.
Kanna franziu a testa. Aquilo era verdade. Kikyo havia tomado mesmo aquela providência.
–Você deve estar se perguntando quem somos nós. – ele tirou a máscara presa atrás da cabeça. Depois franziu a testa, apontando para a espada que servia de apoio para ela se manter em pé – Isso é uma espada Muramasa? O governo sabe que você tem isso?
O silêncio dela fez com que ele entendesse aquilo como uma negativa. Não querendo se desviar do assunto, ele continuou:
–Nós estamos aqui sob ordens do senhor Akai Sesshoumaru e de Tajiya-san.
Os dois nomes fizeram com o que o coração dela quase parasse por um segundo. Uma gota de suor escorreu da testa.
–Nós somos os Exterminadores, a guarda da família Akai. – ele completou com extrema confiança – Vamos ajudá-la a limpar tudo por aqui e protegê-los até segunda ordem.
Aquele homem mandou uma guarda para protegê-los?
Um Akai tinha salvado a vida dela de novo?
O rosto de Akai Izayoi voltou a assombrá-la nas lembranças que tinha daquela luta interrompida com Hakudoushi. De como aquela senhora se virou para ela para responder num tom extremamente sério o que ela estava fazendo ali e por que tinha impedido o médico de continuar lutando:
-Como assim, "o que eu estou fazendo aqui", menina? Eu acabei de salvar a sua vida.
Próximo capítulo:
"–Chocolate sempre é bom pra curar tudo."
"–É essa a espada amaldiçoada?"
"–Eu preciso tirar uma foto maneira pra mandar pra eles depois. "
Capítulo 22: Exército de Exterminadores
