Nota da autora: Hmm... mais um capítulo rápido... e o final está chegando. Alguém aí está ansioso pra saber qual família vai ganhar? Quem vocês acham que vai sobreviver? :)

Caso alguém queira ver o andamento das histórias, podem me seguir no Twitter (meu username é ukitaketai). E podem também acessar ao profile daqui mesmo do site. Coloquei inclusive um cronograma de atualização lá.

Foi tão surpreendente a atualização que o pessoal esqueceu de comentar sobre o capítulo em si e mandava mais coisas do tipo AAAAAHHH, NÃO ACREDITO, hahahaha. Obrigada a Guest, Lan-Lan, Nike-chan, Cindy-chan e Lhamalhama pelos comentários.

Espero que gostem do capítulo. Comentem! O próximo já está quase pronto (com uns 80% já). Se eu me animar com os comentários, pode ser que saia antes :) kkk


Disclaimer: "InuYasha" é de propriedade de Rumiko Takahashi.

A cor do dinheiro

Capítulo 22: Exército de Exterminadores

Para Lan Ayath

Mansão Akai

No quarto de Sesshoumaru, o líder da família deslizava tranquilamente os dedos entre os cabelos da atual companheira. Os dois estavam descansando, nus, corpos cansados.

Sentia que o sorriso no rosto dela aumentava toda vez que ele parava por segundos e tocava a nuca ou a fronte antes de deslizar a mão até as pontas. Ela, deitada no peito dele, lutava contra o sono.

E foi na quinta ou sexta vez que fez aquilo que ele notou uma coisa importante para ele:

-Você cortou o cabelo? – perguntou meio intrigado.

A mão escorreu mais uma vez entre os longos cabelos negros para uma confirmação.

Já tinha notado que levava pelo menos cinco segundos para deslizar do topo até o fim dos fios. Mas estranhamente agora o percurso demorava um pouco menos. Um segundo, talvez.

Rin ergueu o rosto e franziu a testa.

-Como você consegue perceber essas coisas? – ela estava intrigada.

-Você está me respondendo com outra pergunta, Rin.

Baixando o rosto, ela controlou o riso com a mão segurando a boca.

-Kagome-chan aparou apenas as pontas. Preciso fazer isso de vez em quando. – ela respondeu depois de se controlar – Foi tão pouco que não sei como você conseguiu notar uma coisa dessas.

-É claro que eu noto tudo em você. – ele fechou de leve o cenho, meio que ofendido. Será que era difícil de acreditar em uma coisa daquelas?

Rin moveu-se e ficou diretamente em cima dele, as mãos servindo de apoio para suportar a ponta do queixo nelas e não diretamente no peitoral dele.

-Ela cortou agora à tarde, depois da brincadeira com o bolo. – ela explicou – Sinto que ela está um pouco agoniada com o parto... ela estava bem inquieta hoje.

Claro que estava inquieta. Provavelmente Inuyasha deve ter contado para ela sobre o grande acontecimento do dia, ele refletiu.

-E eu descobri uma coisa... – ela deu um largo sorriso.

A mão que estava no cabelo dela parou por um momento.

-O quê? – ele ergueu uma sobrancelha.

-O nome do seu sobrinho. – ela tinha um brilho nos olhos diferente quando se tratava de crianças – Kagome me contou.

Rin era boa em perceber detalhes que passavam despercebidos a Sesshoumaru. No dia da festa do Imperador no Templo Higurashi, ela percebeu sozinha a estranha relação que Hakudoushi e Kikyo compartilhavam, algo que ele confirmou posteriormente em Sakai e que foi fundamental para ele fazer algumas investigações.

Foi graças ao comentário dela que ele, no fim, teve algumas revelações.

Hakudoushi cometeu um erro achando que não poderia se envolver naquela briga. Ele já estava até o pescoço envolvido.

Mal sabia ele o que tinham planejado fazer para afetá-lo. Seria um baque para ele, um ataque tão direto ao primo e também à família Akai que provavelmente o médico perderia o controle da situação.

E Sesshoumaru não queria que isso acontecesse. Por isso ordenou o deslocamento da guarda inteira dos Exterminadores para Nagoya para proteger aquelas duas crianças.

Tudo estava sob controle. A filha de Kohaku, antigo homem de confiança de Sesshoumaru, estaria lá liderando e não deixaria nada de ruim acontecer. A tia dela tomou todas as precauções necessárias para tal.

-Então ganharemos a aposta? – ele quis saber.

-Não! – ela moveu a cabeça negativamente – Não podemos mais participar!

-Talvez você não possa, mas eu ainda posso. – ele não quis se dar por vencido.

Segurou-a pelos braços e a ergueu, colocando-se por cima dela. Rin precisava dormir: tinha planos e coisas para fazer depois que ela adormecesse.

-É parecido com algum nome que pensou para um filho nosso?

Rin congelou embaixo dele, prendendo a respiração por um segundo ou dois. Parecia realmente assustada com a fala dele.

-O que foi? – ele baixou o rosto para beijar o pescoço dela, o canto dos olhos estreitados voltados para o rosto pálido – Não me diga que nunca pensou nisso, minha Rin.

E depois se perguntou se havia cometido um erro ao falar sobre aquilo: será que Rin iria querer conversar sobre o assunto ou permaneceria petrificada daquela forma até adormecer?


Em Nagoya

Estavam os dois se encarando. Kanna e Hakudoushi. Força contra força. Os dois prontos a se matarem. Feridos e ensanguentados.

A casa da família Akai estava sendo invadida naquele momento pelas forças de Higurashi Kikyo. Uma confusão entre as duas famílias que resultou em um conflito que quase acabou com mais mortos e feridos. Antes que esclarecimentos fossem feitos, cada membro da família Akai protegeria a casa a todo custo.

E um deles era aquele rapaz de aparência estranha. Cabelos e olhos claros, inexpressivo, lança na mão. Ele era um dos mais fortes da família. Kanna ouvira falar que ele tinha sido cogitado para ser chefe da família e só não se tornou porque Bokuseno não autorizou.

E lá estava ele, encarando-a. Um brilho de ameaça nos olhos lilases. Parecia que ele estava com sede de sangue.

Kanna posicionou a katana em frente ao corpo. Mão direita próximo do colar e da tsuba, mão esquerda perto da coronha. Típica pose do kendo.

Era a mais forte da guarda pessoal de Kikyo-sama. Não iria perder para aquele garoto pelo menos dez anos mais novo que ela.

Foi quando ele avançou.

Rápido.

Bloqueou o ataque direto da lança que mirava aquela parte do corpo – provavelmente o quadril dela.

Ao ver que não atingiu o alvo, ele parecia mais furioso.

Kanna sabia que ela representava uma ameaça para a casa e para a família. Ela era uma intrusa e ele faria de tudo para tirá-la dali, com vida ou não.

Mais um ataque bloqueado, desta vez no ombro dela.

E ela também avançou – mirou o peito, pescoço, o braço para ele largar a lança... Nada dava certo porque ele era extremamente ágil e habilidoso.

Hakudoushi levantou poeira ao se afastar para evitar um golpe dela. Equilibrou-se com uma mão e trocou a lança rapidamente de mão.

Tão rápido que ela quase não notou, pois ele avançou em milésimos de segundo na direção dela.

A ponta da lança quase encostou no peito dela e ele subitamente foi parado.

Súbita e agressivamente.

Kanna só viu uma sombra passar vindo do lado esquerdo na frente dos olhos, interrompendo o ataque.

Olhou para o lado direito.

Havia uma mulher contendo Hakudoushi na parede, segurando-o pelo pescoço.

Parecia que tinha mais de quarenta anos. Usava um quimono extremamente elegante com sandálias de madeira que não fizeram barulho com a aproximação, pois com toda certeza Hakudoushi não ouvira também. E ela tinha um perfume com notas de sândalo e patchouli.

O rapaz se debatia na parede, tentando se soltar do agarro da mulher que apenas externamente tinha traços delicados e elegantes. Ela o segurava firmemente pelo pescoço, pressionando-o contra uma parede, no alto a ponto de os pés dele não tocarem o chão. Ignorava o esforço que ele fazia para se soltar.

-Hakudoushi, meu filho... – ela começou num tom extremamente sério enquanto ele continuava se debatendo, levando a mão direita, que não segurava a lança, para tocar a mão da mulher. Estava com dificuldade para respirar – Eu quero que você pare imediatamente com essa luta.

Kanna despertou.

Assustada, ela sentou-se rápido apenas para sentir as pontadas de dor atacarem como milhares de choques no corpo.

Percebeu que estava na sala de estar da mansão Higurashi em Nagoya. Mais precisamente, deitada no sofá de cor cinza. A almofada da mesma cor caiu no chão com o súbito movimento.

Era uma sala quase do tamanho de uma casa de uma família de classe média no Japão. Vasos, quadros de pintura moderna, livros antigos, uma estante com uma caixa escondendo uma arma na prateleira mais alta... Tudo fazia parte da ostentação e bom gosto de Kikyo. Parte daquilo estava quebrado por conta da luta que Kanna havia travado naquela noite.

-Ôôô... Cuidado. – uma voz avisou próximo a ela.

Com esforço, virou o rosto e viu aquele que parecia ser o líder dos Exterminadores de braços cruzados em pé. Ele parecia preocupado.

-Como está se sentindo? – ele perguntou.

Notou que estava com os ombros e outras partes do corpo enfaixadas. O busto inteiro estava com o material, encoberto por um robe preto, de um material parecido com seda, provavelmente sintético. Alguém tinha feito os curativos e cuidado dela.

Mas ela não respondeu imediatamente. Sentindo as costas doerem, deitou novamente no sofá.

-Quanto tempo fiquei desacordada? – quis saber. A voz saiu fraca.

-Acho que uns 30 minutos no máximo. – ele se ajoelhou para ficar do mesmo nível que ela, podendo conversar mais de perto – Já estamos cuidando de tudo.

Era jovem, mais novo que ela, cabelo comprido amarrado num rabo de cavalo, faixa verde amarrada na cintura com um nó.

-Minha espada. – ela lembrou de repente.

-Ah, sim. – ele se curvou e esticou o braço para pegar alguma coisa próximo do sofá. Depois mostrou a katana dela – Está segura aqui.

-Obrigada. – ela pegou o objeto e o colocou ao lado dela no sofá, jogando o braço por cima dos olhos. Parecia que tinha sido atropelada de tanta dor que sentia.

-Bonita espada, essa. – ele comentou ao notar os detalhes do cabo e da coroa. Tinha um desenho na bainha de um dragão verde já desbotado – É a primeira vez que vejo uma. Não sabia que alguém podia usar hoje. Ela é amaldiçoada mesmo?

Kanna deixou um olho aparecer e tinha algo de sério e severo nele.

-Desculpe, não estou insinuando nada. – ele tentou se corrigir e deu um sorriso sem graça – Fiquei surpreso em ver uma, só isso. Ela é proibida pelo governo, não?

-Sim. – ela confirmou num sussurro cansado.

Ao redor deles, alguns trabalhavam na limpeza da sala, cozinha e escadaria, em tirar os corpos, retirar o sangue quase seco das paredes. Kanna não tinha ainda externado, mas queria ir ao quarto e verificar a situação das crianças.

Um som de um bocejo quase infantil chamou a atenção dos dois. O rapaz virou o rosto para o lado e Kanna se contorceu um pouco para ver o que era.

Era uma menina com uma tiara de orelhas de gatinho na cabeça, bocejando e esfregando os olhos. Ela estava em uma das poltronas, também de cor cinza, parte do conjunto do sofá. Ela tinha o mesmo uniforme deles, mas com uma faixa de cor salmão presa num laço na cintura, cabelos descoloridos num amarelo cor de palha e algumas mechas pretas amarrados atrás num rabo de cavalo, franja se soltando do arco nos cabelos.

Devia ser um ou no máximo dois anos mais velha que Teru, ela ponderou.

Uma criança exterminadora?

-Ah, acordou? – ele perguntou – Tivemos que fazer quase tudo.

A menina continuou esfregando os olhos, extremamente sonolenta.

Ao abrir os olhos, ela notou o cenário – Kanna deitada no sofá e o rapaz abaixado para ficar ao mesmo nível do sofá.

-É que ia ser chato. – ela bocejou de novo.

-Bem, e quais são as ordens agora? – ele perguntou.

Ordens? Então ela...?

-Podem limpar tudo, eu vou voltar a dormir. – as orelhinhas do enfeite da cabeça se mexeram de novo, ela novamente bocejou e fechou os olhos.

O rapaz deu um suspiro pesado.

-Ela está no comando aqui, sabe? – ele voltou a encarar Kanna – E quando fica com sono ou com preguiça, só nos resta continuar o trabalho sem ela.

-Eu ouvi isso. – a voz infantil soou um pouco irritada da poltrona.

O rapaz deu uma gargalhada e depois olhou para Kanna, mais sério.

-O senhor Akai e nossa líder nos falaram de duas crianças. – ele falou numa voz próxima a um sussurro – Elas estão...?

-Trancadas em um esconderijo. – Kanna completou, voltando a jogar o braço enfaixado em cima dos olhos – Vou vê-las daqui a pouco.

-Elas não acordaram com o que aconteceu aqui? – escutou-o perguntar.

-Não. – foi a resposta final dela.

-Não? – ele estava surpreso.

-Elas têm um sono pesado. – ela completou de olhos fechados num final sem maiores espaços para perguntas.

E voltou a relembrar uma luta do passado quando ficou novamente inconsciente.

-Se eu te soltar agora, você vai ficar mais calmo? – ela perguntou sem se importar com a falta de ar dele – Vai soltar essa arma?

Kanna viu quando ele, com uma força sobre-humana, moveu a cabeça em um sim ou algo próximo a isso. Soltou a arma que fez um estalo metálico no chão, indicando ter caído de ponta.

O aperto no pescoço afrouxou e logo ele foi colocado no chão, levando a própria mão à região como se quisesse avaliar o estado ou verificar se o pescoço estava mesmo ali.

A mulher e ele se encararam. Ele arfava ainda. Apoiou as mãos nos próprios joelhos para tentar se acalmar – tudo sob um olhar severo dela.

Claro que depois aquele olhar se desviou dele e foi direcionado a Kanna. O rosto também virou.

Foi quando ela a reconheceu: Akai Izayoi, famosa ex-líder de uma guarda especializada em assassinatos no passado, várias décadas atrás. Ela não trabalhava mais com aquilo há bastante tempo.

-Olá. – ela falou, virando-se totalmente para ela para encará-la: séria, altiva, elegante.

Kanna se apoiou no cabo da espada fincada no chão, tentando se recuperar ainda do embate interrompido.

Bonita arma. Meu marido há anos procura uma espada do Muramasa para a coleção dele.

Não era a primeira vez que ela ouvira algo parecido. Muitos já haviam tentado tirar aquela arma dela, herança de uma antiga família de samurais banida pelo regime Tokugawa, tanto à força ou com muito dinheiro.

-O que... – Kanna começou num tom fraco. Aquela mulher não estava aposentada? – O que está fazendo... Aqui? – terminou quase sem fôlego.

Viu-a erguer as sobrancelhas. O rosto ficou extremamente sombrio. O ar estava carregado de sândalo e patchouli.

-Como assim, "o que estou fazendo aqui", menina? – ela tinha tamanha arrogância no olhar e falar que faria qualquer um menos treinado se sentir inferior – Eu acabei de salvar a sua vida. Hakudoushi ia matar você.

Talvez Kanna tenha novamente ficado inconsciente. O fato é que acordou e sentou-se novamente para olhar para os lados, perdida.

-Acordou? – escutou a voz infantil em uma das poltronas.

Olhou para a direção e viu a menina exterminadora com os olhos ainda fechados, braços cruzados para suportarem a cabeça. As orelhinhas se mexiam de vez em quando.

-Hiro-kun me pediu pra olhar você. – ela continuou, ainda de olho fechado e voz de sono. Um dedo coçou o nariz e uma mecha da franja se soltou da tiara, caindo na testa. Era a imagem da inocência.

Parece que Hiro era o nome do rapaz que estava com ela.

A respiração calma da garota continuou. Parecia murmurar algo inteligível durante o sono que não chegava aos ouvidos de Kanna.

Estava na hora de se levantar para ver as crianças. Queria tentar também um contato com Kikyo. A líder deveria estar muito preocupada.

-Não é pra levantar. – a menina falou de novo ainda de olhos fechados e voz de sono, mas não moveu um dedo.

Kanna virou o rosto de novo para observá-la. Como deixavam alguém daquela idade entrar em uma guarda com ninjas altamente treinados para matar?

Olhou para a escadaria. O grupo estava ainda retirando os últimos corpos e fazendo a limpeza do local. Havia sangue no corrimão e nos degraus, e esperava que as crianças não...

-Você tem que ficar deitada. – uma voz infantil falou no ouvido dela.

Kanna disfarçou na hora porque há muito tempo, desde os primeiros anos de treinamento do ninjutsu, ela não sentia o que sentiu na hora que ouviu aquela sentença.

Um calafrio de perigo.

Moveu a cabeça lentamente para o lado de onde viera a voz.

A garota de tiara de orelhas de gatinho estava com os pés na beira do sofá, joelhos dobrados e olhando diretamente para ela com enormes olhos preocupados, sem um pingo de sono mais.

-Se você se mexer, os seus ferimentos vão abrir e você vai sangrar até morrer. – ela falou infantilmente séria, meio preocupada – E aí a gente vai ficar triste e vai ter que queimar o seu corpo e jogar as cinzas no grande vale dos samurais em Kyoto, e nós não temos tempo agora pra isso.

Kanna não parou de fitá-la.

-Qual é o seu nome? – ela finalmente perguntou num tom suave, como se estudasse aquela pessoa pequena.

-Tia Sango-chan e Sesshoumaru-sama me chamam de Kirara. – ela respondeu ao tirar um chocolate da parte de trás da calça – Você quer? Vai melhorar logo. Chocolate sempre é bom pra curar tudo.

-Kirara. – Kanna testou o nome na língua. Parecia mesmo o nome dado a um gato. Um felino perigoso – Quantos anos você tem?

-Onze. – ela fez um biquinho e estendeu novamente o chocolate – Você não quer mesmo?

Onze. Hakudoushi disse que, pelos cálculos dele, Teru teria pelo menos dez anos atualmente.

-Não, obrigada. Fica para outra vez.

-Melhor pra mim. – Kirara tirou a embalagem do doce e o jogou de uma vez na boca, mastigando e ronronando ao mesmo tempo – Que gostoso...

Continuou observando aquela garota mastigando o chocolate várias e várias vezes, tentando entender aquele comportamento e como sentiu aquela pontada de perigo momentos antes.

-Nee, nee, Kanna-chan... – ela terminou de comer e lambeu um dedo sujo de chocolate – Eu posso ver a sua espada?

-Hã... – Kanna "despertou" das observações e procurou o ponto ao lado onde havia deixado a katana antes de voltar a cochilar – Acho melhor...

Kirara não ouviu a resposta. Pegou o objeto que ainda estava no sofá com tamanha propriedade e intimidade como se fosse dela.

-Ah, não! – o rapaz que conversou anteriormente com Kanna apareceu imediatamente ao lado da garota e tentou tirar a arma das mãos dela – Devolva isso para ela, Kirara.

-Eu só quero olhar. Ela deixou. – a menina habilmente se esquivou e ficou em pé na frente de Kanna – É essa a espada amaldiçoada?

Teria ela ouvido toda a conversa entre os dois?

-Ela não é amaldiçoada. – Kanna afirmou – É só uma lenda.

Kirara pareceu decepcionada. Os lábios fizeram um biquinho infantil.

-Então por que ela é proibida? – quis saber.

-É só uma lei antiga. – Kanna estendeu a mão aberta – Pode me devolver?

-Por favor, devolva, Kirara-sama. – Hiro pediu educadamente, como um professor falando com uma criancinha.

Kirara a olhou sombriamente e Kanna a encarou.

-Eu quero saber se ela é boa mesmo. – a menina afirmou sem nenhum traço de brincadeira na voz, séria.

Hiro deu um suspiro cansado.

-Kanna-san, por favor, nos perdoe... Mas vá por mim: deixe-a olhar a espada porque ela não vai lhe deixar em paz. Ela vai lhe devolver logo.

Kanna franziu a testa e teve vontade de negar aquele pedido, principalmente porque era uma criança segurando uma espada dois palmos maior que ela. No entanto, moveu a cabeça num "sim" por estar curiosa e querer entendê-la.

Sem tirar os olhos da dona da espada, Kirara a desembainhou e fez um corte mínimo no dedo.

O sangue que escorreu caiu em grossas gotas no chão que havia sido limpo alguns minutos antes. Hiro deu outro suspiro cansado. Teria que novamente deixar o piso brilhando.

Kirara levou o dedo à boca e começou a sugar o sangue como se saboreasse alguma coisa doce.

Kanna continuava analisando aquela estranha menina. Será que ela é mesmo normal?

Enquanto provava o sangue, Kirara tinha um olhar perdido em algum ponto da sala. Os lábios se mexiam lentamente murmurando algo sem sentido, algumas vezes os olhos pareciam vagos como se estivesse meditando profundamente.

-Ah! – ela falou num tom de surpresa, voltando o olhar para a lâmina em mãos.

-O que houve? – Kanna quis saber.

-Meu sangue não mudou de gosto.

Hiro deu um tapa na cara e moveu a cabeça negativamente. Aquela menina...

-Viu? – Kanna estendeu novamente a mão – É uma espada comum.

Mas ela não devolveu a arma.

-Tem sangue de Hakudoushi-sama nela. – voltou a "analisar" o sangue que escorria do dedo, os olhos levemente estreitados – De uns seis anos, não... Cinco anos, eu acho, não... pera...

Nisso, Kanna forçou-se a parecer inexpressiva para não mostrar a enorme surpresa e nem o calafrio de perigo.

Como ela sabia aquilo? Hakudoushi já tinha lutado contra ela?

Alguém tinha contado para ela?

-Nee, nee, Kanna-chan... – Kirara voltou ao tom mais infantil, arma novamente embainhada e expondo-a na horizontal em frente ao corpo, a mão direita segurando-a no meio – Será que você pode me emprestar um pouquinho?

-"Emprestar"? – a dona franziu a testa.

-Não, Kirara-sama. – Hiro tentou novamente tirar a espada, teimosamente abraçada pela menina – Chega, devolva.

-Mas eu quero usar, eu quero usar! – ela se jogou no chão e começou a rolar de um lado para outro num acesso de tolice, espada ainda nos braços dela – Me deixa usar, me deixa usar!

-Mas como você vai usar isso? – Hiro tentou novamente tirar a espada. Se Kanna não estivesse em condições tão ruins, ela mesma teria parado com alguma "técnica" mais severa. Detestava tolice de criança.

Kirara se sentou meio emburrada no chão.

-Eu vou usar em duas ou três pessoas, no máximo. – ela voltou a fazer o biquinho infantil como uma artimanha para provocar pena – Prometo que não vou quebrar.

-Você vai usar em quem? – Kanna franziu a testa, intrigada com a reação.

-Nos ninjas que estão lá fora, ué. – ela falou com um sorriso largo e os dois adultos ficaram em alerta – Eles vão entrar a qualquer momento aqui. Eles querem pegar as crianças e te matar, Kanna-chan.


Mansão Shiroi

Sabe... é bom que você esteja mesmo aqui. – Kagewaki encarava a jovem mulher em pé no mesmo ambiente que ele. Tinha o tom sério. Precisava passar a seriedade que a ocasião exigia – Mas cometeu um erro não trazendo a sua guarda também.

Sango segurava a arma que Sesshoumaru dera logo que a resgatou sem tremer, a mira certeira naquele homem responsável pela morte do irmão dela.

Não cometi erro algum, Kagewaki. – ela tinha um sorriso maligno – A minha guarda está exatamente onde tem que estar neste momento.

A fala dela provocou uma certa curiosidade nele.

Quando aquele jovem Shiroi o procurou para fazer uma aliança, ele levou em consideração a dívida que tinha com o pai dele. Pouco interessava o que estava em disputa naquele momento. Parecia mais uma novela para acompanhar do que participar efetivamente.

Mas então Bankotsu foi cobrar a dívida e...

Kagewaki levou a mão ao ombro para tirar a adaga. Ela começava a fazer efeito. Depois limpou a lâmina e olhou com cuidado a inscrição.

-É uma arma da coleção do falecido e honorável Akai Toga. – ele comentou, guardando-a no bolso – Eu lembro quando ele conseguiu essa.

Sango continuava séria, pistola ainda em mãos.

-Menininha... – ele começou em um tom sério depois de dar um suspiro cansado, voz livre da ironia inicial – Se vocês vieram buscar alguma coisa aqui, vão voltar com as mãos vazias. Se veio pra me enfrentar, vai ter muito trabalho comigo, como teve da primeira vez que me enfrentou.

Os sentidos de Sango ficaram em alerta.

Pelo canto dos olhos notou que pelo menos trinta ninjas treinados por Kagewaki estavam atrás dela. E ela lembrava onde e quando tinha visto a maioria deles.

-Olá... – ela olhou por cima do ombro e deu um sorriso – Achei que não vinham mais. Eu estava aguardando a chegada de vocês. Lembram de mim?

-Achei que você iria morrer naquele dia. – Kagewaki falou do ponto onde estava. A voz tinha um tom meio ansioso, mas ainda demonstrava calma – Você desmaiou depois da primeira porrada que levou.

-Eu não lembro de muita coisa que aconteceu depois que levei a primeira porrada. – ela deu um largo sorriso – Mas meu chefe me resgatou e esperou que eu acordasse pra me contar tudo.

Os olhos se encontraram de novo.

-Eu tinha certeza de que você morreria. – ele falou em um tom de pena – Você não deveria ter ido me procurar. Este encontro seria desnecessário.

-Bem, mas eu não morri, né? – ela deu de ombros e guardou a arma no coldre amarrado na cintura – Tenho algumas pendências pra resolver.

-Pendências? – ele deu um meio sorriso triste.

-Você matou meu irmão. – ela tinha a voz controlada e suave – Vamos acertar as contas agora.

-Se conseguir passar por eles, eu conto o que eu sei. – ele desafiou.

Os lábios de Sango se abriram e a ponta da língua apareceu. Num instante, ela passou pelo local para umedecê-los.

Ou para prepará-la para a refeição, ele concluiu ao notar o sorriso zombeteiro que apareceu.

Sango virou as costas para ele e avançou no guarda mais próximo, ficando cara a cara com ele.

-Oi. – ela anunciou com um enorme sorriso. Depois o transpassou com a katana de lâmina curta que tinha. Ao ver o corpo cair, anunciou – Tchau.

Os outros se afastaram e ficaram em posição de ataque ao redor dela.


Em Nagoya

Os Exterminadores terminavam de arrumar a máscara do uniforme e se reuniram em volta de Kirara, já preparados para receber as ordens. Kanna observava a cena curiosamente do sofá: Vários adultos, assassinos treinados, estavam sob o comando de uma criança de onze anos.

-E quantos são? – um deles perguntou para ela.

Novamente Kanna notou que a menina ficou com o olhar vago, o rosto um pouco voltado para trás: estava ouvindo os sons que vinham da área do jardim da mansão.

Kanna levou anos de treinamento para aperfeiçoar aquilo.

-Vinte e cinco. – ela falou em um primeiro momento, depois balançou a cabeça – Não, vinte e quatro. Contei errado.

Vinte e quatro era um número razoável. Poderiam dar conta, se ela conseguisse liderá-los.

Kirara desfez o laço cor de salmão da cintura e no ato várias coisas caíram no chão: bombons, um mapa turístico de Nagoya, outro chocolate, band-aids coloridos com os rostos de todos os personagens de Sailor Moon e até um ioiô. Depois pegou a faixa e amarrou a Katana nela, colocando-a de forma transversal às costas, prendendo a arma num nó na frente do peito.

Era a estratégia para carregar uma arma grande demais para a altura dela.

-Ninguém pode entrar na mansão. Sakura-chan e Megumi-chan. – ela se voltou para duas jovens que terminavam de prender as máscaras, parte do uniforme deles – Há um grupo indo para o telhado. Podem seguir pra lá.

-Entendido. – as duas falaram ao mesmo tempo, saindo às pressas.

-Yuki-kun e Abe-chan, vocês podem ir para os fundos. Há quatro tentando entrar.

-Okay. – um homem e uma mulher falaram ao mesmo tempo, retirando-se depois de uma reverência.

Enquanto os demais aguardavam as ordens, Kirara abaixou-se e ficou mexendo os band-aids de Sailor Moon como se estivesse selecionando o mais bonito na maior tranquilidade.

-Qual vocês acham que eu escolho? – ela mostrou os curativos com os rostos da Sailor Mercury e da Sailor Mars.

Todos os adultos arregalaram os olhos. Ela bufou com raiva infantil.

-É pra eu colocar no dedo, aff. – ela ergueu o dedo que cortou com a lâmina, ainda sangrando um pouco.

-Continue com as ordens, Kirara-sama, por favor. – Hiro educadamente a ignorou disfarçou uma tosse de irritação.

-Vocês todos vão comigo pro jardim. – ela finalmente escolheu Sailor Mercury para cobrir o dedo, cuidando do ferimento. Depois pegou o ioiô e o colocou em um bolso da calça – A ordem é não deixar ninguém entrar na mansão e proteger os três. Só isso.

-Certo. – eles assentiram e se prepararam para sair, virando na direção da porta da entrada da mansão.

-Ah, antes de irmos... – Kirara começou.

Todos pararam e olharam para ela.

Kirara estava no chão, cotovelo apoiando no chão e mão no rosto, a arma Muramasa desembainhada na outra mão.

-Alguém pode tirar uma foto minha assim? Eu quero mandar pra Sesshoumaru-sama e tia Sango-chan.

-KIRARA-SAMA! – Hiro deu um grito irritado, o rosto queimando de raiva – NÃO É HORA PRA-

Não completou a frase. A luz foi embora e tudo era breu. A energia da mansão tinha sido cortada.

-Eu odeio quando fazem isso. – Kirara lamentou com um suspiro, levantando-se e limpando uma poeira imaginária da roupa – Eu preciso tirar uma foto maneira pra mandar pra eles depois.

Kanna viu quando eles apertaram um botão no ombro. Um feixe de luz apareceu ali. Era uma mini-lanterna para todos os efeitos.

-Vamos lá! – ela ergueu a mão numa pose vitoriosa, sorriso largo no rosto – Amanhã quero visitar a Legolândia daqui!

-Kanna-san. – Hiro se virou na direção da protetora da família Higurashi – Você deve ficar descansando aqui.

Alguém passou por cima de todos os ninjas, algumas vezes pisando no ombro ou na cabeça de alguém para suporte e aterrissou na frente do grupo.

Kirara estava na porta da entrada, sorrindo. Era a única que não tinha máscara.

-Desliguem as luzes. – ela ordenou.

Kanna queria muito ver o que aconteceria. Ignorou o pedido de Hiro e conseguiu com todas as forças que restavam levantar-se, sentindo o próprio corpo reclamar. Reprimia um gemido a cada movimento dado em direção da porta.

-Kanna-san, você deve permanecer repousando. – Hiro falou mais uma vez, agora em um tom mais severo de um adulto para outro adulto. Não era uma ordem, mas sim uma recomendação para evitar algo mais grave.

-Eu quero ver. – ela pediu com urgência, recebendo o apoio dele para ficar em pé – Não vou fazer nada. Vou ficar só olhando.

Ouviu-o dar um suspiro cansado. Ele então a ajudou a andar até a porta de entrada da mansão e a sair para o pátio. Ela ficou apoiada em uma parede, sentindo o frio da noite soprar por ela e balançar o fino robe que cobria o corpo enfaixado.

Da entrada não era possível ver nada. Mas, caso fosse bem treinado, dava para sentir pelo ar e ouvir o que se passava ao redor.

O grupo aguardava em posição pelas ordens de Kirara, até perceberem que ela estava concentrada, em silêncio.

Depois ela tirou do bolso o ioiô e colocou o nó na ponta do dedo, dando impulsos para ele girar.

Todos a observaram enquanto ela brincava assim por pelo menos dois minutos. Parecia que não tinha outra preocupação no mundo.

-Tô cansada de esperar. – ela murmurou – Será que eles estão esperando a gente falar alguma coisa?

O ioiô deu uma volta completa.

-O que quer dizer? – Hiro perguntou.

O ioiô deu outra volta.

-Acho que eles querem que a gente fale alguma coisa pra eles virem nos atacar.

O ioiô deu mais uma volta e parou na mão direita dela, fechando com ele.

Kirara se afastou mais do grupo e deu um suspiro pesado.

-OI! – ela colocou a mão esquerda perto da boca para ajudar no grito – ESTAMOS ESPERANDO JÁ!

Os adultos que estavam com deram um gemido de irritação. Kirara às vezes passava dos limites.

-O que foi? – ela quis saber, sem entender aquela reação – Eles estão demorando, ué.

O rosto ficou com uma expressão de alerta um segundo depois. Alguém estava se aproximando.

Rápido.

E ela reagiu soltando o ioiô e mirando na cara de um ninja, que caiu antes de conseguir fazer qualquer tipo de reação.

Depois pegou a espada Muramasa pelo cabo e a puxou de trás das costas.

Ninguém viu um sorriso maligno seguido pela língua lambendo os lábios no rosto dela.

-Vamos. – ela anunciou.

E todos a acompanharam, deixando apenas a protetora dos Higurashi no pátio.

A partir daquele momento, Kanna fez um esforço sobre-humano para acompanhar o que se passava no jardim iluminado apenas pela lua cheia. Os movimentos de todos eram rápidos demais e só via os corpos caírem no chão com um baque surdo.

Kirara era definitivamente mais rápida, principalmente porque era menor e mais leve. Passava por entre os adversários com facilidade, jogando o fio do ioiô entre as pernas, derrubando-os de uma vez, assustando-os com o movimento inesperado, matando-os com um golpe da espada Muramasa.

Com velocidade digna de um experiente ninja, ela cortou um adversário particularmente mais alto que os atacara, separando cabeça do resto do corpo.

Sangue voou em todas as direções.

Finalmente ela caiu graciosamente sob um joelho próximo ao pátio onde Kanna estava em pé.

A menina ergueu o rosto e depois se levantou triunfantemente. Agitou a espada em um único movimento da mão direita e livrou o sangue dela, que respingou para o mesmo lado. Estava com as mechas amarelas com muito sangue, manchas vermelhas que grudavam na testa e escorriam lentamente pelo rosto infantil.

-Nee, nee, Kanna-chan. – ela começou com um sorriso tão largo quanto se tivesse ganhado o maior e melhor brinquedo do mundo – Essa espada é mesmo MUITO legal.


Próximo capítulo:

"–Como consegue passar pelo sistema de segurança?"

"–A partir de agora o seu nome será Matsumoto-san."

"–Tudo bem, Kanna-chan. Eu sei que criança tem que ir cedo pra escola."

Capítulo 23: Uma noite de conspiração.