Nota da Autora: Mais um capítulo e o final se aproxima... Hahahah. Vamos ver se consigo terminar antes da estreia de Hanyo no Yashahime. Alguém aí está tão ansiosa quanto eu pra ver as gêmeas do Sesshoumaru?
Eu deveria ter postado o capítulo na quarta, mas infelizmente tive muito trabalho remoto... reuniões online etc. Esse tipo de coisa me deixa muito cansada e não consigo ficar muito tempo na frente do computador depois.
Há um pessoal aí que é fã do Hakudoushi e da Kikyo como casal, e eu não sei o que eles farão comigo quando lerem esta parte.
Sei que muitos podem reclamar deste capítulo (e do próximo) por dar atenção a personagens secundários, mas eles não reaparecerão depois, a não ser no final da história. E será importante saber o que se passou com eles para entender os próximos capítulos com os personagens principais. Lembrem-se também que os eventos estão ocorrendo ao mesmo tempo em 3 lugares diferentes. Mas prometo coisas bonitas na parte 24 :D
Espero que gostem e que possam comentar dizendo o que acharam e o que esperam no futuro. Obrigada a quem comentou no último: Cindy-chan, Asuna Yuu, Lan Ayath, Guest e Lhamalhama. Muita gente ainda grita AAHHH quando vê que voltei a atualizar. Voltem a comentar também, por favor :P O próximo sai em 10 dias (se eu me empolgar com os comentários, pode sair antes, hihihi). Ah, e desculpem os eventuais deslizes. Aos poucos vou encontrando alguma concordância errada aqui e ali e vou corrigindo, ok?
Verifiquem com frequência meu perfil no twitter (Username: ukitaketai) e também este perfil do FFnet para saber sobre atualizações.
Disclaimer: "InuYasha" é propriedade de Takahashi Rumiko
A cor do dinheiro
Capítulo 23: Uma noite de conspiração
Para Lan Ayath
Kirara tinha muitos hobbies.
Um deles era o balé.
Balé dava suavidade, flexão, acalmava os nervos. Ela gostava de balé. Ideia da tia dela, três anos antes.
E era num jardim cheio de cadáveres que ela dava pequenos passos ao som dos jatos de água dos regadores automáticos que ela fazia aqueles movimentos fluídos, delicados e singulares na frente de Kanna.
Os exterminadores fizeram o serviço deles – exterminaram todos os invasores e agora limpavam o que haviam feito – ou melhor, tentavam tirar os corpos e marcas de sangue dali para que, quando as crianças acordassem, não vissem nada.
Kirara apenas deu a ordem da limpeza e estava ali indiferente ao serviço dos outros e às vistas de Kanna, movimentando os braços e as pernas como se estivesse em O Quebra-Nozes.
Com rond de jambe en l'air.
Fondu.
Frappé e frappé.
E um rond de jambe à terre.
Kirara não tinha o menor interesse em ajudar a limpar aquele massacre promovido pelo próprio grupo enquanto ela mesmo estava coberta de sangue, dançando iluminada apenas pela lua cheia.
Kanna tinha muitas perguntas a fazer para o grupo, mas iria esperar que acabassem o serviço antes de começar o interrogatório. Eles nem tinham obrigação, mas era um procedimento necessário. Ela queria saber quem eram aquelas pessoas e por que estavam atrás das crianças.
E pensar que cinco anos antes, ela provavelmente estaria no Templo Higurashi, terminando a ronda noturna, esperando Kikyo se retirar para então ela mesma poder ir dormir.
Tokyo – Mansão do Templo Higurashi
Cinco anos antes
No Templo Higurashi, dois seguranças que conversavam e fumavam com outros seguranças armados na frente de um portão, em um momento de serviço, pararam o que faziam ao perceberem a aproximação de um carro.
Eram quase cinco horas da tarde. De onde estavam, o minúsculo cubículo da guarita dos portões, viram quando o veículo passou pelos portões de ferro e estacionou na frente da casa. De lá desceram duas mulheres – uma jovem de 17 anos, cabelos longos e negros, rosto fino e pele pálida, que se vestia elegantemente mais adulta para parecer mais velha, e uma mulher de cabelos escuros com tons roxos, de uniforme branco, de um tecido matelassê branco, uma espada presa no lado direito da cintura e uma pistola .45 no lado esquerdo.
Era a única da guarda pessoal que tinha uma espada. Os rumores diziam que era uma lâmina amaldiçoada e proibida pelo governo desde a era Tokugawa.
Kanna era considerada a melhor segurança da guarda pessoal dos Higurashi. A família dela protegia os membros desde outras eras. O avô, o pai, o irmão... todos foram ou ainda eram membros da segurança da família, uma das mais nobres da yakuza.
-Kikyo-sama e Kanna-san estão chegando. – um deles, um rapaz novo, corte militar e rosto vermelho por causa de um problema de pele, falou ao colega que fumava. Esse, de cabelo castanho ainda por cortar, tinha os olhos fixos no movimento das mulheres. Pegou o radiofone e fez uma chamada.
-Kikyo-sama acabou de chegar. Está tudo seguro. Podem fechar o portão.
A família passava por um período de relativa tranquilidade. Dois anos antes, quando Kikyo tinha acabado de assumir o comando da família, houve um sério problema com outra família nobre, os Akai. Tudo foi resolvido pela mediação de Bokuseno, mesmo tendo algumas perdas.
Tudo foi tão bem resolvido que até uma das irmãs dela, de quinze anos, namorava um dos filhos do chefe da família Akai.
Mas os seguranças também viram sair do recém-chegado veículo um jovem. Parecia ser um estrangeiro. De longe parecia ser ocidental, com pele e cabelos claros. Vestia camisa e calça social e mantinha uma distância saudável de Kikyo, não parecendo assim tão próximo dela.
Foi o começo de tudo. Pelo menos para Kanna, porque ela não tinha ideia e nem tinha interesse em saber como os dois haviam se conhecido depois do incidente entre as duas famílias.
Akai Hakudoushi passou a frequentar mais a casa dos Higurashi principalmente depois do falecimento do tio dele. O indicado para ser o líder da família foi o primo dele, filho mais velho do antigo líder, o que o deixava com tempo relativamente mais livre para visitas.
Eram tardes conversando no escritório dela com portas abertas, tomando chá, às vezes sentados nas poltronas separadas. Quase dois meses depois, as visitas dele passaram a ser de portas fechadas no mesmo sofá para três pessoas. Vinha sozinho, especialmente nos dias em que Kagome não estava em casa.
Era óbvio que queriam manter discrição. Não queriam comentários ou notícias em jornais.
E mais algum tempo depois, começou a chegar tarde. Ficaram no quarto de Kikyo. Chegava por volta das onze, e saía às seis da manhã. Era sempre mais cedo. E a líder saía do quarto depois das dez ou onze horas da manhã, sempre de bom humor.
Era visível para Kanna que ela estava feliz.
Mesmo que fosse com o único adversário que não venceu.
Uma vez, ao passar pelas guaritas para verificar o sistema de segurança, como fazia todas as noites, escutou uma conversa logo após a chegada rotineira do rapaz. Ele chegou em um táxi, passou pelos portões e desceu na frente da entrada da mansão, próximo aos jardins do pátio.
Era óbvio que as visitas começaram a chamar a atenção dos funcionários que, reunidos em um grupo próximo ao portão, aproveitavam para conversar.
-Olha lá, a patroa vai ter uma noite boa hoje... – o segurança com problemas dermatológicos comentou num deboche.
-Kikyo tá apaixonada, Kikyo tá apaixonada... – o colega dele completou num tom zombeteiro.
Claro que ela ouvira a conversa. E eles só perceberam a presença dela quando um deles viu a sombra da mulher por causa da espada. Ele cutucou os colegas e imediatamente todos ficaram em silêncio e em posição de sentido, como se estivessem no exército.
Era engraçado perceber que nenhum deles usaria o mesmo tom de deboche se o chefe da família fosse um homem. Ele poderia trazer uma mulher diferente por noite, mas os deuses os livrassem se uma mulher levasse um homem para casa em dois anos como líder da família.
Que hipocrisia.
Kanna parou na frente deles, olhou-os como se quisesse gravar cada rosto, e passou reto para outro ponto. Precisava fazer a vistoria. Começava na guarita e ia até os pontos de observação atrás da mansão. Tudo levava em torno de trinta minutos com o auxílio dos comunicadores.
No dia seguinte, os dois homens foram remanejados para o turno da manhã.
As visitas dele continuaram até que, mais alguns meses depois, os problemas começaram. Ela se lembrava bem do dia que Kikyo-sama começou a ter enjoos e dores de cabeça. Hakudoushi ia todos os dias visitá-la e saía cedo para deixá-la descansando pela noite toda. Outras vezes passava a noite com ela.
Não havia nenhum comunicado oficial, mas era bem óbvio o motivo e o aumento do número de visitas do rapaz Akai.
E um dia – aconteceu.
Em uma tarde de muito calor durante o verão, Kikyo passou tão mal que foi parar no hospital. De lá ela saiu quatro dias depois, extremamente fraca, muito debilitada. Passou dias sair do quarto e com muito esforço se alimentava. Kagome passou a ficar mais tempo em casa e às vezes levava tardes inteiras tentando fazer a irmã ingerir alguma coisa e, quando saía, era quase sempre com o prato ainda cheio e copo meio vazio. Kanna sempre observava as duas da porta do quarto, notando a preocupação da mais nova cuidando da mais velha quando deveria estar estudando. Desmarcava encontros com Inuyasha e às vezes o mandava embora para poder cuidar com mais calma da irmã.
Agora, além de Kaede, isolada desde quando perdeu a visão de um olho, ela cuidava também de Kikyo.
Era visível o desgaste que isso provocava nela. Kagome parecia mais magra, mais cansada e se assustava com qualquer barulho.
O cenário não mudou nos dias seguintes. Kikyo continuou muito mal, faltando às reuniões do conselho e evitando as festas religiosas sempre promovidas no Templo Higurashi, aumentando o nervosismo de Kagome.
Até que Kanna a ouviu ligar e falar com Hakudoushi.
Nessa hora arqueou uma sobrancelha tão discretamente que ninguém percebeu. Será que Kagome sabia do que acontecia ou o que aconteceu entre os dois?
Será que ela imaginava o que tinha acontecido com a irmã?
A teoria de que Kagome e os demais membros da família não sabiam o que tinha acontecido se comprovou quando a irmã mais nova se aproximou dela para avisar:
-Está vindo um primo do meu namorado para consultar Kikyo-nee-sama. – ela parecia muito aflita – Você pode avisar para deixá-lo entrar?
Kanna assentiu e tratou de falar com a segurança para permitir a entrada do jovem Akai.
Quando ele chegou, por volta das oito da noite, não houve troca de palavras entre os dois – ela, Kanna, a chefe da segurança, e ele, Hakudoushi, antigo inimigo da família Higurashi, agora um interesse da líder – ou quase isso.
-Hakudoushi-sama. – Kagome apareceu aflita na sala, torcendo as mãos de nervosismo – Desculpe chamar você hoje, mas a minha irmã... – ela não completou.
-Tudo bem, Kagome... – Kanna o viu dar um meio sorriso. Depois falar alguma coisa que não escutou da distância onde estava. Ele evitou até o contato visual com Kanna, fingindo não ter estado ali antes enquanto era guiado por Kagome até os aposentos de Kikyo.
Logo em seguida, o médico entrou sozinho no quarto, de portas fechadas. Kagome ficou na sala, aguardando e aguardando.
Depois que ele saiu, despediu-se de Kagome e disse que a irmã estaria melhor pela manhã. Ela o acompanhou até a saída e voltou para o quarto de Kikyo para passar a noite com ela.
No outro dia, ninguém entendeu como alguém que parecia tão mal nos dias anteriores amanheceu com boa disposição como se nada tivesse acontecido. Kikyo voltou a trabalhar, marcou reuniões, confirmou compromissos, dava ordens com seriedade e um pequeno sorriso.
-Nee, nee, Kanna-chan. – Kirara interrompeu aquelas lembranças com evidente preocupação nos olhos – Você tá se sentindo bem?
Ainda em pé e apoiada na parede daquele pátio, a mulher se limitou a balançar a cabeça para os lados.
-Está tudo bem. – ela respondeu – Estou apenas pensando nas crianças.
-Você quer ir lá com elas? – a menina perguntou inclinando a cabeça para os lados, pensativa – Posso ir lá ajudar também.
-Vocês já terminaram? – ela perguntou em dúvida, notando a movimentação no jardim.
-A maior parte. – Kirara olhou para o grupo – Daqui a pouco a energia vai voltar também. Aí a gente acorda as crianças pra brincar.
"Acordar"? "Brincar"? Kanna ficou boquiaberta e Kirara riu graciosamente, tratando de completar depressa com um sorriso.
-Tudo bem, Kanna-chan. Eu sei que criança tem que ir cedo pra escola. Não vou acordar ninguém, prometo.
Meses depois, em uma festa oferecida pela família Higurashi no Templo, Kanna finalmente entendera o que aconteceu com Kikyo. Na ocasião, várias famílias de elite foram convidadas, incluindo os Akai.
E Hakudoushi estava ali também.
Próximo a Kikyo, ela notou que a líder conversava com muitos conhecidos. Mas ignorava de uma maneira estranha o médico.
Era como se não o conhecesse.
Kagome conversava com ela e insistiu para que a irmã se aproximasse do grupo onde estava Hakudoushi e Inuyasha.
-É o primo de Inuyasha, lembra dele? Cuidou de você há alguns...
Kanna não prestava atenção até ver que Kikyo se aproximava do grupo junto com a irmã. Ela tinha que segui-las também. Dever dela.
-Kikyo nee-sama. – Kagome estendeu o braço na direção de Hakudoushi – Esse aqui é um primo de Inuyasha.
O médico, de costas, virou-se muito lentamente. Estava de roupa social – camisa branca e calça escura e um casaco de tom igual à calça. Ele parecia pensar com cuidado sobre o que dizer.
-Akai Hakudoushi, senhorita Higurashi. – finalmente se apresentou.
Houve uma pausa por parte de Kikyo, como se ela estivesse avaliando a situação. Os olhos piscavam suavemente.
-Prazer em conhecê-lo. – ela fez uma pequena reverência.
-Ah, vocês não se conheciam? – Inuyasha observou curiosamente.
Kanna não lembrava de ter conseguir tanto autocontrole como antes para não deixar passar o que sentiu. Um brilho de aviso passou pelos olhos. Continuou observando o grupo, com Kikyo tentando interagir entre eles, fazendo algumas perguntas aqui e ali.
Parecia que ela realmente não conhecia Hakudoushi.
Cerca de meia hora depois, ela viu que o médico estava na sacada do grande salão, sozinho e pensativo. Ele parecia ser o único que não bebia e não fumava ali.
-Kikyo-sama. – ela falou para a líder dela – Vou me retirar por dez minutos.
Kikyo apenas franziu a testa. Era tão incomum Kanna falar alguma coisa, quiçá pedir algo tão simples.
-Claro, sem problemas. – ela falou – Leve o tempo que precisar.
Kanna acenou com a cabeça um "sim" e passou o comando para outro guarda, depois afastou-se.
Encontrou Hakudoushi apoiado nos braços observando o jardim do Tempo Higurashi da sacada. Ou tentando observar, pois ver o jardim à noite não era a mesma coisa que a visita de dia.
Parada atrás dele, foi surpreendente que ele não tivesse prestado atenção na aproximação dela.
-O que... – ela começou.
Hakudoushi olhou por cima do ombro atraído pela voz e pela pergunta, piscando curiosamente ao vê-la. Mas não comentou nada. Ele a reconhecia.
-O que você fez com Kikyo-sama? – ela perguntou em um sussurro. Não queria que ele percebesse que estava intrigada e assustada com a situação.
Hakudoushi se virou completamente para ela.
-Do que está...
-Eu quero a verdade. – ela asseverou. Continuava sem esboçar nenhum tipo de reação no rosto, mas a voz indicava que ela queria uma resposta honesta.
Hakudoushi colocou as mãos nos bolsos da calça social e olhou para um lado, para não ter que encará-la.
-Eu fiz o necessário.
-E o que foi necessário? – ela perguntou sem alterar o tom. Já estava imaginando o que seria.
O que mais faria alguém esquecer completamente de uma pessoa da noite para o dia?
Hakudoushi demorou para responder.
-Ela não estava bem. – depois de algum tempo ele completou, como se escolhesse as palavras com cuidado, e encontrou o olhar dela, mais sério, mais sincero – Você viu como ela estava.
Kanna não comentou. Ele tinha razão. Kikyo estava muito mal antes. Mas em uma única noite parecia ter voltado à normalidade. No dia seguinte voltou à trabalhar, voltou a participar de reuniões do Conselho da Yakuza. Até aquela festa era resultado da melhora dela.
-Eu fiz o necessário. – ele reafirmou como se falasse consigo mesmo, com um olhar distante.
Kanna fez uma pequena reverência e deu as costas para ele.
-Mais uma coisa... – ele começou.
E ela pausou.
-Para você eu sou Hakudoushi-sama, Akai-sama ou Dr. Akai, não "você". – ele falou em um tom de aviso.
Kanna virou-se novamente sem se mostrar afetada. Era verdade que o tratara por "você" e sem o devido tratamento.
Fez uma reverência e nenhum tipo de contato visual.
-Aproveite a festa, Hakudoushi-sama.
E voltou para o grande salão para se juntar novamente a Kikyo. Ao encontrá-la, notou algo estranho.
A líder franzia a testa e esfrega de vez em quando as têmporas. Foi assim quase a noite toda.
-Está tudo bem, Kikyo-sama? – Kanna perguntou.
-É só uma dor de cabeça. – ela falou meio apressada – Vai passar.
Cerca de três semanas depois da festa no Templo, Higurashi Kikyo estava a caminho de uma casa de chá para uma reunião no bairro do Tokyo Dome. Reunião de negócios sem perigo, mas chamou Kanna e mais dois membros da guarda para irem com ela.
Mas de todos os lugares para ir, foi justamente lá que esbarrou em Hakudoushi acompanhado de uma garota, de braços dados.
Na verdade, Kanna o viu e tinha certeza que Hakudoushi também tinha percebido a presença de Kikyo saindo da sala. Ele parou e olhou para a direção do grupo. Ela, sentindo olhares, virou-se para ver quem a observava.
-Ah, Hakudoushi-sama. – ela falou com um meio-sorriso educado. A pose era elegante. Ela parecia de bom humor – Prazer em reencontrá-lo.
-Higurashi-sama. – ele parecia surpreso e, ao mesmo tempo, nervoso com a presença dela ali, como se não quisesse encontrá-la, ainda mais acompanhado de uma desconhecida para ela – Como está?
-Estou bem. – ela forçou um sorriso. Kanna sabia que não era verdade. A líder da família Higurashi quase todos os dias tinha crises de dor de cabeça. Provavelmente havia dito aquilo por educação.
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos em silêncio. Parecia que pensavam no que dizer. Ele parecia observar todos os detalhes dela e dos trajes – o cabelo solto, uma manta com gola e bainha de pelo de animal, roupa social e um broche com o símbolo da família Higurashi. Também notou que ela queria que ele fosse um pouco mais educado e apresentasse a acompanhante.
-Essa aqui é uma amiga da infância da Noruega. Veio conhecer o Japão por alguns dias. – ele apresentou a garota ao lado dele. Parecia que tinha a mesma idade de Kikyo. Começou a falar em inglês – Ingrid, this is Higurashi Kikyo. Higurashi-sama, this is a friend of mine, Ingrid Olsen .
A prima dele tinha olhos e cabelos claros, extremamente louros. Era alta, quase na mesma altura que ele e tinha a pele igualmente clara, quase no mesmo tom do marfim de Kikyo.
-Nice to meet you, Olsen-san. – Kikyo falou em um inglês excelente e continuou a conversa na mesma língua – Está gostando da estadia?
-Achei um país maravilhoso. – a garota comentou. A mão dela apertou o braço de Hakudoushi – Tudo é muito bonito. A família de Hakudoushi é muito divertida.
Kikyo deu um sorriso que só o rapaz entendeu o significado por conta da ingenuidade da moça.
Mal ela sabia.
-Você tem uma pele maravilhosa. – a garota continuou – Acho todas as japonesas tão sortudas.
Kikyo deu outro sorriso. Era comum ouvir aquele comentário também. Agradeceu ao elogio e retribuiu, dizendo que ela também era linda e que os japoneses apreciavam muito a beleza dos traços ocidentais.
-Bem, temos que ir. – Kikyo falou, jogando o cabelo para trás dos ombros como hábito – Prazer em revê-lo, Hakudoushi-sama. Até mais, Olsen-san.
-Até mais, Kikyo-sama. – o médico falou com um meio-sorriso. O olhar dele encontrou Kanna por alguns segundos – Vamos, Ingrid.
-Bye. – ela acenou numa despedida graciosa, sem deixar de sorrir.
Os grupos passaram um pelo outro. Kikyo em direção à saída sul, onde estava o carro, e Hakudoushi em direção a uma das salas de chá.
E foi nisso que Kanna viu o braço dele esbarrar no braço da chefe dela.
Kikyo parou. E ficou assim por vários minutos.
-Está tudo bem, Kikyo-sama? – Kanna notou a expressão preocupada dela. Parecia que ela estava assustada com alguma coisa.
Kikyo não respondeu imediatamente. Parecia ter se dado conta da pergunta depois.
-S-Sim... – na verdade sairia um "não, não"- Podemos voltar para casa agora.
A dor de cabeça que Kikyo sentia estava pior naquela noite. Ela nem tinha jantado, avisando que iria se deitar logo. Pediu a um assistente para marcar uma consulta com algum médico especializado para verificar o que poderia ser.
Naquela noite, apenas Kikyo e os demais seguranças e membros da guarda estavam em casa. A senhora Higurashi estava em Yokohama com os filhos menores, Kaede e Sota, e Kagome tinha ido passar a noite na casa do namorado, na mansão Akai.
Kanna não havia se retirado ainda. Ela esperaria chegar onze horas da noite para trocar a chefia da guarda para poder subir ao quarto e dormir.
No entanto, por volta das dez horas da noite, ela ouviu um grito.
E era de Kikyo.
Saiu em disparada em direção ao quarto da líder e parou diante da porta.
-Kikyo-sama? – ela chamou.
De dentro houve mais gritos angustiados. Parecia um animal num abatedouro.
Abriu a porta sem pedir licença e deparou-se com Kikyo contorcida em posição fetal na cama, as mãos na cabeça.
Aproximou-se cuidadosamente e tentou tocar no braço dela.
Mas, antes de tocá-la, afastou a mão por causa de outro grito.
-Minha... cabeça... – gemeu e deu outro grito.
Kanna olhou para trás e viu que estava acompanhada de outros dez membros da guarda, todos curiosos para saber o que estava acontecendo.
-Chame aquele médico dos Akai. – ela ordenou com urgência na voz para o mais próximo dela.
-Hakudoushi-sama? – ele perguntou.
-Conhece outro médico nessa família? – ela perguntou numa rispidez necessária para o momento – Chame-o agora mesmo, rápido!
Hakudoushi não demorou para chegar. Parecia que estava com a mesma roupa de quando o encontraram na casa de chá. Ela notou a forma como ele parecia preocupado.
Encontrou Kanna na entrada da casa. Sem trocar uma palavra, ele a seguiu pelos corredores. Ela bem percebeu que ele já sabia o caminho e estava com pressa, mas ela precisava conduzi-lo, de qualquer forma.
Ao entrarem no quarto de Kikyo, ele se aproximou da cama quase correndo. Kanna ficou perto também, observando as expressões dele.
Kikyo continuava se debatendo. A mão estava na cabeça e os olhos fechados em grande dor.
-Ela está assim desde o início da noite. Ela nem conseguiu jantar. – Kanna explicou.
O médico ficou sem reação, apenas observando a garota se tremer em posição fetal, ainda gritando.
E ele não fazia nada. Ficou lá parado.
-Faça alguma coisa AGORA! – Kanna pediu com tom urgente. Até ele ficou surpreso. Ela geralmente sequer abria a boca para falar um "boa noite".
Hakudoushi pegou a cabeça de Kikyo e ouviu um berro. Era um grito mais forte que os anteriores, como se estivesse reagindo exclusivamente ao toque dele.
Kanna observou que as feições do médico ficaram mais cansadas. Parecia que ele já esperava aquela reação.
-O que ela tem? – quis saber.
Hakudoushi olhou pelo canto dos olhos para ela. Parecia que estava com raiva.
Numa hora daquelas ele tinha uma reação assim? Qual era o problema dele?
-Saia daqui, por favor. – ele murmurou. Parecia que estava calmo, mas o tom de voz o traía.
Como Kanna não moveu um dedo, ele voltou a falar num tom mais urgente.
-Deixe-me sozinho com ela.
Kanna fechou os olhos e deu as costas. Outros membros da guarda estavam parados do lado de fora, sem entrar no quarto, aguardando apenas qualquer tipo de ordem. Era sempre assim: se mandassem respirar, eles respiravam. Se mandassem fechar os olhos, eles fechavam. Tudo sem questionar.
Kanna fechou a porta e cruzou os braços, encostando-se em uma parede próxima ao aposento no grande corredor.
-Podem ir, eu fico aqui.
Silêncio.
Mais silêncio.
Cerca de dez minutos depois, os gritos recomeçaram mais fortes. Ela se impedia de abrir a porta para ver o que acontecia. Mas o aviso de Hakudoushi era muito seguro. Ele parecia saber o que estava acontecendo.
Mais algum tempo depois, os gritos diminuíram e ela ouviu um choro fraco. Era provavelmente Kikyo. Quase uma hora depois, ouviu as vozes alteradas em uma discussão – ela falando alto, ele pedindo para ela não elevar a voz e escutá-lo.
Kanna olhou para o teto. Olhou para os lados. Olhou para a frente.
Balançou a cabeça quando começou a ouvir gemidos, principalmente de Kikyo. Parecia que a situação tinha levado outro rumo. Afastou-se e foi aguardar em outro lugar.
Hakudoushi ficou no quarto por cerca de quatro horas. Quando saiu, tinha a roupa amassada e o casaco jogado por cima do ombro. Quando saiu, estava visivelmente chateado e parecia não notar a presença de mais ninguém no recinto ao passar para ir em direção à porta.
-Ela está melhor? – Kanna perguntou, fazendo-o parar.
O rapaz parecia surpreso ao encontrá-la ali. Ele realmente queria ir embora sem passar por ela?
Viu quando ele travou a mandíbula. Parecia que pensava se responderia ou não.
-Sim, está melhor. – ele confirmou finalmente, a expressão chateada no rosto com perfil muito ocidental – Ela não vai mais ter dores de cabeça.
Kanna não assentiu. Ficou apenas parada, olhando para ele. Ele deu as costas para ela e afastou-se até a saída.
-Eu já conheço o caminho. – ele acenou de costas, a mão movimentando em uma despedida.
No dia seguinte, Kikyo estava livre de dores de cabeça e voltava ao trabalho sem um pingo de humor.
Para completar, ordenou que se Hakudoushi algum dia aparecesse, era para dizer claramente que ela não poderia recebê-lo.
-Kirara-sama, você precisa de um banho. – uma das exterminadoras, Megumi, tentava limpar o cabelo e o rosto de Kirara com panos umedecidos. A menina não ligava. Simplesmente tinha os olhos fechados e parecia gostar de ter a atenção de alguém daquela forma. O rosto inclinado para cima, olhos fechados, um sorriso no rosto.
Kanna observava sentada no sofá toda a cena. A exterminadora adulta limpava o sangue dos fios da exterminadora criança, deixando aparecer a cor original do cabelo louro o melhor que podia. O pano passou também pelo rosto: testa, bochechas, olhos...
Era melhor mesmo que ela tomasse banho. Mas alegaram que não era necessário tal coisa.
A energia tinha sido reestabelecida e estavam todos reunidos na sala da mansão. A pessoa que mais precisava de cuidados era Kanna, que nem conseguiu voltar sozinha para dentro, precisando da ajuda de Kirara para se apoiar e ficar descansando no sofá.
Hiro aproximou-se de Kanna, privando-a da visão da menina e da exterminadora que a ajudava a se limpar.
-Precisamos conversar sobre o que houve. – ele começou, colocando um joelho no chão para se apoiar e ficar na mesma altura de Kanna sentada.
-Tudo bem. – ela tinha a mão em uma das costelas. Doía um pouco para falar e ficar muito tempo sentada ou em pé, mas ela precisava aguentar um pouco. Provavelmente não haveria sangramento.
Hiro deu uma pigarreada.
-Bem, Kanna-san, Sesshoumaru-sama pediu que conversasse antes sobre uma coisa com você.
Kanna ergueu de leve uma sobrancelha, desconfiada.
-Nem sua líder e nem Hakudoushi-sama podem saber que fomos nós que ajudamos aqui esta noite. Para eles, nós nem estivemos aqui.
-Por quê? – foi a pergunta dela.
Hiro balançou a cabeça.
-Você sabe que nós não fazemos este tipo de pergunta. Sesshoumaru-sama ordenou, estamos cumprindo. Ele não quer que Kikyo-sama e o primo dele saibam que estivemos aqui esta noite e que tivemos contato com as crianças.
Uma conspiração. Outra para Kanna se meter.
Um momento de silêncio se fez.
-Quem eram eles? – Kanna decidiu perguntar.
-Eram uma guarda nova. – ele ficou um momento desconfortável. Será que ela não atenderia ao pedido? Por que mudou rapidamente de assunto? – Eles possuem uma tática especial de invadir duas ou três vezes um local para exterminar os sobreviventes.
Por isso eles atacaram uma vez e depois aguardaram para fazer um novo ataque.
Se estivesse sozinha, provavelmente seria eliminada na segunda vez ao pensar que estivesse segura.
-Você vai atender ao pedido de Sesshoumaru-sama? – ele perguntou ainda desconfiado.
Kanna assentiu finalmente.
-Você sabe que nós sempre temos que atender.
Lembrou-se então uma outra noite de conspiração e de como aquilo mudou a vida e fez mudar de posição dentro da guarda de Kikyo e função...
Meses se passaram sem que Hakudoushi aparecesse na vida de Kikyo. Em uma ocasião, durante o funeral da esposa do líder da família Akai, morta em um acerto de contas, os dois estiveram no mesmo ambiente, mas não trocaram palavras.
Até que uma noite, aconteceu.
Alguns dias depois do funeral, Kanna ouviu os alarmes dispararem às onze da noite. Alguém tinha adentrado o perímetro sem autorização.
Ordenou que guardas vasculhassem a área. Mas quase vinte minutos de busca não encontraram indícios de que alguém havia entrado na mansão ou em qualquer parte compreendida pela área do Templo Higurashi, onde Kikyo morava sozinha desde que Kagome se mudara para a casa do namorado, aquele rapaz da família Akai.
Não poderia haver qualquer erro em um momento como esse. Kanna se dividiu em ordenar o patrulhamento de toda a propriedade e dentro de casa.
Até que uma hora se passou e ela mandou parar com a busca. Alguém sugeriu que poderia ser um gato. Ou vários.
Subiu até o quarto de Kikyo e bateu. Ouviu um "entre" e a encontrou sentada na poltrona um pouco preocupada, um livro em mãos. Estava já vestida para dormir: cabelos soltos, pele limpa, um roupão de seda de luxo que cobria uma camisola de igual qualidade.
-Não encontramos ainda a fonte, mas os vigilantes sugeriram que fosse um gato. – ela avisou – Mas ficaremos de alerta, Kikyo-sama. Pode dormir tranquila.
Ouvi-a dar um suspiro pesado e fechar os olhos.
-Obrigada, Kanna.
Quando estava quase para fechar a porta, tanto ela quanto Kikyo ouviram um baque surdo do lado de fora da sacada. Parecia que algo tinha caído lá.
-Afaste-se. – Kanna voltou imediatamente para o quarto e fez um gesto com as mão para a líder ficar longe da sacada.
Kanna ficou em posição, katana em mãos, e abriu uma fresta na cortina da porta da sacada. Quem estivesse lá deveria sair por bem ou por mal.
Ofegou com o que viu.
-Kikyo-sama! – ela chamou e a outra se aproximou. Abriu completamente a cortina e escancarou a porta da sacada, deixando entrar o vento frio da noite no interior do quarto.
Do lado de fora estava um ofegante e muito ferido Hakudoushi de joelhos, segurando dois embrulhos, um embaixo de cada braço. Não dava para ver o que era.
-Kikyo... – ele começou num sussurro meio suplicante, os olhos lilases brilhando de forma estranha – Me ajude, por favor...
A mão de Kanna se fechou no cabo da espada meio involuntariamente. A líder notou isso e tratou de tranquilizá-la.
-Vamos... vamos colocá-lo na cama. – ela pediu. Na verdade, era algo que Kanna faria e ela só teria que observar.
Kanna assentiu e tentou ajudar Hakudoushi a se erguer, mas para isso ele teria que largar o que estivesse carregando.
-Espere... espere... – ele suplicou. Parecia que estava muito ferido. Tentou puxar o ar e engasgou, tossindo violentamente.
-Hakudoushi! – Kikyo não sabia o que fazer. Simplesmente correu para o lado dele e hesitou tocá-lo.
Kanna o ouviu murmurar alguma coisa ao ouvido da líder, mas era tão fraco que mesmo estando perto não conseguiu ouvir. O que ele tinha embaixo dos braços era o problema, aparentemente.
-Vá pegar água, rápido! – Kikyo ordenou.
No outro segundo, Kanna já tirava uma garrafa de água da mini-geladeira que a líder mantinha na suíte. Abriu-a e pegou um copo.
Ao voltar com a água em mãos, quase deixa o líquido cair tamanho o susto que levou.
Os "embrulhos" trazidos pelos médico estavam abertos no chão.
Duas crianças.
Um menino e uma menina.
Extremamente feridos também.
Kikyo olhava assustada para ele e para Kanna, sem saber o que fazer.
-Á-Água, por favor... – ele suplicou e Kanna despertou do que a mantinha presa, fitando aqueles dois volumes no chão. Entregou um copo ao médico, que tremia violentamente ao tentar segurá-lo. Foi preciso Kikyo o ajudar naquilo, segurando o copo até ele conseguir levá-lo à boca e beber.
Alguns minutos se passaram sem que ele dissesse nada, só bebesse água e jogasse um pouco no rosto. As mãos estava feridas, e havia muitos cortes no rosto e no pescoço.
-Eu preciso... – ele falou ainda um pouco sem ar – Eu preciso voltar à mansão.
Kikyo franziu a testa.
-Eu volto... depois... para explicar... – ele segurou a mão de Kikyo, encontrando o olhar dela – O-Obrigado.
-Por que você tem que voltar? – ela quis saber. Não fazia o menor sentido aquilo ali.
-Sesshoumaru... – ele ainda respirava com dificuldade e apontou para as crianças jogadas no chão – Ele não pode saber que estou com elas.
Kanna viu quando os olhos de Kikyo ficaram arregalados alguns segundos depois dessa declaração. Ela pareceu saber quem eram.
Mas não falou nada. Apenas viu Hakudoushi se levantar com muito esforço.
-Ninguém pode saber que estou aqui... – ele avisou, arfando menos que antes – Podem mandar os seguranças irem embora?
Kanna travou a mandíbula. Então era ele o intruso. O sistema de vigilância estava mesmo funcionando.
Kikyo olhou para ela como se estivesse dando uma ordem silenciosa. Kanna puxou um transmissor da roupa e apertou um botão, dando ordem para que desligassem o sistema de segurança por dez minutos. Ela estava fazendo um "teste de rotina".
Ninguém questionou a líder da guarda. Simplesmente foi feito o que foi dito.
-Eu ligo quando eu retornar. – ele avisou – Você não bloqueou o meu número, né?
Kikyo confirmou que havia sim bloqueado e depois deu um suspiro. Hakudoushi apenas balançou a cabeça e sumiu da sacada.
A garota ficou ainda na mesma posição. Testa franzida, roupão de seda e cabelos balançando suavemente ao vento. Estava frio e ela instintivamente se abraçou para proteger o calor do corpo.
-O que vamos fazer? – ela perguntou, olhando em dúvida o ponto para onde Hakudoushi havia partido.
-Vamos colocá-los para dentro. – Kanna sugeriu, abaixando-se para pegar os dois. Tinha falado "vamos", no plural mesmo, mas sabia que só ela iria fazer o esforço.
-Eu posso... posso ajudar. – Kikyo falou em um tom de esperança.
Kanna percebeu que a líder não queria se sentir de fora. Pegou o garoto, que parecia ser mais velho, nos braços, e depois indicou com a cabeça a menina.
-Consegue carregá-la?
Kikyo mordeu o lábio e fez sim com a cabeça.
A menina foi carregada com extremo cuidado, como se fosse uma boneca. Uma boneca como as de Kagome. Ela já tinha feito aquilo milhares de vezes.
Pegou a menina com a delicadeza de um brinquedo frágil, segurando-a também nos braços. Ficou em pé e percebeu que a outra mulher esperava que a seguisse.
Sem dizer uma palavra, Kanna virou-se e seguiu para o quarto. Lá, deitou a criança que tinha nos braços na enorme e luxuosa cama da líder da família. Seguindo as ações dela como uma sombra, estava Kikyo.
Por algum tempo ficaram aguardando notícias de Hakudoushi enquanto observavam as feições das crianças. Elas estavam vivas. Mas estava tão sujas de sangue e machucadas que Kikyo ficou com medo que elas morressem ali mesmo.
Cerca de uma hora e meia depois do aparecimento de Hakudoushi, chegou a notícia de que Kagome, acompanhada de Ookami Kouga, estava de volta ao Templo Higurashi. Tarde da madrugada.
Se ela estava voltando, alguma coisa havia acontecido na mansão Akai, pensou Kanna.
Kikyo saiu do quarto e a seguiu. A líder da família apareceu no alto da escada. Kanna também viu Kagome entrar com Kouga e conversarem baixinho, depois ele deu um abraço e se despediu, indo embora.
A irmã mais velha esperou a porta fechar e ficar em silêncio para tentar falar com a irmã.
-Kagome? – ela chamou – O que aconteceu?
A garota mais nova não respondeu imediatamente. Ainda de costas, olhando para a escada, Kanna e Kikyo viram os ombros dela tremerem e o choro.
-Kagome! – Kikyo desceu apressadamente as escadas, correndo na direção da irmã – O que houve? Está ferida?
Kanna preferiu deixar o momento para as irmãs. Viu a mais nova negar com a cabeça e falar alguma coisa sobre Inuyasha. Kikyo deu um abraço e fez um sinal com a cabeça para a chefe da guarda, que desceu as escadas quase correndo.
-Leve-a para o quarto... – a irmã mais velha falou – Vou esperar... – não completou a frase. Não precisava. Kanna já entendia.
Alguns minutos após levar a sensível garota aos prantos para o antigo quarto dela, onde não dormia há vários meses, ela voltou para o quarto de Kikyo.
Notou o cansaço por causa do sono no rosto dela. Ela queria dormir, mas não podia.
-Gostaria de descansar um pouco? – Kanna sugeriu.
Kikyo pareceu gostar da ideia, mas não queria deitar na mesma cama que as crianças. Parecia ter medo que quebrassem com mais um peso ali.
-Vou ficar na poltrona. – anunciou, sentando-se em uma poltrona elegante perto de uma luminária, a mesma onde estava antes. Uma almofada serviu de apoio e logo ela se sentiu confortável para baixar a cabeça.
Kanna a observou até cair no sono. Decidiu sentar-se aos pés da cama e baixar o rosto para tentar dormir.
Quase uma hora depois as duas despertaram com o som de uma batida leve na porta de vidro da sacada. Kanna se levantou imediatamente e verificou quem era antes de abrir.
Era Hakudoushi – cabelo ainda úmido, roupa trocada, braços enfaixados, curativos no rosto e no pescoço e com uma maleta cheia de remédios.
Antes de dar passagem, ela o encarou com a testa franzida.
-Como consegue passar pelo sistema de segurança?
Parecia que ele dizia com o olhar que não era o momento para fazer aquele tipo de pergunta, mas ela soube segurar o desafio e não deu passagem até que ele respondesse depois de um suspiro:
-Vocês têm uma falha em uma parte do muro de trás do Templo. Eu subi por lá e não deixei que o guarda visse.
Kanna teria que verificar aquilo imediatamente ainda pela manhã.
Deu passagem para ele e Kikyo já estava de pé, protegendo-se com os braços do frio da madrugada e do vento que entrou pela sacada.
-Desculpe, Kikyo... – ele começou, esfregando a nuca e verificando alguma coisa nos dedos. Sangue, talvez – Está uma confusão na casa. E eu tive que cuidar dos meus ferimentos e pegar material para cuidar deles.
-Kagome chegou aqui e me contou. – ela desviou o olhar do dele para virar o rosto na direção do quarto da irmã – Imagino que ela não vai sair do quarto por um tempo.
Silêncio se fez e os dois apenas trocaram olhares.
-Kikyo, eu... – ele começou suavemente, colocando a maleta no chão – Eu sinto muito por vir aqui mesmo quando me pediu para ficar longe. Mas... Mas eu só pensei em você na hora.
Kikyo cruzou os braços na frente do corpo. Deu um suspiro meio cansado, meio sonolento, esperando que ele continuasse.
-Eu sei que eu não tenho o direito de pedir nada... – ele estava hesitante, tão diferente do homem confiante nas próprias habilidades que Kanna conheceu quando lutou – Você é a única que pode ficar com eles, na minha opinião.
Kikyo e mesmo Kanna arregalaram os olhos. A ninja teve, porém, uma reação mais discreta que a patroa. Pigarreou ao perceber que não precisava ouvir o que seria discutido ali.
-Eu vou aguardar do lado de fora. Se precisarem de mim, eu...
-Kanna, pode ficar. – Kikyo deu a ordem. Ela parecia não querer ficar sozinha com ele.
A outra interrompeu o trajeto até a porta da suíte e ficou em pé próximo a eles.
-Do que você está falando? – a líder perguntou num sussurro furioso.
-Eu não posso ficar com eles! – ele sibilou e tentou se justificar, apontando na direção da cama – Sesshoumaru está fora de controle! Ele perdeu a noção da realidade! Ele mandou essas crianças serem mortas sem um pingo de remorso e matou dois homens na frente de Miroku porque ele se recusou a fazer o serviço! Ele apontou uma arma pra alguém da própria família!
À medida que falava aproximava-se mais dela. Kikyo olhava para os lados para evitar o contato visual, ainda de braços cruzados.
-Você pode ficar com eles, pode dar uma identidade, uma vida. Você pode criá-las como bem entender, ficariam sob sua proteção. E...
Houve uma curta pausa. Hakudoushi estava mais próximo ainda.
-Eu sei que você fará de tudo para protegê-las como se fossem filhos seus.
Nisso, ela virou o rosto para ele.
-Eu posso... eu posso cuidar também. – ele falou num tom mais esperançoso – Em segredo, claro. Mas posso cuidar delas. Financeiramente também. Podemos dividir tarefas, protegê-las juntos.
Kikyo parecia furiosa.
-Você some por meses e vem com uma proposta dessas? Qual é o seu problema?
-Eu sumi porque você me pediu para nunca mais lhe procurar e eu respeitei isso. Lembra do funeral da Sara? Acha que eu não queria ficar perto de você?
-Eu vou me retirar, Kikyo-sama. – Kanna prontamente se virou. Ela realmente não precisava ouvir aquela conversa.
-Fique! – exclamaram os dois ao mesmo tempo.
Novamente a mão na porta hesitou. Novamente evitou suspirar mais forte. Ela tinha que ser impassível. Ela tinha que ignorar o incômodo de estar no mesmo ambiente com um médico que quase a derrotou discutindo assuntos mais íntimos com a líder dela.
Virou-se e viu os dois se encarando.
-Olhe... não vamos chegar a lugar algum assim. – ele esfregou de novo algum ponto da cabeça, desalinhando ainda mais os cabelos úmidos, olhando novamente os dedos como se procurasse sangue – Se não quiser ficar com elas, dê alguma sugestão, indique alguém que possa me ajudar nisso. Não posso contar com Bokuseno, eu não confio nele. Tenho certeza que contaria na mesma hora a Sesshoumaru.
Segundos de silêncio.
-Bem... – ela coçou a cabeça e desfez a postura agressiva, descruzando os braços – É claro que posso ficar com elas e protegê-las.
Nessa hora, Kanna realmente ficou assustada. Aquilo significava que...
-Posso dar meu nome de família e elas ficariam sob minha proteção até crescerem, com tudo ao que os Higurashi têm direito. – ela olhou na direção dos dois corpos deitados na imensa cama – Você sabe o nome deles?
Hakudoushi balançou a cabeça, abaixando-se para pegar a maleta do chão. Depois aproximou-se de onde as crianças estavam deitadas e a colocou em cima da cama.
-Na confusão não havia como descobrir. E tudo foi queimado. Oficialmente eles estão mortos, pois tive que pedir dois corpos para o médico legista poder colocar no relatório da polícia. Sesshoumaru vai ler amanhã.
Pausa novamente no quarto. Hakudoushi abriu a maleta e tirou de lá tudo o que foi material para curativos e queimaduras.
-Então eu também posso dar um nome para elas? – Kikyo o desafiou e ele confirmou com a cabeça, sem hesitar, trocando um olhar significativo com ela.
Houve mais uma pausa que foi quebrada pelo médico.
-Eu preciso cuidar dos ferimentos deles e... – ele engoliu em seco, olhando para ela – Tenho que fazer com que elas... esqueçam o que aconteceu.
-Sim, sempre temos que atender ao que eles nos pedem. – Hiro deu um suspiro – Acredito que ele não quer que o primo pense que está devendo alguma coisa para ele.
Ou disfarçar que já sabe quem são essas crianças para Hakudoushi. Tinha certeza que Kikyo não precisaria dever explicações para o líder dos Akai, mas com o médico a história era outra.
-O homem que mandou essa guarda atrás das crianças é o namorado da sua líder.
Kanna sentiu a pontada nas costelas se identificar. A mão apertou o local e ela percebeu que o susto provocado pela informação fez com que o ferimento abrisse.
Hakudoushi estava por trás daquilo? Como era possível?
Em Sakai parecia que eles estavam brigados, mas ele jamais iria atrás das crianças daquela forma. Elas se tornaram tão importantes para ele quanto eram para Kikyo.
Sentiu o sangue umedecer a região.
-É... impossível. – Kanna parecia assustada com aquela informação – Ele não... Ele...
Lembrou-se de quando Hakudoushi fez questão de anunciar sobre a ida dela para longe do Japão.
"-A partir de agora o seu nome será Matsumoto-san. – ele falou com um sorriso meio triunfal. Era como uma vitória para ele que ela estivesse longe, não? – E você vai partir imediatamente com eles."
Deu um suspiro de dor. Hiro percebeu o problema e chamou alguém, ajudando-a ao mesmo tempo a deitar no sofá.
-Acho que seu ferimento abriu. Não era para você ter ficado de pé desde aquela hora.
-Tudo bem, vai passar. – franziu a testa e tentava fazer alguns exercícios de respiração para passar a dor.
-Eu preciso saber se minha líder está bem.
-Está tudo bem com ela. – Kirara aproximou-se dos dois com um sanduíche, mastigando tudo sem a menor preocupação – Ela já deve ter até matado o homem.
Kanna franziu a testa com aquela informação. Eles estavam falando sobre a mesma pessoa que ela estava pensando?
-De quem estão falando? – ela quis saber.
-O nome dele é Naraku Onigumo. – ela completou enquanto lambia dos dedos o farelo do sanduíche, últimos resquícios do lanche – Parece que ele matou a prima dela e blá blá blá... Eu sei que se envolveram antes por algum motivo e blá blá blá...Você não sabia?
Kanna fez não com a cabeça, ainda deitada.
Por que ela era agora a última a saber das coisas?
Próximo capítulo:
"-Isso é alergia à loção pós-barba barata."
"-Não me considera mais como uma ameaça?"
"-Vai ficar sozinha aí e vamos sem você amanhã pro parque do Lego."
Capítulo 24: Gatos em teto de zinco quente
