Nota da Autora: Demorei um pouquinho com esse capítulo por conta de problemas de saúde. Espero que estejam todos se cuidado bem. A única história que deu pra atualizar foi uma fofinha chamada Kazoku no Kizuna (Laços de Família), com Sesshoumaru, Rin e as gêmeas. Está quase acabando. Quem puder ler e dizer o que acha eu agradeço! :)

Vocês devem ter notado que os acontecimentos do passado foram do ponto de vista da Kanna. Escolhi fazer isso por conta de um fic meu chamado Noites sem Fim. Lá contarei os fatos num ponto de vista mais onisciente. Vou retomar esse fic assim que terminar A Cor do Dinheiro (em novembro ou dezembro).

Hanyo no Yashahime está chegando pra nos deixar sorrindo de alegria (ou chorando, dependendo do que tiver acontecido com os personagens kkkk).

Rin e Sesshoumaru apareceram neste capítulo! Hahahah. Vamos ver o que vocês acham que vai acontecer com eles... Por favor, não me matem nos comentários! :(

Obrigada a quem comentou no capítulo passado: Lan Ayath, Cindy-chan (mandei mensagem pra você D:), Lhamalhama, Ayame Tarimoto e um review anônimo. Os gritos de AAAAHHH incrédulos estão cessando... hahahha.

Caso considerem este capítulo digno de um comentário, ficarei honrada em recebê-lo.

Vejam informações a respeito das atualizações no meu perfil aqui no FFnet ou no meu twitter (usuário ukitaketai).


"InuYasha" é propriedade de Takahashi Rumiko.

A cor do dinheiro

Capítulo 24: Gatos em teto de zinco quente

Para Lan Ayath

Mansão Akai

Rin estava congelada embaixo de Sesshoumaru ainda tentando entender o que ele havia dito.

Pensava em mil coisas: em fazer uma piada, em se fazer de desentendida, em pedir para ele repetir no caso de não ter ouvido direito, em dar uma gargalhada... Nenhuma das opções era boa, então ela fez uma das únicas coisas que tinha aprendido a fazer em vários momentos da vida: encarou-o assustada.

Já Sesshoumaru pensava ter cometido um erro mesmo. Não era para ter comentado nada para não deixá-la tão pensativa e demorar a dormir. Poderia ter simplesmente deixado para fazer o pedido pela manhã e deixado o significado especial daquela noite passar.

-Rin? – ele tentou.

A voz dele a assustou. Ela piscou e tremeu.

-No quê está pensando, Rin? – era difícil às vezes se comunicar com ela. Ou talvez ele não conseguisse falar direito com as pessoas.

O fato era que ele queria entender o que ela estava pensando.

Levantou-se quando ela fez menção de ficar sentada. Viu-a sentar-se, puxar o lençol para se cobrir e encostar-se na cabeceira. Ainda parecia assustada, piscando suavemente como se não o conhecesse.

-É um pouco difícil eu continuar a conversar se você não falar comigo. – ele lamentou com um suspiro – Achei que já tínhamos passado dessa fase.

Finalmente, segundos depois, um sinal viera dela: Rin balançara a cabeça para os lados. Ainda o encarava com cautela, como se houvesse algum perigo em falar àquela altura.

-Nunca. – ela murmurou.

-"Nunca" o quê? – ele quis saber.

-Eu nunca pensei em nada para ser nome de algum filho. – ela franziu a testa e engoliu em seco – Eu não tenho pensado muito no futuro há algum tempo.

Sesshoumaru franziu a testa.

Como poderia ela nunca ter pensado em como passaria os próximos meses? Nenhum plano?

Ou será que ela tinha alguma ideia do futuro e não pensava nele?

-Eu acho muito difícil de acreditar que não tenha pensado nisso. – ele testou as teorias – Você já está vivendo aqui há meses. Estamos juntos desde que nos conhecemos.

Silêncio. Viu-a apertar o tecido do lençol entre os dedos, meio defensivamente. Esperava que ela não estivesse lembrando dos maus momentos do primeiro encontro entre eles. Estava cautelosa.

-Você já é tratada como minha companheira aqui. – ele tentou outro caminho.

-Porque você escondeu meu nome verdadeiro de todos. – ela sussurrou – Eu não acho que eu duraria muito se soubessem minha identidade.

Quase lá.

-Você acha que alguém faria alguma coisa estando aqui na minha casa?

Rin deixou a postura defensiva e relaxou um pouco. Mas ainda assim parecia ter medo do que poderia dizer no momento.

-Eu não acho nada, Sesshoumaru. - finalmente ela respondeu, a voz audível, porém extremamente tímida – Eu aprendi a não contar com planos pro futuro. Muitas coisas deram errado pra mim desde a infância.

Viu-a morder o lábio inferior.

-Fale comigo, Rin. – ele insistiu.

A garota engoliu em seco. Ele tocou em uma das mãos dela para dar mais segurança e sentiu-a gelada.

Ela está com medo.

-Aqui é a sua casa. – ela reafirmou as palavras dele – Você esconde meu nome de família de todos. As pessoas me tratam bem. Se um dia você... se você revelar quem eu sou, poderei ser tratada como inimiga e ter que ir embora daqui.

-"Ir embora?" – ele ergueu uma sobrancelha.

Rin retraiu a mão do contato dele. Os olhos pousaram no colo.

-Da mesma forma que eu cheguei, posso ir embora a qualquer momento sob uma ordem sua.

Segunda opção.

-Você pensa que é isso que pode acontecer?

Era inacreditável que ela pensasse daquela forma. Isso significava que ou ela não confiava nos sentimentos dele ou...

-Nunca conversamos muito sobre isso. – ela quis esclarecer como se lesse os pensamentos dele – Por isso preferi não fazer planos.

... ou tivesse que se comunicar melhor com ela.

Alguns momentos de reflexão e de silêncio depois, ele começou numa admissão:

-Isso é culpa minha. Nós precisávamos conversar também sobre essas coisas.

Rin meneou a cabeça com um sorriso tímido.

-Eu só estou seguindo você desde que nos conhecemos. Você fala para irmos a algum lugar, eu vou. No dia que você... – ela interrompeu a fala e sentiu um nó na garganta – Que você não quiser mais que eu o siga, eu vou embora.

Sesshoumaru a encarava e ponderava sobre as palavras.

Desde que se conheceram, era realmente aquilo que acontecia: ele a fez seguir para Osaka, mandou para a casa na mansão sem explicações prévias, ela foi ao evento na mansão Higurashi com ele, viajaram juntos pelo Japão no planejamento que ele fez... agora ele via que ela não tinha muita participação ou escolha. Ela ia porque o acompanhava e não questionava.

-Absurdo você pensar que eu vou mandá-la embora.

Para Rin não era tão absurdo assim. Ela tinha aprendido que as pessoas eram voláteis. O pai, o irmão... sofrera todo tipo de violência. Em uma dia pela manhã tudo estava bem, e à noite poderia ter uma arma apontada para a cabeça.

-Se um dia você me mandar embora, eu vou sem dizer uma palavra. – ela falou com toda a sinceridade possível – Mas eu nunca vou esquecer você.

-E você acha que eu esqueceria, é isso?

-Como eu disse, eu não acho nada, Sesshoumaru. – ela repetiu a frase do começo da conversa – Só estou dizendo que vou embora se você ordenar e que nunca vou esquecer o que passamos juntos.

Silêncio se fez novamente entre os dois.

Rin não podia mais viver daquela forma – com receio de dizer qualquer coisa, esperando apenas o que ele decidisse, com medo do que ele fosse falar. Era como um gato pisando em chapa quente, constantemente se assustando com os passos dados e o tempo todo inquieto.

Sesshoumaru deu um leve sorriso, quase imperceptível. Então o problema era mesmo a comunicação entre os dois. Ele deveria mesmo ter que trabalhar naquele ponto.

Haveria bastante tempo para isso.

-Teremos bastante tempo pra conversar sobre essas coisas. – ele finalmente falou – Prometo que daqui por diante serei mais claro sobre os planos e ouvirei os seus questionamentos.

Viu-a franzir a testa em confusão.

Finalmente ele se virou para o lado da cama onde havia uma mesinha de cabeceira. Abriu uma gaveta e de lá tirou um objeto.

Sesshoumaru abriu uma caixinha e mostrou o conteúdo. Era uma aliança, uma banda larga com vários rubis enfileirados. A pedra da família Akai.

E o nome "Akai Rin" estava gravado na parte interna.

Rin ficou praticamente azul quando viu o que era. A boca abriu e não saiu voz.

Posicionando-se na frente dela, ele pegou a mão que não estava ocupada em segurar o lençol e ignorou os olhos arregalados e a expressão quase apalermada que ela tinha.

-Você já é tratada como minha companheira e usa meu nome como disfarce aqui nesta casa e entre os meus familiares que não estão cientes da sua situação. – ele começou num tom calmo, caixinha aberta com anel reluzindo na palma da mão – Eu quero tirar todas as suas dúvidas sobre isso. Eu quero que você faça planos sobre o futuro. Eu quero que você viva comigo.

Rin estava ainda mais assustada que no dia que ele a conheceu naquele restaurante. Parecia que ia até desmaiar. Olhava a joia como se fosse um explosivo e tivesse que decidir em puxar o fio azul ou vermelho.

-Respire, Rin. – ele pediu ao apertar a mão dela. Esfregou o polegar na palma da mão como uma carícia.

Será que tinha entendido de outra forma?

Finalmente ela deu um sinal de voltar ao normal: piscou como se voltasse à realidade, engoliu em seco, olhou para ele, lábios ligeiramente abertos em sinal de espanto, olhou para a joia, olhou novamente para ele.

Para a surpresa dele, ela pegou o anel da caixa e colocou-o na palma da mão. Segundos depois, deu as costas para ele – pernas juntas e dobradas por baixo do torso, olhando fixamente o metal, as pedras, a inscrição na parte interna. Cutucava a joia com o dedo mindinho como para ver se era mesmo real.

-Rin? – ele fez uma tentativa de chamar a atenção dela tocando-lhe o ombro – Você está bem?

Sem resposta por alguns minutos. Ele começava a acreditar que aquilo era brincadeira dela.

Até que finalmente ela voltou-se para ele, ainda segurando a joia.

-Eu nunca... – os olhos estavam em alerta e a voz era fraca – Eu nunca tive...

-Nunca teve o quê? – ele tentou num tom mais sério. Ele detestava ter que repetir algumas coisas, mas parecia ser a única forma de fazer Rin se comunicar com ele.

A resposta dela veio com um abraço. Os braços envolveram o pescoço dele, o queixo foi buscar apoio no ombro.

-Nunca ninguém me falou que queria viver comigo...

Escutou-a fungar de emoção e as primeiras lágrimas escorrerem pelo ombro. Afastou-a de si para poder observar a expressão dela.

-Eu aceito sim. – ela disse com as lágrimas escorrendo pelo rosto – Aceito mil vezes sim.


Em Nagoya

-Peraí, gente, peraí... – falava Kirara para uma exterminadora de nome Megumi.

A menina fazia uma pose diferente segurando a espada Muramasa de Kanna antes de finalmente devolvê-la. Segurava a arma em frente ao corpo na vertical, um pouco desembainhada apenas para sair o brilho da lâmina na foto.

-Essa já é a terceira pose. – disse Megumi meio cansada tentando persuadi-la a deixar aquilo de lado – Temos que terminar de arrumar as coisa por aqui.

-Calma. Quero outra foto. – ela deitou no chão e apoiou um cotovelo no chão, segurando o rosto com a mão enquanto a outra segurava a katana embainhada – Agora essa. Depois eu mando pra Sesshoumaru-sama.

De longe, Kanna ainda tentava entender a situação que levou os protegidos de Higurashi Kikyo a serem atacados naquela noite. Hiro estava perto dela, ajoelhado perto do sofá onde ela descansava deitada. O rosto estava virado para ele.

-Você não sabia nada disso?

A outra meneou a cabeça.

-Como eu disse, eu só protejo as crianças agora. Não estou mais na segurança de Kikyo-sama. – ela franziu a testa – Será que ela está bem?

-Acreditamos que sim. Só recebemos a ordem do senhor Akai e nos deslocamos para cá.

Naraku Onigumo.

O homem que ordenou o ataque estava em um relacionamento com a própria Kikyo há meses. Kirara mostrou no celular fotos da líder e do homem em eventos, inclusive no Templo Higurashi.

Se jornais estampavam fotos dos dois juntos, muito provavelmente Hakudoushi tinha conhecimento daquilo.

Depois soube que até a mansão em Yokohama, onde moram Souta-kun, Kaede-chan e a senhora Higurashi, foi atacada naquela noite e protegida por outro grupo de Exterminadores.

Os ataques eram coordenados – uma primeira equipe invadia e era possivelmente eliminada pelos seguranças que, por acharem que já estavam salvos, relaxavam e eram definitivamente executados na segunda tentativa.

Uma coisa ela não entendia... Como Higurashi Kikyo poderia ser tão descuidada a ponto de não perceber que o homem poderia atacá-la? Claro que homens como ele, pelo que havia escutado do grupo que a salvou, poderiam ser dissimulados... mas Kikyo-sama sempre esteve um passo a frente desde que a família que havia sido enganada uma vez e quase matou os membros da família Akai por causa disso. Para ela não existia essa de ser ludibriada uma segunda vez.

-E os Akai? – ela perguntou de repente – E Hakudoushi-sama?

Hiro cruzou os braços e ficou pensativo.

-Eu não sei o que está acontecendo... mas, pelo que entendi, duas famílias decidiram entrar em conflito hoje. Ambas se prepararam e procuraram aliados. Acredito que atacar a família Higurashi seja relacionado ao fato de ser ligada aos Akai. É a única coisa que consigo pensar.

Fazia sentido.

-Quanto a Hakudoushi-sama... – ele fez uma expressão estranha. Parecia que procurava as palavras certas e não conseguia se expressar – Bem, a única coisa que sabemos é que ele não quis participar de nada. Mesmo porque ele nunca concordou com Kirara-sama em nosso grupo.

Hakudoushi deixaria de participar e deixar Kikyo ser atacada daquela forma? Pouco provável.

Assim que soubesse o que aconteceu ali em Nagoya e que as crianças eram um alvo, iria matar todo mundo que ousasse mexer com a família dele e os aliados.

Kikyo incluída no grupo de família/aliados.


Após alguns dias, Kikyo manteve as crianças ainda no quarto por segurança, visto que Kagome ficou cerca de duas semanas antes de reconciliar com Inuyasha. Elas acordavam assustadas algumas vezes, outras vezes não falavam nada ou falavam pouca coisa. Dormiam os três na mesma cama e as refeições eram feitas no quarto mesmo.

Os primeiros dias foram uma estranha experiência para a líder da família Higurashi: Kanna notou a forma como ela parecia "travada" perto delas, perguntando e hesitando sobre pequenas ações. Era como fazer novos amigos: perguntava os gostos, se estavam bem... Até os nomes deles mesmos precisavam aprender.

Teru era o menino.

Akiko era a menina.

Nomes escolhidos por Kikyo.

Kanna não sabia o significado deles, mas tinha certeza que havia alguma coisa por trás e que Hakudoushi também suspeitava.

O menino tinha no máximo seis anos, enquanto que Akiko tinha três ou um pouco mais que isso.

Aquele... homem havia voltado a frequentar a mansão. Com frequência e sem regularidade nos horários. Às vezes aparecia pela tarde, outras vezes passava às noites, depois do jantar. Brincava com as crianças junto com Kikyo, para conhecê-las melhor e criar laços com ela.

Em um dia em particular, meses depois da chegada delas à mansão, o médico chegou depois do jantar e foi com Kikyo para o quarto. Elas estavam brincando no chão, algumas vezes correndo, outras vezes fazendo uma espécie de "concurso" de quem gritava mais.

E Kanna percebeu que nem Kikyo e nem Hakudoushi sabiam lidar com aquilo. Via os olhos dos dois fecharem a cada grito estridente, algumas vezes Kikyo pedindo para elas subirem na cama para dormirem, como se fizesse um convite.

Crianças não entendiam aquilo como convite. Elas precisavam aprender a obedecer os comandos dos pais ou responsáveis.

-Kikyo-sama. – Kanna chamou da porta – Precisamos discutir as medidas de segurança da casa. Marcamos para agora, às dez.

E faltavam dez minutos para dez horas da noite.

Era necessário fazer aquela discussão. Nenhum outro membro da guarda tinha conhecimento das crianças, e elas nunca saíam do quarto. Elas não teriam um quarto? Não poderiam pegar sol no jardim?

Seria assim pelo resto da vida delas?

-Tudo bem, Kanna. – ela tinha uma mancha de aflição nos olhos – Já estou indo.

A chefe da guarda cruzou os braços e se encostou na parede, baixando o rosto para observar a cena pelo canto dos olhos.

Mais quinze minutos se passaram. Hakudoushi e Kikyo estavam no limite da paciência. Kanna percebeu que eles estavam cansados e não sabiam o que fazer.

A reunião começaria mais tarde, pelo visto.

Evitou dar um suspiro. Descruzou os braços. Aproximou-se das crianças que rolavam no chão numa brincadeira sem sentido e aparentemente sem um pingo de sono.

-Vocês dois. – ela falou em tom de comando, e as crianças pararam de rolar para olhar para ela. Ao conseguir a atenção delas, ela apontou para a cama – Já para a cama agora.

Os dois alegremente a obedeceram. Eles pularam na cama de Kikyo ao mesmo tempo.

-Debaixo do lençol. – ela ordenou.

Novamente a dupla a obedeceram.

-Fechem os olhos.

Outra vez, não houve reclamação.

-Durmam.

Minutos depois, só se ouvia a respiração calma e regulada deles.

Kanna olhou para trás e viu Kikyo e Hakudoushi ainda sentados no chão e encarando-a de boca aberta.

-Que técnica é essa? – ele perguntou.

-É maravilhosa. – Kikyo complementou.

Os dois realmente pareciam aqueles pais de primeira viagem. Eles não tinham ainda controle sobre as crianças. Teriam que pedir aconselhamento a alguém mais especializado, senão todas as noites seriam daquela forma, pensou Kanna.

-É preciso mostrar para elas quem manda. – a ninja falou num tom sereno e, ao mesmo tempo, extremamente sério – Ou elas farão de vocês os escravos delas.

Os três decidiram naquela noite que as crianças iriam para alguma casa próxima de Tokyo, onde viveriam melhor e com proteção de alguém de confiança. Kikyo decidiu comprar em Machida, a menos de uma hora de Tokyo. Poderia ir todos os dias e voltar para dormir na capital.

Por um ano tudo ficou bem. Kikyo ia todos os dias, Teru e Aki brincavam dentro da casa ou no jardim da propriedade. Uma ou duas vezes Hakudoushi foi visitá-los. Parecia que ele tentava se manter distante e não se envolver no relacionamento entre os três. Ou estar perto de Kikyo.

Até que um dia aconteceu um problema.

A rotina na mansão Higurashi começava às seis e meia da manhã em dias que Kikyo não recebia um visitante masculino – um jovem empresário que ela conheceu em alguma reunião e que Kanna não sabia o nome. Em dias que ela dormia sozinha, ela e Kanna faziam uma corrida juntas na propriedade.

Há duas manhãs, porém, ela cancelou a corrida do horário por conta de uma alergia na pele. Ela andava pela casa com um enorme kimono preto de seda com desenhos circulares grandes nas cores laranja, vermelho e branco. Ele era tão grande que a barra arrastava no piso e as mangas eram extra largas na delicada figura de Kikyo.

Pediu para a secretaria, Yamada-san, limpar a agenda pela manhã e marcar uma consulta com a melhor dermatologista de Tokyo, Dra. Noda Aitsuko. Claro que era possível para Kikyo conseguir uma consulta em cima da hora, e ela ficou satisfeita em saber que em poucas horas já saberia o que tinha acontecido com ela.

Naquela manhã, para compensar a falta de atividade física, ela resolveu apenas andar pelo jardim da mansão enquanto recebia os raios de sol no rosto. Estava ela de olhos fechados, face voltada para o céu, cabelos soltos, inspirando e expirando quando Kanna se aproximou dela.

Depois de uma reverência, falou:

-Hakudoushi-sama ligou para avisar que está a caminho.

Kikyo franziu a testa.

-Diga-lhe que não posso recebê-lo. – coçou o pescoço e suspirou irritada – Ele não pode aparecer aqui quando bem entende.

Infelizmente para ela, segundos depois de ter dito a frase, um carro parou na frente do portão. Um táxi. A guarita avisou Kanna pelo comunicador e ela informou a Kikyo para solicitar autorização.

-Ele já está no portão. E está pedindo para entrar.

-Mas o que ele...? – a jovem líder olhou boquiaberta na direção da entrada da propriedade. Dali não podia ver as grades, mas agia como se pudesse vê-las e franziu a testa com raiva – Liberem a entrada dele. Eu espero que seja importante.

Kanna deu a ordem pelo comunicador aos homens na guarita.

Mais alguns segundos depois, o táxi estacionou próximo a elas e de lá saiu um Hakudoushi visivelmente irritado segurando um jornal. Estava vestido com camisa social azul clara, casaco até o joelho e calça social preta.

-Precisamos conversar agora. – ele falou a Kikyo subindo já os degraus do pátio para entrar na casa como se morasse ali.

Aquilo pareceu tão inacreditável que ela demorou para sair do lugar. Piscava para ele com a boca ligeiramente aberta diante daquela cena.

-No escritório, Kikyo. Por favor. – ele estava parado na grande porta de entrada da mansão.

Kikyo balançou a cabeça e foi seguida de perto por Kanna. Deu passos lentos, propositalmente, até chegar a ele, arrastando o kimono para entrar na casa e ir ao escritório.

Ao entrarem, ele se virou para Kanna:

-Feche a porta.

Kanna ficou imóvel. Era só recebia ordens de Kikyo. Se a líder falasse para fechar a porta e engolir a chave, ela faria isso sem questionar.

Mas aquilo foi a gota d'água para a jovem líder:

-Por que diabos você acha que você pode dar ordens aqui na minha casa, Hakudoushi? – Kikyo tentando se manter mais calma, mas a raiva era evidente na voz – E por que está falando desse jeito? Acha que eu tenho medo de você? Kanna está aqui do meu lado.

Hakudoushi a olhou inexpressivo.

-Ela é mais forte do que você. – Kikyo completou.

Hakudoushi ergueu a sobrancelha para Kanna e ela retribuiu erguendo o rosto e estreitando os olhos.

Depois deu um suspiro, Kikyo continuou:

Bem... O que você deseja de mim agora?

Hakudoushi jogou o jornal em cima da mesa dela, o rosto ainda transtornado.

-Os jornais sabem onde você passa os fins de tarde e noite e finais de semana.

Kikyo franziu a testa e desencontrou o olhar dele para pegar o jornal e ler a página que ele deixou exposta para ela.

Havia fotos. Fotos e mais fotos coloridas dela a caminho de Machida. Kikyo no carro na entrada da propriedade. Kikyo saindo do carro. Entrando na casa. Imagens dela no pátio. A manchete dizia que ela encontrava algum amor secreto, provavelmente um homem casado há pelo menos um ano.

Felizmente não havia nada das crianças, talvez porque por coincidência elas não teriam saído para brincar no jardim no horário que estavam espionando a mansão.

-Não sabia que olhava as colunas de fofocas. – ela jogou o jornal na mesa. Depois a mão foi ao pescoço para coçar de leve – Não me diga que é hábito de família. Vou ficar preocupada com você.

-Você faz piadas? – ele indagou incrédulo – Alguém poderia ter fotografado as crianças! Sesshoumaru poderia ler isso aqui! – ele pegou o jornal e jogou dramaticamente de novo em cima da mesa.

Os lábios dela apertaram com força.

-Desculpe. – ela admitiu que não era o momento. Enfiou as mãos nas enormes mangas do quimono para disfarçar que estava se coçando – Eu sei que não é hora. Não sei como essas pessoas conseguem tirar essas fotos.

-Temos que tirar as crianças de lá. – ele falou em um tom sério – Imediatamente. Hoje ainda se possível.

Kanna notou que Kikyo coçava com mais ansiedade os braços dentro das mangas.

E não demorou muito para que o médico também notasse. Ele se aproximou sem pedir licença e tocou o queixo dela.

-Hakudoushi, o que você... – ela parecia assustada e lançou um olhar para Kanna, que imediatamente se aproximou.

O rapaz ignorou a movimentação e virou o rosto dela de um ângulo que pudesse examinar melhor o pescoço. Depois pegou um dos braços escondidos pela manga e viu a região completamente vermelha e empolada, com irritação maior provocada pelas unhas de Kikyo.

-Ah... – ela entendeu o que ele estava fazendo – Desde ontem está assim. Já marquei uma consulta com Dra. Noda. Vou sair daqui a pouco.

Ele tinha um brilho diferente no olhar. Parecia resignado ou algo próximo a isso. Kanna percebia que ele parecia se controlar e colocou-se próximo da chefe.

-Isso é alergia à loção pós-barba barata. – os olhos dele ardiam de raiva, quase feroz. A voz transmitia um furor controlado.

Os olhares se encontraram. Kikyo ergueu a cabeça e evitou piscar.

Quer que eu veja isso para prescrever um remédio? – ele perguntou em um tom de desafio.

Kanna pigarreou.

-Vou me retirar, Kikyo-sama.

-Não precisa sair. – Kikyo ordenou a Kanna e procurou o olhar de Hakudoushi, encolhendo o braço que ele segurava e terminando o contato entre os dois – A Dra. Noda vai me atender. Ela pode ver isso sem ficar me ameaçando com os olhos.

-A Noda vai dizer exatamente a mesma coisa que eu. – ele não se deu por vencido.

Desta vez, quem ergueu uma sobrancelha foi ela.

-Dê-me quinze minutos para examiná-la. – o médico insistiu.

Kikyo deu uma risada irônica.

-Você tem dez.

E em dez minutos ele a examinou, passou a medicação e a fez cancelar a consulta com a melhor dermatologista de Tokyo para assim poderem fazer uma reunião para decidir o que fazer.

Kanna retirou-se nesse momento sob ordens da líder e decidiu andar um pouco pela propriedade. Kikyo-sama confiava no médico. Aparentemente não havia necessidade de ter um segurança próximo.

Cerca de duas horas depois, ela foi chamada novamente ao escritório da chefe. Entrou, fez uma reverência e ficou em pé diante deles, aguardando as ordens. Hakudoushi estava sério, parado perto de uma das grandes janelas, e Kikyo do sofá. Parecia que nada além de uma conversa e de planejamento havia ocorrido entre eles.

-Pode sentar-se, Kanna. – Kikyo pediu, mostrando a poltrona de visita.

Sentar?

Claramente era uma ordem que ela nunca tinha recebido, pois não sabia como se portar daquela forma. Fez o ordenado e mesmo assim não relaxou da postura de guarda. Estava com a espinha ereta, sem descansar as costas na poltrona.

Estava inquieta... como um gato em teto de zinco quente.

-Nós temos um plano para enviar as crianças para fora do país.

Como em quase todas as situações, a ninja nada falou. Apenas estava ali para cumprir ordens. E uma das primeiras que recebera era de não fazer perguntas ou comentar nada.

-Elas ficarão na Europa até que a situação com o líder da família Akai se acalme e elas tenham uma idade razoável para voltarem ao Japão.

De novo, Kanna continuava atenta.

-Nós decidimos que você vai acompanhá-las nessa viagem.

A outra mulher levantou-se da cadeira de súbito, pegando de surpresa até Kikyo. Parece que ela não esperava aquela reação. Hakudoushi limitou-se a virar o rosto de lado para observar a cena, sem esboçar reação alguma.

Percebendo que não era uma boa postura, ela voltou a sentar-se, ainda desconfortável naquela situação. De forma alguma relaxou no assento.

-Pensamos em você por ser a melhor da equipe. – Kikyo continuou – Claro que isso desvia um pouco da sua função, mas pensamos em possíveis ameaças contra elas no futuro. O primo de Hakudoushi é imprevisível. – ela jogou os cabelos para trás dos ombros com um único movimento da mão direita – Você terá um salário maior e morará bem por lá. Hakudoushi pode garantir isso.

-Kikyo-sama, eu... – ela queria negar aquilo. Mas não podia. Isso porque... – A lealdade da minha família sempre estará com a família Higurashi.

-As crianças são da família Higurashi, Kanna. – Kikyo enfatizou o nome para que ficasse claro que Hakudoushi não tinha parte na identidade delas – E, como você disse, os Muramasa sempre serão leais a todos nós.

De ninja qualificada e chefe de grupo de elite a uma simples babá.

-Sim, claro. – ela assentiu sem deixar transparecer a derrota que sentia por dentro.

Hakudoushi saiu de perto da janela e aproximou-se lentamente de Kikyo, ficando em pé atrás da líder:

-A partir de agora o seu nome será Matsumoto-san. – ele falou com um sorriso meio triunfal. Era como uma vitória para ele que ela estivesse longe, não? – E você vai partir imediatamente com eles.

-Matsumoto...san? – Kanna repetiu como se testasse o novo sobrenome.

-Achamos que o governo ia impedir que saísse do país por conta do seu nome de família e da espada que carrega. – ele continuou.

-Imediatamente? – ela ignorou o comentário mais recente dele e focou na nova missão – Quando?

-Assim que resolvermos algumas coisas. – Kikyo voltou a tomar a palavra – Você também terá que estudar o idioma aqui e quando chegar lá. Acreditamos que em dez dias mais ou menos você já terá que ir. E você deve indicar uma substituta para ficar no seu lugar aqui.


O apartamento ficava no centro da cidade, em um bairro chamado Aker Brygge. As informações passadas era que ele tinha dois quartos grandes, uma sala, sacada com vista para a orla, era próximo também da prefeitura e do centro comercial. Totalmente mobiliado.

-Entrem vocês primeiro. Não esqueçam os sapatos. – ela falou às crianças, que correram para adentrar na ânsia de conhecer o local.

O corredor da entrada tinha uma pequena sapateira e ganchos para eles tirarem os sapatos. Obedientemente Teru e Aki deixaram os calçados ali e ficaram de meia. Depois de Kanna colocar as malas no corredor e tirar os próprios calçados, ela entrou na sala onde os dois já estavam olhando os detalhes dos quadros, televisão, mesa.

A sala era ampla, tinha as paredes brancas, um enorme sofá que poderia ser usado por alguém que quisesse pernoitar ali, com pelo menos 6 lugares. Havia plantas por todos os espaços e cantos, televisão, uma estante de livros vazia, mesinha para trabalho/estudo. A sacada tinha duas enormes portas de vidro e piso de madeira de pinheiro.

Akiko tomou a iniciativa de se deitar no sofá enquanto o irmão tentava ligar a televisão com a esperteza e a curiosidade próprias das crianças.

Kanna procurou conhecer os outros cômodos do local. A curiosidade estava em conhecer o quarto dela. Era uma suíte com cama de casal grande, janelas grandes, mesa de cabeceira e armário roupeiro. Havia um quadro colorido de algum artista moderno local, mas que ela não sabia dizer se era bonito ou não pelos rabiscos. O banheiro era espaçoso e também extremamente claro e bem iluminado, com uma cômoda de tamanho médio para guardar toalhas e outros produtos de higiene.

Saindo do quarto, ela foi conhecer o quarto das crianças: amplo, duas camas de solteiro, janelas grandes com trava de proteção, armário, mesa para trabalho/estudo, duas poltronas e uma luminária.

Até agora era satisfatório. Ela não podia reclamar. Aquele homem havia pensado em tudo para que não faltasse nada para eles.

O banheiro principal da casa era também amplo, talvez um pouco maior que o dela. Tinha também uma máquina de lavar roupa e cesto de roupas. A cômoda para guardar toalhas e outros materiais também estava ali, do mesmo modelo que ela tinha na suíte.

Na cozinha encontrou tudo equipado com fogão, micro ondas, pratos, talheres, panelas. Não haveria necessidade de sair para comprar produto do tipo – apenas comida. Ela era separada da sala por uma bancada grande. Quatro cadeiras de madeira estavam ali também.

Foi até a pia. Hakudoushi disse que lá também era possível beber a água diretamente da torneira. Abriu-a e deixou escorrer um pouco do líquido antes de pegar um pouco na mão e observá-lo como se fosse algum tipo de experimento científico.

-Kanna, é "inclível". – Aki deslizava com os braços abertos pelos corredores, girando o corpo como uma dançarina – Aqui é gigante.

-Sim. – ela concordou, fechando o torneira – É incrível mesmo.


Ainda na sala de estar, Kanna era ajudada por Hiro a se sentar novamente no sofá para receber a medicação. Era alguma recomendação padrão de Hakudoushi para situações do tipo.

-É melhor que veja um médico pela manhã, sem falta. Ou que ele venha aqui. Ouvi falar que Hakudoushi-sama tem ligação com o Hospital Geral desta cidade.

Claro que tinha.

-Mas o que você tomou vai ajudar por agora. – ele tratou de completar depressa – Isso é sempre recomendado por ele.

Já imaginava.

-Eu preciso que alguém arrombe a porta do quarto e me ajude a subir as escadas e pegar as crianças.

-Vamos fazer isso. – Hiro fez sinal a alguém e um exterminador mais jovem se aproximou.

Rapidamente ele deu a instrução e o outro subiu as escadas para fazer o serviço.

-Vou pedir pra Kirara-sama levá-la para o quarto.

Kanna apenas assentiu.

-A noite vai ser longa. – ele finalizou.

Novamente ela concordou em silêncio. As forças para falar estavam acabando e ela precisava ainda repassar os comandos a Kirara na hora de pegar as crianças do esconderijo.


Três meses após a chegada deles, Hakudoushi fez a primeira de várias visitas aos "exilados", como Kanna chamava ao próprio grupo apenas em pensamentos. Ele chegou, entrou, foi surpreendido pela alegria e abraços dos dois pelas pernas. Claro que eles o reconheciam, apesar do pouco contato que tiveram depois de terem passado um ano Machida. Ele passou a tarde com eles, fizeram chamada de vídeo diária com Kikyo, saíram para passear e jantaram juntos.

Na segunda noite, Hakudoushi saiu sem dizer para onde ia depois que as crianças adormeceram – pontualmente às oito da noite. Kanna aproveitou para treinar kendo na sala, tomando cuidado extremo para não acordar os irmãos.

Ao fazer uma pausa, ela decidiu abrir a sacada para entrar vento fresco. Foi até o parapeito e apoiou os antebraços no concreto. Queria ver a lua e as estrelas. Não dava para ver absolutamente nada nem de dia naquele céu constantemente nublado. Ainda ia se acostumar com o frio ali naquele país com língua estranha.

Foi quando olhou para baixo para ver a movimentação da rua e estreitou de leve os olhos.

Hakudoushi estava na frente do prédio.

Com uma mulher.

A mesma que estava com ele no Japão há algum tempo e que Kikyo conhecera.

Os dois conversavam extremamente próximos, ela falando algo e rindo, ele ouvindo com paciência e atenção o que ela dizia. De vez em quando ela o tocava no braço, e ele reagia colocando as mãos no casaco, provavelmente para se proteger do frio.

Conversaram mais alguns minutos, até que ela ficou séria e triste na frente dele, não encontrando o olhar dele daquela vez. Ele tirou as mãos do casaco e segurou-lhe o rosto, beijando a testa da jovem.

Os dois se encararam de novo. Parecia uma despedida. Ela enxugou algumas lágrimas e falou mais algumas coisas enquanto ele balançava a cabeça numa negativa.

Foi quando ele pareceu sentir olhares sobre ele. Virou o rosto para cima e notou que era observado. Ao ver por quem, estreitou os olhos.

Claramente que ela não se deixou abalar por aquilo. Simplesmente o encarou e, minutos depois, afastou-se do parapeito, saindo da sacada para voltar ao apartamento. Fechou as grandes portas de vidro e as travou por dentro.

Kanna decidiu encerrar o treinamento. Guardou o material do kendo e arrumou a sala para, caso ele quisesse, dormir no sofá.

Para fechar a noite antes de se retirar, decidiu lavar a louça do jantar em vez de deixar para o outro dia. Lavou prato, colher, copo... e escutou Hakudoushi entrar na casa.

-Estou de volta. – ele anunciou suavemente do corredor.

-Bem-vindo de volta, Hakudoushi-sama. – ela falou sem deixar de fazer o serviço.

Kanna o ouviu tirar os sapatos e tirar e guardar o casaco no armário próximo da entrada. Depois ouviu os passos dele se aproximando da cozinha.

Aguardou que ele dissesse mais alguma coisa, mas estranhamente ele estava calado. Ela sabia que ele queria falar algo, mas hesitava.

-Kanna. – finalmente ele tentou depois de algum tempo.

-Sim, Hakudoushi-sama? – ela perguntou ao lavar mais um prato e colocar no escorredor.

-Sobre aquilo que você viu lá fora, eu...

Parou o que fazia e olhou para ele por cima do ombro.

-Não é da minha conta. – ela o interrompeu. Sentença final.

Mais silêncio. Ela voltou a lavar a louça.

-O que estava fazendo lá fora?

-Descansando do treino.

-Treino?

-Estava treinando kendo na sala.

-Kendo? E dá para fazer isso lá? – ele parecia surpreso. Esperava que ela ficasse sem praticar alguma atividade? Ou achava que estava espionando aquela cena pela sacada?

-Meu material está em cima da bancada. – ela explicou sem se virar ainda. Realmente havia deixado o material para levar para o quarto dela quando fosse se retirar pelo dia: um quimono antigo e surrado e o shinai.

Silêncio se fez. Mas ela sabia exatamente o que ele iria fazer.

Kanna ergueu a mão esquerda para segurar com força o shinai de uso pessoal que Hakudoushi pegou para acertá-la.

-Só usou a mão para se defender. – ele observou com um meio-sorriso – Não acha mais que eu seja uma ameaça?

-Não se engane, Hakudoushi-sama. – ela fez questão de mostrar a faca afiada que tinha na mão direita apontada para ele.

O meio-sorriso virou um sorriso perverso. Os olhos dele ficaram brilhando de raiva. O shinai fez mais pressão na mão dela.

O médico queria continuar aquela luta interrompida.

Segurou o olhar no dele por alguns segundos.

Soltou a faca e deu um soco inesperado no rosto dele. Ele imediatamente largou o shinai e levou as mãos ao nariz.

-Faen! – o palavrão saiu com a voz saiu abafada. Ele tirou uma das mãos do rosto e olhou os dedos, certificando-se se havia muito sangue – Por que diabos fez isso?

Hakudoushi retirou-se sem esperar a resposta e ainda gemendo de dor. Ela o ouviu abrir a porta do banheiro e algumas gavetas. Estava limpando o ferimento.

Kanna permitiu-se dar um pequeno sorriso, bastante satisfeita com o que fez.


Depois que um exterminador abriu a porta, Kirara ajudou Kanna a entrar no quarto e a ficar em frente à porta do esconderijo. A mulher esticou o braço e com um certo esforço digitou a senha para a abertura.

-Nossa... é a primeira vez que vejo um lugar assim. – a menina falou com surpresa e inocência – Isso é tão legal.

-Você me ajuda? – Kanna perguntou.

-Claro! – Kirara ficou na posição de um soldado em alerta – O que eu tenho que fazer?

-Carregar os dois até a cama. Eu vou ficar sentada lá. Preciso que pegue uma roupa para mim em uma dessas gavetas dentro do armário também.

-Okey dokey. – ela deu um sorriso e fez uma coisa de cada vez. Primeiro, sob orientação de Kanna, tirou a roupa pedida por ela, guardada em uma das gavetas, e depositou na cama.

Depois entrou no esconderijo saltitando.

-Kirara? – ela a chamou.

A cabeça da exterminadora apareceu na porta, curiosa.

-Não é para acordá-los. – ela falou em um tom de aviso – Por favor.

-Deixa comigo! – ela deu um enorme sorriso e entrou no esconderijo novamente.

Alguns minutos depois, ela trazia Akiko desacordada nos braços. Ela era realmente leve. Colocou-a sob a vigilância constante de Kanna em cima da cama.

-O menino tem um celular. Você pode trazê-lo pra mim?

-Sim, sim. – ela uniu as mãos e saltitou até o esconderijo de novo.

Mais algum tempo depois, ela trouxe Teru carregando-o nas costas. Ele tinha baba nos cantos da boca, indicando que estava em um sono muito profundo.

-Pode fechar a porta também. – Kanna falou.

Habilidosamente Kirara puxou a porta do esconderijo com o pé e a fechou. Depois caminhou até a cama.

Com igual cuidado, a exterminadora colocou o menino ao lado da irmã. Eles não tinham acordado. Ficou impressionada com o sono dele. Lutadores como ela e Kanna aprendem desde cedo a acordar com o menor sinal de energia por perto.

-Kirara... – Kanna falou em um tom suave – Esta aqui é Higurashi Akiko. Nós a chamamos de Aki-chan. Ela tem sete anos e gosta de tocar viola e piano e de colecionar bonecas de pano.

-Prazer em conhecer, Aki-chan. – Kirara falou educadamente para a menina adormecida, mãos em frente ao corpo e cabeça curvada, como se ela pudesse ver a reverência e fazer o mesmo.

-E este aqui é Higurashi Teru. Ele tem dez anos, gosta de videogames e de jogar futebol.

-Ele tem dez? – ela estava espantada – Ele tem quase a minha idade! Será que ele vai ser ninja?

Espero que não.

-Bem, isso depende se Kikyo-sama vai deixar.

-Ah... – ela falou como se tivesse revelado um grande mistério. Depois lembrou-se de cumprimentá-lo da mesma forma que a irmã – Prazer em conhecer você também, Teru-kun.

Ficou sentada ao estilo japonês – pernas dobradas sob o torso – e posicionou os braços na cama para apoiar a cabeça, observando-os curiosamente e fascinada.

Piscava lentamente e via Kanna fazer um esforço para cobri-los no leito. Eles não sabiam o que tinha acontecido. Eles ficaram protegidos todo esse tempo. Eles brincavam de futebol e tocavam um instrumento musical.

-Eu gosto de balé. – ela falou de repente – Minha tia disse que seria bom eu aprender.

- Eu vi os seus movimentos lá fora. – Kanna falou interessada – Há quanto tempo você dança?

-Desde que meu pai foi assassinado. – ela inclinou o rosto nos braços e olhava para um ponto que ficava além de Teru e Akiko.

Era sempre assim. As histórias começavam daquela forma, Kanna refletiu.

-Obrigada por tudo o que fez hoje por mim e por eles, Kirara. – ela tocou o topo da cabeça dela e afagou de leve, retirando a mão depois. Era o máximo de contato que já se permitiu fazer por alguém que acabara de conhecer – Você trouxe o celular?

-Sim. – a mão direita foi até um bolso da roupa de exterminador e voltou com o aparelho.

-Obrigada.

Ficaram em silêncio, com Kirara ainda sentada no chão.

-Nee, nee, Kanna-chan... – ela falou suavemente – Será que a gente vai voltar a se ver algum dia?

Kanna não conseguiu evitar um suspiro ruidoso. O corpo já estava cansado demais.

-Quem sabe, não é?

-Eu vou deixar vocês dormindo. – ela levantou-se e limpou uma sujeira imaginária dos joelhos – Vamos deixar tudo em ordem na nossa saída.

-Obrigada por tudo. – ela agradeceu – Vocês nos salvaram.

Kirara deu um imenso sorriso e depois saltitou novamente até a porta.

-Bye, bye! – ela acenou uma última vez.

Kanna ergueu de leve a mão para retribuir a despedida.

Assim que a porta fechou, ela deu um longo suspiro. Depois esticou o braço para alcançar a roupa trazida por Kirara.

Trocou-se ali mesmo na beirada da cama. Colocou uma blusa de botões com muito esforço. As mangas cobriam até os pulsos, o que poderia disfarçar mais as condições em que se encontrava.

Depois tirou o hakama de casa que usava, com rasgões e vários respingos de sangue, e jogou-o para baixo da cama. Dali a alguns dias iria pegá-lo novamente para lavar.

Pegou o short curto de dormir, mais folgado, e começou a vesti-lo tão lenta e cuidadosamente quanto possível. Parecia ter sido atropelada de tanta dor no corpo, mesmo tendo tomado remédio para aliviar o que sentia.

Enquanto vestia o short, pegou o celular e ligou para um número que já estava na memória.

Escutou a linha tocar, tocar, tocar, até cair na mensagem da caixa postal.

-Kikyo-sama... – ela começou com a voz fraca por conta do esforço em fazer uma tarefa muito simples – As coisas estão resolvidas por aqui. – o cansaço estava evidente nas palavras – As crianças estão bem.

Deu um suspiro pesado. Era possível ouvir um chiado saindo do pulmão.

-Amanhã eu ligo para dar os detalhes. Mas está tudo bem aqui agora.

Finalizou a ligação e olhou algum ponto em frente à ela.

Tinha que ligar para ele. Ela tinha que ir ao hospital amanhã, sem desculpas. Ou pelo menos que um médico viesse vê-la o quanto antes. Mas teria que ser em algum que não fizesse perguntas sobre o motivo de estar tão machucada.

Deu outro suspiro cansado e ligou para Hakudoushi.

Escutou a linha tocar, tocar, tocar, tocar... até que ele atendeu.

Por alguns segundos, ele não falou nada.

-Hakudoushi-sama? – ela tentou.

-Hei – ele falou em norueguês. A voz parecia abafada.

-Nós fomos atacados esta noite. – ela avisou.

Mais silêncio na linha. Ela interpretou como se quisesse que ela continuasse a explicar.

-Está tudo bem aqui... Os invasores estão mortos. Eu... – ela deu outro suspiro cansado, ouvindo mais um chiado – Eu estou com alguns... ferimentos. Já cuidei de alguns deles, mas... Preciso ver um médico amanhã...

-As crianças estão bem? – ele perguntou na língua estrangeira.

-Sim. Sem ferimentos. Nem sabem o que aconteceu.

-Ok.

Mais silêncio. Ao fundo, ela ouvia alguma coisa como um grito abafado e franziu a testa.

-Estou atrapalhando alguma coisa?

-Estou cuidando de uma pessoa ferida. – ele falou rispidamente, meio apressado. A voz abafada significava então que poderia estar com aquela máscara de proteção usada por médicos.

Kanna sentiu a cabeça ficar zonza. Os ouvidos pareciam tapados.

-Tudo bem, eu vejo a questão do médico depois. Boa noite.

-Espere. – ele falou com pressa – Vou resolver isso. Você... – ela ouviu novamente um gemido, como se a pessoa que estava com ele estivesse se controlando para não gritar muito alto de dor – Você cuidou de tudo sozinha?

Silêncio se fez.

Lembrou-se do pedido de Sesshoumaru transmitido pelos Exterminadores.

Será que Kikyo-sama e Hakudoushi descobririam algum dia?

-Sim.

Mais silêncio.

-Sozinha? – ele parecia mais sério.

A pergunta repetida era porque ela parecia menos determinada na hora de responder?

-Sim. – falou mais firme.

De novo, silêncio.

-Hakudoushi-sama?

-Amanhã cedo eu ligo... – ele falou – Para acertar o médico.

-Ok. Boa noite.

Não esperou que ele dissesse o mesmo. Desligou e pousou a mão que segurava o celular no colo. Apertou o aparelho e fechou os olhos por alguns segundos, num exercício de meditação.

Os olhos abriram quando ela sentiu a cabeça cair para a frente. Os remédios estavam fazendo efeito. Não aguentava mais o sono.

Estendeu uma mão com extrema lentidão à luminária em cima da cômoda ao lado da cama e desligou a luz. Iria dormir ali mesmo, não tinha mais condições de sair do quarto e dar vinte passos até a porta do aposento dela.

Ainda segurando com força o aparelho, ela forçou as pernas a subirem no leito. Deitou de costas e abafou um gemido de dor.

Naquela posição ela percebeu, minutos depois, que ficava mais difícil respirar. Parecia que afundava na cama, como se estivesse se afogando. Levou cerca de quatro minutos para deitar do lado que não estava ferido.

Ficou de frente para os rostos adormecidos das duas crianças, a respiração calma e regulada. Elas dormiam tranquilas, mal sabendo o que se passou sob aquele teto.

Não demorou muito e apagou de vez ao som da respiração de Teru e Akiko.


Os Exterminadores terminaram de arrumar tudo, limparam a casa, trancaram a mansão. Missão cumprida. Precisavam voltar ao hotel que serviria de base até pela manhã para o descanso antes de retornarem para Tokyo, isto é, caso Kirara não inventasse de sair para algum lugar.

Do lado de fora, Kirara saltitava entre os espaços sem poça de água do jardim, parando por um momento para observar do lado de fora a única janela com luzes acesa da mansão.

Alguns segundos depois, a luz apagou e ela deu um sorriso.

-Boa noite, Kanna-chan, Aki-chan, Teru-kun. Até algum dia. – a voz saiu em um sussurro. Esperava que eles ficassem bem.

-Kirara-sama. – Hiro gritou muito distante dali – Você vai ficar sozinha aí e vamos sem você amanhã pro parque do Lego.

Aquilo tirou a atenção da menina que, com o alerta, saiu correndo atrás do grupo.

-Nãããão! – gritou infantilmente para eles, balançando os braços – Esperem por mim!


Próximo capítulo:

"-O que exatamente você está fazendo, Rin?"

"-O pessoal pensa que eu levo tudo na brincadeira, mas comigo a coisa é séria, rapá."

"-Alguma coisa aconteceu com as crianças e eu não consigo falar com Kanna."

Capítulo 25: A mão direita da destruição.