Nota da autora: Não queria deixar passar o mês sem publicar ao menos um capítulo da história. É mais um para chegarmos ao final da saga.

Este mês eu perdi três colegas de trabalho pra Covid-19 de uma única vez e ainda fiquei doente 2x, com fortes dores na coluna por causa do trabalho remoto. Isso me abalou muito, sabem? Vamos ver se julho será mais gentil comigo. Fiz um calendário de atualização e espero cumprir para poder finalizar isso aqui e continuar com Noites sem Fim.

Eu pensei seriamente em continuar postando a história em algum canal no Telegram. O que vocês acham? Eu sinto que o povo não comenta como antigamente e lá pelo menos eu saberia quem está lendo.

Comecei a rascunhar uma história curtinha de 4 partes sobre os 4 rapazes da família Akai. Alguém comentou que eles não são apenas primos, mas possuem uma relação muito profunda de amizade. Eu comecei a escrever sobre quando o Miroku entrou na família. Qualquer coisa, eu aviso sobre o andamento para enviar para quem está lendo.

Obrigada a quem comentou: fidelix0908, amazing taisho, autumnbane, HikariCosta1, Line Sagittarius, isabelle36, Joy, Haruha Uchiha, Ayame Tarimoto, Lan Lan e aos demais que comentaram anonimamente ou no PM :)

A Line Sagittarius fez uma ilustração da cena do Hakudoushi cuidando do ferimento da Kikyo e compartilhei o link aqui no meu perfil e também no Twitter :)

Obrigada a Kuchiki Rin por ler e comentar sobre esse capítulo antes de postar!

Espero que gostem do capítulo e me mandem mimos :)


Disclaimer: "InuYasha" pertence a Takahashi Rumiko.

A cor do dinheiro

Capítulo 27: Emoções desnecessárias

Para Lan Ayath

Mansão Akai

O que foi, Inuyasha? – Hakudoushi perguntou com um sorriso beirando ao malicioso, internamente divertindo-se com a expressão assustada do primo. Era quase como da vez que os três o ensinaram a matar uma pessoa –Por que está me encarando desse jeito?

O outro não respondeu. Também não desviava o olhar. Inuyasha nunca mais havia visto Hakudoushi de uniforme. A última vez foi quando os Akai tiveram aquele infeliz evento com os Higurashi e quase os dois clãs se destruíram.

Um "hunf" escapou por parte de Sesshoumaru.

Vejo que tomou uma decisão. – ele falou.

Eu não tinha decisão alguma para tomar. – o médico explicou com os olhos estreitados – Minha lealdade sempre foi dos Akai, a minha família.

Os dois se encararam com um sorriso. Toda a rivalidade da adolescência havia desaparecido. Ambos pareciam saber o que cada um pensava.

Preciso de uma arma. Minha naginata está guardada no quarto de tia Izayoi desde aquela invasão de Kikyo. Não quero subir para acordá-la. – Hakudoushi explicou – Vou levar uma dessas e uma adaga. Ah, e de uma pistola também. Ou um fuzil, se for possível.

Você pode pegar uma pistola de alguém que matar, não? – Sesshoumaru falou e depois indicou com um movimento de cabeça a cristaleira – Leve a Muramasa.

Eu preciso de uma espada de verdade.

Sesshoumaru estreitou os olhos. Hakudoushi mantinha o sorriso irônico. Inuyasha continuava com o olhar fixo e abobalhado no primo.

Por fim, o líder pegou a Kikujūmonji, uma relíquia japonesa que deveria estar no Museu Nacional, e jogou para o primo, que habilmente a pegou no ar e a amarrou na cintura.

Preciso de uma menor também. A wakizashi.

Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha. Hakudoushi continuava com o irritante sorriso irônico. Inuyasha continuava perplexo.

O chefe da família precisou esticar novamente o braço e pegar algo da cristaleira – uma wakizashi que o velho Toutousai dizia ser da Era Sengoku.

Eu quero as duas de volta. – ele avisou ao jogá-la na direção do primo, que novamente foi ágil o bastante para pegá-la no ar – Sem uma gota de sangue. Não quero oxidada depois que voltarem para a coleção.

Tchi. – o primo escondeu a wakizashi dentro do kimono e deu de costas – Eu mando limpar com um especialista.

Ao dar alguns passos na direção da janela do segundo andar, ele parou e olhou por cima do ombro.

Solte meus amigos, Inuyasha. – ele avisou – Eles vão se divertir hoje.

Abriu as janelas, estalou o pescoço e colocou um pé no peitoril.

Hakudoushi. – Sesshoumaru o parou.

O outro olhou novamente por cima do ombro.

Se puder, traga um deles vivo. Preciso saber algumas coisas. – ele pediu.

O primo deu mais um sorriso malicioso antes de virar completamente o corpo para ficar de frente ao primo.

Você é quem manda, meu líder. – ele se curvou em reverência respeitosa, sem deboche ou malícia, a mão em cima do coração.

Depois deu um salto para trás e desapareceu pela janela.

Outro "hunf" escapou de Sesshoumaru e virou-se em direção ao escritório.

Ao perceber que não era seguido pelo irmão e que ele continuava a observar a janela como se o médico ainda estivesse ali, o mais velho parou de andar e olhou para trás.

O que houve, Inuyasha?

Aquilo pareceu despertar o irmão.

O que aconteceu pra Hakudoushi ficar assim? – ele perguntou no tom mais sério dele.

Sesshoumaru o encarou com indiferença por um ou dois segundos antes de continuar o caminho até o escritório.

Kikyo está se recuperando no quarto de Hakudoushi, Inuyasha. Ele já tratou o ferimento dela.

Os olhos do irmão se arregalaram a tal ponto que perderam o brilho. Ele parecia extremamente assustado.

Sem esperar mais nenhuma palavra do mais velho, Inuyasha saiu correndo pelas escadas, pulando o corrimão e subindo de dois em dois degraus sob o olhar perspicaz de Sesshoumaru.

Naturalmente que ele se preocuparia com alguém como Kikyo. Afinal, eram irmãos por casamento agora.

Pegou o celular e ligou para uma pessoa.

Jaken, venha agora ao meu escritório.

Sesshoumaru desceu mais um andar, andou pelo corredor, passou pela sala onde tentava transformar em uma sala de piano para Rin. O escritório estava perto.

Antes de chegar, porém, Jaken o interceptou.

Estou aqui, Sesshoumaru-sama. – ele se curvou.

Quero que chame agora o velho Toutousai para as devidas explicações sobre uma das armas que ele negociou com meu pai. – ele estava sério demais, o que era indicação de que estava irritado na leitura que Jaken conseguia fazer do patrão.

Oh... – o homenzinho franziu a testa já enrugada – O que houve?

A Muramasa que ele conseguiu é falsa. – Sesshoumaru avisou.

Jaken ofegou, extremamente indignado com aquela situação.

Eu sabia que aquele homem não era confiável! Falei diversas vezes ao honorável e respeitável senhor Toga para tomar cuidado com aquela amizade! Ele sempre me pareceu mesmo ser um aproveitador. Ah, se o senhor Toga estivesse aqui, eu tenho certeza de que...

Antes de permitir que o pequeno homem continuasse divagando sobre o quanto ele desconfiava das atitudes do sujeito que havia sido amigo do falecido líder, Sesshoumaru continuou:

Eu quero que ele venha agora aqui para se explicar. Se ele estiver em outra cidade, mande um carro buscá-lo onde quer que ele esteja.

Claro, farei agora mesmo. O senhor que ele receberá o que merece depois dessa que aprontou.

Enquanto Jaken tagarelava sobre como fazer para que o sujeito que intermediava as negociações entre colecionadores de armas históricas pagasse pelo que fez, Sesshoumaru seguiu adiante e abriu a porta do escritório.

E ficou paralisado na entrada.

Notando o patrão em silêncio e ainda parado, ele aproximou-se discretamente da porta e conseguiu colocar a cabeça em um vão para observar o interior.

O escritório estava completamente destruído. Havia corpos espalhados por todos os cantos. Sangue pelas paredes e escorrendo em gotas pelo teto. A mesa estava virada e com o que restou das pernas para cima.

Jaken ficou de tal forma assustado com a possível reação do líder – muito mais do que com a cena dentro do escritório – e por precaução afastou-se.

Limpou a garganta discreta e elegantemente, ainda a afastar-se dali.

Eu vou providenciar o carro para buscar Toutousai-dono.

E saiu correndo pelo corredor, deixando o próprio chefe sozinho para lidar com aquilo.


Aquela era Goshinboku.

Kikyo olhou para os lados e se viu no pátio principal do Templo Higurashi, de frente para a árvore sagrada.

Ao contrário do que acontecia, ela não parecia calma. Estava incomodada por estar ali. Parecia errado estar de frente à árvore num momento como aquele. Tinha que estar em outro lugar, ainda mais com o ombro doendo absurdamente por conta de um ferimento.

Kikyo...

Olhou para trás ao ouvir alguém chamá-la, encontrando o pai ali.

Papai! – ela parecia assustada com a presença dele ali.

O antigo líder da família Higurashi parecia extremamente triste e com pena por a filha estar machucada. Ela não deveria ter se machucado. Ao ser escolhida para o cargo, o pai pensou na segurança dela acima de tudo.

Ergueu o dedo indicador e depois levou o mesmo dedo ao ouvido.

Kikyo...

Quem a chamava definitivamente não era o pai. A voz era diferente.

O pai ergueu o dedo mais uma vez para apontar para a árvore sagrada. Nessa hora, Kikyo ergueu a cabeça para olhar a copa, as folhas fazendo sombra no rosto dela.

Ao olhar mais uma vez para o pai, encontrou o ponto vazio. Ele já havia ido embora.

KIKYO!

E então ela abriu os olhos apenas para dar de cara com Inuyasha com o rosto quase colado ao dela.

Ah, que bom. – ele fechou os olhos e balançou a cabeça para os lados em alívio – Você acordou, que bom.

Inuyasha, você não devia estar com Kagome? – ela tentou se levantar, mas ficou presa à cama por ele, que a empurrou gentilmente de volta. Também deixou escapar um gemido de dor e olhou o motivo: o ombro machucado devidamente tratado. Aquele era o motivo que a tiraria de uma luta naquele momento importante das duas famílias.

Idiota... – apesar de ser um xingamento, ela não ficou preocupada. A preocupação que ele sentia por ela no momento era perfeitamente sentida na voz do cunhado – Não se mexe. Esse ferimento vai abrir.

Você tinha que ficar com Kagome o tempo todo! – ela se irritou, apertando o lençol contra o peito ao ver o estado em que se encontrava.

Sabe que ela ia ficar puta se eu te deixasse sozinha com esse ombro todo detonado. – ele olhou preocupado a região – O que aconteceu pra ficar assim?

Asuka. – ela falou num sussurro.

A chefe da guarda? Não acredito nisso.

Eu também não queria acreditar, mas foi ela quem fez isso comigo.

Inuyasha piscou, abriu a boca sem conseguir emitir som algum, deslizou a mão ao rosto meio exasperado. Aquela moça parecia ser de tanta confiança...

Não posso te deixar sozinha. – ele olhava o corpo todo machucado, apenas com uma manta cobrindo o torso – Tá sem roupa?

Hakudoushi tirou minha blusa para tratar o meu ferimento. – ela apontou com a cabeça para a direção do armário – Ele disse que eu podia pegar alguma coisa dele pra vestir.

É bom esconder isso também da vista de Kagome ou ela vai pirar. – ele foi até o armário do primo e o abriu para vasculhar entre as peças ali alguma que servisse para ela.

Voltou depois para junto de Kikyo com um blazer enorme e uma camisa social azul escura.

– "Algodão egípcio." – ele leu a etiqueta da camisa – Usa isso aqui mesmo. Depois cês dois se acertam.

Eu não gostei da cor. Pega uma branca. Ou salmão. Eu me lembro que ele tem uma camisa salmão.

Como cê sabe disso? – Inuyasha franziu a testa e parecia confuso.

Procura logo, Inuyasha. Kagome vai ficar desconfiada se me ver com uma roupa que não combina comigo.

Inuyasha jogou as duas peças na cama com desprezo.

A gente não tá na Forever 21, Kikyo. Veste logo 'sa porra.

Kikyo deu um suspiro irritado para indicar a desistência. Ela não queria mais discutir sobre nada mais.

Pode me ajudar aqui, então? – ela esticou o braço que não estava enfaixado – Preciso sentar.

Inuyasha imediatamente curvou-se. Foi uma pequena atividade física tentar erguer-se com aquele tipo de machucado sem abrir os pontos, e Kikyo, quando finalmente conseguiu controlar as exclamações e gemidos de dor, já estava suada pelo enorme esforço.

Levou mais algum tempo para Inuyasha ajudá-la a vestir-se e a cobri-la com o blazer de linho.

Vou te deixar com Kagome. Eu preciso ver ser a Rin tá bem. – ele explicou ao erguê-la.

Sério, Inuyasha? Vai servir de cão de guarda pra essa menina agora? E quando você vai ficar com Kagome? – ela reclamou.

Ela vai ter um parto literalmente se não tiver notícias de vocês duas. Vou ter que levar a Rin pro quarto também. – ele a ajudou a andar até a porta e a segurava pela cintura.

As pernas de Kikyo balançaram e ela quase se desequilibrou, o que deixou o outro mais nervoso.

Cê tá bem mesmo?

Sim... – ela parou por um momento para respirar fundo com os olhos fechados, soltando o ar aos poucos – Hakudoushi disse que eu ficaria assim. Ele me deu um monte de coisa.

Então o negócio foi pesado mesmo, né?

A anestesia não funcionou comigo. Ele disse que tenho resistência e usou outra coisa mais forte.

Cê é durona mesmo, hein? E eu achando que só essa cabeçona.

Kikyo estreitou os olhos perigosamente para ele.

Vamos logo. Kagome quer ver se cê tá bem mesmo ou não vai dormir sossegada hoje.

Ao saírem do quarto, Kikyo olhou para a área onde havia acontecido o incidente com Asuka. Estava completamente limpo, sem um único resquício do que se passara para ela ficar naquele estado.

Já estava assim quando você veio?

Assim como? – ele quis saber.

Asuka nos atacou aqui. O alvo dela era Hakudoushi.

Inuyasha franziu a testa.

Hashi deve ter mandado limpar. Cê sabe que ele e Sesshoumaru não aguentam um sujinho. Ah, tá sabendo que a Muramasa daquela coleção do papai é falsa?

Kikyo o olhou de soslaio. A última Muramasa original que não estava em um museu era de Kanna, uma herança de família.

Claro que sei. O corte da original é diferente.

Cê entende disso também? – ele franziu a testa – Hashi falou a mesma coisa.

Vamos logo, Inuyasha. – ela o ignorou – Não quero que minha irmãzinha ainda mais preocupada agora.

O cunhado balançou a cabeça e ela não percebeu o discreto sorriso divertido que ele tinha nos lábios.


Mansão Shiroi

Kouga, acompanhado de Ginta e Hakkaku, olhavam os sacos no chão no concreto destruído com certo nojo. As pessoas dormiam sabendo que tinha algo próximo a um cemitério clandestino em casa?

Há quanto tempo acha que estão aí? – Ginta perguntou.

Kouga tirou o lenço do nariz e deu uma leve fungada no ar.

Um aí é muito recente. Pelo menos quatro anos.

Como você consegue saber essas coisas? – Hakakku parecia enojado – É muito esquisito.

Quem são esses? – Ginta quis saber.

São os corpos das ex-esposas e do enteado do antigo líder da família Shiroi. – alguém respondeu à pergunta atrás de Kouga.

O líder arregalou os olhos e olhou para trás, assustado, assim como os companheiros.

Ao virar o rosto lentamente para trás, ele encontrou a figura de Bokuseno parado à porta. Uma garota de longos cabelos ruivos e ondulados estava com ele, olhando divertidamente para os três. Usava blazer feminino preto com blusa branca, as calças escuras e um salto alto combinando com o visual.

O que ele tá fazendo aqui?

Kouga... – a voz de Miroku soou nos transmissores enquanto o outro olhava ainda atônito para a figura recém-chegada e sem ligar muito para a acompanhante – Onde vocês estão?

Tocando no aparelho na orelha, ele respondeu:

Miroku, a gente tá com um problema aqui na casa. Adivinha quem chegou.

-Ah, tenho tempo não de adivinhar. – o outro parecia ofegante e aparentemente estava ou correndo muito ou tinha apanhado muito – Seguraí as pontas que eu tô chegando.

E desligou.

Ele disse que "estava chegando"? – Bokuseno perguntou com um sorriso cínico – Então vai demorar. É sempre assim.

Como conseguiu entrar aqui? – Kouga perguntou no tom mais sério dele.

Bokuseno piscou inocentemente.

Por que eu não conseguiria entrar? Eu sou o líder de todos vocês aqui.

Você não tinha que estar aqui. – Kouga falou extremamente sério.

O senhor Bokuseno pode estar em qualquer lugar, desde que não faça nada. Ele não pode enfrentar ninguém ou tocar em nada aqui que implique que escolheu um lado. Artigo 5, inciso VIII do Conselho da Yakuza. – a garota ao lado de Bokuseno explicou com um sorriso e fez-se mais presente ainda.

Ah, Ayame-chan, quero que conheça... – ele estendeu a mão para ela e depois para os outros três, franzindo a testa para Ginta e Hakkaku, já que não lembrava o nome deles – Kouga e... vocês dois. Meninos, essa aqui é Watanabe Ayame. Ela está se candidatando à vaga para ser minha assistente e veio provar algumas habilidades para mim.

Você nunca teve uma pessoa assim. – Kouga apontou.

Já tive sim. Com ótimas referências, por sinal.

O que aconteceu com ela? – Ginta perguntou.

Morreu. – ele falou num tom indiferente, dando de ombros – Acidente de trabalho.

Os três trocaram um olhar significativo.

Eu estou aqui como uma simples testemunha. – Ayame avançou entre o concreto destruído com um elegante salto, a roupa elegantemente marcada no esbelto corpo, os braços abertos para afastar o contato – Com licença, cavalheiros.

Agachou-se para ficar na beirada do concreto, tirando uma máscara cirúrgica de um dos bolsos do blazer feminino.

Ei, ei, ei. – Kouga tentou avançar para impedi-la de tocar em qualquer coisa, mas ela o parou apenas com um olhar perigoso de soslaio.

Eu vou ter que olhar. – ela falou num tom de evidente aviso, mesmo com a voz um pouco abafada pela máscara, colocando luvas cirúrgicas. Parecia que ia fazer inspeção – Vocês demoraram muito aqui para conseguir descobrir isso.

Novamente os três trocaram os olhares.

Kouga arregalou os olhos e voltou-se para Bokuseno, agora acomodado em um banco, calmamente tirando uma maçã de um bolso interno do paletó e esfregá-la no blazer como se fosse suficiente para limpá-la.

Você também veio atrás daquilo! – acusou o próprio chefe.

Daquilo o quê? – ele comia tranquilamente a fruta.

Sesshoumaru mandou pegar o que sobrou dessas pessoas e mais uma caixa.

Enquanto Kouga discutia com Bokuseno, Ayame tranquilamente entrava no buraco e remexia os corpos à procura de algo. Os três estavam virados para o líder e sequer se deram conta do que ela estava fazendo.

Ninguém pode me acusar de nada, lembre-se disso. – Bokuseno cuspiu uma semente – Estou quieto aqui no canto comendo minha maçã.

Ele não pode, mas a garota pode. – Ginta explicou – Está usando a cláusula dos candidatos a assistentes pra que ela pegue a caixa pra ele.

Cláusula? Vocês têm isso? – Kouga olhava ora para Hakkaku, ora para Ginta.

Claro que nós temos. – Ginta franziu a testa.

Todo candidato precisa cumprir uma tarefa antes de ser contratado se não tiver referências. – Hakkaku completou pelo outro – Nós entregamos referências. Você não lembra?

E a tarefa dela é...? - Kouga olhou para trás e arregalou os olhos.

Ayame estava terminando de limpar com um pincel uma caixa lacrada de madeira marrom. Tinha mais ou menos quinze centímetros e parecia mais um porta-joias. Depois de limpá-la, ela ocupou-se em tirar a poeira acumulada na calça e nas mangas do blazer escuro, desfazendo-se depois das luvas.

Missão dada é missão cumprida, eu avisei. – ela deu um sorriso e caminhou graciosamente entre eles, tirando a máscara com a mão direita enquanto a esquerda segurava a caixa lacrada.

É essa mesma. – Bokuseno tinha um sorriso largo no rosto, erguendo um pedaço de papel – Entregue neste endereço e estará contratada.

Conversamos sobre as férias e o valor das horas extras amanhã, então. – ela jogou o cabelo ruivo por cima do ombro e fez menção de passar por Kouga e os dois assistentes – Com licença, cavalheiros.

Você não vai passar! – Hakkaku estendeu os braços para tentar impedir a passagem da garota.

Não vamos deixar. – Ginta imitou o gesto do outro.

O rosto de Ayame transmitia toda a indiferença possível.

Saiam da frente. – ela falou em tom de aviso.

Não. – os dois falaram ao mesmo tempo.

No outro segundo, ela fazia Ginta tropeçar ao chutar as pernas e cobria o rosto de Hakkaku com a mão para esfregar o rosto dele no chão. Bokuseno até parou de mastigar a maçã e acabou deixando que um pedaço caísse da boca diante da cena.

Eu falei para saírem do caminho. – ela colocou a caixa embaixo do braço – limpou a poeira do ombro.

A mão subitamente foi agarrada com força por outra.

Era Kouga.

Entregue a caixa, mocinha.

O olhar dela estreitou em aviso por um segundo e no outro ela desvencilhava a mão para acertar um golpe no pescoço de Kouga, deixando-o sem ar e de quatro no chão. Foi tão rápido e inesperado que Bokuseno engasgou no canto onde estava.

Ayame deu dois saltos para trás, pulando por cima de Ginta e Hakkaku ainda no chão, e ficou em pé na frente de Bokuseno e agarrou o pedaço de papel com o endereço onde deveria fazer a entrega.

Você é mesmo boa nisso. – ele tinha um brilho de malícia nos olhos – Por mim, já está contratada.


Na frente do quarto de Inuyasha, ele, ainda servindo como apoio para Kikyo, hesitou por um segundo antes de abrir a porta do quarto.

Você tem como ficar cuidando dela e da Rin? Vou fazer uma coisa que o Hashi pediu.

O que ele está fazendo? – ela franziu a testa.

Inuyasha ficou em silêncio como se aquilo pudesse responder.

Ele está lutando!? – ela parecia alarmada, os olhos arregalados – Onde?

Lá fora. Tenho que fazer uma coisa pra ele. – o cunhado cuidadosamente a soltou para ver se ela conseguia manter-se em pé – Você vai esconder mesmo esse ferimento? Ela vai ficar preocupada.

Vai fazer logo o que precisa pra tirar essas desgraças da casa da minha irmã. – ela apoiou-se na parede externa e deu um suspiro cansado – Eu fico cuidando das duas e de Shippou aqui.

Abriu a porta para ela e esperou que ela mesma fechasse antes de dar alguns passos para trás e seguir na direção do quarto de Sesshoumaru.

Dentro do quarto, Kikyo aproximou-se da cama onde a irmã estava descansando. Encostada em uma almofada de apoio, quase sentada no leito, ela tinha os olhos fechados e a mão direita em cima do ventre. A esquerda tocava afetuosamente a cabeça de Shippou, aninhado ao corpo dela. Parecia ser o retrato da tranquilidade, os dois alheios a tudo o que acontecia.

Parecia que a irmã sentiu a presença dela, pois as pálpebras tremeram por alguns segundos até abrir os olhos.

Kikyo-nee-sama... – ela murmurou, esfregando os olhos com a mão direita – O que faz aqui?

A líder da família Higurashi sentou-se na cama e tentou disfarçar com um sorriso.

Terminei o que precisava que fazer e decidi ficar aqui com você. – ela deslizou a mão que não estava imobilizada pelo ventre – Você está bem?

Oh... – Kagome franziu a testa em confusão – Eu sonhei com o papai e me sinto tão estranha agora...

A irmã mais velha disfarçou o alarme por trás de um sorriso.

É? E o que foi o sonho?

Hmm... – ela fechou os olhos por um momento, levando um punho fechado ao coração como se aquilo pudesse confortá-la, o olhar fixo em um ponto aleatório do lençol – Estava lá no Templo e ele aparecia perto da árvore sagrada... ele não falou nada, mas parecia tão triste...

À medida que ouvia a história, Kikyo arregalava os olhos, voltando a assumir uma fachada mais tranquila quando Kagome voltou a encontrar o olhar dela.

Por que será que ele apareceu agora? – perguntou ela.

Acho que ele quer dizer para você não se preocupar com nada e que tudo vai ficar bem. – Kikyo escolheu as palavras com cuidado – Inuyasha está vindo para cá com a sua amiga. Vamos ficar aqui a noite toda. Você pode dormir tranquila enquanto isso.

Rin está vindo? – Kagome parecia alarmada, desencostando-se da almofada de apoio – Está tudo bem mesmo? E por que você está com essa roupa do Hakudoushi?

Kagome, está se preocupando à toa. – a irmã tentou tranquilizá-la – Você pode voltar a dormir.

A irmã mais nova bufou e cruzou os braços.

Vou ficar acordada até você me contar.

Vai voltar a dormir, isso sim.

Você não manda em mim, blééé. – ela mostrou a língua e puxou uma olheira para irritá-la, voltando a cruzar os braços e empinando o nariz com altivez – Hunf.

E Inuyasha ainda fala que eu sou cabeça dura, pensou Kikyo.


Rin sentiu alguém tocando o ombro insistentemente e tentou cobrir o rosto com o lençol, mas uma mão a impedia de fazê-lo.

Agora não, Sess... – ela murmurou.

– "Sess", hein? É assim que cê chama meu irmão?

Imediatamente, ela abriu os olhos e deu de cara com Inuyasha curvado sobre ela, dando um grito ao se encostar de súbito contra a cabeceira.

Um segundo grito escapou dela ao ver-se nua e pegar o lençol para cobrir o próprio torso. Inuyasha tinha o olhar arregalado, quase dois riscos verticais indicando o espanto e o constrangimento do que havia acabado de acontecer.

Err... – ele tremia – De-Desculpa... E-E-Eu não sabia que v-vo-você estava s-s-sem roupa...

Rin recolheu-se ainda mais na cama, lançando um olhar desconfiado para o cunhado – agora também irmão por casamento.

Depois arregalou os olhos e virou o rosto para os lados.

Cadê o Sesshoumaru? – a voz tinha o nervosismo que ele mesmo já havia ouvido na de Kagome. Mulheres Akai e as preocupações de sempre.

Calma, ele não saiu. Tá no escritório agora. – ele mostrou a ela um pedaço de papel – Isso aqui é um recado dele. Tava na mesinha.

Franzindo o cenho, ela reconheceu a caligrafia de Sesshoumaru e leu as poucas linhas do recado: ele ia resolver uma coisa no escritório e ela podia descer para vê-lo se quisesse.

Desculpa, Rin. – ele virou o rosto para o lado por respeito ao estado atual de nudez dela – Eu preciso te levar pro quarto pra ficar com Kagome. Vou ter que ajudar o Sesshoumaru e o Hakudoushi numa coisa.

Kagome-sama está bem? – ela perguntou.

Só preocupada com tudo isso. – ele deu um suspiro cansado – Mas vai acabar tudo bem. Só queria que você ficasse lá com ela e Kikyo.

Hm... – ela ajeitou o lençol na frente do corpo e sussurrou – Você poderia me dar alguns minutos para eu me arrumar...?

Claro. – ele concordou, mas não se moveu dali.

Alguns minutos sozinha. – ela enfatizou.

C-Claro. – ele levantou-se e saiu do quarto.

Sozinha, ela deu um suspiro cansado e voltou a ler o bilhete deixado pelo marido. Ele estava bem. Havia cumprido a promessa.

Deu um sorriso e olhou o anel que ornava agora a mão.

Minutos depois, ela abria a porta do quarto para encontrar Inuyasha tentando acender um cigarro. Rin tinha um moletom azul de algodão, uma saia plissada até o joelho com estampa de flores vermelhas e meias brancas até o tornozelo.

Yo... – ele imediatamente guardou o isqueiro e o cigarro não usado no maço – Vamos lá?

Depois de uma confirmação de cabeça por parte dela, os dois começaram a andar em confortável silêncio um ao lado do outro. Inuyasha tinha as mãos cruzadas atrás da cabeça, o ar pensativo sobre o que exatamente fazer ou contar para ela.

O que Sesshoumaru está fazendo no escritório num horário desses? – ela cortou o silêncio entre eles.

Olha, Rin... – ele descruzou as mãos e passou a direita no cabelo num gesto nervoso – Ele colocou naquele bilhete que tava tudo bem pra você ir lá quando quisesse, mas eu não recomendo fazer isso agora. Aconteceu uma coisa e ele ficou puto.

O que houve?

Sabe aquela coleção de espadas que era do nosso papai? Uma delas é falsa. O Sesshoumaru deve tá atrás agora do cara que negociou.

Oh... – ela murmurou – É tão importante assim?

Sesshoumaru tem um ciúme dessa coleção. Protege quase da mesma forma que se fosse contigo. – ele deu um sorriso na direção dela – Ainda mais agora com essa pedrona aí na mão.

Ah... – ela corou e ergueu a mão com o anel de casamento, a pedra vermelha brilhando forte – Kagome-sama vai ficar muito feliz.

Vai mesmo. Amanhã provavelmente ela já vai ter até uma lista de convidados e fornecedores pronta. Ela é meio casamenteira, sabe? – ele voltou a cruzar as mãos atrás da cabeça enquanto andava – Vai querer organizar tudo sozinha, cê vai ver.

Andaram sem conversar por mais alguns minutos, subindo as escadas, até alcançarem o andar onde ficava o aposento do jovem casal Akai.

Fica cuidando delas duas e do Shippou, por favor. – ele pediu – E não conta pro Sesshoumaru que eu te vi sem roupa.

Só se você não contar também sobre o "Sess". – ela uniu as mãos como se fizesse uma prece – Eu acho que ele não vai gostar.

Keh! – Inuyasha passou a mão novamente pelo cabelo – Só porque cê tá me pedindo.

De repente, ele franziu a testa e olhou de soslaio como se estivesse olhando para o lado de fora da casa.

Está tudo bem? – ela sussurrou.

São só os cachorros. – ele começou a afastar-se – Tenho que ver uma coisa pro Hashi.

Foi embora quase correndo, pulando o corrimão, e deixou Rin sozinha na frente da porta do quarto. Reprimindo um suspiro cansado, ela ajeitou os ombros e bateu de leve.

Kagome-sama, sou eu.

Ouviu aquela irmã de Kagome falar um "entre" e abriu a porta.


Do alto da mansão Akai, a figura de Hakudoushi observava os portões abertos como havia solicitado. Estava em pé, observando friamente quem quer que chegasse ali naquele momento. Ele sabia que já estavam por perto. Alguns amigos sentiam isso e os anunciavam.

Daquele ponto, alguns latidos e uivos aqui e ali trazidos pelo vento.

Sshh. – ele ordenou e o vento tratou de carregar de volta.

Imediatamente o barulho cessou.

Já tinha um plano. Que viessem e tentassem destruir como destruíram o escritório de Sesshoumaru. Mas toda aquela trama já em andamento há anos, desde que propositalmente colocaram os Higurashi nos calcanhares dos Akai, iria acabar de vez naquela noite.

Olhou a lua totalmente cheia, fechando os olhos para respirar fundo e se concentrar no som ao redor. Uma franja rebelde cobriu os olhos claros.

Houve silêncio até ele ouvir alguém pisando em uma planta.

Os olhos permaneceram escondidos e o rosto parcialmente sombrio até que permitiu o aparecimento de um sorriso, murmurando um "hunf" para ele mesmo.


Próximo capítulo:

"–O meu nome é Akai Hakudoushi. Acho que vocês já ouviram falar de mim."

"–Meus amigos só obedecem aos meus comandos em sueco e alemão."

"–Me diz que cê tá voltando agora pra casa porque o Hakudoushi já ligou o botão do foda-se aqui e não tenho como controlar porra nenhuma agora."

Capítulo 28: O terrível Hakudoushi.