Capítulo 2 . Quem é você?

- Sinceramente, Aluado, desde quando somos respeitáveis? – disse Sirius animado.

- Eu gostaria de dizer que desde sempre – Remus sorriu em resposta.

- Você está andando muito com James – Sirius respondeu.

- Achei que James que estivesse andando muito comigo – disse Remus sorrindo.

- Também, vocês se tornaram dois chatos – resmungou Sirius – Ainda bem que me sobrou o Rabicho, certo Rabicho?

- Com certeza – Peter respondeu como se fosse um soldado.

- Está tarde, Sirius – disse Remus resignado – O toque de recolher já passou há horas, se nos pegam aqui...

- Não tão tarde, caro Aluado – Sirius retrucou – Se você tivesse concordado de ver o sol nascer não teríamos que nos preocupar com o toque de recolher.

Remus iria resmungar, mas um choro baixo o interrompeu, ele acendeu a varinha cegando brevemente Peter e Sirius no processo. Remus apontou a varinha acesa ao longo do corredor buscando a origem do choramingo.

- O que está acon... – começou Peter, mas foi interrompido por Sirius que fez "shiu", enquanto acendia a sua varinha também com um Lumus não verbal.

As duas varinhas iluminavam muito mais e os dois focalizaram ao mesmo tempo uma figura miúda, enrolada como uma bola, no meio do corredor, ao lado da tapeçaria de Griselda, a Feia. Remus se encaminhou até lá, com Sirius há meio passo de distância e Peter um pouco mais atrás. O lobisomem levou um susto quando se deparou com uma criancinha.

Um menininho pequeno de três, quatros anos no máximo, chorava abraçado as suas próprias pernas. Ele segurava alguma coisa na mão tão firmemente que mesmo no escuro Remus podia identificar as juntas dos dedinhos brancas. O menino estava vestido somente com calças de moletom, maiores que ele, pois estavam dobradas na altura do tênis gasto e uma camiseta, comprida, que pendia larga ao redor do corpo magro.

Remus agachou, mantendo a varinha iluminando o menino. Ele sentiu um arfar de Sirius, provavelmente surpreso de ver uma criança daquele tamanho em Hogwarts. Remus pôs a mão no ombro da criança e a sentiu ficar tensa, o choro parando aos poucos.

O menino então olhou para Remus, e o garoto se viu encarando dois olhos verdes manchados de vermelho do choro, as bochechas magras eram marcadas pelo caminho feito pelas lágrimas. Remus teve a sensação esquisita que conhecia aquele garoto, conhecia aqueles olhos de algum lugar que não conseguia se lembrar de onde.

- Olá – disse Remus tremulo – Qual o seu nome?

- Harry – o menino respondeu enquanto limpava as lagrimas com o punho da mão livre – E o seu?

- Remus – disse ele com um sorriso e depois apontando para trás – Estes são Sirius e Peter, meus amigos. O que você está fazendo aqui?

Harry deu de ombros.

- Não sei – ele respondeu com a voz fraquinha.

- Onde estão seus pais? – Remus tentou novamente.

- Morreram – disse o menino dando de ombros novamente – Nunca conheci eles.

Remus gelou, olhando o menino com pena. Ele não sabia o que dizer para ele, então seus olhos desviaram para aquilo que ele vinha segurando. Era um par de óculos, quebrados ao meio. Ele fez a intenção de pegar o objeto do menino, mas Harry não o entregou apertando ainda mais.

- Eu posso arrumar para você – disse Remus carinhoso abrindo a mão – Não vai dar trabalho nenhum.

Harry entregou o objeto quebrado na palma da mão de Remus. Com todo cuidado Remus pôs a varinha e sussurrou: Reparo. As duas partes dos óculos se juntaram, além disso as outras partes que estavam juntas por fita adesiva, se arrumaram corretamente. Os óculos pareciam novos novamente, deixando Harry boquiaberto.

- Como você fez isso? – o menino perguntou deslumbrado enquanto pegava os óculos e punha no rosto. Remus percebeu que os óculos eram grandes demais para o menino e que provavelmente também foram os modelos mais baratos.

- Magia – disse Remus com um sorriso – Ninguém na sua família é mágico? Sabe fazer magia? – Ele perguntou, mas no mesmo instante se bateu mentalmente, se os óculos do menino estavam tão remendados queria dizer que ninguém sabia fazer magia.

- Não – disse o menino balançando a cabeça e fazendo os óculos deslizarem pelo seu rosto - Se fossem, tio Valter não ficaria tão bravo quando eu quebro eles.

Sirius abaixou também para ficar da altura do menino, o observando. Ele também achava que conhecia aquele garoto de algum lugar, embora vasculhasse a sua cabeça e não se lembrasse de nenhuma criança próxima, exceto a filha de Andrômeda, mas ele tinha certeza que era uma menina e não um menino.

O Garoto se retraiu ao toque de Sirius, como se tivesse com medo dele. Sirius ficou lívido de raiva, ele estava vendo manchas rochas sobre as bochechas magras do menino. Ele apenas apontou para a mancha do rosto dele e perguntou com voz rouca.

- Quem te machucou?

Harry deu de ombros, e isso quebrou Sirius. Era como se o menino não se importasse, como se aquilo fosse comum. Devia estar doendo, mas ele não reclamava.

- Eu caí da escada – disse o menino – Duda estava implicando comigo.

- Quem é Duda? – Peter perguntou, ele ainda estava de pé olhando curioso aquela cena.

- Meu primo – disse Harry dando de ombros.

Sirius se virou para Remus que apontava o braço de Harry.

- Aquilo não é uma marca feita por uma criança – disse ele sério.

Sirius olhou para onde Remus apontava, um vergão vermelho estava impresso no braço magrinho de Harry, claramente era possível ver as marcas dos cinco dedos que deviam ter segurando-o com uma força desproporcional a uma criança.

Sirius levou a mão na marca e segurou de leve o braço de Harry, medindo o tamanho dela. Era um pouco maior que sua mão e ele era um adulto, pelos padrões bruxos, há, pelo menos, um ano. O menino estava gelado e contraiu levemente enquanto Sirius o examinava.

- Você está com frio? – perguntou Sirius reparando em quão gelado o menino estava.

Harry assentiu esfregando os punhos nos olhos em sinal de cansaço.

- Não tive tempo de pegar uma blusa.

Sirius tirou a sua capa de Hogwarts e envolveu-a no menino esfregando levemente a extensão dos braços dele a fim de esquentá-lo. Virando-se para Remus perguntou.

- O que vamos fazer?

- Temos que levar ele para um professor – respondeu Peter preocupado.

- Não podemos, McGonagall vai saber que estamos fora da cama depois do toque de recolher. – Respondeu Remus.

- Você é monitor – disse Sirius.

- Não, desde que James virou monitor chefe – negou Remus – E você está por um fio desde o quinto ano. Não podemos dar ao luxo de sermos pegos. Não depois dos últimos ataques, Dumbledore foi claro.

- Certo – disse Sirius – O que vamos fazer então?

Remus olhou para Sirius pensando.

- James e Lily – respondeu Remus – Eles podem falar com McGonagall, fingir que eles o encontraram.

- Certo – disse Sirius – Onde eles estão, Peter?

Peter abriu o mapa vasculhando com os olhos ágeis em busca do casal de monitores.

- Salão Comunal – ele disse – Estão sozinhos.

- Excelente – respondeu Sirius e depois virando para Harry que piscava longamente como se estivesse lutando para não dormir agora que estava aquecido – Venha garotinho, vamos te levar para um lugar seguro.

Harry concordou e deixou Sirius o colocar no colo, deitando a cabeça no ombro do rapaz, ainda protegido pela capa grande e quente. Sirius engoliu o medo novamente, aquela criança era muito leve, muito mais leve do que deveria ser.

Sirius percebeu que o menino imediatamente relaxou em seu colo, ressonado levemente, e ele imaginou que o garoto deveria estar muito cansado. Ele olhou para Remus e viu o amigo mastigando a bochecha provavelmente louco para falar alguma coisa.

- O que foi, Aluado? – disse Sirius baixinho enquanto eles andavam em direção a torre da Grifinória – Consigo ouvir seus pensamentos daqui.

- Este garoto parece com alguém – respondeu Remus – só que não sei quem.

- Ufa – Rabicho suspirou – Achei que era só eu. Ele me dá arrepios.

- Ele só uma criança, Rabicho – bufou Sirius – Uma criança com uma família muito ruim, pelo visto.

- Como ele veio parar aqui? – sussurrou Remus – Ele não pareceu conhecer magia.

- Só Merlim sabe – respondeu Peter.

Eles ficaram quietos, somete os passos dos três ecoando no corredor vazio. Sirius passou a mão nas costas do garotinho, ele havia se apegado ao menino de uma forma muito estranha, quando viu vergões vermelhos e roxos nele, sentiu vontade de bater em quem tinha coragem de ferir uma criança.

- Como você deixou eles saírem, James, já tivemos 4 ataques nos últimos dois meses?

- Eles são adultos, Lily, não havia muito que eu pudesse fazer para impedi-los.

- Você poderia ter desencorajado – resmungou a garota sentando apreensiva olhando fixamente para o buraco do retrato – Eles já deveriam estar de volta.

- Eles estão bem, Lils – o rapaz se levantou da mesa onde estava cercado de pergaminhos com os relatórios de monitoria misturados a esquemas de quadribol – Logo estarão aqui.

- Eu vou matar o Sirius – ela resmungou contrariada – Tenho certeza que isso foi ideia dele.

- Relaxe – disse ele massageando os ombros de Lily – Se algo aconteceu eu vou saber.

Lily se virou para ele com a pergunta na ponta da língua e a curiosidade estampada no rosto. Mas não teve tempo de se pronunciar. Pois o quadro girou, revelando a luz pálida do corredor e os três meninos chegaram.

- Graças a Merlim, onde vocês estavam? – disse Lily se levantando ansiosa.

- Achei que voltariam mais tarde – disse James voltando para a sua mesa.

- Shiu – sussurrou Sirius colocando Harry no sofá. Assustando James que ficou encarando o amigo e Lily que olhou curiosa para o que Sirius depositava no sofá.

- O que é isso? – disse Lily exasperada, depois do olhar mortífero de Sirius passou a sussurrar – É uma criança?

Lily se aproximou do sofá tentando ver o garotinho embrulhado na capa de Sirius. Sirius continuava perto dele, retirando os óculos do menino e colocando-os na mesa de centro.

- Achamos ele no corredor do quinto andar, sozinho – disse Remus sentando na poltrona olhando firmemente para Harry.

Lily se aproximou do menino curiosa e sentou no sofá, ao lado da onde a cabeça dele repousava ela passou a mão pelos cabelos negros, o menino se revirou, tentando ficar mais confortável, ainda dormindo, revelando o rosto sereno, marcado pelo hematoma na sua bochecha e uma cicatriz na testa.

- Ele pode ser irmão de alguém – disse Lily olhando para ele com a testa franzida. – Ou filho. Ele parece conhecido - Sirius concordou antes de ir se sentar no braço do sofá. Olhando intensamente para o menino – Qual o nome dele? – continuou Lily.

- Harry – respondeu Peter que havia sentado em outra poltrona – Pelo menos foi o nome que ele nos disse.

- Nenhum sobrenome? – Questionou James curioso, ele havia se instalado no outro braço do sofá ao lado de Lily.

- Não perguntamos – respondeu Remus.

- Alguém machucou ele? – disse Lily passando a mão levemente pela bochecha do garoto.

- Ele disse que caiu da escada – disse Remus – Ele estava brigando com o primo dele ou algo do gênero.

- Mas alguém bateu nele – disse Sirius – Algum adulto. Não gosto como ele falou que o tio ficaria bravo pelos óculos quebrados.

- Talvez eles sejam pobres – disse Remus dando de ombros – As roupas dele são maiores que deveriam e as armações são baratas e estavam remendadas.

- Mas as roupas são de marcas caras – disse Lily olhando para a etiqueta que vazava através da gola do menino – é obvio que este menino é negligenciado. Olha como é magro.

- Também acho – disse Sirius olhando para o menino – Ele estava com medo da gente, quando chegamos, e com frio.

Lily continuou olhando para o menino com a testa franzida. Enquanto os três discutiam o que fariam com o menino.

- Pensamos em avisar McGonagall ou Dumbledore. Um de vocês dois, mais precisamente, já que Sirius, eu e Peter ainda estamos em maus lençóis.

- Vocês não deveriam nem ter saído tão tarde – sua bronca perdendo boa parte do efeito já que ela sussurrou para não acordar o menino que ela agora acariciava.

- Dumbledore está fora – disse James

- Como assim está fora? – perguntou Sirius em um sussurro – Ele é louco? No meio destes ataques.

- A escola não está desprotegida – respondeu James dando de ombros – Encontrei com Alastor Moody, o Auror que capturou Rebastian Lestrange, sabem?

- O que não adiantou muito já que o irmãozinho dele o livrou de Azkaban – Sirius resmungou.

- Não importa, o cara é uma lenda - disse James – O melhor Auror dos últimos tempos. Ele me disse que Dumbledore não estava, que ele tinha algo melhor que ouvir aluninhos como eu. Mesmo eu dizendo que era monitor chefe, ele só me encarou e mandou tirar varinha do bolso de trás da calça e voltar para a sala comunal.

- Isso por que o cara é uma lenda – riu Peter, mas ninguém riu junto.

- McGonagall então? – questionou Remus.

- A gente não vai entregar ele – disse Lily carinhosa olhando para Harry e passando a mão no rostinho dele – Não se a família dele o trata desta maneira.

- Lily – James disse em um suspiro – Não podemos ficar com ele. Temos que entregá-lo para alguém. Ele deve ter uma família... ele tem uma família.

- Uma família que bate nele – disse ela brava – Olha para ele, James, ele tem duas cicatrizes no rosto e isso foi o que eu consegui contar. Você ouviu Sirius, ele tem medo. E olha como ele é magrinho, e se estiverem deixando ele passar fome.

- Eu era magro assim na idade dele, Lily – disse James calmamente – E minha mãe nunca me deixou com fome, muito pelo contrário. Tem crianças que simplesmente são magras.

Lily olhou para James analisando-o. De fato James parecia que nunca tinha ficando com fome na vida. Ele realmente era magro, sempre fora, mas tinha aquele ar saldável e aquele brilho de que fora muito amado. Mas o menino não, não havia aquela calma de quando dormimos e sabemos que estamos seguros. Lily podia ver uma ruguinha entre as sobrancelhas dele, o maxilar mais trincado, e ele dava algumas mexidinhas durante o sono, sempre inquieto.

Ela olhou de novo para James e viu nele, largado no braço do sofá, o retrato da calma e da segurança, provavelmente achando que havia vencido Lily com seu último argumento. Não era por isso que ele fora o maior desordeiro de Hogwarts, justamente por achar que era intocável, que sempre daria tudo certo?

Tão parecidos e tão diferentes, pensou Lily. Peraí, parecidos? Lily observou novamente o menino. Os cabelos pretos eram idênticos aos de Potter, se levantando na parte de trás como o do menino mais velho, tinham inclusive a mesma espessura e cor. O rosto de Harry era mais arredondado, mais infantil que de James, mas a boca fina era incrivelmente parecida, além disso Harry era magro, como James havia dito que ele era nesta idade.

- James, você tem uma foto de você com a idade dele? – perguntou Lily intrigada.

- Acho que sim. Por que? – disse James confuso – Você não acredita que eu era magro?

- Não é isso – Lily mordeu o lábio em sinal de temeridade – Mas você não acha que o menino parece muito com você?

- Logico que não – respondeu James na lata – Não tenho parentes, fora meus pais.

- Mas ele parece – disse Sirius – Não tinha percebido, mas olhando agora... Ele tem seu cabelo, companheiro.

- Muita gente tem cabelo preto – resmungou James.

- Não parecendo um ninho de Occamis – disse Remus balançando a cabeça – Eles têm razão, o menino parece com você.

- Parece mesmo – concordou Peter.

- Vocês estão loucos – disse James negando.

- Ele até dorme na mesma posição que você – Lily disse irritada.

- E como você sabe a posição que James dorme, Lily? – Sirius questionou malicioso.

- Não te interessa, Sirius – Lily resmungou – A foto, James.

- Não tem como esta criança ser minha parente, vocês estão malucos – disse James resmungando enquanto subia as escadas.

- Será que... – começou Sirius, mas Remus o interrompeu negando.

- Não tem como, o garoto tem o que, quatro, três anos?

- Está mais para quatro – disse Lily olhando para o menino adormecido.

- James teria doze anos então, nós sabemos como ele era aos doze.

- Certo – disse Sirius concordado – Mas o garoto é assustadoramente parecido com ele. Depois que você vê, não tem como não desver.

- Exceto os olhos – disse Remus – Ele não tem olhos castanhos, são verdes.

- De óculos ele deve ficar ainda mais parecido – disse Lily estudando os óculos do menino que estavam pousados na mesinha de centro.

Sirius concordou pensativo, olhando para o menino dormindo pesadamente. James desceu a escada sonoramente com uma foto nas mãos e a entregou emburrado para Lily.

A garota viu um menininho encarapitado em um senhor, já com cabelos brancos. O garotinho parecia tentar escalar o pai para pegar um pomo de ouro que voava preguiçosamente uns trinta centímetros acima. O pequeno James pagava o pomo e olhava para a câmera rindo, um dos dentes faltava e os óculos estavam caindo do rosto. Era idêntico ao menino que dormia ao lado de LIly.

- Céus – disse Remus olhando para a foto.

- Como pode? – disse James cruzando os braços – Eu não tenho parentes vivos, não que eu saiba e ele não pode ser meu...

- Nós sabemos disso – disse Sirius – Mas Pontas, é inegável, ele é sua cara.

- Eu percebi – James resmungou.

- Pode ser coincidência – disse Sirius olhando da foto para o menino e vice versa – Ele não sabe nada sobre magia, Pontas tem uma família tão antiga quanto a minha.

- Poderia ser um primo seu distante – disse Lily avaliando o garotinho que se mexeu incomodado – Você deve ter primos distantes.

- Tenho – James disse hesitante – Mas minha família é cheia de sangues puros, não tem um que eu não conheça. E definitivamente eu não conheço ele.

Como se invocado pelas palavras de James o garotinho acordou piscando os olhos confusamente tentando avaliar onde estava, ele encontrou o rosto de Sirius e deu um sorriso tímido para o menino. Os pelos dos braços de Sirius se arrepiaram todos, se Lily não houvesse revelado a semelhança do garotinho com seu melhor amigo, Sirius teria visto neste momento. O sorriso de Harry era o mesmo de James, igualzinho.

- Olá, pequenino – disse Lily chamado a atenção do menino para ela – Sou Lily, tudo bem?

O menino concordou olhando para ela com curiosidade. Nunca tinha visto moça tão bonita, os cabelos eram vermelhos escuro e os olhos pareciam ser verdes, não dava para ver direito, pois estava escuro e ele estava sem óculos. Ela sorria bondosamente para ele.

- Você sabe onde estamos, Harry? – Lily continuou questionando. Ela se ajoelhou no chão para ficar na mesma altura dos olhos do menino.

Harry negou.

- Aqui é a escola de magia e bruxaria de Hogwarts – Lily continuou no mesmo tom – Já ouviu falar nela?

- Não – Harry respondeu sacodindo a cabeça em um sinal negativo.

- Certo – Lily sorriu para ele como se ele tivesse acertado várias questões em uma prova – Onde estão seus pais, querido?

- Morreram – disse Harry abaixando a cabeça – Quando eu era pequenininho.

- Você ainda é pequeno, companheiro – disse Sirius com um sorriso, tentando animar o garoto.

- Você não conheceu seus pais? – disse Lily levantando a cabeça do garoto delicadamente.

Ele fez novamente um sinal negativo com a cabeça.

- E você mora com quem? – Lily continuou calmamente – Quem cuida de você?

- Meus tios – disse Harry.

- E qual o nome dos seus tios, querido?

- Tia Petúnia e tio Valter – o menino respondeu rapidamente.

Lily soltou o rosto do menino sentindo a mão tremer. Era muita coincidência, só poderia ser coincidência.

- Como eles são? – ela sussurrou

- Tio Valter é gordo e tem um bigodão e tia Petúnia é magra e tem cara de cavalo – disse o menino e depois se arrependendo pondo a mão na boca assustado. Os rapazes em volta riram e Harry disse com a voz abafada por estar com a mão na boca – Não conte para eles que eu disse isso.

- Não vou contar. – Ela deu um sorriso cumplice - E você sabe o sobrenome deles, Harry? – Lily disse baixo, olhando para os olhos do menino.

- Dursley – disse o menino orgulhoso de si mesmo.

Lily levantou em um pulo, gelada, e deu as cotas para o garoto que lhe olhava confuso. A menina tremia nervosa, não podia ser coincidência. James levantou e ficou ao lado dela, os olhos questionando-a. Lily negou com a cabeça e saiu em disparada pela escada que levava ao dormitório feminino.

- Eu falei alguma coisa errada? – disse Harry triste – A moça bonita esta brava comigo?

- Não, Harry – disse Remus negando – Ela deve ter pensado em alguma maneira de te levar para casa.

Harry assentiu ficando meio triste, quando eles ouviram Lily voltar pela escada. O brilho nos olhos de Harry aumentou ao ver a garota. Ela estava com uma fotografia nas mãos e Harry a encarou curioso. Lily sentou no sofá do lado de Harry e o colocou em seu colo, acariciando levemente os cabelos dele, pegou os óculos do menino e pôs no rostinho dele carinhosamente. Acendeu a varinha enquanto estendia a fotografia e para que somente Harry pudesse ver e disse, mais calma do que realmente estava:

- Você sabe dizer se sua tia se parece com esta moça? – Lily lhe entregou a foto apontando para uma garota loira.

Harry analisou a foto, deixando a cabeça levemente tombada, Lily estremeceu reconhecendo aquele gesto. Então o menino sorriu e disse:

- É a tia Petúnia. Você conhece minha tia?

Lily recolheu a foto e aproveitou a luz da varinha para avaliar melhor o rosto do menino, dois olhos extremamente verdes a encararam, inconfundíveis. Lily abraçou o menino e sussurrou.

- Eu conheço sua tia.

A sala ficou em um silencio espantado, James olhava dela para o menino tentando compreender o que ela tinha dito era o que ele tinha ouvido. Sirius olhava de um para outro espantado enquanto Remus e Peter encaravam Lily.

- Você é minha parente? – disse Harry animado – Eu posso morar aqui com vocês?

- É muito ruim na sua casa? – perguntou Lily enquanto embalava o menino.

- Um pouco – o menininho deu de ombros – Tio Valter não me deixa ver TV e tia Petúnia jogou todos os brinquedos velhos de Duda fora, então eu fiquei sem nenhum, nem os que estavam no meu armário sobreviveram – o menino tagarelou – Duda me bate, mas só quando não consigo fugir. E eu sempre consigo fugir, eu sou bem rápido.

- É mesmo? – a voz de Lily parecia carinhosa, mas quem a conhecia sabia reconhecer que ela estava com raiva muita raiva.

- Sim – Harry respondeu ainda mais animado – Sabia que hoje foi a primeira vez que eu fiz aniversário?

- Como assim? – Lily perguntou olhando para o menino – Quantos anos você tem?

- Cinco – ele respondeu levantando a mãozinha com os cinco dedos abertos – Duda faz aniversário, mas eu nunca faço. Ele ganha um montão de presente e sempre tem bolo. Mas hoje uma moça chegou e disse que era meu aniversário também, não tinha bolo, mas ela me deu um presente. Quer ver?

- Claro que quero – Lily sorriu carinhosa.

O garoto pegou o cordãozinho que estava pendurado em se pescoço e ofereceu a Lily que pegou com uma das mãos.

- Mas eu quebrei – disse Harry ficando triste – Ele girava e, depois que eu caí da escada, ele parou de girar.

- E você chegou aqui... – sussurrou Lily admirando o objeto.

- Sim – sorriu Harry em resposta antes de dar um bocejo – Você é muito esperta, Lily.

- Você também, Harry – Lily sorriu carinhosa – E, como todo garotinho esperto, você deveria voltar a dormir, esta tarde e eu prometo que não vamos te acordar de novo.

- Não quero dormir – disse Harry dando mais um bocejo preguiçoso.

- Por que não? – Lily começou a embala-lo calmamente.

- Porque isso é um sonho e sonhos acabam quando a gente acorda – disse Harry.

- Não é um sonho, querido. Durma, eu vou estar aqui quando você acordar.

- Promete.

- Prometo.

O garoto sorriu e fechou os olhos se acomodando. Lily sentiu a respiração dele se acalmando e o corpinho ficando mais relaxado em seu colo.

- Harry – ela não se aguentou e sussurrou, o menino fez um muxoxo, mas provou eu ainda estava acordado – Qual o seu nome inteiro?

- Harry James Potter – ele disse em um fiapo de voz, de alguém que já estava quase dormindo.

- Imaginei que fosse – disse Lily lhe dando um beijo no alto da testa. Ela continuou embalando, sussurrando uma cantiga trouxa, até que sentisse que ele estava dormindo. Lily retirou novamente os óculos dele, os pondo no braço do sofá, enquanto deixava as lagrimas rolarem por seu rosto.

- O que foi isso? – disse Sirius a encarando.

- Shiu – disse Lily.

Sirius baixou a voz e repetiu a pergunta.

- Você conhece a família dele, Lily? – foi a vez de Remus de questionar em voz baixa.

Lily fez um sinal positivo, não parando de sussurrar a canção de ninar.

- Da onde você os conhece? São trouxas? – continuou Remus.

Lily não respondeu.

- Não podem ser trouxas, como ele pararia aqui? – disse Sirius.

Novamente sem resposta dela.

- Quem ele é, Lily? – disse James com a voz empostada. Ela não fez nenhuma menção de responder e James trincou o maxilar nervoso e, com mais calma do que de fato tinha, ele continuou – Lily, por favor.

James, que estava mais perto de Lily do que seus amigos, havia ouvido a conversa em sussurros dela com o garoto, mas se recusava a acreditar no que tinha ouvido.

- Harry é meu filho – ela sussurrou olhando carinhosamente para o garoto, quando levantou a cabeça para olhar para os colegas viu o choque estampado na cara de cada um, olhando diretamente para James reconheceu nele um olhar de medo e dúvida. Sabendo exatamente do que ele estava duvidando, ela se corrigiu olhando diretamente para ele – Bem, não só meu. Nosso, ao que parece.