Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean. À mim, cabe apenas a adaptação.
CAPÍTULO TRÊS
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"Infelizmente, tenho planos para você, Isabella, e você não vai a lugar algum esta noite."
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Caro E,
Um presente! Que extravagante. A escola certamente o está transformando em um belo homem. No ano passado, você me deu um pedaço meio comido de pão de mel. Ficarei muito empolgada de ver o que planejou. Suponho que isso queira dizer que terei igualmente de encontrar um presente para você.
Até breve, I.
Solar Swan, novembro de 1813
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Cara I,
Aquele era um excelente pão de mel. Devia ter desconfiado que você não saberia reconhecer minimamente minha generosidade. O que aconteceu com a intenção e o quanto ela vale?
Será bom estar em casa. Sinto falta de Surrey. E de você, Seis Cents* (embora doa admitir isso).
E.
Eton College, novembro de 1813
*Seis Cents: No original, o nome da protagonista é Penélope, consequentemente chamada de Penny. Edward (Michael) chama ela de "seis cents" fazendo uma alusão ao dinheiro, dizendo que ela vale mais do que um "penny".
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Fuja!
A palavra ecoou através dela como se tivesse sido berrada na noite, mas as pernas de Isabella pareciam incapazes de seguir o comando. Em vez disso, ela se agachou, escondendo-se atrás dos arbustos e desejando ardentemente que o homem não a visse. Ouvindo seus passos sobre a neve próxima, ela seguiu ao longo da cerca viva na direção do lago, preparando-se para disparar para longe dele quando pisou na barra da capa, perdeu o equilíbrio e caiu em cheio sobre o arbusto de azevinho. Que era cheio de espinhos.
"Uf!" Estendeu uma das mãos para evitar se enroscar na planta daninha, mas acabou sendo atingida por um galho seco. Mordeu o lábio e paralisou quando os passos pararam.
Bella prendeu a respiração. Talvez ele não a tivesse visto. Afinal, estava muito escuro. Se ao menos ela não estivesse segurando uma lanterna. Ela atirou a luz dentro do arbusto. Não ajudou, uma vez que ela foi quase que instantaneamente inundada por uma diferente fonte de luz. A dele... Que deu um passo em sua direção... Ela se jogou ainda mais para dentro do arbusto, considerando as folhas afiadas preferíveis ao vulto sombrio.
"Olá."
Ele parou, mas não respondeu, e os dois permaneceram em um longo e insuportável silêncio. O coração de Bella batia forte, a única parte de seu corpo que parecia se lembrar de como se mover. Quando não conseguiu suportar mais o silêncio, falou de onde estava, desequilibrada sobre um arbusto de azevinho, tentando utilizar seu tom mais firme.
"Você está invadindo uma propriedade particular."
"Estou?" Para um ladrão, ele tinha uma voz boa. Saía do fundo de seu peito, fazendo-a pensar em penas de ganso e conhaque quente. Ela sacudiu a cabeça diante do pensamento, evidentemente produto do frio que pregava peças em sua mente.
"Sim... Está. A casa ao longe é o Solar Falconwell, propriedade do marquês de Cullen."
Passou-se um instante.
"Impressionante...", disse o invasor, e ela teve a nítida sensação de que ele não estava nem um pouco impressionado.
Ela tentou se levantar com altivez mas fracassou duas vezes. Na terceira tentativa, passou as mãos nas saias e disse:
"É... bastante impressionante, e posso lhe garantir que o marquês não gostará nada de saber que você está" – ela acenou a mão com a luva no ar – "fazendo o que quer que esteja fazendo... em suas terras."
"É mesmo?" O ladrão pareceu despreocupado, baixando a lanterna, deixando sua metade superior na sombra e seguindo em frente.
"Sim." Isabella endireitou os ombros. "E vou lhe dar um conselho: não é bom brincar com ele."
"Parece que você e o marquês são muito próximos."
Ela levantou a lanterna e começou a se afastar.
"Ah, sim. Somos bastante próximos. Muito próximos, inclusive."
Não era exatamente uma mentira. Os dois haviam sido próximos quando usavam calças curtas.
"Eu acho que não", ele disse, com a voz baixa e ameaçadora. "Na realidade, não creio que o marquês esteja em qualquer lugar perto daqui. Não creio que qualquer pessoa esteja perto daqui."
Ela parou diante da ameaça nas palavras dele, como um cervo hesitando diante do avanço de um rifle, e pensou em suas alternativas.
"Eu não correria se fosse você", ele continuou, lendo sua mente. "Está escuro, e a neve está alta. Você não iria muito longe sem..."
Ele parou de falar, mas ela sabia o final da frase. Sem que ele a pegasse e matasse. Bella fechou os olhos. Quando havia dito que queria mais, não era isso o que estava planejando. Ela ia morrer ali, na neve, e seria encontrada apenas na primavera. Isso se seu cadáver não fosse levado embora por lobos famintos. Ela precisava fazer alguma coisa. Abriu os olhos e o encontrou muito mais perto.
"Patife! Não se aproxime mais! Eu..." Ela se debateu em busca de uma ameaça decente. "Eu estou armada!"
Ele ficou impassível.
"Pretende me sufocar com sua pele?"
"O senhor não é um cavalheiro."
"Ah... Finalmente uma verdade."
Ela deu mais um passo para trás.
"Vou para casa."
"Acho que não, Isabella."
O coração dela parou diante do som de seu nome, e recomeçou a bater tão forte no peito, que ela teve certeza de que aquele... aquele... canalha conseguiria escutar.
"Como sabe meu nome?"
"Eu sei muitas coisas..."
"Quem é você?" Ela levantou a lanterna, como se assim pudesse espantar o perigo, e ele deu um passo para o clarão.
Ele não se parecia com um ladrão. Ele parecia... conhecido. Havia alguma coisa lá, nos ângulos bonitos e nas sombras profundas e incômodas, as maçãs do rosto marcadas, a linha reta dos lábios, o maxilar delineado – precisando ser barbeado. Sim, havia alguma coisa ali – um pequeno sinal de reconhecimento. Ele estava usando um chapéu listrado coberto de neve, cuja aba escondia seus olhos, e eles eram a peça que faltava. Ela jamais saberia de onde veio o instinto – talvez de um desejo de descobrir a identidade do homem que poria fim a seus dias –, mas não conseguiu evitar de estender a mão e afastar o chapéu do rosto dele para ver seus olhos. Apenas mais tarde ocorreu-lhe que ele não tentou impedi-la.
Seus olhos eram verdes-claros, um mosaico de mel, verde e cinza emoldurados por cílios longos e escuros, salpicados de neve. Ela os teria reconhecido em qualquer lugar, ainda que estivessem muito mais sérios agora do que ela jamais os tinha visto antes. Foi tomada pelo choque, seguido de uma intensa corrente de felicidade. Não era um ladrão.
"Edward?" Ele ficou tenso ao som do próprio nome, mas ela não se preocupou em imaginar por quê.
Estendeu a palma da mão contra o rosto frio dele – um gesto que a deixaria encantada mais tarde – e riu, num som abafado pela neve caindo ao redor.
"É você, não é?"
Ele levantou o braço, puxando a mão dela de seu rosto. Não estava usando luvas, mas, ainda assim, sua mão estava quente. E nem um pouco pegajosa. Antes que ela pudesse impedi-lo, ele a puxou em sua direção, baixando o capuz de sua cabeça, expondo-a à neve e à luz. Por um longo momento, o olhar dele percorreu seu rosto, e ela se esqueceu de sentir-se desconfortável.
"Você cresceu."
Ela não conseguiu se conter. Riu novamente.
"É você! Seu monstro! Você me assustou. Fingiu não me conhecer... Por onde você...? Quando você...?" Ela sacudiu a cabeça, o sorriso abrindo em seu rosto. "Eu não sei nem por onde começar..."
Ela sorriu para ele, observando-o atentamente. Da última vez em que o tinha visto, ele era alguns centímetros mais alto do que ela, um garoto desengonçado, com os braços e pernas compridos demais para o próprio corpo. Mas não era mais... Esse Edward era um homem, alto e magro. E muito, muito bonito. Ela ainda não acreditava muito bem que fosse ele.
"Edward..."
Ele olhou-a de frente, e ela foi tomada por uma onda de prazer como se o olhar fosse um toque físico, aquecendo-a, pegando-a desprevenida antes da aba do chapéu cobrir os olhos dele mais uma vez e ela preencher o silêncio com suas próprias palavras.
"O que está fazendo aqui?"
Os lábios de linha reta perfeita dele não se moveram. Houve uma longa pausa, durante a qual ela foi consumida pelo calor dele. Pela felicidade de vê-lo. Não importava que fosse tarde e estivesse escuro e ele não parecesse nem de perto tão feliz por vê-la.
"Por que você está perambulando na escuridão, na calada da noite, no meio do nada, Isabella?"
Ele evitou sua pergunta, sim, mas Isabella não se importava.
"Não é o meio do nada. Estamos a menos de um quilômetro das nossas casas."
"Você poderia ter sido atacada por um assaltante, ou um raptor, ou..."
"Um pirata, ou um urso... Já pensei em todas as alternativas."
O Edward que ela conheceu um dia teria sorrido. Esse não sorriu.
"Não há ursos em Surrey."
"Piratas também seriam uma surpresa, não acha?"
Nenhuma resposta. Ela tentou despertar o velho Edward. Atraí-lo.
"Eu preferiria um velho amigo a um pirata ou um urso em qualquer momento, Edward."
A neve remexeu sob os pés dele e quando ele falou, seu tom de voz foi áspero:
"Cullen."
"O que?"
"Me chame de Cullen."
Ela foi tomada por choque e constrangimento. Ele era um marquês, é verdade, mas ela jamais imaginaria que ele seria tão firme em relação ao próprio título... eles eram amigos de infância, afinal. Ela limpou a garganta.
"É claro, Lorde Cullen."
"Não o título, apenas o nome. Cullen."
Ela engoliu a própria confusão.
"Cullen?"
Ele assentiu levemente com a cabeça, de modo quase imperceptível.
"Vou perguntar mais uma vez. Por que você está aqui?"
Ela não pensou em ignorar a pergunta.
"Vi sua lanterna e vim investigar."
"Você veio, no meio da noite, investigar uma luz estranha entre às árvores de uma casa que está desabitada há dezesseis anos."
"Só está desabitada há nove anos."
Ele fez uma pausa.
"Não me lembro de você ser tão irritante."
"Então não se lembra muito bem de mim. Eu era uma criança irritante."
"Não era, não. Você era muito séria."
Ela sorriu.
"Então você se lembra... Você estava sempre tentando me fazer rir. Estou simplesmente devolvendo o favor. Está funcionando?"
"Não."
Ela levantou a lanterna para o alto, e ele lhe permitiu tirá-lo das sombras, lançando uma luz quente e dourada sobre seu rosto. O tempo havia feito maravilhosamente bem a ele, deixando-o com braços e pernas longos e um rosto anguloso. Isabella sempre imaginou que ele ficaria bonito, mas ele estava mais do que bonito agora... Ele estava lindo. A não ser pela sombra que permanecia apesar do brilho da lanterna – algo perigoso no formato de seu maxilar, na tensão de sua testa, nos olhos que pareciam ter esquecido a alegria, nos lábios que aparentavam ter perdido a capacidade de sorrir. Ele tinha uma covinha quando criança, que se exibia frequentemente e era quase sempre precursora de uma aventura. Ela procurou na bochecha esquerda a reentrância reveladora. Não a encontrou. De fato, por mais que Isabella procurasse naquele rosto novo e duro, não parecia encontrar o garoto que um dia havia conhecido. Não fossem os olhos, ela não acreditaria que se tratava dele.
"Que triste", ela sussurrou para si mesma.
Ele escutou.
"O quê?"
Ela sacudiu a cabeça, olhando-o nos olhos, a única coisa familiar nele.
"Ele se foi..."
"Quem?"
"Meu amigo."
Ela não achava que fosse possível, mas a expressão dele endureceu ainda mais, tornando-se mais rígida e mais perigosa nas sombras. Por um instante, ela pensou que talvez tivesse ido longe demais. Ele permaneceu imóvel, observando-a com aquele olhar sombrio que parecia ver tudo. Todos seus instintos lhe diziam para ir embora rapidamente e não voltar nunca mais. Ainda assim, ela permaneceu.
"Por quanto tempo ficará em Surrey?"
Ele não respondeu. Ela deu um passo na direção dele, sabendo que não deveria.
"Não há nada dentro da casa."
Ele a ignorou e ela continuou.
"Onde você está dormindo?"
Uma sobrancelha escura maliciosa se ergueu.
"Por quê? Está me convidando para a sua cama?"
As palavras a feriram com a grosseria deixando Isabella tensa, como se tivesse recebido uma agressão física. Ela esperou por um instante, certa de que ele se desculparia. Silêncio.
"Você mudou..."
"Talvez você devesse se lembrar disso da próxima vez que decidir sair para uma aventura no meio da noite."
Ele não era nada parecido com o Edward que ela conhecia. Isabella deu meia-volta, seguindo para a escuridão, em direção ao local onde ficava o Solar Swan. Tinha andado apenas alguns metros quando se virou novamente para encará-lo. Ele não havia saído do lugar.
"Eu tinha ficado realmente feliz em vê-lo." Ela se virou e seguiu em frente, de volta para casa, sentindo o frio penetrar fundo em seus ossos, antes de se virar, sem conseguir resistir a uma farpa final. Algo para feri-lo como ele a havia ferido. "E Edward?"
Ela não conseguia ver seus olhos, mas sabia que inegavelmente ele a estava observando. Ouvindo...
"Você está nas minhas terras."
Ela se arrependeu das palavras no instante em que as pronunciou, produto de frustração e irritação, permeadas por uma dose de provocação mais adequada a uma criança maldosa do que a uma mulher de 28 anos de idade. Arrependeu-se delas ainda mais quando ele disparou em sua direção, como um lobo da noite.
"Suas terras?"
As palavras saíram sombrias e ameaçadoras. Ela recuou instantaneamente.
"S-sim."
Ela jamais deveria ter saído de casa.
"Você e seu pai pensam em conseguir um marido para você com as minhas terras?"
Ele sabia. Ela ignorou a pontada de tristeza que veio com a percepção de que ele estava ali por Falconwell. E não por ela. Ele continuou se aproximando, mais e mais perto, e Bella ficou com a respiração presa na garganta enquanto se afastava, tentando manter o ritmo com os passos largos dele. Sem conseguir, sacudiu a cabeça. Ela devia negar as palavras, devia apressar-se a reconfortá-lo e tranquilizar aquela imensa fera que a perseguia pela neve. Mas não negou... Ela estava com muita raiva.
"Não são suas. Você as perdeu e eu já consegui um marido." Ele não precisava saber que ela não havia aceitado o pedido de casamento.
Ele fez uma pausa.
"Você está casada?"
Ela sacudiu a cabeça, afastando-se rapidamente, aproveitando a oportunidade para aumentar a distância entre eles, enquanto lançava suas palavras a ele.
"Não, mas estarei... muito em breve. E nós viveremos muito felizes aqui, em nossas terras."
Qual era o problema com ela? As palavras foram ditas, rápidas e impetuosas, e não podiam ser retiradas. Ele avançou novamente, dessa vez, totalmente focado.
"Todos os homens de Londres querem Falconwell, se não pelas terras, para se exibirem para mim.", ele disse.
Se ela se movesse mais depressa, cairia na neve, mas valia a tentativa, porque sentia-se subitamente muito nervosa sobre o que aconteceria caso ele a apanhasse. Ela tropeçou numa raiz de árvore escondida, caindo de costas com um gritinho, e ela abriu os braços completamente, derrubando a lanterna, em uma atrapalhada tentativa de se reequilibrar. Ele chegou antes dela à lanterna, com as mãos grandes e fortes segurando seus braços, pegando-a, levantando-a, pressionando suas costas contra um grande carvalho e, antes que ela conseguisse ficar em pé novamente para fugir, prendendo-a entre o tronco e seus braços.
O garoto de que ela se lembrava não existia mais e não era possível brincar com o homem que tinha assumido seu lugar. Ele estava muito perto. Perto demais, inclinando-se para frente, baixando o tom de voz a um sussurro, o sopro de suas palavras contra o arco do rosto de Isabella aumentando o nervosismo dela. Ela não respirava, focada demais no calor dele, no que ele diria a seguir.
"Eles se casarão inclusive com uma solteirona velha para consegui-las."
Ela o odiou naquele momento. Odiou as palavras, a forma como ele as pronunciou com tamanha crueldade. Lágrimas ameaçaram encher seus olhos. Não! Não! Ela não ia chorar! Não por aquele bruto que não tinha nada a ver com o menino que ela conheceu um dia. O menino que ela sonhou que um dia iria voltar. Não daquela maneira.
Ela lançou-se contra ele mais uma vez, agora irritada, desesperada por se libertar. Ele era muito mais forte do que ela e recusava-se a soltá-la, pressionando-a contra o carvalho, inclinando-se para frente até estar perto – perto demais. Ela foi tomada pelo medo, seguido da rápida e abençoada raiva.
"Solte-me."
Ele não se moveu. Na verdade, por um longo momento, Isabella pensou que ele não a havia escutado.
"Não."
A recusa foi sem qualquer emoção. Ela se debateu novamente, chutando, batendo com uma bota na canela dele, com força suficiente para arrancar um resmungo bastante satisfatório.
"Diabos!", ela gritou, sabendo que damas não praguejavam, e que ela provavelmente passaria uma eternidade no purgatório pela transgressão, mas sem saber de que outra forma poderia se comunicar com aquele estranho embrutecido. "O que vai fazer? Vai me deixar aqui na neve para morrer de frio?"
"Não." A resposta foi dita em tom baixo e sombrio no ouvido dela, enquanto ele a segurava com facilidade.
Ela não desistiu.
"Vai me raptar, então? Pedir Falconwell como resgate?"
"Não, embora essa não seja uma ideia tão terrível." Ele estava tão perto, que ela conseguia sentir seu cheiro, bergamota e cedro, e Bella fez uma pausa diante da sensação do hálito dele roçando a pele de seu rosto. "Mas tenho algo muito pior em mente."
Ela paralisou. Ele não iria matá-la. Afinal, os dois haviam sido amigos um dia, muito tempo atrás, antes dele se tornar tão bonito como o diabo e duas vezes mais frio. Não... Ele não iria matá-la. Iria?
"O... o quê?"
Ele deslizou a ponta de um dedo pela longa coluna do pescoço dela, deixando um rastro de fogo em seu caminho. A respiração de Bella prendeu na garganta com aquele toque... um calor malicioso e uma sensação quase insuportável.
"Você tem as minhas terras, Isabella", ele sussurrou em seu ouvido, com a voz baixa, clara e completamente perturbadora, ao mesmo tempo em que a fazia sentir espirais de ansiedade, "e eu as quero de volta."
Ela não devia ter saído de casa naquela noite. Se sobrevivesse àquilo, jamais deixaria a casa novamente. Ela sacudiu a cabeça, com os olhos fechados enquanto ele provocava o caos em seus sentidos.
"Não posso dá-las a você."
Ele passou a mão pelo braço dela em uma longa e deliciosa carícia, segurando-lhe o pulso em sua garra firme e quente.
"Não, mas eu posso pegá-las."
Ela arregalou os olhos.
"O que isso quer dizer?"
"Quer dizer, minha querida" – a ternura era irônica – "que iremos nos casar."
Ela foi dominada pelo choque quando ele a levantou, atirou-a sobre o ombro e seguiu para o meio das árvores, na direção do Solar Falconwell.
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Caro I,
Não posso acreditar que não tenha me contado que foi nomeado presidente da turma e que eu tenha ficado sabendo disso por sua mãe (que está de fato muito orgulhosa). Estou chocada e estarrecida que não tenha dividido isso comigo... e nem um pouco impressionada que tenha conseguido não contar vantagem a respeito.
Deve haver muitas coisas que não tenha me contado sobre a escola. Estou esperando.
Sempre paciente, I.
Solar Swan, fevereiro de 1814
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Cara I,
Infelizmente, creio que ser presidente da turma não seja um grande título quando se está no primeiro ano. Ainda estou sujeito aos caprichos dos garotos mais velhos quando não estamos em aula. Não tema – quando for nomeado presidente da turma no ano que vem, irei contar vantagem desavergonhadamente.
Há, sim, muitas coisas a contar... mas não para garotas.
E.
Eton College, fevereiro de 1814
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Cullen tinha imaginado meia dúzia de cenários que terminavam com ele atraindo Isabella para longe do pai e da família e se casando com ela para recuperar suas terras. Havia pensado em sedução, coerção e até mesmo – em um caso extremo – em rapto. Mas nenhum desses cenários envolvia uma mulher com uma queda por perigo e pouquíssimo bom senso coberta de neve, aproximando-se dele no frio intenso de uma madrugada de meio de janeiro em Surrey. Ela lhe havia economizado bastante trabalho. Evidentemente que seria errado dele olhar os dentes daquele cavalo dado. Então, ele a levou.
"Seu bruto!"
Ele se encolheu enquanto ela dava socos em seus ombros, com as pernas agitando-se no ar, a posição desajeitada sendo a única coisa que o impedia de perder partes importantes de sua anatomia para um único chute bem colocado.
"Ponha-me no chão!"
Ele a ignorou, segurando suas pernas com um dos braços, virando-a para cima até ela gritar e agarrar a parte de trás do casaco dele, em busca de equilíbrio, e se ajeitando novamente em seu ombro, sentindo algum prazer ao ouvir um resmungado "Uf!", quando o ombro dele encontrou a maciez de sua barriga. Parecia que a dama não estava contente com os rumos de sua noite.
"Você tem algum problema de audição?", ela disse suavemente, ou o mais suave do que alguém conseguia parecer, atirada por cima do ombro de um homem.
Ele não respondeu. Não precisava... Ela estava preenchendo o silêncio muito bem com seus resmungos.
"Eu jamais deveria ter saído de casa... Deus sabe que se eu soubesse que você estaria aqui, teria trancado as portas e janelas e mandado chamar a polícia... E pensar... Que eu havia ficado realmente feliz em vê-lo!"
Ela havia ficado feliz em vê-lo, dando um sorriso como um raio de sol e com uma empolgação palpável. Ele impediu a si mesmo de pensar sobre a última vez que alguém havia ficado tão feliz em vê-lo. De questionar-se se alguém, algum dia, havia ficado tão feliz em vê-lo. Alguém que não fosse Isabella. Ele tinha removido a felicidade dela com frieza, eficiência e habilidade, esperando que ela ficasse intimidada ou enfraquecida com isso. E ela falou, de forma suave e simples, aquelas palavras ecoando através do lago, pontuadas pela neve que caía, o sangue correndo nos ouvidos dele ouvidos, e a cortante constatação da verdade:
Você está nas minhas terras. Não são suas. Você as perdeu. Não havia nenhuma fraqueza naquela mulher. Ela era forte como aço. Com um punhado de palavras, ela o havia lembrado de que ela era o último elemento entre ele e a única coisa que ele havia desejado durante toda sua vida adulta. Da única coisa que lhe servia como objetivo: Falconwell. As terras de onde ele vinha, e seu pai antes dele, e o pai de seu pai, por muitas gerações para contar. As terras que ele perdeu e prometeu recuperar, a qualquer custo.
Mesmo com um casamento.
"Você não pode simplesmente me carregar como... como... uma ovelha!"
Ele parou de caminhar por uma fração de segundo.
"Uma ovelha?"
Ela fez uma pausa, evidentemente repensando a comparação.
"Fazendeiros não carregam ovelhas sobre os ombros?"
"Jamais vi algo parecido, mas você morou no campo mais tempo do que eu, então... se diz que eu a estou tratando como uma ovelha, que seja."
"É evidente que você não se importa que eu me sinta maltratada."
"Se serve de consolo, não planejo tosquiar você."
"Não serve de consolo algum, na verdade", ela disse sarcasticamente. "Vou lhe dizer mais uma vez! Ponha-me. No. Chão!" Ela se remexeu outra vez, quase se soltando das garras dele, chegando um dos pés perigosamente perto de atingir-lhe uma porção valiosa da anatomia.
Ele resmungou e a apertou mais.
"Pare com isso." Ele levantou uma das mãos e lhe deu um tapa firme no traseiro.
Ela ficou retesada com o gesto.
"Você não... Eu não... Você bateu em mim!"
Ele abriu a porta dos fundos da cozinha de Falconwell e a levou para dentro. Depositando a lanterna sobre uma mesa próxima, ele largou Isabella no centro do ambiente escuro.
"Você está usando meia dúzia de camadas de roupas e uma capa de inverno. Estou surpreso que sequer tenha sentido alguma coisa."
Os olhos de Isabella se encheram de fúria.
"Ainda assim, um cavalheiro jamais sonharia em... em..."
Ele a observou ter dificuldades para encontrar a palavra, e aproveitando seu desconforto, enfim sugeriu:
"Creio que a expressão por que esteja procurando seja 'dar palmadas'."
Ela arregalou os olhos diante da palavra.
"Sim. Isso. Cavalheiros não..."
"Primeiro, pensei que já houvéssemos estabelecido que eu não sou um cavalheiro. E sou assim há muito tempo. E segundo, você ficaria surpresa com o que cavalheiros fazem... e com o que as damas apreciam."
"Não esta dama. Você me deve um pedido de desculpas."
"Sugiro que espere sentada." Ele ouviu um pequeno arfar de indignação ao percorrer a cozinha até o local onde havia deixado uma garrafa de uísque no começo da noite. "Deseja uma bebida?"
"Não, obrigada."
"Tão educada."
"Um de nós deve ser, não acha?"
Ele se virou para encará-la, meio divertido, meio surpreso com sua língua ferina. Ela não era alta, mal chegava ao ombro dele, mas, naquele momento, parecia uma amazona. O capuz da capa havia caído, e seus cabelos estavam desalinhados, caindo sobre os ombros, castanho mogno cintilando à luz fraca. Ela estava com o queixo empinado, em um sinal universal de desafio, os ombros estavam retesados e retos, e o peito subia e descia com raiva, inchando sob a capa. Ela parecia estar disposta a provocar muitos danos físicos a ele.
"Isso é rapto."
Ele tomou um longo gole da garrafa, apreciando o olhar de choque dela diante daquele comportamento, enquanto passava as costas da mão sobre os lábios e a encarava. Permaneceu quieto, gostando da forma como seu silêncio a deixava tensa. Depois de um longo momento, ela anunciou:
"Você não pode me raptar!"
"Como eu disse lá fora, não tenho intenção de raptá-la." Ele se inclinou até seu rosto estar frente a frente com o dela. "Eu pretendo me casar com você, querida."
Ela o encarou durante um longo momento.
"Vou embora."
"Não vai não."
"Não estou amarrada. Poderia ir embora se tentasse."
"Amarras são para amadores." Ele se recostou no aparador. "Já eu? Eu a encorajo a tentar."
Ela lançou um olhar de incerteza para ele antes de encolher um ombro e seguir para a porta. Ele bloqueou sua saída e ela parou.
"Entendo que esteja fora da sociedade há algum tempo, mas você não pode simplesmente raptar seus vizinhos."
"Como já disse, isto não é um rapto."
"Bem, o que quer que seja", ela disse com irritação, "não se faz."
"Imaginei que você já teria percebido a essa altura que me importo muito pouco com o que se faz."
Ela pensou nas palavras dele por um instante.
"Pois deveria."
Havia uma familiaridade indistinta na forma como ela se postava, completamente ereta, instruindo-o quanto ao comportamento adequado.
"Aí está ela."
"Quem?"
"A Isabella da minha infância, tão preocupada com a decência. Você não mudou nada."
Ela ergueu o queixo.
"Isso não é verdade."
"Não?"
"De forma alguma. Estou muito mudada. Totalmente diferente."
"Como?"
"Eu...", ela começou, então parou, e ele imaginou o que estava prestes a dizer. "Apenas estou. Agora deixe-me ir." Ela se moveu para passar por ele.
Como ele não se mexeu, ela parou, sem querer tocá-lo.
Uma pena... A lembrança do calor da mão enluvada no rosto frio dele lhe veio à mente. Ao que tudo indicava, seu comportamento lá fora havia sido uma reação de surpresa. E de prazer. Ele imaginou o que mais ela poderia fazer instintivamente em resposta ao prazer. Uma imagem lhe surgiu – cabelos chocolate levemente avermelhados e espalhados sobre lençóis de seda claros, olhos chocolate acesos de surpresa, enquanto ele proporcionava à formal e decente Isabella uma prova de prazer sombrio e intoxicante. Ele quase a tinha beijado na escuridão. Havia começado como uma forma de intimidá-la, para dar início ao sistemático comprometimento da quieta e modesta Isabella Swan. Mas não podia negar que, com os dois ali parados em sua cozinha deserta, ele se perguntou qual seria o sabor dela. Qual seria a sensação da respiração dela sobre a pele dele. Qual seria a sensação do corpo dela contra o seu. Ao redor dele...
"Isso é uma tolice."
As palavras o trouxeram de volta ao presente.
"Tem certeza de que não quer uma bebida?"
Isabella arregalou os olhos.
"Eu... não!"
Era tão fácil frustrá-la. Sempre foi.
"Ainda é educado oferecer bebidas a convidados, não é?"
"Não uísque! E certamente não direto da garrafa!"
"Suponho que tenha feito confusão, então. Talvez você possa me lembrar do que eu deveria oferecer a meus convidados em uma situação semelhante."
Ela abriu a boca e a fechou em seguida.
"Não sei, considerando que não tenho o hábito de ser raptada no meio da noite e levada para casas de campo vazias." Ela apertou os lábios em uma linha reta irritada. "Eu gostaria de voltar para casa. Para a cama."
"Isso pode ser resolvido sem que você precise voltar para casa, sabe?"
Ela fez um barulhinho de frustração.
"Edward..."
Ele odiava o nome nos lábios dela.
Não, não odiava.
"Cullen."
Ela o encarou.
"Cullen... você já marcou sua posição."
Ele continuou em silêncio, curioso, e ela prosseguiu:
"Compreendo que tenha sido uma decisão ruim sair perambulando no bosque no meio da noite. Entendo agora que poderia ter sido atacada. Ou raptada. Ou pior, e estou preparada para admitir que você me ensinou uma lição necessária."
"Que gracioso da sua parte."
Ela seguiu em frente, como se ele não tivesse falado, tentando contorná-lo.
Ele se mexeu para bloquear sua saída. Isabella parou e o encarou, os olhos castanhos faiscando com o que ele imaginou se tratar de frustração.
"Também estou preparada para ignorar o fato de que você cometeu uma gafe séria de etiqueta ao me transportar, fisicamente, de um local público para outro absolutamente inadequado... totalmente privado."
"E não se esqueça de que também lhe dei uma palmada."
"Isso também. Absoluta... completamente... mais do que inadequado."
"Adequação não parece tê-la levado muito longe."
Ela paralisou, e ele soube imediatamente que havia tocado em um ponto delicado. Alguma coisa desagradável queimou dentro dele. Ele resistiu. Podia estar planejando casar-se com ela, mas não estava planejando se importar com ela.
"Infelizmente, tenho planos para você, Isabella, e você não vai a lugar algum esta noite." Ele estendeu a garrafa de uísque para ela e disse, seriamente: "Tome um gole. Vai acalmá-la até amanhã".
"O que acontecerá amanhã?"
"Amanhã, nós nos casamos."
Casaremos e foda-se o que você quer... Sim, eu também estava dividida entre raiva e diversão. Edward chucrinho haha.
