Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.


CAPÍTULO QUATRO

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"Você se esqueceu de tudo o que foi? De tudo o que você poderia ter sido?"

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Isabella estendeu o braço e pegou o uísque, arrancando-o da mão de Edward e pensando, por um instante, em beber muito, pois certamente não havia momento melhor do que aquele para começar uma "vida de bebedeira".

"Eu não me casarei com você!"

"Lamento, mas creio que já seja fato consumado."

A indignação ferveu.

"Certamente não é fato consumado!" Ela levou a garrafa ao peito e começou a empurrá-lo tentando chegar até a porta. Como ele não se mexeu, ela parou, a um milímetro de distância, roçando a capa nele. Ela o encarou diretamente nos olhos castanhos sérios, recusando-se a ceder a seu desejo ridículo. "Afaste-se, Lorde Cullen. Vou voltar para casa. Você é um louco."

Uma irritante sobrancelha escura se levantou.

"Que tom", ele ironizou. "Creio que não esteja com vontade de me mexer. Terá de encontrar outro caminho."

"Não me faça fazer algo de que eu possa me arrepender."

"Por que se arrepender?" Ele levantou a mão, e um único dedo quente ergueu o queixo dela. "Pobre Isabella", ele disse, "com tanto medo de correr riscos."

Pobre Isabella. O olhar dela se estreitou, odiando o que ele acabava de dizer.

"Não tenho medo de correr riscos. Nem tenho medo de você."

Uma sobrancelha escura arqueou-se.

"Não?"

"Não."

Ele se inclinou para frente, para mais perto. Perto demais... Perto o bastante para envolvê-la no perfume de bergamota e cedro. Perto o bastante para ela perceber que os olhos dele haviam ficado com um encantador tom de verde.

"Prove."

A voz dele era baixa e rouca, provocando um arrepio na espinha de Bella. Ele chegou mais perto ainda, o bastante para tocá-la e o calor do corpo aquecê-la no ambiente gelado –, e os dedos de sua mão deslizaram no ar até sua nuca, mantendo-a imóvel, enquanto pairava acima dela, ameaçador. Promissor... Como se a desejasse. Como se tivesse ido buscá-la. O que, claro, não era o caso. Se não fosse por Falconwell, ele não estaria ali e era melhor que ela se lembrasse disso. Ele não a queria mais do que os outros homens de sua vida. Ele era exatamente como todos os outros. E isso não era justo. Mas Isabella não permitiria que ele lhe tirasse a única escolha que tinha. Levantou as mãos, agarrando firmemente a garrafa de uísque com a esquerda, e o empurrou com toda a força – não o suficiente para mover um homem do tamanho dele, mas ela contava com o elemento surpresa a seu favor.

Ele cambaleou para trás, e ela se apressou a passar por ele, quase chegando até a porta da cozinha antes de ele se reequilibrar e vir atrás dela, segurando-a com um: "Ah, não, senhora!", girando-a de frente para ele. A frustração tomou conta dela.

"Solte-me, seu bruto!"

"Não posso", ele disse apenas. "Eu preciso de você."

"Por Falconwell." Ele não respondeu. Não precisava. Isabella respirou fundo. Ele a estava comprometendo. Como se eles estivessem na Idade das Trevas e ela não fosse nada além de um bem. Como se não valesse nada além das terras vinculadas à sua mão em casamento.

Bella fez uma pausa diante desse pensamento e foi dominada pela decepção. Ele era pior do que os outros.

"Bem, que pena para você", ela disse, "uma vez que minha mão já foi prometida a outro."

"Não depois desta noite", ele disse. "Ninguém irá se casar com você depois de ter passado a noite sozinha comigo."

Aquelas eram palavras que deveriam estar carregadas de ameaça. Ou perigo... Em vez disso, foram pronunciadas como um simples fato. Ele era o pior tipo de imoral e a reputação dela estaria destruída no dia seguinte. Ele tinha tirado a escolha dela, assim como seu pai havia feito mais cedo, naquela mesma noite. E o duque de Leighton, todos aqueles anos antes. Ela estava encurralada por um homem uma vez mais.

"Você o ama?"

A pergunta interrompeu sua fúria crescente.

"Perdão?"

"Seu noivo... Você está muito apaixonada por ele?"

As palavras estavam sendo pronunciadas ironicamente, como se amor e Isabella fossem uma combinação ridícula.

"Você está exultante de felicidade?"

"Isso tem importância?"

Ela o surpreendeu. Isabella pôde ver em seus olhos verdes, antes que ele cruzasse os braços e erguesse uma sobrancelha.

"Nem um pouco."

Uma rajada de vento gelado atravessou a cozinha, e Bella apertou a capa ao seu redor. Edward percebeu e resmungou baixinho – Bella imaginou que as palavras que ele usou não eram educadas. Ele cuidadosamente retirou o sobretudo, depois o paletó, dobrando-os e os colocando na beirada da longa pia, antes de olhar para a grande mesa de carvalho localizada no centro do ambiente.

A mesa estava sem uma das pernas e tinha um machado enterrado no tampo marcado. Ela deveria ter se surpreendido com a peça de mobília mutilada, mas havia muito pouca coisa normal naquela noite. E antes que pudesse pensar no que dizer, ele agarrou o machado e se virou na direção dela, com o rosto transformado em um amontoado de ângulos, à luz do lampião.

"Afaste-se."

Aquele era um homem que esperava ser atendido e ele não aguardou para ver se ela obedecia sua orientação antes de levantar o machado bem acima da cabeça. Ela se encostou, tão surpresa, no canto do ambiente escuro, que não conseguiu deixar de observá-lo, enquanto ele atacava a mesa com fúria. Ele tinha um corpo muito bonito. Como uma gloriosa estátua romana, ela podia ver todos os músculos fortes delineados pelo impecável tecido da camisa quando ele levantou a ferramenta acima da cabeça. As mãos deslizando resolutamente ao longo do cabo, os dedos agarrando-o com força enquanto ele baixava a lâmina de aço sobre a velha peça de carvalho com um golpe poderoso, fazendo um estilhaço de madeira sair voando pela cozinha e parar em cima do fogão sem uso havia tanto tempo.

Ele estendeu a mão de dedos longilíneos sobre a mesa, agarrando o machado mais uma vez, arrancando a lâmina da madeira. Virou a cabeça ao recuar, certificando-se de que ela estava fora do caminho de quaisquer projéteis potenciais – um movimento que ela não pôde deixar de considerar reconfortante –, antes de confrontar o móvel e dar o golpe seguinte com um arremesso poderoso. A lâmina atingiu o carvalho, mas a mesa se manteve firme. Ele sacudiu a cabeça e arrancou o machado uma vez mais, dessa, porém, mirando uma das pernas restantes da mesa.

Bam! Os olhos de Isabella arregalaram-se quando a luz da lanterna iluminou a forma como as calças de lã apertaram as coxas dele. Ela não deveria notar... não deveria prestar atenção a tão evidente... masculinidade. Mas ela nunca tinha visto pernas como as dele. Bam! Nunca imaginou que elas poderiam ser tão... irresistíveis. Bam! Não podia evitar. Bam! O golpe final acabou com a madeira despedaçando, a perna torcendo sob a força do imenso tampo entortado, com uma das pontas caindo ao chão, enquanto Edward atirava o machado de lado para agarrar a perna com as mãos nuas e arrancá-la do lugar. Ele se virou novamente para Isabella, batendo com uma das pontas da perna da mesa na palma da mão esquerda.

"Sucesso", anunciou.

Como se ela estivesse esperando qualquer coisa menos do que aquilo. Como se ele tivesse aceitado qualquer coisa menos do que aquilo.

"Muito bem", ela disse, na falta de algo melhor.

Ele levantou a madeira sobre o ombro largo.

"Você não aproveitou a oportunidade para escapar."

Ela congelou.

"Não. Não aproveitei." Embora não soubesse dizer por quê.

Ele caminhou para colocar o pé da mesa dentro da pia e cuidadosamente pegou o paletó, sacudiu quaisquer possíveis amarrotados e o vestiu. Ela observou enquanto ele vestia os ombros com as roupas excepcionalmente bem-feitas, realçando as formas perfeitas – formas que ela não mais dava como certas, agora que tinha visto pistas do homem Vitruviano por baixo do tecido. Não. Ela sacudiu a cabeça. Não pensaria nele como um Leonardo. Ele já era um personagem intimidante demais. Sacudiu a cabeça.

"Não me casarei com você!"

Ele endireitou os punhos da camisa, abotoou o paletó cuidadosamente e espanou um pouco de umidade das mangas do casaco.

"Isso não está em discussão."

Ela tentou racionalizar.

"Você daria um péssimo marido."

"Nunca disse que seria um bom marido."

"Então me condenaria a uma vida de casamento infeliz?"

"Se for necessário... Embora sua infelicidade não seja meu alvo direto, se serve de consolo."

Ela piscou. Ele estava falando sério. Aquela conversa estava realmente acontecendo.

"E isso deveria fazer com que eu me rendesse à sua corte?"

Ele encolheu um ombro de modo despreocupado.

"Eu não me engano ao pensar que o objetivo do casamento seja a felicidade de uma ou de ambas as partes envolvidas. Meu plano é devolver as terras de Falconwell a seu solar e, infelizmente para você, isso exige nosso casamento. Não serei um bom marido, mas também não tenho o menor interesse em mantê-la sob meu comando."

Isabella ficou boquiaberta diante da sua sinceridade. Ele sequer fingiu gentileza, interesse, preocupação... Ela fechou a boca.

"Entendo."

Ele continuou.

"Você pode fazer ou ter o que quiser, quando quiser. Tenho dinheiro suficiente para você desperdiçar fazendo o que quer que as mulheres do seu tipo gostem de fazer."

"Mulheres do meu tipo?"

"Solteironas com sonhos de ter algo mais."

O ar saiu do ambiente com um sopro. Que descrição terrível, desagradável e completamente... adequada. Uma solteirona com sonhos de ter algo mais. Era como se ele estivesse em sua sala de estar mais cedo naquela noite, e visto o pedido de casamento de Jacob enchê-la de decepção. Com esperanças de algo mais. Algo diferente. Bem... aquilo certamente era diferente.

Ele estendeu o braço na direção dela, acariciando seu rosto com um dedo, e ela recuou do toque.

"Não."

"Você vai se casar comigo, Isabella."

Ela atirou a cabeça para trás, para longe do alcance dele, sem querer que ele a tocasse.

"Por que me casaria?"

"Porque, querida" – ele inclinou-se para frente, a voz soando como uma promessa sombria, enquanto ele percorria o pescoço e a pele acima do vestido com o dedo quente, aumentando seus batimentos cardíacos e deixando sua respiração muito rápida – "ninguém jamais acreditará que eu não a tenha comprometido totalmente."

Ele agarrou a borda do vestido e, com um puxão, rasgou-o em dois, junto com a camisa, deixando-a nua até a cintura. Ela engasgou, largando a garrafa para levantar o vestido até o peito, derramando uísque na frente da roupa até o chão.

"Seu... seu..."

"Não tenha pressa, querida", ele disse com a voz arrastada, dando um passo atrás para observar sua obra. "Posso esperar que encontre a palavra."

Ela apertou os olhos. Não precisava de uma palavra. Precisava de um chicote. Fez a única coisa que conseguiu pensar em fazer. Sua mão voou por conta própria, atingindo-o com um forte estalo! – um som que teria sido imensamente satisfatório se não a tivesse deixado sentindo-se tão completamente mortificada. Ele virou a cabeça para trás com o golpe, levando a mão de imediato até o rosto, onde uma mancha vermelha já estava começando a aparecer. Isabella voltou a andar para trás, a caminho da porta, com a voz trêmula.

"Eu jamais... jamais... irei me casar com alguém como você. Você se esqueceu de tudo o que foi? De tudo o que você poderia ter sido? Parece ter sido criado por lobos."

Então ela se virou e fez o que deveria ter feito no instante em que o viu dando a volta na casa. Ela correu. Abrindo a porta com força, mergulhou na neve à frente, seguindo cegamente na direção do Solar Swan, percorrendo apenas alguns metros antes de ele segurá-la por trás com um braço de aço e levantá-la completamente do chão. Foi só então que gritou.

"Solte-me! Seu monstro! Socorro!"

Ela o chutou, atingindo diretamente a canela dele com o calcanhar da bota, e ele xingou furiosamente em seu ouvido.

"Pare de resistir, sua harpia."

Não naquela vida. Ela redobrou os esforços.

"Socorro! Alguém ajude!"

"Não há alma viva em mais de um quilômetro, e ninguém acordado além disso." As palavras a incitaram ainda mais, e ele grunhiu quando o cotovelo de Isabella o pegou no lado, assim que ambos retornaram para a cozinha.

"Ponha-me no chão!", ela gritou, o mais alto que conseguiu, diretamente no ouvido dele.

Ele virou a cabeça e continuou caminhando, pegando a lanterna e a perna que havia arrancado da mesa ao atravessar a cozinha.

"Não."

Ela se debateu mais, mas ele a segurava com muita força.

"Como pretende fazer isso?", ela perguntou. "Pretende violentar-me aqui, em sua casa vazia, e devolver-me ao meu pai com a reputação arruinada?"

Os dois seguiram por um longo corredor, com um lado coberto por ripas de madeira que marcavam o patamar de uma escada para criados. Ela estendeu o braço e agarrou uma das ripas com toda a força possível. Ele parou de caminhar, esperando que ela soltasse a madeira. Quando falou, havia imensa paciência em seu tom de voz.

"Eu não violento mulheres. Ao menos não sem elas me pedirem com muita gentileza."

A declaração a fez pensar. Claro que ele não a violentaria. Ele provavelmente não havia pensado nela, em nenhum momento, como algo mais do que a simples e correta Isabella, a única coisa entre ele e o retorno de seu direito de resgatar o que era dele. Ela não sabia ao certo se isso melhorava ou piorava a situação. Mas aquilo fez seu coração doer. Ele não se importava com ela. Não a desejava. Sequer pensava nela o bastante para fingir essas coisas. Para fingir interesse ou para tentar seduzi-la. Ele a estava usando por Falconwell. E Jake não estava?

Era claro que sim. Jake a havia encarado profundamente, mas não tinha visto o castanho de seus olhos, e sim o castanho das terras de Surrey, em Falconwell. Certamente, via a amiga, mas não era por isso que havia pedido sua mão em casamento. Pelo menos Edward estava sendo sincero.

"Esta é a melhor oferta que você irá receber, Isabella", ele disse baixinho, e ela ouviu a tensão em sua voz, a urgência.

A verdade.

Bella soltou a parede.

"Você merece a reputação que tem, sabia?"

"Sim... Mereço. E esta não é nem de perto a pior coisa que fiz. Você precisa saber disso."

Aquelas palavras deviam ter sido arrogantes, ou pelo menos sem emoção. Mas não... Foram sinceras. E havia alguma coisa nelas, que apareceu e desapareceu, alguma coisa que ela não teve certeza de ter escutado. Alguma coisa que ela não se permitiria reconhecer. Mas ela soltou o corrimão, e ele a colocou no chão vários degraus acima dele. Ela estava realmente levando aquilo em consideração. Como uma louca. Estava realmente imaginando como seria casar-se com aquele novo e estranho Edward. Só que ela não conseguia imaginar, ou sequer começar a conceber o que seria casar-se com um homem que baixava um machado sobre uma mesa de cozinha sem pensar duas vezes e carregava mulheres gritando para dentro de casas abandonadas. Que não seria um casamento normal da sociedade, isso era certo. Ela o encarou, diretamente, graças ao degrau no qual ele a havia depositado.

"Se eu me casar com você, estarei arruinada."

"O grande segredo da sociedade é que a ruína não é nem de perto tão ruim como fazem parecer. Você terá todas as liberdades que vêm com uma reputação arruinada. E elas são consideráveis."

Ele devia saber. Sacudiu a cabeça.

"Não se trata apenas de mim, minhas irmãs também ficarão arruinadas. Elas jamais encontrarão bons partidos se nos casarmos. Toda a sociedade irá pensar que elas são tão... facilmente escandalizadas... como eu fui."

"As suas irmãs não são problema meu."

"Mas são problema meu."

Ele levantou uma sobrancelha.

"Tem certeza de que está em condições de fazer exigências?"

Ela não estava. De modo algum. Mas seguiu em frente mesmo assim, endireitando os ombros.

"Você se esquece que nenhum vigário da Grã-Bretanha nos casará se eu me negar a isso."

"Você acha que eu não iria espalhar por toda Londres que a arruinei completamente esta noite, caso você fizesse isso?"

"Sei."

"Pois está errada. A história que eu inventaria faria a mais experiente das prostitutas corar."

Foi Isabella quem corou, mas ela se recusou a ficar intimidada. Respirou fundo e jogou sua carta mais alta.

"Não duvido disso, mas ao me arruinar, estaria também arruinando suas chances com Falconwell."

Ele paralisou. Bella ficou com a respiração suspensa de excitação enquanto esperava pela resposta dele.

"Diga seu preço."

Ela venceu! Ela venceu! Ela queria comemorar o sucesso, a derrota que havia imposto àquela imensa e insensível fera, mas mantinha alguma noção de autopreservação.

"Esta noite não deve afetar as reputações das minhas irmãs."

Edward assentiu com a cabeça.

"Tem a minha palavra quanto a isso."

Ela apertou o tecido rasgado do vestido nos punhos cerrados.

"A palavra de um notório canalha?"

Ele subiu um degrau, aproximando-se, juntando-se a ela na escuridão. Ela se obrigou a permanecer imóvel quando ele falou, a voz ao mesmo tempo perigosa e promissora.

"Há honra entre ladrões, Isabella. Duas vezes mais para jogadores."

Ela engoliu em seco, com a proximidade oprimindo sua coragem.

"Eu... eu não sou nem uma coisa nem outra."

"Tolice", ele sussurrou, e ela imaginou ser capaz de sentir os lábios dele em sua têmpora. "Você parece ser uma jogadora nata. Apenas precisa de alguma instrução."

Sem dúvida ele poderia ensinar a ela mais do que ela jamais imaginou. Ela afastou o pensamento – e as imagens que o acompanharam – quando ele acrescentou:

"Então temos um acordo?"

O triunfo havia desaparecido, perseguido pela apreensão. Ela desejou que pudesse ver os olhos dele.

"Eu tenho escolha?"

"Não." Nenhuma emoção na palavra. Nenhum sinal de lamento ou culpa. Apenas a sinceridade fria.

Ele estendeu a mão a ela uma vez mais, e acenou com a larga palma aberta. Hades, oferecendo sementes de romã. Se ela aceitasse, tudo mudaria. Tudo ficaria diferente. Não haveria como voltar atrás, ainda que, em algum lugar de sua mente, ela soubesse que não tinha volta, de qualquer maneira. Segurando o vestido, ela aceitou a mão dele. Ele a levou escada acima, com sua lanterna, o único refúgio da escuridão absoluta além deles, e Isabella não pôde deixar de se agarrar a ele. Desejou que tivesse a coragem de soltá-lo, de segui-lo por conta própria, mas havia alguma coisa no caminhar dele – algo misterioso e sombrio que não tinha nada a ver com a luz – que fazia com que ela não conseguisse se obrigar a soltá-lo. Ele se virou para trás ao pé da escada, os olhos à sombra da luz de vela.

"Ainda tem medo do escuro?"

A referência à infância dos dois a desconcertou.

"Era um buraco de raposa. Podia haver qualquer coisa lá embaixo."

Ele começou a subir os degraus.

"Por exemplo?"

"Uma raposa, talvez?"

"Não havia raposas naquele buraco."

Ele havia checado antes. Aquele havia sido o único motivo pelo qual ela permitiu que ele a convencesse a entrar lá.

"Bem... alguma outra coisa, então. Um urso, talvez."

"Ou talvez você tivesse medo do escuro."

"Talvez... Mas não tenho mais."

"Não?"

"Eu estava do lado de fora, no escuro esta noite, não estava?"

Os dois viraram em um corredor comprido.

"Estava mesmo." Ele então soltou a mão dela, que não gostou da forma como sentiu falta do toque, enquanto ele girava a maçaneta de uma porta próxima e a abria com um longo e sinistro rangido. Ele falou baixo em seu ouvido. "Preciso dizer, Isabella, que embora seja desnecessário temer o escuro, tem razão de temer as coisas que crescem nele."

Bella apertou os olhos na direção da escuridão, tentando desvendar o quarto além da porta, sentindo o nervosismo crescer dentro dela. Ficou parada na entrada, com a respiração rápida e curta. Coisas que crescem no escuro... como ele... Ele passou por ela lentamente, num movimento ao mesmo tempo como uma carícia e uma ameaça. E ele sussurrou:

"Você blefa muito mal." As palavras mal foram audíveis, e a sensação da respiração dele na pele dela neutralizou o insulto.

A luz da lanterna cintilou nas paredes do quarto pequeno e desconhecido, lançando um brilho dourado sobre o revestimento que um dia haviam sido elegantes, em um tom rosa encantador e agora estavam tristemente desbotados. O quarto tinha tamanho para que mal coubessem os dois, com uma lareira dominando uma das paredes, diante da qual duas janelinhas davam para as copas das árvores. Edward abaixou-se para fazer fogo, e Bella foi até as janelas, observando um pedaço de luz do luar atravessar a paisagem nevada.

"Que quarto é este? Não me lembro dele."

"Você provavelmente nunca teve chance de conhecê-lo. Era o gabinete da minha mãe."

Isabella teve uma lembrança da marquesa, alta e linda, com um sorriso amplo e acolhedor e olhos gentis. Claro que aquele quarto, quieto e sereno, havia sido dela.

"Edward", Bella virou-se de frente para ele, que estava agachado perto do chão, diante da lareira, montando um leito de palha e gravetos. "Eu nunca tive a chance de...", ela procurou pelas palavras corretas.

Ele a interrompeu antes que as encontrasse.

"Não é necessário. O que aconteceu, aconteceu."

A frieza no tom de voz dele parecia errada. Estranha.

"Ainda assim... eu escrevi. Não sei se você algum dia..."

"Possivelmente." Ele continuava meio dentro da lareira. Isabella ouviu o barulho do acendedor. "Muita gente escreveu."

As palavras não deveriam ter ferido, mas feriram. Ela havia ficado arrasada com a notícia das mortes do marquês e da marquesa de Cullen. Ao contrário de seus pais, que pareciam ter pouco mais do que uma civilidade tranquila entre eles, os pais de Edward pareciam gostar profundamente um do outro, do filho, de Isabella... Quando ficou sabendo sobre o acidente com a carruagem, ela ficou tomada de tristeza, pelo que havia sido perdido, pelo que poderia ter acontecido.

Ela lhe havia escrito cartas, dúzias delas ao longo de vários anos, até seu pai se recusar a continuar postando-as. Depois disso, ela continuou escrevendo, esperando que ele, de alguma forma, soubesse que ela estava pensando nele. Que ele sempre teria amigos em Falconwell... em Surrey... não importando o quanto ele pudesse estar se sentindo sozinho. Ela imaginava que, um dia, ele voltaria para casa. Mas ele não voltou... Nunca... Por fim, Isabella parou de esperar por ele.

"Sinto muito."

A faísca reluziu e a palha pegou fogo. Ele se levantou, virando-se para encará-la.

"Você terá de ficar com a luz da lareira. Sua lanterna ficou na neve."

Ela engoliu em seco sua tristeza, assentindo com a cabeça.

"Ficarei bem."

"Não deixe este quarto. A casa está malconservada, e eu não me casei com você ainda."

Ele se virou e saiu do quarto.


Cri, cri, cri... Onde estão vocês? Estou bem desanimada essas semanas :(