Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.


CAPÍTULO SEIS

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"E dizem que os homens são o sexo mais inteligente..."

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Caro E,
Talvez você pense que desde que voltou à escola, tenho vivido em constante estado de ennui (perceba o uso do francês), mas estaria totalmente equivocada. A excitação é quase avassaladora.
O touro se soltou do pasto de Lorde Black há duas noites, e ele (o touro, não o visconde) divertiu-se destruindo cercas e fazendo contatos com o gado da área até ser capturado esta manhã pelo Sr. Bullworth.

Aposto que gostaria de estar aqui, não?

Sempre sua, I.
Solar Swan, setembro de 1815

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Cara I,

Acreditei em você até a parte em que disse que Bullworth capturou seu homônimo. Agora, estou convencido de que está apenas tentando me atrair para casa com suas histórias extravagantes de tentativa de criação pecuária.
Embora eu estaria mentindo se dissesse que não estava funcionando. Gostaria de ter estado aí para ver a expressão no rosto de Billy Black. E o sorriso no seu.

E.
PS – Fico feliz de ver que sua tutora esteja lhe ensinando alguma coisa. Très bon.
Eton College, setembro de 1815

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O dia mal havia amanhecido, quando Cullen parou do lado de fora do quarto em que tinha abandonado Isabella na noite anterior. O frio e seus pensamentos uniram forças para não deixá-lo descansar. Ele andou de um lado para outro da casa, assombrado pelas lembranças dos ambientes vazios, esperando o nascer do sol no dia em que ele veria Falconwell voltar para as mãos de seu proprietário de direito.

Não havia dúvidas na mente de Cullen de que o marquês de Swan abdicaria de Falconwell. O homem não era nenhum tolo. Ele tinha três filhas solteiras, e o fato de que a mais velha havia passado a noite com um homem em uma casa abandonada – ou melhor, com Edward Cullen em uma casa abandonada – não atrairia bons pretendentes às damas Swans descasadas.

A solução seria um casamento rápido e, com essa união, a transferência de Falconwell. De Falconwell e Isabella... Um outro tipo de homem sentiria remorso diante do papel infeliz que Bella era obrigada a interpretar neste jogo, mas Cullen sabia das coisas. Ele certamente estava usando a dama, mas não era assim que o casamento funcionava? Não eram todas as relações matrimoniais baseadas justamente nessa premissa – do benefício mútuo? Ela teria acesso ao dinheiro dele, à sua liberdade e a qualquer outra coisa que desejasse, e ele ganharia Falconwell. Simples assim.

Eles não seriam os primeiros, nem os últimos, a se casarem por algumas terras. A oferta a que ele havia lhe feito era extraordinária. Ele era rico e bem-relacionado, e estava lhe oferecendo uma oportunidade de trocar seu futuro como solteirona por outro como marquesa. Ela poderia ter tudo o que quisesse e ele daria a ela com prazer. Afinal, ela estava lhe dando a única coisa que ele realmente sempre tinha desejado. Quer dizer, não exatamente. Ninguém dava nada a Cullen. Ele estava tomando as terras.

Tomando Isabella. Um sentimento próximo demais de emoção ou de se importar passou por sua mente: grandes olhos chocolates arregalados no rosto suave dela, ardendo de prazer e algo mais. Era por isso que ele a havia deixado, estrategicamente, de maneira fria e calculada, reafirmando que o casamento seria um acordo de negócios. Não porque ele não quisesse ficar... Ou porque tirar a boca e as mãos de cima dela havia sido uma das coisas mais difíceis que ele jamais fez. Ou ainda porque ele ficou tentado a fazer exatamente o oposto – a afundar-se nela e deleitar-se; macia onde mulheres deviam ser macias, e doce onde deviam ser doces. Não porque aqueles pequenos suspiros que saíam do fundo de sua garganta, enquanto ele a beijava, fossem as coisas mais eróticas que ele tinha ouvido na vida, ou porque ela tivesse o sabor da inocência.

Ele se forçou a afastar-se da porta. Não havia por que bater. Ele estaria de volta antes que ela acordasse, pronto para levá-la ao vigário mais próximo, apresentar a licença especial pela qual pagou uma bela quantia, e casar-se com ela. Então, eles retornariam a Londres e viveriam suas vidas separadas.

Respirou fundo, apreciando a pontada do ar frio da manhã nos pulmões, satisfeito com seu plano. Foi quando ela deu um grito de pavor, marcado pelo barulho de vidros quebrados. Ele reagiu por instinto, destrancando a porta e quase arrancando-a das dobradiças para abri-la. Parou logo depois de entrar no quarto, com o coração disparado.

Ela estava parada ilesa, em pé ao lado da janela quebrada, encostada na parede, descalça, enrolada no sobretudo dele, que estava aberto e revelava o vestido rasgado, escancarado, exibindo uma boa extensão de pele cor de pêssego. Por um instante fugaz, Cullen foi detido por aquela pele, pela forma como um único cacho castanho a atravessava, atraindo a atenção para onde um encantador mamilo cor-de-rosa se exibia no quarto frio. Sentiu a boca secar e obrigou-se a olhar para o rosto dela, onde os olhos arregalados piscavam com choque e descrença, enquanto ela olhava para a grande janela de vidro ao seu lado, agora sem uma vidraça, estilhaçada por...

Bum! Ele atravessou o quarto minúsculo em segundos, protegendo-a com o corpo e empurrando-a para fora do cômodo até o corredor.

"Fique aqui."

Ela assentiu com a cabeça, o choque aparentemente deixando-a mais disposta a aquiescer do que ele esperava. Ele retornou ao quarto e à janela, mas antes que pudesse inspecionar os danos, um segundo tiro estilhaçou outra vidraça, errando Edward por uma distância que não o deixou nem um pouco confortável.

Que diabo? Ele amaldiçoou uma vez, baixinho, e encostou-se contra a parede do quarto, ao lado da janela. Alguém estava atirando nele. A questão era: quem?

"Tome cuidado..."

Isabella enfiou a cabeça de volta para dentro do quarto, e Edward já estava indo na direção dela, lançando-lhe um olhar que havia feito recuar o pior ser do submundo londrino.

"Saia."

Ela não se mexeu.

"Não é seguro para você ficar aqui. Você pode..." Outro tiro soou do lado de fora, interrompendo-o, e ele saltou na direção dela, rezando para conseguir pegá-la antes que uma bala o fizesse. Ele se atirou em cima de Bella, puxando-a para trás da porta, até os dois estarem encostados na parede oposta.

Eles ficaram imóveis durante um longo tempo, antes dela prosseguir, com as palavras abafadas pelo corpo dele.

"Você pode se ferir!"

Ela estava louca? Ele a agarrou pelos ombros, sem se importar que seu temperamento normalmente controlado ao extremo estivesse começando a ceder.

"Mulher idiota! O que foi que eu disse?" Ele esperou que ela respondesse à pergunta. Como não respondeu, ele não conseguiu se conter. Sacudindo-a uma vez pelos ombros, repetiu: "O que foi que eu disse?".

Isabella arregalou os olhos. Ótimo. Ela deveria temê-lo.

"Responda-me, Isabella." Ele ouviu o resmungo em sua voz mas não se importou.

"Você..." As palavras ficaram presas na garganta dela. "Você disse que eu deveria ficar aqui."

"E você é de algum modo incapaz de compreender uma orientação tão simples?"

Ela apertou os olhos.

"Não."

Ele a insultava e mais uma vez, ele não se importava.

"Fique... Aqui... Droga." Cullen ignorou a expressão de medo dela e voltou ao quarto, aproximando-se lentamente da janela.

Estava prestes a se arriscar a olhar para fora e tentar enxergar seu suposto assassino, quando ouviu palavras vindas de baixo.

"Você se rende!?"

Render-se? Talvez Isabella tivesse razão. Talvez houvesse de fato piratas em Surrey. Ele não teve muito tempo para pensar na questão, uma vez que Bella gritou:

"Ah, pelo amor de Deus!", ela veio do corredor e correu de volta para o quarto, segurando o casaco dele ao redor do corpo e seguindo diretamente para a janela.

"Pare!" Cullen atirou-se para impedir seu avanço, agarrando-a pela cintura e puxando-a para trás. "Se chegar perto daquela janela, vou esbofetear você. Está me ouvindo?"

"Mas..."

"Não."

"É apenas..."

"Não."

"É meu pai!"

As palavras o percorreram, permanecendo confusas por mais tempo do que ele gostaria de admitir. Ela não podia estar certa.

"Vim por minha filha, bandido! E irei embora com ela!"

"Como ele sabia o quarto em que deveria atirar?"

"Eu... eu estava parada diante da janela... Ele deve ter visto o movimento."

Mais uma bala lançou estilhaços de vidro pelo quarto, e Edward a apertou contra ele, protegendo-a com seu corpo.

"Você acha que ele tem noção de que poderia atirar em você?"

"Isso não parece ter ocorrido a ele."

Cullen xingou novamente.

"Ele merece levar uma bordoada na cabeça com o rifle."

"Creio que ele possa estar dominado pelo fato de que acertou o alvo. Três vezes. Claro, considerando que o alvo era uma casa, seria até uma surpresa se ele não o acertasse."

Ela estava achando divertido? Não era possível. Outro tiro soou, e Edward sentiu sua paciência chegar ao fim. Foi a passos largos até a janela, sem se importar que poderia levar um tiro no caminho.

"Maldição, Swan! Você poderia matá-la!"

O marquês de Swan não ergueu o olhar de onde estava mirando um segundo rifle, enquanto um lacaio recarregava o primeiro ao seu lado.

"Eu também poderia matar você. Gosto das minhas chances!"

Isabella apareceu atrás dele.

"Se serve de consolo, sinceramente duvido que ele conseguisse matá-lo. Ele é um atirador terrível."

Edward a encarou.

"Afaste-se desta janela. Agora!"

Por um milagre dos milagres, ela obedeceu.

"Eu deveria saber que você viria atrás dela, seu bandido. Deveria saber que faria algo digno de sua péssima reputação."

Cullen obrigou-se a parecer calmo.

"Ora, vamos, Swan, isso é forma de falar com seu futuro genro?"

"Sobre meu cadáver!" A fúria fez a voz do outro homem falhar.

"Isso pode ser arranjado", Edward gritou de volta.

"Mande-a aqui para baixo imediatamente. Ela não irá se casar com você."

"Depois da noite passada, não há muita dúvida de que irá, Swan."

O rifle foi levantado, e Edward afastou-se da janela, empurrando Isabella de volta para o canto, quando a bala atravessou outra vidraça.

"Patife!"

Ele queria vociferar contra o pai dela pela falta de cuidado que demonstrava em relação à filha. Em vez disso, virou-se para a janela, forçou um tom de desinteresse e gritou:

"Eu a encontrei. Ficarei com ela."

Houve uma longa pausa, tão longa que Edward não conseguiu deixar de levantar a cabeça e olhar pela esquadria para ver se o marquês tinha ido embora. Não... Uma bala havia se alojado na parede externa, a vários centímetros da cabeça de Edward.

"Você não ficará com Falconwell, Cullen. Nem com minha filha!"

"Bem, serei sincero, Swan... Já fiquei com sua filha..."

As palavras foram interrompidas pelo berro de Charlie Swan.

"Maldito!"

Bella arfou.

"Você não acabou de dizer a meu pai que ficou comigo."

Ele deveria ter previsto essa possível situação. Deveria ter imaginado que não seria tão simples. A manhã toda estava saindo de controle, e Cullen não gostava de ficar fora de controle. Respirou fundo e devagar, tentando manter a calma.

"Isabella, estamos encurralados dentro de uma casa enquanto seu pai furioso dispara diversos tiros de rifle contra a minha cabeça. Imaginei que você me perdoaria por fazer o possível para garantir que ambos sobrevivamos ao momento."

"E nossas reputações? Elas também não deveriam sobreviver?"

"Minha reputação já foi para o inferno", ele disse, encostando-se contra a parede.

"Bem, a minha não!", ela gritou. "Você perdeu completamente a cabeça?" Ela fez uma pausa. "E seu vocabulário é detestável."

"Você terá de se acostumar com meu vocabulário, querida. Quanto ao resto, quando nos casarmos, sua reputação irá igualmente para o inferno. Seu pai pode muito bem saber disso agora mesmo."

Ele não conseguiu deixar de virar-se de frente para ela, para ver de que forma as palavras a afetavam... como a luz deixava seus olhos... como ela estava paralisada como se ele a tivesse atingido.

"Você é horrível", ela disse de forma direta e sincera.

Naquele instante, com ela olhando para ele e fazendo aquela acusação de forma tranquila, ele odiou a si mesmo o suficiente por ambos. Mas ele era um mestre em esconder as emoções.

"É o que parece." As palavras saíram petulantes e forçadas.

A aversão dela ficou evidente.

"Por que fazer isso?"

Havia apenas um motivo – apenas uma coisa tinha guiado seus atos. Algo que o havia transformado naquele homem frio e calculista.

"Falconwell é tão importante assim?"

Do lado de fora, fez-se silêncio, e algo sombrio e desagradável se instalou na boca do estômago dele, uma sensação familiar demais. Por nove anos, ele fez de tudo para recuperar suas terras, restaurar sua história, garantir seu futuro... E não pretendia desistir agora.

"É claro que sim", ela disse, com uma risadinha autodepreciativa. "Sou um meio para um fim."

Nas horas que se passaram desde que havia tropeçado em Isabella no lago, ele a tinha ouvido irritada, surpresa, afrontada e apaixonada... mas não a viu assim. Ele não a ouviu resignada até aquele momento. E não gostou daquilo. Pela primeira vez em muito tempo – nove anos – Cullen sentiu a necessidade de se desculpar com alguém que havia usado. Ele se segurou para não ceder à inclinação.

Virou a cabeça para ela – não o suficiente para encará-la nos olhos – apenas o suficiente para vê-la com o canto do olho. O suficiente para ver a cabeça dela baixa, as mãos segurando o sobretudo dele ao seu redor.

"Venha aqui", ele disse, e uma pequena parte sua ficou surpresa quando ela foi.

Ela atravessou o quarto, e ele foi consumido pelos sons dela – o deslizar das saias, a batida suave de seus passos, a forma como sua respiração saía curta e irregular, marcando seu nervosismo e sua expectativa. Ela parou atrás dele, esperando, enquanto ele imaginava as próximas jogadas em sua partida de xadrez mental. Fugazmente, ele se perguntou se deveria deixá-la ir. Não. O que estava feito estava feito.

"Case-se comigo, Isabella."

"O simples fato de dizer isso não me dá uma escolha, sabia?"

Ele teve vontade de sorrir com a forma irritada como ela disse as palavras, mas não o fez. Ela o observou atentamente por um longo tempo, e ele – um homem que havia feito uma fortuna lendo a verdade nos rostos das pessoas ao redor – não soube dizer o que ela estava pensando. Por um momento, ele achou que ela pudesse recusá-lo, e preparou-se para sua resistência, catalogando o número de sacerdotes que deviam a ele e ao Anjo Caído o suficiente para casar uma noiva contrariada – preparando-se para fazer o que fosse necessário para garantir sua mão. Seria mais uma transgressão a acrescentar à sua sempre crescente lista.

"Você manterá a palavra de ontem à noite? Minhas irmãs permanecerão intocadas por este casamento?"

Mesmo ali, mesmo encarando uma vida inteira com ele, ela pensava nas irmãs. Ela era absurdamente boa demais para ele. Ele ignorou o pensamento.

"Eu manterei minha palavra."

"Exijo uma prova."

Garota inteligente. Claro que não havia qualquer prova e ela tinha razão em duvidar dele. Ele enfiou a mão no bolso e retirou um guinéu desgastado pelos nove anos em que o havia carregado e estendeu a ela.

"Meu amuleto."

Ela pegou a moeda.

"O que devo fazer com isso?"

"Você me devolve quando suas irmãs estiverem casadas."

"Um guinéu?"

"Tem sido suficiente para homens de toda a Grã-Bretanha, querida."

Ela levantou as sobrancelhas.

"E dizem que os homens são o sexo mais inteligente." Ela respirou fundo, enfiando a moeda no bolso, fazendo-o sentir falta do peso dela. "Eu me casarei com você."

Ele assentiu com a cabeça uma vez.

"E o seu noivo?"

Ela hesitou, olhando por cima do ombro dele enquanto pensava nas palavras.

"Ele encontrará outra pessoa", ela disse suavemente, com carinho. Carinho demais. No mesmo instante, Cullen sentiu uma raiva furiosa daquele homem que não a havia protegido, que a deixou sozinha no mundo e que tornou tudo fácil demais para ele aparecer e tomá-la.

Houve um movimento na porta por cima do ombro dele. O pai de Isabella.

Swan evidentemente havia se cansado de esperar que eles saíssem da casa e tinha decidido ir buscá-los. Cullen usou isso como deixa para martelar o último prego em seu caixão matrimonial, mesmo sabendo que a estava usando e que ela não merecia aquilo. Que não tinha importância. Ele levantou o queixo de Isabella e lhe deu mais um único beijo suave nos lábios, tentando não sentir quando ela se deixou dominar pelo toque... quando deu um pequeno suspiro assim que ele levantou um pouco a cabeça... Um rifle apareceu na porta, marcando as palavras do marquês Charlie Swan.

"Maldição, Isabella, o que você fez agora?"

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Caro E,
Meu pai acha que devemos parar de nos escrever. Ele tem certeza de que "rapazes como ele" (querendo dizer você) não têm tempo para "cartas tolas" de "garotas tolas" (querendo dizer eu). Ele diz que você apenas me responde porque foi bem-criado e se sente obrigado a isso. Entendo que já tem quase 16 anos e provavelmente tem coisas mais interessantes a fazer do que escrever para mim, mas lembre-se: eu não tenho essas coisas interessantes. Terei de aceitar a sua piedade.

Tolamente, I.
PS – Ele não está certo, está?
Solar Swan, janeiro de 1816

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Cara I,
O que seu pai não sabe é que a única coisa que quebra a monotonia de Latim, Shakespeare e da ladainha sobre as responsabilidades que garotos como eu deverão ter um dia na Câmara dos Lordes são cartas tolas de meninas tolas. De todas as pessoas, você deveria saber que fui muito malcriado e que raramente me sinto obrigado a algo.

E.
PS – Ele não está certo.
Eton College, janeiro de 1816

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"Seu canalha."

Cullen ergueu os olhos do uísque no pub e encontrou o olhar irritado do futuro sogro. Recostando-se na cadeira, forçou uma expressão vagamente divertida que o havia ajudado a se livrar de adversários muito maiores do que o marquês de Swan, e acenou para a cadeira vazia do outro lado da mesa do pub.

"Papai", ele ironizou, "por favor, faça-me companhia."

Fazia horas que Cullen estava sentado em um canto escuro da taverna, esperando que Swan chegasse com os papéis que lhe devolveriam Falconwell. Enquanto o fim de tarde virava noite, e o ambiente alegre se enchia de risos e conversas, ele esperou ansioso por assinar os papéis, sonhando com o que viria a seguir. Vingança...

Esforçando-se tremendamente para não pensar no fato de que estava noivo, e ainda mais para não pensar na mulher de quem estava noivo – tão séria, inocente e o tipo errado de esposa para ele. Não que ele fizesse a mínima ideia do tipo certo de esposa para ele. Isso era irrelevante. Ele não tinha escolha. A única forma pela qual havia uma chance com Falconwell era através de Isabella, o que a tornava absolutamente a esposa certa para ele. E Swan sabia disso.

O marquês sentou-se, chamando uma atendente com o aceno da imensa mão. Ela foi esperta o bastante para trazer um copo e uma garrafa de uísque com ela, deixando-os rapidamente e encaminhando-se para um local mais alegre – e amistoso. Swan tomou um longo gole e bateu o copo sobre a mesa de carvalho.

"Seu miserável. Isto é chantagem."

Edward fingiu um ar de tédio.

"Tolice. Estou lhe pagando muito bem. Estou tirando sua filha mais velha e solteira das suas mãos."

"Você a fará infeliz."

"Provavelmente."

"Ela não é forte o bastante para você. Você a destruirá."

Cullen conteve-se para não dizer que Isabella era mais forte do que a maioria das mulheres que havia conhecido.

"Você deveria ter levado isso em consideração antes de vinculá-la às minhas terras." Bateu sobre a madeira marcada. "A escritura, Charles. Não tenho a intenção de me casar com a garota sem o documento em minhas mãos. Quero-o agora. Quero os papéis assinados antes que Isabella fique diante de um sacerdote."

"Senão?"

Edward se virou na cadeira, esticando as botas e tirando-as de baixo mesa, cruzando uma perna sobre a outra.

"Senão, Isabella não ficará diante de sacerdote algum."

O olhar de Swan voltou-se rapidamente para ele.

"Você não seria capaz. Isso a destruiria. À mãe dela. A suas irmãs..."

"Então sugiro que pense seriamente em seus próximos passos. Faz nove anos, Swan... Nove longos anos que espero por este momento. Por Falconwell. E se pensa que permitirei que fique no caminho entre mim e a recuperação dessas terras ao marquesado, está redondamente enganado. Ocorre que sou muito amigo do editor do jornal O Escândalo. Uma palavra minha, e ninguém da boa sociedade chegará perto das jovens Swans." Ele fez uma pausa e serviu-se de mais uma bebida, permitindo que a fria ameaça pairasse entre os dois. "Vamos... Experimente..."

Charlie estreitou os olhos.

"Então é assim? Você ameaça tudo o que tenho, com o objetivo de conseguir o que quer?"

Cullen sorriu.

"Eu jogo para ganhar."

"Irônico, que você seja famoso por perder, não?"

A farpa o atingiu de verdade. Não que Edward fosse demonstrar e em vez disso, manteve-se em silêncio, sabendo que não havia nada como o silêncio para abalar um adversário. Swan preencheu o vazio.

"Você é um cretino!" Praguejando, ele enfiou a mão dentro do casaco e retirou um pedaço de papel dobrado.

Cullen sentiu um triunfo intoxicante ao ler o documento. Após o casamento, o que ocorreria no dia seguinte, Falconwell seria dele. Seu único lamento era que o vigário Compton não trabalhasse à noite. Quando Cullen guardou o documento a salvo no próprio bolso, imaginando poder sentir o peso da escritura contra o peito, Swan falou:

"Não admitirei que as irmãs dela sejam arruinadas por isso."

Todos se preocupavam tanto com as irmãs dela. E com Isabella, por que ninguém parecia se preocupar com ela? Cullen ignorou a questão e brincou com Swan – o homem que fez tanto esforço para manter Falconwell fora de suas mãos. Ergueu o copo.

"Irei me casar com Isabella e Falconwell será minha amanhã. Diga-me por que deveria preocupar-me um pouco que fosse pela reputação de suas outras filhas? Elas são problema seu, não?" Ele bebeu o resto do uísque e pôs o copo vazio em cima da mesa.

Charlie inclinou-se sobre a mesa, falando enfaticamente:

"Você é um cretino, e seu pai ficaria arrasado de saber o que se tornou."

Cullen encarou rapidamente Swan nos olhos, observando, de modo estranho, que o marquês não tivesse os mesmos olhos castanhos de Isabella. Em vez disso, seus olhos eram negros e estavam iluminados com uma percepção que Edward conhecia muito bem – a percepção de que havia ferido o adversário. O mais jovem congelou, com uma lembrança espontânea do pai, parado no centro do imenso saguão de Falconwell, de calças e camisa, rindo para o filho.

Os músculos de seu maxilar ficaram tensos.

"Então temos sorte de que ele esteja morto."

Swan pareceu compreender que estava se aproximando perigosamente de uma zona proibida. Relaxou e afastou-se da mesa.

"Os segredos de seu noivado jamais podem ser revelados. Tenho outras duas filhas que precisam se casar. Ninguém pode saber que Isabella foi para um caçador de fortunas."

"Eu tenho o triplo do seu patrimônio, Swan."

O olhar de Charlie ficou sombrio.

"Mas não tinha o patrimônio que desejava, tinha?"

"Tenho agora." Cullen empurrou a cadeira para longe da mesa. "Não está em posição de fazer exigências. Se suas filhas sobreviverem à minha entrada na família, será porque eu concordei em permiti-lo e por nenhum outro motivo."

Swan acompanhou o movimento com o olhar, trincando o maxilar.

"Não! Será porque tenho a única coisa que você deseja mais do que as terras."

Edward olhou para Charlie por um longo momento, as palavras ecoando no canto escuro em que eles estavam, antes de que ele as deixasse de lado.

"Você não pode me dar a única coisa que eu desejo mais do que Falconwell."

"A ruína de William Black."

Vingança... A palavra o atingiu, um sussurro de promessa, e Cullen inclinou-se para frente, lentamente.

"Está mentindo."

"Eu deveria desafiá-lo pela insinuação."

"Não será meu primeiro duelo." Ele esperou. Como Swan não mordeu a isca, disse: "Já pesquisei. Não há nada capaz de destruí-lo".

"Você não procurou nos lugares certos."

Precisava ser uma mentira.

"Você acha que, com o meu alcance, com o alcance do Anjo Caído, não revirei Londres em busca de um sopro de escândalo na podridão de Black?"

"Nem mesmo os arquivos do seu precioso antro teriam isso."

"Eu sei de tudo o que ele fez, todos os lugares onde esteve. Sei mais sobre a vida do sujeito do que ele próprio. E estou lhe dizendo, ele me tirou tudo o que eu tinha e passou os últimos nove anos vivendo uma vida imaculada fora das minhas terras."

Swan enfiou a mão no casaco novamente e retirou outro documento, menor do que o anterior e mais velho.

"Isso aconteceu há muito mais do que nove anos."

Cullen estreitou os olhos para o papel, registrado com o selo de Black. Olhou para o futuro sogro, sentindo o coração disparar no peito, algo assustadoramente parecido com esperança. Não gostou da forma como se prendeu ao silêncio que pairou entre eles. Forçou-se a se acalmar.

"Pensa em me atrair com alguma velha carta?"

"Você quer esta carta, Cullen. Vale uma dúzia dos seus famosos arquivos. E será sua, supondo que mantenha os nomes das minhas meninas fora da sua sujeira."

O marquês nunca foi homem de se conter. Ele dizia exatamente o que pensava, sempre que pensava – resultado de deter os mais veneráveis títulos da nobreza –, e Cullen não conseguiu deixar de admirar o homem por sua franqueza. Ele sabia o que queria e ia atrás.

O que o marquês não sabia era que sua filha mais velha havia negociado exatamente esses termos na noite anterior. Aquele documento, qualquer que fosse, não exigiria pagamento adicional. Mas Swan merecia sua própria punição – punição por ignorar o comportamento de Black, todos aqueles anos antes. Punição por usar Falconwell no mercado de casamentos. Punição que Cullen estava mais do que disposto a administrar.

"Você é um tolo se pensa que concordarei sem saber o que há aí dentro. Construí minha fortuna com base em escândalo, roubando de bolsos de pecado. Eu julgarei se o documento vale meu esforço."

Swan abriu a carta e a depositou lentamente em cima da mesa. Virou-a de frente para Cullen e segurou-a com um dedo. Edward não se conteve. Inclinou-se para frente mais depressa do que gostaria, percorrendo a página com os olhos. Bom Deus... Olhou para cima, encontrando o olhar experiente de Charlie.

"Isso é real?"

O mais velho assentiu duas vezes com a cabeça. Cullen releu o documento, identificando a assinatura inconfundível de Black na parte inferior do papel, embora aquilo tivesse trinta anos. Vinte e nove.

"Por que compartilharia isso? Por que daria a mim?"

"Você não me deixa muita escolha." Swan foi evasivo. "Eu gosto do garoto... Mantive isso à mão porque pensei que Isabella acabaria se casando com ele, e ele precisaria de proteção. Agora as minhas meninas precisam dessa proteção e um pai faz o que deve fazer. Certifique-se de que a reputação de Bella não seja manchada por este casamento e que as outras sejam merecedoras de casamentos decentes, e o documento é seu."

Cullen girou o copo em um círculo lento, observando por um longo tempo a forma como o vidro capturava a luz de velas do pub, antes de olhar de novo para Charles.

"Não esperarei pelos casamentos das garotas."

Swan abaixou a cabeça, subitamente generoso.

"Noivados serão suficientes."

"Não. Ouvi dizer que noivados são de fato perigosos quando se trata das suas filhas."

"Eu deveria ir embora agora mesmo", o mais velho ameaçou.

"Mas não irá. Somos estranhos companheiros, você e eu." Cullen sentou-se novamente na cadeira, saboreando a vitória. "Quero as outras filhas na cidade o mais depressa possível. Tratarei para que elas sejam cortejadas. Elas não serão maculadas pelo casamento da irmã."

"Cortejadas por homens decentes", Swan qualificou. "Ninguém com metade do patrimônio empenhado no Anjo Caído."

"Leve-as para a cidade. Percebo que não estou mais disposto a esperar por minha vingança."

Charlie estreitou os olhos.

"Irei me arrepender de casá-la com você."

Edward empurrou a bebida para trás e virou o copo de cabeça para baixo sobre a mesa de madeira.

"Que pena, então, que não tenha escolha."


Que pena... Será?

Recuperei meus arquivos *suspira* Tinha esquecido meu iD pra acessar a nuvem em que armazenava os dados (preenchimento automático é uma droga por causa disso) e, bem, não foi fácil recuperar. Perdoem a demora, não falharei again rs.