Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.


CAPÍTULO SETE

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"E eu percebi que... Eu não era mais perfeita. Não aos olhos deles."

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Caro E,
Acabei de me despedir e entrei imediatamente para escrever.
Não tenho nada a dizer, na realidade, nada que todas as outras pessoas de Surrey já não tenham dito. Parece tolo dizer "Sinto muito", não parece? É claro que todos sentem muito. É horrível o que aconteceu. No entanto, não sinto muito apenas por sua perda; sinto muito que não tenhamos conseguido conversar enquanto você esteve aqui. Sinto muito que eu não tenha podido comparecer ao funeral... é uma regra estúpida, e eu gostaria de ter nascido homem para poder ter estado lá (pretendo ter uma conversa com o vigário Compton a respeito dessa idiotice). Sinto muito que não tenha podido ser... uma amiga melhor.

Estou aqui, agora, na página, onde garotas são aceitas. Por favor, escreva quando tiver tempo. Ou vontade.

Sua amiga, I.
Solar Swan, abril de 1816

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Sem resposta.

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Certamente nunca houve um trajeto de carruagem mais longo do que aquele – quatro horas intermináveis e mortais de Surrey a Londres.

Lançou um olhar através do interior amplo e escuro do meio de transporte, observando o recém-marido, recostado em seu assento, as pernas compridas estendidas, os olhos fechados, absolutamente imóvel, e tentou acalmar os pensamentos tumultuados, que pareciam estar focados em um punhado de coisas inquietantes de forma extraordinária. Isto é: Ela estava casada. O que levava a... Ela era a marquesa de Cullen. O que explicava por quê... Ela estava viajando em um meio de transporte abarrotado com seus bens e logo estaria em Londres, onde ela viveria, com seu novo marido. O que a trazia ao fato de que... Edward era seu novo marido. O que significava que... Ela teria sua noite de núpcias com Edward. Talvez ele a beijasse novamente. Ele a tocasse novamente... Mais...

Era possível imaginar que ele teria de fazer isso, não? Se os dois estavam casados, era o que maridos e esposas faziam, afinal. Ela tinha esperança. Oh, Deus. A ideia foi o que bastou para que ela desejasse ter coragem de abrir a porta da carruagem e se atirar para fora do veículo. Eles haviam se casado com tanta rapidez e eficiência, que ela mal se recordava da cerimônia – mal se lembrava de prometer amar, confortar, honrar e obedecer, o que provavelmente era melhor, uma vez que a parte do amor na promessa era meio que uma mentira.

Ele havia se casado com ela por suas terras e nada mais. E não importava que ele a houvesse tocado e a feito sentir coisas que ela jamais imaginou que um corpo fosse capaz de sentir. No fim, aquele era precisamente o tipo de casamento que ela havia sido criada para ter – um casamento de conveniência. Um casamento de dever e de propriedade. E ele havia deixado isso mais do que claro.

A carruagem sacolejou sobre um trecho especialmente irregular da estrada, e Bella soltou um gritinho ao quase deslizar para fora do assento. Recompondo-se, ela se endireitou, firmando bem os dois pés no piso do veículo e lançando um olhar para Edward, que não se moveu, exceto abrindo muito pouco os olhos – supostamente para se certificar de que ela não havia se ferido.

Quando teve certeza de que ela não precisava de um médico, fechou os olhos mais uma vez. Ele a estava ignorando, com um silêncio simples e absolutamente perturbador. Ele não conseguia sequer fingir interesse nela. Talvez se não estivesse tão consumida pelo nervosismo com os acontecimentos do dia, pudesse ter conseguido ela própria permanecer quieta – retribuindo o silêncio dele com silêncio. Talvez... Bella jamais saberia, porque foi incapaz de permanecer calada por muito tempo.

"Creio que seria bom aproveitarmos esse tempo para discutirmos nosso plano."

"Nosso plano?"

"O plano para garantir que minhas irmãs tenham uma temporada de sucesso. Lembra-se da sua promessa?"

Algo que ela não conseguiu reconhecer atravessou a expressão dele.

"Eu me lembro da promessa."

"Qual é o plano?"

Ele se espreguiçou, estendendo as pernas ainda mais para o outro lado da carruagem.

"Meu plano é encontrar maridos para suas irmãs."

Ela piscou.

"Quer dizer pretendentes."

"Se assim preferir. Tenho dois homens em mente."

Ela ficou curiosa.

"Como eles são?"

"Nobres."

"E?", ela perguntou.

"Estão no mercado em busca de esposas."

Ele era irritante.

"Eles são corretos e têm características maritais?"

"No sentido de que são homens e solteiros."

Isabella arregalou os olhos. Ele estava falando sério.

"Não são a essas qualidades que me refiro."

"Qualidades."

"As características de um bom marido."

"Vejo que é uma especialista no assunto." Ele meneou a cabeça, ironizando. "Por favor, esclareça-me."

Ela se endireitou no assento, marcando os itens nos dedos enquanto falava.

"Bondade, generosidade, uma pitada de bom humor..."

"Apenas uma pitada? Mau humor, digamos, às terças e quintas-feiras seria aceitável?"

Ela apertou os olhos.

"Bom humor... Um sorriso caloroso". Não resistiu a acrescentar: "Embora, no seu caso, eu aceitaria qualquer sorriso". Ele não sorriu. "Eles têm essas qualidades?" Ele não respondeu. "Minhas irmãs gostarão deles?"

"Não faço ideia."

"Você gosta deles?"

"Particularmente, não."

"Você é um homem obstinado."

"Considere esta uma das minhas qualidades."

Ele se virou, e ela levantou uma sobrancelha na direção dele. Não conseguiu se conter. Ninguém em sua vida jamais a havia irritado tanto quanto aquele homem. Seu marido. Seu marido, que a havia arrancado, sem remorso, de sua vida. Seu marido, com quem concordou em se casar porque não queria que as irmãs sofressem outro golpe em suas reputações. Seu marido, que havia concordado em ajudá-la. Apenas então ela se deu conta de que por ajuda ele se referia a arrumar mais um casamento sem amor. Ou dois. Ela não iria aceitar.

"Primeiro, você nem sabe se esses homens as aceitarão."

"Eles as aceitarão." Ele se recostou no assento e voltou a fechar os olhos.

"Como sabe disso?"

"Porque eles me devem muito dinheiro, e eu lhes perdoarei as dívidas em troca dos casamentos."

O queixo de Isabella caiu.

"Você comprará a fidelidade deles?"

"Não tenho certeza de que fidelidade faça parte da negociação."

Ele disse isso sem abrir os olhos – olhos que permaneceram fechados durante os longos minutos em que ela pensou naquelas palavras terríveis. Ela se inclinou para frente e o cutucou na perna com um dedo, com força, e os olhos dele se abriram. Ela não tinha tempo para comemorar, uma vez que se sentia tão cheia de indignação.

"Não", ela disse, a palavra curta e ríspida dentro da pequena carruagem.

"Não?"

"Não", ela repetiu. "Você me deu sua palavra de que nosso casamento não arruinaria minhas irmãs."

"E não arruinará. Na verdade, casar-se com esses homens as tornariam muito respeitadas na sociedade."

"Casamentos com nobres que lhe devem dinheiro e poderão não ser fiéis as arruinará de outras maneiras. Nas maneiras que importam."

Uma das sobrancelhas escuras dele se levantou naquela expressão irritante que ela estava aprendendo a detestar.

"As maneiras que importam?"

Ela não seria intimidada.

"Sim. As maneiras que importam. Minhas irmãs não terão casamentos baseados em acordos idiotas relacionados à jogatina. Já é ruim o bastante que eu tenha um casamento desses. Elas deverão escolher seus maridos. Seus casamentos deverão ser baseados em mais. Baseados em..." Ela parou, sem querer que ele risse dela.

"Baseados em...?"

Ela não falou. Não daria a ele o prazer de uma resposta. Esperou que ele a pressionasse. Estranhamente, ele não o fez.

"Imagino que tenha um plano para capturar esses homens com qualidades?"

Ela não tinha. Na verdade, não.

"É claro que sim."

"E então?"

"Você volta para a sociedade e prova a todos que nosso casamento não foi forçado."

Ele levantou uma sobrancelha.

"Seu dote incluía minhas terras. Acha que todos não verão que eu a forcei a se casar comigo?"

Ela apertou os lábios, odiando a lógica dele. E disse a primeira coisa que lhe veio à mente. A primeira coisa ridícula e absolutamente insana que lhe veio à mente.

"Devemos fingir que nos amamos."

Ele não demonstrou nada do choque que ela sentiu ao pronunciar as palavras.

"Como foi... eu a vi na praça da cidade e decidi mudar?"

Se era para jogar, que fosse por muito.

"Isso parece... razoável."

A sobrancelha arqueou uma vez mais.

"É mesmo? Acha que as pessoas irão acreditar nisso quando a verdade é que eu a arruinei em uma propriedade abandonada, antes do seu pai atacar a casa com um rifle?"

Ela hesitou.

"Eu não chamaria aquilo de ataque."

"Ele atirou várias vezes contra a minha casa. Se aquilo não é atacar, não sei o que é."

Fazia muito sentido.

"Muito bem... Ele atacou. Mas não é essa a história que iremos contar." Isabella esperava que as palavras saíssem enfaticamente enquanto pedia silenciosamente: Por favor, diga que não. "Para terem a oportunidade de casamentos verdadeiros, elas precisam disso. Você me deu sua palavra. O seu amuleto."

Ele ficou em silêncio por um bom tempo, e ela pensou que ele poderia se recusar, oferecendo casamentos para suas irmãs ou absolutamente nada. Então o que faria? O que poderia fazer agora que estava presa a ele e às suas vontades – seu poder – como seu marido? Finalmente, ele reclinou-se para trás uma vez mais, totalmente irônico ao dizer:

"Então, por favor, descreva nosso conto de fadas. Sou todo ouvidos."

Ela teria dado tudo que lhe era importante por uma única resposta mordaz naquele momento. Claro que nada lhe veio à mente. Em vez disso, ela o ignorou e seguiu em frente, construindo a história.

"Como nos conhecemos durante toda a nossa vida, podemos ter nos reencontrado na Festa de Santo Estêvão."

Ele abriu os olhos, apenas um pouco.

"Talvez seja melhor que nossa história tenha início antes do anúncio de que Falconwell era... parte do meu dote." Bella fingiu examinar uma mancha na capa de viagem, detestando o bolo que sentiu na garganta ao pronunciar aquelas palavras, uma lembrança de seu verdadeiro valor. "Eu sempre gostei do Natal, e a Festa de Santo Estêvão em Coldharbour é bastante... festiva."

"Pudim de figo e tudo o mais, imagino?" A pergunta simplesmente não era uma pergunta.

"Sim. E cantigas natalinas", ela acrescentou.

"Com criancinhas?"

"Sim... Muitas."

"Parece exatamente o tipo de evento a que eu compareceria."

Ela não deixou de perceber o tom de sarcasmo, mas se negou a se sentir intimidada. Lançou um olhar firme para ele e não resistiu em dizer:

"Se algum dia viesse a Falconwell para o Natal, imagino que gostaria muito."

Ele pareceu pensar em responder, mas conteve as palavras, fechou os olhos e reclinou-se para trás uma vez mais.

"Então, lá estava eu, celebrando o Dia de Santo Estêvão, e lá estava você, minha namoradinha de infância."

"Não fomos namoradinhos na infância."

"A verdade é irrelevante. O que é relevante é se as pessoas acreditam na história ou não."

A lógica das palavras era irritante.

"A primeira regra dos canalhas?"

"A primeira regra do jogo."

"Seis ou meia dúzia", ela disse, sarcasticamente.

"Ora, vamos, você acha que alguém se dará o trabalho de confirmar a parte da nossa história que teve início durante a infância?"

Ela resmungou baixo.

"Ninguém fará isso. Além do mais, é a coisa mais próxima da verdade em toda a história."

Era? Ela estaria mentindo se dissesse que jamais havia imaginado casar-se com ele, o primeiro menino que conheceu, e que a fazia sorrir e dar risada quando criança. Mas ele nunca havia imaginado isso, havia? Não tinha importância. Agora, enquanto encarava o homem, era incapaz de encontrar qualquer traço do menino que conheceu um dia... o menino que poderia tê-la considerado doce.

"Então, lá estava você, toda encantadora com seus olhos castanhos, verdadeiramente brilhando às chamas do pudim de figo, e eu não pude suportar mais um instante do meu licencioso, livre e subitamente indesejado estado de solteirice. Em você, vi meu coração, meu propósito, minha própria alma."

Isabella sabia que era ridículo, mas não conseguiu deixar de sentir uma inundação de calor que fez suas bochechas queimarem diante daquelas palavras, pronunciadas baixinho, na intimidade da carruagem.

"Isso... parece bom".

Ele fez um barulho e ela não soube ao certo o que o ruído significava.

"Eu estava usando um vestido de veludo verde."

"Muito apropriado."

Ela o ignorou.

"Você tinha um ramo de azevinho na lapela."

"Um toque de espírito natalino."

"Nós dançamos."

"Uma jiga?"

O tom de ironia dele a arrancou de sua pequena fantasia, lembrando-a da verdade.

"Possivelmente."

Com isso, ele se sentou.

"Ora, vamos, Isabella", ele disse, em tom de repreensão. "Faz apenas poucas semanas, e você não se lembra?"

"Muito bem. Uma dança escocesa."

"Ah. Sim. Muito mais emocionante do que uma jiga."

Ele era mesmo irritante.

"Diga-me, por que eu estava lá, em Coldharbour, celebrando a Festa de Santo Estêvão?"

Ela estava começando a não gostar daquela conversa.

"Não sei."

"Você sabe que eu estava usando um ramo de azevinho na lapela... certamente que pensou em minha motivação para essa história específica?"

Ela detestou a forma como as palavras foram pronunciadas por ele, condescendentes, beirando o desdém. Talvez tenha sido por isso que ela respondeu:

"Você veio para visitar o túmulo dos seus pais."

Ele ficou tenso diante da frase, o único movimento dentro da carruagem sendo o leve balançar dos corpos dos dois, no ritmo das rodas. Ela não recuou.

"Sim. Você faz isso todos os anos no Natal. Deixa rosas sobre a lápide da sua mãe e dálias sobre a do seu pai.

"Faço?" Ela desviou o olhar, mirando para fora da janela. "Eu devo ter um excelente contato com uma estufa próxima."

"Tem sim. Minha irmã mais nova, Philippa, cultiva flores lindas durante todo o ano no Solar Swan."

Ele inclinou-se para frente, sussurrando com ironia.

"A primeira regra da mentira é que apenas contamos mentiras sobre nós mesmos, querida."

"Não é uma mentira. Pippa é horticultora."

Houve um longo silêncio antes dela olhar novamente para ele, descobrindo-o observando-a atentamente.

"Se alguém tivesse visitado o túmulo dos meus pais no Dia de Santo Estêvão, o que teria encontrado lá?"

Ela poderia mentir, mas não queria. Por mais tolo que fosse, queria que ele soubesse que ela pensava nele em todos os Natais... que se preocupava com ele. Que ela se importava. Mesmo que ele não tivesse se dado esse trabalho.

"Rosas e dálias. Exatamente como você as deixa todos os anos."

Então foi a vez de ele olhar pela janela, e ela aproveitou a oportunidade para estudar seus traços, seu maxilar firme, a expressão dura em seus olhos, a forma como os lábios dele – lábios que ela sabia por experiência própria serem cheios, macios e maravilhosos – se apertaram em uma linha reta. Ele estava muito na defensiva, com uma tensão inflexível, e ela desejou que pudesse sacudi-lo para lhe devolver a emoção, para mudar alguma coisa em seu rígido autocontrole.

Houve um tempo em que ele havia sido muito fluido, cheio de movimentos livres. Mas, ao observá-lo, era quase impossível acreditar que se tratasse da mesma pessoa. Ela daria tudo o que tinha para saber o que ele estava pensando naquele momento. Ele não olhou para ela ao falar.

"Bem, você parece ter pensado em tudo. Farei o possível para memorizar a história do nosso amor à primeira vista. Imagino que a contaremos muitas vezes."

Ela hesitou um pouco, e então disse:

"Obrigada, milorde".

Ele virou a cabeça de repente.

"Milorde? Ora, ora, Isabella. Você pretende ser uma esposa cerimoniosa, não?"

"Espera-se que uma esposa demonstre deferência ao marido."

Edward cerrou as sobrancelhas diante daquilo.

"Imagino que tenha sido treinada para comportar-se assim."

"Você se esquece que eu seria uma duquesa."

"Lamento que tenha tido de se contentar com um marquesado maculado."

"Farei um esforço para perseverar", ela respondeu, as palavras secas como areia. Os dois seguiram em silêncio por um longo tempo antes dela dizer: "Você terá de retornar à sociedade. Por minhas irmãs".

"Você está se sentindo bastante confortável fazendo-me exigências."

"Eu me casei com você. Imagino que você possa fazer um ou dois sacrifícios, levando em consideração que abri mão de tudo para que pudesse ter sua terra."

"Seu casamento perfeito, quer dizer?"

Ela se recostou.

"Não precisaria ser perfeito." Ele não disse nada, mas seu olhar perspicaz a fez acrescentar rapidamente: "Não duvido que teria sido mais perfeito do que isso, no entanto".

Jacob não a irritaria nem perto daquilo. Os dois seguiram em silêncio por um longo tempo antes dele dizer:

"Comparecerei aos eventos necessários." Ele estava olhando pela janela, o retrato do tédio. "Começaremos com Tottenham. Ele é o mais próximo de um amigo que tenho."

A descrição era desconcertante. Edward nunca havia sido alguém sem amigos. Era inteligente, animado, encantador e cheio de vida... e todos os que o conheceram na infância o adoravam. Ela o tinha amado. Ele havia sido seu melhor amigo. O que havia lhe acontecido? Como havia se tornado aquele homem frio e sombrio? Ela afastou o pensamento. O visconde de Tottenham era um dos solteiros mais cobiçados da sociedade, com uma mãe irrepreensível.

"Bela escolha. Ele lhe deve dinheiro?"

"Não." Fez-se silêncio. "Jantaremos com ele esta semana."

"Tem um convite?"

"Vamos terminar com isto antes que comece, sim? Sou proprietário do mais lucrativo cassino de Londres. Há poucos homens na Grã-Bretanha que não conseguem tempo para falar comigo."

"E as esposas deles? Acha que elas não o julgarão?"

"Acho que como todas me querem em suas camas, sempre encontrarão espaço para mim em suas salas de estar."

Ela virou a cabeça de repente, diante daquelas palavras, da indelicadeza delas. Do fato de ele ter coragem de dizer aquilo à esposa. E da ideia de que ele passaria tempo nas camas de outras esposas.

"Creio que você esteja enganado quanto ao valor da sua presença na alcova de uma dama."

Ele levantou uma sobrancelha.

"Creio que pensará diferente depois desta noite."

O espectro da noite de núpcias se agigantou com aquela declaração, e Isabella detestou o fato de que seu pulso disparou mesmo que ela quisesse cuspir nele.

"Sim... Bem, como quer que enfeitice as mulheres da sociedade, posso garantir que elas são muito mais criteriosas quanto suas companhias em público do que no privado. E você não é bom o bastante."

Ela não pôde acreditar que havia dito aquilo. Mas ele a havia deixado muito, muito consternado. Quando Cullen virou-se para ela, havia algo poderoso em seu olhar. Algo parecido com admiração.

"Fico feliz que tenha descoberto a verdade, esposa. É melhor abandonar qualquer falsa esperança de que eu possa ser um homem decente, ou um marido decente, no começo de nosso tempo juntos." Ele fez uma pausa, espanando uma sujeira da manga do casaco. "Não preciso das mulheres."

"As mulheres são as guardiãs da sociedade. Na verdade, você precisa delas."

"Por isso tenho você."

"Eu não sou suficiente."

"Por que não? Não é a dama inglesa perfeita?"

Bella cerrou os dentes diante da descrição e da forma como ressaltou seu antigo e atual objetivo: sua absoluta falta de valor.

"Estou longe de ser. Faz anos que fui a bela do baile."

"É a marquesa de Cullen agora. Não tenho dúvidas de que logo irá se tornar uma pessoa de interesse, querida."

Ela estreitou os olhos para ele.

"Não sou sua querida."

Ele arregalou os olhos.

"Você me feriu. Não lembra do Dia de Santo Estêvão? Nossa dança escocesa não significou nada para você?"

Ela não lamentaria se ele caísse pela lateral da carruagem e rolasse para dentro de uma vala. Na verdade, se isso acontecesse, ela nem pararia para recolher os restos. Não se importava que Falconwell tivesse voltado para ele. Mas se importava com suas irmãs, e não permitiria que a reputação delas fosse manchada pela de seu marido.

"Terá de provar seu valor novamente. Eles terão de vê-lo. Acreditar que eu o vejo."

"Valho três vezes mais do que os homens mais respeitados da sociedade."

Ela sacudiu a cabeça.

"Refiro-me ao seu valor como marquês. Como homem."

"Qualquer um que conheça minha história pode lhe dizer que não tenho muito valor como nenhuma dessas coisas. Perdi tudo há uma década. Não ficou sabendo?"

"Fiquei." Levantou o queixo para encará-lo. "E você está disposto a permitir que um pecadilho tolo e infantil manche sua imagem pelo resto da eternidade?

Ele se revirou, inclinando-se para ela, perigoso e ameaçador. Ela se manteve na mesma posição, recusando-se a recuar ou desviar o olhar.

"Eu perdi tudo. O equivalente a centenas de milhares de libras. Em uma carta. Foi colossal. Uma derrota de entrar para os livros de história. E você chama isso de pecadilho?"

"Então talvez não tenha sido um pecadilho. Mas tolo, certamente."

Isabella não fazia ideia de onde vinham as palavras, mas elas vinham de qualquer maneira, e ela soube que suas opções eram escancará-las ou demonstrar seu medo. Milagrosamente, manteve o olhar firme sobre ele. A voz dele ficou baixa, quase um grunhido.

"Você acabou de me chamar de tolo?"

O coração dela estava disparado – batendo tão forte, que Bella se surpreendeu que ele não pudesse ouvi-lo dentro da carruagem. Ela acenou uma das mãos, esperando parecer indiferente.

"Não é esta a questão. Se pretendemos convencer a sociedade de que minhas irmãs são merecedoras de um casamento, você precisa provar ser um acompanhante mais do que merecedor para elas." Ela fez uma pausa. "Você precisa fazer reparações."

Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Longo o bastante para ela pensar que talvez tivesse ido longe demais.

"Reparações..."

Ela assentiu com a cabeça.

"Eu o ajudarei."

"Você sempre negocia tão bem?"

"De forma alguma. Na verdade, eu nunca negocio. Simplesmente entrego os pontos."

Ele estreitou o olhar.

"Você não entregou os pontos uma vez sequer em três dias."

Ela certamente vinha sendo menos obediente do que o normal.

"Não é verdade. Concordei em me casar com você, não?"

Ela gostou daquelas palavras, da forma como a tornaram tão ciente dele. Seu marido.

"O que mais?"

"Milorde?"

"Descobri que não aprecio as surpresas constantes que surgem de nosso acordo. Vamos pôr as cartas na mesa, sim? Você deseja uma temporada de sucesso para suas irmãs, bons pretendentes para elas, deseja meu retorno à sociedade... O que mais?"

"Não há nada mais."

Um relance de algo – desagrado, talvez? – cruzou o rosto dele.

"Se seu oponente torna impossível que perca, Isabella, deve apostar."

"Outra regra do jogo?"

"Outra regra dos canalhas que também serve a maridos. Duas vezes, a maridos como eu."

Maridos como ele. Ela se perguntou o que aquilo queria dizer; mas, antes que pudesse perguntar, ele continuou:

"O que mais, Isabella? Diga agora, ou cale-se para sempre."

A pergunta era tão ampla, tão aberta... e tinha uma infinidade de respostas. Ela hesitou, a mente disparada. O que ela queria? Realmente queria. O que ela queria dele? Mais... A palavra passou sussurrada por ela, não simplesmente um eco daquela noite que já parecia tão distante... aquela noite que havia mudado tudo, mas uma oportunidade. Uma chance de ser mais do que uma marionete manipulada por ele, pela família e pela sociedade. Uma chance de ter experiências extraordinárias. Uma vida extraordinária.

Ela o encarou nos olhos, de tons dourados e verdes.

"Talvez não goste."

"Estou certo de que não gostarei."

"Mas, como perguntou..."

"É culpa minha, posso garantir."

Ela apertou os lábios.

"Quero mais do que uma vida simples e decente como esposa simples e decente."

Isso pareceu fazê-lo recuar.

"O que isso quer dizer?"

"Passei a vida sendo uma jovem-modelo... passando a ser uma solteirona-modelo. E foi... terrível." Suas próprias palavras a surpreenderam. Ela jamais pensou em sua vida anterior como terrível. Jamais havia imaginado qualquer outra coisa. Até agora. Até ele. E ele estava lhe oferecendo uma chance de mudar tudo. "Quero um tipo diferente de casamento. Um casamento em que eu tenha permissão de ser mais do que uma dama que passa os dias bordando e fazendo caridade e que sabe pouco mais sobre o marido do que qual é sua sobremesa preferida."

"Não me importo se você borda ou não e, se minha lembrança está correta, você não combina muito com essa atividade."

Isabella sorriu.

"Ótimo começo."

"Se jamais dedicar um segundo do seu tempo à caridade, eu sinceramente não imagino que daria a menor importância."

O sorriso se ampliou.

"Também promissor. E suponho que não tenha uma sobremesa preferida?"

"Nenhuma em especial, não." Ele fez uma pausa, observando-a. "Há mais, imagino?"

Ela gostou do som da palavra saindo dos lábios dele. Sua ondulação. Sua promessa.

"Espero que sim. E gostaria muito que você me mostrasse."

O olhar dele escureceu quase que imediatamente para um encantador verde-musgo.

"Eu certamente não a estou entendendo."

"É bem simples, na verdade. Eu quero a aventura."

"Qual aventura?"

"A que você me prometeu em Falconwell."

Ele se recostou, um brilho divertido nos olhos – um brilho que ela reconheceu da infância dos dois.

"Diga a sua aventura, Lady Isabella."

"Lady Cullen, por favor."

Ele arregalou ligeiramente os olhos diante da correção. Apenas o bastante para ela perceber sua surpresa, antes de baixar a cabeça.

"Lady Cullen, então."

Ela gostou do som do nome, embora não devesse. Embora ele não lhe desse qualquer motivo para isso.

"Gostaria de conhecer seu cassino."

"Por quê?"

"Parece que seria uma aventura e imagino que mulheres não frequentem o local..."

"Não mulheres como você."

Mulheres como você. Ela não gostou da insinuação da afirmação. A insinuação de que ela era simples, tediosa e dificilmente faria qualquer coisa aventureira... jamais. Ela se manteve firme.

"Ainda assim, gostaria de ir." Pensou por instante, e acrescentou: "À noite".

"Por que o horário importaria?"

"Eventos à noite são muito mais aventureiros. Muito mais ilícitos."

"O que você sabe sobre ilicitude?"

"Não muita coisa. Mas tenho confiança de que aprenderei rápido." Bella sentiu o coração disparar com a lembrança da primeira noite dos dois juntos – do prazer que sentiu nas mãos dele –, antes de recordar a forma como ele a havia deixado naquela noite, depois de assegurar o casamento. Limpou a garganta, subitamente desconcertada. "Que sorte eu ter um marido capaz de me oferecer uma turnê por essas emoções escusas."

"Que sorte, realmente", ele disse com a voz arrastada. "Se ao menos seu desejo por aventura não fosse diretamente de encontro à respeitabilidade com que insiste que eu me cubra, eu atenderia de bom grado. Infelizmente, devo recusar."

Isabella sentiu raiva.

Sua oferta por mais não havia sido uma oferta real. Ele estava disposto a atender a seus caprichos, a pagar um preço pelo casamento deles, por Falconwell – mas apenas o preço estabelecido por ele. E não era diferente de nenhum dos outros. De seu pai, de seu noivo, de qualquer dos outros cavalheiros que tentaram cortejá-la nos anos seguintes. E isso ela não iria aceitar. Ela havia aceitado um casamento forçado por eventos que não podia controlar, com um conhecido canalha, mas não aceitaria ser tratada como um peão. Não quando ele a incentivava tanto a ser uma jogadora.

"Foi parte do nosso acordo. Você me prometeu na noite em que concordei me casar com você. Disse-me que eu poderia ter a vida que quisesse, as aventuras que desejasse. Você me prometeu que me permitiria explorar, que assumir o título maculado de marquesa de Cullen poderia arruinar minha reputação, mas me daria o mundo."

"Isso foi antes de você insistir na minha respeitabilidade." Ele se inclinou para frente. "Deseja suas irmãs respeitavelmente casadas. Não aposte o que não está disposta a perder, querida. Terceira regra do jogo."

"E dos canalhas", ela disse, irritada.

"Também." Ele a observou por um longo tempo, como se estivesse testando sua raiva. "Seu problema é não saber o que realmente quer. Você sabe o que deveria querer, mas não é o mesmo que desejo real, é?"

Edward era um homem realmente muito irritante.

"Pelo menos me conte a respeito."

"A respeito do quê?"

"Do seu antro."

Ele cruzou os braços sobre o peito.

"Imagino que seja muito semelhante a um longo trajeto de carruagem, com uma noiva com um recém-descoberto gosto por aventura."

Ela riu, surpresa pela piada.

"Não esse tipo de antro. O seu antro de jogatina."

"O que gostaria de saber a respeito dele?"

"Quero saber de tudo." Ela sorriu para ele de modo escancarado. "Você não precisaria me falar a respeito dele se me levasse até lá para conhecê-lo ao vivo."

O canto dos lábios de Edward levantou uma vez, muito ligeiramente. Ela percebeu. Ele entortou uma sobrancelha.

"Você é teimosa." Ele a encarou por um longo tempo, pensando na resposta que daria. Enfim, disse: "Eu levarei você". Ela deu um largo sorriso, e ele se apressou a acrescentar: "Uma única vez".

Era o bastante.

"É muito excitante?"

"Se você gosta de jogar...", ele disse apenas, e Isabella franziu o nariz.

"Eu nunca joguei."

"Tolice. Você tem apostado todos os minutos em que passamos juntos. Primeiro por suas irmãs e, hoje, por si mesma."

Ela pensou no que ele disse.

"E o lugar se chama O Anjo?"

"Anjo Caído."

Ela pensou no nome por um longo tempo.

"Você escolheu esse nome?"

"Não."

"Parece adequado para você."

"Imagino que tenha sido por isso que Jasper o escolheu. É adequado para todos nós."

"Todos vocês?"

Ele suspirou, abrindo um olho e a encarando.

"Você é voraz."

"Prefiro curiosa."

Ele se sentou, mexendo na bainha de uma manga.

"Somos quatro."

"E todos vocês são... caídos?" A última palavra saiu em um sussurro.

Os olhos verdes dele encontraram os dela dentro da carruagem escura.

"De certo modo."

Ela pensou na resposta, a forma como ele a pronunciou sem vergonha nem orgulho. Apenas com simples e absoluta sinceridade. E se deu conta de que havia algo muito tentador na ideia de ele ser um arruinado... de ser um canalha. De ter perdido tudo – centenas de milhares de libras! – e recuperado tudo em tão pouco tempo. Ele, de alguma forma, havia reconstruído tudo. Sem ajuda da sociedade. Com nada além de sua vontade incansável e de seu comprometimento ardoroso por sua causa. Não apenas tentador. Heroico. Ela o encarou, subitamente enxergando-o sob uma luz completamente nova. Ele se lançou para frente, e a carruagem tornou-se imediatamente pequena.

"Não faça isso."

Ela se recostou, afastando-se dele.

"Não fazer o quê?"

"Posso ver você romantizando a situação. Posso vê-la transformando o Anjo Caído em algo que não é. Transformando a mim em algo que não sou."

Ela sacudiu a cabeça, desconcertada pela forma como ele havia lido seus pensamentos.

"Eu não estava..."

"É claro que estava. Acha que não vi a mesma expressão nos olhos de uma dezena de outras mulheres? De centenas delas? Não faça isso", ele disse com firmeza. "Você apenas se decepcionará."

Fez-se silêncio. Ele descruzou as pernas compridas, de botas, e as cruzou outra vez, um tornozelo sobre o outro, antes de fechar os olhos novamente. Isolando-a. Ela o observou em silêncio, maravilhada com sua imobilidade, como se os dois não passassem de companheiros de viagem, como se aquele não fosse nada além de um trajeto de carruagem comum. E talvez ele tivesse razão, porque não havia nada naquele homem que parecesse marital, e ela certamente não se sentia nem um pouco como esposa.

Ele não era diferente do duque, aquele novo Edward adulto, que não era de modo algum o garoto que ela conheceu um dia. Ela procurou no rosto dele por algum sinal do velho amigo, pelas covinhas profundas em suas bochechas, pelos sorrisos fáceis e amigáveis, pelo riso desbragado que sempre lhe trazia problemas.

Ele não estava ali. Ele havia sido substituído por aquele homem frio, duro e inflexível que ceifava pedaços das vidas de pessoas ao seu redor e pegava o que queria sem se importar. Seu marido. De repente, Isabella sentiu-se muito solitária – mais solitária do que jamais havia se sentido antes – ali naquela carruagem com aquele estranho, longe dos pais, das irmãs, de Jacob e de tudo o que conhecia, sacolejando a caminho de Londres e do que estava destinado a ser o dia mais estranho de sua vida.

Tudo havia mudado naquela manhã. Tudo. Para todo o sempre, sua vida seria pensada como dividida em duas partes – antes e depois de se casar. Antes, havia a Casa Swan, o Solar Swan e sua família. E depois, havia... Edward.

Edward e mais ninguém. Edward e sabe-se lá o que mais. Edward, um estranho transformado em marido. Sentiu uma dor se instalar em seu peito, tristeza, talvez? Não. Desejo. Casada. Respirou fundo, e expulsou a sensação de si, a expiração ressoando ao redor da carruagem. Ele abriu os olhos, encarando-a antes que ela conseguisse fingir que estava dormindo.

"O que foi?"

Ela imaginou que deveria ficar tocada pelo fato dele ter sequer perguntado, mas, na verdade, ela se viu incapaz de sentir qualquer coisa além de incômodo com o tom insensível. Ele não compreendia que aquela era uma tarde bastante complicada em termos de emoções?

"Pode reivindicar direito sobre minha vida, meu dote e minha pessoa, milorde. Mas ainda sou dona dos meus pensamentos, não?"

Edward a encarou por um longo tempo, e Bella teve a distinta e desconfortável impressão de que ele era capaz de ler seus pensamentos.

"Por que você precisou de um dote tão grande?"

"Perdão?"

"Por que estava solteira?"

Ela riu. Não conseguiu se conter.

"Certamente é a única pessoa na Grã-Bretanha que não conhece a história." Como ele não respondeu, ela preencheu o silêncio com a verdade. "Fui vítima do pior tipo de rompimento de noivado."

"Existem 'tipos' de rompimentos de noivado?"

"Ah, sim. O meu foi especialmente ruim. Não a parte do rompimento... as circunstâncias que me levaram a rompê-lo. Mas o resto... o casamento com uma mulher a quem ele amava em uma semana? Isso não foi muito cortês. Levei anos para aprender a ignorar os cochichos."

"Sobre o que as pessoas cochichavam?"

"Ah..., por que eu – uma noiva inglesa perfeita, mimada, dotada, nobre e tudo mais – fui incapaz de manter o controle sobre um duque por sequer um mês."

"E? Por que você foi incapaz disso?"

Ela desviou o olhar dele, sem conseguir responder diretamente.

"Ele estava loucamente apaixonado por outra. Parece mesmo que o amor vence todas as coisas. Inclusive casamentos aristocráticos."

"Você acredita nisso?"

"Acredito. Eu os vi juntos. Eles são..." ela procurou pela palavra. "Perfeitos." Como ele não disse nada, ela continuou: "Pelo menos eu gosto de pensar assim".

"Por que isso lhe importa?"

"Imagino que não deveria me importar... mas gosto de pensar que se eles não fossem perfeitos juntos... se não se amassem tanto... ele não teria feito o que fez e..."

"E você estaria casada."

Ela olhou para ele, um sorriso irônico nos lábios.

"Estou casada mesmo assim."

"Mas você teria o casamento que foi criada para ter em vez deste, um escândalo esperando para ser descoberto."

"Eu não sabia, mas aquele também era um escândalo esperando para ser descoberto." Diante do olhar questionador dele, ela respondeu: "A irmã do duque... Ela era solteira, não havia sequer sido apresentada à sociedade, e estava esperando um filho. Ele queria que nosso casamento garantisse que a Casa de Leighton tivesse mais do que o escândalo da irmã".

"Ele planejava usar você para encobrir o escândalo? Sem lhe contar?"

"Isso é diferente de me usar por dinheiro? Ou por terras?"

"É claro que é diferente. Eu não menti."

Era verdade, e por algum motivo, isso importava. O suficiente para fazê-la perceber que não trocaria este casamento pelo outro de tantos anos antes.

Estava ficando frio na carruagem, e ela arrumou suas saias, tentando arrancar o máximo do restante de calor da pedra aquecida a seus pés. A ação lhe conseguiu tempo para pensar.

"Minhas irmãs, Victória e Valerie?" Ela esperou que Edward se lembrasse

das gêmeas. Quando ele assentiu com a cabeça, continuou: "A primeira temporada delas foi imediatamente depois do meu escândalo e elas sofreram por isso. Minha mãe estava tão apavorada que elas ficassem marcadas por minha tragédia, que instou-as a aceitar os primeiros pedidos de casamento que receberam. Victória casou-se com um conde mais velho, desesperado por um herdeiro, e Valerie, com um visconde, bonito, mas com mais dinheiro do que juízo. Não sei se são felizes... mas não imagino que jamais tenham esperado ser. Não depois que o casamento se tornou uma possibilidade real". Ela fez uma pausa, pensando. "Todas sabíamos como as coisas funcionavam. Não fomos criadas para acreditar que o casamento fosse qualquer coisa além de um arranjo de negócios, mas eu tornei impossível que elas conseguissem mais."

Ela continuou falando, não compreendendo inteiramente por que sentia que devia contar toda a história a ele.

"Meu casamento era para ser o mais planejado e mais prático de todos. Eu deveria me tornar a duquesa de Leighton, manter-me quieta, obedecer meu marido e dar à luz o próximo duque de Leighton. E eu o teria feito satisfeita..." Ela encolheu um ombro ligeiramente. "Mas o duque... ele tinha outros planos."

"Você escapou."

Nunca ninguém havia se referido ao fato dessa forma. Ela jamais admitiu a tranquilidade que sentiu com a dissolução do compromisso, ainda que seu mundo tivesse desabado ao seu redor. Ela jamais gostaria que sua mãe lhe acusasse de ser egoísta. Ainda agora, não conseguiu se permitir concordar com Edward.

"Não sei ao certo se a maioria das mulheres consideraria o que aconteceu comigo como escapar. É curioso como uma coisinha pequena como um noivado rompido pode mudar tudo."

"Não tão pequena, imagino."

Ela olhou para Edward novamente, percebendo que ele estava prestando muita atenção a ela.

"Não... Suponho que não."

"Como isso a mudou?"

"Eu não era mais um prêmio. Não era mais a noiva aristocrática ideal." Passou as mãos sobre as saias, alisando as dobras que apareceram durante a viagem. "Eu não era mais perfeita. Não aos olhos deles."

"Pela minha experiência, a perfeição aos olhos da sociedade é altamente superestimada." Ele a estava encarando, os olhos verdes cintilando com algo que ela não conseguiu identificar.

"É fácil para você dizer isso. Você se afastou da sociedade."

"Todas essas coisas... tudo o que você acabou de dizer... foi assim que seu noivado rompido a mudou para a sociedade. Como ele mudou você, Isabella?"

A pergunta a fez pensar. Durante todos os anos desde que o duque de Leighton havia causado o maior escândalo de todos os tempos e destruído qualquer chance de Isabella tornar-se sua duquesa, ela jamais se perguntou como aquilo a havia mudado. Mas agora, olhando para seu novo marido do outro lado da carruagem – um homem que a havia abordado no meio da madrugada e com quem se casou apenas dias depois –, ela foi percorrida pela verdade. O rompimento havia tornado a felicidade uma possibilidade. Ela descartou o pensamento e inclinou-se para frente rapidamente, quase que ansiosa.

"Eu...", ela parou.

"Diga."

"Não tem mais importância."

"Não mais... Por minha causa?"

Eu nunca fui destinada a ter o que eles têm. Ela pensou cuidadosamente em suas palavras.

"O rompimento me fez perceber que o casamento não precisava ser um negócio. O duque... ele ama sua esposa loucamente. O casamento deles... não tem nada de tranquilo e sóbrio."

"E você queria isso?"

Apenas depois de saber que era uma opção. Mas isso não tinha importância. Ela encolheu os ombros.

"Não importa o que eu queria, importa? Agora tenho meu casamento."

Ela tiritou os dentes ao dizer isso, e ele resmungou uma desaprovação, mexendo-se e indo até o outro lado da carruagem para sentar-se ao lado dela.

"Você está com frio." Ele passou um braço comprido ao redor dos ombros dela, puxando-a para perto de si, liberando calor em ondas. "Aqui", ele acrescentou, puxando um cobertor ao redor deles, "isso irá ajudar."

Ela se aconchegou, tentando não se lembrar da última vez em que havia estado tão próxima a ele.

"Parece estar sempre dividindo seus cobertores comigo, milorde."

"Se não compartilho meus cobertores, você os rouba."

Ela não conseguiu se conter, e riu. Os dois seguiram em silêncio por um longo tempo antes dele falar novamente:

"Então, durante todos esses anos, você vinha esperando por um casamento feliz."

"Não sei se esperando é a palavra que eu usaria. Desejando é mais adequado." Cullen não respondeu, e ela ficou mexendo no botão do casaco dele.

"E o seu noivo, aquele de quem eu a roubei, teria dado esse casamento feliz a você?"

Talvez. Talvez não. Ela deveria contar a ele a verdade sobre Jake. Que os dois nunca estiveram realmente noivos. Mas alguma coisa a impedia de fazer isso.

"Não vale a pena pensar nisso agora. Mas eu não serei culpada por mais dois casamentos infelizes. Não engano a mim mesma pensando que minhas irmãs poderiam encontrar amor, mas elas poderiam ser felizes, não? Poderiam encontrar alguém que combinasse com elas... ou talvez isso seja pedir muito?"

"Eu não sei, sinceramente", ele disse, deslizando uma das mãos ao redor dela, puxando-a para perto, enquanto a carruagem sacolejava para a ponte que os levaria por sobre o Tâmisa e para dentro de Londres. "Não sou o tipo de homem que compreende como as pessoas combinam."

Ela não deveria apreciar a sensação do braço dele ao seu redor, mas não pôde deixar de se apoiar em seu calor, fingindo, por um instante fugaz, que aquela conversa tranquila era a primeira de muitas. A mão dele estava deslizando lentamente para cima e para baixo no braço dela, transferindo calor – e algo mais maravilhoso – a ela, a cada gesto carinhoso e encantador.

"Pippa está praticamente noiva de Lorde Castleton e esperamos que ele a peça em casamento dentro de dias, após o retorno dela a Londres."

A mão dele parou por um instante antes de continuar seu percurso longo e lento.

"Como ela e Castleton vieram a se conhecer?"

Ela pensou no conde simples e pouco inspirador.

"Da mesma forma que ocorre com qualquer um, na verdade. Bailes, jantares, danças. Ele parece agradável o suficiente, mas... Não gosto da ideia dele com Pippa."

"Por que não?",

"Há quem diga que ela é peculiar, mas não é. Ela é apenas estudiosa, adora ciências. É fascinada pelo funcionamento das coisas. Ele não parece ser capaz de acompanhá-la, mas, sinceramente? Não creio que ela dê a menor importância de uma forma ou outra sobre se vai se casar, ou com quem. Desde que tenha uma biblioteca e alguns cães, ela construirá uma felicidade para si. Eu apenas gostaria que pudesse encontrar alguém mais... bem, detesto parecer cruel, mas... inteligente."

"Mmm." Edward foi evasivo. "E a sua outra irmã?"

"Olivia é muito linda", ela respondeu.

"Então parece que ela combinará com a maioria dos homens muito bem."

Isabella endireitou-se.

"É tão simples assim?"

Ele a encarou.

"Beleza ajuda."

Isabella jamais seria considerada bonita. Simples, sim. Passável, até, em um bom dia, com uma roupa nova. Mas nunca bonita. Mesmo quando estava para se tornar duquesa de Leighton, não era bonita. Era apenas... ideal. Desprezou a honestidade nas palavras de Edward. Ninguém gostava de ser lembrada de que havia sido trocada por uma mulher mais bonita.

"Bem, Olivia é linda, e sabe disso..."

"Ela parece encantadora."

Bella ignorou o tom irônico dele.

"...e precisará de um homem que a trate muito, muito bem. Que tenha muito dinheiro e não se importe em gastar para mimá-la."

"Isso me parece totalmente o oposto do que Olivia precisa."

"Não é. Você verá."

Fez-se silêncio, e ela não se importou, aninhando-se no calor dele, adorando a sensação do corpo dele contra o seu, do calor dele tornando a carruagem infinitamente mais confortável. Quando o balançar da carruagem estava prestes a fazê-la cair no sono, ele falou.

"E você?"

Ela abriu os olhos.

"Eu?"

"Sim. Você. Que tipo de homem combinaria com você?"

Ela observou a forma como o cobertor levantava e abaixava no peito dele com a respiração, os movimentos demorados e constantes acalmando-a de uma maneira estranha.

Eu gostaria que você combinasse comigo. Ele era o marido dela, afinal. Era apenas natural que ela imaginasse que ele poderia ser mais do que uma companhia fugaz. Mais do que um conhecido. Mais do que um amigo. Mais do que o homem frio e duro que ela passou a esperar que ele fosse. Ela não achava ruim aquele Edward, o que estava próximo dela, aquecendo-a, conversando com ela. Claro que não disse nada disso. Preferiu responder:

"Isso não tem mais importância agora, não é?"

"E se tivesse?" Ele não ia deixá-la evitar a pergunta.

Quer tenha sido pelo calor, pela tranquilidade, pela viagem ou pelo homem, ela respondeu:

"Imagino que eu gostaria de alguém interessante... alguém gentil... alguém disposto a me mostrar..."

Como viver. Ela não podia dizer isso. Ele a expulsaria da carruagem de tanto rir.

"Alguém com quem dançar... com quem dar risada... alguém com quem me importar." Alguém que se importasse comigo.

"Alguém como o seu noivo?"

Ela pensou em Jacob. Por um rápido instante, pensou em dizer a Edward que o homem não identificado a quem ele se referia era o amigo que ambos conheciam desde sempre. O filho do homem que havia tirado tudo dele. Mas ela não queria perturbá-lo, não enquanto os dois estavam tranquilos e quentes, e ela podia fingir que gostavam da companhia um do outro. Então, em vez disso, ela sussurrou:

"Gostaria que fosse alguém como o meu marido."

Ele ficou em silêncio por um longo tempo, longo o suficiente para ela se perguntar se ele a havia escutado. Quando arriscou espiá-lo discretamente, viu que ele a estava encarando com uma atenção inquietante, os olhos verdes quase dourados sob a luz fraca da carruagem. Por um instante fugaz, ela pensou que ele poderia beijá-la. Isabella desejou que ele a beijasse. Sentiu um calorão no rosto diante daquele pensamento e virou-se para o outro lado rapidamente, voltando a cabeça para o peito, fechando bem os olhos e desejando que aquele momento passasse – junto com sua tolice.

Não seria tão ruim se os dois de fato combinassem.


Como alguém disse nas reviews, esse Edward é como qualquer outro homem daquela época. Infelizmente, sabemos como as mulheres eram encaradas: como meios para os fins. Então, por mais que o comportamento do Edward seja horrível, precisamos lembrar que era bem comum agir assim. A maior questão é: a Bellinha vai conquistar esse canalha? rsrsrs

Beijinhos e até a próxima sexta!