Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.
CAPÍTULO NOVE
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"Na Mansão do Diabo, quer dizer?"
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Caro E,
Escrevo de uma carruagem, onde passei os últimos seis dias, com as minhas quatro irmãs e minha mãe, rodando pelo norte em visita à tia Hester (de quem deve se recordar de minha última carta). Não consigo imaginar o que pode ter se passado pela cabeça dos romanos para prosseguirem a marcha ao norte a fim de construir a Muralha de Adriano. Não deviam ter irmãs, ou não teriam conseguido atravessar a Toscana.
Sua, perseverante, I.
Em algum lugar da Grande Estrada do Norte, junho de 1816
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Sem resposta.
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Ele a havia deixado...
Isabella levou um quarto de hora para recuperar os sentidos, parada na entrada da casa londrina de Edward, junto com diversas pilhas de pertences seus.
Ele a havia deixado, sumariamente, com um simples "Adeus". Isabella ficou olhando fixamente para a imensa porta de carvalho através da qual ele havia partido, por mais tempo do que ela gostaria de admitir, lutando contra diversas verdades-chaves. Ele a havia deixado, em sua primeira noite na casa dele em Londres, sem sequer apresentá-la aos criados antes de partir. Na noite de núpcias.
Ela não queria pensar demais nessa parte.
Em vez disso, focou-se no fato de que estava parada feito uma tola no saguão de entrada da residência de seu marido, sem acompanhante exceto por dois lacaios de aparência muito jovem, que pareciam inseguros quanto a seus verdadeiros papéis naquele momento. Bella não tinha certeza sobre se deveria se reconfortar com a ideia de que eles não cruzavam frequentemente com mulheres solitárias naquela residência ou se deveria sentir-se ofendida que eles não a tivessem levado a uma sala de espera enquanto elaboravam um plano a seu respeito. Forçou um sorriso e dirigiu-se ao mais velho dos dois – que não devia ter mais do que 15 anos –, desesperado para servir.
"Suponho que a casa tenha uma governanta?"
Viu uma onda de alívio tomar conta do jovem e sentiu um pouco de inveja. Desejava saber como se comportar naquela situação.
"Sim, senhora."
"Excelente. Será que poderia chamá-la?"
O lacaio fez uma reverência, e mais outra, evidentemente ansioso por fazer o melhor possível.
"Sim, senhora. Como desejar, senhora." Saiu como um raio, e o colega parecia mais e mais desconfortável a cada minuto.
Ela conhecia a sensação. Mas o simples fato de estar completamente insegura não significava que o pobre garoto parado à sua frente precisava sofrer da mesma forma.
"Não precisa permanecer aqui", ela disse com um sorriso encorajador. "Estou certa de que a governanta chegará em seguida."
O lacaio – jovem demais para ser um lacaio, na verdade – resmungou uma palavra de concordância quase que imediatamente. Isabella soltou um longo suspiro e avaliou a entrada da residência, toda de mármore e dourado, luxuosa e no auge da moda – um pouco extravagante demais para seu gosto, mas imediatamente compreendeu a decoração. Edward podia ter perdido tudo em um infame jogo de azar, mas havia se recuperado e multiplicado por vinte.
Qualquer pessoa que entrasse em sua casa veria isso.
Sentiu um aperto no peito ao pensar no jovem marquês trabalhando tão duro para recuperar sua fortuna. Que força devia ter sido necessária... que comprometimento. Era uma pena que não tivesse o mesmo comprometimento em relação à esposa. Afastou o pensamento, encarando o imenso baú que havia chegado junto com a carruagem deles naquela noite. Bem, se ela não ia ser colocada em uma sala, era melhor ficar mais confortável. Desabotoou a capa de viagem e se sentou sobre a bagagem, imaginando se talvez fosse morar ali... no saguão.
Então, percebeu uma comoção nos fundos da casa... uma porção de sussurros agitados, pontuados pelo bater de sapatos, e Isabella não conseguiu deixar de sorrir com o som. Aparentemente, nenhum dos criados havia sido informado sobre a nova mulher do patrão. Bella pensou que não deveria se surpreender, uma vez que ela própria não esperava tal coisa até dois dias antes.
Mas não conseguiu deixar de sentir-se ligeiramente irritada com o marido. Ele poderia ao menos ter dedicado um instante para apresentá-la à governanta antes de seguir para qualquer que fosse o negócio importante para ele, àquela altura no dia. No dia do casamento dele.
Suspirou, ouvindo a impaciência e a irritação no som que produziu, sabendo que damas não demonstravam irritação. Mas esperava que a regra não fosse tão rígida para quem tivesse se casado com um aristocrata arruinado. Certamente havia possibilidade de interpretação, quando se estava sentada na própria casa nova, à espera que lhe levassem a um quarto. Qualquer quarto. Inspecionou a palma de uma das luvas e se perguntou como Edward reagiria se retornasse, dentro de horas, e a encontrasse sentada sobre um baú, esperando por ele. A imagem dele, surpreso, fez com que ela desse uma risada. Talvez valesse a pena.
Remexeu-se, ignorando a dor nas costas. Marquesas certamente não pensavam em desconforto nas costas.
"Senhora?"
Isabella levantou-se de um salto, girando na direção das palavras, hesitantes e curiosas, ditas atrás dela, pela mulher mais linda que ela já tinha visto. Não importava que usasse um simples uniforme – identificável, em qualquer residência da Grã-Bretanha, como a roupa de uma governanta – ou que seus cabelos vermelho-flamejantes estivessem presos em um nó apertado e perfeito.
Aquela mulher, jovem e esguia, com os maiores e mais belos olhos azuis que Isabella jamais havia visto, era impressionante como uma pintura de um mestre holandês. Como nenhuma criada que Isabella jamais viu. E ela vivia na casa de Edward.
"Eu...", ela começou, então parou, percebendo que a estava encarando. Sacudiu a cabeça. "Eu... sim?"
A governanta não deu sinal de que sequer havia percebido o comportamento estranho, preferindo aproximar-se e inclinar-se em uma reverência.
"Lamento não tê-la recebido imediatamente após sua chegada. Mas nós não...", foi sua vez de parar.
Nós não a esperávamos. Isabella ouviu as palavras, mesmo que não tivessem sido pronunciadas. A governanta tentou novamente:
"Cullen não..."
Cullen?! Não, Lorde Cullen... Apenas Cullen. Sentiu uma emoção, quente e pouco conhecida. Ciúme.
"Compreendo. Lorde Cullen tem estado muito ocupado nos últimos dias." Isabella enfatizou o título, percebendo a compreensão no olhar da outra. "É a governanta, suponho?"
A bela mulher deu um pequeno sorriso e fez mais uma reverência.
"Srta. Worth."
Isabella imaginou se a Srta. Worth era casada, ou se o título vinha com a posição. A ideia de Edward com uma governanta lindíssima, jovem e solteira não lhe caiu muito bem.
"Deseja conhecer a casa? Ou ser apresentada aos empregados?"
Sra. Worth parecia não saber bem o que viria a seguir.
"Gostaria de ver meus aposentos, por ora", respondeu, apiedando-se da outra mulher, que certamente estava tão surpresa pelo casamento do patrão quanto Isabella. "Viajamos a maior parte do dia."
"É claro." A Srta. Worth assentiu, guiando o caminho até a ampla escadaria que levava ao que Bella supunha serem os aposentos privados da residência.
"Pedirei que os meninos tragam seus baús para cima imediatamente."
Enquanto subiam a escada, Isabella não conseguiu se conter.
"Seu marido também é funcionário de Lorde Cullen?"
Houve uma longa pausa antes da governanta responder:
"Não, senhora."
Bella sabia que não deveria pressionar.
"Uma casa próxima, então?"
Mais uma pausa.
"Não tenho marido."
Bella resistiu ao desagradável ciúme que se seguiu ao pronunciamento e ao impulso de fazer mais perguntas à bela governanta. A Srta. Worth já havia se virado de costas e estava abrindo calmamente a porta que levava a uma mal iluminada alcova.
"Acenderemos a lareira agora mesmo, evidentemente, senhora." Seguiu em frente decidida, acendendo velas pelo quarto, revelando aos poucos um ambiente aconchegante e bem equipado, decorado com encantadores tons de verde e azul. "E mandarei preparar uma bandeja para a senhora. Deve estar com fome." Depois de finalizar sua tarefa, voltou-se novamente para Isabella. "Não temos uma camareira em nossa equipe, mas eu adoraria...", ela parou de falar.
Isabella sacudiu a cabeça.
"Minha criada não deve estar muito distante."
O rosto da outra foi tomado de alívio, e ela abaixou a cabeça, aquiescendo.
Isabella a observou cuidadosamente, fascinada por aquela linda criatura que parecia ser, ao mesmo tempo, uma criada competente e não parecia ser criada de modo algum.
"Há quanto tempo está aqui?"
Srta. Worth levantou a cabeça de repente, encarando a nova patroa no mesmo instante.
"Com Cul...", ela parou, controlando-se. "Com Lorde Cullen? Dois anos."
"É muito jovem para ser governanta."
O olhar da Srta. Worth assumiu uma expressão defensiva.
"Tive muita sorte de Lorde Cullen ter lugar para mim aqui."
Uma dezena de perguntas passaram pela cabeça de Isabella, e ela precisou de toda energia possível para não fazê-las – para descobrir a verdade sobre aquela bela mulher e como ela havia passado a viver com Edward. Mas aquele não era o momento, não importava o quanto ela estivesse curiosa. Em vez disso, ela levantou a mão e soltou o chapéu, seguindo até uma penteadeira próxima para tirá-lo. Ao se virar novamente, dispensou a governanta.
"Meus baús e um jantar parece ótimo. E um banho, por favor."
"Como desejar, senhora." A Srta. Worth saiu imediatamente, deixando Isabella a sós.
Respirando fundo, Bella deu uma volta, examinando o quarto. Era lindo – ricamente decorado com sedas nas paredes e um imenso tapete que devia ser oriental. Os objetos de arte eram de bom gosto, e a mobília, de extrema qualidade. Havia fogo na lareira, mas o frio e o cheiro de fumaça no ar provavam que a casa não estava preparada para sua chegada.
Foi até o lavatório, instalado diante de uma janela que dava para um amplo e extravagante jardim, derramou água na bacia e pôs as mãos sobre a porcelana branca, observando a água distorcer sua cor e sua forma, dando-lhes a aparência de estarem quebradas e frágeis. Respirou fundo, focando no local em que o líquido frio abria caminho pelo ar do quarto.
Quando a porta se abriu, Penélope afastou-se da bacia, quase tropeçando na base e derramando água em si mesma e no tapete. Virou-se para ver uma menina – com no máximo 13 ou 14 anos – que entrou fazendo uma rápida reverência.
"Vim acender a lareira, senhora."
Isabella viu a garota agachar-se com um isqueiro, e a lembrança de Edward, poucos dias antes, na mesma posição em Falconwell. Os gravetos acenderam, e Isabella sentiu o rosto quente ao se lembrar de tudo o que se sucedeu naquela noite... e na manhã seguinte. A lembrança trouxe junto uma pontada de lamento. Lamento por ele não estar ali. A garota se levantou e ficou de frente para Isabella, com a cabeça muito abaixada.
"A senhora precisa de mais alguma coisa?"
"Qual é seu nome?"
A menina levantou a cabeça de repente.
"Meu... meu nome?"
Isabella tentou dar um sorriso tranquilizador.
"Se não se importar de me dizer."
"Alice."
"Quantos anos você tem, Alice?"
A menina fez uma meia reverência novamente.
"Catorze, senhora."
"E há quanto tempo trabalha aqui?"
"Na Mansão do Diabo, quer dizer?"
Isabella arregalou os olhos.
"Mansão do Diabo?"
Bom Deus.
"Sim, senhora." A pequena criada apressou-se a responder, como se fosse um nome perfeitamente razoável para uma residência. "Três anos. Meu irmão e eu precisávamos de emprego depois que nossos pais..." Ela parou de falar, mas Isabella não teve dificuldade para preencher o restante.
"Seu irmão trabalha aqui também?"
"Sim, senhora. É lacaio."
O que explicava a juventude inesperada dos lacaios. Alice parecia tremendamente nervosa.
"A senhora precisa de mais alguma coisa?"
Bella sacudiu a cabeça.
"Não esta noite, Alice."
"Obrigada, madame." A menina virou-se na direção da porta e quase havia alcançado a liberdade, quando a patroa a chamou de volta.
"Ah, tem uma coisa." A menina virou-se novamente para ela, com os olhos arregalados, à espera do pedido. "Pode me dizer onde fica o quarto do patrão?"
"Quer dizer os aposentos de Cullen?"
Aí estava, mais uma vez. Cullen.
"Sim."
"A maioria de nós usa a porta ao lado, pelo corredor, mas a senhora tem uma porta direta", Alice disse, apontando para uma porta em um canto do quarto, quase escondida atrás do biombo de vestir.
Uma passagem direta... O coração de Isabella começou a bater um pouco mais rápido.
"Entendo."
Era claro que ela teria uma passagem direta para os aposentos do marido. Ele era, afinal, seu marido. Talvez ele a usasse. Alguma coisa a fez estremecer, algo que não conseguiu identificar. Medo, possivelmente. Excitação. Aventura...
"Estou certa de que ele não se importará que esteja aqui, senhora. Ele não costuma dormir nesta casa."
Isabella sentiu o rosto quente mais uma vez.
"Entendo", ela repetiu. Ele dormia em algum outro lugar. Com outra pessoa.
"Boa noite, senhora."
"Boa noite, Alice."
A garota se retirou, e Isabella ficou parada, fitando a porta, insuportavelmente curiosa sobre o que havia atrás dela. A curiosidade continuou depois que seus baús chegaram, seguidos pelo jantar – uma refeição simples e farta de pão fresco e queijo, presunto quente e um encantador e saboroso chutney. A curiosidade a consumiu durante todo o tempo: enquanto ela comia e sua criada recém-chegada tirava dos baús as peças de roupa mais vitais; enquanto os meninos que haviam levado seus baús enchiam sua banheira; enquanto ela se banhava, se secava, se vestia e tentava desesperadamente escrever uma carta para a prima Catherine.
Quando o relógio bateu meia-noite, e ela se deu conta de que o dia de seu casamento – e sua noite de núpcias – tinha terminado, a curiosidade sobre o que havia atrás daquela porta transformou-se em decepção.
E então, em irritação. Seu olhar foi atraído para o quarto adjacente uma vez mais. Ela olhou para o mogno, e não sentia nem um pouco de vergonha da raiva que tomava conta dela. E, naquela fração de segundo, tomou uma decisão. Foi até a porta e a escancarou, revelando uma grande e intensa escuridão. Os criados sabiam que ele não planejava retornar naquela noite, senão, teriam mantido o fogo aceso para ele. Ela era a única que esperava seu retorno.
A única que pensava que talvez a noite de núpcias dos dois pudesse ser algo... mais...
Tola Isabella. Ele não queria se casar com ela. Ele havia se casado por Falconwell. Por que era tão difícil lembrar-se disso? Engoliu em seco o nó que sentia na garganta, respirando fundo. Não se permitiria chorar. Não naquela noite. Não naquela nova casa, com seus criados curiosos. Não em sua noite de núpcias. A primeira noite do resto de sua vida. Sua primeira noite como marquesa de Cullen, com as liberdades que vinham com o título.
Então, não! Ela não iria chorar. Em vez disso, ela teria uma aventura.
Pegando um grande castiçal de uma mesa próxima, entrou no quarto, seguida por uma fonte de luz dourada, revelando uma imensa parede de estantes repletas de livros e uma lareira de mármore, com duas grandes poltronas muito bonitas confortavelmente dispostas ao redor. Fez uma pausa diante da lareira para examinar a imensa pintura pendurada acima dela, levantando a vela para iluminar melhor a paisagem: Falconwell... Não a casa, mas as terras. As colinas que deram forma abriam ao impressionante e reluzente lago que marcava o limite ocidental da propriedade verde e exuberante – a joia de Surrey. As terras que um dia haviam sido seu direito de nascença. Ele acordava com Falconwell.
Quer dizer, quando dormia naquele quarto.
A ideia afastou qualquer simpatia que pudesse ter sentido naquele momento, e ela se afastou, cheia de irritação e decepção. Sua vela revelou os pés de uma imensa cama – maior do que qualquer cama que ela viu na vida. Isabella ficou boquiaberta diante de seu tamanho. Imensas colunas de carvalho nos quatro cantos, uma mais finamente entalhada do que a outra, e a cobertura acima situada a pelo menos dois metros de altura – talvez mais. A coberta da cama era de tecido cor de vinho e azul-noite, e ela não pôde deixar de estender a mão para passar os dedos sobre o drapeado de veludo. Era luxo, riqueza e extravagância ao extremo, e devastadoramente masculino.
Esse pensamento a fez voltar o rosto para o restante do quarto, seguindo a luz da vela com o olhar, capturada por um grande decanter de cristal, cheio de um líquido escuro, combinando com um conjunto de copos. Perguntou-se com que frequência ele se servia de uma dose de uísque, e o levava até a cama imensa. Perguntou-se com que frequência ele servia uma quantidade semelhante da bebida a uma convidada. A ideia de outra mulher na cama de Edward, sombria e voluptuosa, à altura da beleza e da ousadia dele, alimentou a ira de Isabella. Ele a havia deixado ali, na casa dele, em sua primeira noite como sua esposa, e havia saído para beber com uma deusa. Não importava que não tivesse provas. Isso a deixou furiosa mesmo assim.
A conversa dos dois na carruagem não havia significado nada? Como poderiam provar a Londres e à sociedade que aquela farsa de casamento não era nada perto do verdadeiro escândalo, se ele estava vagabundeando com... com... damas da noite? E o que ela deveria fazer enquanto ele vivia a vida de um libertino devasso? Ficar ali sentada bordando, até ele decidir agraciá-la com sua presença? Não! Ela não faria isso.
"Definitivamente não", jurou baixinho e triunfante no quarto escuro, como se depois que as palavras foram pronunciadas em voz alta não pudessem ser anuladas.
E talvez não pudessem... Seu olhar pousou sobre o decanter mais uma vez, os cortes profundos no vidro, a base larga, projetada para evitar que a garrafa virasse em mares violentos. Ele tinha um decanter de Capitão de navio em seu quarto luxuoso, um ambiente de tecidos e pecado que poderia pertencer a qualquer pirata de respeito. Bem... Ela mostraria a ele mares violentos.
Antes que pudesse pensar direito, estava a caminho da bebida, largando o candelabro, pegando um copo e servindo mais uísque do que qualquer mulher deveria beber. O fato de que ela não tinha certeza de exatamente quanto uísque uma mulher decente poderia beber era irrelevante. Sentiu um prazer perverso na forma como o líquido âmbar encheu o recipiente de cristal e riu ao imaginar o que seu novo marido pensaria se chegasse em casa naquele instante – sua esposa decente, arrancada do caminho de uma vida de solteirona, agarrada a um copo com uísque pela metade. Meio cheio de futuro. Meio cheio de aventura.
Com um sorriso, Isabella brindou a si mesma no amplo espelho pendurado atrás do decanter e tomou um grande gole de uísque.
E quase morreu.
Não estava preparada para o calor intenso que desceu queimando pela garganta e se concentrou no estômago, fazendo-a sentir uma ânsia antes de recuperar o controle das próprias faculdades.
"Argh!", anunciou para o quarto vazio, olhando para o copo e se perguntando por que alguém, especialmente os homens mais ricos da Grã-Bretanha, podiam realmente querer beber algo tão ardido e amargo.
Tinha gosto de fogo. Fogo e... árvores. E era horrível! No que se referia a aventuras, aquela não estava parecendo nada promissora. Bella achou que iria vomitar. Apoiou-se no aparador, inclinando-se para frente e imaginando se era possível que tivesse realmente provocado danos sérios e irreversíveis à suas entranhas. Respirou fundo várias vezes, e o ardor começou a ceder, deixando para trás um calor lânguido e vagamente encorajador. Endireitou-se. Não era tão ruim, afinal.
Ficou novamente em pé, levantando o candelabro uma vez mais e seguindo para as prateleiras, entortando a cabeça para ler os títulos dos livros com capas de couro, que as preenchiam completamente. Parecia estranho que Edward tivesse livros. Não conseguia imaginá-lo parando por tempo suficiente para ler. Mas ali estavam – Homero, Shakespeare, Chaucer, vários volumes alemães sobre agricultura, e toda uma prateleira sobre histórias dos reis britânicos. E o Nobreza de Debrett.
Passou os dedos sobre o letreiro dourado do volume – a história completa da aristocracia britânica – com a lombada gasta do uso. Para alguém tão satisfeito com a própria ausência da sociedade, Edward parecia folhear bastante aquele tomo. Tirou o volume da estante, deslizando a mão sobre a capa de couro antes de abri-lo aleatoriamente. Caiu em uma página vista com frequência.
O verbete para o marquesado de Cullen. Isabella passou os dedos pelas letras, a longa linhagem de homens que detiveram o título antes de Edward. Até agora. E lá estava ele: Edward Anthony Masen, 10o marquês de Cullen, 2o conde de Arran, nascido em 1800. Em 1816, ele foi denominado marquês de Cullen, para ele e os herdeiros masculinos nascidos dele.
Ele podia fingir não se importar com seu título, mas sentia-se ligado a ele de alguma maneira, ou aquele livro não estaria tão usado. Foi atravessada por um sentimento de prazer ao ter esse pensamento, com a ideia de que ele ainda podia pensar em seu tempo passado em Surrey, em suas terras, em sua infância, nela. Talvez ele não a tivesse esquecido – assim como ela não o havia esquecido.
Passou o indicador pela linha do texto. Os herdeiros masculinos nascidos dele.
Imaginou um grupo de meninos desengonçados de cabelos escuros, com covinhas nas bochechas, e roupas amarrotadas. Pequenos Edwards. Os herdeiros masculinos nascidos dela também. Se ele algum dia viesse para casa!
Devolveu o livro ao lugar e aproximou-se da cama, examinando o imenso móvel mais atentamente, avaliando a colcha escura, perguntando-se se era de veludo – se combinava com as cortinas ao redor da cama. Ela soltou o castiçal e estendeu a mão, querendo tocá-la. Querendo sentir o lugar em que ele dormia. A colcha não era de veludo. Ela de pele... Pele macia e exuberante. Claro que sim. Passou a mão espalmada pela colcha e imaginou, por um instante fugaz, como seria deitar-se naquela cama, envolta em escuridão e pele. E em Edward.
Ele era um imoral e um canalha, e sua cama em si era uma aventura.
A pele macia a atraiu, tentando-a a subir e aquecer-se em seu calor e seu luxo. Tão rapidamente como a ideia lhe ocorreu, ela começou a se mexer, deixando o copo cair no chão, sem perceber, enquanto subia na cama como uma criança em busca de biscoitos, escalando as prateleiras da despensa. Era a coisa mais macia e luxuosa que ela jamais havia experimentado. Rolou de costas, abrindo os braços e pernas, adorando a forma como as penas e a pele aninhavam seu peso, permitindo que ela afundasse nas cobertas, sentindo o mais puro e absoluto prazer. Nenhuma cama deveria ser tão confortável assim. Mas, claro, a dele era.
"Ele é depravado", disse em voz alta no quarto, ouvindo o ecoar das palavras se fundirem com a escuridão.
Levantou os braços, que pareciam mais pesados do que o normal, e os ergueu diretamente para a cobertura acima, remexendo-se mais fundo nas cobertas, antes de fechar os olhos, virando o rosto de lado e esfregando a bochecha na pele. Ela suspirou. Parecia injusto que uma cama daquelas ficasse sem uso.
Tomou mais um longo gole e tossiu novamente.
Seus pensamentos estavam lentos, como se viessem de debaixo d'água, e Isabella estava absolutamente ciente do peso de seu corpo afundando no colchão. Aquele relaxamento glorioso devia ser o motivo pelo qual as pessoas bebiam. Ela certamente começou a gostar mais da ideia.
"Parece que você se perdeu no caminho."
Abriu os olhos ao ouvir aquelas palavras, ditas baixas e suaves na escuridão, e encontrou o marido parado ao lado da cama, olhando para baixo, encarando-a.
Edward quer de volta tudo o que perdeu mais jovem... E quem paga por isso é a Bella.
Passei da meia-noite, então, bom domingo! Beijinhos :)
