Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.
CAPÍTULO NOVE
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"Em algum momento eu teria percebido o que estava me faltando, querida. E teria saído atrás de você."
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Caro E,
Jacob disse que viu você na cidade no começo de suas férias, mas que você mal teve tempo de falar com ele. Sinto muito por isso, e ele também.
Pippa adotou um cachorro de três patas e (por mais desagradável que possa parecer) quando eu o vejo saltitando ao redor do lago, o manquejar dele me faz lembrar de você. Sem você, Jake e eu somos um cachorro de três patas. Bom Deus. É a esse tipo de metáfora que preciso recorrer sem você para me manter com a língua afiada. A situação está se agravando.
Desesperadamente, I.
Solar Swan, junho de 1817
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Sem resposta.
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O problema com as mentiras é que era fácil demais acreditar nelas, mesmo quando éramos nós que as contávamos. Talvez... especialmente quando somos nós que as contamos.
Três dias depois, Bella e Edward eram os convidados de honra do jantar na Casa Tottenham – um evento que lhes deu a oportunidade perfeita para contar a versão cuidadosamente criada da história de amor deles para vários dos maiores fofoqueiros da sociedade. Fofoqueiros que estavam muito ansiosos por fazer jus à sua fama, pois ficaram atentos a cada palavra de Isabella e Edward.
Sem mencionar os olhares.
Bella não os deixou passar despercebidos quando entraram na Casa Tottenham, vários minutos antes, tendo cuidadosamente planejado a chegada para não ocorrer nem cedo nem tarde demais, e ao descobrir que o restante dos convidados havia planejado chegar cedo – de modo ostensivo, para garantir que não perdessem nem um instante da primeira noite da marquesa e do marquês de Cullen na sociedade.
Também não deixou de perceber os olhares quando Edward pôs, de propósito, uma das mãos nas costas de Bella, guiando-a até o salão de recepção, onde os convidados do jantar aguardavam a refeição ser servida. A mão havia sido posicionada com tamanha precisão, perfeitamente acompanhada de um sorriso tão carinhoso – que ela mal reconheceu –, que Bella precisou esforçar-se para esconder tanto sua admiração pela estratégia dele como o prazer inesperado diante do pequeno movimento.
Os olhares se seguiram por um agitar de leques no salão frio e uma cacofonia de cochichos que ela fingiu não escutar, preferindo olhar para o marido, que esperava um olhar adequadamente apaixonado. Ela devia ter conseguido, porque ele se aproximou e sussurrou em seu ouvido:
"Está se saindo magnificamente bem." As palavras fizeram uma onda de prazer percorrer seu corpo, embora ela tivesse jurado resistir ao poder que ele exercia sobre ela.
Isabella repreendeu a si mesma pela sensação calorosa e intensa. Lembrou a si mesma que não o via desde a noite de núpcias – que ele havia deixado absolutamente claro que qualquer interação marital seria apenas para o público externo, mas àquela altura, seu rosto já estava corado e, ao encarar o marido, encontrou uma expressão de suprema satisfação em seus olhos.
Ele inclinou-se uma vez mais.
"Seu rosto corado está perfeito, minha pequena inocente." As palavras aumentaram as chamas, como se os dois estivessem muito apaixonados e nutrissem devoção absoluta um ao outro, quando a verdade era absolutamente o oposto.
Haviam sido separados para o jantar, claro, e então teve início o verdadeiro desafio. O visconde de Tottenham a acompanhou até seu lugar, entre ele e o Sr. Riley Biers, editor de dois dos mais lidos jornais da Grã-Bretanha. Biers era um homem encantador de cabelos dourados, que parecia notar tudo, incluindo o nervosismo de Isabella. Falou apenas para que ela ouvisse:
"Não lhes dê uma chance de alfinetá-la. Elas a aproveitarão imediatamente e você estará acabada."
Estava se referindo às mulheres. Havia seis delas dispersas ao redor da mesa, com a mesma expressão de lábios apertados e olhares desdenhosos. A conversa – bastante casual – era permeada por um tom que fazia cada palavra parecer ter duplo sentido, como se todas estivessem fazendo alguma pilhéria sobre a qual Edward e Isabella não tinham conhecimento.
Bella teria ficado irritada, não fosse pelo fato de que ela e Edward guardavam eles próprios uma boa quantidade de segredos. Foi quase ao final da refeição que a conversa se voltou para eles.
"Conte-nos, Lorde Cullen." As palavras da viúva viscondessa de Tottenham percorreram a mesa, altas demais para garantir privacidade. "Como foi, exatamente, que o senhor e a Lady Cullen noivaram? Adoro uma história de amor."
Claro que sim. Histórias de amor eram o melhor tipo de escândalo. Perdendo apenas para a ruína idílica. Bella afastou o pensamento irônico da mente quando a conversa parou e os convivas aguardaram em silêncio pela resposta de Edward.
Ele desviou o olhar para o de Bella, carinhoso e encantador.
"Desafio qualquer um a passar mais do que um quarto de hora na companhia da minha dama e não sair encantado por ela." As palavras eram escandalosas, de forma alguma o tipo de coisa que membros bem-criados e experientes da aristocracia diziam em voz alta, mesmo que pensassem assim, e houve um arfar coletivo, indicando espanto e surpresa. Edward pareceu não se importar ao acrescentar: "Tive realmente sorte por estar lá, no dia de Santo Estêvão. E por ela estar lá... com sua risada me fazendo recordar de todas as formas que eu precisava me recuperar".
O coração dela acelerou com as palavras e a maneira como o canto da boca de Edward se levantou em uma sombra de um sorriso. Incrível, o poder das palavras. Mesmo as falsas. Isabella não conseguiu deixar de sorrir para ele, e não teve necessidade de fingir a forma como abaixou a cabeça, subitamente encabulada com sua atenção.
"Que sorte também o dote dela conter terras adjacentes a uma propriedade do marquesado." As palavras percorreram a mesa após uma explosão embriagada da condessa Lauren Mallory, uma mulher infeliz que se comprazia com o sofrimento alheio e de quem Isabella jamais gostou. Não olhou para a condessa, focando-se, em vez disso, no marido, antes de falar:
"Fortuito principalmente para mim, Lady Mallory ", ela disse, olhando firmemente para o marido. "Pois se não tivéssemos sido vizinhos de infância, certamente meu marido jamais teria me encontrado."
O olhar de Edward iluminou-se de admiração, e ele ergueu a taça em sua direção.
"Em algum momento eu teria percebido o que estava me faltando, querida. E teria saído atrás de você."
A afirmação a deixou emocionada antes dela se lembrar de que tudo não passava de um jogo. Respirou fundo enquanto Edward assumia o controle, contando a história deles, garantindo a todos ali reunidos que havia perdido a cabeça, o coração e a razão para amar. Edward era extremamente bonito e inteligente, encantador e divertido, com a quantidade perfeita de contrição... como se estivesse tentando reparar mal feitos do passado e estivesse disposto a fazer tudo o que fosse preciso para retornar à aristocracia – pelo bem da própria esposa.
Ele foi perfeito. Ele a fez acreditar que havia estado lá, no salão principal da paróquia Coldharbour, cercada por convivas, guirlandas de azevinho em uma festa de Santo Estêvão. Ele a fez acreditar que havia cruzado o olhar com o dela do outro lado do salão – pôde sentir o aperto no estômago ao imaginar o olhar demorado e sério que ele lhe teria lançado, que a teria deixado sem fôlego e zonza, que a teria feito acreditar que era a única mulher no mundo. E ele a capturou com suas palavras bonitas, assim como fazia com o restante dos presentes.
"...Sinceramente, nunca havia dançado uma dança escocesa na vida. Mas ela me fez querer dançar várias."
Uma onda de risada percorreu a mesa, e Isabella levantou uma taça e bebeu um gole de vinho, esperando que o álcool acalmasse seu estômago agitado, observando o marido entreter o ambiente repleto de convidados, com a história do caso de amor vertiginoso dos dois.
"Creio que teria sido apenas uma questão de tempo até eu retornar a Coldharbour e me dar conta de o que o Solar Falconwell não era a única coisa que eu havia deixado para trás." O olhar dele cruzou o dela, do outro lado da mesa, e ela prendeu a respiração diante do brilho naqueles olhos verdes. "Graças aos céus eu a encontrei antes que outro o fizesse."
Uma porção de suspiros femininos ao redor da mesa acompanharam a aceleração do coração de Isabella. Edward era mestre na eloquência.
"Não era como se houvesse muitos pretendentes...", Lady Mallory disse com sarcasmo, rindo um pouco alto demais. "Era, Lady Cullen?"
A mente de Isabella esvaziou diante da referência cruel à sua vida de solteira, e ela tentou encontrar uma resposta afiada antes do marido vir em seu auxílio.
"Eu não podia suportar pensar neles", ele disse, encarando-a seriamente, até ela ficar corada pela atenção e acreditar na veracidade de suas palavras. "e isso foi o motivo de nos casarmos tão rapidamente."
Lady Mallory pigarreou dentro da taça de vinho enquanto o Sr. Biers sorria carinhosamente e perguntava:
"E a senhora, Lady Cullen? A conexão de vocês... surpreendeu-a?"
"Cuidado, querida." Edward disse escandalosamente, com um brilho nos olhos verde-acinzentados. "Ele poderá citá-la no jornal de amanhã."
Isabella não conseguiu desviar os olhos de Edward com os risos ao redor dos dois. Ele a capturou e a manteve cuidadosamente em sua rede. Quando respondeu à pergunta do jornalista, foi diretamente ao marido.
"Não fiquei nem um pouco surpresa. Para dizer a verdade, parecia que eu estava esperando pelo retorno de Edward havia anos." Ela fez uma pausa, sacudindo a cabeça, notando a atenção ao redor da mesa. "Sinto muito... não Edward. Lorde Cullen." Deu uma risadinha autodepreciativa. "Sempre soube que ele daria um marido maravilhoso e estou muito feliz que ele será o meu marido maravilhoso."
Houve um lampejo de surpresa nos olhos de Edward, que desapareceu quase imediatamente, escondido por sua risada sincera – tão desconhecida.
"Estão vendo? Como eu poderia não tomar jeito?"
"Realmente." O Sr. Riley Biers tomou um gole de vinho, olhando para ela por cima da borda da taça e, por um instante, Isabella teve certeza de que o homem via a falsidade deles com tanta clareza como se ela tivesse bordado a palavra "mentirosa" em seu vestido, e sabia que ela e Edward haviam se casado por um motivo extremamente distante do amor e que seu marido não tinha dividido um momento sequer com ela nos dias desde que a levou de volta para seu quarto depois de consumar o casamento. Que ele apenas garantiu que o casamento fosse legitimado e agora passava as noites longe dela, sabia Deus com quem, fazendo sabia Deus o quê.
Isabella tratou de comer seu creme de caramelo, esperando que o Sr. Biers não a pressionasse por mais informações.
Edward falou, todo charmoso:
"Não é verdade, é claro. Sou absolutamente terrível como marido. Não suporto a ideia de ela estar afastada de mim. Detesto a ideia de outros homens chamarem sua atenção. E já os aviso, eu me transformarei em um verdadeiro urso quando chegar a temporada e eu tiver de cedê-la para dançar e jantar na companhia de outros." Ele fez uma pausa, e Bella percebeu a habilidade com que ele usava o silêncio, os olhos brilhando com um humor que ela não via nele desde a infância. Um humor que não estava lá. Não de verdade. "Todos lamentarão muito, de fato, que eu tenha decidido retomar meu título."
"De forma alguma", interrompeu a viúva viscondessa, seus olhos normalmente frios cheios de excitação. "Estamos satisfeitos por recebê-lo de volta à sociedade, Lorde Cullen. Pois, verdadeiramente, não pode haver nada mais revigorante do que um caso de amor."
Era uma mentira, claro. Casos de amor eram escândalos por si mesmos, mas Edward e Bella a superavam em título, e o convite havia partido do jovem Tottenham, de modo que a velha tinha muito pouco controle da situação.
Edward sorriu diante de suas palavras mesmo assim, e Isabella não conseguiu desviar os olhos dele naquele momento. Tudo nele ficou mais leve com um sorriso – uma covinha apareceu em uma das bochechas, e seus lábios largos e cheios se curvaram, deixando-o ainda mais bonito. Quem era aquele homem com gracejos fáceis e sorrisos encantadores? E como ela poderia convencê-lo a ficar?
"E deve de fato ser uma história de amor... olhe para como sua esposa presta atenção a cada palavra sua", disse o visconde de Tottenham, evidentemente dando-lhes apoio, e Bella não precisou fingir seu constrangimento quando Edward se virou para ela, com o sorriso desaparecendo.
A viúva continuou, olhando de maneira incisiva para o filho:
"Se ao menos você se inspirasse em Cullen e encontrasse uma esposa."
O visconde deu uma risadinha e fez questão de sacudir a cabeça, antes de pousar os olhos sobre Isabella.
"Temo que Cullen tenha encontrado a última noiva ideal."
"Ela tem irmãs, Tottenham", Edward acrescentou, com tom de provocação na voz.
Tottenham sorriu graciosamente.
"Esperarei ansioso por conhecê-las."
Isabella compreendeu tudo. Ali, com a facilidade de se roubar um doce de uma criança, Edward havia habilmente preparado o terreno para Olivia conhecer Lorde Tottenham e possivelmente casar-se com ele. Arregalou os olhos e voltou a surpresa para o marido, que recebeu o olhar com tranquilidade, redefinindo-o imediatamente.
"Percebo que agora que estou tão enamorado da minha própria esposa, não consigo deixar de encorajar a todos ao meu redor a encontrar suas próprias."
Tantas mentiras tão tranquilas. Tão fáceis de acreditar. A viúva intrometeu-se:
"Bem, eu, de minha parte, acho uma ideia maravilhosa." Levantou-se e foi acompanhada pelos homens. "Na verdade, creio que devamos deixar os cavalheiros conversarem."
O restante dos convidados atendeu à deixa, e as mulheres se afastaram da mesa para se retirar a outro ambiente, beber xerez e fofocar. Isabella não tinha dúvida de que seria o centro das atenções das fofocas. Seguiu a condessa viúva com passos pesados até um salãozinho encantador, mas mal havia entrado, quando uma mão grande segurou a sua, e a voz profunda e familiar de Edward ressoou:
"Com sua licença, senhoras, preciso de minha esposa por um breve instante, se não se importarem. Eu disse que não posso suportar ficar sem ela." Houve um arfar coletivo quando Edward retirou Isabella da sala e a levou para o corredor, fechando a porta atrás deles.
Bella arrancou a mão da dele, olhando para os dois lados pelo corredor, para garantir que não haviam sido vistos.
"O que você está fazendo?", ela sussurrou. "Isso ainda não está consumado!"
"Gostaria que parasse de me dizer o que está ou não consumado... Não percebe que apenas me faz querer fazer mais?" Ele a puxou para mais longe da porta, para dentro de uma alcova mal iluminada. "Mexericos sobre o quanto eu a adoro são o tipo de mexerico por que estamos procurando, querida."
"Não há necessidade de me chamar assim, e sabe disso", ela sussurrou. "Não sou sua querida."
Ele levantou uma mão ao rosto dela.
"É, quando estamos em público."
Ela afastou a mão.
"Pare com isso." Bella fez uma pausa, então abaixou a voz. "Acha que acreditam em nós?"
Ele a olhou com indignação.
"Por que não acreditariam, meu amor? Tudo o que dissemos é verdade."
Ela estreitou os olhos.
Ele se inclinou para mais perto e sussurrou:
"Eu sei que paredes em casas como esta têm ouvidos, meu amor." E então ele a lambeu. Literalmente a lambeu, uma encantadora carícia no lóbulo de sua orelha que a fez agarrar os braços dele com o prazer inesperado. Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele haviam se afastado, e ele devolveu a mão ao rosto dela, levantando-o na sua direção. "Você foi esplêndida lá dentro."
Esplêndida. A palavra ecoou através dela em uma onda de prazer, enquanto ele dava um beijo no ponto em que seu coração pulsava freneticamente na garganta.
"Não gosto da forma como julgam você", ela sussurrou. "Especialmente Mallory."
"Lauren é uma vaca." Bella ficou boquiaberta diante da expressão, e ele continuou em seu ouvido. "Ela merece uma surra. É uma pena que seu conde seja fraco demais para isso."
Bella sentiu prazer ao ouvir aquilo e não pôde deixar de sorrir.
"Você não parece ter muito escrúpulo quanto a bater em mulheres."
"Apenas com aquelas de que gosto." Ele parou e levantou a cabeça, o olhar escuro encontrando o dela, no pequeno ambiente.
Ela tentou ignorar a promessa contida nas palavras. Tentou se lembrar de que aquilo não era real. Que aquela noite não passava de uma fachada. Que aquele estranho não era seu marido. Que seu marido não havia feito nada além de usá-la para ganho próprio. Só que, aquela noite, não tinha a ver com ele. Tinha a ver com ela e suas irmãs.
"Obrigada, Edward", ela sussurrou na escuridão. "Sei que não precisava honrar essa parte do acordo. Que não precisava ajudar minhas irmãs."
Ele ficou em silêncio por um longo tempo.
"Preciso, sim."
A disposição dele em manter a palavra a surpreendeu, ao relembrá-la do acordo dos dois.
"Suponho que haja honra entre ladrões mesmo." Ela hesitou, e então disse: "E o restante do acordo? Quando ganho minha turnê?"
"Está aprendendo a ser uma negociadora dura."
"Não tenho muito mais para me entreter", ela respondeu.
"Está entediada, esposa?"
"Por que estaria entediada? Passar os dias olhando para as paredes da sua residência é tão fascinante."
Ele riu com o que ela disse, e o som fez uma onda de calor percorrer o corpo de Isabella.
"Parece justo. Por que não aproveitar a emoção agora?"
"Porque neste momento estamos tentando convencê-los de que você mudou, e desaparecermos das festividades não irá ajudar."
"Ah, acho que eu desaparecer com minha esposa decente seria um grande negócio." Ele se aproximou ainda mais. "Mais do que isso, sei que você irá gostar."
"Escondida no corredor da Casa Tottenham como uma ladra?"
"Não como uma ladra." Ele espiou para fora do esconderijo dos dois, antes de voltar a atenção a ela. "Como uma dama tendo um caso clandestino."
Bella soltou uma risada de desaprovação.
"Com seu marido."
"Ter um caso com o próprio marido é..." Ele parou de falar, os olhos ficando sombrios.
"Burguês?"
Um lado da boca de Edward levantou.
"Eu ia dizer uma aventura, querida."
Uma aventura. Ela paralisou diante da palavra, olhando para ele acima, os lábios transformados em algo parecido com um sorriso, as mãos segurando seu rosto; tudo a respeito dele, seu calor, seu cheiro... ele, a cercava. Ela deveria rejeitá-lo. Deveria dizer que havia achado a noite de núpcias simples e desinteressante, como o jantar na Casa Tottenham. Deveria colocá-lo no devido lugar. Mas não conseguiu... porque queria tudo de novo. Queria que ele a beijasse e a tocasse e a fizesse sentir todas aquelas coisas incríveis que ela sentiu antes que ele a deixasse como se não tivesse sentido nada.
Ele estava tão próximo, tão lindo e tão másculo. E quando ela olhou nos olhos daquele homem que era, em um instante, excitante e divertido, e sombrio e perigoso no instante seguinte, ela percebeu que aceitaria a aventura com ele da forma que ele a oferecesse. Mesmo ali, na alcova do corredor dos Tottenham. Mesmo que fosse um erro.
Ela espalmou as mãos no peito dele, sentindo a força que se escondia por baixo das camadas de linho e lã perfeitamente cortadas.
"Você está tão diferente esta noite. Não sei quem você é."
Algo apareceu nos olhos dele... Apareceu e desapareceu tão depressa que ela não conseguiu identificar direito. Quando ele falou, foi com a voz baixa e fluida, com uma pitada de provocação.
"Então por que não me conhecer um pouco melhor?"
Realmente, por que não? Ela se levantou na ponta dos pés e foi ao encontro dele, que se abaixou e tomou seus lábios em um beijo quente, quase insuportável. Ele apertou o corpo contra o dela, empurrando-a contra a parede, cobrindo-a até que ela não conseguisse fazer nada além de passar os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o na direção de seus lábios, firmes e sedosos, dando-lhe o que ela nem sequer sabia que queria, o que nem sequer sabia que poderia existir – um beijo forte e possessivo de que ela jamais, jamais se esqueceria. Bella sentiu-se consumida pela sensação dele, o tamanho, a força, as mãos segurando seu rosto e o movendo para alinhar sua boca com mais voluptuosidade, mais perfeitamente aos lábios dele.
Ele lambeu o canto dos lábios dela, tentando-a com a língua até ela arfar, e tirou vantagem do som para capturar os lábios abertos e deslizar para dentro deles, pressionando o corpo contra o dela, brincando e sentindo até Isabella ter a impressão de que poderia morrer de excitação. Por vontade própria, os dedos dela se enroscaram nos cabelos rebeldes na nuca de Edward, e ela se levantou para pressionar o corpo contra o dele com mais firmeza, com um jeito mais escandaloso... e não se importava. Não se importava nem um pouco... desde que ele não parasse. Desde que ele jamais parasse.
Com ela se aproximando ainda mais, ele mudou a posição das mãos, abaixando-as num deslizar demorado e tortuoso, pressionando suavemente na lateral de seus seios, apenas para ela arder de desejo em lugares que nunca imaginou, antes de descer mais e mais, até ele agarrar seu traseiro e a apertá-la contra ele com uma força ao mesmo tempo chocante e excitante.
Ele gemeu de prazer com o movimento, e ela recuou com o som, imaginando a simples ideia de que ele pudesse estar tão consumido pela carícia como ela estava, e ele abriu os olhos para cruzar com os dela uma vez, um olhar fugaz, antes de capturar sua boca novamente, indo mais fundo, acariciando com mais firmeza, até ela estar dominada pelo prazer. Pela aventura. Por ele.
Segundos se passaram. Minutos. Horas... não importava. Tudo o que importava era aquele homem. Aquele beijo. Aquilo... A carícia terminou, e ele levantou a cabeça lentamente, dando um beijo suave e demorado nos lábios dela antes de levantar os braços e soltar as mãos dela de seu pescoço. Sorriu-lhe, algo de tirar o fôlego em seu olhar, e ela percebeu que era a primeira vez que ele sorria para ela – apenas para ela – desde que os dois eram crianças. Foi mágico.
Ele abriu a boca para falar, e ela ficou em suspense, incapaz de controlar a expectativa que a atravessou enquanto os lábios dele formavam palavras.
"Tottenham."
Isabella ficou confusa e franziu a testa.
"Normalmente, não aprecio cavalheiros assediando damas em meu corredor, Cullen."
"Como se sente em relação a maridos beijando suas esposas?"
"Sinceramente?" A voz de Tottenham era seca como areia. "Acho que gosto ainda menos."
Bella fechou os olhos, mortificada. Ele a havia enganado tão bem.
"Mudará de ideia quando conhecer minha cunhada, Olivia, aposto."
Aquilo fez com que ela quisesse machucá-lo. Realmente, machucá-lo, fisicamente. Ele fez de propósito. Tudo havia sido por causa de Tottenham. Para manter a mentira da história de amor dos dois e não porque ele não conseguia manter as mãos longe dela. Ela não iria aprender nunca? Pobre Isabella tola.
"Se ela for minimamente parecida com a irmã, temo que seja uma aposta que eu não poderei ganhar."
Edward riu, e ela se encolheu com o som, detestando-o. Detestando a falsidade.
"Será que poderia nos dar um instante?"
"Creio que serei obrigado a fazer isso, ou Lady Cullen talvez nunca mais volte a me encarar."
Isabella estava olhando fixamente para as dobras da gravata de Edward, forçando-se a soar calma, sabendo que parecer despreocupada seria impossível.
"Não sei ao certo se um instante mudará isso, milorde."
Ele a havia usado novamente. Tottenham riu.
"O conhaque está servido."
E então ele saiu. E ela estava sozinha... Com seu marido, que parecia estar se especializando em decepcioná-la. Ela não afastou o olhar do tecido impecável do colarinho dele.
"Essa foi muito boa", ela disse, com tristeza na voz. Se ele percebeu, não demonstrou.
Quando falou, foi como se estivessem falando sobre o clima e não se beijando em um canto escuro.
"Provavelmente ajudará muito a provar que estamos juntos por mais do que Falconwell."
Ela própria quase acreditou. De fato, ela parecia incapaz de aprender a lição.
Não era justo que ficasse tão irritada com ele. Tão magoada. A tola história de amor havia sido ideia dela, não? Tinha apenas a si mesma para culpar pela forma como aquilo fazia com que ela se sentisse... Vulgar, usada. Mas suas irmãs conseguiriam seus casamentos decentes e irrepreensíveis com isso. E tudo teria valido a pena. Ela precisava acreditar nisso.
Bella afastou a tristeza da mente.
"Por que está fazendo isso?" Ele levantou as sobrancelhas de modo questionador, e ela continuou: "Concordando com esta farsa".
Ele desviou o olhar.
"Eu lhe dei a minha palavra."
Ela sacudiu a cabeça.
"Você não se sente... como se eu estivesse tirando vantagem de você?"
Ele levantou um canto da boca em um sorriso irônico.
"Eu não tirei vantagem quando me casei com você?"
Ela não havia pensado nisso de modo tão claro.
"Suponho que sim. Ainda assim..." Isso parece pior, ela queria dizer. Parece que tudo o que sou, tudo o que tenho, está a serviço de outros. Isabella sacudiu a cabeça. "Parece diferente, e eu me arrependo, no entanto, de ter pedido que fizesse isso por elas. Por mim."
Ele sacudiu a cabeça.
"Jamais se arrependa."
"Mais uma regra?"
"Apenas dos canalhas. Os jogadores inevitavelmente se arrependem."
Ela imaginou que ele deveria saber.
"Bem, eu me arrependo mesmo assim."
"É desnecessário. Tenho um bom motivo para me juntar a você nesta farsa."
Ela paralisou.
"Tem?"
Edward assentiu com a cabeça.
"Tenho. Todos recebemos algo do jogo."
"O que você recebe?" Ele ficou em silêncio, e a incerteza se acendeu dentro dela. "De quem você recebe?" Ele não respondeu, mas Bella não era boba. "Do meu pai. Ele tinha mais alguma coisa. O que é?"
"Não é importante", ele disse, de uma forma que a fez acreditar que fosse muitíssimo importante. "Basta dizer que você não deve se arrepender do nosso acordo, uma vez que eu sairei bastante beneficiado dele. Vou acompanhá-la até o restante das senhoras", ele ofereceu, estendendo a mão para segurar o cotovelo dela.
E, perversamente, a ideia de que ele estava jogando aquele jogo apenas em benefício próprio fez com que ela se sentisse pior. Como se ela também tivesse sido vítima de suas mentiras. Sentiu-se traída, furiosa, e puxou quase que violentamente o braço diante do toque dele.
"Não toque em mim."
Ele levantou as sobrancelhas com as palavras, com a mentira que elas carregavam.
"Como?"
Ela não o queria perto dela. Não queria ser lembrada de que também havia sido enganada.
"Podemos fingir um romance para eles, mas eu não sou eles. Não toque em mim novamente. Não se não for apenas por eles."
Não acho que consiga suportar. Ele levantou as duas mãos para o alto, provando que havia escutado o pedido. Prestado atenção a ele. Ela se virou de costas antes de dizer mais alguma coisa. Antes de trair os próprios sentimentos.
"Isabella." Ele a chamou quando ela pisou no corredor mal iluminado. Ela parou, sentindo um lampejo de esperança no fundo do coração, esperança de que ele poderia pedir desculpas. De que ele poderia lhe dizer que ela estava enganada. Que realmente se importava com ela. Que a desejava. "Esta é a parte mais difícil... com as mulheres... compreende?"
Esperança falsa. Ele queria dizer que ela teria de manter a encenação, que as mulheres a questionariam muito mais cuidadosamente, em particular, do que haviam feito em público. Seria um desafio. Mas o fato de que ele chamasse essa parte da noite como a mais difícil era quase risível, pois ela certamente havia acabado de experimentar a parte mais difícil da noite.
"Eu cuidarei das mulheres, milorde, como concordamos fazer. Ao final da noite, elas terão a certeza de que você e eu estamos profundamente apaixonados, e minhas irmãs estarão a caminho de uma bela temporada." Então endureceu a voz. "Mas faça o favor de lembrar que me prometeu uma volta por seu clube, que agora percebo não ter sido generosidade, mas pagamento por minha parte em sua artimanha."
Ele paralisou.
"De fato."
Ela assentiu com a cabeça uma vez, com firmeza.
"Quando?"
"Veremos."
Ela estreitou os olhos diante da resposta, o sinônimo universal para não.
"Sim, imagino que sim."
Bella virou as costas para ele e retornou ao salão das damas, cabeça erguida, ombros eretos ao girar a maçaneta e abrir a porta para se juntar novamente às mulheres. O ânimo destruído, enquanto prometia a si mesma manter-se impassível.
Desanimando cada vez mais aqui :(
Até semana que vem. Beijos.
