Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.
CAPÍTULO TREZE
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"Acha que não senti falta de tudo a seu respeito, Isabella? De tudo o que você representava?"
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Caro E,
Bem, a marquesa de Swan está de fato muito orgulhosa. Hoje foi meu debut, minha apresentação à corte, título do Almack e tudo, e não há dúvida de que sou um sucesso retumbante.
Isso não deveria surpreender, considerando que estou oficialmente no mercado de casamentos há quase duas semanas e não tive uma única conversa interessante. Nem uma, acredita nisso? Minha mãe está à procura de um duque, mas não é como se houvesse uma abundância de duques jovens e disponíveis à mão.
Confesso que esperava vê-lo – em um baile, um jantar ou algum evento desta semana, mas você desapareceu, e tudo o que me resta é o papel de carta.
Uma pena. Uma pena realmente.
Sem assinatura
Casa Swan, março de 1820
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Carta não enviada.
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O Anjo Caído era magnífico.
Isabella jamais tinha visto algo tão impressionante como aquele lugar maravilhoso e luxuoso, repleto de luz de velas e cores, cheio de gente fazendo apostas obscenas e dando risada, beijando os dados e amaldiçoando a má sorte.
Ela se apresentou discretamente, não querendo revelar a própria identidade, mas sabendo que se não dissesse seu nome aos homens que guardavam a entrada, não seria autorizada a entrar. Eles arregalaram os olhos quando ela se identificou, dizendo o nome do marido e mantendo-se sob as sombras da entrada, aguardando que eles decidissem se acreditavam nela. Quando um dos grandalhões abriu um sorriso e bateu duas vezes na porta do clube com um punho do tamanho de um presunto, a porta se abriu apenas um pouco.
"A senhora de Cullen. Melhor deixá-la entrar."
A senhora de Cullen. Um calafrio percorreu Isabella com aquela descrição - algo que ela não desejava e à qual ainda não conseguia resistir - mas que planejou usar para tirar vantagem naquela noite. Então a porta se abriu por completo, revelando um festival de movimento e som, e Bella se esqueceu do objetivo imediato. Agradecida pelo conselho de Victoria, apertou a capa ao redor do corpo e o capuz imenso que a deixava à sombra, enquanto observava aqueles ao seu redor, olhando para as cartas, acompanhando a bolinha de marfim na roleta, seguindo os dados sobre o suntuoso tecido verde, tombando com os ventos do destino.
Era uma aventura em sua forma mais simples, mais pura. E ela adorou cada instante daquilo. Não era de estranhar que Edward passasse tanto do seu tempo ali. Aquele lugar era sua deusa, sua beldade de cabelos escuros, e ela não poderia culpá-lo. Era uma amante magnífica. Os homens com seus casacos pretos impecáveis e suas gravatas perfeitamente engomadas, os mordomos que percorriam o salão do cassino com bandejas carregadas de uísque e conhaque, e as mulheres em seus corpetes reveladores, um mais colorido do que o outro.
Eram pintadas, adereçadas, penteadas e coloridas, e Isabella quis ser como elas. Por um único instante fugaz, saber como era segurar a sorte em sua mão, atirar os dados e conhecer a emoção.
Mas foi o vitral, imenso e inegavelmente bonito, que a fez perder o fôlego.
Um enorme e impressionante retrato de Lúcifer, com uma corrente que dava duas voltas em seu tornozelo antes de cair no abismo, seu cetro, partido ao meio, ainda em uma das mãos, e a coroa na outra. O imenso anjo caindo, as asas não mais capazes de mantê-lo voando, virado com a cabeça para as chamas do inferno. Era ao mesmo tempo lindo e grotesco – o pano de fundo perfeito para aquele ambiente de vícios. Isabella manteve a cabeça abaixada e atravessou a aglomeração de pessoas, adorando a forma como os corpos a deixavam passar.
Permitiu-se ser guiada pelo grupo, prometendo a si mesma que pararia diante da primeira mesa que encontrasse no caminho. E foi na roleta que sentiu o coração saltar à boca em um misto de gratidão e excitação. Ela conhecia aquele jogo, conhecia suas regras, sabia que se tratava de pura e absoluta sorte. E queria experimentar... Porque subitamente sentiu-se com muita sorte. Cruzou o olhar com o crupiê, que levantou uma sobrancelha e acenou sobre a mesa.
"Cavalheiros... dama", entoou com seriedade, "façam suas apostas, por favor."
Bella já estava com a mão no bolso, brincando com as moedas contidas ali. Pegou um soberano de ouro brilhante, passou o polegar pela cara, observando os demais jogadores ao redor da mesa fazerem suas apostas. Moedas foram depositadas sobre toda a extensão do luxuoso tecido verde, e os olhos de Bella foram atraídos por um espaço vermelho tentador no meio da mesa. Número vinte e três.
"Aguardamos a aposta da dama."
Ela encarou o crupiê e estendeu a mão, hesitante, para pôr a moeda sobre o tecido, adorando a forma como o ouro cintilava à luz de velas.
"Apostas encerradas."
Então, a roda entrou em movimento e a bola começou a girar ao longo da canaleta, o simples som do marfim contra o aço funcionando como uma tentação em si mesmo. Isabella inclinou-se para frente, ansiosa por uma visão desimpedida, com a respiração presa na garganta.
"Dizem que a roleta é o jogo de Lúcifer." As palavras vieram em seu ombro, e ela não pôde resistir a virar na direção da voz, ainda que tivesse cuidando para manter o capuz sobre o rosto. "Adequado, não?"
O estranho pousou a mão na borda da mesa, perto o bastante para tocá-la, e a carícia foi lenta demais para ser acidental. Ela puxou a mão diante da sensação desagradável.
"Fascinante", ela disse, afastando-se da companhia indesejada, esperando que aquela única palavra encerrasse a conversa. Voltou a atenção novamente para a roleta, girando em gloriosos vermelho e preto, rápido demais para acompanhar.
"Há a história de um francês que ficou tão absorto no jogo, tão tentado pela roleta, que vendeu a alma ao diabo para aprender seus segredos."
A roleta estava começando a diminuir a velocidade, e Isabella inclinou-se para frente, compreendendo a tentação do pobre francês. O homem ao seu lado deslizou outro dedo pela lateral do braço dela, fazendo-a sentir um arrepio de aversão e chamando sua atenção.
"O que a tentaria a vender sua alma?"
Ela não teve a oportunidade de responder ou de dizer para o vizinho retirar as mãos de sua pessoa, uma vez que ele foi imediatamente arrancado do lugar e atirado a vários metros dali. Virou-se na direção da comoção e encontrou Edward indo para cima do homem que andava de costas, como um caranguejo, até as pernas de um grupo de pessoas que havia parado no centro do salão do cassino, para assistir ao desenrolar do drama. O marido de Isabella se abaixou e agarrou o homem pela gravata, tapando o rosto do atrevido com seu corpanzil.
"Jamais volte a tocar em uma dama neste lugar", seu marido rugiu, erguendo o punho ameaçadoramente.
"Que diabos, Cullen." As palavras saíram estranguladas da garganta do homem, que levou as mãos aos pulsos de Edward. "Deixe disso. Ela é apenas uma..."
Edward enroscou a mão ao redor do pescoço do outro.
"Termine a frase, Densmore, e me dê o prazer de sufocá-lo", ele disse, baixo e próximo da presa. "Se eu vir ou ouvir você pondo a mão em outra mulher aqui, sua filiação não será a única coisa que perderá. Você me entendeu?"
"Sim."
"Diga." Ele parecia pronto para matar, e a história de Worth ecoou na memória de Isabella.
"Sim. Sim, eu entendi."
Edward o atirou novamente ao chão e aproximou-se de Isabella, que se mexeu instintivamente para puxar a capa de novo. Ele estendeu o braço e agarrou uma das mãos dela, puxando-a para dentro de uma alcova mal iluminada demais para que alguém a visse, aproximando-se para protegê-la de olhos curiosos.
"E você...", ele sussurrou, claramente furioso. "Que diabos está fazendo aqui?"
Ela o encarou com firmeza, recusando-se a se sentir intimidada. Estava na hora de fazer a sua parte – de entrar em cena a marquesa que havia saído em busca de sua aventura.
"Eu estava me divertindo bastante antes de você chegar e provocar uma cena."
Cullen tensionou um músculo do maxilar e apertou os dedos ao redor dos pulsos dela.
"Eu provoquei uma cena? Metade de Londres está neste salão e você acha que uma capa idiota a esconderia deles?"
Ela retorceu a mão nas garras dele, tentando se libertar. Ele não a soltou.
"Estava fazendo exatamente isso. Ninguém havia me notado." Ele a empurrou contra a parede, mais para dentro da escuridão. "Ninguém me reconheceu. Agora, é claro, todos estão se perguntando quem sou eu."
"Provavelmente sabem." Ele deu uma risada dura. "Eu a reconheci no instante em que a vi, sua tola."
Ele a reconheceu? Isabella ignorou a onda de prazer que a atravessou, e endireitou os ombros, recusando-se a recuar. O crupiê da roleta apareceu à entrada da alcova.
"Cullen."
Edward lançou um olhar por cima do ombro, capaz de barrar um exército.
"Agora não."
"Bem, considerando que estou completamente à vista de metade de Londres, como você observou tão rapidamente, qual é a pior coisa que poderia acontecer?", ela perguntou.
"Vejamos", ele disse, com a voz repleta de sarcasmo, "você poderia ter sido abduzida, maltratada, abusada, revelada..."
Isabella ficou tensa.
"E como isso teria sido diferente do tratamento que tenho recebido em suas mãos?", ela sussurrou, mantendo a voz baixa o bastante para que apenas ele a escutasse, sabendo que estava ultrapassando seus limites.
Os olhos dele faiscaram.
"Seria completamente diferente e se você não consegue ver isso..."
"Ah, por favor. Não finja que se importa o mínimo comigo ou com a minha felicidade. Seria a mesma cela, com um carcereiro diferente."
Cullen cerrou os dentes.
"Três minutos a sós com aquele porco do Densmore e você teria visto que sou um verdadeiro santo em comparação com alguns canalhas. Eu lhe disse que não deveria vir aqui. Não sem mim."
"Descobri que não gosto mais que me digam o que não devo fazer." Bella respirou fundo, sem saber de onde vinha aquela coragem, mas esperando que não lhe falhasse naquele momento, uma vez que Edward parecia muito, muito irritado.
E, ela percebeu, muito desgrenhado... A gravada estava absolutamente amassada, o casaco torto nos ombros, e um dos punhos da camisa havia desaparecido embaixo da manga do paletó. Aquilo não era normal. Não para Edward.
"O que aconteceu com você?", ela perguntou.
"Cullen."
Na terceira vez que o crupiê disse o nome dele, Edward se virou.
"Que diabos! O que é?"
"É a dama."
"O que tem ela?"
Isabella espiou ao redor de Edward, puxando o capuz para frente, certificando-se de que não seria reconhecida. O crupiê levantou as sobrancelhas ao lhes dar um meio-sorriso.
"Ela ganhou."
Um instante, e então Cullen disse:
"O que foi que você disse?"
"Ela ganhou." O crupiê não conseguiu disfarçar sua surpresa. "Número vinte e três. Direto."
Edward desviou o olhar para a mesa, então para a roleta.
"Ganhou?"
Isabella arregalou os olhos.
"Eu ganhei?"
O crupiê lhe deu um sorriso bobo.
"Ganhou."
"Mande o prêmio dela para a minha sala." Em questão de segundos, Edward a puxava através de uma porta escondida ali perto.
Enquanto os dois subiam uma longa escada, Isabella reuniu sua coragem, preparada para enfrentá-lo. Mas antes, precisava acompanhar seu ritmo. Estava com a mão presa à dele, e ele não demonstrou qualquer sinal de soltá-la, enquanto a puxava por um corredor comprido e, afinal, para dentro de uma sala grande que estaria completamente escura, não fosse a luz do salão principal do cassino, entrando pela parede de vitrais em uma das pontas – lançando um mosaico de cores sobre o espaço.
"Que maravilhoso", ela sussurrou, não percebendo que ele a havia soltado antes de trancar a porta atrás dos dois. "Lá de baixo, não há sinal de que haja qualquer coisa por trás do vidro."
"Esse é o objetivo."
"É impressionante." Ela foi até a janela, estendendo uma das mãos para tocar em um painel dourado que representava um cacho dos cabelos de Lúcifer.
"O que você está fazendo aqui, Isabella?"
Ela puxou a mão subitamente com a pergunta, virando-se para ele, mal conseguindo enxergá-lo na escuridão. Ele parecia ter desaparecido nas sombras do outro lado da sala. Sentiu o coração disparar e lembrou-se de por que havia ido ao clube.
"Precisamos ter uma conversa."
"Não podia ter esperado que eu voltasse à Mansão do Diabo?"
"Se eu acreditasse que você iria voltar, milorde, talvez eu tivesse esperado", ela disse com sarcasmo. "Como não tenho certeza de seus planos a esse respeito, considerei melhor vir até você."
Ele cruzou os braços sobre o peito largo, esticando o tecido do paletó contra os braços musculosos.
"Vou demitir o cocheiro que a trouxe."
"Impossível. Vim em uma carruagem de aluguel." Não conseguiu evitar o tom de triunfo na voz.
"Se Jacob a ajudou de alguma maneira, terei grande prazer em destruí-lo."
Ela ergueu o queixo.
"Então, chegamos ao ponto."
"Não deve vê-lo novamente."
Isabella não se importou que ele se aproximasse dela no escuro, claramente irritado, porque ela também estava irritada com ele.
"Não estou tão certa de que obedecerei a essa ordem."
"Obedecerá." Ele a encurralou contra a porta. "Se o vir novamente, eu o destruirei. Tenha isso em mente."
Era a oportunidade pela qual ela estava esperando.
"Fiquei sabendo que planeja destruí-lo de qualquer maneira." Ele não negou, e ela foi tomada pela decepção. Sacudiu a cabeça. "É impressionante, como continuo a acreditar no seu melhor apenas para acabar vendo que estava errada." Afastou-se dele, seguindo novamente na direção da janela, olhando para o salão. "Você não tem coração."
"É melhor que perceba isso agora, antes que nosso casamento avance mais."
Ela se virou novamente para ele, furiosa com o modo insensível com que Edward se referiu à vida deles. À vida dela.
"Talvez nossa farsa de casamento não dure muito neste mundo, de qualquer maneira."
"O que isso quer dizer?"
Ela deu uma risadinha cínica.
"Apenas que você não dá a menor importância a ele."
"Seu precioso Jake a convidou para fugir com ele, não foi?" Foi a vez de ela ficar em silêncio. Deixá-lo acreditar no que quisesse. Ele se aproximou. "Está pensando em ir, Isabella? Está pensando em destruir nosso casamento, sua reputação e os nomes das suas irmãs com uma escolha egoísta?"
Ela não pôde deixar de responder:
"Eu sou egoísta?" Bella riu, e passou por ele com um encontrão, indo na direção da porta. "Isso é divertido, vindo de você, o homem mais egoísta que já conheci, egoísta o bastante para destruir seus amigos e sua esposa em nome de seus próprios objetivos."
Estendeu a mão para a maçaneta, arfando quando a mão dele surgiu do escuro para segurar seu pulso.
"Não vai sair até acabarmos esta conversa. Até ter me dado sua palavra de que ficará longe de Jacob Black."
Era claro que ela não iria a lugar algum com Jake, mas se recusava a dar a ele a satisfação de saber disso.
"Por quê? Não seria mais fácil para você que eu fosse embora com ele? Então conseguiria sua vingança e a sua liberdade em uma só tacada."
"Você é minha."
Ela o atacou.
"Você é um desequilibrado!"
"Pode ser... Mas também sou seu marido. É melhor lembrar-se desse fato. E do fato de que prometeu me obedecer."
Ela deu outra risadinha cínica.
"E você prometeu me honrar...", ela replicou. E nós dois prometemos amarmos um ao outro. Isso também não funcionou.
Ele paralisou.
"Você pensa que eu a desonrei?"
"Penso que me desonra toda vez que me toca."
Ele então a soltou, tão rapidamente que foi como se a pele dela o queimasse.
"O que isso quer dizer?"
Bella hesitou, insegura, a discussão de repente seguindo em uma direção com a qual ela não estava inteiramente confortável.
"Ah, não, milady." Ele praticamente cuspiu o título e ela percebeu que o havia ofendido. "Você irá responder à pergunta."
Sim. Iria.
"Toda vez que me toca, toda vez que demonstra o menor interesse, é em benefício próprio, em benefício dos seus objetivos, da sua vingança, da qual não desejo participar. Não há nada que seja para mim."
"Não?" Sua fala veio cheia de sarcasmo. "Interessante, já que parece ter gostado do meu toque."
"É claro que gostei. Você fez tudo o que pôde para garantir que eu o acompanharia através do fogo naquelas ocasiões. Usou a sua evidente..." – Bella fez uma pausa, acenando com uma das mãos na direção dele – "perícia na cama para conquistar mais de seus objetivos." As palavras agora estavam saindo rápidas e furiosas. "E fez um trabalho extraordinário. Confesso, estou impressionada. Tanto por sua estratégia inteligente quanto por seu desempenho impecável. Mas o prazer é fugaz, Lorde Cullen, tão fugaz que não vale a dor de ser usada." Ela pôs uma mão na maçaneta da porta, ansiosa por deixar a sala e ele... "Perdoe-me se me encontro relutante em largar tudo e lembrar de meus votos quando você fez tão mau uso dos seus."
"Acha que teria sido diferente com seu precioso Jacob?"
Ela apertou os olhos.
"Não irei me desculpar por gostar dele. Houve um tempo em que você também gostou. Ele era seu amigo de infância." O terceiro do trio. Isabella deixou a decepção aparecer em sua voz.
Os olhos dele se encheram de irritação.
"Ele não foi nem um pouco amigo na hora em que devia se mostrar como tal."
Sacudiu a cabeça.
"Acha que ele não lamentou o que o pai fez? Está errado. Ele lamentou. Desde o princípio."
"Não o bastante. Mas lamentará quando eu tiver terminado com ele."
Isabella assumiu posição de defesa.
"Não deixarei que faça mal a ele."
"Você não tem escolha. Seu querido Jacob será destruído junto com o pai. Prometi vingança nove anos atrás, e nada ficará em meu caminho. E você agradecerá a Deus por não ter se casado com ele, ou eu a destruiria junto."
Ela apertou os olhos.
"Se destruir Jacob, prometo que lamentarei cada instante de meu casamento com você."
Ele riu diante disso, absolutamente sem humor.
"Imagino que já esteja nesse caminho, querida."
Sacudiu a cabeça.
"Escute aqui. Se seguir em frente com essa vendeta equivocada, provará que tudo o que já foi, tudo o que havia de bom em você... desapareceu."
Ele não se moveu. Sequer demonstrou que a havia escutado. Ele não se importava, nem com Jake, nem com ela ou com o passado deles. E a verdade disso a fez sofrer. Isabella não conseguiu conter a enxurrada de palavras.
"Ele ficou devastado pela sua perda tanto quanto...", ela parou.
"Tanto quanto...?", ele perguntou.
"Tanto quanto eu fiquei", ela disparou, odiando as palavras no instante em que elas foram pronunciadas, em uma inundação de lembranças, junto com a dolorida tristeza que sentiu quando ficou sabendo da ruína de Edward. "Ele sentiu sua falta tanto quanto eu. Ele se preocupou com você tanto quanto eu me preocupei. Ele procurou por você, tentou encontrá-lo tanto quanto eu tentei. Mas você desapareceu." Deu um passo na direção dele. "Você acha que ele o deixou? Foi você quem nos deixou, Edward. Você nos deixou!"
A voz de Bella estava trêmula agora, com toda a raiva, tristeza e o medo que havia sentido naqueles meses, naqueles anos depois que Edward desapareceu.
"Você me deixou." Ela pôs as mãos no peito dele, empurrando-o com toda sua força, com toda sua raiva. "E eu senti tanto a sua falta!" Ele deu vários passos para trás no silêncio da sala escura, e Isabella percebeu que havia dito mais do que deveria. Mais do que jamais imaginaria ser capaz de dizer. Respirou fundo, controlando as lágrimas que ameaçavam cair. Ela não iria chorar. Não por ele. Em vez disso, sussurrou através do nó que sentia na garganta: "Eu senti tanta falta de você e ainda sinto, droga..."
Ela ficou esperando, na escuridão, que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Que se desculpasse. Que dissesse que também havia sentido falta dela. Um minuto se passou. Dois. Mais... Quando percebeu que ele não ia falar, ela se virou, abrindo a porta com força antes de ele se mover, lançando a mão por cima de seu ombro para fechá-la novamente. Ela puxou a maçaneta, mas ele manteve a porta fechada com uma das mãos.
"Você é um bruto. Deixe-me sair."
"Não. Não enquanto não terminarmos isso. Eu não sou mais aquele garoto."
Ela deu outra risadinha cínica.
"Eu sei."
"E não sou Jacob."
"Sei disso também."
Ele levou a mão ao pescoço dela, os dedos percorrendo o músculo ali, e ela soube que ele estava sentindo sua pulsação acelerar.
"Acha que não senti sua falta?" Isabella congelou diante disso, ficando com a respiração suspensa. Estava desesperada que ele dissesse algo mais. "Acha que não senti falta de tudo a seu respeito, Isabella? De tudo o que você representava?"
Ele pressionou o corpo contra o dela, a respiração suave em sua têmpora. Isabella fechou os olhos. Como os dois tinham ido acabar ali, naquele lugar onde ele era tão sombrio e tão destruído?
"Acha que eu não queria voltar para casa?" A voz dele estava carregada de emoção. "Mas não havia uma casa para a qual eu pudesse voltar. Não havia ninguém lá."
"Você está errado", ela argumentou. "Eu estava lá. Eu estava lá... e estava..." Sozinha. Engoliu em seco. "Eu estava lá."
"Não!" A palavra saiu dura e áspera. "Black tirou tudo. E aquele garoto... aquele de quem você sente falta... ele também tirou."
"Pode ser, mas Jake não fez isso. Não consegue enxergar, Edward? Ele é apenas um peão no seu jogo... assim como eu... como as minhas irmãs. Você se casou comigo, você as casará, mas se você o destruir... jamais perdoará a si mesmo. Eu sei disso."
"Você está errada", ele respondeu. "Eu dormirei bem. Melhor do que durmo há uma década."
Sacudiu a cabeça.
"Não é verdade. Acha que a sua vingança não irá doer? Acha que não sofrerá com o impacto dela? Por saber que destruiu outro homem da forma sistemática e horrível como Black destruiu você?"
"Jacob também era uma vítima infeliz dessa guerra. Depois de hoje, depois da tentativa dele de levá-la embora, não estou seguro de que ele não merecerá a punição que pretendo impor a ele."
"Eu jogo por isso com você." As palavras saíram da boca de Isabella antes que ela pensasse no que estava dizendo. "Diga o jogo e dê o preço. Eu jogo. Pelos segredos de Jake."
Ele paralisou.
"Você não tem nada que eu queira."
Isabella odiou aquelas palavras, e o odiou por dizê-las. Tinha a si mesma, o casamento deles, o futuro deles, mas nada de valor para Edward. E foi nesse momento que ela percebeu que Jacob tinha razão – que sempre havia sido Edward, o garoto forte e seguro que ela conheceu. Aquele com quem ela deu risada, cresceu e por quem chorou durante tanto tempo. O que havia desaparecido, deixando em seu lugar aquele homem sombrio e atormentado que era, igualmente tentador, à sua maneira. E ela desistiu de lutar...
"Solte-me."
Ele a trouxe para mais perto, falando em seu ouvido.
"Eu terei a minha vingança e o quanto antes você perceber isso, mais fácil será o nosso casamento."
Ela ficou quieta, resistindo com o silêncio.
"Quer ir embora?", ele perguntou, as palavras duras e ásperas.
Não. Quero que você queira que eu fique. Por quê? Por que ele exercia aquele efeito sobre ela? Isabella respirou fundo.
"Sim."
Ele levantou a mão da porta e deu um passo para trás, e ela sentiu falta do calor dele quase que imediatamente.
"Então vá."
Bella não hesitou. Saiu para o corredor, sem conseguir afastar da mente o pensamento de que alguma coisa havia acabado de acontecer entre eles. Alguma coisa que não poderia voltar atrás. Fez uma pausa, apoiando-se na parede, respirando profundamente no abrigo da escuridão e com o barulho abafado do cassino ao fundo. Enroscou os braços ao redor do próprio corpo, fechando os olhos para afastar o pensamento – para afastar as palavras que os dois haviam acabado de trocar, a compreensão absoluta de que havia esperado oito anos por um casamento que fosse mais do que o que ela possuía, ou representava, ou para que havia sido criada, para acabar se casando com um homem que não a via como nada além dessas coisas. Pior, um homem que ela sempre imaginou que seria diferente. Aquele homem jamais existiu. Ele jamais surgiu do garoto que ela conheceu um dia. Do garoto que ela amava. Soltou um longo suspiro e deu uma risada triste no escuro. O destino era cruel, de fato.
"Lady Cullen?"
Assustou-se ao ouvir o som do próprio nome – ainda tão estranho a ela – e encostou-se mais contra a parede, quando um homem muito alto se materializou da escuridão. Era magro, com um maxilar forte e quadrado, e a expressão em seus olhos era um misto de solidariedade e outra coisa que ela não conseguiu definir, a fez acreditar que se tratava mais de um amigo do que de um inimigo.
Fez uma curta e quase imperceptível reverência.
"Sou Carlisle. Estou com seu prêmio."
Ele estendeu um saquinho escuro, e Bella levou um instante para compreender do que se tratava – para se lembrar de que havia ido até ali naquela noite em busca de excitação, aventura e prazer e que estava indo embora apenas com decepção. Pegou o saquinho, surpreendendo-se com o peso das moedas. Ele deu uma risada, baixa, mas intensa.
"Trinta e cinco libras é bastante dinheiro", ele disse. "E na roleta? Tem muita sorte."
"Não tenho sorte alguma." Não esta noite, pelo menos.
"Bem, talvez sua sorte esteja mudando."
Duvido.
"Talvez."
Fez-se um longo silêncio com ele olhando para ela antes de abaixar a cabeça com um pequeno aceno e dizer:
"Cuidado ao voltar para casa. Isso é quantia suficiente para fazer o ano de um ladrão." Ele se virou, e Isabella transferiu a bolsa de uma das mãos para a outra, testando o peso das moedas em seu interior, o som que elas produziam ao se chocar umas contra as outras.
E então, antes que pudesse reconsiderar, ela o chamou:
"Sr. Carlisle?"
Ele parou, voltando-se para ela.
"Senhora?"
"Conhece bem meu marido?", ela disparou na escuridão. Por um instante, pensou que ele poderia não responder.
E então ele respondeu:
"Tão bem como se pode conhecer Cullen."
Ela não pôde deixar de rir diante da afirmação.
"Melhor do que eu, certamente."
Ele não respondeu. Não precisava.
"Há algo que queira perguntar?"
Havia tantas perguntas que ela gostaria de fazer. Perguntas demais. Quem é ele? O que aconteceu com o garoto que ela conheceu um dia? O que o tornou tão distante? Por que ele não dava uma chance àquele casamento? Não podia fazer nenhuma delas.
"Não."
Ele esperou por um longo momento para que ela mudasse de ideia e como isso não aconteceu, ele disse:
"Você é exatamente o que eu esperava."
"O que isso quer dizer?"
"Apenas que a mulher que deixa Cullen tão absolutamente inquieto deve ser mesmo extraordinária."
"Eu não o deixo inquieto. Ele não pensa em mim além do que posso fazer a serviço de seus objetivos maiores." Isabella arrependeu-se das palavras de imediato. Arrependeu-se da irritação que denotavam.
Carlisle levantou uma das sobrancelhas.
"Posso lhe garantir que definitivamente não é esse o caso."
Se ao menos fosse verdade. Mas, claro que não era.
"Parece que não o conhece muito bem, afinal."
Ele pareceu compreender que ela não estava interessada em discutir a questão. Em vez disso, mudou de assunto.
"Onde ele está?"
Sacudiu a cabeça.
"Não sei. Eu o deixei."
Os dentes dele brilharam brancos na escuridão.
"Tenho certeza de que ele adorou."
Ele a havia forçado a ir embora.
"Não estou preocupada em como ele se sentiu em relação a isso."
Carlisle então riu, uma risada alta e amistosa.
"Você é perfeita."
Ela não se sentia perfeita. Sentia-se uma idiota completa.
"Perdão?"
"Em todos os anos desde que conheço Cullen, jamais vi uma mulher afetá-lo da forma como você afeta. Nunca o vi resistir a alguém da forma como resiste a você."
"Não é resistência. É desinteresse."
Uma sobrancelha escura se ergueu.
"Lady Cullen, definitivamente não é desinteresse."
Ele não sabia. Ele não viu como Edward a deixou, como se mantinha tão distante dela, como se importava tão pouco com ela... Isabella não queria pensar nisso. Não naquela noite.
"Acha que pode me ajudar a alugar uma carruagem? Gostaria de voltar para casa."
Ele sacudiu a cabeça.
"Cullen me mataria se soubesse que eu a deixei voltar para casa em uma carruagem de aluguel. Deixe-me encontrá-lo."
"Não!", ela disparou sem pensar. Baixou o olhar para o chão. "Não desejo vê-lo."
Ele não deseja me ver. Ela não sabia mais o que era importante.
"Se não ele, então eu mesmo a acompanharei. Estará a salvo comigo."
Ela estreitou os olhos.
"Como posso saber se está dizendo a verdade?"
Um canto da boca de Carlisle levantou.
"Entre outras coisas, porque Cullen sentiria imenso prazer de me destruir se eu lhe fizesse mal."
Bella lembrou da forma como Edward havia atirado Densmore para o outro lado do salão, sem se abalar, mais cedo naquela noite. A forma como enfrentou o conde esbravejador, os punhos cerrados, a voz trêmula de raiva. Se havia uma coisa sobre a qual tinha certeza, era de que Edward jamais permitiria que alguém fizesse mal a ela. A menos, é claro, que fosse ele mesmo.
O buraco é mais embaixo, meninas... rsrs Obrigada pelos comentários, e até a próxima semana. Bom feriado para quem vai ter a oportunidade para aproveitá-lo! Beijinhos.
