Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.


CAPÍTULO QUATORZE

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"O que eu teria de fazer para tê-la durante uma tarde?"

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Caro E,
Fiquei sabendo sobre Black, aquele monstro, e sobre o que ele fez. É uma atrocidade, evidentemente. Ninguém acredita que ele pode ter sido tão detestável – ninguém exceto Jake e eu. Quanto a Jake... ele está procurando por você.

Rezo para que o encontre.
Rapidamente.

Sempre sua, I.
Solar Swan, fevereiro de 1821

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Carta não enviada.

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O gancho de esquerda de Emmett foi violento, bem-vindo e merecido. Acertou o maxilar de Cullen, jogando sua cabeça para trás e mandando-o para cima de um poste de madeira na beira do ringue de boxe no porão do Anjo Caído. Edward recuperou o equilíbrio antes de cair no chão coberto de serragem, olhando para Jasper acima da corda superior, antes de se levantar e se virar de frente para o companheiro de luta. Emmett dançava de um pé a outro enquanto Cullen avançava.

"Você é um tolo."

Edward ignorou as palavras e a verdade contida nelas, dando um soco que poderia derrubar um carvalho. Emmett desviou e fintou antes de dar um sorriso.

"Você é um tolo e está perdendo o jeito. Será que com as damas também?"

Cullen acertou um soco rápido no rosto de McCarty, apreciando o som do punho contra a pele.

"O que tem a dizer sobre meu jeito agora?"

"Um soco mais ou menos", Emmett disse com um sorriso, desviando para a esquerda, para fora do alcance do segundo golpe de Cullen. "Mas sua mulher foi para casa com Carlisle, então não posso falar quanto a isso."

Cullen soltou um impropério e foi atrás do amigo, vários centímetros mais alto e mais de dez centímetros mais largo, mas Emmett mais do que compensava a diferença com velocidade e agilidade e, naquela noite, pura vontade. Ele atacou sem hesitar, os punhos, enrolados em tecido, ávidos por atingir o torso nu do grandalhão. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Os movimentos foram marcados pelos grunhidos curtos de Emmett, antes de ele desviar dançando.

"Não o provoque, Emmett", Jasper disse de fora do ringue, atravessando com dificuldade uma pilha de papel, mal prestando atenção à disputa. "Ele já está tendo uma noite difícil o suficiente."

Deus sabia que era verdade. Ele a havia deixado ir para casa. Aquilo foi a coisa mais difícil que fez na vida, pois o que ele realmente queria era fazer amor com ela no chão da sala dos sócios, com a luz do outro lado do vitral a banhando em uma infinidade de cores. Queria provar que jamais, nem uma vez sequer, teve a intenção de desonrá-la. Na verdade, a ideia de que ele a havia desonrado fazia com que se sentisse um cretino absoluto.

O punho de Emmett acertou seu maxilar em um direto de direita perfeito, e Cullen balançou para trás nos calcanhares.

"Por que não vai atrás dela?", Emmett perguntou, desviando dos punhos de Cullen e voltando para lhe acertar um golpe rápido no peito. "Leve-a para a cama. Isso normalmente faz com que se sintam melhor, não?"

Edward não podia dizer ao amigo que levar a esposa para cama o havia trazido àquele problema.

"Quando tiver sua própria esposa, poderá dar todos os conselhos que quiser."

"Até lá, não vou precisar. Você já terá afastado a sua para sempre." Ele desviou novamente. "Gosto daquela garota."

Infelizmente, Edward também gostava.

"Você nem a conhece."

"Não preciso conhecer." O gancho de direita de Cullen teria derrubado um homem menor, mas o golpe não surtiu efeito algum sobre Emmett. Infelizmente... E ele continuou vindo para cima. "Qualquer uma que o afete da forma como ela afeta merece a minha admiração. Ela conquistou minha lealdade apenas com sua participação no divertimento desta noite, e imagino que Carlisle estará meio que apaixonado por ela quando voltar."

As palavras eram para provocá-lo, e conseguiram. Com um grunhido, Edward partiu para cima de Emmett, que bloqueou dois socos rápidos antes de levar um soco na barriga. Cullen disse um impropério e se inclinou sobre o outro, a respiração tão rápida como sua transpiração por um segundo, dois, cinco... Finalmente, Emmett recuou, e antes que Edward tivesse uma chance de se mexer, o outro disparou um, e depois outro soco, atirando Cullen por sobre as cordas, com sangue vertendo pelo nariz. Dessa vez, ele não foi rápido o bastante para se equilibrar. Caiu de joelhos.

"Fim do round", Jasper disse, e Edward xingou barbaramente quando Emmett se aproximou para ajudá-lo a se levantar.

"Deixe-me", ele disparou, ficando em pé e seguindo até a cadeira, em um dos cantos do ringue, marcado por um lenço verde. "Trinta e oito segundos", ele disse, arrancando o tecido do poste, segurando-o no nariz e inclinando a cabeça para trás. "Sugiro que você prepare seu próximo contra-ataque."

Emmett aceitou uma bebida de Alec, seu segundo em comando, e bebeu antes de encostar-se nas cordas, deixando os braços estendidos para os lados – cada um exibindo uma tatuagem larga nos imensos bíceps –, cobrindo quase a metade do comprimento do ringue. Emmett podia ter nascido na aristocracia, mas aquele agora era seu reino.

"O que ela disse que o deixou tão ávido por levar uma surra?"

Culle ignorou a pergunta. Nem a explosão de dor no rosto conseguia levar embora todos os pensamentos do que havia acontecido mais cedo com sua esposa: os olhos castanhos faiscando enquanto ela o acusava de usar seu corpo para garantir seus interesses; os ombros firmes defendendo a própria honra – algo que ele deveria ter feito por ela. Ele se lembrava de como ela o olhou, com verdade e lágrimas nos olhos, dizendo que havia sentido sua falta. As palavras o haviam deixado sem fôlego – a ideia de que a pura e perfeita Isabella havia pensado nele, havia ficado preocupada com ele. Porque ele também havia sentido falta dela. Ele tinha levado anos para se esquecer – anos que foram apagados em um momento de sinceridade, quando ela olhou nos olhos dele e o acusou de tê-la deixado ou de tê-la desonrado. E ali, na boca de seu estômago, ainda não mascarada pela dor da surra de Emmett, estava a emoção que ele temeu desde o começo daquela farsa. Culpa.

Ela tinha razão. Ele havia abusado dela, tratado pior do que ela merecia. E ela havia se defendido com firmeza e orgulho, de forma extraordinária. E mesmo enquanto tentava deixá-la ir, afastando-a, ele sabia que a desejava. Não enganou a si mesmo pensando que o desejo era algo novo. Ele a desejou em Surrey, quando a encontrou no escuro, com apenas uma lanterna para protegê-la. Mas agora... desejar havia se tornado algo mais sério, mais visceral, mais perigoso... Agora, ele a desejava – sua esposa forte, inteligente e de bom coração, que se tornava mais tentadora a cada dia, ao florescer e se transformar em algo novo e diferente da garota que ele havia encontrado naquela noite escura de Surrey.

Ele estava casado com ela, vinculado às leis de Deus e dos homens a tomá-la, deitá-la, idolatrá-la e tocá-la de todas as formas lascivas que poderia imaginar, reivindicando-a como sua. E ela não queria nada com ele. Cerrou o punho esquerdo, apreciando a dor pungente por baixo das faixas de tecido – a sensação da luta que acabava de ter, a promessa da que ainda viria – e baixou o lenço. O nariz havia parado de sangrar. Se ela não tivesse decidido afastar-se dele naquele dia, isso acabaria acontecendo – e talvez fosse tarde demais, quando ele já não estivesse disposto a liberá-la.

"Preciso de alguém para vigiá-la."

Jasper olhou para ele.

"Por quê?"

"Black a convidou para fugir depois que eu jogá-lo na lama."

Os outros trocaram olhares antes de Emmett dizer:

"E você quer pagar alguém para garantir que isso não aconteça?"

Ele queria acreditar que não iria acontecer. Que ela escolheria a ele. Que lutaria por ele da forma como tinha lutado por Jacob. Uma lembrança enterrada havia muito tempo lhe veio espontaneamente – a jovem Bella com as mãos estendidas durante uma festa no jardim, brincando de cabra-cega. Havia crianças espalhadas por todo o lugar, gritando seu nome, e ela se atirava para frente e para os lados, rindo da brincadeira boba. Ele e Jake se aproximaram dela e sussurraram seu nome ao mesmo tempo. Ela girou na sua direção, capturando-o facilmente, levando as mãos ao seu rosto, com um sorriso largo e encantador. Ela o havia escolhido.

"Edward", ela disse baixinho. "Peguei você."

Ele passou as mãos pelo rosto e olhou para os pés, cobertos de serragem.

"Acho melhor."

Jasper logo respondeu.

"Mandar segui-la pode não ser a melhor maneira de conquistar a dama, Cullen."

Ele se levantou.

"Estou aberto a ideias menos desprezíveis."

Emmett sorriu e disse:

"Por que não deixar o ringue e ir até ela? Dizer as palavras pelas quais ela está procurando, levar a garota para a cama e lembrá-la por que você é melhor do que Black, de todas as formas que valem a pena?" Ele se jogou contra as cordas várias vezes, em uma péssima imitação de coito. "Uma luta diferente, mas muito mais prazerosa."

Cullen fez uma careta e se levantou, sacudindo as mãos e experimentando o próprio peso sobre as pernas cansadas.

"Há quanto tempo você não dorme?", Jasper perguntou.

"Eu durmo." Não muito.

Deu um passo na direção do centro do ringue, sentindo o salão balançar. Emmett não o poupava. Nunca... Era o que o tornava um oponente tão fora de série naqueles dias em que tudo o que se queria era esquecer.

"Há quanto tempo você não dorme mais do que uma hora aqui e ali?"

"Eu não preciso de uma mãe."

Jasper levantou uma sobrancelha.

"Quem sabe uma esposa, então?"

Cullen desejou que Jasper também estivesse no maldito ringue. O som de Emmett traçando uma linha na serragem, no centro do ringue, ecoou no ambiente escuro e cavernoso.

"Venha aqui, meu velho. Deixe-me lhe dar a surra que está merecendo tanto. Vamos mandá-lo para casa, para sua marquesa, precisando desesperadamente do cuidado e da preocupação dela."

Cullen seguiu para o centro do ringue, ignorando tanto as palavras como o desagrado que se instalou em seu coração, diante da ideia de que sua marquesa não estava mais disposta a lhe dedicar nem cuidado nem preocupação. Depois de outro round de boxe, Cullen deixou o ringue, mal conseguindo enxergar com o olho esquerdo. Emmett continuou na arena, alongando-se contra as cordas, vendo Cullen aceitar um pedaço de carne crua da caixa aos pés de Alec, sentar-se ao lado de Jasper, reclinar-se e colocar a carne sobre o olho inchado. Passaram-se minutos – vários minutos – até que Jasper rompesse o silêncio.

"Por que ela foi embora sem você?"

Cullen expirou longamente.

"Ela está furiosa comigo."

"Elas sempre estão", Emmett disse, começando a desenrolar o tecido que havia posto ao redor dos nós dos dedos, antes da luta.

"O que você fez?" Jasper perguntou.

Havia uma centena de razões pelas quais ela estava furiosa. Mas apenas uma importava, a qual saiu rápida e clara, como um golpe dos punhos imensos de Emmett.

"Eu sou um cretino."

Cullen esperava concordância imediata dos sócios, então, como ninguém falou, perguntou-se se, talvez, eles o houvessem deixado sozinho. Levantou o pedaço de bife e olhou para cima, apenas para descobrir que Jasper, Emmett e Alec estavam de olhos arregalados para ele.

"O que foi?", ele perguntou.

Jasper conseguir falar.

"É só que nos cinco anos que conheço você..."

"Muito mais tempo no meu caso", Emmett interrompeu.

"...eu nunca o vi admitir que estava errado."

Cullen olhou de Jasper, para Emmett e para Jasper novamente.

"Deixem-me em paz." Devolveu a carne crua ao olho e se recostou novamente. "Eu não posso dar a ela o que ela quer."

"Que é?..."

Era mais fácil falar sem precisar olhar para eles.

"Um casamento normal. Uma vida normal."

"Por que não?", Jasper questionou.

"Eu só consigo sucesso no pecado e no vício. Ela é o oposto dessas coisas. Ela vai querer mais. Ela vai querer..." Ele parou de falar.

Amor. A única coisa que ele não poderia comprar para ela. A única coisa que não poderia correr o risco de dar a ela. Jasper se remexeu.

"Por isso o medo de Black."

Cullen ficou tenso.

"Não é medo."

"Claro que não", Jasper se corrigiu em um tom de voz permeado de humor. "Mandar segui-la não é a resposta, Cullen. A resposta é dar a ela o que ela quer. É ser o melhor marido que ela merece."

Ao diabo com ele, Edward queria ser esse marido. Ela o estava destruindo lentamente com sua força e sua energia. Não era para ser assim. Era para ser fácil e limpo – uma abdução rápida, um casamento fácil, e uma separação tranquila que serviria a ambos. Só que nada em sua esposa parecia fácil ou tranquilo. Edward flexionou os dedos, sentindo a dor da luta.

"Não é tão fácil assim."

"Nunca é, com as mulheres", Jasper continuou. "Pode dizer o quanto quiser que a dispensará depois de executar sua vingança, mas não conseguirá fazer isso. Não completamente. Ainda estará casado."

"A menos que ela vá embora com Jacob Black", Emmett provocou de dentro do ringue.

Edward o xingou furiosamente.

"Ela não precisa de Black para a vida que quer. Eu vou dar a ela. Tudo o que ela quer."

"Tudo?", Jasper perguntou. Edward não respondeu. "Não é mais tudo pelas terras e pela vingança, é? Você gosta dela."

Ele não deveria. Havia perdido tudo de que gostava na vida, destruído tudo de bom que um dia tocou. Gostar de Isabella era um prenúncio da destruição dela. Mas ele desafiava qualquer homem da Grã-Bretanha a passar um dia com sua esposa e não gostar dela.

"No mínimo, ele a deseja", Emmett interrompeu. "E não podemos culpá-lo. A coragem que ela demonstrou esta noite tentaria um santo."

"Tentou um santo", Jasper respondeu. "Carlisle a acompanhou para casa."

Edward foi inundado pela raiva.

"Carlisle não vai tocar nela."

"Não. Não vai. Mas não porque ela não seja tentadora. E sim porque ele é Carlisle", Jasper disse.

"E se não fosse, não tocaria porque ela é sua", Emmett acrescentou.

Por Deus, como ele queria que ela fosse dele.

"Ela não é minha. Não posso tê-la."

Ela não quer nada comigo. Ele havia destruído qualquer chance disso, assim como destruiu tudo o mais que era bom e certo em sua vida.

"Mas Cullen", Emmett disse, "você já a tem."

Houve um longo silêncio enquanto as palavras ecoavam ao redor deles. Não eram verdadeiras, claro. Não estavam certas... Se ele a tivesse, não teria tanto medo de ir para casa encontrá-la. Se a tivesse, não estaria ali, fedendo a suor e carne crua. Se a tivesse, ela não o teria deixado. E, finalmente, ele disse:

"Estou casado com ela. Isso não é a mesma coisa."

"Bem, é de se pensar que seja um começo." Dizendo isso, Jasper se levantou, pegou o maço de papéis que carregava e acrescentou: "Ela é sua, ponto. E já que estão presos um ao outro – e que Deus a ajude - talvez esteja na hora de você tentar ter um casamento que não termine de um jeito tão terrível como começou."

A ideia – a possibilidade de que ela pudesse algum dia gostar dele – de que eles pudessem algum dia ter mais do que um casamento falso lhe era mais tentadora do que as cartas, do que a roleta. A ideia o tentava a ser o marido que ela merecia.

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Caro E,
Sua alteza, duquesa de Leighton. Parece que não foi necessária uma abundância de duques jovens e disponíveis. Um bastou. O duque de Leighton expressou o desejo de me cortejar, meu pai concordou, e minha mãe está absolutamente exultante.

Muitas coisas o recomendam, é claro. Ele é bonito, inteligente, rico, poderoso, e, como mamãe gosta de me lembrar em todas as oportunidades: é um DUQUE.

Se fôssemos cavalos, haveria um leilão em Tattersalls, sem dúvida.

Evidentemente, cumprirei meu dever. Será um casamento memorável. É difícil acreditar que serei uma duquesa – o santo graal da primogênita da aristocracia.

Ei...
Há muito tempo não sentia tanto a sua falta. Onde você está?

Sem assinatura
Casa Swan, setembro de 1823

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Carta não enviada.

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Na manhã seguinte, Isabella enviou uma mensagem até a recentemente habitada Casa Swan para convidar Olivia e Philippa a passarem o dia com ela – o primeiro dia em que parou de esperar pelo marido e começou a viver a vida novamente. Iria andar de patins no gelo. Estava precisando muito de uma tarde com as irmãs para lembrar-se de que havia um motivo para as discussões com Edward e seu próprio descontentamento, e para continuar com aquele fingimento tolo, garantindo que seu casamento parecesse real e não a farsa que realmente era. Precisava lembrar a si mesma de que se a farsa fosse desmascarada, o escândalo dela seria o de todas rapidamente, e Philippa e Olivia mereciam uma chance de coisas melhores. De mais...

Rangeu os dentes ao pensar naquela palavra, em tudo o que ela significou naquela noite fatídica em que se havia permitido ser capturada na aventura do casamento com Edward. Afastando o pensamento, fez um aceno com a cabeça para a criada, que a ajudou a se vestir, apertando os cadarços do corpete, fazendo os laços, ajustando as fitas e os botões. Isabella sabia que seria observada atentamente fora das paredes da Mansão do Diabo, e vestiu-se com cuidado para os olhos de toda Londres – pelo menos a todos os que estivessem na cidade no mês de janeiro –, e que a estariam vigiando, em busca da fissura na armadura da nova marquesa de Cullen. A mulher que acreditavam ter capturado o coração do sócio mais duro do Anjo Caído, convencendo-o a restaurar seu título e retornar à aristocracia.

A mulher que ele evitava a todo custo.

Bella escolheu um vestido de lã verde-claro, considerando-o quente e alegre para o passeio, e o combinou com a capa azul-marinho que havia usado na noite fatídica em que percorreu as terras de Swan e Falconwell e se deparou com Edward, agora Cullen, no meio da noite fria e escura. Podia ter sido um aceno àquela noite, ao momento em que havia aberto as portas daquele estranho futuro, à esperança de que poderia encontrar mais, apesar de um marido que não queria ter nada a ver com ela. Ela teria sua aventura naquela capa, com ou sem ele. Um chapéu forrado de pele e luvas completaram o traje, no momento perfeito. Descendo a ampla escadaria central da Mansão do Diabo, ouviu a conversa das irmãs no saguão abaixo, preenchendo o espaço vazio que parecia imenso em todos os pontos da casa do marido.

A casa dela, supunha.

Percorrendo apressadamente o patamar do primeiro andar, ansiosa por rever as irmãs e sair da casa, a porta do gabinete particular de Cullen se abriu, e ele saiu de lá, segurando papéis em uma das mãos, o paletó desabotoado e a camisa de linho branca ajustada ao peito largo. Ele parou ao vê-la e no mesmo instante levou a mão ao botão do casaco. Isabella paralisou, olhando atentamente para o rosto dele, percebendo a descoloração ao redor de um dos olhos e o corte feio no lábio inferior. Deu um passo para frente, levantando, de modo involuntário, uma das mãos enluvadas, sem conseguir se conter, até o rosto ferido do marido.

"O que aconteceu com você?"

Ele recuou do toque, olhando-a de cima a baixo.

"Aonde você vai?"

A mudança abrupta de assunto não deu a ela uma chance de decidir se queria que ele soubesse a verdade.

"Andar de patins. O seu olho..."

"Não é nada", disse ele, levando a mão até o ferimento.

"Está horrível." Ele levantou uma sobrancelha, e ela sacudiu a cabeça. "Quero dizer... ah, você sabe o que eu quero dizer. Está todo roxo e amarelo."

"Está desagradável?"

Ela assentiu uma vez com a cabeça.

"Muito."

"Era o que eu queria." Ele a estava provocando? "Obrigado pela preocupação." Houve uma longa pausa, durante a qual Isabella poderia fantasiar que Edward estivesse se sentindo desconfortável, se não soubesse da verdade. Por fim, ele acrescentou: "Viu que aceitei um convite para o Baile Beaufetheringstone?".

Ela não conseguiu deixar de responder.

"Sim. Você sabe que normalmente é a esposa quem aceita os convites sociais, não?"

"Quando estivermos recebendo mais deles, terei a satisfação de abdicar da tarefa de aceitá-los. Fiquei surpreso que tenhamos sequer sido convidados."

"Eu não ficaria. Lady B gosta mais de escândalos do que a maioria das pessoas. Especialmente se for em seu salão de baile."

Uma cacofonia de risos subiu do térreo, poupando-a de ter de responder, e Edward aproximou-se do balaústre para olhar para o saguão.

"As jovens Swan, imagino?"

Isabella fez o máximo para desviar o olhar do corte no lábio dele. De verdade... Mas o fato de que não conseguiu não importava.

"Elas retornaram à cidade", Bella fez uma pausa, sem conseguir disfarçar a aspereza da voz ao acrescentar: "confiantes de que serão cortejadas em breve...".

Ele voltou a atenção a ela novamente.

"Patins no gelo?" Havia surpresa na pergunta.

"Não lembra de andarmos de patins no lago quando éramos crianças?" As palavras saíram antes que ela pudesse impedir, e ela desejou que tivesse dito outra coisa... qualquer coisa... algo que não a fizesse lembrar do Edward que havia conhecido e compreendido um dia.

Era como se ele tivesse apagado as lembranças que tinha dela. Ela detestava a forma como isso a fazia se sentir.

"Estou atrasada." Ela se virou de costas para Edward, seguindo para a escada, sem esperar que ele dissesse algo. Ele era muito bom em ficar em silêncio e ela havia desistido de pensar que ele falaria sem ser provocado. Além do mais, estava cansada de provocá-lo.

Por isso, quando ele falou...

"Isabella."

O som do nome dela em seus lábios a chocou. Ela se virou imediatamente.

"Sim?"

"Posso acompanhá-las?"

Bella piscou.

"Perdão?"

Ele respirou fundo.

"Andar de patins... Posso acompanhá-las?"

Ela apertou os olhos.

"Por quê? Acha que o Lorde e a Lady Cullen ganharão alguns centímetros nos jornais se formos vistos de mãos dadas, deslizando pelo gelo?"

Edward passou a mão pelos cabelos selvagens.

"Eu mereci isso."

Ela não iria se sentir culpada.

"Sim, mereceu. E merece muito mais."

"Eu gostaria de me redimir com você."

Ela arregalou os olhos. O-que-era-aquilo?

Ele provavelmente estava manipulando a ela e ao futuro dos dois e, dessa vez, Isabella não se deixaria levar. Não seria enganada. Sabia como as coisas eram. Estava cansada da dor que se instalava em seu peito toda vez que ele estava por perto – e ele sempre estava longe. Estava cansada das batalhas, dos jogos, das falsidades. Estava cansada das decepções. Ele não podia acreditar que uma pequena oferta de companhia fosse compensar por tudo o que tinha feito... tudo o que ameaçou fazer. Endireitando a postura e firmando a voz, ela respondeu:

"Acho que não."

Ele piscou.

"Eu devia ter esperado por isso."

Depois da forma como os dois se despediram na noite anterior? Sim, devia.

Ela se virou de costas mais uma vez, seguindo para a escada que levava até onde estavam suas irmãs.

"Isabella." Ele a fez parar com seu nome, pronunciado em voz baixa e suave.

Não pôde deixar de se virar.

"Sim?"

"O que você quer? Para eu me juntar a vocês?"

"O que eu quero?"

"Diga seu preço." Ele fez uma pausa. "Uma tarde com minha esposa sem o espectro do passado ou do futuro ao nosso lado. O que você quer por isso?"

Ela respondeu sem hesitar, séria e direta.

"Não destrua Jacob."

"Sempre pedindo pelos outros. Nunca por si mesma."

"E você, sempre fazendo por si mesmo, nunca pelos outros."

"Prefiro o resultado disso." Edward era um homem irritante. Ele se aproximou e falou baixo, provocando uma onda em seu corpo: "O que eu teria de fazer para tê-la durante uma tarde?".

A respiração de Isabella acelerou com as palavras formando uma variedade de imagens que não tinham nada a ver com patinação no gelo, suas irmãs e tudo a ver com a colcha de pele sobre a cama luxuosa dele. Edward estendeu a mão e deslizou um dedo pelo rosto dela.

"Diga seu preço."

Por Deus, ele a dominava com tanta facilidade.

"Uma semana", ela disse, a voz trêmula. "Uma semana de segurança para ele." Uma semana para convencê-lo de que está errado. De que vingança não era a resposta.

Como ele não concordou imediatamente, ela se obrigou a se virar mais uma vez para a escada, decepcionada por sua absoluta falta de poder sobre ele.

Quando pôs o pé no primeiro degrau, Philippa a viu.

"Bells!", anunciou. "E Lorde Cullen!"

Bella olhou de volta para Edward e sussurrou:

"Não precisa me acompanhar. Garanto que sou bastante capaz de encontrar o caminho até a porta da frente."

"Negócio fechado", ele disse baixinho para ela. "Uma semana."

Bella sentiu o sucesso atravessá-la, intoxicante e excitante. Haviam chegado ao final da escada antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, e Olivia disparou:

"Viram o jornal O Escândalo de hoje?"

"Não vi, lamento", Isabella provocou, fingindo não perceber que Edward estava desconfortavelmente próximo atrás dela. "Que mexerico emocionante descobriu?"

"Nenhum mexerico para nós", Pippa respondeu. "Mexerico sobre nós... bem, sobre você, pelo menos."

Ah, não. Alguém havia descoberto a verdade do casamento deles. De sua ruína no campo.

"Que tipo de mexerico?"

"Do tipo que deixou toda Londres com inveja do seu casamento maravilhoso e insuportavelmente romântico!", Olivia gritou.

Isabella levou um tempo para registrar o significado das palavras.

"Nós não sabíamos que vocês haviam se encontrado no dia de Santo Estêvão", Olivia disse. "Nem sequer sabíamos que Lorde Cullen havia estado em Surrey no Natal!"

Pippa encarou Bella, absolutamente séria.

"Não, não sabíamos."

Pippa não era boba, mas Bella forçou um sorriso.

"Leia, Pippa", Olivia ordenou.

A mais jovem Swan empurrou os óculos para cima e levantou o jornal.

"Os últimos dias de janeiro não são normalmente um período frutífero em mexericos, mas este ano temos uma história especialmente suculenta com o recém chegado marquês de Cullen!" Ela olhou para Edward. "É o senhor, milorde."

"Imagino que ele saiba disso", Olivia comentou.

Pippa ignorou a irmã e continuou:

"Certamente nossos exigentes leitores... Não tenho tanta certeza de que os leitores de O Escândalo sejam exatamente 'exigentes', não?"

"Francamente, Philippa. Continue lendo!"

"Certamente nossos exigentes leitores já souberam que o marquês se casou." Philippa olhou para Isabella, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Olivia resmungou e arrancou o jornal de suas mãos.

"Muito bem. Eu lerei. Ouvimos dizer que o Lorde e a Lady Cullen estão tão absolutamente envolvidos um com o outro, que raramente são vistos separados. E, um adendo delicioso! Aparentemente, não são apenas os olhos de Lorde Cullen que seguem sua esposa... mas suas mãos e lábios também! E em público, ainda mais! Que excelente!"

"Esta última parte foi edição de Olivia", Pippa interrompeu.

Isabella achou que ia morrer de vergonha. Ali mesmo. Naquele lugar. E Olivia continuou:

"Não que esperássemos qualquer coisa menos de Lorde Cullen... marido ou não, ele continua sendo um imoral. E isso que chamamos de imoral, sob qualquer outro nome seria igualmente escandaloso!"

"Ah, pelo amor de Deus." Isabella revirou os olhos para o comentário, olhando para Edward, que parecia... satisfeito. "Você está se sentindo lisonjeado?"

Ele voltou os olhos inocentemente para ela.

"Não deveria?"

"Bem", Philippa acrescentou pensativa, "qualquer coisa shakespeariana deve ser ao menos um vago elogio."

"Exatamente", Edward disse, presenteando Pippa com um sorriso que deixou Bella com certo ciúme da irmã mais nova. "Por favor, continue."

"Basta dizer, leitores, que estamos muito satisfeitos com esse conto de inverno..."

"Será que ele teve a intenção de fazer outro trocadilho shakespeariano?", Philippa interrompeu.

"Sim", disse Olivia.

"Não", disse Isabella.

"...e apenas podemos esperar que a chegada das últimas duas senhoritas Swan..."

Pippa empurrou os óculos no nariz e disse:

"Somos nós."

"...traga excitação suficiente para nos manter aquecidos nesses dias frios. Não é a coisa mais grosseira que vocês já ouviram?", Olivia perguntou, e Bella resistiu ao impulso de fazer picadinho do ridículo artigo de jornal.

Não havia lhe ocorrido que suas irmãs pudessem não saber da verdade. Que o casamento dela era uma fraude. Fazia sentido, claro. Quanto menos pessoas soubessem – quanto menos moças com queda para mexericos soubessem – mais fácil seria para elas encontrarem pretendentes. Cullen passou um braço por sua cintura. As irmãs olharam para aquele braço, para a forma como a mão dele deslizou, de modo quente e direto, pelo corpo dela, pousando na curva do quadril, como se aquele fosse seu lugar. Como se aquele fosse o lugar dele. Como se estar com ele fosse o lugar dela.

Ela se afastou do toque. Podia ter concordado em mentir para metade do mundo cristão, mas não mentiria para suas irmãs. Abriu a boca para rejeitar o texto, para contar a verdade a elas, mas parou... O romance podia ser uma farsa, Edward podia estar envolvido por seus próprios objetivos misteriosos, mas ela tinha um motivo. Teve um motivo desde o princípio. Suas irmãs tinham vivido tempo demais à sombra de sua ruína. Ela não as encobriria mais. Edward já estava falando, eloquentemente.

"Com a publicação deste texto, vocês precisarão de proteção contra o bando de pretendentes que, quase que certamente, se aproximará como um enxame."

"Precisa ir conosco!", Olivia disse, e Isabella resistiu ao impulso de gritar pela forma como suas irmãs haviam caído direitinho na conversa dele.

Edward olhou para ela, que desejou que ele recusasse, que se lembrasse do que ela havia dito lá em cima.

"Infelizmente, não posso."

Isabella devia ter ficado satisfeita, mas o certo era frequentemente errado quando se tratava de seu marido. Assim, ela acabou sentindo uma surpresa tão agradável por ele ter honrado o pedido dela, que chegou a desejar que ele concordasse em se juntar a elas. O que era ridículo, evidente. Homens eram definitivamente irritantes e o marido dela, mais do que a maioria.

"Ah, por favor", Olivia pressionou. "Seria ótimo poder conhecer nosso novo irmão."

Pippa entoou:

"É verdade. Vocês se casaram tão depressa... não tivemos uma oportunidade de nos reaproximarmos."

Isabella olhou para a irmã. Alguma coisa estava errada. Pippa sabia. Tinha que saber. Ele sacudiu a cabeça de novo.

"Sinto muito, moças, mas não tenho patins."

"Temos um par extra na carruagem", Olivia disse. "Agora não tem mais motivo para não ir."

Bella ficou imediatamente desconfiada.

"Por que vocês teriam patins extras na carruagem?"

Olivia sorriu, linda e alegre.

"Nunca se sabe quando podemos encontrar alguém com quem queiramos andar de patins."

Isabella voltou um olhar surpreso para Edward, que parecia estar tendo dificuldade para conter um sorriso. E levantou uma sobrancelha quando ele disse:

"Excelente começo. Parece que não tenho escolha que não seja bancar o acompanhante."

"Talvez não seja o melhor acompanhante, Cullen", Bella disse entredentes. "Levando em consideração que se trata de um imoral."

Ele piscou um olho para ela. Realmente piscou para ela! Quem era esse homem?

"Ah, mas quem melhor do que um imoral em recuperação para identificar outro? E, preciso confessar, eu adoraria a oportunidade de andar de patins com minha esposa novamente. Faz tanto tempo..."

Mentira. Ele não se lembrava de andar de patins com ela. Praticamente havia admitido isso pouco antes, no andar de cima. Ela não achava que conseguiria suportar uma saída com todos eles, com Edward a tocando constantemente, perguntando sobre como ela estava se sentindo, tentando-a. Não depois da noite anterior, em que ela havia sido tão forte. Quando se sentiu tão segura de si mesma e do que queria. De repente, à luz do dia, aquele Edward mais gentil, mais suave, não parecesse tão fácil de resistir.

E isso era algo realmente muito ruim.


Gente, nunca vi uma loja tão cheia. Preciso urgente esticar as pernas sobre uma almofada, de preferência com coca gelada e batatas fritas kkk Até a próxima semana! :)