Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.


CAPÍTULO DEZESSEIS

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"Eu jamais deixaria minha Isabella durante anos. Teria medo demais de alguém levá-la de mim."

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Caro E,

Eu não tinha dúvida alguma de que esta temporada seria terrível, mas está sendo pior do que eu imaginava. Ah, posso suportar os mexericos, os cochichos, a forma como me tornei invisível para os solteiros disponíveis que costumavam me convidar para dançar, mas ver o duque e sua nova e linda duquesa – isso é difícil.

Eles estão tão apaixonados... Nem sequer parecem notar todas as conversas que os seguem. E então, ontem, ouvi dizer em um salão de damas que ela está aumentando.

É tão estranho ver alguém viver a vida que nós poderíamos estar vivendo. Ainda mais estranho é sentir desejo por ela e, ao mesmo tempo, exultar com a liberdade de não tê-la.

Sem assinatura
Casa Swan, abril de 1824.

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Carta não enviada.

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Era algo estranho, realmente, cortejar a própria esposa. Ele esperaria que isso envolvesse luz de velas, um quarto silencioso e uma hora ou duas de sussurros lascivos. Ainda assim, parecia que a corte à sua esposa envolveria as irmãs dela, a mãe ligeiramente ridícula, cinco dos cães do pai dela e um jogo de adivinhação. Era a primeira vez que jogava adivinhação desde que tinha deixado Surrey para estudar, dezoito anos antes.

"Não precisa ficar aqui, sabe", Isabella disse, num sussurro, do lugar ao lado dele, no sofá da sala de estar da Casa Swan.

Ele se recostou, cruzando um tornozelo sobre o outro.

"Gosto de uma boa rodada de adivinhação como qualquer outro homem."

"E minha experiência mostra que homens adoram jogos de salão", ela disse ironicamente. "A tarde já acabou, sabe..."

As palavras foram um lembrete não tão sutil de que ela o havia pago na totalidade... que o tempo dele havia acabado. Ele encarou seus olhos castanhos.

"Ainda estamos depois do meio-dia, Seis Cents." Ele baixou o tom de voz. "Pelas minhas contas, tenho pelo menos mais cinco horas com você – até a noite."

Ela corou, e ele resistiu ao impulso de fazer amor com ela ali mesmo – de despi-la de sua roupa decente e deitá-la nua sobre aquele mesmo sofá em que estavam sentados. A família dela provavelmente não aprovaria. Não era a primeira vez que ele pensava em tirar as roupas dela naquele dia, nem a décima. Nem, provavelmente, a centésima. Alguma coisa havia acontecido durante a patinação, alguma coisa para a qual ele não estava preparado. Ele havia se divertido. Ele havia se divertido com Isabella. Ele gostou de patinar com ela, de provocá-la e de vê-la com as irmãs, cada uma encantadora à sua própria maneira.

E ficou muito tentado a reivindicar a própria esposa. Mas, quando tentou, ela se afastou dele – cheia de gloriosa força –, o queixo erguido, encantadora, recusando-se a se contentar com menos do que merecia. Ele tinha ficado fascinado quando ela o deixou, muito orgulhoso dela atravessando o Serpentine, e precisou de todo seu autocontrole para não segui-la e segurá-la ali, naquele lugar que parecia tão distante de onde o casamento deles realmente existia. Ele havia se deleitado na sensação dos braços dela enquanto os dois patinavam juntos, havia se exaltado com a forma como ela sorriu quando ele roubou uma castanha do saquinho de papel dela. E quando ela lhe pediu, de olhos arregalados, pela verdade – ele ficou feliz de responder com sinceridade.

Mas sua sinceridade não foi suficiente. Uma lição bem aprendida. Edward sabia que ela esperava que ele fosse recusar o convite para jogar adivinhação, e provavelmente deveria ter recusado. Mas ele descobriu que não estava pronto para deixá-la – na verdade, descobriu que não gostava da ideia de jamais deixá-la. Então ali estava ele, em uma sala de estar, jogando adivinhações no idílio familiar.

As irmãs dela entraram na sala, Philippa trazendo um pote cheio de pedaços de papel, seguida por um grande cachorro marrom que trotou até o sofá e forçou caminho para sentar-se entre ele e Isabella, dando duas voltas antes de se ajeitar, colocando o queixo sobre a coxa de Bella, empurrando o traseiro contra o quadril de Edward. Ele se mexeu, abrindo espaço para o cão, enquanto ela acariciava suavemente as orelhas do animal. Sentiu ciúme ao ouvir o suspiro do cachorro diante do toque. Edward limpou a garganta, irritado com a inveja canina, e perguntou:

"Quantos cachorros há nesta casa?"

Ela franziu o nariz, pensativa, e ele ficou intrigado pela expressão – um vestígio da juventude dos dois, que o fez querer passar os dedos pelas rugas na inclinação do rosto dela.

"Dez? Onze?" Ela encolheu os ombros leve e docemente. "Para ser sincera, perdi a conta. Este é o Brutus."

"Ele parece gostar de você."

Ela sorriu.

"Ele gosta de atenção."

Edward decidiu que, tolice ou não, abriria mão alegremente de sua participação no Anjo Caído para ter as mãos dela nele de uma forma tão encantadora e tranquilizadora.

"Vocês viram como Tottenham é alto? E tão bonito!", Olivia disparou, aproximando-se para se sentar na cadeira ao lado de Edward, inclinando-se para falar com ele. "Eu não fazia ideia que um cunhado com uma reputação como a sua daria acesso a um marido com tamanho potencial!"

"Olivia!" A marquesa de Swan parecia prestes a morrer de constrangimento. "Não se discute esse tipo de coisa com nobres!"

"Nem mesmo com o próprio cunhado?"

"Nem com ele!" A voz de Lady Swan havia subido várias oitavas. "Um pedido de desculpas não seria de todo mau!"

Pippa olhou de onde havia deixado o grande pote de pistas e empurrou os óculos mais para o alto do nariz.

"Ela não quer dizer que sua reputação seja ruim, milorde. Apenas que é..."

Edward ergueu uma sobrancelha, imaginando como ela terminaria a frase.

"Francamente, Pippa. Ele não é uma besta. Ele sabe que tem uma reputação escandalosa e eu seria capaz de apostar que gosta disso." Ela sorriu abertamente para ele, e ele decidiu que gostava daquelas meninas. No mínimo, eram divertidas.

"Tudo bem. Já chega", Bella interrompeu. "Vamos jogar? Olivia, você primeiro."

Olivia parecia mais do que disposta a começar o jogo, e seguiu até a grande lareira para fazer sua parte. Escolheu um pedaço de papel do pote, leu e apertou os lábios, claramente pensando em sua estratégia. Em vez de fazer mímica sobre o item no papel, ela olhou para cima e disse:

"Acham que Tottenham irá me comprar um anel de noivado muito grande?"

"As bodas de Fígaro", Isabella disse, sem rodeios.

"Sim!" Olivia disse. "Como você adivinhou?"

"Como não poderia?", a mais velha respondeu.

"Que menina esperta!", anunciou a marquesa.

Edward não pode evitar. Deu risada, chamando a atenção da esposa, com a testa franzida de confusão, como se ele fosse um estranho exemplar da flora que ela tivesse acabado de descobrir.

"O que foi?", ele perguntou.

"Nada... eu só... você não ri muito."

Ele se aproximou dela, o mais perto que conseguiu, com o cachorro entre eles.

"É impróprio?"

Ela riu, um riso soando como música.

"Não... eu..." Ela corou novamente, e ele daria toda sua fortuna pelos pensamentos dela naquele momento. "Não."

"Olivia", Pippa disse, "tente de novo."

Olivia pegou outro papel, mas não sem antes olhar diretamente para Edward e anunciar:

"Eu sempre gostei de rubis, Lorde Cullen. Acredito que valorizem meu tom de pele. Caso isso surja em uma conversa. Com qualquer um".

Tottenham estava bastante encrencado, de fato.

"Ah, estou certa de que surgirá", Isabella disse, secamente, "considerando quantas conversas sobre joias e tons de pele femininos que homens como Cullen e Tottenham devem ter."

"Você ficaria surpresa", ele disse à esposa, muito sério, e ela riu novamente. "Darei um jeito de lembrar sua preferência por rubis, Lady Olivia."

Ela sorriu.

"Por favor, faça isso."

"Não tenho certeza de que joias valorizem um tom de pele", Pippa disse com perspicácia. "Uma peça."

"Philippa, convidamos Lorde Castleton para o almoço amanhã", a marquesa anunciou. "Vocês dois terão tempo para dar uma caminhada à tarde, espero."

"Está bem, mamãe." Pippa não desviou a atenção. "Três palavras."

"Tottenham não virá", Olivia disse fazendo beicinho.

"Você não deve falar, Olivia", Pippa disse. "Embora tenham sido três palavras, então, muito bem."

Edward sorriu para a resposta inteligente, mas não deixou de perceber o desinteresse na reação da cunhada. Ela não queria se casar com Castleton. Não que pudesse culpá-la. Castleton era um idiota. Foi preciso apenas poucas horas para Cullen descobrir que Pippa era mais inteligente do que a maioria dos homens e que Castleton formaria um péssimo par com ela. É claro que Castleton formaria um péssimo par com qualquer uma, mas Philippa consideraria seu casamento especialmente arrasador. E Bella o odiaria por não impedir que isso acontecesse. Olhou para a esposa, que o estava observando com atenção.

Ela se inclinou na direção dele.

"Você não gostou do casal."

Ele poderia ter mentido. Quanto mais rápido Philippa e Castleton ficassem comprometidos, mais rápido Edward teria sua vingança, mais rápido poderia viver a vida fora do alcance da nuvem de raiva e fúria que havia tornado sua última década tão sombria. Nada havia mudado. Exceto que... algo havia mudado... Isabella. Ele sacudiu a cabeça.

"Não."

Algo se acendeu nos lindos olhos chocolates dela, algo em que ele poderia se viciar. Esperança. Felicidade. Fez com que ele se sentisse dez vezes mais homem por ser o motivo daquilo.

"Você o impedirá?"

Ele hesitou. Ele o impediria? Isso faria Bella feliz. Mas a que preço? Ele foi salvo de ter de responder por Philippa, que se virou para eles.

"Pelos céus? Estão vendo isso?"

Ele não estava prestando atenção, mas Olivia estava agora fazendo mímica de um chicote estalando e franzindo o rosto, mostrado os dentes e abrindo os dois lados da boca com os dedos.

"Guiando uma lula! Açoitando a luz do sol!", gritou a marquesa, com orgulho na voz, arrancando risos do resto da sala.

"Guiando uma Lula é uma peça que eu adoraria ler", Philippa disse, dando risada, voltando-se para Isabella. "Bells, por favor. Precisamos da sua ajuda."

Isabella observou Olivia por um longo momento, e Edward teve dificuldade de desviar o olhar dela – hipnotizado por seu foco. Ele se perguntou como seria merecer tamanho interesse, tamanho contentamento... Voltou a ser dominado pelo ciúme, e censurou a si mesmo. Nenhum homem adulto devia invejar cães ou cunhadas.

"A megera domada."

Olivia parou.

"Sim! Obrigada, Bell. Eu estava começando a me sentir tola ali."

"Não consigo imaginar por quê", Pippa disse, secamente. "Não acho que megeras sejam cegas, Olivia."

"Ah, tolice. Gostaria de ver você fazer melhor. Quem é agora?"

"É a vez da Bella. Ela adivinhou a última."

Isabella se levantou e alisou as saias, e Edward a observou ir até o palco improvisado, pegar um pedaço de papel e desdobrando-o. Pensou na frase por um instante antes de ter uma ideia e seu rosto se iluminar. Ele se remexeu no lugar, subitamente desconfortável, querendo levá-la correndo da sala e da casa, para a casa dele, para a cama dele. Mas a rodada havia começado, e ele teria de esperar. Ela levantou três dedos, e ele imaginou a sensação deles em seu maxilar, seus lábios, seu rosto.

"Três palavras!"

Ela endureceu a postura e saudou as irmãs, então marchou rigidamente pelo palco, os seios empinados esticando no decote do vestido. Ele se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos, e observou, aproveitando a vista.

"Marchando!"

"Soldados!"

Ela fez um sinal encorajador com as mãos.

"Napoleão!"

Ela fez a mímica de um tiro de rifle, e a atenção dele se manteve onde o ombro e o pescoço dela se encontravam, a reentrância macia e sombreada ali, que ele ansiava por beijar... o ponto que ele beijaria em outro momento e outro lugar, se eles fossem casados e ele fosse um homem diferente. Se ele fosse um homem que ela pudesse amar. Se o casamento deles fosse construído sobre algo diferente de vingança. Não toque em mim. As palavras passaram por ele, e Edward as desprezou. Desprezou o que elas representavam – a forma como ela pensava nele, a forma como ela acreditava que ele a trataria. A forma como ele a havia tratado. A forma como ele a estava tratando.

"Caçando!"

"Papai!"

"Papai caçando Napoleão!" O palpite tolo de Olivia arrancou Isabella de sua mímica com uma risada. Ela sacudiu a cabeça, então apontou para si mesma. "Papai caçando você!"

Pippa olhou para Olivia.

"Por que, em nome dos céus, isso estaria no pote de adivinhações?"

"Não sei. Uma vez, tirei Peruca da tia Hester."

Pippa riu.

"Eu coloquei essa aí!" Isabella limpou a garganta. "Certo. Desculpe, Bell. O que você não estava dizendo?"

Bella apontou para si mesma.

"Lady?"

"Fêmea?"

Esposa. Sua esposa.

"Garota?"

"Filha?"

"Marquesa!" A marquesa de Swan lançou seu primeiro palpite com uma alegria tão exultante, que Edward achou que ela iria cair do sofá.

Isabella suspirou e revirou os olhos antes de encará-lo, as sobrancelhas erguidas, como que dizendo Socorro? Alguma coisa espantosamente parecida a orgulho explodiu no peito dele com o pedido – com a ideia de que ela podia estar se voltando a ele em busca de ajuda. Descobriu que queria ser o homem a quem ela recorria. Ele queria ajudá-la. Pelo amor de Deus, Cullen, é um jogo de adivinhação.

"Penélope", ele disse.

Os olhos dela se iluminaram. Ela apontou para ele.

"Penélope?" Olivia pareceu cética. Bella começou a fazer mímica novamente. "Costurando?"

Ela sorriu e apontou para Olivia, então fez a mímica de estar puxando um fio de um bordado rapidamente.

"Descosturando?"

Ela apontou para Olivia de novo, então para si mesma, depois fez a mímica de costurar e descosturar uma vez mais, antes de olhar para Pippa, claramente a irmã que esperava de verdade que fosse capaz de juntar todas as suas pistas. Ele não queria que Pippa ganhasse. Ele queria ganhar. Para impressioná-la.

"A Odisseia", ele disse.

Bella deu um sorriso, largo e lindo, batendo palmas e dando pulinhos, aproveitando o triunfo fugaz, então fez a mímica de disparar um rifle e marchou ao redor do palco uma vez mais. Bella girou, apontando diretamente para Edward, toda sua atenção voltada para ele, e ele se sentiu como um herói ao adivinhar:

"A Guerra de Troia".

"Sim!" Isabella anunciou soltando um grande suspiro. "Muito bem, Edward."

Ele não conseguiu deixar de se gabar.

"Foi mesmo, não foi?"

"Não compreendo", disse Olivia. "Como Penélope, costurar e descosturar chegou à Guerra de Troia?"

"Penélope era a esposa de Odisseu", Philippa explicou. "Ele a deixou, e ela ficou sentada em seu tear, costurando o dia todo, e desfazendo todo seu trabalho à noite. Durante anos."

"Por que alguém faria isso?" Olivia franziu o nariz, escolhendo um doce de uma bandeja próxima. "Por anos? Francamente."

"Ela estava esperando que ele voltasse para casa", Isabella disse, olhando nos olhos de Edward. Havia alguma coisa significativa ali, e ele achou que ela podia estar falando de algo mais do que o mito grego. Ela esperava por ele à noite? Ela havia dito para ele não tocar nela... ela o havia empurrado para longe... mas, naquela noite, se ele a procurasse, ela o aceitaria? Ela seguiria o caminho de Penélope?

"Espero que tenha coisas mais emocionantes para fazer quando está esperando que Edward volte para casa, Bella", Olivia provocou.

Isabella sorriu, mas havia algo em seu olhar de que ele não gostou, algo parecido com tristeza. Ele culpou a si mesmo por aquilo. Antes dele, ela era mais feliz. Antes dele, ela sorria, dava risada e jogava com as irmãs sem uma lembrança de seu destino infeliz. Ele se levantou para recebê-la quando ela se aproximou do sofá.

"Eu jamais deixaria minha Isabella durante anos. Teria medo demais de alguém levá-la de mim", ele disse. Sua sogra suspirou alto do outro lado da sala, enquanto suas novas irmãs davam risada. Ele segurou uma das mãos de Bella nas suas e roçou um beijo nos nós dos dedos. "Penélope e Odisseu nunca foram meu casal mítico preferido, de qualquer maneira. Eu sempre gostei mais de Perséfone e Hades."

Isabella sorriu para ele, e a sala de repente ficou muito, muito mais quente.

"Você acha que eles foram um casal feliz?", ela perguntou, irônica.

Ele sorriu junto com ela, divertindo-se ao baixar o tom de voz.

"Acho que seis meses de fartura são melhores do que vinte anos de fome."

Ela corou, e ele resistiu ao impulso de beijá-la ali mesmo, na sala de estar, ignorando a decência e as sensibilidades delicadas das senhoras. Não percebendo a troca, Olivia anunciou:

"Lorde Cullen, é a sua vez."

Ele não desviou os olhos da esposa.

"Infelizmente, está tarde. Creio que deva levar minha esposa para casa."

Lady Swan levantou-se, derrubando um cachorro pequeno do colo, com um latido agudo.

"Ah, fiquem um pouco mais. Estamos todos apreciando tanto a visita."

Ele olhou para Isabella, querendo levá-la para seu submundo, mas dando-lhe a permissão de tomar sua decisão. Ela se virou para a mãe.

"Lorde Cullen tem razão", disse, fazendo-o sentir um arrepio. "Tivemos uma tarde longa. Gostaria de voltar para casa."

Com ele. O triunfo emergiu, e Edward resistiu ao impulso de atirá-la por cima do ombro e levá-la carregada da sala. Ela deixaria que ele a tocasse naquela noite. Ela deixaria que ele a cortejasse. Ele estava seguro disso. O amanhã continuava sendo uma incógnita, mas naquela noite... naquela noite, ela seria dele. Mesmo que ele não a merecesse.

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Caro E,
Victoria e Valerie casaram-se hoje em um casamento duplo, com maridos definitivamente medíocres. Não tenho dúvida de que suas escolhas foram limitadas por conta de meu escândalo, e eu mal consigo engolir a raiva e a injustiça da situação toda.

Parece tão injusto que alguns de nós tenhamos essa vida – cheia de felicidade, amor e companheirismo e todas as coisas com que somos ensinadas a sequer sonhar, por serem tão raras e de modo algum o tipo de coisa a se esperar de um bom casamento inglês.

Sei que inveja é pecado, e a cobiça também, mas não consigo deixar de desejar o que outros têm. Para mim e para minhas irmãs.

Sem assinatura
Casa Swan, junho de 1825.

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Carta não enviada.

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Ela estava se apaixonando pelo marido. A percepção espantosa se deu quando ele a ajudou a subir na carruagem, batendo duas vezes no teto do veículo, antes de sentar-se ao seu lado para retornarem para casa. Ela estava se apaixonando pelo lado dele que andava de patins, jogava adivinhação, provocava-a com jogos de palavras e sorria para ela como se ela fosse a única mulher no mundo. Estava se apaixonando pela gentileza que se revelava por baixo do exterior. E havia uma parte dela, sombria e silenciosa, que estava se apaixonado pelo restante dele. Ela não sabia como conseguiria lidar com estar apaixonada por ele inteiro. Ele era demais. Ela estremeceu.

"Está com frio?", ele perguntou, já pondo um cobertor por cima dela.

"Sim", ela mentiu, agarrando a lã perto do corpo, tentando lembrar-se de que aquele homem gentil e solícito que cuidava de seu conforto era apenas uma parte fugaz de seu marido.

A parte que ela amava.

"Estaremos em casa muito em breve", ele disse, aproximando-se dela, passando um braço sobre seus ombros, como uma faixa de aço quente. Ela amava seu toque. "Gostou da sua tarde?"

A frase a percorreu como uma promessa, e ela não conseguiu evitar o calor nas bochechas, mesmo fazendo o máximo para distanciar-se dele e das emoções que ele estimulava.

"Sim. Jogar adivinhação com minhas irmãs é sempre divertido."

"Gosto muito das suas irmãs." As palavras foram suaves, um rumor na escuridão. "Gostei de participar da brincadeira."

"Acho que elas estão felizes por terem um irmão de quem gostam", ela disse, pensando em seus cunhados. "Os maridos de Victoria e Valerie são menos..."

Ela hesitou.

"Bonitos?"

Ela sorriu. Não conseguiu se conter.

"Isso também, mas eu ia dizer..."

"Encantadores?"

"E isso, mas..."

"Absolutamente fascinantes?"

Ela ergueu as sobrancelhas.

"Você é absolutamente fascinante?"

Ele fingiu sentir-se ofendido.

"Não percebeu isso em mim?"

O assustador era que ela havia percebido, mas não ia dizer a ele.

"Não havia percebido. Mas vejo que é também infinitamente mais modesto do que os outros dois."

Foi a vez de ele dar risada.

"Eles devem ser realmente muito difíceis."

Ela sorriu.

"Percebo que conhece suas limitações."

Voltou a fazer silêncio, e ela ficou surpresa quando ele o interrompeu.

"Gostei das adivinhações. Foi como se eu fosse parte da família."

As palavras foram tão sinceras e inesperadas, que os olhos de Isabella se encheram de lágrimas. Ela piscou para espantá-las, dizendo apenas:

"Somos casados."

Ele procurou pelo olhar dela na escuridão.

"E apenas isso basta? Uma troca de votos diante do vigário Compton, e nasce uma família?" Como ela não respondeu, ele acrescentou: "Gostaria que fosse assim".

Ela tentou manter o discurso leve.

"Minhas irmãs o recebem de bom grado, milorde. Tenho certeza de que ambas apreciam tê-lo como irmão... levando em consideração sua amizade com Lorde Tottenham e..." Ela parou.

"E?", ele questionou.

Ela respirou fundo.

"E sua habilidade de evitar que Pippa se transforme em Lady Castleton."

Ele suspirou, apoiando a cabeça no assento.

"Bella... não é tão fácil."

Ela paralisou, afastando-se do abraço dele, sendo imediatamente atacada pelo frio.

"Quer dizer que não lhe serve."

"Não... Não serve."

"Por que os casamentos rápidos delas importam?" Ele hesitou, e ela preencheu o silêncio. "Eu tenho tentado compreender, Edward... mas não consigo. Como uma coisa está vinculada à outra? Você já tem a prova da ilegitimidade de Jake..." E, de repente, ela compreendeu. "Ou você não tem ainda, tem?"

Ele não desviou o olhar, mas também não falou. A mente dela girou enquanto tentava compreender o acordo, como ele devia ter sido organizado, as partes que deveriam estar envolvidas, a lógica da situação.

"Você não a tem, mas meu pai, sim. E você pagará lindamente por ela na forma de filhas casadas. O produto preferido dele."

"Isabella." Edward se inclinou para frente.

Ela se encostou na porta da carruagem, o mais distante que conseguiu ficar dele.

"Você nega isso?"

Ele paralisou.

"Não."

"Aí está", ela disse triste, a realidade da situação ocupando todo o pequeno espaço da carruagem, ameaçando sufocá-la. "Meu pai e meu marido conspirando para lidar com minhas duas irmãs e comigo. Nada muda. Esta é a escolha, então? As reputações das minhas irmãs ou a do meu amigo? Ou uma, ou a outra?"

"Inicialmente, era uma escolha", ele admitiu. "Mas agora... Eu não permitiria que as suas irmãs fossem arruinadas, Bella."

Ela levantou uma sobrancelha.

"Perdoe-me se não acredito em você, milorde, considerando o quanto já ameaçou essas mesmas reputações desde nosso primeiro encontro."

"Basta de ameaças. Eu as quero felizes. Eu quero você feliz."

Ele poderia fazê-la feliz. O pensamento passou como um sussurro por ela, e ela não duvidou dele. Nem um pouco. Aquele era um homem que tinha um foco singular, e se ele se decidisse a lhe dar uma vida de felicidade, conseguiria. Mas isso não estava nas cartas.

"Você quer mais a sua vingança."

"Quero as duas coisas. Quero tudo."

Ela se virou de costas para ele, falando para a rua, fora da janela da carruagem, subitamente irritada.

"Ah, Edward, quem foi que lhe disse que podia ter tudo?"

Os dois seguiram durante muito tempo em silêncio, antes da carruagem parar e Edward descer, virando-se para ajudá-la a sair. Enquanto ele ficava ali, parado à luz fraca da carruagem, com a mão estendida, ela se recordou daquela noite em Falconwell, quando ele lhe havia oferecido sua mão, seu nome e sua aventura, e ela aceitou, achando que ele ainda era o menino que tinha conhecido um dia. Ele não era. Não tinha nada daquele menino... agora era um homem com dois lados – protetor gentil e redentor malévolo. Era seu marido. E, que Deus a ajudasse, pois ela o amava... Durante todos aqueles anos, ela havia esperado por esse momento, essa emoção, certa de que mudaria sua vida, faria flores desabrocharem e pássaros cantarem com a euforia. Mas esse amor não era eufórico. Era doloroso. Não era suficiente.

Ela desceu da carruagem sem a ajuda dele, evitando a mão forte e enluvada ao subir os degraus e entrar no saguão da residência, sem criado algum. Ele a seguiu, mas ela não hesitou, indo diretamente para a escada e começando a subir.

"Isabella", ele a chamou do pé da escada, e ela fechou os olhos ao ouvir o próprio nome, pela forma como o som nos lábios dele a fazia sentir desejo.

Ela não parou. Ele a seguiu, lenta e metodicamente, escada acima e ao longo do comprido e escuro corredor que levava ao quarto dela. Ela deixou a porta aberta, sabendo que ele conseguiria entrar mesmo se ela se trancasse lá dentro. Ele fechou a porta atrás de si enquanto ela seguiu até a penteadeira e tirou as luvas, deixando-as cuidadosamente sobre uma cadeira.

"Isabella", ele repetiu, com uma firmeza que exigia obediência. Bem, ela estava cansada de obedecer. "Por favor, olhe para mim."

Ela não cedeu. Não respondeu.

"Isabella..." Ele parou de falar, e com o canto do olho ela o viu passar os dedos pelos cabelos, deixando um caminho de gloriosa imperfeição – tão bonito, tão atípico. "Por uma década, tenho vivido esta vida. Vingança. Retaliação. É o que tem me alimentado – tem me nutrido."

Ela não se virou. Não poderia se virar. Não queria que ele visse como a comovia. O quanto ela queria berrar e dizer a ele que havia mais da vida... mais para ele... do que aquela meta maldita. Ele não lhe daria ouvidos.

"Você está errado", ela disse, indo até o lavatório diante da janela. "Na verdade, isso o tem envenenado."

"Talvez sim."

Ela verteu água fria e limpa na tigela e mergulhou as mãos, vendo-as empalidecer e ondular contra a porcelana, a água distorcendo a imagem. Quando falou, foi para aqueles membros estranhos. "Sabe que não irá funcionar, não sabe?" Como ele não respondeu, ela continuou: "Sabe que depois de ter executado sua preciosa vingança, haverá outra coisa. Falconwell, Black, Jake... depois o quê? O que vem a seguir?".

"Depois vem a vida, finalmente", ele disse. "Uma vida longe do espectro daquele homem e do passado que ele me deu. Vida sem retaliação." Ele fez uma pausa. "Vida com você."

Ele estava perto quando disse isso, mais perto do que ela esperava, e ela levantou as mãos da água e se virou mesmo com as palavras a ferindo – mesmo com as palavras a deixando ansiosa. Eram palavras que ela quis desesperadamente ouvir... desde o começo do casamento... talvez antes disso. Talvez desde que começou a lhe escrever cartas, sabendo que ele jamais as receberia. Mas não importava o quanto ela desejasse ouvir aquelas palavras, descobriu que não podia acreditar nele. E era o que ela acreditava – e não a verdade – que importava. Ele a havia ensinado isso.

Ele estava a menos de um braço de distância, sério e tenso, os olhos verdes eram quase negros nas sombras do quarto, e ela não pôde deixar de falar, mesmo sabendo que jamais o faria enxergar a verdade.

"Você está errado. Você não irá mudar. Em vez disso, permanecerá na escuridão, encoberto pela vingança." Ela fez uma pausa, sabendo que as palavras seguintes seriam as mais importantes para ele ouvir. Para ela dizer. "Você será infeliz, Edward. E eu serei infeliz com você."

Ele enrijeceu o maxilar.

"E você é uma especialista? Com a sua vida encantada, escondida em Surrey, sem jamais correr um risco, sem uma única nódoa em seu nome perfeito e decente. Você não sabe absolutamente nada sobre raiva, decepção ou devastação. Não sabe como é ter sua vida arrancada dos seus pés e não querer nada além de punir o homem que fez isso com você."

As palavras ditas em voz baixa pareciam um canhão dentro do quarto, ecoando ao redor de Isabella até ela não conseguir mais segurar a língua.

"Seu... egoísta." Deu um passo na direção dele. "Acha que eu não compreendo decepção? Acha que não fiquei decepcionada quando vi todo mundo ao meu redor – minhas amigas, minhas irmãs – se casarem? Acha que não fiquei devastada no dia em que descobri que o homem com quem iria me casar estava apaixonado por outra? Acha que não fiquei com raiva no dia em que acordei na casa do meu pai sabendo que talvez jamais fosse ter satisfação... e que jamais encontraria um amor? Acha que é fácil ser uma mulher como eu, jogada de um homem para outro para ser controlada? Pai, noivo e agora marido?"

Ela estava partindo para cima dele, pressionando-o na direção da porta do quarto, irritada demais para apreciar o fato de que ele estava recuando junto com ela.

"Preciso lembrar a você de que eu nunca, jamais tive uma escolha em relação ao rumo da minha vida? Que tudo o que faço, tudo o que sou, tem sido para servir aos outros?"

"Esta culpa é sua, Isabella. Não nossa. Você poderia ter recusado. Ninguém estava ameaçando a sua vida."

"É CLARO QUE ESTAVAM!", ela explodiu. "Todos estavam ameaçando minha segurança, minha estabilidade, meu futuro. Se não fosse Leighton, Jacob ou você, o que seria? O que aconteceria quando meu pai morresse, e eu não tivesse nada?"

Ele se aproximou dela então, segurando seus ombros.

"Só que não era por autopreservação, era? Era por culpa e responsabilidade, e um desejo de dar às suas irmãs uma vida que você não pôde ter."

Ela apertou os olhos.

"Eu não vou me desculpar por fazer o que era certo por elas. Não somos todos como você, Edward, mimados, egoístas e..."

"Não pare agora, querida", ele falou com a voz arrastada, soltando-a e cruzando os braços sobre o peito largo. "Você estava chegando à parte boa." Como ela não respondeu, ele levantou uma sobrancelha. "Covarde... Queira ou não, você fez as suas escolhas, Seis Cents. Ninguém mais."

Ela o odiou por usar seu apelido naquele momento.

"Você está errado. Acha que eu teria escolhido Leighton? Acha que eu teria escolhido Jacob? Acha que eu teria escolhido..."

Ela parou de falar... querendo desesperadamente terminar a frase, e dizer "você", querendo feri-lo. Querendo puni-lo por tornar tudo tão mais difícil. Por tornar impossível simplesmente amá-lo. Ele ouviu a palavra mesmo assim.

"Diga."

Sacudiu a cabeça.

"Não."

"Por que não? É verdade. Se eu fosse o último homem da Grã-Bretanha, jamais teria sido eu. Eu sou o vilão desta história, cheio de vingança e ira, duro e frio demais e indigno de você. O que a arrancou da sua vida perfeita no campo, dos seus sentimentos, da sua companhia."

"As palavras são suas, não minhas." Só que não eram verdade. Porque, de todas as coisas que ela havia feito, de todos os pretendentes que ela quase havia aceitado, ele era o único que ela realmente desejava.

Ele deu um passo para trás, passou a mão pelo cabelo, e deu uma risada dura.

"Você aprendeu a lutar, não? Não é mais a pobre Isabella."

Ela endireitou os ombros e respirou fundo, prometendo a si mesma que tiraria ele – e o fato de que o amava – da mente.

"Não", ela finalmente concordou. "Não sou mais a pobre Isabella."

Alguma coisa mudou nele, e pela primeira vez desde o casamento, ela não questionou a emoção que viu em seu olhar. Resignação.

"Então é isso?"

Ela assentiu com a cabeça uma vez, cada centímetro de seu corpo resistindo às palavras, querendo gritar diante da injustiça de tudo.

"É isso. Se insiste na vingança, faça isso sem mim ao seu lado."

Ela sabia que o ultimato jamais serviria de nada, mas não deixou de ser um golpe quando ele respondeu:

"Então, que seja assim".


Acho que não há desculpas, apesar de dizer que minha vida tem sido uma novela mexicana desde então. Victor continua com a terapia ocupacional, equoterapia e fonoaudióloga. Isadora é a mesma coisinha iluminada em nossa vida e o trabalho tem sido puxado. Apple, abaixe o preço das baterias do 5S e eu definitivamente não tenho mais vida!

Não me abandone jamais (8) rsrs.