Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.
CAPÍTULO DEZESSETE
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"Posso dizer, senhora, o quanto estou feliz que ele a tenha escolhido?"
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Caro E,
Fui ao teatro esta noite, e ouvi seu nome. Diversas senhoras estavam falando sobre um novo cassino e seus escandalosos proprietários, e eu não pude deixar de escutar, quando as ouvi falarem em você. É tão estranho ouvir alguém se referir a você como Cullen – um nome que ainda associo a seu pai, mas imagino que seja seu há uma década.
Uma década... Dez anos que não o vejo e não falo com você. Dez anos desde que tudo mudou. Dez anos, e eu ainda sinto a sua falta...
Sem assinatura
Casa Swan, maio de 1826
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Carta não enviada.
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Edward subiu os degraus da entrada da Casa Swan uma semana mais tarde, respondendo ao chamado do sogro, que havia chegado à Mansão do Diabo naquela manhã, enquanto ele se encontrava em seu gabinete tentando não sair em disparada pela casa para pegar sua esposa e provar de uma vez por todas que os dois estavam casados e que ela era dele.
Eles haviam chegado àquele ponto... a verdade constrangedora de que ele passava a maior parte do tempo em casa, ouvindo os passos dela do outro lado da porta, esperando que ela fosse até ele, que fosse lhe dizer que havia mudado de ideia, que fosse implorar para que ele tocasse nela. Assim como ele desejava que ela tocasse nele. Ele havia passado seis noites na casa, evitando a esposa, ainda que ficasse do seu lado, atrás daquela maldita porta de quarto adjacente, ouvindo os criados encherem sua banheira e conversarem com ela. Então, quando ela entrava na água, os sons de seus movimentos o faziam arder de tentação. O desejo que provar a si mesmo a ela.
A experiência foi torturante e ele a mereceu, punindo a si mesmo por se recusar a entrar naquele quarto, arrancá-la daquela banheira e deitá-la em sua cama, encantadora e deliciosa, e possuí-la. Quando ele se afastava da porta que o atormentava com os segredos que existiam além, era arrependimento que sentia. Ela estava se tornando tudo o que ele desejava, e sempre foi mais do que ele merecia.
A noite anterior havia sido a pior de todas – ela estava rindo com a criada sobre alguma coisa, e ele ficou lá parado, com a mão na maçaneta da porta, o som de sua risada lírica funcionando como um canto de sereia. Ele pressionou a testa na porta como um tolo e ficou escutando por longos minutos, esperando que alguma coisa mudasse. Ansiando por ir até ela, finalmente ele se afastou, encontrando Worth parada do outro lado do quarto.
Havia ficado constrangido e irritado.
"Não se bate mais na porta?"
Worth ergueu uma sobrancelha ruiva.
"Não considerei necessário, já que raramente está em casa neste horário."
"Estou em casa esta noite."
"É também um idiota." A governanta nunca foi de conter as palavras, seu temperamento parecia combinar com seus cabelos da cor do fogo.
"E eu deveria demiti-la por insolência."
"Mas não fará isso porque eu tenho razão. Qual é o seu problema? É evidente que você gosta da senhora, e ela claramente gosta de você."
"Não há nada de claro na situação."
"Você tem razão", disse a governanta, largando uma pilha de toalhas perto do lavatório. "É perfeitamente nebuloso – o motivo pelo qual vocês dois passam tanto tempo do lado oposto daquela porta, escutando um ao outro."
Edward franziu a testa.
"Ela...?"
Victoria encolheu um ombro.
"Imagino que você jamais saberá." Ela fez uma pausa. "Que diabo, Cullen! Você passou tanto tempo da sua vida adulta protegendo outras pessoas, mas quem irá protegê-lo de si mesmo?"
Ele se virou de costas para a governanta.
"Deixe-me."
Naquela noite, ele ficou ouvindo atentamente, esperando que Isabella saísse do banho e viesse até a porta entre os dois quartos. Ele jurou que se tivesse ao menos um sinal dela parada do lado oposto, esperando, abriria a porta, e os dois se entenderiam. Mas, em vez disso, ele viu a luz por baixo da porta se extinguir, ouviu o roçar dos lençóis quando ela se deitou na cama. Ele partiu para o Anjo Caído, onde passou a noite no salão, vendo dezenas de milhares de libras serem apostadas e perdidas, lembrando-o do poder do desejo, da fraqueza. Lembrando-o do que ele havia conquistado.
Do que ele havia perdido.
Ainda vestindo o casaco e o chapéu, Cullen seguiu um lacaio pelo labirinto da Casa Swan – uma das poucas propriedades dentro dos limites de Londres – até uma grande varanda que levava às terras cobertas de neve. Havia um conjunto de pegadas humanas saindo da casa, cercadas por um rastro de marcas de patas. Um tiro de rifle ecoou no silêncio, e Edward se virou para o lacaio, que o orientou a seguir o som. Ele caminhou na trilha em direção ao seu sogro, e a neve recém-caída abafava o som de seus passos. Soprava um vento gelado, e ele diminuiu o ritmo, virando o rosto contra o vento, travando os dentes diante do frio intenso. Notou o som de rifle de caça além de uma pequena colina, e Edward sentiu uma trepidação. Ele não tinha a intenção de ser morto pelo marquês de Swan, pelo menos não acidentalmente. Pensando em suas alternativas, ele parou, pôs as mãos em concha ao redor da boca e chamou:
"Swan!"
"Olá!" Um grito alto soou de trás do cume, seguido por meia dúzia de diferentes latidos e uivos.
Cullen interpretou como sinal para se aproximar. Fez uma pausa ao subir a elevação, olhando para a ampla área de terra que se estendia até o Tâmisa. Respirou fundo, apreciando a sensação do ar frio nos pulmões, e voltou sua atenção para Charlie, que estava protegendo os olhos do sol da manhã. No meio da descida, Charlie disse:
"Não tinha certeza se viria."
"Soube que é obrigatório atender ao chamado do sogro."
Swan riu.
"Especialmente quando o homem em questão detém a única coisa que se quer."
Edward aceitou o aperto de mão firme de Charlie.
"Está muito frio, Swan. O que estamos fazendo aqui fora?"
O marquês o ignorou, virando-se de costas com um alto "Rá!", e mandando os cães para o matagal a vinte metros dali. Um único faisão apareceu no céu, Charlie levantou a espingarda e disparou.
"Diabo! Errei!"
Um choque, certamente. Os dois caminharam na direção dos arbustos, e Cullen esperou que o mais velho falasse primeiro.
"Fez um ótimo trabalho mantendo minhas meninas fora da sua lama." Edward não respondeu, e Charlie continuou: "Castleton pediu Pippa em casamento".
"Fiquei sabendo disso. Confesso que estou surpreso que tenha concordado."
Swan fez uma careta quando o vento passou por eles. Um cachorro latiu por perto, e ele se virou de costas.
"Venha, Brutus! Ainda não acabamos!" Ele voltou a caminhar. "O cachorro não caça nada." Cullen resistiu à resposta óbvia. "Castleton é um tolo, mas é um conde, e isso deixa minha esposa feliz." Os cachorros espantaram outro faisão, e Charlie atirou e errou. "Pippa é inteligente demais para seu próprio bem."
"Pippa é inteligente demais para uma vida com Castleton." Ele sabia que não deveria dizer isso. Sabia que não deveria se importar com quem a garota se casasse, desde que o noivado acontecesse com os meios para a vingança contra Billy Black em suas mãos.
Mas não conseguia parar de pensar em Isabella, e na forma como o pouco inspirador noivado de Pippa a havia incomodado. Ele não a queria incomodada. Ele a queria feliz. Ele estava amolecendo.
Swan não pareceu notar.
"A menina aceitou e eu não posso cancelar o compromisso, não sem um motivo decente."
"E o fato de que Castleton é um burro?"
"Não basta."
"E se eu encontrar outro motivo? Um motivo melhor?" Certamente havia algo nos arquivos do Anjo Caído – alguma coisa que condenaria Castleton e terminaria com o noivado.
Charlie olhou para ele.
"Esquece que eu conheço muito bem qual é a punição por noivados rompidos. Mesmo os que têm bons motivos arruínam as meninas. E suas irmãs."
Como Isabella.
"Dê-me alguns dias e encontrarei algo para terminar com este." De repente, tornou-se crítico que Cullen arrumasse uma forma de Pippa romper seu noivado. Não importava que ele pudesse sentir o gosto da vingança, tão perto e tão doce.
Charlie sacudiu a cabeça.
"Preciso aceitar as ofertas que vêm, ou terei outra Bella nas minhas mãos. Não posso me dar ao luxo disso."
Edward rangeu os dentes diante da afirmação.
"Isabella é uma marquesa."
"Ela não seria se você não tivesse ido atrás de Falconwell, seria? Por que acha que vinculei as terras a ela, em primeiro lugar? Era a minha última chance."
"Sua última chance de quê?"
"Eu não tenho um filho, Cullen." Ele olhou para a Casa Swan. "Quando eu morrer, esta casa e o solar passarão para as mãos de algum primo idiota que não dá a mínima por eles, ou pelas terras em que estão. Isabella é uma boa garota. Ela faz o que lhe dizem para fazer. Eu deixei claro que ela precisava se casar para manter a honra das irmãs. Ela não podia decidir ser solteirona e passar o resto dos dias vegetando em Surrey. Ela sabia de seus deveres. Sabia que Falconwell iria para seus filhos e, com isso, parte da história das terras de Swan."
Uma fileira de meninas de cabelos cor de mogno apareceu em seus pensamentos. Não como uma lembrança, mas como uma fantasia. As filhas dela. As filhas deles. O pensamento o consumiu, assim como o desejo que o acompanhou. Ele jamais havia pensado em ter filhos. Jamais imaginou querê-los. Jamais pensou que seria o tipo de pai que eles mereciam.
"Você quis algo do seu passado para dar ao seu futuro."
O marquês se virou na direção da casa.
"Algo que aposto que você compreende."
Era estranho que ele jamais realmente tivesse pensado dessa maneira. Não até aquele momento... Ele estava tão focado em recuperar Falconwell, que jamais pensou no que faria com ela, com o que viria depois ou com quem viria depois. Para ele, não viria nada depois da recuperação de Falconwell. Nada além de vingança. Porém, agora havia algo mais, além da grandiosa sombra da casa e de seu passado. Algo que a vingança iria matar. Ele afastou o pensamento.
"Confesso que quando Billy Black ofereceu Falconwell como parte da aposta, eu sabia que você viria atrás dela. Fiquei feliz de ganhá-la, sabendo que isso o atrairia."
Edward ouviu a satisfação pessoal naquelas palavras.
"Por quê?"
Charlie deu levemente de ombros.
"Eu sempre soube que Isabella se casaria com você ou com Jacob Black, e, cá entre nós, eu sempre esperei que fosse você – não pelo motivo óbvio, da ilegitimidade de Jacob, embora fosse um pouco por isso. Eu sempre gostei de você, garoto. Sempre pensei que você voltaria da escola e estaria pronto para assumir o título, as terras e a minha garota. Quando Black o depauperou, e eu precisei ir atrás de Leighton, não foi pouca a minha irritação, preciso lhe dizer."
Edward teria achado divertido o egoísmo da afirmação se não estivesse tão chocado pela ideia de que Charlie sempre o havia desejado para Isabella.
"Por que eu?"
Swan olhou para o Tâmisa, pensando na pergunta. Finalmente, disse:
"Você era o que mais se importava com as terras."
Era verdade. Ele se importava tanto com as terras e seus amigos que, quando perdeu tudo, não teve coragem de voltar para encará-los. Para encarar Isabella. E agora era tarde demais para consertar esses erros.
"Isso", Charlie continuou, "e o fato de que era de você que ela mais gostava. Sempre foi você."
Uma faísca de excitação o percorreu com a verdade que havia naquelas palavras. Ele era o preferido Bella... Até ir embora, deixando-a sozinha e sem poder confiar nele. E ela tinha razão em não confiar. Ele havia deixado seu objetivo claro, e ao garantir a única coisa que mais desejava, ele a perderia. Ela era o sacrifício que ele teria que fazer desde o princípio, mas que agora não era mais sacrifício nenhum... Isso era esperado, é claro – ele havia destruído tudo de valor que jamais tinha possuído.
"Isso não importa agora", Charlie continuou, inconsciente da cacofonia dos pensamentos de Edward. "Você se saiu bem. O jornal desta manhã exaltou as virtudes do seu casamento... Confesso que estou surpreso pelo esforço que está dedicando à sua história – comendo castanhas, valsando no gelo e passando tardes com as minhas meninas e outras coisas ridículas. Mas você se saiu bem... e Riley Biers parece acreditar nisso. Os jornais juram que vocês vivem uma história de amor. Castleton não teria pedido a mão de Pippa se nosso nome estivesse de alguma forma maculado por um casamento escandaloso."
Seria você quem deveria se opor ao noivado, não Castleton. Pippa estaria melhor com um homem que fosse metade lontra. Edward abriu a boca para dizer justamente isso, quando Charlie disse:
"De qualquer maneira, você os enganou. A vingança é sua, como acordado."
A vingança é sua. As palavras que ele aguardou uma década para ouvir.
"Estou com a carta na casa, pronta para você."
"Não quer esperar por Olivia estar prometida também?" A pergunta saiu antes que ele pudesse impedir... antes que pudesse considerar o fato de que estava lembrando o sogro de que sua parte no acordo não havia sido oficialmente completada.
Swan levantou o rifle, apontando na direção de uma sebe baixa na margem do rio.
"Tottenham a convidou para cavalgar hoje. O garoto será primeiro-ministro um dia. O futuro de Olivia parece brilhante." Ele disparou, então olhou para Edward. "E, além disso, você fez bem para as meninas. Eu mantenho minhas promessas."
Mas ele não havia feito bem para elas, havia? Philippa ia se casar com um imbecil, e Isabella... havia se casado com um cretino. Edward enfiou as mãos nos bolsos, protegendo-as do vento, e se virou para olhar para a imensa Casa Swan.
"Por que dá-la para mim?"
"Eu tenho cinco filhas e, embora elas me levem a beber, se alguma coisa vier a acontecer comigo, gostaria de saber que seu guardião – o homem indicado por mim para isso – cuidaria delas como eu." Charlie se virou na direção da casa, seguindo a própria trilha de volta. "Black ignorou esse código. Ele merece tudo o que você fizer com ele."
Edward deveria ter se sentido triunfante. Deveria ter sentido prazer. Afinal, ele havia acabado de receber aquilo que mais desejava no mundo. Em vez disso, sentia-se vazio. Vazio, exceto por uma única e incontestável verdade. Ela o odiaria por isso. Mas não tanto quanto ele odiaria a si mesmo.
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Bilhar esta noite.
Uma carruagem a pegará às onze e meia.
Éloa
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O pequeno cartão bege, estampado com um delicado anjo feminino, chegou logo depois do almoço, entregue por Worth com um sorriso sagaz. Bella abriu o envelope com as mãos trêmulas e leu a promessa sombria e misteriosa no bilhete. A promessa de aventura. Levantou o olhar do convite com o rosto corado, e perguntou à governanta:
"Onde está meu marido?"
"Esteve fora o dia todo, senhora."
Isabella levantou o papel.
"E isto?"
"Chegou há menos de cinco minutos."
Ela assentiu, considerando o convite e suas implicações. Não via Edward desde o dia em que patinaram no gelo e discutiram, e ela havia se dado conta de que o amava. Ele deixou o quarto dela naquela noite e nunca mais voltou – ainda que ela o aguardasse, sabendo que não deveria esperar que ele decidisse abrir mão de sua busca por vingança e escolhesse uma vida com ela. Seria possível que o convite fosse dele? A ideia fez com que o fôlego ficasse preso em sua garganta. Talvez fosse. Talvez ele a tivesse escolhido. Talvez ele estivesse dando a ela uma aventura e, a ambos, uma nova chance na vida. Talvez não...
De qualquer forma, o bilhete era uma tentação à qual ela não poderia resistir – ela queria sua chance de aventura, de bilhar, de uma noite no Anjo Caído. E não iria mentir, queria uma chance de ver o marido novamente. O marido, a quem desejava mesmo sabendo que não fazia sentido. Ela podia ter se comprometido a evitá-lo, a manter distância de sua tentação, a proteger a si mesma da forma como ele a fazia se sentir, mas ela não conseguia resistir. Então, tudo o que pôde fazer foi esperar pela noite, na escuridão, a chegada da hora marcada. Vestiu-se cuidadosamente, desejando não se importar tanto com o que ele poderia pensar, como ele poderia vê-la, escolhendo uma seda salmão, completamente inadequada para o começo de fevereiro, mas uma cor que sempre considerou que favorecia sua pele clara e a deixava com aparência menos simples e mais... mais.
A carruagem chegou na entrada de serviço da Mansão do Diabo, e foi a Sra. Worth quem a buscou, com os olhos iluminados por uma sagacidade que fez Bella corar de expectativa.
"Precisará disso", a governanta sussurrou ao lhe entregar uma máscara simples de seda preta, adornada com laços escarlates.
"Precisarei?"
"Aproveitará sua noite muito mais se não estiver preocupada em ser descoberta."
O coração de Bella disparou quando ela acariciou a máscara, adorando a sensação da seda – e a emoção que ela carregava em si.
"Uma máscara", sussurrou, mais para si mesma do que para a governanta. A expectativa aumentou. "Obrigada."
A governanta sorriu, silenciosa e cúmplice.
"O prazer é meu." Ela fez uma pausa, observando Isabella levar a máscara até os olhos, amarrando-a atrás da cabeça, e ajustando a seda na altura da testa. "Posso dizer, senhora, o quanto estou feliz que ele a tenha escolhido?"
Era presunçoso e de forma alguma o tipo de coisa que governantas diziam, mas Victoria Worth não era o tipo de governanta que se tinha normalmente, então, Bella sorriu e disse:
"Não estou segura de que ele concordaria com você."
Algo se acendeu nos olhos da outra.
"Acho que é só uma questão de tempo até ele concordar." Worth acenou a aprovação com a cabeça. Isabella saiu pela porta e entrou na carruagem que a esperava, com o coração na garganta, antes que ela pudesse se virar de costas.
A carruagem não a deixou na entrada principal do Anjo Caído, mas em uma entrada estranha e nada impressionante, acessível pelas cavalariças que percorriam as laterais do prédio. Ela saiu na quase escuridão, segurando a mão do cocheiro que a ajudou a descer e a acompanhou até uma porta de aço escurecida. O nervosismo aumentou. Ela estava mais uma vez no clube de Edward, desta vez a convite, no que acreditava ser seu vestido mais bonito, para um jogo de bilhar. A emoção era extraordinária. O cocheiro bateu na porta para ela e se afastou quando a porta se entreabriu e um par de olhos – pretos como carvão – apareceu. Nenhum som saiu de trás da porta.
"Eu... eu recebi um convite. Para bilhar", ela disse, levantando a mão para conferir se sua máscara estava bem presa, detestando o movimento e o nó na garganta, a forma como seu nervosismo a deixava zonza.
Houve uma pausa, e a porta se fechou, deixando-a parada sozinha na escuridão, no meio da noite, nos fundos de um cassino de Londres. Engoliu em seco. Bem, aquilo não estava acontecendo exatamente conforme o esperado. Ela bateu novamente. A porta se entreabriu uma vez mais.
"Meu marido é..." A porta se fechou. "...seu patrão", ela disse para a porta, como se ela pudesse se abrir sozinha mediante a uma palavra certa. E infelizmente, continuou bem fechada.
Isabella puxou a capa ao seu redor e olhou por cima do ombro para o cocheiro atrás dela, voltando ao seu lugar. Felizmente, ele percebeu suas dificuldades e disse:
"Normalmente há uma senha, senhora."
Claro! A palavra estranha no final do convite. Quem afinal precisava de uma senha para fazer qualquer coisa? Parecia algo tirado de um romance gótico. Ela limpou a garganta e confrontou a imensa porta uma vez mais. Bateu novamente.
A porta entreabriu com um clique, e Bella sorriu para os olhos que apareceram. Nenhum sinal de reconhecimento.
"Eu tenho uma senha!", ela anunciou triunfantemente.
Os olhos não se impressionaram.
"Éloa", ela sussurrou, sem saber como o processo funcionava.
A porta fechou de novo. Francamente? Ela esperou, virando-se de costas para a carruagem e lançando um olhar nervoso para o cocheiro. Ele encolheu os ombros, como se querendo dizer "não faço a menor ideia". E quando estava prestes a desistir, ela ouviu o barulho de uma fechadura e o raspar de metal em metal... e a imensa porta se abriu. Ela não conseguiu conter a excitação. O homem no lado de dentro era enorme, com pele escura, olhos escuros e um semblante imutável que deveria deixar Isabella nervosa; no entanto, ela estava empolgada demais. Ele vestia calças curtas e uma camisa escura, cuja cor não conseguiu diferenciar à luz fraca, e não usava um casaco. Ela poderia ter considerado que ele estava vestido de modo inadequado, mas rapidamente lembrou a si mesma que jamais havia entrado em um cassino através de uma porta misteriosa que exigia senha, assim, deduziu que sabia muito pouco sobre a roupa adequada para um homem naquela situação.
Acenou com o papel que havia lhe sido entregue mais cedo naquele dia.
"Gostaria de ver meu convite?"
"Não." Ele deu um passo para o lado para deixá-la entrar.
"Ah", ela disse, ligeiramente decepcionada, ao passar por ele para a pequena entrada, observando enquanto ele fechava a porta atrás de si com um barulho assustador. Ele não olhou para ela. Em vez disso, sentou-se em um banquinho ao lado da porta, pegou um livro de uma estante próxima e começou a ler à luz de um candeeiro de parede.
Bella piscou diante da cena. Aparentemente, tratava-se de um homem letrado. Ela ficou ali parada por um longo tempo, sem saber ao certo o que fazer a seguir. Ele pareceu não perceber. Ela limpou a garganta, ele virou uma página, e finalmente, ela disse:
"Perdão?"
Ele não ergueu o olhar.
"Sim?"
"Sou Lady..."
"Sem nomes."
Isabella arregalou os olhos.
"Perdão?"
"Sem nomes deste lado." Ele virou mais uma página.
"Eu..." Ela parou, sem saber ao certo o que dizer. Este lado? "Muito bem, mas eu..."
"Sem nomes."
Os dois continuaram em silêncio por mais um tempo até ela não conseguir suportar mais um instante sequer.
"Talvez possa me dizer se eu devo ficar aqui a noite toda? Se for o caso, eu deveria ter trazido meu próprio livro."
Ele ergueu o olhar diante daquilo, e ela gostou de ver a forma como os olhos negros se arregalaram ligeiramente, como se ela o tivesse surpreendido. Ele apontou para a outra ponta da entrada, onde mais uma porta se ocultava na escuridão. Ela não a tinha visto antes. Seguiu naquela direção.
"O bilhar é por ali?"
Ele a observou cuidadosamente, como se ela fosse um espécime sendo examinada.
"Entre outras coisas, sim."
Ela sorriu.
"Excelente. Eu perguntaria seu nome para agradecer adequadamente, senhor, mas..."
Ele voltou ao livro.
"Sem nomes."
"Exato."
Ela abriu a porta, deixando entrar a luz vinda do corredor do outro lado. Voltou a olhar para o homem estranho, impressionada com o efeito da luz dourada sobre a pele escura dele, e disse:
"Bem, obrigada mesmo assim."
Ele não respondeu, e ela entrou no corredor bastante iluminado, fechando a porta firmemente atrás de si, ficando sozinha no novo espaço. O corredor era largo e comprido, crescendo em ambas as direções. Velas acesas a cada poucos metros brilhavam contra a decoração dourada, deixando todo o espaço caloroso e iluminado. As paredes eram cobertas por um delicado tecido de seda estampado escarlate e veludo cor de vinho, e Isabella não conseguiu resistir a estender a mão para tocá-las, adorando a sensação de suavidade em seus dedos.
Uma explosão de risada feminina veio de uma das pontas do corredor, e ela seguiu, por instinto, naquela direção, sem saber o que iria encontrar, mas sentindo-se estranhamente preparada para o que quer que viesse a seguir. Continuou pelo corredor, os dedos roçando a parede, acompanhando seu movimento, tocando uma porta depois da outra. Fez uma pausa diante de uma porta aberta, e olhou o ambiente vazio exceto por uma mesa comprida, e ela entrou sem pensar, para ver mais de perto.
Havia um tecido verde grosso estendido na mesa – vários centímetros abaixo da borda –, e o pano macio tinha bordado em fio branco e uma grade de números que percorria a largura e o comprimento. Bella inclinou-se para examinar a confusão de texto cuidadosamente trabalhado – a combinação misteriosa de números, frações e palavras. Estendeu a mão para passar um dedo enluvado sobre a palavra Sorte, sentindo um tremor de excitação percorrê-la ao traçar as curvas do S.
"Você descobriu o jogo."
Ela arfou de surpresa e virou na direção da voz, com a mão na garganta, para encontrar Sr. Carlisle parado na porta da sala, um meio-sorriso no rosto bonito. Ficou tensa, sabendo que havia sido apanhada.
"Desculpe. Eu não sabia aonde... Não havia ninguém na..." Ela parou de falar, decidindo que o silêncio era uma escolha melhor do que continuar parecendo uma imbecil.
Ele riu e se aproximou.
"Não há necessidade de se desculpar. Você é membro agora e pode movimentar-se livremente pelo clube."
Ela inclinou a cabeça.
"Membro?"
Ele sorriu.
"Estamos em um clube, minha senhora. A filiação é obrigatória."
"Estou aqui apenas para jogar bilhar. Com Edward?" Ela não pretendia que saísse como uma pergunta.
Carlisle sacudiu a cabeça.
"Comigo."
"Eu...", ela parou, franzindo a testa. Não com Edward. "O convite não foi dele."
Carlisle sorriu, mas Isabella não ficou reconfortada.
"Não."
"Ele não está aqui?" Ela não o veria ali também?
"Está aqui, em algum lugar. Mas não sabe que você está aqui."
A decepção tomou conta dela. Claro que ele não sabia. Ele não estava interessado em passar as noites com ela. Junto com esse pensamento, veio outro.
Ele ia ficar furioso.
"O convite foi seu."
Ele meneou a cabeça.
"Foi do Anjo Caído."
Ela pensou nas palavras, e no mistério delas. O Anjo Caído.
"É mais do que um convite, não é?"
Carlisle ergueu um ombro.
"Você sabe a senha agora. Isso a torna membro do clube."
Membro. A oferta era tentadora – acesso a um dos clubes mais famosos de Londres e toda a aventura que ela sempre desejou. Pensou na excitação que sentiu com o convite para o bilhar, no encantamento que sentiu quando atravessou a porta que dava no corredor caloroso e brilhante daquele lugar misterioso. Na emoção que a dominou ao ver a roleta girando em sua primeira visita. E pensava que sua próxima visita – naquela noite – seria com ele, mas estava errada.
Ele não queria nada dela. Não assim. Ele a lembrava disso todas as vezes que os dois fingiam sua história de amor. Todas as vezes em que ele a tocava para garantir sua participação naquela farsa. Todas as vezes em que ele a deixava em casa em vez de passar a noite com ela. Todas as vezes em que ele escolhia a vingança em vez do amor. Afastou o nó de emoção que sentia na garganta. Ele não lhe daria o casamento... Então, ela deveria pegar a aventura no lugar. Ela já tinha ido longe demais naquele caminho para poder lhe dar as costas, afinal.
Encarou o silencioso olhar cinzento de Carlisle e respirou fundo.
"Ao bilhar, então. Pretende cumprir essa promessa?"
Carlisle sorriu e acenou na direção do corredor.
"A sala de bilhar é do outro lado." O coração de Isabella disparou. "Posso pegar sua capa? Está encantadora", ele disse quando a lã preta deu lugar ao cetim salmão – o vestido que ela havia escolhido para um homem diferente, que não o veria e que, se o visse, não daria a menor importância para sua aparência.
Afastou o pensamento e cruzou o olhar amistoso de Carlisle, sorrindo quando ele lhe estendeu uma rosa branca e a entregou com o caule virado em sua direção.
"Bem-vinda ao Outro Lado", ele disse, quando ela aceitou o botão. "Vamos?"
Ele indicou o corredor, e Bella saiu na frente. Antes que pudesse abrir a porta da sala de bilhar, uma intensa conversa se aproximou deles pelo corredor.
Ela se virou, agradecida por seu disfarce simples, quando um grupo de mulheres, igualmente mascaradas, apressou-se na direção deles. Elas baixaram a cabeça ao passar, e Isabella foi dominada pela curiosidade. Eram igualmente parte da aristocracia? Eram mulheres como ela? Em busca de aventura? Seus maridos também as ignoravam? Ela sacudiu a cabeça diante do pensamento errante e indesejável, antes que uma das mulheres de olhos azuis brilhando atrás de sua máscara cor-de-rosa, parasse diante de Carlisle.
"Carlisle...", ela disse com a voz relativamente arrastada, inclinando-se para frente para proporcionar uma visão de primeira mão de seu decote. "Soube que as vezes sente-se solitário à noite."
O queixo de Isabella caiu. Carlisle levantou uma sobrancelha.
"Não nesta noite em particular, querida."
A dama se virou para Isabella, olhando para a rosa em sua mão.
"Primeira noite? Pode se juntar a nós, se desejar."
Bella arregalou os olhos diante do convite.
"Obrigada, mas não." Ela fez uma pausa e acrescentou: "Embora eu me sinta bastante... lisonjeada." Pareceu a coisa certa a ser dita.
A mulher inclinou a cabeça para trás e riu alto e sem hesitação, e Isabella percebeu que não achava ter alguma vez ouvido uma risada sincera de qualquer mulher que não fosse sua parente. Que lugar era aquele?
"Vá em frente, querida", Carlisle disse dando um sorriso encorajador. "As beldades têm uma luta a assistir, não?"
O sorriso se transformou em uma careta perfeita, e Bella resistiu à tentação de repetir a expressão. Algumas mulheres faziam o flerte parecer tão absolutamente fácil.
"É verdade. Soube que Emmett está em excelente forma esta noite. Quem sabe não ficará solitário depois da luta?"
"Quem sabe...", Carlisle disse de uma forma que fez Isabella pensar que não havia qualquer dúvida de que Emmett ficaria solitário depois da luta.
A dama mascarada levou um dedo aos lábios.
"Ou quem sabe Cullen...", ela disse, pensativamente.
Isabella franziu a testa. Edward absolutamente não. A simples ideia daquela mulher com seu marido fez Bella querer arrancar a máscara dos olhos dela e lhe dar uma luta assustadora para testemunhar de perto. Abriu a boca para dizer a ela exatamente isso quando Carlisle interrompeu, parecendo compreender a direção que a conversa estava tomando.
"Duvido que Cullen estará disponível esta noite, querida. Vocês perderão o começo se não se apressarem."
Isso pareceu fazer as outras mulheres se apressarem.
"Que pena... Tenho que ir. Verei você no Pandemônio?"
Carlisle abaixou a cabeça com graça.
"Não perderia isso."
A mulher saiu apressadamente, e Isabella a ficou observando por um longo momento antes de se virar para ele.
"O que é o Pandemônio?"
"Nada com que você precise se preocupar."
Ela pensou em pressioná-lo em relação ao assunto quando ele chegou à porta da sala de bilhar. Se a outra mulher estava planejando comparecer àquele evento, Isabella também iria querer, ainda que apenas para encontrar a coragem de dar um basta na Jezebel. Não que Bella fosse muito diferente. Afinal, ela estava vestindo uma máscara, prestes a ganhar uma aula de bilhar de um homem que não era...
"Estava na hora de você aparecer. Não tenho tempo para você e suas damas esta noite. E o quê, em nome dos céus, estamos fazendo jogando deste lado? Jasper vai arrancar as nossas cabeças se..."
...seu marido. Ele estava lindo, apoiado na mesa de bilhar em questão, com o taco na mão. E muito, muito irritado. Ele se endireitou.
"Isabella!?"
Era o fim da utilidade da máscara.
"Este lado facilita que a senhora jogue conosco", Carlisle disse, visivelmente se divertindo.
Edward deu dois passos na direção deles antes de parar, os punhos cerrados nas laterais do corpo. O olhar dele cruzou com o dela, verde-brilhante à luz das velas.
"Ela não vai jogar."
"Não creio que tenha escolha", ela disse, "uma vez que tenho um convite."
Ele pareceu não se importar.
"Tire essa máscara ridícula."
Carlisle fechou a porta, e Isabella levantou a mão para retirá-la.
Desmascarar-se em frente ao marido pareceu mais difícil do que ficar nua diante de todo o Parlamento. Ainda assim, endireitou os ombros e retirou a máscara, olhando-o de frente.
"Eu fui convidada, Edward", ela disse, ouvindo o tom defensivo em sua voz.
"Como? Carlisle lhe ofereceu um convite quando a acompanhou até em casa no meio da noite? O que mais ele ofereceu a você?"
"Cullen", Cross disse, as palavras repletas de alerta ao dar um passo à frente para se defender. Para defendê-la... mas ela não precisava da defesa dele. Não havia feito nada errado.
"Não", Isabella disse, com firmeza na voz. "Lorde Cullen sabe exatamente onde estive, e com quem, durante todo nosso curto e desastroso casamento." Deu um passo na direção de Edward, tornando-se mais corajosa com a ofensa. "Em casa, sozinha. Em vez de estar aqui, onde a metade feminina de Londres aparentemente deseja ter a senha para a cama dele."
Ele arregalou os olhos, sem saber o que responder.
"Eu gostaria que fosse embora, Edward", ela acrescentou, atirando a máscara e a rosa sobre a mesa de bilhar. "Sabe, venho esperando ansiosamente por esta aula de bilhar e você está tornando muito difícil que eu a aproveite."
Oi...? rs
