Personagens de Stephenie Meyer. Estória de Sarah MacLean.
CAPÍTULO VINTE
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"Eu deveria querer que você ficasse nua sob as minhas roupas todos os dias."
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Caro E,
Estou meio reflexiva – passaram-se seis anos desde "O desastre Leighton", como meu pai gosta de se referir ao caso, e eu rejeitei três pedidos de casamento – um menos atraente do que o outro. Todavia, minha mãe continua a perturbar-me com lojas de modistas e chás femininos, como se pudesse de alguma forma apagar o passado com alguns metros de seda ou um aroma de bergamota. Isso não pode prosseguir para sempre, pode?
Pior, eu continuo escrevendo cartas para um espectro e imaginando que, um dia, possam chegar respostas pelo correio.
Sem assinatura
Casa Swan, novembro de 1829
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Carta não enviada.
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"Pudim de groselha."
Isabella não levantou a cabeça de onde estava, no ombro de Edward, os cabelos castanhos espalhados ao redor deles.
"Perdão?"
Ele deslizou a mão quente ao longo da coluna dela, provocando um arrepio de prazer em todo seu corpo.
"Tão educada." Ele se inclinou sobre a beirada da chaise, sem querer se desenroscar de Isabella ainda, mas sabendo que ela sentiria frio se não fizesse alguma coisa. Pegou o paletó de onde o havia deixado em uma pilha no chão, na pressa de chegar à esposa, e puxou a lã azul-marinho por cima dos dois.
Ela se aninhou contra ele embaixo do casaco, e ele inspirou ao senti-la, macia e sedosa contra ele.
"Pudim de groselha", ele repetiu.
"Não é uma forma muito gentil de se referir à sua esposa", Bella disse com um sorrisinho, sem sequer abrir os olhos. "Embora depois do que acabamos de fazer, posso estar mesmo parecendo um pudim de groselha para você."
Foi algo incrivelmente bobo, e Edward não conseguiu conter o riso. Quanto tempo fazia que ele não ria de algo tão bobo? Talvez uma vida inteira.
"Engraçadinha", ele disse, apertando os braços ao redor dela. "Pudim de groselha é a minha sobremesa preferida."
Ela ficou imóvel, parando de mexer nos pelos do peito dele com os dedos. Edward segurou sua mão e levou os dedos dela aos lábios, beijando-os rapidamente.
"Gosto de pudim de framboesa também. E de ruibarbo."
Ela levantou a cabeça, procurando seus olhos com os olhos chocolates, como se ele tivesse acabado de fazer uma confissão impressionante.
"Pudim de groselha..."
Ele começou a se sentir meio idiota. Ela não se importava realmente com sua sobremesa preferida.
"Sim."
Ela deu um sorriso largo e deslumbrante, e ele parou de se achar idiota, sentindo-se como um rei. Ela deitou a cabeça no peito dele uma vez mais, os seios subindo e descendo em um ritmo tentador. Então ela disse simplesmente:
"Eu gosto de melado." E ele quis fazer amor com ela outra vez.
Como era possível que uma conversa sobre sobremesa pudesse ser tão afrodisíaca? A mão dele desceu pelas costas dela novamente, acompanhando a curva de seu traseiro arredondado, puxando-a contra si, adorando a sensação. Beijou sua têmpora.
"Eu me lembro disso." Ele não se lembrava até o instante em que ela falou, quando lhe veio claramente a imagem da jovem Bella na cozinha dos Falconwell, com o rosto redondo coberto de melado. Ele sorriu para a lembrança. "Você costumava convencer a nossa cozinheira a deixá-la lamber a tigela."
Ela virou o rosto para o peito dele, encabulada.
"Não pedia, não."
"Pedia, sim."
Ela sacudiu a cabeça, os cabelos sedosos se prendendo na aspereza da barba por fazer.
"As colheres, talvez, mas nunca a tigela. Damas não lambem tigelas."
Ele deu gargalhada diante da correção, surpreendendo a ambos. Era bom estar deitado ali, rindo com ela, sentindo-se melhor do que se sentia havia muito, muito tempo. Mesmo que soubesse que aquele momento era tudo o que eles tinham, o último momento tranquilo antes de tudo se perder, e ele arruinar a pequena boa vontade que ela tinha em relação a ele. Ele passou o outro braço ao redor dela, segurando-a apertado junto a si, enquanto o pensamento ecoava em sua mente. Por ora, ela era dele.
"Parece que sua aventura foi um sucesso."
Ela levantou a cabeça, apoiando o queixo nas palmas das mãos e olhando para ele, os olhos castanhos cintilando de provocação.
"Estou esperando ansiosamente pela próxima."
Edward deslizou a mão por uma coxa, brincando com a parte de cima da meia de seda.
"Por que tenho medo de perguntar?"
"Quero jogar dados."
Ele imaginou Isabella beijando os dados de marfim antes de atirá-los sobre o viçoso tecido verde em uma das salas lá embaixo.
"Você sabe que jogos de dados ninguém ganha."
Bella sorriu.
"Dizem isso sobre a roleta também."
Ele sorriu para ela.
"É verdade. Você simplesmente teve sorte."
"Número vinte e três."
"Infelizmente, os dados só somam até doze."
Ela encolheu os ombros levemente, com o casaco dele escorregando pela pele pálida e perfeita de seu ombro.
"Irei perseverar."
Ele inclinou a cabeça para frente, para dar um beijo na pele nua.
"Vamos ver sobre os dados. Ainda estou me recuperando da aventura desta noite, sua raposa.
E amanhã você se lembrará de todos os motivos pelos quais não me quer por perto. Ela fechou os olhos e suspirou, relembrando o prazer, e o som o fez se remexer embaixo dela para esconder o desejo aumentando. Ele a desejava novamente, mas iria se controlar. Deviam se levantar. Ele não conseguiu se mexer.
"Edward?" Quando os olhos dela se abriram de novo, estavam como avelãs derretidas. Um homem poderia se perder naqueles olhos. "Para onde você foi?"
"Para onde eu fui quando?"
"Depois de... perder tudo."
Ele foi dominado por um arrepio de desgosto. Não queria responder a ela. Não queria dar mais um motivo para ela lamentar o casamento.
"Eu não fui a lugar algum. Fiquei em Londres."
"O que aconteceu?"
Que pergunta! Tanta coisa havia acontecido. Tanta coisa havia mudado. Tanta coisa que não queria que ela soubesse, que não queria que ela fizesse parte. Que ele não gostaria de ter feito parte. Respirou fundo, levando as mãos à cintura dela para movê-la, para se levantar.
"Você não quer saber sobre isso."
Ela se posicionou em cima dele, as mãos espalmadas em seu peito, interrompendo seu movimento.
"Eu quero saber sobre isso." Ela o encarou, recusando-se a deixá-lo se levantar. A deixá-lo recuar. Ele se deitou, resignado.
"Quanto você sabe?"
"Eu sei que você perdeu tudo em um jogo de azar."
Ela estava tão perto, os olhos tão atentos, e ele foi dominado pelo arrependimento. Ele odiava que ela conhecesse seus erros, sua vergonha. Desejava que pudesse ser outra pessoa para ela. Alguém novo. Alguém digno dela. Mas talvez, se ele lhe contasse a história, se ela soubesse de tudo, isso a impediria de se aproximar demais. Talvez evitaria que ele se importasse. Mas era tarde demais. Ele se defendeu do pensamento, apenas um sussurro.
"Foi no vingt-et-un."
Ela não desviou o olhar.
"Você era jovem."
"Vinte e um anos. Idade suficiente para não apostar tudo o que eu possuía."
"Você era jovem", ela repetiu enfaticamente.
Ele não discutiu.
"Apostei tudo. Tudo o que não estava comprometido e que não estava obrigado há gerações. Como um tolo." Esperou que ela concordasse. Como ela não concordou, continuou: "Billy Black me levou a apostar mais e mais, me estimulando, me provocando até tudo o que eu possuía estar sobre a mesa, e eu estar seguro de que iria ganhar".
Ela sacudiu a cabeça.
"Como poderia saber?"
"Eu não poderia, certo? Mas eu estava me saindo bem naquela noite – ganhando uma mão depois da outra. Quando entramos numa onda de sorte, é... eufórico. Então chega um ponto em que tudo vira, a razão vai embora, e pensamos que é impossível perder." As palavras estavam saindo livremente naquele momento, junto com as lembranças que ele manteve trancadas por tanto tempo. "Jogar é uma doença para algumas pessoas e eu a tinha... A cura era ganhar. Naquela noite, eu não podia parar de ganhar. Até que parei de ganhar e perdi tudo." Ela o estava observando, absolutamente atenta. "Ele me levou à tentação, convencendo-me a apostar mais e mais..."
"Por que você?" Ela estava com a testa franzida e raiva na voz, e Edward levantou a mão para alisar a pele enrugada ali. "Você era tão jovem!"
"Tão rápida para me defender sem todas as informações." O toque dele seguiu a curva do nariz de Bella. "Ele havia construído tudo. As terras, o dinheiro, tudo... Meu pai era um bom homem, mas, quando morreu, o patrimônio não estava tão sólido como deveria. Mas havia o bastante com que Black pudesse trabalhar, fazer prosperar, e ele fez isso. No momento em que eu herdei tudo, o marquesado valia mais do que as terras dele. E ele não queria abrir mão daquilo."
"Cobiça é um pecado."
Assim como a vingança. Ele fez uma pausa, pensando no jogo de tanto tempo atrás que ele reviveu centenas ou milhares de vezes.
"Billy me disse que eu acabaria lhe agradecendo por ter tirado tudo de mim", ele disse, sem conseguir evitar o tom de escárnio na voz.
Ela ficou em silêncio por um longo momento, com os olhos achocolatados sérios.
"Talvez ele tivesse razão."
"Ele não tinha." Não se passou um dia sem que Edward lamentasse o ar que Billy Black respirava.
"Bem, talvez gratidão seja um pouco demais. Mas pense no quanto você cresceu apesar dos obstáculos dele. Pense em como você enfrentou as dificuldades. Como as superou."
Havia uma falta de fôlego urgente na voz de Isabella, que Edward ao mesmo tempo adorou e detestou.
"Eu lhe disse uma vez para não fazer de mim um herói, Bella. Nada do que eu fiz... nada do que eu sou... é heroico."
Ela sacudiu a cabeça.
"Você está errado. Você é muito mais do que imagina."
Ele pensou nos papéis no bolso de seu casaco, nos planos que havia disparado naquela manhã. Na vingança pela qual ele vinha esperando por todos aqueles anos. Ela veria muito em breve que ele não era um herói.
"Eu gostaria que isso fosse verdade."
Por você. Essa ideia o atormentava. Ela se inclinou para mais perto, com o olhar sério e decidido.
"Você não vê, Edward? Não vê o quanto é mais hoje do que teria sido? O quanto é mais forte, mais poderoso? Se não por aquele momento, pela forma como ele o modificou, a forma como modificou a sua vida... você não estaria aqui." A voz dela diminuiu para um sussurro. "E eu também não estaria."
Ele apertou os braços ao seu redor.
"Bem, isso é uma alguma coisa."
Os dois ficaram ali deitados por um longo tempo, perdidos nos próprios pensamentos, antes de Isabella mudar de assunto.
"E depois do jogo? O que aconteceu?"
Edward olhou para o teto, relembrando.
"Ele me deu um guinéu."
Ela levantou a cabeça.
"O seu amuleto..."
Sua esposa inteligente.
"Eu não o gastei. Eu não pegaria nada dele. Não até eu poder pegar tudo."
Ela o estava observando cuidadosamente.
"Vingança."
"Eu não tinha nada além da roupa do corpo e um punhado de moedas no bolso – Emmett me encontrou. Havíamos sido amigos na escola, e ele estava lutando contra qualquer um que lhe pagasse por uma luta. Nas noites em que ele não estava lutando, nós organizávamos jogos de dado no Bar."
Ela franziu a testa.
"Isso não era perigoso?"
Ele viu a preocupação nos olhos dela, e parte dele ansiou por sua maciez e doçura. A presença dela ali, em seus braços, enquanto ele contava aquela história, era uma bênção. Era como se ela pudesse, com sua preocupação e seu cuidado, salvá-lo. Contudo, ele já havia passado do ponto de ser salvo, e ela não merecia aquela vida repleta de pecado e vícios. Ela merecia muito mais. Algo muito melhor. Ele encolheu um ombro.
"Aprendemos rapidamente quando lutar e quando fugir."
Ela levou uma das mãos ao rosto dele, tocando levemente no lábio que cicatrizava.
"Você ainda luta."
Ele sorriu, e sua voz ficou sombria.
"E faz um bom tempo que não fujo."
Ela desviou o olhar para a janela, onde a noite estava se alongando, e as velas nos candelabros, apagando.
"E o Anjo Caído?"
Ele levantou a mão e segurou um cacho de cabelos dela, enroscando-o em seus dedos, adorando a forma como se prendia nele.
"Quatro anos e meio mais tarde, Emmett e eu havíamos aperfeiçoado nosso negócio... nossos jogos de dados se mudavam de um lugar a outro, dependendo dos jogadores, e uma noite, tínhamos vinte ou trinta homens, todos apostando no resultado. Eu estava com uma pilha de dinheiro na mão, e sabíamos que era uma questão de tempo antes que precisássemos encerrar o jogo ou correr o risco de sermos roubados." Ele soltou o cabelo dela e passou o polegar pelo seu rosto. "Eu nunca fui bom em saber quando parar. Sempre queria mais um jogo, mais uma rodada de dados."
"Você apostava nos jogos?"
Ele a encarou, querendo que ela escutasse a promessa em suas palavras.
"Eu não faço uma aposta há nove anos."
Ela foi tomada pela compreensão. E pelo orgulho também.
"Desde que perdeu para Billy."
"Isso não muda a forma como as mesas me atraem. Não torna os dados menos tentadores. E quando a roleta gira... eu sempre tento adivinhar onde ela vai parar."
"Mas você nunca aposta."
"Não. Mas adoro ver os outros apostarem. Naquela noite, Emmett disse várias vezes que devíamos ir embora, que o jogo estava esfriando... mas eu podia continuar por mais uma, duas horas, e ficava adiando. Mais um jogo de dados... Mais uma rodada de apostas... Mais uma..." Ele se perdeu nas lembranças. "Eles vieram do nada, e precisamos agradecer que estivessem armados com tacos e não pistolas. Os homens que estavam jogando os dados fugiram ao primeiro sinal de problema, mas teriam se safado mesmo que tivessem ficado."
"Eles queriam vocês." Bella falou num sussurro.
Edward assentiu com a cabeça.
"Eles queriam a nossa receita. Mil libras ou talvez mais."
Mais do que qualquer um deveria ter em uma rua em Temple Bar.
"Nós lutamos o melhor que conseguimos, mas éramos dois contra seis, que pareciam nove." Ele riu, baixo demais para se ouvir. "E mais pareciam dezenove."
Ela não achou divertido.
"Você devia ter dado o dinheiro a eles. Não valia a sua vida."
"Minha esposa esperta. Se ao menos você estivesse lá." Ela empalideceu. Edward puxou a boca de Isabella até a dele para lhe dar um beijo rápido. "Eu estou aqui, vivo e bem, infelizmente para você."
Ela sacudiu a cabeça, e sua seriedade o deixou com dor no estômago.
"Nem brinque. O que aconteceu?"
"Achei que estávamos perdidos quando uma carruagem apareceu, sabe Deus de onde, e um batalhão de homens do tamanho de Emmett e maiores do que ele saiu. Eles ficaram do nosso lado, expulsaram os ladrões e, quando todos haviam fugido com o rabo entre as pernas, Emmett e eu fomos atirados para dentro da carruagem para conhecermos nosso salvador."
Ela estava à frente na história.
"Jasper..."
"A principal pessoa do Anjo Caído."
"O que Jasper queria?"
"Sócios. Alguém para administrar os jogos. Alguém para tratar da segurança. Homens que compreendessem tanto o brilho quanto a vulgaridade da aristocracia."
Ela soltou um longo suspiro.
"Ele salvou a sua vida."
Edward estava perdido na lembrança daquele primeiro encontro, em que se deu conta de que poderia ter uma chance de recuperar tudo o que havia perdido.
"Sim."
Ela se levantou e lhe deu um beijo no lábio inchado, pondo a língua ligeiramente para fora para lamber o ferimento.
"Ele está errado."
Edward voltou a atenção a ela.
"Jasper?"
Ela assentiu com a cabeça.
"Ele acha que tenho crédito com ele."
"É o que parece."
"Eu tenho uma dívida. Ele salvou você, para mim."
Ela o beijou novamente, e ele prendeu a respiração, dizendo a si mesmo que era uma reação à carícia, quando na verdade eram as palavras dela que ameaçavam sua força. Ele enterrou as mãos nos cabelos dela enquanto sentia o sabor da gratidão, do alívio e de mais alguma coisa que não conseguiu identificar... uma tentação maravilhosa. Algo que ele tinha certeza de que não merecia. Agarrou os cabelos dela com uma das mãos e recuou do beijo, desejando, desesperadamente, que pudesse continuar. Mas não podia permitir a ela – não podia permitir a si mesmo – outro momento sem lembrá-la exatamente de quem ele era... do que ele era.
"Eu perdi tudo, Bella. Tudo. Terras, dinheiro, o que havia dentro das minhas casas... das casas do meu pai. Eu perdi tudo o que me fazia lembrar deles." Fez-se um longo silêncio. Então, baixinho, ele disse: "Eu perdi você".
Ela inclinou a cabeça, olhando fixamente em seus olhos.
"Você reconstruiu tudo. Dobrou tudo. Mais do que isso."
Ele sacudiu a cabeça.
"Não é a parte mais importante."
Ela paralisou, como se tivesse esquecido dos planos dele. Do futuro deles.
"Sua vingança..."
"Não. O respeito. O lugar na sociedade. As coisas que eu deveria ter sido capaz de dar à minha esposa. As coisas que eu deveria ter sido capaz de dar a você."
"Edward..." Ele ouviu a censura na voz dela e a ignorou.
"Você não está me ouvindo. Eu não sou o homem certo para você. Nunca fui. Você merece alguém que não cometeu os erros que eu cometi. Alguém que possa cobri-la de títulos, respeitabilidade, decência e mais do que um pouco de perfeição." Ele fez uma pausa, detestando a forma como ela havia ficado tensa em seus braços ao ouvir as palavras, resistindo à verdade naquilo que tinham. Ele a obrigou a olhar em seus olhos, obrigou a si mesmo a dizer o resto. "Eu gostaria de ser esse homem, Seis Cents. Você não vê? Eu não tenho nada disso. Não tenho nada digno de você. Nada que a fará feliz."
E, por Deus, eu quero que você seja feliz. Quero fazer você feliz.
"Por que você pensa isso?", ela perguntou. "Você tem tanto... tanto mais do que eu jamais iria precisar."
Não o suficiente. Ele havia perdido mais do que jamais poderia recuperar. Ele poderia ter cem casas, vinte vezes mais dinheiro, todas as riquezas que pudesse acumular, e jamais seria suficiente. Porque isso jamais apagaria seu passado, sua inconsequência, seu fracasso. Isso jamais o tornaria o homem que ela merecia.
"Se eu não tivesse obrigado você a se casar comigo...", ele começou, e ela o interrompeu.
"Você não me obrigou a fazer nada. Eu escolhi você."
Ela não podia acreditar nisso. Ele sacudiu a cabeça.
"Você realmente não enxerga o quanto é incrível, não é?" Ele desviou os olhos ao ouvir aquelas palavras. A mentira contida nelas. "Não! Olhe para mim." As palavras foram firmes, e ele não pôde deixar de obedecer aqueles olhos tão castanhos, tão sinceros... "Você acha que de alguma forma perdeu toda a respeitabilidade quando perdeu a sua fortuna. Mas o que era aquela fortuna além de dinheiro e terras acumulados por gerações de outros homens? Eram realizações deles. Era a honra deles. Não a sua. Você..." Ele ouviu a reverência naquelas palavras, viu a verdade dos sentimentos nos olhos dela. "...você construiu o seu próprio futuro. Fez um homem de si mesmo."
Um sentimento encantador, romântico, mas errado.
"Você está se referindo a um homem que roubou a esposa no meio da noite, obrigou-a a se casar com ele, usou-a para conseguir terras e vingança e então... esta noite... despiu-a no cassino mais famoso de Londres?" Ele ouviu o desdém em seu tom de voz e desviou o olhar, na direção da escuridão que envolvia o teto alto do ambiente, sentindo como se pertencesse à sarjeta. Ele a queria vestida e longe dele. "Meu Deus. Eu jurei que jamais voltaria a desonrá-la. Eu sinto tanto, Bella."
Ela se recusou a se sentir intimidada. Pondo a mão no queixo dele, forçou-o a encará-la.
"Por favor, não faça com que pareça sujo. Eu quis isso. Gostei disso. Não sou uma criança para ser mimada. Eu me casei com você para viver, e isto... você... tudo é viver." Ela fez uma pausa e sorriu, alegre e linda, e o prazer e o arrependimento que aquele único sorriso provocaram foram como um golpe físico. "Não houve um momento esta noite em que eu tenha me sentido desonrada ou usada. Na verdade, eu me senti bastante... idolatrada."
Era porque ele a havia idolatrado.
"Você merece coisa melhor."
Ela franziu a testa, endireitou-se e se levantou da chaise como uma fênix, enrolando-se no casaco dele.
"É você quem não está escutando. Eu odeio que você me coloque em uma estante onde guarda as coisas de valor que não quer que se quebrem. Eu não quero esse lugar de honra. Eu o detesto! Detesto a forma como me deixa lá por medo de me ferir. Por medo de me quebrar, como se eu fosse uma espécie de boneca de porcelana sem força alguma. Sem personalidade."
Ele se levantou, seguindo na direção dela. Ele jamais pensou que ela não tinha personalidade. Na verdade, se ela tivesse um pouco mais de personalidade, o enlouqueceria. Quanto à força, ela era Atlas. Uma pequena e encantadora Atlas, vestindo nada além do casaco dele. Ele estendeu a mão, e ela deu um passo para trás.
"Não. Não. Ainda não acabei. Eu tenho personalidade, Edward."
"Eu sei disso."
"Muita personalidade."
Mais do que ele jamais imaginou.
"Sim."
"Não sou perfeita. Desisti da perfeição quando me dei conta de que a única coisa que ela me conseguiria seria um casamento solitário com um marido igualmente perfeito." Ela estava tremendo de raiva, e ele estendeu a mão na sua direção, querendo puxá-la para seus braços. Mas ela recuou, recusando-se a deixar que ele a tocasse. "E quanto a você não ser perfeito, bem, graças a Deus por isso! Eu tive uma vida perfeita ao meu alcance um dia, e era um tédio terrível. A perfeição é limpa demais, fácil demais. Eu não quero perfeição tanto quanto não quero ser perfeita. Eu quero a imperfeição. Quero o homem que me atirou por cima do ombro no meio do bosque e me convenceu a me casar com ele pela aventura. Quero o homem que é quente e frio, com altos e baixos. O que administra um clube masculino, um clube feminino, um cassino e o que quer que seja este lugar incrível. Você acha que eu me casei com você apesar das suas imperfeições? Eu me casei com você por causa das suas imperfeições, seu tolo. As suas gloriosas e insuportavelmente irritantes imperfeições."
Não era verdade, é claro. Ela havia se casado com ele porque não tinha escolha. Mas ele não ia simplesmente deixá-la ir embora. Não depois de ter descoberto o quanto era maravilhoso tê-la em seus braços.
"Bella..."
Ela soltou as mãos, e o casaco dele se abriu, exibindo uma longa e estreita faixa de pele que ia do pescoço ao joelho.
"O quê?" Ele teria dado risada da irritação no tom dela, se não tivesse ficado embasbacado com a aparência dela vestindo meias, o casaco e nada mais. Ela respirou fundo, e o tecido ameaçava revelar seus seios gloriosos.
"Já acabou?"
"Talvez", ela disse, reservando-se o direito de falar mais.
"Você sabe ser muito difícil quando quer, sabia?"
Uma de suas lindas sobrancelhas castanhas se ergueu.
"Bem... Se não é o roto falando do esfarrapado, não sei o que é."
Ele estendeu a mão para ela, e ela deixou que ele a pegasse dessa vez. Deixou que a puxasse para seus braços, pressionando seu corpo voluptuoso e curvilíneo contra o dele.
"Eu sou imperfeito demais para você", ele sussurrou na têmpora dela.
"Você é perfeitamente imperfeito para mim."
Ela estava errada, mas ele não queria mais pensar nisso. Em vez disso, disse:
"Você está nua em um cassino, amor."
A resposta dela saiu abafada contra o peito dele, e ele mais sentiu as palavras do que as ouviu.
"Eu não posso acreditar nisso."
Uma das mãos dele acariciou as costas dela, sobre o tecido do casaco, e ele sorriu ao pensar que ela estava usando suas roupas.
"Eu acredito, minha doce e aventureira dama." Edward beijou o topo da cabeça dela, deslizando a mão para dentro do casaco para tocar um dos seios encantadores, adorando o arrepio que a percorreu com o toque. "Eu deveria querer que você ficasse nua sob as minhas roupas todos os dias."
Ela sorriu.
"Você sabe que estou nua sob as minhas próprias roupas todos os dias, não?"
Ele gemeu.
"Você não deveria ter dito isso. Como vou conseguir fazer qualquer coisa além de pensar em você nua de agora em diante?"
Ela se afastou com uma risada, e os dois começaram a se vestir, Bella batendo nas mãos de Edward toda vez que ele tentava segurá-la.
"Eu estou ajudando."
"Você está atrapalhando."
Ela endireitou o lacinho cor de creme na frente do vestido enquanto ele dava o nó na gravata sem se olhar no espelho. Ele se vestiria alegremente com ela todos os dias, pelo resto da eternidade. Mas ele não faria isso. Não depois dela descobrir suas mentiras. O sussurro ecoou em sua mente.
"Isto é água?" Ela apontou para uma jarra em um canto, ao lado de um lavatório.
"Sim."
Ela derramou água na bacia e mergulhou as mãos até os pulsos. Não as lavou, apenas as deixou paradas dentro do líquido frio. Ele a observou por um tempo enquanto ela fechava os olhos e respirava fundo uma, duas, três vezes. Ela retirou as mãos de dentro da água e sacudiu o líquido, virando-se novamente de frente para ele.
"Tem algo que eu sinto que devo dizer a você."
Em nove anos de dados e cartas e todos os outros tipos de jogos que existiam, Edward aprendeu a ler rostos. Aprendeu a identificar nervosismo, euforia, trapaça, mentira, raiva e todos os outros pontos do espectro da emoção humana. Todos, exceto a emoção que preenchia o olhar de Isabella – a emoção que se escondia por trás do nervosismo, do prazer e da excitação. Estranhamente, foi por nunca tê-la visto antes, que Edward soube exatamente de qual emoção se tratava. Amor.
A ideia o deixou sem fôlego, e ele se endireitou, consumido ao mesmo tempo pelo desejo, pelo medo e por mais alguma coisa em que não queria pensar. Não queria reconhecer. Ele havia dito a ela para não acreditar nele. Ele a havia alertado e, por sua própria sanidade, ele não podia deixá-la dizer a ele que o amava. Descobriu que queria muito isso. Então, fez o que fazia melhor. Resistiu à tentação, aproximando-se e puxando-a para seus braços para um beijo rápido – um beijo que estava desesperado para prolongar. Para aproveitar, para transformar em algo tão poderoso como a emoção que o percorria.
"Está ficando tarde, querida. Chega de conversa esta noite."
O amor no olhar de Bella deu lugar à confusão, e ele se detestou por isso. Infelizmente, aquela também estava se tornando uma emoção familiar. Alguém bateu na porta, salvando-o. Edward conferiu o relógio. Eram quase três da manhã, tarde demais para visitas, o que significava apenas uma coisa. Novidades.
Ele atravessou a sala rapidamente e abriu a porta, lendo o rosto de Carlisle antes do outro ter chance de falar.
"Ele está aqui?"
O olhar de Carlisle passou por cima do ombro de Edward até Isabella, então voltou para Edward, cinzento e impenetrável.
"Sim."
Ele não conseguiu olhar para ela. Ela estava perto, perto o bastante para seu aroma delicado envolvê-lo, provavelmente pela última vez.
"Quem está aqui?", ela perguntou, e ele não queria responder, ainda que soubesse que ela precisava saber. E que, assim que soubesse, ele a perderia para sempre.
Ele a encarou, fazendo o máximo possível para parecer calmo e impassível, lembrando da meta singular que havia estabelecido para si mesmo uma década atrás.
"Billy Black."
Ela paralisou ao ouvir o nome ser pronunciado.
"Uma semana", ela disse baixinho, lembrando do acordo deles antes de sacudir a cabeça. "Edward, por favor, não faça isso."
Ele não conseguiu evitar. Era tudo o que ele sempre quis. Até ela chegar...
"Fique aqui. Alguém a levará para casa." Edward deixou a sala, o som da porta que se fechava atrás dele ecoando como um tiro no escuro, o corredor vazio à sua frente, e a cada passo que dava, ele se preparava para o que estava por vir.
Estranhamente, não era enfrentar Black – o homem que havia arrancado a vida dele – que exigia a força extra. Era perder Isabella.
"Edward!" Ela o havia seguido até o corredor, e o som do nome dele em seus lábios o fez se virar, sem conseguir ignorar a angústia na voz, querendo desesperadamente e instintivamente protegê-la daquilo.
Protegê-la dele mesmo. Ela estava correndo em sua direção, rápida e furiosamente, e ele não pôde fazer nada além de segurá-la, levantando-a em seus braços quando as mãos dela prenderam seu rosto, e ela o encarou nos olhos.
"Você não precisa fazer isso", ela sussurrou, os polegares acariciando suas bochechas, deixando rastros agonizantes. "Você tem Falconwell... e tem o Anjo Caído... e mais do que ele jamais poderia sonhar. Tanta coisa mais do que raiva, vingança e fúria. Você tem a mim." Ela olhou dentro dos olhos dele antes de finalmente dizer, de modo dolorosamente suave: "Eu amo você".
Ele havia dito a si mesmo que não queria as palavras, mas, depois de terem sido ditas, o prazer que o percorreu ao ouvi-las nos lábios de Isabella foi quase insuportável. Ele fechou os olhos e a beijou, profunda e intensamente, desejando lembrar-se do sabor, da sensação, do cheiro dela – daquele momento – para sempre. Quando soltou os lábios de Bella e a pôs no chão novamente, deu um passo para trás, respirando fundo, adorando a forma como os lindos olhos chocolates dela brilhavam quando ele a tocava. Ele não a havia tocado o suficiente. Se pudesse voltar atrás, ele a teria tocado mais. Eu amo você. O sussurro ecoou através dele, pura tentação. Ele sacudiu a cabeça.
"Pois não deveria."
Ele se virou de costas, deixando-a no corredor escuro, seguindo para enfrentar seu passado, recusando-se a olhar para trás, recusando-se a reconhecer o que estava deixando.
O que estava perdendo.
Ai ai ai, esse Edward cabeça dura...
