CAPÍTULO 1 – MUNDO FODIDO

Ano 2618

Quanto tempo faz que o mundo morreu? Quantos séculos, até que os poucos sobreviventes procriassem o suficiente para a humanidade voltar a florescer?

Somos todos uma mesma família, pode-se dizer. E, ao mesmo tempo, não somos. Em algum ponto distante na árvore genealógica do mundo todos se conectam aos poucos "originais", sobreviventes do grande e contínuo holocausto que foi a agonizante morte do mundo.

Matamos o único lar que tínhamos, como os bastardos ingratos que somos e fingimos não mais ser. Cantamos louvores à Natureza como se assim fôssemos conseguir dela alguma consideração, algum sinal de que a situação da humanidade vai melhorar, e celebramos cada pequeno broto que ela nos concede como se fosse uma resposta às nossas preces.

Dizem que tudo começou com pequenas e quase imperceptíveis mudanças climáticas. Estações do ano mais longas ou mais curtas, mas sempre mais severas, até que os desastres naturais se tornaram mais frequentes. Aos poucos, as pequenas e espaçadas tragédias se acumularam de um jeito que se tornou inevitável pensar que estavam todas interligadas e indicavam que o mundo havia chegado ao limite. A dor e o medo vieram acompanhados do caos, e do caos à guerra foi questão de tempo. Guerra por qualquer recurso que a Natureza não houvesse destruído em sua ira.

Pessoas morriam, quando não vítimas da "revolta do planeta", pelas mãos humanas. Cidades foram perdidas, e com elas, recursos com os quais hoje somente podemos sonhar. Faltou comida, abrigo, água potável. Guerras civis se instauraram contra os governos beligerantes e dentro do próprio território reinou a discórdia, com pessoas se massacrando pelo alimento do dia.

Dizem que hoje estamos melhores. Que piada! Conversa fiada de elite querendo apaziguar a massa...

Armas nucleares foram usadas. Que maravilha, o planeta tentando desesperadamente sobreviver, e os idiotas somam radiação ao problema!

Alguns poucos tiveram o brilhantismo (ou a audácia) de perceber que a humanidade caminhava a passos largos para a dizimação, e em um último esforço para preservar algo de bom, ao menos uma marca de que não nos resumimos à destruição generalizada, organizaram às pressas uma coleta e preservação do que hoje são os registros mais venerados da nossa história em nosso dilapidado planeta. As "relíquias" que os escavadores, como eu, tentam encontrar e devolver à superfície, às mãos dos "Mestres", ao preço da refeição do dia.

"Escavadores como eu", em termos. Nem sempre eu entrego aos Mestres o que eu encontro.

Após a radiação, o planeta se revoltou ainda mais, até vir o cataclismo: maremotos cobriram de água onde antes havia terra, e placas tectônicas se moveram o suficiente para fazer surgir terra onde antes havia mar. Eu li que o mundo começou como um só continente, então acho uma ruidosa ironia que ele terminasse exatamente assim: um único pedaço de terra rodeado por um mar sem fim.

Bilhares de pessoas morreram. É incrível dizer isso, porque antes de ler os dados eu nem sabia que existia a medida "bilhar". Mas sim, foram bilhares de pessoas. Estima-se que menos de 1% da população de 2118 sobreviveu, e se conseguiram foi porque já estavam nos abrigos quando a Última Onda varreu a terra. Dos sobreviventes, apenas uma pequeníssima fração conseguiu procriar anos depois. São os "Originais", fundadores do mundo que temos hoje: o mundo após a morte do mundo.

Ouvi falar em seitas que cultuam os Originais, defendendo que eles eram pessoas puras o bastante para serem autorizadas pela Natureza a darem continuidade à humanidade, mas sinceramente, acho uma grande balela: o mundo está tão fodido hoje quanto esteve quinhentos anos atrás. Se conseguimos nos reproduzir, quando conseguimos, nada tem a ver com pureza e sim com nossa resistência parasitária. Somos pestes difíceis de exterminar.

Eu mal me lembro da última vez em que vi um bebê. Não foi só o mundo que recebeu veneno: nossas gônadas também. A Natureza é sábia, disto eu não tenho a menor dúvida, e se antes ela era uma senhoria gentil e complacente, hoje ela é a vadia rancorosa que sempre deveria ter sido. A Natureza simplesmente não nos deixa repovoar a terra como antes, e nem pode. Não sem provocar o colapso do frágil sistema que construímos.

O mais antigo ser humano atualmente conta com 68 anos de idade, uma conquista considerando que dois séculos atrás as pessoas mal chegavam aos 40 anos. Para mim, é só gente sacana vivendo tempo demais, o que significa tempo demais fazendo merda. Por isso eu chamo este mundo de "Pequena Caixa de Areia": enterramos nossos dejetos nele como se não houvesse o amanhã, e quando o amanhã chegou, finalmente percebemos que vivemos em meio aos nossos excrementos.

Mas quem sou eu para reclamar de alguma coisa? Ninguém. Sou apenas o Rato, um escavador como tantos outros, vivendo nos escombros com os "desterrados", meus iguais. Não temos rosto, nem nome, nem Clã, apenas um número. O meu é 47, mas me chamam de Rato porque sou muito pequeno e magro e dizem que 47 é um número grande demais para mim. Vivemos nos escombros, dos escombros. Nós procuramos em ruínas por traços de quem fomos, do que fizemos, e os vendemos aos "Mestres", pessoas autorizadas a examinarem o que encontramos. Ganhamos uma ninharia para nos arriscarmos diariamente, mas faz parte desta sociedade podre que pessoas como nós recebam o pior tratamento possível. Se não estamos em um Clã, somos nada.

Eu até já pensei em formar uma Guilda de escavadores, assim teríamos o mínimo de organização e poderíamos pleitear alguma melhoria em nossas condições de vida, mas a quem eu quero enganar? Os filhos da puta dos Clãs não querem dividir, apenas tomar, e quanto mais desorganizados formos, melhor para eles.

Clã Takarada, Clã Hizuri, Clã Fuwa, Clã Morizumi e tantos outros. Poderiam todos se chamar Clã "vamos monopolizar o pouco que existe nesta porcaria de mundo e tratar o restante da população como lixo, e ainda vamos convence-los de que estamos fazendo o melhor para eles, para evitar que a humanidade pereça", se dependesse de mim. Cambada de filhos da puta! Algum dia eu vou me vingar de todos eles!

Os grandes não se lembram dos pequenos. Eles alegam que se preocupam conosco porque são uns malditos hipócritas, e me dá náusea perceber como a massa acredita nas mentiras que eles contam. Enganam a todos, mas não a mim. Conheço bem a sordidez que se esconde por trás das paredes brancas e limpas que os protegem. Dividem a sociedade em Desterrados, Guildas e Clãs apenas porque assim conseguem se colocar no topo do mundo, acima de nós. Detêm todos os recursos e imaginam possuírem todo o conhecimento. Imaginam, e é daí que vem a minha única alegria desde que tiraram Maria de mim.

Os otários não sabem que este Rato sabe ler e escrever. Que aprendi sozinho a decifrar os idiomas da maioria das relíquias já encontradas. Que eu vendo aos Mestres dos Clãs somente o que quero e guardo o que realmente importa. Há preciosidades embaixo do monte de lixo que é a minha casa. Se descobrissem o que eu guardo, os idiotas ficariam loucos. Seria bonito de ver, os Mestres arrancando os cabelos porque um escavador esconde informações que eles matariam para obter. Não que matar seja algo difícil para eles... especialmente um escavador.

Eles nos mantêm na ignorância porque assim somos mais fáceis de manipular. Mas não a mim. Não, não a mim. Um dia eles terão uma surpresa, quando este Rato surgir do nada, diretamente dos esgotos para as abastadas residências, e subverter a ordem que eles criaram em proveito próprio.

E aí, eu vou morrer. Sem chances de fazer o que eu pretendo e sair vivo. Mas morrer à minha maneira e após me vingar de todos eles é a melhor forma de deixar este mundo maldito.

Eles me julgam dispensável. Não sabem que ninguém encontra tantas relíquias quanto eu. Ninguém sabe onde elas estão, quais passagens pegar, onde procurar. Ninguém afunda nas águas turvas sabendo exatamente aonde ir e o que buscar. Ninguém enfrenta tempestades de areia no deserto sabendo qual direção seguir e onde escavar. Ninguém mergulha nas profundezas das estreitas passagens soterradas com a minha habilidade. Ninguém é tão pequeno e magro quanto eu. Nem tão louco. Ninguém tem o "dom" que eu tenho. Ninguém sequer sabe que meu dom existe, nem mesmo Maria.

Eu li em uma relíquia que não compartilhar se chama "egoísmo". Acho engraçado que exista um nome para isso, e mais ainda que os antepassados encarassem o egoísmo como algo ruim. Não sei se eram um bando de hipócritas ou apenas uns sortudos filhos da puta, que tinham tanto que podiam criticar alguém por não dividir.

Viviam na abundância e nem sabiam. Sim, na abundância é fácil condenar alguém por não querer dividir.

Depois que o mundo morreu, não dividir se tornou vital. E outra coisa vital neste mundo é informação, e isto eu tenho de sobra. Talvez eu saiba mais que o renomado Mestre Lory e seu aclamado acervo, porque nenhuma obra que ele guarda é tão antiga quanto as relíquias que eu tenho. E eu sei disso porque já me infiltrei no palácio dele, quando fui procurar Maria.

Pequena e jovem Maria, meu maior arrependimento. O mais perto de uma família que eu tive depois que meu pai morreu por mim. Ela vinha sempre me ver apesar da imundície em que eu vivo. Eu sempre soube que seria questão de tempo até a beleza dela atrair algum figurão, mas como evitar o inevitável se eu sou apenas o Rato? Não salvei Kyoko, também falhei em salvar Maria.

Vendida pelos genitores ao Clã Takarada supostamente para ser neta de Lory. Certo, acredito! No submundo a gente sabe bem o que acontece com meninas belas e saudáveis: compradas para serem educadas e preservadas até se tornarem maduras o suficiente para a procriação, ou, conforme as leis, até completarem 16 anos. O mesmo destino que teve Kyoko, vendida pelos pais ao Clã Fuwa aos seis anos de idade, supostamente para aprender uma profissão, encontrou seu fim aos 14 anos de idade. Tudo porque Sho, filho e único herdeiro Fuwa, decidiu que não haveria mal algum antecipar em dois anos o que inevitavelmente aconteceria a Kyoko.

Só que ninguém avisou a ela que se tornar uma reprodutora para os Fuwas fazia parte da extensa lista de tarefas que a aguardava no futuro. Educada para se tornar a cozinheira do Clã, ofício difícil em tempos de limitação de alimentos, Kyoko imaginava que obteria a insígnia matrimonial e, com isso, se tornaria exclusividade de Sho antes que ele invadisse seu quarto no meio de uma madrugada como um animal no cio. Kyoko não esperava a invasão, nem a violência. Era uma inocente, a única inocente de quem eu ouvi falar antes de Maria, e como uma inocente ela pereceu. Pode-se dizer que foi um milagre que ela chegasse aos 14 anos.

Este mundo pertence aos fortes e desalmados.

Mas com Maria eu não vou contar com um milagre. Não, Maria não terá o mesmo destino de Kyoko, e eu vou garantir isso nem que custe a minha vida.

Maria não vai morrer sozinha à beira de um rio.

Seis anos depois, ninguém se lembra de Kyoko, a jovem promessa do Clã Fuwa no raro ofício de cozinheira, a menina vendida para que os pais deixassem a condição de Desterrados e fossem aceitos em uma Guilda. Somente eu, filho do homem que assumiu a culpa de Sho pelo estupro e do patriarca Fuwa pelo homicídio, sei como a escória da humanidade repousa em limpos lençóis enquanto corpos jovens como o de Kyoko alimentam a vida aquática deste mundo fodido.

Sim, eu me lembro dela. Toda maldita vez em que eu visto a roupa especial antirradiação que meu pai conseguiu para mim em troca de se declarar culpado e ser sumariamente assassinado pelo Monstro Tsuruga. O Clã Fuwa saiu ileso, o Monstro saciou sua sede de sangue, a humanidade ficou satisfeita porque um crime bárbaro foi solucionado e o suposto autor foi exemplarmente punido, mas todos os dias eu sou atormentado pelo fato de que Kyoko não foi vingada e meu pai foi assassinado no lugar de dois filhos da puta. Tudo não passou de um circo, e meu pai sabia disto tão bem, que percebeu que seria morto de um jeito ou de outro. Se não aceitasse a proposta dos Fuwa, o corpo dele faria companhia ao de Kyoko, então ele fez o que todo Desterrado faz de melhor: sacrificou a própria vida por uma garantia mínima de sobrevivência, quando não para si mesmo, ao menos para mim.

Mas eu juro que faço mais do que sobreviver: eu construo um império de conhecimento. Eu não tenho força física, nem armas, mas o que eu sei é suficiente para acabar com todos eles.

Eu só preciso jogar minhas cartas corretamente.

A jovem Maria não seguirá os mesmos nefastos passos de Kyoko. Não, esta noite eu vou agir. A primeira invasão ao palácio de Lory foi apenas uma missão de reconhecimento, porque esta noite eu terei a ocasião perfeita para tira-la de lá, quando todos estiverem bêbados demais após comemorarem a ascensão do Monstro Tsuruga, o mais sanguinário dos juízes e antigo herdeiro do Clã Hizuri, à condição de Chefe do próprio Clã.

Assassinos e estupradores, é o que os Chefes de Clã são. Pervertidos miseráveis, um dia eu vou acabar com todos eles.

E tudo vai começar esta noite.

N/A – Esta história me atormenta há meses!

Para quem estiver aguardando uma atualização de "Aprendendo a Voar", saiba que assim que eu superar meu descontentamento com os rumos que SB! está tomando eu retomo a fic. Eu apenas não estou conseguindo lidar com a situação "Kyoko sendo drogada e arremessada de um prédio", por mais que eu não acredite que seja este o desenrolar da história. Quero dizer, WTF, é de tentativa de homicídio que nós estamos falando, e com requintes de crueldade! A mera imagem dela sendo covardemente drogada e lentamente carregada até a beirada do edifício revirou meu estômago. Sério, nem mesmo o "Dark Kuon" me pareceu tão sanguinário quanto as duas mulheres.

Desabafos à parte, após passar meses ignorando a ideia desta fic, o último capítulo de SB! foi tenebroso o bastante para que esta história pós-apocalíptica voltasse com força total, então cá estou eu, tentando recobrar a motivação para voltar a escrever em "Aprendendo a Voar".