CAPÍTULO 2 – SALVANDO A GAROTA
Eu sempre me surpreendo quando vejo as imponentes ruas da Cidade Central. Nenhum Desterrado por aqui, lógico que não. Até mesmo os membros de guildas somente podem permanecer neste lugar enquanto estiverem desempenhando os ofícios para os quais possuem alvará, do contrário, são "convidados a se retirarem" pelos truculentos fiscais que verificam cada transeunte.
Só que eles não se rebaixam a procurar nos subterrâneos. Não, eles são muito bem pagos para garantir que ninguém abaixo de um membro de Clã tenha acesso à Cidade Central sem prévia autorização de um nobre, mas a fidelidade deles ao trabalho não envolve verificar o que rasteja sob as gloriosas ruas.
Após tanto tempo convivendo com a elite, os trogloditas se esqueceram de onde vieram. Será que percebem que são apenas mais uma mola no intrincado mecanismo que mantém a maioria da população à mercê dos caprichos de uma minoria privilegiada?
E que diabos os nobres fizeram, afinal de contas, para hoje merecerem as regalias das quais usufruem?
Escavadores morrendo quase diariamente, soterrados sob os escombros das ruínas das quais retiram o sustento, e nenhum pronunciamento em pêsames da Cidade Central. Não, os figurões não fazem ideia do preço pago para adornarem suas casas com os objetos que os escavadores encontram e sequer sabem o nome, pois não receberam qualquer educação.
Eu caminho, rastejo e escalo o labirinto que são os dutos subterrâneos. Os sons das criaturas que dividem o espaço comigo não me assustam nem incomodam. Não posso dizer o mesmo dos sons estridentes que se tornam mais altos à medida que eu me aproximo do meu objetivo.
Risadas grosseiras de criaturas inebriadas de si mesmas.
Eu piso em algo, e a sensação repugnante é um alívio do que eu sinto quando me aproximo deles. O cheiro viciado do ambiente pútrido e estagnado pela falta de circulação de ar não fere minhas narinas tanto quanto o cheiro forte das essências que homens e mulheres utilizam para camuflar a podridão de suas almas.
Se é que eles têm uma alma.
A cada segundo esperando a oportunidade certa de sair dos dutos e invadir o palácio de Lory, a cautela me lembra a grande merda que eu estou fazendo. Porque sim, eu tenho um plano de merda. Não tenho dúvidas de que eu conseguirei chegar até Maria, mas depois, o quê? Terei que usar o máximo das minhas habilidades para conseguir sair de lá com ela. Ela não tem a estamina que eu tenho, não está acostumada às condições que eu estou. Fora que eu terei que esconder Maria do mundo, e o único lugar seguro que eu conheço é onde está o meu tesouro. Se qualquer coisa der errado, eu perco tudo: Maria, minhas chances de vingança, minha vida.
Quisera eu pudesse desposa-la. Nem mesmo um Mestre de Clã pode ir contra um enlace matrimonial, mas é claro que os malditos determinaram que qualquer compromisso com um Desterrado não tem qualquer validade. Infelizmente, eu também não conheço um único homem a quem eu possa confiar Maria. Eu sou a única chance que aquela menina tem, e até eu sei que eu não sou grande coisa.
Mas hoje, eu vou ter que bastar.
Fecho os olhos, concentro-me em minha habilidade. Mapeio todo o terreno e vejo com clareza que a segurança está bem mais acirrada que na lua-cheia passada, provavelmente resultado da confluência de tantas figuras ilustres no mesmo lugar. Imóvel, procuro duas pessoas, pois somente duas pessoas me preocupam neste momento: Maria, meu objetivo, e Ruto, meu maior rival. Se eu descobrir onde os dois estão, descubro como agir.
Puta que pariu. Claro que um tinha que estar com o outro. Meu azar filho da puta sabe ser fiel.
Aguardo.
Aguardo mais.
Maria deve ter se cansado, já que eles repentinamente começaram a se mover. A esta altura, eu já tenho todo o mapa do palácio de Lory em minha mente. Não é porque eu fiquei imóvel que eu fiquei à toa.
Ruto trancou a porta do quarto, mas não me importa. Não há fechadura capaz de deter um Rato. Vejo-o se afastar, parece que chegou a hora do grande momento, o brinde de comemoração para coroar o nascimento de um novo Clã. Grande merda. Para o mundo, nada muda.
Saio do duto e contorno as ruas como se tivesse passado a vida inteira nelas. Evito os seguranças como se fossem folhas ao vento, infiltro-me no palácio e sigo direto até Maria, evitando quaisquer olhares com a precisão de um relógio suíço.
Li em uma relíquia chamada Enciclopédia que os relógios suíços eram os melhores da época dos antepassados. Eu me pergunto sobre o gosto do queijo e do chocolate suíços, mas se ele era tão bom quanto o canivete que eu encontrei semana passada, devia ser uma das coisas mais maravilhosas do finado mundo.
Espero encontrar outros volumes da Enciclopédia. Eu já decorei toda a letra S, e tenho quase certeza que Lory tem a letra B.
Retomo a concentração e abro a fechadura do quarto a tempo de evitar um segurança que surgia no fim do corredor, encontrando Maria debaixo de um emaranhado de lençóis.
Mas, espera... que porra de quarto é este? Parece um pesadelo de babados, fitas e pedaços de renda! Ao menos... ela parece dormir tranquila apesar da cor predominante fazer meus olhos doerem. O alívio me invade, mas não dura; só o tempo suficiente para eu me lembrar que, apesar de Maria merecer toda aquela opulência, o preço que ela terá que pagar será alto demais.
Não tenho tempo a perder com delicadezas, nem posso me dar ao luxo dela se sobressaltar e alertar alguém, portanto a acordo com uma mão em sua boca. Como eu esperava, ela desperta assustada, mas logo se tranquiliza ao me identificar. Eu posso senti-la sorrindo sob a minha mão, o que me faz lembrar do meu trajeto até ali e de como eu estou absolutamente imundo.
Mas Maria não se importa e se atira sobre mim, abraçando-me. Esta menina é boa demais para o próprio bem. Se eu pudesse, casaria com ela. Nem pensaria duas vezes.
Maria é meu ponto fraco. E eu percebo isso tarde demais.
"Afaste-se dela. Devagar"
Se eu não reconheço a voz, só pode ser Ruto, e Maria confirma minha suspeita ao pedir a ele que não me machuque. Doce Maria, se soubesse qual é o papel de Ruto para o Clã Takarada não pediria tal coisa.
"Diga ao mar que não sabe nadar e peça a ele que não a afogue". Eu pensei ter pensado, mas as palavras seguintes me garantem que não.
"Ora, o que temos aqui? Um Desterrado culto? E, pelas roupas, um Escavador! Interessante, muito interessante!"
Agora fodeu. Eu estou de costas não só para Ruto, mas para Lory também. Erro de amador: não só me desconcentrei das ameaças, como fiquei de costas para a porta e, entre nós e a única saída, dois oponentes.
Maria continua agarrada à minha cintura e pedindo aos dois para me deixarem em paz enquanto eu me viro lentamente para eles e constato não quatro, mas oito olhos em mim. Merda, merda, merda! Eu conseguiria escapar de Ruto e Lory, mas sem chances de conseguir passar por Yashiro e... por que caralho o Monstro não está na própria comemoração?
Agora eu percebo o tamanho da minha estupidez. Por mais habilidoso que eu seja em escapar de arapucas, não há como sair daqui sem lutar, mas qualquer comoção que se inicie no quarto atrairá uma multidão da qual eu não terei escapatória.
Os cálculos são rápidos em minha cabeça. Quais as probabilidades de pouparem Maria do banho de sangue que está por vir? Eles vão usa-la? Eu devo usa-la? É vantajoso mantê-la junto de mim, ou ela é descartável para eles diante da urgência de se livrarem de um invasor?
A tensão no quarto é opressiva e até Maria consegue senti-la, se a força com a qual ela me abraça é algum indício. Um par de olhos em particular me deixa desconfortável. Parece que a perspectiva de um massacre acordou o instinto assassino do Monstro Tsuruga.
"Você é surdo, garoto? Afaste-se de Maria, e bem devagar!"
Se a Morte tem uma voz, é a voz de Ren.
"Por favor, Ren, não machuque o Rato! Ele é meu amigo!"
Ah, Maria! Não há mesmo lugar neste mundo para a sua doçura.
Lory apenas nos observava, mas finalmente decidiu intervir para garantir a Maria que ela poderia me soltar, já que nenhum mal seria feito contra mim. Claro que eu sei que é uma promessa vazia.
Ela me solta, e eu a deixo ir. Não há motivos para permitir que uma criança presencie o que está prestes a acontecer. Sem tentar protege-la, Kyoko usufruiu de catorze anos de inocência; tentando proteger Maria, não permitirei que ela usufrua de menos que isto.
Por um segundo eu comemoro o fato de que Ruto se distancia com a menina. Talvez, tendo apenas os três com os quais me preocupar...
"Você causou uma comoção e tanto na lua-cheia passada. Foi a primeira vez que Ruto falhou em localizar um invasor!"
Oh, entendo. Então eles estavam preparados para a minha vinda.
"Só que nós imaginamos que você viria atrás de Ren! Quem poderia imaginar que o invasor estava atrás de Maria?"
Lory parecia terrivelmente satisfeito consigo mesmo, matraqueando algo sobre amores shakespearianos. Eu estava concentrado demais procurando uma saída daquela situação para me dar conta que o corrigia em voz alta.
Romeu e Julieta. O romance impossível estava em Romeu e Julieta, não em Othelo.
O sorriso satisfeito de Lory apenas confirma o que eu suspeitei um segundo tarde demais: ele estava apenas me testando.
"Rato... este é o seu nome?"
"47"
"47 não é um nome, é um número. Seu número de Escavador, não? E por falar nisso, o que você faz tão longe de uma ruína com esta roupa antirradiação? Veio ver Maria em tais trajes, coberto dos pés à cabeça? Como chegou aqui, rastejando pelo subterrâneo? É por isso que lhe chamam de Rato?"
O inferno que eu vou responder. Prefiro arrancar minha própria língua a dentadas antes de informar o que quer que seja a qualquer Mestre de Clã.
"Garoto... quantos anos você tem? Quinze, dezesseis? O que sabe da vida? O que pode dar a Maria? Com qual propósito você a procurou nesta noite?"
"Garoto, é melhor você responder as perguntas educadas do Mestre Lory. Não queira que as informações sejam extraídas por mim"
É a primeira que eu ouço a voz de Yashiro, e apesar dela me soar amigável, tanto a fama que ele tem quanto as mãos enluvadas me dizem que eu não tenho muito tempo. Qualquer que seja o desfecho da noite, ele acontecerá em breve.
O que você pode dar a Maria? Este quarto ridículo? Uma gaiola! Belas roupas? Pretexto para tira-las! Lazer e tranquilidade? Deixá-la dócil! Mestres imundos, sorrateiros e pervertidos, vocês são o mal que o planeta falhou em erradicar! Falam em salvar a humanidade, mas se aprazem com a própria bestialidade! Tudo que você pode oferecer a Maria é uma vida de ilusão!
Infelizmente, eu não pensei antes de falar. Maldita boca impulsiva.
"Hmmm. Você sabe algumas palavras difíceis, guri. Sem dúvidas sabe ler. E mais de um idioma, eu diria, o que é ainda mais surpreendente! Então, eu tenho certeza que você compreenderá as minhas palavras agora: quem é você para criticar a ilusão que eu ofereço? Ora, você não é muito melhor do que eu, é? Vive no submundo, arrastando-se por túneis, mas sua mente é bem maior do que isso, não? Aposto como está sempre usando esta roupa, quando foi a última vez que alguém viu o seu rosto? E os nomes que usa? Rato, 47, não são também ilusões? E quanto a amigos, parentes, você tem algum? Alguma relação verdadeira que não seja o engodo que você oferece a Maria? Ela sequer sabe quem você é? Como você pode protege-la lá fora, se mal consegue proteger a si mesmo? Ou você não sabe que garotos pequenos e magros, andando sozinhos por túneis e becos, são alvos fáceis para estupradores? Quanto tempo mais você acha que conseguirá escapar de ser emboscado, despido e posto de joelhos? E quanto tempo até a farsa acabar e eles a colocarem de barriga para cima?"
Ah... merda!
"É um palpite ousado, mas... você é Kyoko, não é?"
N/A – Eu estou usando várias referências de Skip Beat, mas não sei se elas estão ficando claras: a roupa que "Rato" usa é um macacão com capacete, uma mistura do macacão Love Me com a fantasia de Bo, mas de um jeito dark. Yashiro usa luvas, mas por outro motivo. Ruto e suas habilidades de assassino, Ren e seu lado sanguinário (Kuon). O rosa da maldição Love Me no quarto destinado a Maria. Lory e seus devaneios sobre amores impossíveis. Enfim, eu tentei pegar elementos da história original e adapta-los para um mundo grotesco. Mais adaptações por vir.
No próximo capítulo, mais algumas revelações e um pouco do ponto de vista de Ren.
Oh, sim. Claro que eu não podia deixar Kyoko de fora da história, não é? XD
