CAPÍTULO 3 – O FANTASMA MATERIALIZADO

Quando Lory me convocou para dizer que eu provavelmente sofreria um atentado quando fosse elevado à condição de Mestre de Clã, eu achei uma piada de mau gosto. Lory e seus dramas.

Lógico que me querem morto, disto eu sempre soube e não foi o que me surpreendeu. Mas a mera possibilidade de haver alguém neste mundo capaz de despistar Ruto me soou absolutamente ridículo e por um instante eu pensei que Lory havia finalmente enlouquecido.

Até o próprio Ruto me confirmar. Lory é dado a jogos e a exageros, mas Ruto não brinca em serviço. Raios, ele simplesmente não brinca. Nunca.

Quem quer que fosse, tinha habilidades furtivas fora do comum. Como um Excepcional conseguiu escapar do radar do Conselho é um absoluto mistério e deixou a todos preocupados. Se não detectamos um, quantos mais há por aí com talentos desconhecidos? Estão organizados? Representam uma ameaça?

Pergunta estúpida. Claro que representam uma ameaça. Tudo é uma ameaça.

Decidimos agir com cautela, permitir que agissem primeiro. Estávamos confiantes de que não se tratava de uma única pessoa, afinal, neste mundo ninguém tem colhões para agir sozinho. E esta foi a única certeza que se confirmou, porque ela certamente não tem colhões.

Eu observei atentamente o Escavador diante de mim, mas nada nele me dizia que se tratava de uma mulher. Havia algo inquietante na aparência dele, e eu deduzi que fosse o fato de estar com a cabeça coberta.

Eu sou muito bom em desvendar as pessoas, mas para tanto eu preciso das expressões faciais e da linguagem corporal. Tudo que eu via no suposto moleque diante de mim era uma compleição pequena e arredia. Um típico animal encurralado se apegando aos instintos básicos de luta ou fuga. Maria agarrada a ele me dizia que se conheciam, mas tal constatação não me tranquilizou: pessoas apavoradas cometem atrocidades se imaginam que conseguirão extrair algum proveito próprio.

Ao menos ele deixou Maria ir, o que facilitava em muito o meu trabalho. A decisão de mata-lo antes ou depois de fazê-lo falar só dependia de Lory, já que a cortesia não me permitiria ignorar a vontade do meu anfitrião. Etiqueta mórbida de um mundo insano.

Outra surpresa da noite foi o refinamento do invasor. Havia um inegável ódio no pouco que ele dizia, mas quem não tem ódio hoje em dia? Contudo, o nível de educação que ele revelava talvez rivalizasse com o de um Mestre de Clã, criado para assumir um papel de comando na sociedade. Quando eu começo a cogitar a possibilidade de a roupa de Escavador ser um mero disfarce de um assassino de algum rival, provavelmente herdeiro de Clã, Lory faz a dedução mais bizarra de todas sob a forma de uma pergunta.

"É um palpite ousado, mas... você é Kyoko, não é?"

Kyoko. Kyoko. Kyoko. O nome pulsa nos meus ouvidos, trazendo-me recordações indesejadas do único caso que eu não solucionei na minha trajetória como juiz.

Eu era pouco mais que um novato à época, enviado para o território Fuwa para investigar e aplicar a justiça contra o culpado. Cada território tem um juiz, mas a lei determina que um juiz não pode atuar no próprio território, maneira de tentar impedir que a justiça esteja a serviço de conflitos de interesses.

Uma grande bobagem. O que mais acontece entre os Clãs é a troca de favores.

O simples fato de solicitarem o juiz mais inexperiente para um dos casos mais polêmicos da época já me dizia que a intenção dos Fuwa era acobertar alguma merda. Os sorrisos falsos que me deram enquanto afirmavam que era uma honra para eles que o herdeiro Hizuri estivesse investigando o caso ainda estão frescos na minha memória, assim como os arranhões no rosto de Sho, que eles disseram terem sido provocados por uma queda.

"Minhas pernas são longas, às vezes eu me atrapalho com elas. Sabe como é..."

Ele sequer se deu ao trabalho de tentar esconder o sarcasmo. Ali eu já sabia que Kyoko estava morta. O chamado era para investigar o desaparecimento dela no meio da madrugada, o que por si só já representa grandes chances da pessoa não ser encontrada viva, mas antes de ver Sho e todo o circo que os Fuwa armaram, eu ainda preservava uma centelha de esperança.

O pior sobre o trabalho de um juiz é sempre atuar após o crime ter sido cometido. Eu apenas lidava com retalhos, de histórias e de pessoas, e após montar o macabro quebra-cabeça eu conseguia visualizar toda a sucessão de terríveis eventos. Até o Caso Kyoko eu conservei o estúpido desejo de, só para variar, conseguir salvar alguém. Depois do Caso Kyoko, eu apenas torcia que no caso seguinte eu pudesse colocar minhas mãos no verdadeiro culpado.

Durante as investigações, os relatos que ouvi sobre ela das pessoas que a conheciam me intrigavam. Contavam que ela gostava de caminhar a esmo pelo território Fuwa, de procurar refúgio em qualquer canto em que a Natureza se manifestasse; costumava se perder em pensamentos e pensar em voz alta. Era diligente com todas as tarefas e nunca reclamava. Diziam não haver comida melhor, e todos pareciam realmente preocupados e pesarosos, quando não por afeição, pelo inconveniente de perderem uma peça importante na dinâmica cotidiana. Com exceção, é claro, dos Fuwa, os últimos que eu interroguei.

Se (por um milagre) eu a encontrasse viva, eu não sairia do território Fuwa sem leva-la comigo. Pagaria cem vezes o valor que eles deram aos pais dela se fosse preciso. Eu era jovem, tolo, emotivo a este ponto.

O Caso Kyoko me transformou de muitas maneiras.

Não precisei de mais do que dois dias para seguir o rastro muito bem montado até os Desterrados que viviam do lado de fora das muralhas do território Fuwa. Direto para a residência de um homem decrépito que mecanicamente narrou como a encontrou caminhando à beira do rio, aparentemente perdida, e como a estuprou antes de esfaqueá-la. Após garantir que ela estava morta, colocou-a no barco, remou para longe da margem e despejou-a na sepultura aquática.

Ainda havia o rastro de sangue na beira do rio e a enorme mancha vermelha na improvisada embarcação que confirmavam uma enorme perda de sangue, mas ainda que não houvesse rastro algum, eu não precisava ouvir muito mais para ter a confirmação de que Kyoko era mais uma vítima do sistema podre em que vivemos. Certamente estuprada por Sho, tornou-se um estorvo para os Fuwa no instante em que ela comprovava a ocorrência de um dos maiores delitos da sociedade.

A humanidade está lutando para sobreviver, e em tal luta as mulheres são recursos preciosos. Muito mais que os homens, na verdade. Não existe perpetuação da espécie sem um macho e uma fêmea, mas bastam poucos machos para que a raça persista. Fêmeas, contudo, precisam ser numerosas, já que dão à luz apenas uma vez a cada quase dois anos. Isto, em condições favoráveis. Atualmente as concepções são escassas, o que torna as "portadoras de útero" mais importantes ainda.

Foi com esta preocupação que duas leis foram criadas: não se toca em uma jovem enquanto ela não completar 16 anos, regra necessária para dar a elas um mínimo desenvolvimento antes que homens afoitos a tomem como procriadoras, e não se trata uma mulher com brutalidade, já que isto poderia pôr em risco a integridade de seus preciosos órgãos internos.

Certamente Sho descumpriu ambas, o que significava problemas ao Clã Fuwa. Se eu encontrasse uma única prova irrefutável do que ele havia feito, poderia arrancar o coração dele com uma colher e ninguém poderia me impedir, nem mesmo os Fuwa, e eles sabiam disso. Tanto, que solucionaram a questão sacrificando Kyoko e forçando um Desterrado a assumir a culpa. Fizeram-no admitir também o estupro porque, por mais improvável que fosse com a vida marinha que temos, seria constrangedor se o corpo emergisse e constatassem que ela foi violentada sem o bode expiatório ter assumido a autoria.

Solicitaram o juiz inexperiente para conduzir o caso, imaginando que eu ficaria feliz por soluciona-lo rapidamente e colher os louros. Fizeram-me participar da trama sórdida da qual escaparam ilesos, e também por isso eu não os perdoarei jamais.

Por mais que eu soubesse da farsa e o Desterrado soubesse que eu sabia, ele me pediu para morrer. Disse que se eu não o matasse, não só ele acabaria morto de qualquer forma como ainda haveria severas retaliações contra os demais Desterrados. Comigo ele tinha alguma esperança de uma morte rápida.

Mais um crime para eu colocar na conta dos Fuwa: fizeram de mim um assassino deles.

O caso Kyoko me atormenta até hoje. Foi a primeira vez que eu constatei que não seria como um juiz que eu levaria alguma justiça a este mundo fodido. Não, eu precisava de outro plano. Assim, comecei minha trajetória para me tornar Mestre de Clã.

É uma poética ironia que, no exato dia em que eu conquisto a posição que jurei assumir quando vi os rastros ensanguentados de Kyoko seis anos atrás, o fantasma dela finalmente saia da minha mente para se materializar diante de mim.

Como? O que eu deixei de ver?

Eu relembro freneticamente todos os detalhes dos dois dias de investigação, procurando a brecha através da qual eu não olhei. Até que... Caralho! O rio! Todo rio tem duas margens! Como eu pude ter sido tão estúpido?

Não é de se estranhar que o Desterrado nada tenha me dito. Como pedir a um Escavador para confiar em um juiz?

Claro, na época eu não era paranoico como sou hoje. Se o caso tivesse acontecido ontem, o que eu faria? Não me contentaria com a ausência de um corpo, menos ainda com uma confissão forjada. Não aceitaria tão facilmente que ela só poderia estar morta, já que é assim que as coisas são neste mundo miserável. Não, eu iria até a outra margem, interrogaria todos que encontrasse por lá. Buscaria em uma choupana caindo aos pedaços pelo corpo maltratado de Kyoko, envolto por curativos improvisados, e a encontraria lutando pela vida mesmo três dias depois do ataque.

Este mundo pertence aos fortes. Os fracos sequer chegam a nascer. Por isso a humanidade está morrendo.

###

"É um palpite ousado, mas... você é Kyoko, não é?"

Como? Como? Como?

Há seis anos não me chamam assim. Como é possível que alguém se lembre de mim? Como ele pode ter concluído quem eu era? O que me denunciou?

Eu sinto o pânico afiar suas garras em todo o meu corpo. Não há tempo para buscar respostas, eu preciso agir! Eu preciso aproveitar as expressões apalermadas de Yashiro e Ren e a ausência de Ruto para fugir daqui!

Uma boa coisa do pânico é que ele me deixa mais forte. Eu nem preciso me esforçar para as pequenas, porém numerosas criaturas negras surgirem à minha volta. A explosão invisível arremessa meus três oponentes para longe e derruba a porta do quarto. Eu preciso aproveitar a chance, é agora ou nunca. Não tenho tempo para comemorar as expressões atônitas dos meus inimigos, presos por uma força invisível e impotentes diante da minha desabalada fuga.

Há sons de passos e gritos por toda parte, mas não são com as pessoas barulhentas que eu me preocupo, e sim com as silenciosas. "Triviais" não me assustam, mas "Excepcionais" me preocupam para caralho. Já gastei muita energia hoje, energia de todo o tipo, e sinto com clareza que não consegui conter a assombrosa força física de Ren por muito tempo. Não preciso sequer olhar para trás; não, quando eu sei que eu somente confirmaria que ele está em meu encalço.

Ele é rápido para o tamanho dele. Raios, ele é rápido para qualquer tamanho. Sem dúvidas a agilidade é outro traço excepcional que ele tem. Sem dúvidas, um predador.

Este mundo tenta matar todos nós a cada segundo. Não é à toa que os sobreviventes sejam aterrorizantes máquinas de matar perfeitamente selecionadas.

Darwin ficaria satisfeito. Mas por que inferno eu devaneio até em um momento como este? Concentre-se, diabos!

Ele pode conseguir compensar o tamanho com a agilidade, mas tamanho é tamanho. A menos que ele tenha também a habilidade de se encolher para metade do que é, não tem como ele me seguir no túnel dentro do qual estou prestes a mergulhar com a destreza de um Escavador experiente.

Sorrio. Bando de trouxas, escapar de vocês é quase tão bom quanto meu objetivo original de levar Maria comigo!

Uma coisa de cada vez: escapo hoje para voltar amanhã com um plano melhor. Bem, ao menos com um plano!

Ren grita algo. Algo que soa preocupantemente como "Ruto, não!" antes do meu corpo ficar mole e tudo ficar preto.

N/A – Eu nem sei o que dizer sobre este capítulo. A coisa toda está se escrevendo sozinha, eu juro! XD

Algumas fics têm vida própria, o que é assustador. E emocionante!

Beijos e obrigada por me acompanharem!